Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Valquíria é bissexual, mas Thor: Ragnarok não te diz isso

Eu já começo esse texto com um tom de irritação, como vocês podem perceber. O bom e velho desapontada, porém não surpresa.

Tessa Thompson, atriz da Valquíria em Thor: Ragnarok, declarou no twitter que sua personagem era bissexual no filme, assim como no quadrinho. Eu não li nenhum dos quadrinhos de Thor e fui pega de surpresa, então quando finalmente fui assistir ao filme, fiquei de olho em qualquer coisa que pudesse indicar a sexualidade da personagem. Como uma pessoa que está exausta de procurar detalhes que indiquem qualquer tipo de representação LGBT+ na mídia, eu estava preparada para pegar os detalhes, e depois falar sobre como isso não é o suficiente, porque não é.

Há apenas uma cena, em certo momento, que se você tiver boa vontade, pode imaginar que talvez indique que Valquíria tinha um relacionamento com outra mulher. São segundos e, como eu disse, exige boa vontade, porque podia simplesmente não ser nada.

Há algum tempo, li essa entrevista da Tessa Thompson falando mais sobre o assunto. A atriz diz que falou com o diretor, Taika Waititi, sobre a personagem ser bissexual e eles fizeram uma cena em que, em certo momento, dava para ver uma mulher saindo do quarto de Valquíria, que daria a entender que elas tinham passado a noite juntas. Waititi manteve a cena o máximo que pode, mas eventualmente teve que cortar porque “distrairia o público da revelação vital naquela cena”.

Eu me pergunto como alguns segundos de uma mulher saindo do quarto de Valquíria atrapalharia qualquer coisa no filme. Alguns momentos que seriam o suficiente para nos fazer entender que a personagem é LGBT+, o que seria ótimo, considerando que a Valquíria é uma personagem com um arco interessante e que de várias formas foge de estereótipos.

Não conheço todo o trabalho de Waititi, mas dou o benefício da dúvida. Por outra matérias que li dele, imagino que o diretor de fato tentou manter a cena, mas considerando que estamos falando da Marvel, que ainda precisa caminhar muito no ponto de vista de diversidade, não me surpreenderia que ordens de cima tivessem cortado essa cena. Nós simplesmente não podemos ter coisas legais.

Esse episódio é apenas um dos inúmeros exemplos de como a representatividade LGBT+ é vista, como algo que não precisa ser falado e, se precisa, que seja por algo fora do produto em si, ou com um subtexto que deixa aberto à interpretações. Não ia atrapalhar em nada essa, ou outra cena, que mostrasse a sexualidade de Valquíria. Nós raramente temos uma personagem bissexual com tanto destaque, em uma franquia grande como essa. O fato de que é algo que podia ser resolvido de forma simples é o que acaba me incomodando mais.

Sim, a cena que Valquíria estende a mão para a companheira de batalha, para mim, indicava que elas eram amantes de alguma forma. Em parte por como a cena foi construída, mas também porque eu estava procurando qualquer indício para ver a sexualidade da personagem. Mas isso sou eu, pessoa que não só está treinada para procurar essas coisas, mas também que está cansada de ter que fazer isso. Para o resto do público, seria muito mais interessante se eles deixassem esse fato exposto de forma mais óbvia.

Eu não culpo ninguém especificamente por essa decisão, qualquer pessoa que tenha algum contato com área de entretenimento sabe que, se alguém acima de você diz não, é não. Também não posso medir o quanto Waititi poderia ter interferido nessa questão, o fato dele ter topado ouvir Thompson me parece um bom sinal, mas infelizmente não vimos isso no corte final. Personagens LGBT+ precisam ter a mesma chance de expressar sua sexualidade na mídia como pessoas hétero têm por tantos anos.

Nada disso muda o fato de Valquíria ser, além de uma personagem incrível, uma mulher bissexual, e eu vou fazer questão de não deixar ninguém esquecer, ainda mais quando a atriz fala de forma tão abertamente e feliz sobre isso. Mas é Marvel, vocês perderam a chance de fazer algo muito legal. Era simples e fácil, mas o conservadorismo ainda falou mais alto.

Thor: Ragnarok | Crítica

Havia uma boa expectativa para esse novo Thor. Taika Waititi é um bom diretor, os trailers estavam agradando aos fãs, o filme parecia que ia abraçar a comédia e, até certo ponto, o brega. Independente de gosto pessoal, é uma fórmula que boa parte dos fãs da Marvel tem gostado cada vez mais.

Thor está tentando impedir o Ragnarok. Depois que descobre que Loki está no lugar de Odin, ele e o irmão vão até a Terra buscar o pai. O problema é que Hela, a deusa da morte e filha mais velha de Odin, aparece. Agora Thor e Loki terão que impedí-la de tomar Asgard e destruir todo o seu povo. Essa crítica não tem spoilers.

O tema que as pessoas mais tem falado é o quão engraçado o filme é. Todo mundo sabe que a Marvel sempre puxa o humor, além de que todo mundo já deveria saber que piadas e humor não faz um filme bom ou ruim. No caso de Thor, especificamente, o humor sempre ajudou. O segundo filme é o que puxou mais para o lado do sério e também o que menos funcionou. Um dos grandes acertos de Thor: Ragnarok é abraçar esse aspecto de não se levar a sério demais.

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Mãe! | Crítica

Mãe! é um filme que tem dado o que falar nos últimos tempos. Aparentemente, é impossível sair do cinema sem uma opinião forte, você ama ou odeia. Antes de chegar na minha opinião pessoal, vou procurar fazer a crítica mais objetiva possível. Por enquanto, não vou falar de nenhum spoiler.

De fato é complicado falar sobre o que o filme é sem estragar a experiência, mas basicamente: Jennifer Lawrence, a mãe, (os personagens não têm nome, então vou usar o dos atores algumas vezes) mora nessa casa, no meio do nada, junto com seu marido, Javier Bardem, um poeta que está há algum tempo sem conseguir escrever. Mãe está reconstruindo a casa, que foi queimada e fez o marido perder tudo. Eles aparentemente vivem bem, até que Ed Harris, que é médico, chega na casa e é convidado a ficar lá pelo poeta. Mãe não fica feliz, e as coisas pioram quando a esposa do médico, Michelle Pfeiffer, também chega na casa.

