Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Thor: Ragnarok | Crítica

Havia uma boa expectativa para esse novo Thor. Taika Waititi é um bom diretor, os trailers estavam agradando aos fãs, o filme parecia que ia abraçar a comédia e, até certo ponto, o brega. Independente de gosto pessoal, é uma fórmula que boa parte dos fãs da Marvel tem gostado cada vez mais.

Thor está tentando impedir o Ragnarok. Depois que descobre que Loki está no lugar de Odin, ele e o irmão vão até a Terra buscar o pai. O problema é que Hela, a deusa da morte e filha mais velha de Odin, aparece. Agora Thor e Loki terão que impedí-la de tomar Asgard e destruir todo o seu povo. Essa crítica não tem spoilers.

O tema que as pessoas mais tem falado é o quão engraçado o filme é. Todo mundo sabe que a Marvel sempre puxa o humor, além de que todo mundo já deveria saber que piadas e humor não faz um filme bom ou ruim. No caso de Thor, especificamente, o humor sempre ajudou. O segundo filme é o que puxou mais para o lado do sério e também o que menos funcionou. Um dos grandes acertos de Thor: Ragnarok é abraçar esse aspecto de não se levar a sério demais.

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Mãe! | Crítica

Mãe! é um filme que tem dado o que falar nos últimos tempos. Aparentemente, é impossível sair do cinema sem uma opinião forte, você ama ou odeia. Antes de chegar na minha opinião pessoal, vou procurar fazer a crítica mais objetiva possível. Por enquanto, não vou falar de nenhum spoiler.

De fato é complicado falar sobre o que o filme é sem estragar a experiência, mas basicamente: Jennifer Lawrence, a mãe, (os personagens não têm nome, então vou usar o dos atores algumas vezes) mora nessa casa, no meio do nada, junto com seu marido, Javier Bardem, um poeta que está há algum tempo sem conseguir escrever. Mãe está reconstruindo a casa, que foi queimada e fez o marido perder tudo. Eles aparentemente vivem bem, até que Ed Harris, que é médico, chega na casa e é convidado a ficar lá pelo poeta. Mãe não fica feliz, e as coisas pioram quando a esposa do médico, Michelle Pfeiffer, também chega na casa.

Assim como a mãe, nós estamos perdidos nos inúmeros acontecimentos que vão acontecer ali. A câmera sempre acompanha Jennifer Lawrence, às vezes parado em seu rosto, outras vezes mostrando o que ela está vendo. Um dos grandes pontos positivos do filme é a atuação de Jennifer Lawrence, que coloca a emoção necessária em cada cena, dando movimento inclusive para momentos que são mais longos do que precisariam ser. As atuações como um todo se destacam, por mais que em boa parte do filme você não entenda porque os personagens agem de determinada forma, a atuação é o que faz o passo do filme não se perder.

Por outro lado, os personagens não tem profundidade. Sim, eu sei que há todo um significado por trás da história do filme e da identidade daqueles que estamos vendo, mas em termos de arco do personagem, a maioria deles termina no mesmo ponto em que começaram. Eles não passam de peças para o significado final da obra, o que até funciona, porém não vai além, não vemos mudanças e quando elas parecem que vão acontecer, principalmente com a protagonista, a personagem apenas volta para o ponto de seu arco que estava no começo.

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RESENHA: O MÍNIMO PARA VIVER

Desde que o trailer d’ O mínimo para viver começou a ser divulgado pela Netflix, as redes sociais, principalmente o Facebook, ficaram polvorosas por um certo receio de que o filme abordasse de maneira superficial e problemática uma doença tão grave, no caso a anorexia, de forma leviana, como a depressão e o suicídio foram tratados em 13 reasons why. Todavia, o filme nada tem a ver com o seriado, pois não se trata de uma produção original de um dos maiores serviços de streaming de vídeos. O mínimo para viver, escrito e dirigido por Marti Noxon, foi lançado em janeiro de 2017 no Festival de Sundance, concorrendo a categoria de “filmes dramáticos americanos”, e só depois teve seus direitos comprados pela Netflix.

O roteiro foi baseado na própria luta contra transtornos alimentares que Noxon sofreu durante uma fase de sua vida. Além disso, a protagonista da obra é interpretada pela atriz Lily Collins, que também enfrentou a anorexia. Logo, de forma bastante pré-concebida, pode-se pensar que todos os erros que são apontados em 13 reasons não irão aparecer no filme, já que, aparentemente, o assunto está sendo tratado e interpretado por pessoas que conviveram com a doença. De fato, é isso que ocorre, pois já ao iniciar o filme, você se depara com um aviso explicitando que as imagens ali representadas podem ser nocivas dado a exatidão de como elas são apresentadas. Desse modo, se você não possui uma boa convivência com sua imagem corporal, o melhor a se fazer é não assisti-lo, ou não vê-lo desacompanhado.

Apesar de ser intenso e cruel, o enredo não peca ao exagerar na representação da doença e nem em torna-la algo agradável. A trama gira em torno de Ellen, uma garota de 20 anos que sofre de anorexia. Ela tenta, por meio de vários tratamentos, buscar uma cura, mas sem sucesso, o que desencadeia a ação do filme, pois a personagem irá se deparar com um problema: voltando para casa, Ellen terá de engordar ou ir embora viver com a mãe. Só que a vida com a família de seu pai, que não aparece no filme e nem nome tem, não é fácil. A madrasta, Susan, interpretada por Carrie Preston, busca a melhora da enteada apenas para se livrar de um estorvo – como Ellen chega a dizer em um dado momento, ela não é mais uma pessoa, mas sim um problema. É possível notar que Susan tem um certo desprezo pela figura de Ellen, chegando até a fazer analogias estapafúrdias sobre o porquê da garota não se alimentar. Até uma parte do enredo, temos a sensação de que a única pessoa que realmente espera a melhora da protagonista, de forma não egoísta, é sua meia-irmã, Kelly, encenada por Liana Liberato.

