A representação feminina em Chronos: Viajantes do Tempo

Este texto não contém spoilers do livro.

Aqui no Collant, nós já fizemos uma lista de garotas que tiveram que viajar no tempo, mas isso não significa que elas são a maioria nesse tipo de história. O papel heroico, ainda mais na ficção científica, muitas vezes acaba ficando com o personagem masculino. Em Chronos: Viajantes do Tempo, a pessoa destinada a salvar o mundo é Kate, uma garota adolescente.

Primeiro, é legal pensar na questão da mulher ser a escolhida para um papel importante. Nós já estamos cansados de ver histórias de escolhidos homens, de como o tal protagonista nasceu para realizar a função que salvará todos, mas quantas vezes esses espaços são ocupados por mulheres? O escolhido sempre é o cara que se encaixa dentro do padrão.

Kate tem um dom muito grande para usar a chave Chronos, que permite as viagens no tempo, deixando todos ao seu redor impressionados com a sua capacidade. Assim que ela se vê nessa situação, Kate começa a procurar todas as informações possíveis que possam ajudá-la a enfrentar esses novos problemas que estão aparecendo. Ela não é passiva ao que acontece ao seu redor, por mais que seja difícil entender todos os problemas de primeira.

Além disso, ela não é a única mulher no meio de vários homens. A sua avó, Katherine (sim, elas têm o mesmo nome), é a grande mentora da protagonista. É comum que, em histórias com algum fator de escolhido com uma aventura épica, exista aquela figura de mestre que vai guiar o caminho do herói. Esse também é um papel que geralmente fica com um personagem masculino mais velho e sábio, mas, nesse caso, a mentora de Kate é a sua própria avó, uma figura feminina. Ela é uma mulher que entende tudo sobre como as viagens no tempo funcionam, é inteligente e fez inúmeras coisas para se manter segura, por mais difíceis que elas fossem. Agora, ela sabe que não pode mais tomar a frente dessa luta, por isso passa o seu conhecimento para Kate.

A relação das duas é uma das partes mais interessantes da história. Ao invés de Kate apenas aceitar o que é passado para ela, a adolescente começa a ter dúvidas e até a discordar de algumas decisões que sua avó tomou, mostrando que ela não é uma personagem sem personalidade. Esse aspecto de “desafiar o mestre” é interessante nesse tipo de dinâmica. Kate não é obediente o tempo todo e usa o conhecimento que recebe de Katherine para resolver as coisas da sua maneira. O fato de estarmos sempre na cabeça de Kate, até por causa da narrativa em primeira pessoa, nos ajuda a entender o que ela está pensando e as suas motivações.

Porém, em alguns momentos, a história acaba fazendo sua protagonista cair em clichês. Kate é uma adolescente e, infelizmente, alguma parte do livro é dedicada a falar sobre interesses românticos e meninos que ela acha interessante. O fato dela se importar com isso não é um problema, mas o jeito que isso é tratado na história acaba ficando clichê. Em alguns momentos, Kate é salva por esses possíveis interesses românticos, até em situações que poderiam ser tratadas de outra forma, ou ela poderia ter ajuda de uma figura que não necessariamente fosse um possível romance ou até mesmo não fosse uma figura masculina. Também há momentos em que o clima romântico parece forçado e acelerado, como se a autora acreditasse que a protagonista precisasse muito desses elementos para ser interessante, mas é exatamente isso que, para mim, acaba sendo uma falha na construção da protagonista.

Por mais que essas relações sejam importantes para Kate, como provavelmente seriam para qualquer adolescente em seu lugar, a aventura de salvar seus pais e consertar a linha do tempo é mais importante do que alguns clichês secundários. Kate tem bastante espaço para mostrar sua personalidade e a história dá oportunidades para a protagonista ir crescendo nessa primeira parte da trilogia.

Chronos: Viajantes do Tempo já está à venda!

Cinco Garotas Adolescentes que Viajaram no Tempo!

A cultura pop está recheada de histórias sobre viagens no tempo. O que aconteceu no passado pode ser mudado? E o futuro, podemos mudá-lo também? Quais as consequências disso? Devemos evitar as grandes tragédias das gerações anteriores, ou deixar a história seguir o seu rumo? Todas essas perguntas aparecem em diferentes situações por um monte de universos ficcionais. E a gente adora!

Apesar de adorar trama com viagens no tempo uma coisa sempre me incomodou: são poucas as mulheres que realmente fazem esses passeios. Quando falamos sobre garotas adolescentes então, fica ainda mais difícil achá-las, mesmo em YA’s de sci-fi! Ainda assim, existem algumas garotas adolescentes que fizeram essas viagens não apenas como acompanhantes, mas como agentes centrais da história e de mudanças. Compilei algumas delas numa listinha que tem garotas viajantes do tempo para todos os gostos.

Kitty Pride – Dias de Um Futuro Esquecido

Em uma das fases mais clássicas dos X-Men, e que inspirou o último filme da franquia, Kitty Pride vivem num futuro distópico onde os mutantes estão presos em campos de concentração. Kitty então transfere a sua mente para uma versão mais jovem de si mesma e com a ajuda dos X-Men precisa evitar um momento crucial e fatal que serviu de estopim para a histeria anti-mutante. Tecnicamente é a Kitty adulta que viaja, mas como toda a ação principal acontece enquanto ela é adolescente, entrou na lista! Quando a história foi adaptada para o cinema ao invés de mandar a mente dela mesma, Kitty mandou a mente de Wolverine de volta para o Logan da década de 70.

Aqui no Brasil a Panini lançou a versão em quadrinhos (que você consegue comprar aqui), e a Novo Século lançou a novelização da saga (que você consegue comprar aqui).