Assim como a mãe, nós estamos perdidos nos inúmeros acontecimentos que vão acontecer ali. A câmera sempre acompanha Jennifer Lawrence, às vezes parado em seu rosto, outras vezes mostrando o que ela está vendo. Um dos grandes pontos positivos do filme é a atuação de Jennifer Lawrence, que coloca a emoção necessária em cada cena, dando movimento inclusive para momentos que são mais longos do que precisariam ser. As atuações como um todo se destacam, por mais que em boa parte do filme você não entenda porque os personagens agem de determinada forma, a atuação é o que faz o passo do filme não se perder.

Por outro lado, os personagens não tem profundidade. Sim, eu sei que há todo um significado por trás da história do filme e da identidade daqueles que estamos vendo, mas em termos de arco do personagem, a maioria deles termina no mesmo ponto em que começaram. Eles não passam de peças para o significado final da obra, o que até funciona, porém não vai além, não vemos mudanças e quando elas parecem que vão acontecer, principalmente com a protagonista, a personagem apenas volta para o ponto de seu arco que estava no começo.

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A Torre Negra – Se fosse da década de 80, hoje seria um clássico.

Se você veio até aqui achando que eu ia cavacar desculpas para dizer que eu gostei do filme, sinto muito. A Torre Negra é um filme medíocre, com uma narrativa cheia de exposição, com personagens femininas estereotipadas, caindo em todos os clichês e que não traz absolutamente nada de novo ao mundo das histórias que misturam sci-fi e fantasia. Pelo que eu conheço da história do livro, A Torre Negra é também uma péssima adaptação.

Dito tudo isso, se esse filme tivesse sido lançado na década de 80, hoje ele seria considerado um clássico geracional. O pôster, daqueles que são novos, mas têm a marquinha digital para fingir que é velho, ia estar emoldurado na parede de muito marmanjo nerd. Porque no fundo, A Torre Negra é a cópia cuspida e escarrada dos clássicos infanto-juvenis da década de 80. Os clássicos para garotos, obviamente.

O plot pode ser resumido em: Um adolescente desajustado, mas que na verdade possui um grande poder/habilidade, encontra um adulto/ser mágico/extraterrestre, os dois ficam amigos, lutam contra o mal e vencem. Existe algum tipo de moral aí no meio.

Te lembrou de alguma coisa? A mim também.

The Last Starfighter, Back To The Future, Masters of The Universe, Terminator 2 e DragonSlayer. Eu sei que Terminator 2 é de 1991, mas vocês entenderam. Optei por manter Star Wars de fora porque não estou procurando Treta. Oh, pera. Droga.

Obviamente ser uma cópia perfeita de qualquer plot de filmes da década de 80 não é sinônimo de qualidade. Eu saí do cinema com a sensação de que, fosse A Torre Negra uma obra original e não uma adaptação e, tivessem os produtores/roteiristas aproveitado melhor o clima nostalgia e saudosismo, teríamos aí o novo Stranger Things.

O universo da A Torre Negra tem um monte de elementos legais que, bem feitos, entregariam um clima muito “maneirinho oitentista”. A arma do Pistoleiro é feita do ferro da espada do equivalente ao Rei Arthur do seu mundo, quão maneiro é isso? Toda a fala dos Pistoleiros com o rolê “quem mata com a mão esqueceu o rosto do seu pai, eu mato com o coração” é ridiculamente legal e vai ficar grudada na minha cabeça na mesma proporção do Juramento do Lanterna Verde. São muitos elementos legais, mas mal utilizados. Talvez, se eles tivessem abraçado essa versão como algo alternativo ao livro, do ponto de vista de Jake, então eles tivessem conseguido alcançar um público específico que se interessa por narrativas de contos de fadas masculinos com cowboys…?

Se você foi uma das pessoas que achou que os problemas da adaptação começaram quando escalaram Idris Elba no papel de Roland/O Pistoleiro, você está errado (além de provavelmente ser um pensamento de base racista). Elba faz milagre com o pouco que lhe deram de roteiro e história que, mesmo com os milhões de diálogos de exposição, consegue entregar um personagem relativamente interessante. E ninguém, absolutamente ninguém, ficaria tão cool quanto ele ao recarregar aquela arma. Socorro. Matthew McConaughey, por outro lado, esqueceu em casa a cartilha de atuação e resolveu que ia só levantar e abaixar sobrancelhas, maneirar no sotaque e é isso. Flag tem tanta emoção ou complexidade quanto o abajur da minha sala, só que o meu abajur pelo menos tem uma função factível e com a qual é possível se relacionar.

SPOILER: Esse filme é tão década de 80 que eles terminam o filme comendo um cachorro-quente em NY.

Uma das coisas nas quais A Torre Negra mais encaixa nesse clima “filme da década de 80” é na representação feminina. Eu posso estar errada mas, pelo menos no primeiro livro, Jake Chambers mal fala da família e da mãe. No filme optou-se por ter uma mãe (a maravilhosa Katheryn Winnick, de Vikings) e matá-la como maneira a motivar Jake – motivação essa desnecessária, já que desde que descobriu o seu chamado ele sentou na primeira fileira do trem do heroísmo e escolheu a janela. Mas o que é um filme de sci-fi/fantasia sem uma personagem feminina ser queimada vida, não é mesmo? Temos também o clichê/estereótipo da mulher asiática mística na presença de Arra, uma personagem que tem poderes similares ao de Jake, que é literalmente a “gatekeeper” e que também morre pelas mãos de Flag. Bingo! o/

Vale a pena assistir A Torre Negra? Olha, ver Idris Elba gigante numa tela de cinema sempre vale a pena. Verdades a parte, se você colocar de lado que é uma adaptação, e entrar na história com a mentalidade de que esse é um filme medíocre da década de 80 que hoje virou clássico só porque os meninos gostaram quando criança, então talvez. Caso contrário, é melhor esperar até os direitos do livro estarem novamente no mercado e alguém fazer uma adaptação em série de televisão para a HBO. Fica aí a dica, que tal substituir Confederate por A Torre Negra?

“Eu devo fazer o que me parece certo” Ator desiste de papel em Hellboy para tentar consertar embranquecimento.

Toda vez que falamos sobre embranquecimento sempre tem alguém pra dizer que é uma questão de meritocracia: provavelmente aquele ator era o melhor para o papel, passou por testes, foi escolhido por ser o melhor. Tudo isso ajuda a propagar a falácia de que não há atores de origem asiáticas que são bons, ou se quer que eles existem.