Como última tentativa de (sobre)viver, Ellen aceita um tratamento, digamos, um pouco excêntrico, com o médico William Beckman, papel de Keanu Reeves. Na clínica de reabilitação, a protagonista encontra outros pacientes, cada qual com uma história distinta: Luke, Megan, Anna, Tracy e Pearl, interpretados, respectivamente, por Alex Sharp, Leslie Bibb, Kathryn Prescott, Ciara Quinn Bravo e Maya Eshet.

O filme peca ao colocar um envolvimento amoroso entre Ellen e Luke, chegando a ser bastante problemática a forma como Luke vê a protagonista: para ele, ela é o único motivo para melhorar, deixando-a desconfortável com esse novo “peso” em suas costas, afinal, não há mais só a preocupação em não desapontar os familiares e tentar se curar, mas também em ser responsável pela melhora de outro. Tirando esse detalhe, a história é muito boa e muito bem trabalhada.

Por último, vale aqui uma ressalva para o título brasileiro do filme: o mínimo para viver. Em muitos casos, transtornos alimentares podem durar anos por causa de um ciclo que se constitui em restrição alimentar e processos compulsivos, gerando o mínimo considerado para sobreviver, o que dificulta ainda mais o tratamento do paciente, por esse acreditar que está no controle da situação.

E OS GATILHOS?

Falando agora de forma mais pessoal, desde que eu vi o trailer, soube que seria difícil ter coragem para assisti-lo, pois sofro com transtornos alimentares. Confesso que assim como algumas pessoas, cheguei a pensar que fosse errada a ideia de um filme que mostrasse com tamanha realidade o que uma pessoa com algum distúrbio envolvendo imagem corporal e alimentação passa. Todavia, esse é um assunto que precisa ser discutido urgentemente.

Em uma entrevista recente, Lily Collins chegou a comentar a preocupação de sua mãe com o novo processo de emagrecimento pelo qual a atriz estava passando, mas, dessa vez, para interpretar a personagem. Ela ainda disse que, um dia, saindo de casa, foi parada por uma pessoa que a elogiou por ter emagrecido. A atriz ainda tentou explicar que havia feito aquilo por causa do filme, mas recebeu como resposta “não, eu quero saber o que você está fazendo, pois está ótima!”, o que só confirmou a necessidade de uma discussão mais profunda acerca do assunto.

Por fim, procurando uma visão de um psicólogo sobre a forma como a doença é trabalhada no enredo, encontrei uma crítica da psicóloga Cecília Dassi, que explicita de modo bastante lúcido o que ela pensa sobre o assunto:

 

“[…] de modo geral, ele [o filme] retrata de uma forma legal, produtiva e correta a imagem dos transtornos alimentares, mas eu acho ele muito forte, acho que é um filme intenso que é muito bom para quem não entende nada sobre transtornos alimentares para poderem compreender que não é uma palhaçada […]”.

 

 

Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Quando a nova franquia do Homem-Aranha foi anunciada eu fui uma das primeiras a torcer o nariz: o tão aguardado primeiro filme de super-heroína da Marvel, Capitã Marvel, estava sendo adiado para dar espaço para a TERCEIRA franquia do Homem Aranha em menos de 17 anos. Eu adoro o personagem, mas num mundo dominado por protagonistas masculinos, eu estava mais do que tranquila em não ver a cara do aracnídeo nos próximos anos. Apesar de eu manter a minha indignação pelo adiamento de Capitã Marvel, Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme que consegue acertar em muitos detalhes – inclusive nos maiores erros do Universo Marvel.

A escalação de Tom Holland como Peter Parker foi talvez um dos grandes acertos do filme, o jovem ator não tem só uma atuação convincente, mas a sua postura corporal também ajuda a vender que aquele moleque pode sim ser um super-herói. Seja o Peter de roupa civil, seja o Peter de Homem-Aranha, Holland consegue entregar com desenvoltura não só as acrobacias mas as nuances dos dramas internos do personagem. O elenco todo, aliás, está cheio de grandes atores e comediantes, mesmo em papéis menores. Donald Glover faz uma participação pequena, mas que promete render bastante no futuro e no desenvolvimento do legado do lançador de teias. 

Muitas pessoas estavam preocupadas com o quão importante o Homem de Ferro seria para a formação de Peter como um super-herói. Por mais que o filme não discuta abertamente o que aconteceu com Tio Ben, eu realmente não acho que dá para dizer que Stark é a razão pela qual Peter se tornou um super-herói. Ele é sim influente na vida do adolescente, e isso além de fazer sentido para o personagem (um garoto fica “amigo” de um dos maiores super-heróis do mundo, óbvio que é “big deal”), também faz sentido para o Universo Cinematográfico da Marvel. Nesse universo os Vingadores já aparecem pela televisão há, pelo menos, sete anos. Seria incoerente fazer um personagem novo que não é influenciado pelos heróis, isso deixaria o filme com o ar de “faz mas não faz parte” que as séries do Netflix e ABC possuem. 

É difícil ver um elenco, mesmo que de coadjuvantes, que tenha tanta diversidade de etnias. Essa adaptação dos personagens para um elenco mais inclusivo permite ao filme entregar papéis que normalmente ficam concentrados em atores e atrizes brancos para atores não-brancos, e pode parecer bobeira para algumas pessoas, mas quantas vezes você viu uma garota negra como interesse romântico do garoto protagonista do filme adolescente? Quantas vezes atores de origem latina puderam assumir um personagem riquinho e convencido em um filme adolescente? Ah, sim. Tony Revolori é latino, não de ascendência Indiana como muitos acham por causa do seu papel em O Grande Hotel Budapeste. Obviamente nada disso é o suficiente pra gente bater palmas e falar “TA RESOLVIDO”, mas é encorajador ver que existiu de fato um empenho da produção em trazer para a tela uma visão de colegial que reflita melhor o que realmente seria uma escola secundária no Queens, em Nova Iorque. 

