A representação feminina em Chronos: Viajantes do Tempo

Este texto não contém spoilers do livro.

Aqui no Collant, nós já fizemos uma lista de garotas que tiveram que viajar no tempo, mas isso não significa que elas são a maioria nesse tipo de história. O papel heroico, ainda mais na ficção científica, muitas vezes acaba ficando com o personagem masculino. Em Chronos: Viajantes do Tempo, a pessoa destinada a salvar o mundo é Kate, uma garota adolescente.

Primeiro, é legal pensar na questão da mulher ser a escolhida para um papel importante. Nós já estamos cansados de ver histórias de escolhidos homens, de como o tal protagonista nasceu para realizar a função que salvará todos, mas quantas vezes esses espaços são ocupados por mulheres? O escolhido sempre é o cara que se encaixa dentro do padrão.

Kate tem um dom muito grande para usar a chave Chronos, que permite as viagens no tempo, deixando todos ao seu redor impressionados com a sua capacidade. Assim que ela se vê nessa situação, Kate começa a procurar todas as informações possíveis que possam ajudá-la a enfrentar esses novos problemas que estão aparecendo. Ela não é passiva ao que acontece ao seu redor, por mais que seja difícil entender todos os problemas de primeira.

Além disso, ela não é a única mulher no meio de vários homens. A sua avó, Katherine (sim, elas têm o mesmo nome), é a grande mentora da protagonista. É comum que, em histórias com algum fator de escolhido com uma aventura épica, exista aquela figura de mestre que vai guiar o caminho do herói. Esse também é um papel que geralmente fica com um personagem masculino mais velho e sábio, mas, nesse caso, a mentora de Kate é a sua própria avó, uma figura feminina. Ela é uma mulher que entende tudo sobre como as viagens no tempo funcionam, é inteligente e fez inúmeras coisas para se manter segura, por mais difíceis que elas fossem. Agora, ela sabe que não pode mais tomar a frente dessa luta, por isso passa o seu conhecimento para Kate.

A relação das duas é uma das partes mais interessantes da história. Ao invés de Kate apenas aceitar o que é passado para ela, a adolescente começa a ter dúvidas e até a discordar de algumas decisões que sua avó tomou, mostrando que ela não é uma personagem sem personalidade. Esse aspecto de “desafiar o mestre” é interessante nesse tipo de dinâmica. Kate não é obediente o tempo todo e usa o conhecimento que recebe de Katherine para resolver as coisas da sua maneira. O fato de estarmos sempre na cabeça de Kate, até por causa da narrativa em primeira pessoa, nos ajuda a entender o que ela está pensando e as suas motivações.

Porém, em alguns momentos, a história acaba fazendo sua protagonista cair em clichês. Kate é uma adolescente e, infelizmente, alguma parte do livro é dedicada a falar sobre interesses românticos e meninos que ela acha interessante. O fato dela se importar com isso não é um problema, mas o jeito que isso é tratado na história acaba ficando clichê. Em alguns momentos, Kate é salva por esses possíveis interesses românticos, até em situações que poderiam ser tratadas de outra forma, ou ela poderia ter ajuda de uma figura que não necessariamente fosse um possível romance ou até mesmo não fosse uma figura masculina. Também há momentos em que o clima romântico parece forçado e acelerado, como se a autora acreditasse que a protagonista precisasse muito desses elementos para ser interessante, mas é exatamente isso que, para mim, acaba sendo uma falha na construção da protagonista.

Por mais que essas relações sejam importantes para Kate, como provavelmente seriam para qualquer adolescente em seu lugar, a aventura de salvar seus pais e consertar a linha do tempo é mais importante do que alguns clichês secundários. Kate tem bastante espaço para mostrar sua personalidade e a história dá oportunidades para a protagonista ir crescendo nessa primeira parte da trilogia.

Chronos: Viajantes do Tempo já está à venda!

Valquíria é bissexual, mas Thor: Ragnarok não te diz isso

Eu já começo esse texto com um tom de irritação, como vocês podem perceber. O bom e velho desapontada, porém não surpresa.

Tessa Thompson, atriz da Valquíria em Thor: Ragnarok, declarou no twitter que sua personagem era bissexual no filme, assim como no quadrinho. Eu não li nenhum dos quadrinhos de Thor e fui pega de surpresa, então quando finalmente fui assistir ao filme, fiquei de olho em qualquer coisa que pudesse indicar a sexualidade da personagem. Como uma pessoa que está exausta de procurar detalhes que indiquem qualquer tipo de representação LGBT+ na mídia, eu estava preparada para pegar os detalhes, e depois falar sobre como isso não é o suficiente, porque não é.

Há apenas uma cena, em certo momento, que se você tiver boa vontade, pode imaginar que talvez indique que Valquíria tinha um relacionamento com outra mulher. São segundos e, como eu disse, exige boa vontade, porque podia simplesmente não ser nada.

Há algum tempo, li essa entrevista da Tessa Thompson falando mais sobre o assunto. A atriz diz que falou com o diretor, Taika Waititi, sobre a personagem ser bissexual e eles fizeram uma cena em que, em certo momento, dava para ver uma mulher saindo do quarto de Valquíria, que daria a entender que elas tinham passado a noite juntas. Waititi manteve a cena o máximo que pode, mas eventualmente teve que cortar porque “distrairia o público da revelação vital naquela cena”.

Eu me pergunto como alguns segundos de uma mulher saindo do quarto de Valquíria atrapalharia qualquer coisa no filme. Alguns momentos que seriam o suficiente para nos fazer entender que a personagem é LGBT+, o que seria ótimo, considerando que a Valquíria é uma personagem com um arco interessante e que de várias formas foge de estereótipos.

Não conheço todo o trabalho de Waititi, mas dou o benefício da dúvida. Por outra matérias que li dele, imagino que o diretor de fato tentou manter a cena, mas considerando que estamos falando da Marvel, que ainda precisa caminhar muito no ponto de vista de diversidade, não me surpreenderia que ordens de cima tivessem cortado essa cena. Nós simplesmente não podemos ter coisas legais.