Kate – Trilogia Chronos: Viajantes do Tempo

Imagina descobrir que a sua avó é uma viajante do tempo. E não só isso, que ela nasceu no futuro, de lá trouxe a tecnologia e que os segredos da sua família podem não só te transformar numa viajante no tempo, mas também te tornar responsável por impedir um desastre eminente? Kate é determinada a conseguir – e descobrir – tudo que ela quer, mesmo quando todos a sua volta aconselham o contrário. Mas como estamos falando de viagem no tempo ela precisa tomar muito cuidado para não alterar não só o futuro como conhecemos, mas para não apagar a sua própria existência. Chronos é um YA cheio de aventura, mistérios e romance!

O livro Chronos: Viajantes do Tempo, da autora Rysa Walker, é o último lançamento da DarkSide Books no selo Darklove. Você pode comprá-lo aqui.

Hagome/Kagome – Inuyasha

Imagina que um dia você cai, sem querer, num poço e quando se dá conta está na Idade Feudal Japonesa, uma era em que mulheres tinham ainda menos direitos e que, pra piorar tudo, está infestada por Yokais (demônios)? Eu pularia de volta no poço para nunca mais voltar, mas como Hagome não sou eu, ela não só fica num eterno ir e vir como também leva o almoço que a mãe dela faz para os amigos de outra era e assume uma posição central na luta contra os yokais. Inuyasha é bastante centrada no personagem título, mas eu sempre achei formidável o modo como Hagome caminha livremente entre uma era e outra, sem grandes preocupações e sempre correndo imenso risco de vida.

Puella Magi Madoka Magica

Eu não vou revelar qual personagem viaja no tempo porque esse é parte do mistério do anime, mas eu vou sempre pegar qualquer oportunidade para indicar um dos melhores desenhos que eu assisti em muito tempo. “Sailor Moon da bad infinita” é, talvez, o melhor resumo do que é Madoka Mágica. Uma série de garotas mágicas com uma pegada bem mais violenta, um tom mais macabro e realista, e uma animação inovadora, Madoka traz viagem no tempo como um recurso de narrativa que ajuda a sustentar a inevitabilidade trágica que é ser uma Garota Mágica em um universo que não é gentil como o da princesa da lua.

Você consegue assistir Madoka Magica no Netflix Brasil.

Max – Life is Strange

Depois de salvar acidentalmente a colega Chloe da morte, Max percebe que tem o poder de viajar no tempo. Inicialmente as viagens duram poucos segundos, que ela usa para mudar pequenos eventos, mas a medida que o jogo vai avançando, os poderes dela também vão aumentando. Max é uma adolescente introvertida e com poucos amigos, mas as escolhas do jogador acabam gerando mudanças nela e em suas relações. Ela entende a responsabilidade que tem com esse poder, mas acaba entrando em varias situações, inclusive algumas que saem de seu controle, culminando em decisões complexas. As escolhas de Max afetam tanto a sua vida, quanto a vida das pessoas ao seu redor, sendo que cada pequeno evento mudado pode alterar completamente a linha do tempo em que ela se encontra.

Life is Strange está disponível para Playstation, XBox e PC.

Consegue se lembrar de mais alguma garota adolescente que saiu por aí mexendo pelo tempo? Manda pra gente nos comentários!

Até mais! 😉

Este post é um oferecimento da Darkside Books.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Darkside Books lança Chronos: Viajantes do Tempo. Prepare-se para essa viagem!

Viagem no tempo é um assunto que sempre fascinou muitas pessoas, há inúmeras histórias sobre isso. Mesmo quando esse não é necessariamente o foco da narrativa, há aquelas que usam esse elemento em algum momento. Bom, se você é uma das pessoas que, assim como eu, curte viagem no tempo, o novo lançamento da Darkside vai te interessar bastante!

Chronos: Viajantes do tempo conta a história de Kate, que descobre que a avó é uma viajante no tempo. Como se não fosse o bastante, um alteração na linha temporal faz com que os pais de Kate sumam, então ela entra nessa aventura de voltar no tempo e impedir um homicídio que pode ser a solução para resolver tudo. O problema é que, como nós já sabemos, viagens no tempo sempre possuem custos altos e o risco de acabar com o presente que conhecemos.

A autora do livro é Rysa Walker, escritora americana. Chronos: Viajantes do tempo é o seu romance de estreia. Esse é o primeiro volume de uma trilogia, que também foi ganhador do prêmio Amazon Breakthrough Novel Award em 2013, além de ser muito elogiado pela crítica.  

Eu costumo dizer que viagem no tempo é um recurso narrativo que, apesar de ser muito divertido, também pode ser muito complicado. As regras das linhas temporais variam de acordo com o universo. Em Efeito Borboleta e Life is Strange, cada fato mudado afeta diretamente o futuro, já em Game of Thrones não importa o que você faça, nada poderá ser mudado. Então é fácil que o autor se perca nessas mudanças temporais, ainda mais quando isso é colocado junto de outros elementos. Rysa Walker não tem medo de juntar a viagem no tempo com uma investigação de assassinato, sempre tomando cuidado com as referências históricas.

Chronos: Viajantes do tempo também tem protagonismo feminino, a maioria dos personagens que viajam no tempo na ficção são homens, então é sempre bom ver uma mulher tomando esse espaço.

O livro tem 320 páginas, com aquela capa dura e linda da Darkside que todos amamos. A tradução foi feita por Fernanda Lizardo.

Para todos que já querem entrar nessa viagem, o livro já está disponível na Amazon!

Como as fanfics me ajudaram a escrever melhor

Eu sei o que você pode estar pensando. Quando pensamos nesse assunto, o automático é que nossa mente vá para Cinquenta Tons de Cinza, um livro que acho que todos nós podemos concordar que é bem ruim. Para quem não sabe, a história veio de uma fanfic de Crepúsculo.