O filme bebe bastante dos clássicos dos anos 80, mas parece ter se esquecido de atualizar alguns dos principais erros desses clássicos. Infelizmente, apesar de eu adorar Michelle e todas as possibilidades que o filme abriu para ela e para Liz, Homem-Aranha: De Volta ao Lar não passa nem no teste Bechdel. Nenhuma das personagens conversa entre si durante o filme, ou seja, ele falha já no segundo quesito do teste. Tia May, uma personagem que podia trazer tantos elementos interessantes para uma franquia renovada e mais atual, acaba relegada ao papel de “mãe sexy”, e não no sentido mais positivo do termo. Se você já assistiu ao filme, pode ver o meu outro texto, com spoilers, sobre as personagens femininas do filme. 

Um do pontos fortes do filme é exatamente no arco de Peter. Aqui, Peter está constantemente desafiando o conceito de que ele é só um garoto – ele é mais, ele é o Homem-Aranha, ele é um Vingador. O tipo de ilusão de maturidade que todo adolescente tem, mas que é levado às últimas consequências quando esse adolescente tem o poder de parar um ônibus com as mãos. O conflito interno de Peter não é sobre a dor de ter perdido Tio Ben ou sobre a responsabilidade que ele sente por isso, é sobre ser ou não um adolescente, quando ele mesmo acredita que ele precisa e é mais, mesmo com o mundo dizendo que ele pode ser “só” um adolescente. 

Talvez o maior acerto do filme, em comparação com os outros filmes da Marvel, foi a construção do seu vilão. Abutre (interpretado por Michael Keaton, aka Batman, aka Birdman e a Insustentável leveza de dormir no cinema) passa por um processo de desenvolvimento que pouco se vê hoje em dia nos filmes da Marvel – talvez seja possível compará-lo com Ego, em Guardiões da Galáxia 2. O modo como a história de Peter se descobrindo como herói e como adolescente se cruza com a megalomania de Abutre é interessante, e lança um paralelo entre até onde você pode ir sob o pretexto de responsabilidade, e quando você deve aceitar que as coisas as vezes só são como são. 

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme feito para um público jovem, um público que talvez se sentisse alienado com a quantidade de super-heróis que ocupam as telonas hoje em dia. Então sim, talvez você ache que o filme é um pouco infantil, mas isso em nada tira o mérito dele, muito pelo contrário. Em uma era de super-heróis que sofrem e que não tem esperança na humanidade, ver um filme tão redondinho como este chegar aos cinemas e, principalmente, alcançar uma geração que vai crescendo dentro de uma onda de conservadorismo, é esperançoso. Isso tudo não quer dizer que nós, que já não nos encaixamos tanto no padrão “jovem”, não vamos nos divertir. Homem-Aranha: De Volta ao Lar tem espaço para todos os públicos, inclusive para os aficcionados por referências que vão encontrar várias espalhadas pelo filme. 

Crítica | Mulher-Maravilha: Dentre Todos os Super-heróis, a Melhor.

Histórias de super-heróis caminham numa linha tênue entre o autoritarismo e o altruísmo. Os últimos filmes da DC nos cinemas por diversas vezes cruzam a linha para o lado do autoritarismo, sem prover, em profundidade, uma discussão sobre esse aspecto dos Super-heróis. Mas esses super-seres não foram criados para representarem um poder extremo e inalcançável, eles foram criados para serem símbolos de esperança, liberdade e empatia. E é exatamente por conseguir equilibrar esses três elementos, e também a discussão sobre autoritarismo, que Mulher-Maravilha sopra um fôlego novo nos filmes de super-heróis.

Uma das minhas maiores preocupações ao entrar na sala de cinema era como o filme retrataria a guerra. Diferente da Segunda, a Primeira Guerra Mundial tinha lados muito mais embaçados, sem um dos lados representar o mau absoluto, como o nazismo. Ela aconteceu por diversas razões, em diferentes territórios e por diferentes interesses políticos também. O filme consegue manter um certo equilíbrio nessa questão na maneira como questiona – e representa – os oficiais ingleses à quem Steve Trevor serve. Diana bate de frente com eles, demonstrando como o poder e a guerra estão diretamente ligados ao poder burocrático, que joga com a vida de soldados e civis de acordo com os seus interesses.

Diana representa o que há de melhor entre nós, ela tem empatia, inocência, garra, senso de justiça e, principalmente, ela é uma mensagem de esperança. Não só para o mundo dos homens, como para Temisciria. Se as amazonas já estão cansadas e marcadas pela guerra que as levou à ilha paraíso, Diana possui um senso de aventura e determinação que a torna não só a emissária perfeita, como também a heroína amazona que o mundo precisa. Diana não é um poço de niilismo e tragédia como o Batman e o Superman do universo cinematográfico da DC, ela é capaz de ver a tragédia, de empatizar de verdade com aqueles que sofrem, de querer ajudá-los e de se preocupar com o que vem depois de seus atos. Não é sobre o umbigo de Diana, não é sobre revanche, é sobre a humanidade.

E é exatamente por conseguir definir isso que o filme tem tanto sucesso na personagem. Aqui, Diana não sabe exatamente quem  ela é, nem qual é o seu destino no mundo dos homens e dos Deuses Ela segue seu coração, tenta fazer aquilo que lhe parece certo dentro dos preceitos e da moral que aprendeu com as Amazonas. E Diana tem muito coração, tanto quanto tem garra e coragem. Diana enfrenta seus desafios e, mesmo quando duvida de si e da humanidade, faz isso dentro de sua personalidade. Ela não é inconsistente, no fundo ela é humana.