Esse episódio é apenas um dos inúmeros exemplos de como a representatividade LGBT+ é vista, como algo que não precisa ser falado e, se precisa, que seja por algo fora do produto em si, ou com um subtexto que deixa aberto à interpretações. Não ia atrapalhar em nada essa, ou outra cena, que mostrasse a sexualidade de Valquíria. Nós raramente temos uma personagem bissexual com tanto destaque, em uma franquia grande como essa. O fato de que é algo que podia ser resolvido de forma simples é o que acaba me incomodando mais.

Sim, a cena que Valquíria estende a mão para a companheira de batalha, para mim, indicava que elas eram amantes de alguma forma. Em parte por como a cena foi construída, mas também porque eu estava procurando qualquer indício para ver a sexualidade da personagem. Mas isso sou eu, pessoa que não só está treinada para procurar essas coisas, mas também que está cansada de ter que fazer isso. Para o resto do público, seria muito mais interessante se eles deixassem esse fato exposto de forma mais óbvia.

Eu não culpo ninguém especificamente por essa decisão, qualquer pessoa que tenha algum contato com área de entretenimento sabe que, se alguém acima de você diz não, é não. Também não posso medir o quanto Waititi poderia ter interferido nessa questão, o fato dele ter topado ouvir Thompson me parece um bom sinal, mas infelizmente não vimos isso no corte final. Personagens LGBT+ precisam ter a mesma chance de expressar sua sexualidade na mídia como pessoas hétero têm por tantos anos.

Nada disso muda o fato de Valquíria ser, além de uma personagem incrível, uma mulher bissexual, e eu vou fazer questão de não deixar ninguém esquecer, ainda mais quando a atriz fala de forma tão abertamente e feliz sobre isso. Mas é Marvel, vocês perderam a chance de fazer algo muito legal. Era simples e fácil, mas o conservadorismo ainda falou mais alto.

Anna Diop será Estelar na série Titans – E algumas pessoas não sabem a diferença entre pele branca e laranja.

Ontem, no finalzinho do dia, ficamos sabendo que a atriz Anna Diop vai assumir o papel de Estelar na série Titans, que adapta os personagens dos Jovens Titãs para a televisão. Anna tem no currículo séries como Everybody Hates CrisQuantico e mais recentemente esteve em 24: Legacy.

Estelar foi criada por Marv Wolfman e George Pérez, e sua primeira aparição nos quadrinhos aconteceu na revista DC Comics Presents #86 em 1980. A personagem é a princesa herdeira do trono de Tamaran, um planeta no sistema Vegan. Ela chega ao planeta Terra depois de fugir das garras da irmã, Blackfire, que havia causado uma guerra no planeta. Estelar então se une aos Jovens Titãs depois de encontrar Robin, Dick Grayson.

Aqui no Brasil Estelar ficou conhecida pelo grande público com o grande sucesso que a série animada Teen Titans fez no começo dos anos 2000.

Com o anúncio que Anna Diop, uma atriz negra, ia assumir a personagem na versão Live Action as pessoas, elas perderam a noção. De um jeito que, para justificar o racismo, começaram a dizer que a Estelar era, na verdade branca.

Temos alguns pontos importantes a se levantar aqui.

O primeiro deles é que você pode dizer o quanto quiser que não é racista, mas se você precisa fantasia que uma personagem laranja é branca, então você precisa procurar se educar melhor e aprender que o que você sente é preconceito racial – não busca por fidelidade com os quadrinhos.

O segundo ponto é: Estelar não é humana. Sim, ela tem traços humanóides, mas isso não quer dizer que ela é um ser humano. Não, ela é uma alienígena e, por isso, tentar colocá-la dentro de padrões humanos é perda de tempo – e pode acabar mostrando que você é racista.

Ruth Negga, em Agents of Shield / Pom Klementieff e Zoe Saldanha em Guardiões da Galáxia.

O terceiro ponto é uma preocupação pessoal. Caso a produção da série resolva realmente pintar o corpo de Diop de laranja, o que faria sentido já que a personagem é laranja, então ela se juntaria à uma série de personagens femininas não-brancas em filmes de super-heróis que acabam sempre com o corpo pintado ou exotificado. Eu vou sempre celebrar o casting de mulheres não-brancas em séries e filmes de super-heróis, mas me incomoda um pouco o modo como elas muitas vezes acabam caindo em personagens que ou são de cores não humanas, ou acabam tendo um design que às retira do padrão humano, enquanto personagens femininas brancas são majoritariamente só humanas. Isso me levanta o sentimento de desumanização dessas personagens e de que essas mulheres não-brancas podem existir dentro do mundo live action de super-heróis, contanto que a sua etnia não seja muito aparente.

Obviamente, eu estou muito feliz com a escolha da atriz para a personagem. Vale lembrar que a DC, na televisão, possui uma representação negra bem interessante e não tem mostrado medo de trazer atrizes negras para interpretar personagens originalmente de outras etnias – vide Iris West. Obviamente o caso de estelar é um pouco diferente, já que ela é laranja, mas ainda assim é muito bom ver mulheres não-brancas assumindo papéis que tradicionalmente elas não receberiam.

Apesar de eu achar que é bem óbvio que a pele da Estelar é LARANJA, algumas pessoas ainda estão confusas sobre isso. Então aqui vai um exemplo que vai deixar tudo mais evidente. Nesta ilustração abaixo nós temos Donna Troy, branca, abraçando Estelar, LARANJA.

Até mais! 😉

 

RESENHA: O MÍNIMO PARA VIVER

Desde que o trailer d’ O mínimo para viver começou a ser divulgado pela Netflix, as redes sociais, principalmente o Facebook, ficaram polvorosas por um certo receio de que o filme abordasse de maneira superficial e problemática uma doença tão grave, no caso a anorexia, de forma leviana, como a depressão e o suicídio foram tratados em 13 reasons why. Todavia, o filme nada tem a ver com o seriado, pois não se trata de uma produção original de um dos maiores serviços de streaming de vídeos. O mínimo para viver, escrito e dirigido por Marti Noxon, foi lançado em janeiro de 2017 no Festival de Sundance, concorrendo a categoria de “filmes dramáticos americanos”, e só depois teve seus direitos comprados pela Netflix.