Por esse e outros motivos, criou-se essa imagem de que fanfics são sempre ruins, mal escritas e de pouca qualidade. Não que não existam fanfics ruins, todo mundo aí que já gastou madrugadas no AO3, procurando histórias do seu ship preferido, já encontrou histórias que dá vontade de desver. Mas a coisa legal do mundo das fanfics é que é todo um espaço mágico, com espaço para histórias ruins e, veja só, outras que de fato são boas.

Se você é, assim como eu, uma pessoa que de vez em quando passa um tempo caçando fanfic, você provavelmente já se deparou com uma história boa de verdade. Não só os fatos são bem colocados, mas a própria escrita em si era bem feita. Sim, elas existem, dá uma chance para o seu fandom e eu garanto que você vai achar alguma que vale a pena.

Piadas na internet a parte, e eu gosto sim de brincadeiras com fanfics, essa parte do fandom e a prática de escrever essas histórias podem ajudar futuros escritores mais do que você pensa. Pelo menos para mim eu sei que ajudou. Hoje eu estou trabalhando em um projeto original meu e, quando tudo der certo, eu vou saber que parte disso é porque eu pratiquei por algum tempo com as tais das fanfics.

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A Longa Viagem A Um Pequeno Planeta Hostil | Ficção-Científica, Diversidade e Representação.

Texto por Rebeca Puig e Clarice França

Uma das coisas engraçadas da ficção científica é como parte dos autores acaba reverberando conceitos tradicionais de sociedade, relacionamentos e protagonismo. Imagina-se que exatamente por serem sci-fi, essas obras deveriam abraçar a liberdade criativa que o gênero permite. Mas, em vez disso, é muito comum ver valores morais e sociais considerados retrógrados hoje presentes em obras de temática contemporânea. De certa forma, isso acabou me afastando um pouco de autores atuais, exatamente por insistirem em um conceito de narrativa e personagens conservadores.

 

Outra coisa que o sci-fi tem dificuldade de criar/representar, principalmente no cinema, são alienígenas que não se encaixem no conceito humano de beleza física ou mesmo que tenham uma cultura com moralidade diferente da nossa, humana. Quando vemos um alienígena que não é bípede, que poderia ser confundido com um inseto ou mesmo com um lagarto, ele muito provavelmente é um vilão ou capanga do vilão principal. É engraçado que, dentro de um universo tão gigante, com tantas possibilidades em química, biologia e física, nós só consigamos mostrar como positivo aquilo que é parecido com um bípede mamífero de inteligência mediana.

 

Talvez por isso eu tenha ficado tão encantada com a diversidade e a qualidade da representação dentro de A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. Becky Chambers já começa com o básico, buscando equilibrar o gênero dos personagens dentro da Andarilha, a principal nave do livro. A tripulação, contando a I.A., é composta por nove sapientes – quatro mulheres, quatro homens e um sapiente não binário, o Doutor Chef. Além de ser quantitativamente uma visão mais igualitária, essa decisão de equilibrar os números mostra que esse não é um universo ficcional em que vou ser obrigada a, mais uma vez, ler sobre a disparidade entre os gêneros humanos. Não, sapientes femininos, masculinos e não binários não são discriminados por causa de gênero.

 

Além disso, se analisarmos mais de perto os personagens, podemos ver que temos uma variedade interessante de personalidades, culturas e valores morais, sem que nenhum deles seja considerado errado ou transgressor.

 

Um dos elementos que mais me deixou feliz com o livro foi o modo como o futuro da sociedade humana é apresentado, e como podemos ver isso muito bem através do capitão da nave, Ashby. Em outros livros do gênero, teríamos Ashby como um capitão militarizado, arma na cintura, quarto de armas no fundo da nave, um herói de aventura como Mal, de Firefly. Mas Ashby é o oposto disso, ele acredita verdadeiramente que não precisa ser violento ou usar força física para ser o capitão de uma nave como a Andarilha; pelo contrário, ele repudia armas e é muito consciente quanto à capacidade humana de se corromper diante do perigo e da insegurança. No universo de Chambers, os humanos precisaram encarar sua inferioridade intelectual frente às raças alienígenas, aceitaram suas diferenças, olharam para toda a destruição que criaram e aprenderam a ser melhores. Além de ser uma representação masculina que não cai no tropo da masculinidade tóxica, o capitão da Andarilha é uma visão esperançosa de como nós, como sociedade, podemos evoluir.

 

A nave possui quatro humanos a bordo, entre eles Jenkins e Rosemary. Quero destacar esses dois porque eles possuem elementos que normalmente não são representados dentro do sci-fi, especialmente Space Óperas. Rosemary é negra, de origem rica, uma personagem que chega à Andarilha cheia de mistérios, mas que possui, só nessas duas características – ser negra e rica – uma história que pouco é usada pela cultura pop de maneira geral. Além de tudo isso, claro, Rosemary é uma personagem interessante, um tipo de novata espacial, o que a torna a nossa personagem de entrada no universo, outro fato quase inédito quando falamos de personagens femininas e negras.

 

Jenkins é outro personagem que, enquanto eu ia descobrindo mais sobre sua história, mais interessante ficava a visão da autora sobre o que a humanidade poderia se tornar no futuro. Jenkins é anão, não por mágica, mas por ter nascido assim. Em um futuro em que todo tipo de alteração e aprimoramento genético está disponível, descobrir por que ele chegou à idade adulta sem ter recorrido a eles, o papel de sua mãe nisso e o nível de fanatismo a que o ser humano consegue atingir foi um dos pontos altos do livro. Além de ser uma representação pouco vista – um humano anão e negro -, Jenkins é responsável por trazer dois temas muito pertinentes sobre nosso futuro: Quanto nós podemos ou devemos interferir geneticamente numa criança, e o que nos torna humanos: carne ou inteligência? Sua amizade com Lovely, a inteligência artificial da nave, é mostrada de maneira natural, ao mesmo tempo levantando questões válidas sobre até que ponto seres sapientes podem bancar Deus e criar uma vida nova. É a partir de Jenkins que surgem as questões do livro mais eticamente complexas.