Gal Gadot consegue passar todas essas camadas de Diana de maneira incrível, a atriz consegue acertar não só a postura de princesa guerreira, mas também o de uma garota que apesar de curiosa com um mundo novo, não compreende suas regras machistas e por vezes repugna muitos de seus aspectos. Fisicamente ela se impõe como guerreira sem que nos faça duvidar de todo o seu poder. Gadot consegue caminhar muito bem também no timing de comédia, nos momentos em que ela aparece. Uma das melhores piadas do filme acontece enquanto Diana e Steve vão embora de Temisciria e me fez gargalhar alto no cinema.

Para os que estavam preocupados com Steve tomar muito tempo de tela, podem relaxar. O papel do espião é muito semelhante ao de um guia, ajudando Diana a transitar pelo universo desconhecido que é a sociedade moderna da época. Ele também não tem oposição nenhuma em ser liderado ou mesmo protegido por Diana, entendendo muito rápido que é ela quem possui as habilidades e o poder para liderar. Ainda assim, para aqueles que estavam preocupados com uma possível emasculação do personagem – ele vai muito bem, obrigada.

Existem alguns fatores que eu gostaria de ter visto de maneira diferente no filme. Apesar de haver Amazonas não-brancas em Temiscira, e de algumas delas possuírem lugares de destaque, ainda assim não é o suficiente. Os companheiros de Diana no mundo dos homens não são todos brancos, e levanta-se a questão de como isso influencia ou influenciou a vida deles mas, de novo, fica a sensação de que podíamos ter tido mais. Eu espero que nos próximos filmes da MM nós vejamos mais sobre Temisciria, já que passamos a maior parte do tempo entre as guerreiras. Seria incrível descobrir uma variedade de mulheres que existem dentro da ilha – eu aposto que elas não são todas atléticas e muito menos brancas. Seria também interessante que os próximos filmes abordassem a questão da sexualidade das amazonas, algo que não é nem de leve tocado no filme.

Etta James (Lucy Davis), amiga da Mulher-Maravilha, apesar de assumir um papel de liderança na missão, também merecia mais espaço do que lhe foi dado – ela por pouco não cai no estereótipo da mulher gordinha e alívio cômico (o fato dela ser gorda nunca é utilizado como punchline). Eu entendo, do ponto de vista histórico, que os companheiros de Diana tenham sido homens. Mas acredito que o filme, que é sobre uma princesa amazona com super-poderes vinda de uma ilha paraíso, podia ter tomado mais liberdade história e ter substituído pelo menos um dos companheiros de Diana, por uma mulher.

Connie Nielson (Rainha Hipólita) e Robin Wright (General Antiope) estão maravilhosas em seus papéis. Connie consegue mostrar Hipólita como uma mãe, uma guerreira, uma rainha e uma mulher marcada e cansada de guerras. Wright foi um acerto em cheio na escalação para Antíope, tanto fisicamente como com sua atuação. O filme abraça a idade das duas mulheres, usando isso para criar personagens ainda mais complexas do que se esperaria com o tempo de tela que elas tem. De maneira geral as mulheres de Mulher-Maravilha são fabulosas, não só porque são amazonas, mas porque o filme as permite expressar sentimentos sem que a natureza guerreira delas tente, de alguma maneira, envergonhar esse lado humano que, muitas vezes, seria considerado um sinal de fragilidade. Sentir e empatizar são as palavras chaves de Mulher-Maravilha, e isso é maravilhoso.

Patty Jenkins, diretora do filme, mostra um controle incrível sobre as cenas de ação. Mesmo quando usa um recurso tão batido quanto slow-motion, ela o faz com um sentido narrativo. Na cena em que Diana invade uma sala com inimigos, e que aparece já no trailer, cada slow-motion serve para mostrar um aspecto das habilidades de Diana – seja sua força, sua destreza ou a avalanche de poder que ela carrega em seu corpo. Tanto as cenas nas trincheiras, quanto a grande cena de ação final, caminham junto com a temática de liberdade e poder do filme, e são momentos em que a diretora se permite também discutir um pouco mais sobre esperança e autoritarismo.

Talvez um diretor homem não teria permitido que suas personagens femininas tivesse o nível de complexidade que as amazonas ganham no filme. Talvez elas tivessem sido apenas vasos vazios de significados, mas cheios de força e sensualidade. Diana não é hipersexualizada em momento nenhum durante o filme, e é muito óbvio, através do trabalho de câmera e enquadramento, que fez toda diferença ter uma mulher como diretora do longa.

Mulher-Maravilha é, hoje e na minha opinião, a melhor representação do que um super-herói deveria ser. Capitão América talvez divida essa posição com ela, mas Diana é algo novo e de um ponto de vista diferente, um ponto de vista que ao mesmo tempo que promove uma ação épica também se preocupa em manter um super-herói como um símbolo de esperança, de empatia.

Depois de anos escondida dentro do mito da “personagem difícil de ser adaptada”, Mulher-Maravilha chega finalmente aos cinemas como uma história de origem, uma história que precisava e merecia ser contada. Ao final do filme eu me peguei querendo saber como Diana iria reagir e superar os acontecimentos finais do longa, qual será o arco maior da personagem, espero que Liga da Justiça consiga continuar desenvolvendo um pouco isso. Depois de anos de espera, a experiência de ver a MM chegar às telonas é catártica, mas é também um sinal de esperança. Um ponto de força, empatia e luz em nossos tempos tão sombrios.

Mulher-Maravilha chega nesta quinta, 1º de Junho, aos cinemas.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 | Crítica

A franquia Guardiões da Galáxia começou sem muitas pessoas acharem que realmente os filmes iam para frente. Os heróis não eram muito conhecidos, mesmo sendo da Marvel, e nós achamos que não seria nada demais. Mas a Marvel já provou que pode dar destaque para seus super-heróis no cinema. Guardiões da Galáxia é um exemplo de que, quando o filme é bem feito, os protagonistas não precisam fazer parte da tríade dos quadrinhos para atrair público.