O roteiro foi baseado na própria luta contra transtornos alimentares que Noxon sofreu durante uma fase de sua vida. Além disso, a protagonista da obra é interpretada pela atriz Lily Collins, que também enfrentou a anorexia. Logo, de forma bastante pré-concebida, pode-se pensar que todos os erros que são apontados em 13 reasons não irão aparecer no filme, já que, aparentemente, o assunto está sendo tratado e interpretado por pessoas que conviveram com a doença. De fato, é isso que ocorre, pois já ao iniciar o filme, você se depara com um aviso explicitando que as imagens ali representadas podem ser nocivas dado a exatidão de como elas são apresentadas. Desse modo, se você não possui uma boa convivência com sua imagem corporal, o melhor a se fazer é não assisti-lo, ou não vê-lo desacompanhado.

Apesar de ser intenso e cruel, o enredo não peca ao exagerar na representação da doença e nem em torna-la algo agradável. A trama gira em torno de Ellen, uma garota de 20 anos que sofre de anorexia. Ela tenta, por meio de vários tratamentos, buscar uma cura, mas sem sucesso, o que desencadeia a ação do filme, pois a personagem irá se deparar com um problema: voltando para casa, Ellen terá de engordar ou ir embora viver com a mãe. Só que a vida com a família de seu pai, que não aparece no filme e nem nome tem, não é fácil. A madrasta, Susan, interpretada por Carrie Preston, busca a melhora da enteada apenas para se livrar de um estorvo – como Ellen chega a dizer em um dado momento, ela não é mais uma pessoa, mas sim um problema. É possível notar que Susan tem um certo desprezo pela figura de Ellen, chegando até a fazer analogias estapafúrdias sobre o porquê da garota não se alimentar. Até uma parte do enredo, temos a sensação de que a única pessoa que realmente espera a melhora da protagonista, de forma não egoísta, é sua meia-irmã, Kelly, encenada por Liana Liberato.

Como última tentativa de (sobre)viver, Ellen aceita um tratamento, digamos, um pouco excêntrico, com o médico William Beckman, papel de Keanu Reeves. Na clínica de reabilitação, a protagonista encontra outros pacientes, cada qual com uma história distinta: Luke, Megan, Anna, Tracy e Pearl, interpretados, respectivamente, por Alex Sharp, Leslie Bibb, Kathryn Prescott, Ciara Quinn Bravo e Maya Eshet.

O filme peca ao colocar um envolvimento amoroso entre Ellen e Luke, chegando a ser bastante problemática a forma como Luke vê a protagonista: para ele, ela é o único motivo para melhorar, deixando-a desconfortável com esse novo “peso” em suas costas, afinal, não há mais só a preocupação em não desapontar os familiares e tentar se curar, mas também em ser responsável pela melhora de outro. Tirando esse detalhe, a história é muito boa e muito bem trabalhada.

Por último, vale aqui uma ressalva para o título brasileiro do filme: o mínimo para viver. Em muitos casos, transtornos alimentares podem durar anos por causa de um ciclo que se constitui em restrição alimentar e processos compulsivos, gerando o mínimo considerado para sobreviver, o que dificulta ainda mais o tratamento do paciente, por esse acreditar que está no controle da situação.

E OS GATILHOS?

Falando agora de forma mais pessoal, desde que eu vi o trailer, soube que seria difícil ter coragem para assisti-lo, pois sofro com transtornos alimentares. Confesso que assim como algumas pessoas, cheguei a pensar que fosse errada a ideia de um filme que mostrasse com tamanha realidade o que uma pessoa com algum distúrbio envolvendo imagem corporal e alimentação passa. Todavia, esse é um assunto que precisa ser discutido urgentemente.

Em uma entrevista recente, Lily Collins chegou a comentar a preocupação de sua mãe com o novo processo de emagrecimento pelo qual a atriz estava passando, mas, dessa vez, para interpretar a personagem. Ela ainda disse que, um dia, saindo de casa, foi parada por uma pessoa que a elogiou por ter emagrecido. A atriz ainda tentou explicar que havia feito aquilo por causa do filme, mas recebeu como resposta “não, eu quero saber o que você está fazendo, pois está ótima!”, o que só confirmou a necessidade de uma discussão mais profunda acerca do assunto.

Por fim, procurando uma visão de um psicólogo sobre a forma como a doença é trabalhada no enredo, encontrei uma crítica da psicóloga Cecília Dassi, que explicita de modo bastante lúcido o que ela pensa sobre o assunto:

 

“[…] de modo geral, ele [o filme] retrata de uma forma legal, produtiva e correta a imagem dos transtornos alimentares, mas eu acho ele muito forte, acho que é um filme intenso que é muito bom para quem não entende nada sobre transtornos alimentares para poderem compreender que não é uma palhaçada […]”.

 

 

Para conhecer e ler literaturas africanas – PARTE I

Erroneamente, é possível encontrar em festivais literários ou até mesmo em artigos de jornais a colocação de literatura africana como literatura marginal ou periférica. Isso ocorreu esse ano, na 12ª Feira Nacional do Livros de Poços de Caldas, que teve uma mesa-redonda nomeada por “Mulheres na Literatura Marginal/Periférica”, tendo como debatedoras Luz Ribeiro, Mel Duarte, Roberta Estrela D’alva – escritoras brasileiras que fazem parte da chamada literatura marginal ou periférica –, e Paulina Chiziane, escritora moçambicana que é considerada cânone tanto nos países de literaturas africanas em língua portuguesa quanto na tradição de escrita de autoria feminina africana.