 

Sissix é a personagem que pilota a nave. Ela é uma aandriskana, bem diferente dos humanos, tanto nos costumes quanto na aparência. Os aandriskanos demonstram afeto de forma física muito mais aberta que outros, além de terem vários núcleos familiares. Entre os aandriskanos, a família que eles escolhem estar, que cuida deles durante seu crescimento, é mais importante que a família de sangue. Além disso, Sissix é uma das representações mais positivas na ficção de personagens com relacionamento poliamoroso. Pessoas que optam por relacionamentos não monogâmicos ainda são mal vistas em nossa sociedade, e os poucos personagens da ficção que se encaixam nesse modelo são considerados vilões ou não confiáveis. Com Sissix, temos uma personagem complexa, com uma família muito amorosa e relacionamentos fortes que não se encaixam em nosso padrão mais conservador, e esses aspectos nunca são usados para diminuir a personagem. Talvez, de todas as pessoas da Andarilha, seja Sissix  a que tem a maior estabilidade familiar e de relacionamento. Ao contrário do que podem imaginar acerca das pessoas que optam por relacionamentos parecidos com os de Sissix, através da personagem vemos que ela entende perfeitamente que nem todo mundo é obrigado a tomar as mesmas decisões que ela. Felizmente, quando Sissix se envolve romanticamente no livro, em vez de ela mudar seu jeito pelo “verdadeiro amor”, vemos que as pessoas respeitam e aceitam seus costumes.

 

Outro personagem interessante para a diversidade do livro é Dr. Chef. Ele conta para Rosemary sobre sua raça, os Grum. Para eles, o gênero é algo que muda ao longo da vida, eles começam como mulheres, passam a se identificar como homens e em seus últimos anos se entendem como não binários. Em nenhum momento ele é questionado sobre isso, desrespeitado ou desmerecido pela maneira como entende seu gênero. A dúvida de Rosemary em relação ao assunto existe por ela ser nova no espaço e não conhecer muito sobre as outras raças, mas a partir do momento em que aprende passa a chamar Dr. Chef da maneira que o personagem prefere.

 

Além da variedade, um dos grandes acertos do livro é fazer que essas questões de representatividade não sejam o ponto principal do arco dos personagens. É óbvio que é interessante uma história em que uma mulher vence em uma sociedade machista, mas Becky Chambers construiu um universo inteiro no futuro em que os problemas são outros. O arco de Rosemary nunca é sobre ela ser uma mulher negra. Para nós, leitores, isso é importante, porque não vemos isso com frequência, porém pessoas que não se encaixam no padrão da sociedade também possuem outras questões além daquilo que os torna uma minoria. É muito bom ler um livro com personagens tão diversos no qual eles podem ser mais do que apenas um elemento, em que os problemas de sua vida são relacionados a todo tipo de questões que você encontraria em um protagonista padrão.

 

Há outros personagens que valem a pena ser notados. Kissy é uma engenheira, uma função que normalmente vai para o personagem homem. Corbin é o único que faz um comentário racista no livro, e é imediatamente repreendido por sua atitude. Becky Chambers usa o gênero de ficção científica da melhor forma possível para mostrar que as histórias podem ter muito mais que o homem padrão, que os conflitos não precisam ser clichês e que há valor e oportunidade quando estamos abertos para a diversidade. Há inúmeras possibilidades de construção de personagens, ainda mais na ficção científica, e todo mundo que insiste em uma narrativa e em personagens conservadores tem um pouco a aprender com Becky Chambers.

Resenha | A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil

Há algumas semanas, anunciamos que a Darkside lançaria A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers. A editora nos mandou uma cópia do livro e agora podemos contar um pouco do que achamos! Pode ler tranquilo, porque não vai ter spoilers.

Rosemary é uma guarda-livros humana que mora em Marte. Ela é enviada para trabalhar na Andarilha, uma nave especializada em abrir “túneis” de um ponto a outro no espaço. Lá, ela conhece o Capitão Ashby e sua tripulação, composta de várias pessoas diferentes, tanto por serem de várias raças alienígenas como também por terem costumes e opiniões variadas. Enquanto ela está se adaptando ao novo emprego, Ashby recebe uma proposta de trabalho para a Andarilha. Essa jornada os levará até Hedra Ka, o tal pequeno planeta hostil. É uma viagem perigosa, já que a raça que vive lá está em guerra, porém é um trabalho tão bem remunerado que Ashby não vê porque eles não devem tentar. Afinal, a Andarilha não é uma nave de guerra – essa conexão, inclusive, poderia fazer a paz entre as raças da Gallatic Commons (GC) e as que vivem nessa região.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil tem tudo o que os fãs de ficção científica mais amam: Longas viagens intergalácticas, alienígenas, alta tecnologia e até interação com IAs (inteligência artificial). Becky Chambers nos apresenta esse universo gigantesco, cheio de coisas novas e interessantes para o leitor mergulhar nelas. Uma das minhas maiores críticas à literatura de ficção científica é como as diferentes raças são apresentadas e explicadas. Quando estamos em um meio audiovisual, ou até num quadrinho ou videogame, o fator visual nos ajuda a entender essas novas raças, mas na literatura ficamos apenas com a descrição. Não é muito difícil que um autor apenas jogue informações no livro, deixando confuso para quem não conhece o universo criado e que vai ficar sem entender quem são esses alienígenas. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, a autora consegue nos apresentar sem problemas às raças que cruzam o caminho de Rosemary, falando sobre sua aparência, cultura e diferenças em relação aos humanos. Obviamente, no começo você fica um pouco perdido, mas Becky Chambers consegue encaixar esses momentos de exposição de forma divertida e interessante.