Como esquecer a declaração do diretor de Death Note em que ele disse que não havia atores orientais no filme porque nenhum tinha um inglês “bom”.

Eis que na semana passada a produção do reboot de Hellboy no cinema anuncia Ed Skrein como Major Ben Daimio, personagem de origem Japonesa/americana nos quadrinhos. A internet, com razão, caiu em cima do casting por novamente excluir uma representação asiática em prol de um ator branco, apagando mais uma possibilidade de vermos mais diversidade nas adaptações de quadrinhos.

Hoje, no entanto, Ed Skrein soltou um comunicado em que não só conta que não conhecia a origem do personagem, mas também abrindo mão do papel. Como me lembraram no facebook, Adam Lambert não aceitou o papel de Frank-N-Furter no remake de Rocky Horror para que uma pessoa trans pudesse assumir. Até onde sei, acho que é a primeira vez que um ator branco desiste de um papel para que ele seja interpretado por alguém da etnia correta.

Na semana passada foi anunciado que eu estaria interpretando Major Ben Daimio no reboot de Hellboy. Eu aceitei o papel sem saber que o personagem dos quadrinhos era de origem asiática. Houveram muitas conversas e uma compreensível preocupação/decepção desde o anuncio, e eu devo fazer aquilo que me parece certo.

Está bem claro que representar este personagem de maneira culturalmente correta é importante para as pessoas, e continuar a negligenciar essa responsabilidade seria continuar uma preocupante tendência de excluir a história de minorias étnicas nas artes. Eu sinto que importante honrar e respeitar isso. Por isso eu decidi desistir do papel para que ele possa ser apropriadamente ocupado.

Representação de diversidade étnica é importante, especialmente para mim que também sou possuo uma origem multifacetada. É nossa responsabilidade tomar decisões morais em tempos difíceis para dar voz à inclusão. Eu tenho esperança que um dia essas discussões se tornem menos necessárias e que nós possamos ajudar a fazer uma representação igualitária nas artes realidade.

Eu estou triste em deixar Hellboy, mas se essa decisão nos trás mais para perto deste dia, então vale a pena. Eu espero que faça a diferença.

Com amor e esperança,

Ed Skrein não é um ator consagrado, não tem uma carreira bem estabelecida e seu maior crédito até hoje é como o vilão de Deadpool e o primeiro Dario em Game of Thrones, ou seja, um papel em um grande lançamento como Hellboy poderia ser o tipo de trabalho que iria virar os ventos à seu favor. Por isso mesmo é corajoso da parte dele abrir mão do papel, e espero que isso o leve mais perto de outros papéis tão interessantes quanto Major Daimio.

Filmes com embranquecimento de personagens originalmente asiáticos são sinônimo de fracasso de bilheteria e/ou crítica, só este ano já tivemos Ghost in The Shell e mais recentemente Death Note. Eu espero, de verdade, que a postura de Skrein inspire atores e atrizes consagrados e com carreiras bem estabelecidas à fazer o mesmo nos próximos anos.

Hoje o dia termina com um ponto pra esperança. o/

Death Note | Crítica

Quem acompanha o Guardiãs da Pipoca provavelmente já sabia que eu achava essa adaptação uma ideia péssima. Eu não sou contra adaptações em geral, eu acho que elas podem ser ideias legais, expandindo a história da mídia original para outras pessoas conhecerem também, isso sempre tem potencial de ser bom. Mas desde o primeiro momento, quando apareceu o whitewashing, minha boa vontade com o filme já não existia.

O Yo Ban Boo tem um vídeo ótimo sobre o whitewashing em Death Note, eu recomendo que vocês assistam. Basicamente, não há nenhuma justificativa boa para o ator ser branco e, como eu falei em um programa da rádio, Death Note é uma história com traços orientais bem marcantes, a começar pelo Ryuk ser um shinigami, então o mínimo era que Light fosse interpretado por um ator descendente de orientais. “Ah, mas se passa nos EUA” e desde quando não tem descendente de oriental nos Estados Unidos? E não me venha com “Ah, vai ver esse Light fez o melhor teste no casting” porque cara, se esse era o melhor que eles tinham, a coisa estava bem difícil.

Death Note é um manga de 2003, a adaptação para anime chegou em 2006. Nele, o estudante Light Yagami, um dos mais inteligentes do Japão, encontra um Death Note (Caderno da Morte). Esse caderno pertence a Ryuk, um shinigami entediado que resolve largar seu caderno no mundo dos humanos. Quando Light se dá conta de que ele de fato pode matar pessoas, ele decide aceitar aquilo como uma missão para eliminar do mundo todas as “pessoas ruins”. No começo são criminosos, mas depois elas viram qualquer um que entre em seu caminho.

Esse começo da crítica do filme será sem spoilers e depois eu entro em detalhes.

A minha vontade era de fazer o título da crítica, colocar “é ruim” e terminar o texto. “Ah, mas você acha isso porque não é fiel, adaptação não precisa ser fiel” sim, eu sei, eu tenho um texto falando exatamente sobre isso. O erro das pessoas é acharem que as adaptações precisam ser iguais ao original. Elas não precisam, cada mídia tem sua particularidade e, se é pra ver a mesma história, não tem porque fazer um produto novo.

E quer saber? Death Note da Netflix acerta em algumas mudanças. Eliminar a segunda metade do arco original, por exemplo, é a melhor coisa que eles poderiam ter feito. Os fatos principais do manga/anime que eles escolheram manter foram também boas escolhas, considerando que eles iam resumir toda a história da primeira metade do original para uma hora e meia. O problema é: Há um ponto extremamente básico para uma adaptação que eu falo no meu outro texto sobre o assunto: O filme precisa ser bom e Death Note da Netflix não é.

Ele tem momentos divertidos. Imagino que, para quem não conhece, certas demonstrações do poder de Kira são impressionantes. Mas não importa quantas cenas de tensão eles coloquem, não é tão simples esconder furos de roteiro, ainda mais quando eles estão em praticamente o filme todo. Os personagens tomam certas decisões apenas pelo fato de que a história precisa disso naquele momento. Coisas que qualquer pessoa com senso comum saberia que é uma má ideia, como por exemplo contar para uma pessoa que você mal conhece que você é um assassino. Há alguns diálogos de exposição bons, outros são bem forçados.