Guardiões da Galáxia foi uma surpresa, mas agora já existia expectativa para o Volume 2. Nós confiávamos em James Gunn e queríamos ver um filme bom e divertido, então foi ótimo ir ao cinema e ver que essa segunda parte não decepcionou.

Depois dos eventos do primeiro filme, os guardiões da galáxia, agora como um grupo, estão caçando uma fera em troca de dinheiro, mas as coisas dão muito errado quando Rocket (Bradley Cooper) acha que é uma boa ideia roubar baterias da raça para quem estavam trabalhando. Os guardiões precisam fugir e são salvos por ninguém menos que Ego (Kurt Russell), o pai de Peter (Chris Pratt).

Essa crítica não tem spoilers do filme.

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Resenha: Cara gente branca

Com a estreia da nova série da Netflix, Cara Gente Branca, no dia 28 do mês passado, uma pergunta surge: será que as pessoas estão mesmo com um problemão para ler – no caso, ver – e interpretar uma mensagem? Afinal, o que será que acontece quando elas veem uma série que diz “olha, vamos mostrar alguns fatos infelizmente verdadeiros que acontecem com os negros” e entendem isto “olha, fizemos uma série para mostrar como os negros são vitimistas e culpam o branco por tudo, sendo que é esse que realmente sofre racismo nessa sociedade desigual” ou “olha, fizemos uma série esquerdista-marxista-leninista-beyoncenista”.

E, caso você esteja pensando “não seja exagerada, Jéssica”, os sites especializados em críticas estão aí para provar que estou certa: no Rotten Tomates, Cara Gente Branca tem aprovação de 100% dos críticos que assistiram a série, mas 59% do público; no Metacritic, a crítica atribuiu uma nota 84 de 100, sendo que para o público, a série mereceu apenas 4.2 de 10; por último, no IMDb a votação é aberta para todos e a nota remetida foi de 5.4 em um total de 10.

Se compararmos as notas do público, por exemplo, com outras séries da Netflix que possuem problemas técnicos graves, como enredo fraco e direção duvidosa, a questão se torna mais grave: Os 13 porquês – série que teve grande adesão do público e inúmeros textões nas redes sociais explicando o porquê você também é um porquê – tem pelo Rotten Tomates e IMDb, respectivamente, aprovação de 86% e nota de 8,8/10; já Punho de Ferro tem 79% de aprovação e nota de 7,2/10.

Ainda fazendo um paralelo com as séries da Netflix, durante a campanha de preservação da imagem de Os 13 porquês, ficou claro que machismo e homofobia podem desencadear crises depressivas violentas e, dessa forma, terem um final trágico. Todavia, textos que explicitavam também as consequências do racismo para jovens negros sequer foram trazidos para discussão. Em 2014, a socióloga Trenette Clark apresentou um estudo que mostra que pessoas negras estão mais predispostas a terem ansiedade e depressão por causa do racismo.

Comentário feito no canal da Netflix, no YouTube, sobre Cara Gente Branca.

Cara Gente Branca – Série

Para aqueles que ainda não sabem, a série da Netflix foi inspirada no filme Dear White People (2014), do mesmo diretor, Justin Simien (você pode ler a resenha dele aqui). Ao contrário do que se imaginava, Cara Gente Branca não é nem uma continuação e nem uma expansão da história do filme, mas uma mistura dos dois, então você pode assistir a série sem se preocupar se está perdendo algo de importante para o desenrolar da trama, que se inicia expondo os efeitos de uma festa de Halloween organizada por estudantes brancos da University Winchester com a temática “afro-americana”, no maior estilo blackface.

Assim, se no filme tínhamos quatro protagonistas que desencadeavam as ações do enredo, no seriado temos cinco: Samantha “Sam” White, Lionel Higgins, Troy Fairbanks, Colandrea “Coco” Conners e Reggie Green. Reggie não é uma personagem nova, pois já fazia parte do filme, mas tem grande importância na série e, por isso, ao meu ver, é um dos protagonistas.

O roteiro peca em alguns pontos, como o não desenvolvimento das personagens Sam e Troy, já que Samantha é mostrada do começo até o final da série como uma garota militante e encrenqueira, que não pensa nas consequências de suas ações, enquanto Troy continua sendo um cara mimado que vive sob o olhar vigilante de seu pai, reitor dos estudantes, Dean Fairbanks. Talvez essas personagens possam evoluir em uma segunda temporada, já que os pontos soltos da primeira temporada estão intrinsecamente envolvidos com as duas.

Em contrapartida, Coco é a que mais se desenvolve no decorrer dos capítulos, mostrando um lado sensível. Se no filme esse lado aparecia em raras ocasiões, no seriado ele prevalece, explicitando o porquê da personagem se distanciar de movimentos militantes negros. Para ela, a autopreservação é algo mais importante do que se expor, como faz Sam, em uma luta coletiva que pode gerar desgastes emocionais. Lionel também cresce no desenrolar dos episódios, entretanto, a timidez na qual a personagem está envolvida se torna um embate para que ela possa sair da bolha em que se encontra, o que as vezes da a sensação de que ela não sai do lugar.

Há ainda duas personagens que foram inseridas na trama: Joelle Brooks e o queniano Rashid Bakr. Joelle é a melhor amiga de Sam e também faz parte da militância negra dentro da Universidade Winchester, além disso é legal perceber que Joelle contribui muito para a personagem de Sam, pois se no filme tínhamos a impressão de que Sam era uma garota cercada de pessoas, mas sem ter uma amizade profunda e verdadeira com alguém, na série Sam tem alguém com quem contar. Já Rashid é traz a trama outra questão pouco discutida: ser um negro americano não é o mesmo que ser um negro africano.

Vale muito ver a série como uma comédia, que é o que ela é na verdade, não lhe atribuindo caráter de manifesto. Talvez porque é o riso se torne amargo e fique numa linha tênue entre o mal-estar e o perigo de se identificar com os acontecimentos mostrados, seja como agente seja como receptor.