O que leva um evento de tão grande porte colocar uma escritora como Paulina em uma mesa que pouco – ou nada – tem a ver com sua história literária? Talvez o motivo, de modo bastante preconceituoso, deva ser o fato de todas essas escritoras serem negras e, dessa forma, serem vistas e lidas com uma trajetória parecida.

É assim que retornamos à afirmação feita no começo do texto: é errôneo colocar literaturas africanas na mesma caixa da literatura marginal. Se isso é feito é porque, infelizmente, apesar de ser fácil encontrar livros de escritores africanos nas livrarias, ainda é difícil, mesmo com a lei 10.639/03, que fala sobre a obrigatoriedade do ensino de cultura e história africana e indígena nas escolas e universidades brasileiras, ver pessoas que se interessam por literaturas africanas. E literaturas africanas está no plural porque, afinal de contas, há 54 países no continente africano, cada um com inúmeras peculiaridades que os fazem diferentes entre e em si.

Além disso, não podemos nos esquecer de que o Nobel de Literatura já foi entregue para quatro escritores africanos, tanto da chamada África setentrional, a parte norte do continente, quanto da África subsaariana, que é toda a parte que se encontra abaixo do Deserto do Saara.

 

Os países com um livrinho foram os que receberam o Prêmio Nobel de Literatura: o nigeriano Wole Soyinka foi o primeiro, em 1986; o egípcio Naguib Mahfouz o segundo, em 1988; e os sul-africanos Nadine Gordimer e J. M. Coetzee foram, respectivamente, o terceiro, em 1991, e quarto, em 2003, a ganharem o Prêmio.

Sendo assim, para sair dessa nomenclatura um tanto preguiçosa que andam dando às literaturas africanas é que essa lista foi feita. Todos os livros aqui sugeridos podem ser encontrados em sebos ou livrarias:

 

1. Niketche, uma história de poligamia – Paulina Chiziane

Paulina foi a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique. Enfrentou o preconceito da sociedade que não aceitava que uma mulher pudesse escrever. Ainda mais escrever sobre amor, sexo e desejo, algumas premissas que são encontradas em seus livros.

Infelizmente, só temos um livro publicado dela no Brasil, Niketche, uma história de poligamia, que mostra a protagonista Rami tentando reconquistar seu marido, o comandante de polícia Tony. Cansada de ser humilhada pelo marido, Rami decide ir atrás do que ela pensa ser o problema de seu casamento: Julieta, amante de Tony. Todavia, ao chegar na casa de Ju, Rami descobre que Tony possui outra amante e, indo de casa em casa, o que antes era uma monogamia, torna-se uma poligamia representada por um pentágono.

 

2. Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda é nigeriana e tem inúmeros livros publicados no Brasil, então não vai ser difícil encontrá-la! Aqui indicarei o primeiro que eu li e que me conquistou.

Americanah conta a história da nigeriana Ifemelu que se muda para os Estados Unidos para terminar os estudos. E é nesse país estrangeiro que Ifemelu se descobre como mulher negra e o que isso implica na sua vivência.

 

3. Amargos como os frutos: poesia reunida – Ana Paula Tavares

Como o próprio nome diz, Amargos como os frutos é uma antologia de toda produção poética da escritora angolana Paula Tavares, que também escreve crônicas. Sua poesia é marcada por um forte apelo erótico e por tratar da mulher mumuíla, da comunidade Mumuíla, na província de Huíla.

 

4. Mayombe – Pepetela

Assim como Paula Tavares, Pepetela é angolano. Mayombe foi escrito em 1971, ainda durante a guerra de independência de Angola contra a ocupação portuguesa. Apesar do momento eufórico de celebração para um futuro possivelmente melhor, o livro é marcado por uma espécie de disforia, o que dá o tom um pouco adivinhatório da desesperança que assolaria o país alguns anos após a independência. Além disso, ele foi publicado apenas em 1980.

A história narra o cotidiano de um grupo de guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), mostrando os conflitos internos de cada personagem.

 

5. Aya de Yopougon – Marguerite Abouet

HQ que ganhou o Prêmio de Melhor álbum de estreia no Festival Internacional de HQ de Angoulemê, em 2006, Aya de Yopougon conta a história de três amigas que vivem em Yop City, subúrbio de Abidjan, capital da Costa do Marfim. Assim, saindo do clichê do continente africano marcado pela fome e guerra, vemos que a vida dessas três amigas, assim como de qualquer adolescente, é marcada por dilemas como amor e dúvidas sobre o futuro.

Infelizmente só duas edições foram publicadas no Brasil, mas mesmo assim vale muito a pena ler!

 

Aguardem a segunda parte da lista!

PlayStation será patrocinadora da London Pride 2017

Na última sexta-feira (03), a PlayStation UK anunciou em seu Twitter, fazendo uso da hashtag #ForALLthePlayers, o patrocínio a London Pride deste ano.

A London Pride é uma celebração do orgulho LGBT promovida anualmente na cidade de Londres, Reino Unido. As festividades tem duração de uma quinzena e iniciarão no dia 24 de junho. O evento será encerrado pela grande Parada da Diversidade de Londres, com data marcada para o sábado, 8 de julho.

De acordo com Eric Whelan, que gerencia as redes sociais da PlayStation UK, em geral, as respostas ao anúncio tem sido positivas. “Fiquei fora da internet por uns dias e voltei para ver um retorno incrível sobre o #ForALLthePlayers”, comentou em seu perfil pessoal no Twitter.

“A London Pride é o melhor lugar para mostrar  a importância da inclusão para a PlayStation. Não é uma medida corporativa. #ForALLthePlayers é um projeto da equipe do Reino Unido e do grupo LGBT da PSEU, então significa muito para nós”, afirmou Whelan.