Talvez exatamente pela autora tomar esse tempo para explicar, os momentos “senta que lá vem história” acontecem com alguma frequência. Momentos de exposição muito longos podem ser um problema, mas em pouquíssimos deles me peguei ficando distraída da leitura, porque o conteúdo é tão interessante que queremos realmente sentar para ouvir a história. Por mais que os nomes sejam complicados, cada raça alienígena é tão distinta e com características tão marcantes que podemos até não saber direito pronunciá-los, mas lembramos os fatores importantes. Isso também vale para os momentos em que novas tecnologias são explicadas. Alguns deles são um pouco longos, mas a autora consegue explicar bem como esses aspectos funcionam nesse universo.

Os personagens são fantásticos. A Andarilha é composta por nove tripulantes, incluindo sua IA. Em um grupo grande de personagens, é esperado que alguns deles acabem ficando de lado. Becky Chambers de fato dá mais foco para uns do que para outros, mas ela consegue balancear tão bem o momento de cada um deles que acabamos conhecendo nove personagens densos, complexos e com arcos bem interessantes. Até personagens que eu considerava chatos se tornaram muito mais legais quando tiveram seu momento no holofote. Nenhum deles é uma cópia do outro, por mais que compartilhem o objetivo de terminar seu trabalho – cada um tem um conflito interno que aparece e recebe uma conclusão ao longo do livro.

 

Isso acaba resultando em um dos poucos pontos negativos do livro. Becky Chambers escolhe dar foco para os personagens, mas a história principal em si, a jornada até o planeta hostil, acaba ficando em segundo plano. Eventualmente, esse conflito “principal” tem sua conclusão, mas acaba sendo algo muito menor do que a história de cada um dos personagens. Por mais que eu encare isso como um defeito, essa escolha não afeta em nada a qualidade do livro, porque os personagens são tão ricos e seus conflitos tão interessantes, que o que importa de fato é ver como eles vão se virar e reagir diante das inúmeras coisas que vão acontecendo emseu redor, mesmo que as mais banais.

Muitas vezes vemos a ficção científica ser um lugar com muito mais espaço para personagens homens padrão do que qualquer outro tipo de personagem mais diverso. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, vemos todos os tipos de personagens. Boa parte da tripulação é composta por mulheres, todas elas bem diferentes e fugindo de qualquer estereótipo. Mesmo os homens da tripulação possuem representações interessantes, longe da masculinidade tóxica que conhecemos. Há também personagens negros, variedade de sexualidades, um personagem não binário e até a representação de relações poliamorosas.

Além de personagens incríveis, outro ponto muito bom do livro é a mensagem geral que ele passa. Por existirem inúmeras raças vivendo juntas, há toda uma discussão sobre aceitar o outro, buscar entender o que é diferente, respeitar a pessoa que está a seu lado e sobre como preconceito é algo que não deve ter espaço na sociedade. Quando algum personagem é preconceituoso, os outros em seu redor não perdem tempo em repreendê-lo. Em tempos como os atuais, em que uma onda conservadora ganha força em vários pontos do mundo, em que discursos perigosos e preconceituosos ganham cada vez mais espaço, é importante que a cultura pop esteja disposta a mostrar que a intolerância não é o caminho. A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil mostra que, para vivermos em sociedade com pessoas diferentes, devemos ser tolerantes, respeitar e ter empatia.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil é um livro muito bom. Recomendo bastante que todos leiam, e mesmo quem não é muito fã de ficção científica deveria dar uma chance. Além de ter um universo muito rico e interessante, é muito divertido acompanhar o desenvolvimento dos personagens. Sem contar que, nesses tempos atuais, precisamos de mais obras que falem sobre pessoas tendo empatia e conseguindo criar sociedades melhores.

O livro já está a venda pela Darkside.

Sobre “Leitor Sensível” e motivos pra não dizer que é censura

Recentemente, nossas linhas do tempo no Facebook foram invadidas com a expressão “leitor sensível”. A expressão era até então desconhecida de grande parte da população – até mesmo para algumas pessoas envolvidas com literatura e escrita em geral. Após a publicação da reportagem “Editoras contratam ‘leitor sensível’ para evitar ofender as minorias”, surgiram muitos comentários muito equivocados sobre o assunto. Pularam na nossa frente falas que variavam entre comparações com inquisição e ditadura até acusações de que a presença do leitor sensível estava acabando com a literatura.

Basicamente, um leitor sensível é alguém que lerá uma obra a ser publicada e opinará sobre a construção de determinadas personagens e conflitos. Seu trabalho é dar uma consultoria que possibilite uma criação mais verossímil e menos pautada em estereótipos. Normalmente, um leitor sensível analisa personagens e conflitos que tenham a ver com suas vivências pessoais – ligadas a gênero, classe, etnia, situações delicadas, etc. É um serviço adicional no processo editorial. No Brasil ele ainda não é tão comum quanto em outros lugares do mundo. A ideia é que, passando pelo olhar de uma pessoa que conhece melhor o assunto, a obra tenda a ser construída com mais verdade. É possível ler mais sobre o assunto no blog de Alliah e em inglês nessa matéria do Slate.

Basicamente uma pessoa lendo sobre aquilo que ela entende melhor: ela própria.
(Arte: Richardd Curtner)

As editoras têm se interessado mais por esse tipo de serviço, mas não necessariamente por alguma consciência social, e sim por uma questão de mercado. É evidente que cada vez mais as pessoas não aceitam certos tipos de comentários ou representações midiáticas. A propaganda vem se adaptando para atender a esse consumidor e dramaturgia – tanto no cinema quanto na TV – tem colocado conflitos com maior representatividade. Quando se precisa vender, não se quer desagradar o público alvo e se o público alvo não quer mais ver os velhos clichês, vai se tentar outros caminhos para atendê-lo. Na reportagem que deu origem à discussão se falava sobre o leitor sensível ser uma estratégia para evitar boicotes.