Os personagens me dão uma impressão mista. Eu consigo entender porque Light decide usar o caderno pela primeira vez, mas a construção dele não me convence, além do ator deixar a desejar em vários momentos. A história me diz que ele é um aluno brilhante, mas a única ação que eu vejo disso, tirando uma das viradas do final, é ele fazendo a lição de casa de todos os alunos. A partir disso, Death Note quer muito me convencer de que esse moleque é inteligente, mesmo que dez minutos depois ele conte para alguém que mal conhece que é um assassino (eu não vou superar isso). Ele toma várias atitudes burras, sendo inteligente só quando é conveniente para o roteiro.

Ryuk é divertido em alguns momentos, e até funciona em certas horas, mas o filme nunca se dá ao trabalho de me explicar porque Ryuk largou seu caderno no mundo dos humanos. Aliás, no começo há uma grande pista de que o shinigami bem terrível, uma ponta solta que nunca vai ser tratada de novo no filme. L começa bem, a atuação dele é melhor que a dos outros, o personagem está excêntrico e certas conclusões dele fazem sentido, mas tem outras que não, desculpa, não me interessa o quão inteligente o cara é, simplesmente não dá para assumir certas coisas, e o desenvolvimento dele no longa é bem descuidado.

Mia teve algumas mudanças até que interessantes. Ela não é a garota bobinha do original, completamente manipulada por Light. Eu gostei que Mia é mais inteligente no filme, muitas vezes ela mesma manipulando o Light. Isso é bem longe do original, e eu entendo que muitas pessoas sentiram falta de, nessa relação dos dois, não vermos o quão malvado Light pode ser, mas eu já vi inúmeras vezes a personagem mulher considerada burra sendo manipulada, então isso não foi de todo ruim. O que é má construção de personagem é eu ainda não ter ideia do motivo que fez Mia concordar em trabalhar com um assassino.

Os pontos negativos são maioria, mesmo tendo alguns pontos que poderiam ser promissores, ou até que funcionem em certos momentos. Há boas ideias nessa adaptação, mas Death Note deixa muito a desejar.

Agora eu quero fazer algumas pontuações com spoilers, tanto do filme quanto da obra original, então se você ainda quer fazer esse teste de resistência na Netflix, ou tem interesse em ver/ler o original e não teve a chance ainda (esse sim eu recomendo), então feche o texto agora.

No meu texto sobre adaptações, eu pontuo três coisas que precisamos ter em mente: O filme precisa ser bom, mudanças são necessárias e a essência precisa ser mantida. Há certas mudanças legais, mas Death Note da Netflix, além de falhar em ser um filme bom, também tem sérios problemas em entender a essência da obra original.

Eu não consigo desligar a parte do meu cérebro que conhece o anime/manga, em vários momentos do filme eu me peguei pensando “Mas e os olhos de shinigami?” antes de lembrar que isso nem foi um aspecto apresentado no filme. E quer saber? Ótimo. Considerando o tempo de filme, acrescentar mais essa possibilidade poderia ter deixado as coisas ainda mais complicadas. Mas a “essência” de uma história é algo muito mais simples e que pode ser colocado em uma adaptação de inúmeras formas.

Mudanças em personagens podem acontecer, mas é preciso tomar cuidado. Light é um protagonista tão interessante porque ele parece ser a última pessoa que poderia usar o caderno. O Light do original é inteligente, bonito, um dos melhores alunos do país, tem um futuro promissor, é charmoso quando quer, sabe falar bem… Por que esse cara acabaria entrando nessa espiral de auto destruição? Ninguém que conhece ele acredita quando as pistas passam a apontar Light como culpado. Ele detesta as pessoas “podres” do mundo, mas nessa aventura toda, ele se torna uma delas. Sim, ele mata pessoas terríveis, mas quem Light, ou qualquer pessoa, é para ditar quem vive ou morre? A solução para o mundo é eliminar quem comete crimes, sem segundas chances? Essas são questões importantes do original. Nós vemos parte disso em certas cenas, mas que fica no meio do mar de incoerências.

Um personagem não é o que ele diz, é o que ele faz. Não adianta você me dizer em alguns diálogos que Light é inteligente quando ele toma decisões burras. Ele não conhece Mia, mas confia nela o segredo do Death Note… Por algum motivo? O Light do original só confia em Misa porque ela tem provas da existência do caderno. Apesar de Misa ser muito manipulável, ela consegue armar planos em vários momentos e descobre quem Light é. Novamente, eu sei que a história não é para ser igual, mas é óbvio que você não vai admitir assassinato assim para um desconhecido a menos que essa seja a sua única escolha, ou sei lá, você acha que pode ser bom no futuro, mas o Light do filme não tinha nenhuma dessas motivações. E por que Mia não saiu correndo naquele momento? O filme não me deu nada para acreditar que essa moça tenha achado isso tudo aceitável.

Mais tarde, nós percebemos que Mia está disposta a matar pessoas inocentes. Isso não me incomoda, o que não me desce é, novamente, o que aconteceu na vida dessa moça para achar que matar o pai do namorado é algo aceitável? Isso não é uma decisão fácil de se tomar, ainda mais porque é muito provável que o namorado em questão não vá gostar dessa ideia. É uma boa sim mostrar como eles, que se dizem apaixonados, podem se virar um contra o outro para tentar ter o poder, isso seria um foco legal, mas essa construção não pode ser tão furada como uma peneira.

Uma das viradas do filme é interessante. Quando achamos que Ryuk matou os policiais, mas na verdade foi Mia. Mas a virada da roda gigante é fraca. Vamos lembrar que Light e Mia juraram amor um pelo outro e de repente eles estão colocando o nome um do outro no caderno. Novamente, uma ideia boa, se fizesse algum sentido. Quanto ao jeito que Light sobreviveu, o meu problema com isso nem é a virada toda, de que o Light sabia desde o começo que poderia dar errado, mas eu espero isso do Light original, que de fato é apresentado como alguém inteligente. Esse da Netflix só foi inteligente nesse nível quando o roteiro exigiu que ele fosse, por isso a resolução parece tão inacreditável.