 

Fonte: Eurogamer

Resenha: Dear White People (2014)

Em outubro de 2014, Dear White People estreava nos cinemas americanos depois de ter feito grande sucesso em janeiro deste mesmo ano no Festival Sundance de Cinema, no qual fora premiado na categoria US Dramatic. Dirigido e roteirizado pelo cineasta Justin Simien, que ganhou o prêmio de Best First Play, o filme busca, por meio de uma crítica ácida, evidenciar o racismo dentro de uma grande universidade estadunidense, a University Winchester, criada ficcionalmente, mas que tem muitas – senão todas – semelhanças com as grandes instituições de ensino que compõem a famosa Ivy League.

A premissa que deu origem ao filme, como aparece nos minutos finais do longa-metragem, foram as inúmeras ocorrências de blackface em festas de repúblicas americanas. Para aqueles que não sabem, o termo blackface refere-se, em um primeiro momento, às caracterizações feitas por homens brancos para representar homens negros, que podiam ser escravizados ou não, durante apresentações circenses. Assim, o rosto era pintado de preto e a boca com um contorno vermelho exagerado. No Brasil, além de algumas vezes esse triste fato ocorrer ainda na televisão, também encontramos esse tipo de caricatura racista no carnaval, com muitos foliões se fantasiando de mulher negra, e, assim como nos Estados Unidos, o blackface também pode ser encontrado em festas universitárias.

E é mostrando a repercussão negativa de uma festa de Halloween organizada por estudantes brancos da University Winchester com a temática “afro-americana” e que pedia para os convidados liberarem seu negro interior, que Dear White People começa.

A trama, dividida em capítulos, foca-se na vida de quatro estudantes negros que precisam lutar contra o racismo dentro da instituição de ensino, além de enfrentar seus próprios problemas pessoais.

Samantha “Sam” White, estudante de Cinema, é quem comanda o programa de rádio que dá nome à obra cinematográfica. Protagonizada por Tessa Thompson, a personagem é a mais ácida e crítica dentro do enredo, beirando ao caricato da mulher negra briguenta e nervosa. Todavia, esse aspecto não passa de uma máscara criada pela própria Sam, já que no decorrer do filme podemos conhecer melhor os seus anseios e angústias. É interessante perceber que seu sobrenome reflete esses problemas subjetivos: Samantha é uma garota negra de pele mais clara que tenta a qualquer custo fingir algo que não é, desde suas preferências fílmicas, pois ela diz para todo mundo que seu diretor preferido é Spike Lee, cineasta negro, quando na verdade é Ingmar Bergman, cineasta sueco, musicais, dentre eles, o fato de ouvir Taylor Swift escondida. Além disso, esconde seu envolvimento amoroso com um garoto branco de sua turma, tudo para que seu papel na militância estudantil negra não seja manchado. Inclusive, esse é um dos motivos pelos quais a faz querer disputar o cargo de presidente da república Armstrong-Parker, local que tradicionalmente recebia apenas alunos negros.

Nesse contexto, Troy Fairbanks, interpretado por Brandon Bell, aparece. Troy é estudante de Ciências Políticas e concorria a uma reeleição para o cargo de presidente da Armstrong-Parker. Além disso, é filho do reitor dos estudantes, Dean Fairbanks, o que aumenta ainda mais a pressão sobre ele, já que muitas vezes seu pai o exibe para que consiga angariar dinheiro à universidade. Em um dos momentos mais interessante do conflito entre pai e filho, é quando o pai de Troy comenta a sua rivalidade com o presidente da University Winchester: “Fletcher e eu nos formamos com um ano de diferença. Ele quase não passou. Eu me formei com honras e méritos. Agora, quem é o reitor e   quem é o presidente?”. Fica evidente, nesta cena, que por mais esforços que uma pessoa negra faça, ela nunca será reconhecida com a facilidade de uma pessoa branca. Isso se ela for reconhecida.

A outra personagem feminina negra é Colandrea “Coco” Conners, desempenhada pela atriz Teyonah Parris, que é praticamente o oposto de Sam. Coco é estudante de Economia, possui um canal no Youtube e tenta chamar a atenção de um olheiro virtual para que consiga participar de um reality show, busca de todas as formas anular qualquer ligação negra que possa ter, sendo caracterizada como uma mulher negra embranquecida. Além disso, ela detesta o fato de ter que ficar na Armstrong-Parker, já que não quer se envolver com negros. É nítida a tensão cruel pela qual a personagem passa a trama inteira, pois começa a ficar dividida entre  posicionar-se contra os episódios de racismo que passa ou permanecer calada para ser aceita pelos estudantes brancos.

Lionel Higgins, protagonizado por Tyler James Williams, é a última peça do quarteto de protagonistas e também traz à tona uma importante discussão dentro da trama: o que é ser gay dentro do movimento negro. Em um primeiro momento, Lionel mora em uma república de estudantes brancos, a Pastiche, que é a responsável pela festa de Hallowen exposta no início do texto, e após alguns problemas na moradia, começando pelo fato dele ser humilhado publicamente com uma mensagem na secretária eletrônica do telefone da república por causa de sua orientação sexual, o reitor pergunta se Higgins gostaria de se mudar para a Armstrong-Parker e ele responde que “a pior coisa sobre o colegial, e acredite em mim, senhor, a lista é bem longa, eram os garotos negros”. Todavia, no decorrer do filme, Lionel acaba sendo acolhido pelos alunos negros.

É por meio dele que vemos a discussão sobre tocar em cabelos cacheados e crespos, já que por possui um black power bem estilo anos 50, várias personagens – todas brancas – querem ficar mexendo em seu cabelo. Além disso, uma das melhores cenas do longa é protagonizada por essa personagem e só não conto porque seria um grande spoiler.