Esse assunto tinha sumido, até que Washington Olivetto deu uma entrevista falando justamente aquelas opiniões do primeiro parágrafo: que o leitor sensível seria uma espécie de censor que tolheria a criatividade dos autores. E o assunto voltou a rodar pelas nossas linhas do tempo.

Já está autorizado reagir como a Mulan pra tudo na vida?

Para pensar um pouco mais sobre o assunto, falamos com a Carolina Gomes. Carolina é mulher, negra, roteirista, revisora e uma “leitora sensível informal”. Por conta de seu olhar sobre o mundo, suas leituras de obras literárias e cinematográficas sempre pontum questões tocantes à sua vivência e à construção e elaboração de personagens e situações que conhece bem. Carolina Gomes também é criadora do site Pretas Dramas junto com a cineasta Renata Martins e a psicóloga Viviane Angélica.

– Qual a sua experiência – profissional ou não – como leitora sensível?

Então, não é minha profissão. Pessoas próximas e amigos me mandam alguns textos e eu leio. Eu faço uma leitura ativa, é basicamente parte do meu processo de ler (e acabo fazendo isso também no meu trabalho como revisora).

– Você lembra quando foi a primeira vez que te pediram pra ler uma obra com esse propósito?

Nunca me pediram especificamente uma leitura sensível mas eu sempre levanto os pontos e abordo com a pessoa. É por isso que eu chamo de leitura ativa: Eu leio, destaco os trechos e devolvo para o escritor. Acho o processo interessante porque a troca é bastante intensa: o escritor, ao passar sua obra para uma leitura de outra pessoa, também está minimamente disposto a ouvir e refletir sobre isso. Pensando agora, eu leio desta forma quase sempre no dia a dia

– Pelo que você fala parece uma troca comum entre pessoas que trabalham com escrita pedir que outra pessoa leia para opinar.

Eu acho que sim. Tenho amigos que fazem isso com certa freqüência. Acho que isso acontece também porque ficamos tão imersos nas nossas escritas e por vezes não percebemos algumas questões, mesmo que não sejam sutis. Às vezes são gritantes e mesmo assim passam, acontece… E às vezes o escritor está falando de algo que domina pouco também. Há muito equívoco neste processo de escritura e lapidação das narrativas, mas isso só vai acontecer se o escritor estiver aberto ao diálogo e disposto a escutar a crítica

– Você acha que às vezes as pessoas têm uma superproteção com a própria obra, que deixa mais difícil ouvir críticas ou sugestões?

Exatamente, isso acontece. Eu leio obras de amigos homens e a coisa às vezes fica estranha quando falo da representação de mulheres. Sempre dá pano pra manga…

– Eu vi muita gente dizendo que submeter sua obra a um leitor sensível é uma espécie de censura.

Também vi este tipo de comentário mas acho estranho. A obra vai ser filmada ou publicada, então o que se espera? Que tenha público. E tendo um público, teremos críticas, positivas ou não. Não conheço obras isentas deste processo. E também tem uma outra coisa que acho complicado no processo é o limite entre leitor sensível e coautor. Porque às vezes o problema é tão estrutural que não é um acerto puro e simples, é uma mudança de rota, praticamente. E eu também falo: não acredito em leitura isenta. Porque eu sou uma mulher e, se leio sobre mulheres, tenho uma visão sobre isso. O mesmo sobre questões de raça, classe social; então sempre falo: não será uma leitura isenta e nem é essa a minha pegada.

– Foi até bom você falar sobre filmes, porque nessas discussões eu não ouvi falarem sobre essa análise em roteiros. Você vê isso rolando em cinema também?

Eu leio roteiros e acho que tem rolado uma preocupação com isso também e sei de amigos do meio que passam os roteiros para serem lidos com este intuito.

– Você acha que existe limite para a liberdade de expressão na literatura?

Não tenho uma resposta pronta pra esta questão de limites. O que eu acho é que estamos passando por um momento em que mais e mais pessoas consomem as obras com um viés mais crítico. Se o autor não é sensível ao momento em que vive e à sociedade em que está inserido, bem… Ele continuará fazendo o trabalho como sempre fez.

– Você acha que tende a se tornar uma prática mais comum no Brasil, assim como é no exterior?

Acho que sim, espero que cresça ainda mais. Isso mostra maturidade no mercado e até mais profissionalismo. Quem se preocupa em construir narrativas mais plurais e diversas vai fazer isso. Quem não liga vai tocar a vida e as narrativas como sempre.

Resenha: “Outros jeitos de usar a boca”

“Outros jeitos de usar a boca”, de Rupi Kaur, virou o livro de cabeceira de muita gente. Mais especificamente de 40 milhões de leitores ao redor do mundo. “milk and honey” (título original) de Rupi está, há semanas, como #1 da lista de mais vendidos do New York Times, e chegou no Brasil há pouco tempo, mas já virou best-seller aqui também.

Uma das razões pra esse sucesso gigantesco se deve ao fato da poesia dela ser clara, direta e curta. É simples de ler e ainda tem imagens – maravilhosas – da própria autora que facilitam a compreensão. Mas a temática em si não é fácil. Rupi abre seu coração e suas experiências de vida em “Outros jeitos de usar a boca” em quatro partes: “a dor”, “o amor”, “a ruptura” e “a cura”.

As 4 fases formam um arco narrativo subjetivo sobre as noções de abuso, relacionamento, perda, cura e feminismo. Mas por mais que sejam as experiências da Rupi, a maneira que ela escreve possibilita a abertura de uma discussão de micro pra macro, como o papel da mulher na sociedade, impunidade, amor próprio e até relações interpessoais com familiares e namorados(as). De certo modo, ela acolhe as leitoras com suas próprias experiências do que é a feminilidade, o que é ser mulher atualmente.