Por fim, vale ressaltar que o quinto episódio foi dirigido por ninguém mais que Barry Jenkins, diretor de Moonlight, vencedor da categoria no Oscar de 2017 de Melhor Filme.

Justin Simien de chapeuzinho maroto e Barry Jenkins sorridente ao fundo.
Parte do elenco durante premiere da série.

Resenha: #GIRLBOSS

Eu, você e todo mundo que anda há alguns anos na internet já viu alguma foto linda em tons pastel com o livro #GIRLBOSS, de Sophia Amoruso. O livro foi uma febre há alguns anos atrás. Eu queria ler – porque eu sempre leio tudo o que todo mundo está lendo – mas a oportunidade nunca chegou e sempre tinha outro livro na frente. Antes de começar, é bom que você saiba: eu sou uma figura perfeita de um Millennial. Tenho 26 anos, sei usar filtros no Instagram, gosto de café e sou empreendedora. Sim, eu sou dona de uma pequena marca há 3 anos agora. Eu me envolvi de cabeça nos meios de eventos para divulgar a marca, sites feitos sem a ajuda de programadores (quase) e estúdios de foto improvisados na sala de casa. Aos poucos eu fui percebendo que minha pegada era muito mais do “feito à mão e consumo consciente” do que a do “fazer a empresa gerar o primeiro milhão antes dos 30”. A marca compõe minha renda e ajuda a desenvolver minhas habilidades manuais de uma vida toda. Nunca vou ficar rica com ela, mas também nunca pretendi. Ao longo desses anos, tendo feito amizade com muitas outras pessoas donas de pequenas marcas e sendo muito ligada a questões de gênero, parece mais que natural que eu tenha sido bombardeada com a ideia do #GIRLBOSS.

A série saiu, eu somei 2 + 2, e soube que esse texto era meu na hora. Fui ler o livro e assistir à série toda.

Antes de falar sobre a série, já aviso: penei pra terminar o livro. O meio dele é repleto de um espírito auto-ajuda demais para mim, apesar de ter tirado alguns conselhos bons de como gerir uma marca. Mas me incomoda profundamente essa postura capitalista da meritocracia. Eu não acredito em meritocracia. Todo o discurso de Sophia é que uma #GIRLBOSS corre atrás do que quer, trabalha com o que ama, se dedica à fundo e, por isso, é bem sucedida. Mas não é assim que funciona, vocês já devem estar cansados de saber. Ganhar dinheiro, trabalhar com o que se ama, etc etc, tudo isso está ligado a privilégio. Privilégio em poder escolher com o que trabalhar porque não se precsa ganhar dinheiro correndo; em ter casa dos pais pra voltar caso falte grana pro aluguel; em ter acesso a tecnologias que te permitam aprender e tocar um negócio. Sophia faz uma autocrítica, afirmando saber que por se branca, de classe média, com possibilidade de estudar, foi privilegiada? Sim. Sophia deixa de pregar a meritocracia? Não. A mim incomoda pra caramba, porque meritocracia com glitter e flores no cabelo continua sendo uma crença idiota. Pra mim não desce.

Além disso, claro, sempre tem o problema da autobiografia. O livro é escrito por Sofia sobre ela própria e a série a tem como produtora executiva. E não, as pessoas não costumam falar mal de si próprias. Talvez algo como “eu fui grosseira” ou “eu traí meu namorado”. Mas nunca “eu roubei o design de uma pequena marca,  fui acusada de plágio e, adivinha, é tudo verdade”.  E é verdade mesmo. Uma rápida busca no Google te mostra dezenas de casos em que a Nasty Gal se envolveu em processos por roubar designs, desde marcas locais até Balenciaga. Muito disso escapa pelas rachaduras no livro – e na série fica bem óbvio – mas a razão principal é: os parâmetro éticos de Sophia são bem maleáveis. E ela parece não achar que tem nada de errado nisso.

100% nem aí

Eu tenho uma qeustão que me acompanha há muitos anos (talvez desde a infância, mas não vou exagerar): como louvar coisas boas feitas por gente babaca? Sabe aquela pessoa da faculdade que é idiota com todo mundo, que se acha melhor que os outros, mas que sempre faz trabalhos lindos? Eu sempre odiei essa pessoa. Eu olhava e pensava como era injusto que algo tão lindo tivesse saído de alguém tão babaca. Eu queria elogiar o trabalho, mas ele era uma extensão daquela pessoa que eu não suportava. Eu senti isso com a Sophia. Ela é genial. Criou uma empresa do nada, moldou o jeito que todos nós usamos as redes sociais para vendas, quando a empresa estava mal das pernas, escreveu um livro bombado que a manteve no topo, e quando o livro parecia exaurido, fechou contrato com a Netflix pra produzir uma adaptação da série. Incrível do início ao fim. Mas ela é insuportável. Arrogante, acha que todo mundo sente inveja dela por ela ser “oh-tão-boa”, de moral duvidosa… Ela era o anti-herói perfeito pra uma série.  O problema é que a série não é boa.

A começar pelo timming estranho: a Nasty Gal pediu falência ano passado e vive um processo de recuperação da empresa por parte do governo. Ela teve que deixar o cargo de CEO da empresa como medida para continuar existindo. Fica muito difícil comprar a ideia do quanto Sophia fez um caminho incrível sendo que sabemos disso agora. Parece que #GIRLBOSS saiu um pouquinho atrasada.

Em segundo lugar, eu não sei se essa é a Sophia da vida real, mas a da série é intragável. Ela humilha pessoas  e se engana você se acha que ela só tem problemas com autoridade. Ela é grosseira com funcionários, amigos e pessoas que lhe prestam serviço. Arrisco dizer que ela parece se sentir muito bem consigo mesma ao tratar os outros mal. Se isso não fosse o bastante, ela faz rindo aquilo que a gente critica: passa os outros pra trás sem ligar pra nada. Sabe o típico vendedor que compra roupa barata e te revende com quatro zeros a mais porque grudou uma etiqueta? É ela. E, gente, podem me chamar de bobinha, mas eu ainda não acho legal tirar vantagem dos outros. Metade dos comportamentos dela na série são ou dar a volta em gente que trabalha com ela ou no mesmo ramo que ela ou roubar coisas, destruir lugares e objetos.