Dos embates que acontecem no filme, o mais interessante é quando todas as personagens estão juntas no refeitório da Armstrong-Parker e começam a falar sobre racismo, cada um dando uma posição diferente ao debate: a discussão se inicia com os colegas de Sam comentando que se sentem irritados quando os professores os confundem com outros alunos negros. Coco, então, questiona o porquê deles estarem culpando os brancos por tudo, já que a questão se resolveria se o aluno fizesse de tudo para ser o melhor da sala e não se deixar ser comparado. Troy, de certa forma, também endossa a fala de Coco e acrescenta que nunca presenciou um episódio racista, então não tem pelo que argumentar. Sam, que até então só observava a situação, envolve-se na conversa explicando que o racismo ainda existe e está presente na universidade, só que de forma mais camuflada. Lionel faz uma pequena participação no debate comentando que é só ver o que os jovens republicanos pensam sobre direitos gays para ver até que ponto esse linchamento social realmente não existe. O problema acontece quando uma personagem branca, Kurt Fletcher, decide falar e dar sua opinião:

Olhe seus grandes atletas, estrelas de cinema… Que merda, meu presidente é negro. Às vezes eu penso que a coisa mais difícil de ser, no mercado de trabalho americano hoje, é um branco educado. E olhas, vocês ainda têm ações afirmativas, só estou dizendo.

Parece que o diretor se inspirou em Jair Bolsonaro nessa parte, não? Enfim, esse trecho é interessante para perceber alguns pontos de convergência entre a sociedade americana e a brasileira, já que ambas acreditam que não há mais racismo em seus respectivos países, apesar do racismo nos Estados Unidos ser gritante, vide os protestos de 2015 e 2016, como o movimento Black Lives Matter.

Sim, todas as vidas importam, mas nós estamos focados nos negros porque é muito aparente que nosso sistema judicial não sabe disso.

De modo geral, o filme tem um roteiro bem construído, tanto que são notáveis as mudanças pelas quais todas as personagens principais passam. Vale muito a pena ver e refletir sobre os diversos pontos apresentados. E, bom, em 2016 a Netflix confirmou que faria uma série baseada no filme, ficando também a cargo de Justin Simien. Semana passada foi finalmente divulgado um teaser do seriado e não precisa nem falar que os brancos americanos surtaram, né?

A importância de minorias estarem produzindo games

Chegou a hora de nós refletirmos sobre a ideia tão antiga formada de se fazer jogos digitais, de homens cisgêneros para homens cisgêneros. Se o mundo dos games gira em torno dos homens cis, por que devemos defender a ideia de games serem mais representativos? É o que a gente vai ver agora.

Vamos pensar um pouco no mercado de games na nossa cultura brasileira. Ter um console ou jogar videogame é um privilégio. Desde os anos 70, quando o primeiro console produzido em terras gringas chegou ao brasil (TeleJogo), até nos dias atuais, onde vemos o público jovem investir seu dinheiro em jogos para smartphones, PC e outras plataformas. Os impostos sobre esses produtos que eram e são importados – ou até mesmo os produzidos em industrias brasileiras na Zona Franca de Manaus dobram de preço quando vendidos em lojas de eletroeletrônicos e de games no Brasil. E também uma pesquisa feita pelo Busca Descontos em 2015 mostra que: 48% dos usuários do site que são brasileiros gastam, aproximadamente, até R$150 por mês em jogos. Sabendo que o salário mínimo do ano de 2016 é de R$880, podemos ver que nós brasileiros gastamos MUITO com games.  É por isso que,  gastar com jogos digitais é um privilégio numa sociedade onde aluguel, contas de água, de luz, de internet e comida são muito caras conforme a inflação do país aumenta.

Nós sabemos também que, segundo a Pesquisa Game Brasil 2016, as mulheres cisgêneras são maioria no mundo gamer, já que, de 2.848 pessoas entrevistadas, 52,6% são mulheres que jogam videogames. Porém, infelizmente, não há nenhuma pesquisa para saber o alcance e interesse do público LGBTQ+ no mercado de games – já que, bom, as indústrias estão focando em homens cisgêneros o tempo todo e só agora estão olhando para as mulheres cisgêneras, que é apenas uma parcela de todas as outras pessoas que jogam jogos digitais.

Apesar dos números de consumidores brasileiros ser grande, ainda faltam pessoas representativas na produzindo games no Brasil e, talvez, no mundo. As minorias (mulheres cis, pobres, negrxs, indígenas, pessoas trans*, pessoas com identidades sexuais marginalizadas) ainda são uma minúscula parcela perto de produtores executivos, gamer designers, sound designers, músicos, artistas e modeladores 3D que existem nas AAA (indústrias e produtoras de games com maiores orçamentos e níveis de produção/promoção como Epic Games, Rockstar Games e outros) e no cenário indie.

E a importância de existirem minorias no meio gamer, além da oportunidade de emprego e crescimento de renda, é da chance dos games se tornarem mais uma ferramenta poderosa de discussão de temas da atualidade que necessitam ser debatidos. Além disso, com base no combate aos estereótipos, terá um grande avanço na criação de personagens, roteiros e cenários mais representativos, o que raramente temos nos jogos. Pessoas sendo contra a hiperssexualização e objetificação dos corpos ditos como femininos, o preconceito de etnias e raças e a apropriação cultural que sempre vemos por aí.

É claro que a indústria indie melhorou muito, mas ainda há pontos a se problematizar nos conteúdos produzidos de maneira independente, na forma com que essas produtoras de games e pessoas são impulsionadas,  e garantem um sucesso de vendas. Até porque, nós sabemos o quanto o mercado mundial silencia, boicota e exclui minorias com o potenciais à serem grandes profissionais que ganham dinheiro da mesma forma que a Elite sempre ganhou.

A falta de ambientes não tóxicos e acolhedores é também um grande problema que afasta potenciais à jogadorxs e poderia ser revertido se tivesse mais diversidade na indústria.  A todo momento, os ataques e as perseguições às minorias são relatos diariamente e considerados “naturalizados”. A comunidade gamer é extremamente machista, transfóbica, homofóbica, xenofóbica e principalmente elitista, pelo fato de ter condições para bancar esse hobby é um privilégio. Então, nós (minorias) temos de lidar com homens cisgêneros nos expondo, nos agredindo e nos desconsiderando, sendo gamers ou sendo profissionais da área.