Os desenhos minimalistas do livro são da própria Rupi e já foram tatuadas nas peles de muitas mulheres. Assim como a linguagem escrita, a visual também é simples, delicada e forte. Desse modo, os desenhos complementam de uma forma essencial os próprios poemas. É desse jeito, por exemplo, que ela cria uma experiência completa para o leitor quando descreve a natureza feminina como algo lindo em “a cura”. Ela torna esse e vários outros tabus algo fácil de ler e compreender.

Hoje, a Rupi é uma escritora famosa e que usa diferentes formatos, não só o impresso, pra divulgar seus poemas. Ela também usa muito o Instagram como ferramenta. Inclusive foi ela que postou a foto menstruada com a calça e o lençol manchados e causou polêmica em 2015, abrindo a discussão sobre o tabu que se cria em cima de questões tão básicas da natureza feminina, como menstruação.

thank you @instagram for providing me with the exact response my work was created to critique. you deleted a photo of a woman who is fully covered and menstruating stating that it goes against community guidelines when your guidelines outline that it is nothing but acceptable. the girl is fully clothed. the photo is mine. it is not attacking a certain group. nor is it spam. and because it does not break those guidelines i will repost it again. i will not apologize for not feeding the ego and pride of misogynist society that will have my body in an underwear but not be okay with a small leak. when your pages are filled with countless photos/accounts where women (so many who are underage) are objectified. pornified. and treated less than human. thank you. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀ this image is a part of my photoseries project for my visual rhetoric course. you can view the full series at rupikaur.com the photos were shot by myself and @prabhkaur1 (and no. the blood. is not real.) ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ i bleed each month to help make humankind a possibility. my womb is home to the divine. a source of life for our species. whether i choose to create or not. but very few times it is seen that way. in older civilizations this blood was considered holy. in some it still is. but a majority of people. societies. and communities shun this natural process. some are more comfortable with the pornification of women. the sexualization of women. the violence and degradation of women than this. they cannot be bothered to express their disgust about all that. but will be angered and bothered by this. we menstruate and they see it as dirty. attention seeking. sick. a burden. as if this process is less natural than breathing. as if it is not a bridge between this universe and the last. as if this process is not love. labour. life. selfless and strikingly beautiful.

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No final das contas, o sangue não era real, mas faz parte do trabalho visual e militância dela, ambos aspectos muito fortes do que ela faz, inclusive em “Outros jeitos de usar a boca”.

Finalmente, o trabalho dela é incrível. Ao longo do livro se vê a alma dela aberta para o leitor, algo que requer muita coragem. E não à toa, aos 24 anos ela é autora de best-seller e a poesia dela já faz parte da literatura feminista. Inclusive, 40 milhões de exemplares vendidos de uma obra feminista vendidos no mundo só mostra o quanto o movimento está crescendo.

Se você quiser conhecer mais sobre a Rupi, assista ao TED dela sobre retomar o próprio corpo: 

Você também pode comprar “Outros jeitos de usar a boca” na Livraria Cultura por R$19,90.

DarkSide Books lança A longa viagem a um pequeno planeta hostil, de Becky Chambers, e nossos corações de sci-fi explodem!

Há alguns anos comecei a seguir um site chamado The Mary Sue, com certeza o site que iniciou minha educação sobre a questão da representatividade dentro da cultura pop que eu consumia tão ferozmente todos os dias. Lá conheci um monte de mulheres que escreviam sobre todo tipo de assunto nerd, uma delas justamente Becky Chambers, autora do lançamento da vez da editora Darkside: A longa viagem a um pequeno planeta hostil.

Becky é filha de uma especialista em astrobiologia e de um engenheiro espacial e neta de um dos participantes dos projetos Apollo da Nasa, ou seja: ciência é algo que corre em suas veias. E, como a gente bem sabe, para atravessar da ciência real para a ficção científica é um pulo. Apaixonada por Star Trek e pelo trabalho de Carl Sagan, todo esse universo de ficção e ciência só podia resultar numa escritora muito talentosa.

Em seu livro de estreia, Becky cria um romance que gira em torno da tripulação da nave Andarilha e da construção de um túnel espacial que vai permitir ao pequeno planeta do título fazer parte de uma aliança galáctica. Com personagens muito bem elaborados, com aliens que fogem do padrão “humanoide” que vemos aos montes dentro da ficção científica, A longa viagem a um pequeno planeta hostil entrega uma variedade de personagens e temas que faz o coração de qualquer apaixonada por sci-fi bater mais rápido.

Quer uma piloto reptiliana? Tem. Uma estagiária recém-saída da universidade e criada nas colônias de Marte? Tem. Médico de gênero fluido? Também tem. O livro aborda temas clássicos, como amizade, mas vai além, ao trazer questões como o racismo, o poliamor e variados conceitos de família. É muito amor dentro de um livro só! Em tempos conservadores como os que vivemos, é sempre incrível ver a ficção científica realmente tocar nesses assuntos, e fazer isso por meio de um grupo de personagens tão diferentes é ainda melhor.

O livro foi inicialmente financiado através do Kickstarter, e fez tanto sucesso entre os fãs e a crítica que acabou indicado a dois dos maiores prêmios da literatura de ficção científica: o Hugo Awards e o Arthur C. Clark Awards. Com cada vez mais se mulheres auto-publicando, é revigorante ver que o talento delas está sendo reconhecido e abraçado por editoras tradicionais. A longa viagem a um pequeno planeta hostil é o primeiro lançamento de ficção científica da linha DarkLove, que foca em produções escritas por autoras e que já possui títulos como The Kiss of DeceptionSó os animais salvam e Confissões de crematório.