Eu acho que todo personagem tem que ser bonzinho? De maneira nenhuma. Valorizo que hajam protagonistas fortes e até mesmo com traços de vilã, por que não? Mas não apoio normatizar e, pior, vangloriar comportamentos antiéticos. Você não pode fazer uma série de comédia, com uma musiquinha legal e um figurino da hora, mostrando o quanto é lindo ser desonesto. O mundo tá chato, né? A gente problematiza tudo, vê problema em tudo. Pois é. Talvez o mundo já não aceite mais com tanta facilidade personagens assim. Pode reclamar na caixa de comentários que eu aguento.

Daí sabendo dessas duas coisas sobra o que? Olha, como bem disse a Sonia Saraiya no seu review pra Variety, sobra uma carta de amor a um modelo de sucesso que não existe.

Como técnica, a série acerta naquilo que eu acho que era o mínimo dado o tema: a direção e arte e o figurino. Aliás, se tem uma coisa que me manteve assistindo a série até o fim foi o amor que eu sinto por roupas. O figurino é lindo, bem cuidado, bem acabado – e convenhamos que deve ter sido uma delícia de trabalhar nesse setor da série. Só a jaqueta icônica que ela usa na série já me valeria todas as horas que eu gastei irritada com a personagem. E isso foi o grande diferencial da Nasty Gal ao longo dos anos: saber montar looks lindos que deixam a gente morrendo de vontade de usar.

O roteiro em si é fraco, mas nada muito diferente de outras obras recentes que se focam no público jovem. Os diálogos são fracos porque forçados, mas a atuação deixa mais a desejar. Não sou fã de uma atuação 100% realista nema cho que não haja espaço pra outros tipos de interpretação na tv, mas a série deixa a dúvida se a ideia era uma atuação mais exagerada, se as atrizes estão trabalhando mal ou se a direção errou na mão. De qualquer modo, há momentos – principalmente os de intimidade entre Sophia e sua amiga – que chegam a dar um pouco de vergonha alheia.

Mesmo assim, há algumas soluções bem interessantes para a adaptação da série. O livro é inteiro misturado, entre conselhos e pequnas anedotas sobre sua vida. Acertadamente, algumas passagens breves, porém com potencial, foram extraídas e geraram boas sequências, como a cena das caronas e do festival e as sequencias com a vendedora rival. A ideia de condensar diversas histórias, que ocorreram com diversas pessoas que passaram pela vida de Sophia, em dois ou três personagens é boa e funciona bem. Sem essas personagens de apoio, como a melhor amiga e o namorado, ficaria mais difícil de dar fluidez à história. Ponto também para as referências anos 2000, quase todas saídas da boca de Annie, a melhor amiga. Os comentários sobre Briney Spears e The O.C. são muito divertidos.

Se Britney sobreviveu a 2007, GIRLBOSS sobrevive a algumas críticas ruins.

Antes de terminar, eu queria fazer um breve comentário. Eu li muita gente falando que “ah, mas os personagens homens babacas não são criticados como estão criticando essa personagem”. Calma lá.

Primeiro, que aqui no Collant a gente já apanhou E MUITO por criticar personagens babacas que todo mundo ama. E ouviu o discurso de sempre: que é frescura, que é só um filme, que a gente não tem senso de humor, e todo um caminhão de clichês. E assim como nós, muitas pessoas no mundo não acham graça em gente que trata os outros mal e faz piada imbecil.

Segundo, que não há nada, NADA, de inovador em personagens femininas poderosas ao mesmo tempo que são completamente estúpidas e intragáveis. Esse é o grande esterótipo das mulheres poderosas na cultura pop. Então não estou entendendo da onde saiu essa ideia de que a persongem de Sophia é um ponto fora da curva nesse sentido.

Uma amiga me perguntou “mas qual é a diferença dela pra personagem da Meryl Streep em O Diabo Veste Prada?” A pergunta me fez pensar por alguns instantes. Claro que a gente não estabelece uma relação de amor com a Miranda (mesmo amando Meryl). Ela é uma chefe horrível, com quem a gente não ia querer trabalhar nunca. Mas a personagem tem contronos, tem profundidade. A gente vê além da chefe horrível. Vemos uma mulher endurecida, que acha naquela postura a forma de conseguir respeito. E isso não perdoa o comportamento dela, mas faz com que a gente a veja como mais do que só aquilo que se espera. Talvez seja isso que falta em Girlboss. A série soa amadora na maior parte do tempo, e quando não está soando assim, soa como panfletária e comercial. E é uma pena. Eu queria muito ter visto uma personagem mais complexa do que a menina que rouba porque pode, grita porque pode, ganha dinheiro porque pode, e não liga pra mais nada.

 

Crítica | Power Rangers (2017) – Fomos Surpreendidas Novamente.

Dizer que as minhas expectativas eram baixas é dizer pouco. Não porque eu tinha certeza que o filme ia ser ruim, mas porque eu realmente não esperava nada dele. Eu cresci assistindo Power Rangers, quis ser Kimberly quando criança e depois de mais velha vi Zordon morrer. Power Rangers no Espaço foi a última temporada que assisti, depois disso só acompanhei de longe um ou dois capítulos que apareciam em dias que eu não estava fazendo nada.

A adaptação que chega hoje aos cinemas conta com um elenco de relativamente desconhecidos assumindo o papel da equipe original:Dacre Montgomery (Jason/Ranger Vermelho), Naomi Scott (Kimberly/Pink Ranger), Ludi Lin (Zack/Ranger Preto) e Becky G. (Trini/Yellow Ranger). Além deles os atros Elizabeth Banks e Brian Craston encarnam Rita Repulsa e Zordon. Apesar de não ser um filme de qualidade artística alta, ele parece ser honesto com suas limitações e com a expectativa do público. Ao meu ver o filme tem dois pontos fortes, saber o tipo de filme que é e a diversidade dele.