O L, como já falei, começa bem, mas depois desanda bastante. No começo, quando ele confronta Light, na televisão, é uma grande referência ao original, só faltou a mesma inteligência. No manga/anime, L faz um teste com um prisioneiro, para ver com 100% de certeza uma pessoa ser morta por Light. Quando ele percebe que Kira está assistindo ao programa, o L original aparece, sem mostrar rosto ou nome, e desafia Light a matá-lo, mas obviamente nada acontece porque ele precisa de nome e rosto. É assim que L descobre como Kira mata. No filme, essa cena toda não faz sentido. Alguém com uma sniper poderia ter matado L, não precisava nem de caderno nenhum. E até onde L sabia, Kira poderia nem estar assistindo a televisão naquele momento. Até ele conseguir deduzir que Light estava nos Estados Unidos eu achei convincente, mas depois fica difícil. E como que, baseado nessa aparição, que nem mostra nenhuma demonstração de poder, L assume que Kira precisa de nome e rosto?

Eu acho interessante a ideia de mostrar que L, a pessoa que acredita em justiça e não em vingança, acaba perdendo o rumo quando Watari morre. O grande problema é que, como eu já falei, personagem não é o que fala, é o que faz. Nós vemos L falando sobre acreditar em justiça, mas eu não vejo nenhuma cena em que ele precise escolher entre justiça e vingança e decida pela primeira. E o final, onde ele pode ter matado Kira, deixa tudo ainda pior. Talvez a produção queria passar a ideia de que qualquer um pode ser terrível como Light, que de fato o poder passa adiante, assim como a obsessão por ser um deus, mas falta construção para chegar nesse ponto. Por que L acreditaria na história do caderno? Por que um suspeito falou para ele em um momento de pressão? L é um detetive da polícia, o que ele mais deve ter visto na vida é criminoso que mente sobre suas ações.

Uma coisa boa que o filme faz é mostrar como a sociedade se divide. Alguns acreditam que Kira é um criminoso, mas outros acham que ele é um deus. Também faz sentido L saber que Light é Kira quando ele se recusa a matar o próprio pai, é uma conclusão lógica, considerando tudo que ele já tinha descoberto até o momento. Mas a polícia nesse filme também só é inteligente quando é conveniente, porque no momento em que L acredita que Light é o assassino, ele deveria ter feito toda uma busca na casa dele, interrogado e coisa do tipo, mas ele convenientemente esperou até Watari sumir para fazer isso.

Death Note é uma obra tão legal porque ela brinca com a ideia de bem e mal. Nós torcemos por Kira, mesmo que ele seja um assassino. Também gostamos e torcemos por L, porque afinal de contas, Kira não pode matar quem quiser. A brincadeira de bem e mal não se dá só na narrativa, mas na ideia geral de sociedade, sobre ter o poder de decidir quem vive e morre. E o fato de alguém como Light, que é visto como uma pessoa que tem tudo, se afundar tanto nessa obsessão, é o que faz o final do original ser tão marcante e triste ao mesmo tempo. Ele tenta todas as últimas cartas, mas na sua obsessão ele se destrói e fica sozinho, mas ao mesmo tempo é bem feito, porque ele manipulou todos ao seu redor.

Eu não espero que um filme de menos de duas horas me passe a mesma profundidade, não tem como, mas ao menos uma dessas “essências” do original eu esperava ver. Eles podiam se focar na questão do bem e do mal, mas isso se perde no drama entre Mia e Light. Tudo bem, dava para focar em como um poder tão grande corrompe as pessoas, e eu acho que essa era a ideia final do filme, já que aparentemente L “segue” o mesmo caminho, mas foram tantos furos que levaram até a cena do hospital que essa mensagem perde a força.

No quesito de se destruir e de “todos podem ser Kira”, eu vejo algum potencial, mas como diria uma professora de roteiro minha: “Uma ideia é igual à p**** nenhuma”. Sem uma construção bem feita e plausível, o final se perde, o que é uma pena numa obra com tanto significado, numa história que fala sobre temas tão pesados. Muitos filmes tem um furo ou outro, eu não exijo perfeição, queria apenas algo convincente de que as coisas teriam acontecido da forma que foram, mas não é o caso.

O filme podia ter feito um personagem completamente diferente no lugar do Light, criar outra perseguição policial, o interesse romântico podia ser a grande mente do mal por trás de tudo, Ryuk podia ter sido apenas um expectador… Qualquer uma dessas mudanças poderia ser feita, o problema não é a fidelidade em si. A grande questão é que, no final do dia, Death Note falha tanto em ser um filme bom, quanto em ser uma adaptação que apresenta a essência da história.

Os Equívocos na Fala de James Cameron Sobre Mulher-Maravilha.

James Cameron é um diretor conhecido por seus ambiciosos filmes e por sua constante procura por conseguir avanços científicos através das suas produções. Titanic, Avatar e mesmo O Segredo do Abismo, todos eles precisaram que algum tipo de tecnologia fosse desenvolvida para que eles pudessem acontecer. James Cameron também é conhecido por ser o diretor de Aliens (1989), a continuação do clássico de ficção científica e, para muitos, o melhor filme da franquia e pela criação da franquia d’O Exterminador do Futuro.

Em uma entrevista ao The Guardian, o diretor de True Lies (1991), achou que seria conveniente fazer uma crítica ao modo como Hollywood recebeu o filme da Mulher-Maravilha:

Todos esses tapinhas nas costas, esse auto-elogio, que Hollywood vem se dando por causa de Mulher-Maravilha é muito equivocado. Ela é um ícone objetificação, e é só a Hollywood masculina fazendo a mesma coisa de sempre! Eu não estou dizendo que não gostei do filme, mas é um retrocesso.

A diretora de Mulher-Maravilha, Patty Jenkins, respondeu com o que provavelmente é o melhor resumo de todos os problemas da fala do diretor:

A incapacidade de James Cameron de compreender o que a Mulher-Maravilha é, ou o que ela representa, para mulheres ao redor do mundo não é surpreendente já que ele, apesar de ser um grande diretor, não é uma mulher. Mulheres fortes são ótimas. O elogio dele ao meu filme, Monster, e à nossa representação de mulheres forte apesar de perturbadas é muito apreciado. Mas se mulheres precisarem sempre ser forte, duras e perturbadas, e nós não formos livres para sermos multidimensionais e celebrarmos um ícone de mulheres em todo lugar porque ela é bonita e amável, então nós não fomos tão longe assim. Eu acredito que mulheres podem e devem ser TUDO, assim como personagens masculinos deveriam ser. Não existem um tipo certo ou errado de mulher poderosa. E a massiva audiência feminina que fez do filme o sucesso que é pode com certeza julgar o seus próprios ícones de progresso.