E, entre os inúmeros problemas mundiais, aqui na nossa terrinha existe a falta de incentivo e recursos tecnológicos para que mais oportunidades de emprego e de formação de profissionais, que são minorias, se integrem no mercado mundial de jogos digitais. Os cursos são extremamente caros, inacessíveis para o pessoal que vive nas periferias ou que trabalha e ganha menos de dois salários mínimos. Apesar de, aqui em São Paulo, existirem iniciativas como o programa Recode e as FabLabs, que dão aulas de produção de games em diversas plataformas e engines, ainda falta programas educacionais profissionalizantes do Governo para a galera que quer estudar, produzir games, gerar renda e, consequentemente, tornar o mercado maior, mais representativo e mais empático.

Por ora, vamos continuar lutando para que a comunidade gamer seja menos arcaica e preconceituosa e seja mais tolerante e diversa. <3

As Caça-Fantasmas merecem o seu amor <3

Hoje a Sony FINALMENTE liberou o trailer de As Caça-Fantasmas e a internet foi a loucura. Um monte de gente amou o trailer, um monte de homem achou que ia “destruir a infância deles” e tive aquela crítica que fez sentido, então vamos por partes.

Eu amei o trailer. Fazia tempo que eu não me empolgava tanto com um trailer e As Caça-Fantasmas já está há muitos meses na minha lista de filmes mais esperados, com esse novo trailer então, foi para o topo. Eu lembro de assistir ao original quando criança e amar exatamente porque ele mexia com o sobrenatural e o terror, mas de uma forma divertida. Eu fui uma criança apaixonada por coisas bizarras como A Mosca e Predadores 2, então Os Caça-Fantasmas caiu como uma luva no meu gosto.

Hoje, adulta, eu vejo que o filme tem umas tantas piadas de gosto duvidoso e podia melhor em 100% a representação feminina no filme. Por isso eu fiquei extasiada quando anunciaram uma nova versão do filme, desta vez com um elenco majoritariamente feminino. Mulheres cientistas não são comumente bem representadas na mídia, e a possibilidade de ver isso num filme divertido e sci-fi/fantasia me deixou ainda mais animada.

Veio o trailer, eu dei aquela choraminga de emoção, ri e foi lindo. Porém, fiquei com a pulga atrás da orelha em um detalhe: Patty, personagem da comediante Leslie Jones, e única personagem negra do elenco principal, não é uma cientista. Ia ter sido tão incrivelmente mais inovador se ela fosse uma cientista, ia ser um passo tão importante para a representatividade da mulher negra nos filmes. Pelo trailer a impressão que fica é que Patty vai ser ao mesmo tempo a cola que vai ligar a equipe, e “from the hood”. Por mais engraçada que seja aquela piada do final do trailer, me deixou com um amarguinho de que talvez eles vão cair em cima do clichê da mulher negra exagerada. Eu espero que não, e vou aguardar ansiosa pra ver como essa personagem vai se desenvolver no filme.

patty-as-caça-fantasmas Dito tudo isso, o ódio que o filme vem recebendo dos homens não é justificado. Vi alguns usarem exatamente essa questão da personagem negra ser um estereótipo para desqualificar o filme. Ao que parece, no entanto, ela vai ter uma participação maior do que o personagem negro do filme original, o que só nisso (apesar de pequeno) já é um avanço na representação. Criticar a falta de representatividade negra no filme é MUITO VALIDO, questionar se eles vão cair num estereótipo manjado também, mas fazer isso como forma de desqualificar um filme que você só não gosta porque não sabe lidar com protagonismo feminino, não.

As ~críticas~ ao filme se baseiam quase todas em: “Mas é um remake”, “porque não fazer uma franquia só de mulheres”, “não gostei vai ser ruim”, “um clássico estragado”, “vai ser só mais um blockbuster, nada de inovador” e, o meu favorito até agora, “A piada com vômito foi apelativa”. Esse último amigo parece não ter assistido aos filmes originais, mas serve para notar que mulheres só podem fazer um tipo de piada, se elas fazem piadas que são consideradas “nojentas”, não pode. Porque aí é apelação. Homem pode fazer piada de peido, de vômito, de masturbação. Mas deus nos livre se uma mina fizer piada com vômito. É interessante notar também que Tartarugas Ninja é só mais um blockbuster. Transformers também. Homem de Ferro também. Vingadores e Batman vs Superman a mesma coisa. Mas quando é um filme formado exclusivamente por minas, não pode.

as-caça-fantamas-vomito

Eu amo blockbusters. Eu falo sem medo que eu adoro o primeiro Transformers. É um filme cheio de problemas, mas é divertido. Eu vou problematizar até o fim, mas eu gosto. E eu adoro o Caça-Fantasmas original, e estou amando esse novo twist na franquia. A começar que, como já disse antes, é inovador, já que nós quase nunca (ou nunca) vimos um filme de ação dessas proporções em que todas as protagonistas são mulheres. Porra, isso é animal de mais. E quando você tem um filme de ação blockbuster que sai do padrão homem-branco já é o suficiente para chamar a minha atenção, já é mais do que o filme de ação tradicional. Então sim. As Caça-Fantasmas vai ser um blockbusterzão, e vai ser lindo.

Tem uma quantidade infindável de ecto-male tear na internet. Elas estão no youtube, estão nos posts sobre o trailer no facebook, no twitter e tudo mais. Então proponho uma ação, vamos lotar os posts sobre o filme, os compartilhamentos, os comentários, vamos dar like no vídeo do youtube, vamos lotar tudo com todo tipo de comentário positivo. Não vamos deixar o ódio ridículo desses nerds machistinhas dominarem. Vamos nos comunicar com a Sony Pictures, vamos fazê-los escutar o quão bem quisto esse filme é. Porque esse filme merece nosso amor. <3

Caso você anda não tenha visto esse trailer-maravilha:

 

Sim Oscar, eu vou te boicotar!