A longa viagem a um pequeno planeta hostil, que chega dia 10 de agosto às prateleiras, tem a já tradicional edição capa dura da DarkSide352 páginas e tradução de Flora Pinheiro – sempre fico feliz quando vejo uma tradutora nos créditos.

Você já pode reservar o seu lugar nessa viagem espacial: o livro está em pré-venda na Amazon!

Para conhecer e ler literaturas africanas – PARTE I

Erroneamente, é possível encontrar em festivais literários ou até mesmo em artigos de jornais a colocação de literatura africana como literatura marginal ou periférica. Isso ocorreu esse ano, na 12ª Feira Nacional do Livros de Poços de Caldas, que teve uma mesa-redonda nomeada por “Mulheres na Literatura Marginal/Periférica”, tendo como debatedoras Luz Ribeiro, Mel Duarte, Roberta Estrela D’alva – escritoras brasileiras que fazem parte da chamada literatura marginal ou periférica –, e Paulina Chiziane, escritora moçambicana que é considerada cânone tanto nos países de literaturas africanas em língua portuguesa quanto na tradição de escrita de autoria feminina africana.

O que leva um evento de tão grande porte colocar uma escritora como Paulina em uma mesa que pouco – ou nada – tem a ver com sua história literária? Talvez o motivo, de modo bastante preconceituoso, deva ser o fato de todas essas escritoras serem negras e, dessa forma, serem vistas e lidas com uma trajetória parecida.

É assim que retornamos à afirmação feita no começo do texto: é errôneo colocar literaturas africanas na mesma caixa da literatura marginal. Se isso é feito é porque, infelizmente, apesar de ser fácil encontrar livros de escritores africanos nas livrarias, ainda é difícil, mesmo com a lei 10.639/03, que fala sobre a obrigatoriedade do ensino de cultura e história africana e indígena nas escolas e universidades brasileiras, ver pessoas que se interessam por literaturas africanas. E literaturas africanas está no plural porque, afinal de contas, há 54 países no continente africano, cada um com inúmeras peculiaridades que os fazem diferentes entre e em si.

Além disso, não podemos nos esquecer de que o Nobel de Literatura já foi entregue para quatro escritores africanos, tanto da chamada África setentrional, a parte norte do continente, quanto da África subsaariana, que é toda a parte que se encontra abaixo do Deserto do Saara.

 

Os países com um livrinho foram os que receberam o Prêmio Nobel de Literatura: o nigeriano Wole Soyinka foi o primeiro, em 1986; o egípcio Naguib Mahfouz o segundo, em 1988; e os sul-africanos Nadine Gordimer e J. M. Coetzee foram, respectivamente, o terceiro, em 1991, e quarto, em 2003, a ganharem o Prêmio.

Sendo assim, para sair dessa nomenclatura um tanto preguiçosa que andam dando às literaturas africanas é que essa lista foi feita. Todos os livros aqui sugeridos podem ser encontrados em sebos ou livrarias:

 

1. Niketche, uma história de poligamia – Paulina Chiziane

Paulina foi a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique. Enfrentou o preconceito da sociedade que não aceitava que uma mulher pudesse escrever. Ainda mais escrever sobre amor, sexo e desejo, algumas premissas que são encontradas em seus livros.

Infelizmente, só temos um livro publicado dela no Brasil, Niketche, uma história de poligamia, que mostra a protagonista Rami tentando reconquistar seu marido, o comandante de polícia Tony. Cansada de ser humilhada pelo marido, Rami decide ir atrás do que ela pensa ser o problema de seu casamento: Julieta, amante de Tony. Todavia, ao chegar na casa de Ju, Rami descobre que Tony possui outra amante e, indo de casa em casa, o que antes era uma monogamia, torna-se uma poligamia representada por um pentágono.

 

2. Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda é nigeriana e tem inúmeros livros publicados no Brasil, então não vai ser difícil encontrá-la! Aqui indicarei o primeiro que eu li e que me conquistou.

Americanah conta a história da nigeriana Ifemelu que se muda para os Estados Unidos para terminar os estudos. E é nesse país estrangeiro que Ifemelu se descobre como mulher negra e o que isso implica na sua vivência.

 

3. Amargos como os frutos: poesia reunida – Ana Paula Tavares

Como o próprio nome diz, Amargos como os frutos é uma antologia de toda produção poética da escritora angolana Paula Tavares, que também escreve crônicas. Sua poesia é marcada por um forte apelo erótico e por tratar da mulher mumuíla, da comunidade Mumuíla, na província de Huíla.

 

4. Mayombe – Pepetela

Assim como Paula Tavares, Pepetela é angolano. Mayombe foi escrito em 1971, ainda durante a guerra de independência de Angola contra a ocupação portuguesa. Apesar do momento eufórico de celebração para um futuro possivelmente melhor, o livro é marcado por uma espécie de disforia, o que dá o tom um pouco adivinhatório da desesperança que assolaria o país alguns anos após a independência. Além disso, ele foi publicado apenas em 1980.

A história narra o cotidiano de um grupo de guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), mostrando os conflitos internos de cada personagem.

 

5. Aya de Yopougon – Marguerite Abouet

HQ que ganhou o Prêmio de Melhor álbum de estreia no Festival Internacional de HQ de Angoulemê, em 2006, Aya de Yopougon conta a história de três amigas que vivem em Yop City, subúrbio de Abidjan, capital da Costa do Marfim. Assim, saindo do clichê do continente africano marcado pela fome e guerra, vemos que a vida dessas três amigas, assim como de qualquer adolescente, é marcada por dilemas como amor e dúvidas sobre o futuro.

Infelizmente só duas edições foram publicadas no Brasil, mas mesmo assim vale muito a pena ler!

 

Aguardem a segunda parte da lista!