Existem muitos pontos a serem debatidos na fala de Cameron e, por mais que a fala de Patty seja uma resposta mais do que à altura ao que o diretor disse, eu sei que muitas pessoas ainda tem dificuldade para entender a problemática de Cameron ter dito o que disse.

O “auto-elogio” de Hollywood.

É verdade que toda vez que alguém faz o mínimo para a representação feminina ou de qualquer outra minoria Hollywood, e os envolvidos na produção, costumam se tornar símbolo de inclusão e acreditar que são os panteões da justiça (apesar de eu não achar que Patty Jenkins fez isso). E é importante que nós não acreditemos que Mulher-Maravilha chegou e pronto, todos os problemas de representação feminina estão resolvidos – porque não estão. Mas é engraçado como o diretor reclama do auto-elogio mas se dá um tapinha nas costas por causa de Sarah Connor.

Sarah Connor não era um ícone de beleza. Ela era forte, ela era perturbada, ela era uma mãe terrível e ela ganhou o respeito da audiência através da força de sua personalidade. E, para mim, o benefício de uma personagem como a Sara é óbvio. Quer dizer, metade da audiência é feminina!

Ou seja, uma personagem que ele criou é muito mais completa e uma visão muito mais positiva de representação feminina do que aquela trabalhada por uma mulher. Se isso não é o auto-elogio masculino mais comum, eu não sei o que é.

O Tipo Certo de Mulher

Mas essa declaração de Cameron não é problemática só por se considerar capaz de fazer um trabalho superior ao escrever uma personagem feminina do que o que uma diretorA poderia fazer. Ela também indica que Cameron parece acreditar que há apenas um tipo de mulher que pode causar identificação através da força de sua personalidade – aquela que reune qualidades normalmente atribuídas à personalidades masculinas, ou que renunciam ao que é considerado “feminino demais”.

Veja bem, em toda a sua carreira, Cameron possui três protagonistas femininas solo: Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro, a Tenente Ripley, de Aliens, e Max, da série Dark Angel (que eu vou falar mais tarde).

Sarah e Ripley, por mais que eu as ame e acredite que sejam personagens femininas muito interessantes, apresentam traços de personalidade que são normalmente associados ao masculino: predisposição à violência, capacidade de combate e nenhuma das duas atrizes se encaixava no que seria o padrão de feminilidade da década de 80.

Em Dark Angel, Max é uma mulher que foi cobaia num laboratório para modificação genética de crianças. Ela é mais forte do que o normal, uma guerreira nata e a representação de tudo que um protagonista masculino de ação é – mas ela faz isso tudo de salto. Novamente nós temos uma heroína feminina que ganha valor por ter características normalmente atribuídas à personagens masculinos.

Além delas Cameron tem ainda Helen Tasker, de True Lies, uma dona de casa que precisa abandonar o seu instinto caseiro e materno para se juntar ao marido agente secreto num plano para parar uma ameaça terrorista e salvar a filha do casal. Aqui, Cameron coloca o papel de dona-de-casa e mãe como algo negativo e, apesar de ser o marido o principal responsável pela crise no casamento, mostra Helen como a culpada.

Veja bem, eu AMO uma personagem feminina que chutas bundas, atira granadas, luta contra aliens em um robô e sabe kung-fu, mas mulheres não são só isso. Essa visão de que se uma personagem feminina não se encaixa num núcleo preciso de qualidades masculinas consideradas positivas, então elas não são revolucionárias o suficiente, é uma visão retrógrada. Porque se para ser considerada uma personagem bem construída, com quem a platéia possa se identificar, a personagem feminina precise assumir características masculinas, então está se apagando aquilo que é considerado feminino, está se ligando essas características à algo negativo.

Essa visão de que maternidade e características femininas são algo negativo está presente dentro dos filmes do diretor. Em determinado momento da história de Dark Angel, o fato de Max ser mulher e poder gerar um filho é usado contra ela, Helen tem anseios por carinho e atenção que True Lies trata como algo negativo e a responsabiliza pela crise no casamento, Cameron disse que Sarah é uma péssima mãe – quando na verdade ela está tentando fazer de tudo para salvar o filho e o mundo. Ripley, na versão do diretor de Aliens, descobre que sua filha morreu de velhice antes que ela pudesse voltar à vê-la, o que faz com que ela se sinta culpada. Mesmo em Titanic nós temos o caso clássico do estereótipo da mãe malvada que quer usar a filha para continuar rica. Se é feminino, é negativo.

Mulher-Maravilha, ícone de objetificação.

Se você acompanha o Collant sabe que volta e meia eu falo sobre objetificação feminina e, mais de uma vez, falei sobre como me incomoda o modo como as super-heróicas são representadas – incluíndo a MM. Eu continuo achando a roupa da Mulher-Maravilha uma das coisas mais não-práticas e feitas apenas para agradar o olhar masculino – podia ser ótimo lutar de saia na época da Grécia Antiga mas, passando alguns milhares de anos, era de se esperar que roupas de batalha tivessem evoluído também.

Muitas das minhas críticas ao modo como super-heroínas são retratadas tem como causa o fato de que quem faz a maioria dessas representações são homens, porque o mercado criativo seja de cinema ou de quadrinhos, ainda é dominado pelo olhar masculino. E esse olhar tende a ser objetificante e desumanizador. Por isso o que se iniciou como um símbolo de liberdade sexual feminina, como o uniforme da Mulher-Maravilha, ao longo dos anos acabou se tornando uma maneira para que homens criadores pudessem explorar todos os ângulos ginecológicos possíveis.

É engraço ver Cameron falar sobre MM ser objetificada, quando a Helen de True Lies é forçada pelo próprio marido à fazer um strip-tease para alguém que ela acredita ser um estranho. Fica mais engraçado lembrar que, apesar de todos os outros membros da nave estarem vestidos com calças e shorts, Ripley continua usando o kit calcinha + blusinha para viajar. Eu rolo de rir ao lembrar que Max, por mais incrível que Dark Angel seja, era interpretada por Jessica Alba e tratada como símbolo sexual o tempo todo – chute bundas, mas seja sexy. E não podemos esquecer da raça alienígena de Avatar onde as fêmeas tem as mesmas características físicas das mulheres humanas – incluíndo seios.