Como sabemos semana passada a lista de indicados ao Oscar desse ano foi divulgada, e pelo segundo ano consecutivo nenhum negro foi indicado, em nenhuma categoria. Quando conferi a lista, identifiquei logo a ausência de negros entre os indicados, e pensei: Hollywhite ignorando pessoas negras? *Disapointed but not surprised*

Assim que a lista foi divulgada, a campanha #OscarsSoWhite entrou nos treeding topics no twitter, e na última segunda-feira o diretor Spike Lee e Jada Pinkett Smith divulgaram que vão fazer boicote ao Oscar, Will Smith falou que vai boicotar também. E eu, Rafaela Lopes, que desde 2006 ou 2007 cheguei a perder aulas na segunda-feira pós-Oscars assistindo ao prêmio, resolvi fazer o mesmo pois antes de ser amante de cinema, e aspirante a cineasta  sou mulher e negra.

Em resposta as campanhas muita gente branca, ou contra o boicote do Oscar argumentou que “O Oscar é mesmo um prêmio injusto”, “Não é parâmetro para talento”, “Se estão achando ruim, criem seus próprios prêmios”, “Já ouviram falar em mérito?”, e o mais bizarro “Chineses não estão reclamando por não terem sido indicados”.  É inegável que o Oscar é um prêmio injusto e contraditório, não é necessário citar casos recentes, ou antigos pra constatar prêmios entregues a filmes/atores/atrizes “mais ou menos” que nem deveriam ter disputado. Mas não só concorreram ao prêmio como também levaram, e em cima de gente muito mais talentosa.

Crítica "combo", por Ribs
Crítica “combo”, por Ribs

Sim, nós negros poderíamos criar prêmios para nós mesmos, e na verdade eles já existem, mas a questão é: O Oscar é a premiação mais importante do mundo, porque digo isso com tanta certeza? O Oscar é constantemente usado como referência para outras premiações, quando alguém quer explicar o Grammy fala que é o “Oscar da música”, premiações importantes de futebol que eu não sei o nome? “Oscar do futebol” César? “Oscar francês”. Emmy, Palma de Ouro, Cannes, e outros existem, mas o Oscar é o mais importante.

Levando a importância do Oscar em consideração, apenas quatorze negros ganharam o Oscar em 88 edições, apenas 7, SETE mulheres negras ganharam Oscars, apenas uma pelo papel de melhor atriz principal, as outras  ganharam por papéis de coadjuvantes. É notável que existem os tipo de filmes “favoritos” que concorrem ao Oscars: filmes sobre personagens históricos, filmes que tenham homens como protagonistas (brancos, é claro), e nos últimos anos filmes com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence.  Também existem os tipos de filmes/papéis “favoritos” para atores negros concorrerem a um Oscar, vou enfatizar os papéis femininos: mãe abusiva, empregada ou babá, e é claro escravas (nossa, um pouco de historicidade aqui).

Faltou a Jennifer Hudson nessa imagem, que ganhou o Oscar por interpretar uma cantora.
Faltou a Jennifer Hudson nessa imagem, que ganhou o Oscar por interpretar uma cantora.

Porque enfatizer? Reforça estereótipos, analisando os vencedores brancos nos últimos anos temos: professoras (Para Sempre Alice, e Boyhood), personagens históricos (O Discurso do Rei, Dama de Ferro, A Teoria de Tudo), bailarinas (Cisne Negro), escritoras (As Horas), cantoras (Johny e June, Piaf – Um hino ao amor). Enfim, pessoas comuns, com carreiras comuns, e quando não, pessoas que tem peso historicamente, enquanto isso as mulheres negras ficam num padrão estereotipado, nós não podemos ser professoras? Médicas? Bailarinas? Escritoras? Porque não fazer um filme sobre a Angela Davis ou Rosa Parks? Nós também possuímos personagens históricos.

Os homens negros por sua vez possuem um pouco mais de “sorte”, os atores nominados com Oscars foram por papéis de policiais, atletas, e personagens históricos (O último rei da Escócia, Ray). Não que policiais e atletas não sejam papéis estereotipados, mas com certeza são melhores que mães abusivas e empregadas. E falando de personagens históricos ano passado havia uma grande expectativa em relação ao desempenho de David Oyelowo como Martin Luther King em Selma, mas o ator nem mesmo foi indicado.

O mesmo aconteceu com a diretora do filme, Ava DuVernay que não foi indicada na categoria Diretor, embora o filme tenha sido indicado na categoria melhor filme, sendo que os indicados por melhor filme, quase sempre são indicados por melhor Diretor também. Mas preciso lembrar que durante 88 anos de existência do prêmio, apenas uma mulher, UMA foi nominada com o prêmio de melhor diretora. Então, imagina só, indicar uma mulher como diretora? E pior negra? É claro que a comissão de 94% homens brancos da Academia não deixaria isso acontecer.
https://youtu.be/naiWVDvZ7uI
Não estamos cobrando representatividade no Oscar para interpretações ruins, muito pelo contrário, ninguém quer Oscars injustos com concorrentes muito melhores, como aconteceu com c e r t o s atores e atrizes. A questão é que tanto ano passado, quanto esse ano atores negros interpretaram papéis de peso, aclamados pela critica, Michael B Jordan (Creed), Will Smith (Um Homem entre Gigantes) Idris Elba (Beasts of Nation), mas quando a lista saiu, o nome de nenhum deles estava lá. Em compensação um homem cisgênero sendo indicado por interpretar uma mulher, se fez presente. Aqui não se trata de um papel que não existe, como pontuou muito bem Viola Davis no seu discurso do Emmy (como os negros vão ganhar prêmios, se não contratam negros?), se trata de uma enorme negligência por parte da Academia.

Depois de toda a polêmica, a presidente da Academia Cheryl Boone Isaacs (primeira mulher negra a presidir), publicou uma carta dizendo que a banca julgadora será reestruturada, para tentar trazer mais representatividade e diversidade ao prêmio. Eu realmente espero que isso aconteça, porque enquanto o Oscar continuar a ser esse prêmio racista e machista, que só reforça estereótipos  eu vou boicota-lo.