Ele sabe muito bem o que é.

Quando saíram os trailers uma das coisas que pulavam aos olhos era a tentativa de fazer o filme se encaixar dentro do “padrão de sucesso” dos reboots: trazer algo mais adulto, mais viceral e obscuro. Se essa era a intenção da produção, então eles falharam astronomicamente. Mas eu realmente não acho que esse seja o caso, pois a grande força de Power Rangers é saber exatamente o que é e manter-se fiel ao seu público alvo: um filme pipoca da Sessão da Tarde – e não há nada de errado nisso.

Não há nada de estelar no roteiro do filme, que até tenta se aventurar por um caminho mais adulto ao “matar” um dos personagens e trazer um Zordon bem menos acolhedor que o original, mas sempre acaba voltando para momentos intencionais (ou não) de humor. Eu honestamente acho que essa é a escolha certa, Power Rangers nunca foi viceral, pesado ou qualquer coisa similar, muito pelo contrário. Se Power Rangers fossem garotas mágicas eles seriam Sailor Moon, não Madoka, e tá tudo bem.

Quando saí da sessão, fiquei me perguntando o que eu sabia sobre a história pregressa ou a personalidade dos primeiros Rangers – pouco ou quase nada. Neste quesito o longa faz um trabalho melhor do que a série fez em algumas temporadas. Os Rangers aqui não são só adolescentes que vão pra escola e, depois de zoar com Bulk e Skull, vão salvar a alameda dos anjos. O filme tira alguns momentos para tentar desenvolver um pouco mais a angústia interna deles, nada extraordinário e, talvez exatamente por ser um filme sessão da tarde, fica a sensação de que isso podia ter sido feito com mais calma e também melhor trabalhado.

A Diversidade de seus personagens.

Muito se falou nos últimos dias sobre Trini, a Ranger Amarela, ser uma representação LGBT. Há milhares de questionamentos em torno do tipo de representação que Trini trás, e de fato há um cansaço quando se noticia uma personagem lésbica mas isso é apresentado de maneira não tão evidente quanto nós gostaríamos. O arco da personagem é sobre descobrir quem ela é e, do ponto de vista narrativo, ela sendo uma adolescente parece coerente que ela ainda não tenha se rotulado como nada – ou que não queira se rotular. Isso não quer dizer que não precisaríamos de uma afirmação mais forte sobre isso.

Mas há mais do que isso. Billy, o ranger Azul, é autista. Além de quebrar a tradição de personagens negros serem os Rangers Pretos, Billy é uma representação um tanto caricata porém carinhosa de uma pessoa no espectro autista. Um acerto do filme, ao meu leigo ver, é que ele não é vitimado necessariamente por ser autista, e o filme não o mostra como alguém digno de pena, ele é super-herói como seus colegas, talvez dentre os cinco o que mais anseia por esse papel. O grupo se forma ao redor dele – é dele a decisão que coloca os cinco em contato com os cristais, é ele que une os cinco e é ele o primeiro a conseguir morfar.

O único personagem branco do filme é o Ranger Vermelho, ele é também o menos interessante e com o conflito interno mais desinteressante. É como naquele clipe dos Backstreet Boys em que cada um deles mostrava um drama em sua vida (problemas no coração, morte do pai, da irmã ou o vício com drogas) e o problema do Nick é que ele nunca tinha encontrado o amor. Perto dos outros personagens, Jason parece uma escolha questionável para liderança. A atriz que faz Kimberly é descendente de indianos e, apesar de isso não ser usado na história, ela está bem longe do padrão branco americano. Trini é latina, Billy é negro (e autista!) e Zack é de descendência asiática. A mãe de Zack, inclusive, não fala inglês, apenas chinês, levantando a pergunta que talvez ela seja imigrante – mas essa é uma extrapolação minha.

O ponto forte, apesar das falhas, é que esse é um filme focado em adolescentes, baseado em uma série de mais de 20 anos e que não se recusou a atualizar os personagens para padrões mais inclusivos.

Quase um ano atrás, quando saiu o primeiro trailer, eu falei sobre a presença de Boobie Plates e salto-alto no uniforme das personagens femininas. Eu continuo achando tudo isso:

https://www.youtube.com/watch?v=Ksy6VcsVI0I&list=PLdtQ7s_bzHMX7Scbld9_LpO2Xx0sYJ2Zv

Conclusão

Não espere atuações extraordinárias – esse não é o tipo de filme para isso. Como já era esperando, nem Elizabeth Banks, que interpreta a vilã Rita Repulsa, nem Bryan Cranston, que interpreta Zordon, vão ganhar indicações à prêmios por seus papéis. Banks parece se divertir interpretando a vilã, que tem a origem bem diferente da série original, e isso ajuda a manter o clima do filme no lugar certo. Também não espere John Wick ou Pacific Rim no que diz respeito às lutas e ao Megazord – anunciado como “mais centrado na realidade”, a realidade em questão aqui é o baixo orçamento e os limites técnicos.

Se você for ao cinema esperando uma versão mais adulta de Power Rangers vai gastar o dinheiro do ingresso a toa. O filme tem como público alvo adolescentes, visando começar no cinema uma franquia que já é sucesso na televisão há mais de vinte anos. Essa é a escolha mais acertada do filme, enquanto existem pequenos acenos aos fãs mais velhos, o filme não perde tempo com saudosismo ou auto-referência. Power Rangers entrega um clima e uma narrativa muito próxima da série original, com o coração no lugar certo, e momentos de humor interessantes. Não esqueça de ficar até o final dos créditos. 😉

Power Rangers estreou hoje no Brasil.