A representação feminina em Chronos: Viajantes do Tempo

Este texto não contém spoilers do livro.

Aqui no Collant, nós já fizemos uma lista de garotas que tiveram que viajar no tempo, mas isso não significa que elas são a maioria nesse tipo de história. O papel heroico, ainda mais na ficção científica, muitas vezes acaba ficando com o personagem masculino. Em Chronos: Viajantes do Tempo, a pessoa destinada a salvar o mundo é Kate, uma garota adolescente.

Primeiro, é legal pensar na questão da mulher ser a escolhida para um papel importante. Nós já estamos cansados de ver histórias de escolhidos homens, de como o tal protagonista nasceu para realizar a função que salvará todos, mas quantas vezes esses espaços são ocupados por mulheres? O escolhido sempre é o cara que se encaixa dentro do padrão.

Kate tem um dom muito grande para usar a chave Chronos, que permite as viagens no tempo, deixando todos ao seu redor impressionados com a sua capacidade. Assim que ela se vê nessa situação, Kate começa a procurar todas as informações possíveis que possam ajudá-la a enfrentar esses novos problemas que estão aparecendo. Ela não é passiva ao que acontece ao seu redor, por mais que seja difícil entender todos os problemas de primeira.

Além disso, ela não é a única mulher no meio de vários homens. A sua avó, Katherine (sim, elas têm o mesmo nome), é a grande mentora da protagonista. É comum que, em histórias com algum fator de escolhido com uma aventura épica, exista aquela figura de mestre que vai guiar o caminho do herói. Esse também é um papel que geralmente fica com um personagem masculino mais velho e sábio, mas, nesse caso, a mentora de Kate é a sua própria avó, uma figura feminina. Ela é uma mulher que entende tudo sobre como as viagens no tempo funcionam, é inteligente e fez inúmeras coisas para se manter segura, por mais difíceis que elas fossem. Agora, ela sabe que não pode mais tomar a frente dessa luta, por isso passa o seu conhecimento para Kate.

A relação das duas é uma das partes mais interessantes da história. Ao invés de Kate apenas aceitar o que é passado para ela, a adolescente começa a ter dúvidas e até a discordar de algumas decisões que sua avó tomou, mostrando que ela não é uma personagem sem personalidade. Esse aspecto de “desafiar o mestre” é interessante nesse tipo de dinâmica. Kate não é obediente o tempo todo e usa o conhecimento que recebe de Katherine para resolver as coisas da sua maneira. O fato de estarmos sempre na cabeça de Kate, até por causa da narrativa em primeira pessoa, nos ajuda a entender o que ela está pensando e as suas motivações.

Porém, em alguns momentos, a história acaba fazendo sua protagonista cair em clichês. Kate é uma adolescente e, infelizmente, alguma parte do livro é dedicada a falar sobre interesses românticos e meninos que ela acha interessante. O fato dela se importar com isso não é um problema, mas o jeito que isso é tratado na história acaba ficando clichê. Em alguns momentos, Kate é salva por esses possíveis interesses românticos, até em situações que poderiam ser tratadas de outra forma, ou ela poderia ter ajuda de uma figura que não necessariamente fosse um possível romance ou até mesmo não fosse uma figura masculina. Também há momentos em que o clima romântico parece forçado e acelerado, como se a autora acreditasse que a protagonista precisasse muito desses elementos para ser interessante, mas é exatamente isso que, para mim, acaba sendo uma falha na construção da protagonista.

Por mais que essas relações sejam importantes para Kate, como provavelmente seriam para qualquer adolescente em seu lugar, a aventura de salvar seus pais e consertar a linha do tempo é mais importante do que alguns clichês secundários. Kate tem bastante espaço para mostrar sua personalidade e a história dá oportunidades para a protagonista ir crescendo nessa primeira parte da trilogia.

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