Jessica Alba, que interpretava Max, disse em uma entrevista alguns anos atrás:

Uma série minha (Dark Angel) premiou quando eu tinha 19 anos. E logo de cara todo mundo tinha uma opinião muito forte sobre mim por causa do jeito que o meu marketing foi feito. Eu deveria ser sexy, essa garota forte de sexy. Era o que as pessoas esperavam. Eu senti como se estivesse sendo objetificada, e isso me deixou desconfortável.

Apesar do uniforme da Mulher-Maravilha ser minúsculo e pouco favorável para um campo de batalha, Patty conseguiu fazer aquilo que, para muitos diretores, é impossível: ela não objetificou a personalidade. A sexualidade que Diana apresenta no filme é dela, não do olhar que é colocado sobre ela. Não existem sequências da câmera deslizando sobre o corpo da atriz para ser objetificada, quando a câmera mostra o corpo dela é para enfatizar o seu poder e sua força. Talvez esse seja o tipo de avanço que passe despercebido para o olhar masculino, já que ele tende a não entender onde começa o erro da objetificação feminina.

O Tipo Certo de Representação

Patty Jenkins está muito certa em dizer que Cameron não consegue entender a importância da MM por não ser mulher. Empatia pela história do outro é algo que todos nós podemos ter, eu cresci assistindo protagonistas masculinos e me identificando com eles, eu fui programada desde criança a ter empatia por aquilo que não me representava de verdade. Por isso é muito mais fácil para mim assistir Capitão América e me identificar com os valores e a história do personagem do que para um cara assistir Mulher-Maravilha e fazer o mesmo. E isso é, no mínimo, triste.

Não só porque esse cara vive dentro de uma bolha, mas porque ele cresceu escutando que só a história dele importa. Homens, especialmente brancos, hetero e cis,  possuem todo e qualquer tipo de representação possível em quantidades imensas. Talvez por isso seja tão difícil para eles entenderem porque Mulher-Maravilha foi tão importante para tantas mulheres, talvez por isso eles achem que tem o direito de dizer o que é certo ou errado na representação feminina.

Homens também crescem escutando do mundo que eles estão corretos, e mulheres crescem escutando que elas provavelmente estão erradas. Por isso Cameron se sente no direito de fazer esse tipo de comentário e apontar o que “está errado”. E por isso é tão importante que Patty tenha dado uma resposta tão firme sobre o assunto – porque Cameron está errado. Existe espaço para todo tipo de mulher, e todo tipo de mulher pode e deve ser um símbolo de resistência e força.

Conclusão

Parece que o problema de James Cameron com Mulher-Maravilha é que ela é uma personagem feminina que está diretamente ligada àquilo que é considerado feminino. Por mais que eu ache um retrocesso dividir sentimentos e características de personalidade binariamente entre masculino e feminino, é pior ainda ignorar e menosprezar sentimentos que foram considerados femininos e por isso menores durante tanto tempo. Eu adorei Mulher-Maravilha e, para mim, um dos pontos fortes do filme é o modo como ele não foge de falar de sentimentos e de amor – inclusive acredito que a força principal do filme e da mensagem dele para o mundo está aí. E não tem nada considerado mais feminino do que sentimentos e amor.

Essa visão de que para Cameron algo considerado feminino, como amor e sentimentos, é algo negativo fica ainda mais evidente quando pensarmos que tirando esses elementos a Mulher-Maravilha é uma guerreira. Ela pode não apontar uma metralhadora, jogar granadas ou dirigir motos futurísticas, mas ela empunha um escudo e uma espada. Então é sobre ela ser feminina demais, ou sobre não ser do jeito que ele acha deveria ser?

Não é sobre vilanizar James Cameron. Eu adoro muitas das personagens que ele criou ou com que trabalhou. Ripley tá na parede da minha sala, Dark Angel era uma das minhas séries favoritas na adolescência e apesar de saber das fraquezas do filme, Avatar não me incomodou como incomodou à muitas pessoas. Mas as declarações do diretor deixam bastante evidente um desconforto que produções como Mulher-Maravilha, e qualquer produção de sucesso que esteja ligada à alguma minoria, causam aos poderosos homens de Hollywood. Porque se a história que faz sucesso e está sendo contada não é a deles, ou se é uma história que não é contada através do olhar deles, então ela não está sendo feita da maneira correta.

Até mais! 😉

Alguns textos que talvez ajudem a entender melhor:

A HIPERSEXUALIZAÇÃO FEMININA NO ENQUADRAMENTO E NO MOVIMENTO DE CÂMERA.

MANARA, CHO E A TAL DA SUBVERSÃO DO TABU.

O AMOR EM MULHER-MARAVILHA.

ARLEQUINA E MULHER-MARAVILHA: A HIPER-SEXUALIZAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA. 

Com licença. Mas é DOUTORA General Leia Organa, por favor!

Para começar o dia com uma notícia legal e divertida, parece que Leia Organa, a Princesa e General mais amada de Star Wars também era Doutora – do tipo que tem PhD.

Em uma thread do twitter, a Doutora Becca Harrison, da Universidade de Glasgow, chamou atenção para uma informação que ela notou e que, até então, parecia ter passado despercebida. No livro Superwoman: Gender, Power and Representation, a autora Carolyn Cocca trouxe a informação de que foi o próprio George Lucas que comentou sobre as conquistas acadêmicas de Leia Organa.

De acordo com o livro George Lucas disse, lá em 2004 enquanto falava sobre Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança, que Leia é:

jovem, com dezenove anos, a mesma idade que Luke deveria ter, mas ao invés de ser meio idealista e ingênua como um garoto da fazenda no meio de lugar nenhum, ela é muito sofisticada, uma líder urbana, uma Senadora, então ela é uma política, ela realizou coisas, ela se formou, conseguiu seu PhD aos dezenove e lidera pessoas e é responsável por elas. [Eu precisava de uma atriz]  que pudesse ser jovem e brincar muito com autoridade… e empurrar esses caras para frente.

BAM. Leia não só é uma General-Princesa chutadora de bundas, ela também é uma cientista política badass com PhD e tudo. Quer dizer, eu imagino que o PhD dela tenha a ver com humanidades e política… Já que ela também é uma SENADORA.

Eu normalmente não fico animada com “filmes sobre a juventude dos personagens de Star Wars”, porque a juventude deles foi durante a primeira trilogia… Mas meu corpo está pronto pra história de como Leia se tornou a princesa badass que ela já era quando nós a encontramos.

Aliás, princesa não. Agora é Doutora Princesa General Senadora Leia Organa. 

 

O Blackpower da Dominó – Sobre Machismo e Racismo.

Desde o dia do anúncio de Zazie Beetz no papel de Dominó em Deadpool 2, ainda lá em Março deste ano, a internet ficou polvorosa com o fato da atriz ser negra e não ter a pele branca como uma folha de papel da versão original dos quadrinhos. Esta semana, com a chegada da primeira imagem de Beets caracterizada como Dominó, a internet novamente ficou doida: Como assim Dominó tem um Blackpower?

Mulheres e cabelos, essa é uma relação de amor e ódio que dura séculos e que é profundamente pautado pelo que o homem, principalmente branco, acredita ser sexy ou não. Para serem considerados bonitos, os cabelos precisam manter um padrão inatingível de beleza, ser liso, ou levemente ondulado. Se tiver cachos, precisam ser definidos. Qualquer coisa que saia desse padrão ainda é visto como feio e, muitas vezes, como sujo ou descuidado.

Algumas das críticas ao cabelo da Dominó foi que o Blackpower da personagem seria pouco prático para uma assassina. Algo similar aconteceu quando Riri foi anunciada e sua ilustração a mostrava com um Blackpower maravilhoso – como ela vai colocar esse monte de cabelo dentro da armadura, eles perguntavam.

É Ironheart, colega.

A questão da suposta praticidade do cabelo nunca é levantada por esses críticos quando se trata de mulheres brancas em papéis de heroínas, anti-heroínas ou vilãs. Isso também não aconteceu com os longos e esvoaçantes cabelos de Gamora, interpretada pela atriz negra e latina Zoe Saldanha, porque Saldanha se encaixa num padrão de beleza considerado branco – e sua pele estava pintada de verde.

Existem duas razões pelas quais as mesmas alegações não acontecem quando temos uma atriz branca de longos cabelos lisos: hipersexualização e racismo.

Os longos cabelos de Jean Grey, de Sif, de Jessica Jones e os cachos ruivos incrivelmente da Viúva Negra nunca foram questionados quanto à sua praticidade. Tão pouco foram os longos cabelos da Mulher-Maravilha. Isso é explicável porque nós, como sociedade, vemos mulheres brancas de longos cabelos lisos ou levemente cacheados como sexy. Elas precisam sacudir os cabelos para o lado em câmera lenta, os cachos precisam cair graciosamente sobre o colo dos seus seios para que nós possamos sentir que, além de chutar bundas, elas também são mulheres que você gostaria de levar para a cama. O mesmo acontece com Gamora, que apesar de ser interpretada por uma atriz negra, possui longos cabelos lisos em uma pele verde.

Quem tem ou já teve cabelo comprido sabe a dor de cabeça que ele é no vento forte, ou quando você está praticando um esporte e ele gruda na sua cara por causa do suor, ou como ele corre na frente dos seus olhos se você corre com muita velocidade. Mas nenhuma dessas questões, que mostram o quão pouco prático é qualquer tipo de cabelo comprido em uma situação de ação, é levantada quando analisamos o mundo sob uma ótica branca e masculina.

Cabelos longos são sinônimos de sexy, e o mesmo valor não se dá para cabelos blackpowers ou qualquer tipo de cabelo associado à etnia negra.

Quando criticam o cabelo blackpower da Dominó o que está sendo levantado é, na verdade, que ela é errada. Que ela deveria ser branca de longos cabelos pretos, porque isso seria sexy. Isso revela um racismo que, ao se basear dentro de um padrão branco de beleza, excluí qualquer coisa que saía dele. Veja bem, um problema revela o outro: a crítica ao cabelo não é porque ele é pouco prático, mas é porque o racismo de quem critica fica exposto sob a ótica de que se a mulher negra não se encaixar dentro do padrão de beleza que a nossa sociedade impõe, então ela não é digna de ser considerada sexy ou bonita. E ao limitar o valor de uma mulher, negra ou branca, ao quão atraente ela é para os olhos masculinos, esses críticos objetificam as personagens, tornando-as apenas tokens da punheta masculina.

Conversando com a Camila Cerdeira, do site Preta, Nerd & Burning Hell, ela complementou:

Uma das questões importantes sobre a Dominó ser negra é compreender que feminilidade possui cor e não é a negra. Como mulher negra estou familiarizada com a exclusão de feminilidade que nossa negritude acarreta. Por consequência dessa ausência de feminilidade, negras são vista como desmasculinizadoras. Dominó negra e ostentado um cabelo natural quebra a noção de feminilidade e demonstra não ser submissa, o reforço disso é ela deitada sobre um tapete de pele do Deadpool, a máxima da desmasculinização do protagonista.

Tudo isso dito, personagem feminina nenhum deve ser diminuída à sexo, principalmente se a sexualidade que está sendo trabalhada não é a dela, e sim a do espectador masculino. Personagens femininas não devem existir apenas para agradar ao olhar objetificante masculino, muito menos personagens femininas negras ao olhar masculino e branco – algo infelizmente tão comum e que cai num fetichização racista que é extremamente prejudicial para a imagem que a nossa sociedade contrói em torno da mulher negra.

Apesar de toda a crítica, muitas pessoas deixaram comentários positivos e, vejam só, já tem até fanart dessa lindeza:

Resumindo: quando qualquer outra personagem feminina foi anunciada, ninguém nunca reclamou porque o padrão de beleza ao qual essas personagens se encaixam é o padrão e branco e objetificante. As críticas que a caracterização da Dominó vem recebendo nada tem a ver com uma suposta fidelidade aos quadrinhos. Não, o fundo das críticas vem sim baseadas em um racismo que, por mais que os autores das críticas não se deem conta, existe e está impregnado no nosso conceito de beleza e do que é aceitável para personagens femininas. Eu ainda estou procurando uma crítica ao tamanho desnecessário do decote do uniforme, mas disso ninguém reclamou.

Personagens femininas não podem só chutar bundas, elas precisam fazer isso enquanto agradam o patriarcado machista e racista. Dominó, no entanto, parece já ter chegado pra chutar bundas inclusive antes de se quer começar a filmar suas cenas.

Deixo vocês com o último exemplo de como a crítica sobre o cabelo blackpower da Dominó é sim de fundo machista e racista: