Escrevendo personagens bissexuais

Há alguns dias eu postei um texto sobre estereótipos que encontramos em personagens bissexuais na cultura pop. Eu terminei concluindo que o problema não é a característica clichê em si, mas como isso pode dar uma representação ruim como um todo, já que muitas vezes é a única que vemos. Personagens que se resumem ao estereótipo não são representações tão interessantes, mas quando isso é uma característica no meio de várias, ou um personagem bissexual no meio de outros, aí a representação pode ser mais positiva.

Isso tudo aqui é o ponto de vista de uma pessoa, então seguir as minhas dicas não significa que nenhuma outra pessoa bissexual no mundo não vai criticar a representação da sua obra. Mas ler sobre o assunto, ouvir as pessoas da minoria em questão e, mais importante, se permitir ouvir críticas e dicas pode ajudar.

Eu entendo que às vezes ouvir críticas não é fácil, principalmente no ponto de vista de representação. Isso é considerado uma característica secundária das obras, então há sim muitos artistas que acham que pensar criticamente sobre isso é “censura” ou “impedir minha arte de ser livre”. Mas assim como estamos dispostos a ouvir dicas sobre narrativa, revisão de texto ou formatação, também precisamos estar dispostos a ouvir quando o assunto é representação.

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Você não precisa ser bissexual para escrever um personagem que é. J. K. Rowling não é um homem, mas o protagonista de sua história mais famosa é o menino que sobreviveu. Se as suas histórias só possuem personagens que tem algo em comum com você, a variedade será muito pequena. Parte do trabalho de escrever é tentar se colocar no lugar do outro, e quanto mais pessoas criarem personagens diversos, melhor! Você não precisa ser da minoria em questão para fazer isso.

Normalmente a primeira coisa que ajuda a fugir dos estereótipos de personagens bissexuais é ter mais de um na sua obra. Cada um deles com sua personalidade, manias e formas de agir diferentes ajuda a mostrar que a sexualidade não é algo que define as pessoas. Basta ver que, uma história que só tem personagens hétero, constrói todos eles de forma diferente um do outro, exatamente porque a sexualidade não define uma pessoa. Dessa forma, se um dos seus personagens bissexuais acabarem caindo em algum clichê, o fato de ter outro que não apresenta a tal característica melhora a representação. Isso acontece em Dragon Age, há personagens bissexuais que podem cair no clichê de certa forma, mas como existem outros, a representação se expande.

Talvez o grande problema é que, quando muitas pessoas vão construir um personagem fora do padrão cis heteronormativo, elas se focam na característica que faz com que esses personagens fujam do padrão. Uma história que mostre um personagem bissexual, que tenha que lidar com o preconceito que sofre pela sua sexualidade é muito legal, mas um personagem bissexual pode ter outros tipos de questões, assim como todas as outras pessoas, de qualquer sexualidade. Imagine só um personagem bissexual que, ao contrário de ter algum problema que envolva relacionamentos ou sexualidade, tem que enfrentar o fato de que sempre que espirra, o tempo é congelado? Normalmente, quando a sexualidade não importa, nós assumimos o padrão hétero, mas algo muito interessante para a representação na cultura pop em geral é que personagens bissexuais, ou de qualquer outra sexualidade, possam ser qualquer coisa, como acontece com os que são heterossexuais. Basta ver Max, de Life is Strange. Ela é a protagonista e a bissexualidade não é o ponto principal da personagem.

Mas de qualquer forma, independente de quantos personagens bissexuais você tenha na sua história, há alguns estereótipos que é interessante ficar de olho.

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Há algumas histórias que colocam seus personagens como pessoas indecisas, que não entendem sua sexualidade e por isso se relacionam com pessoas de vários gêneros. Isso pode ser seguido do personagem acabar escolhendo ficar com uma pessoa como “interesse romântico” e passar a ser chamada de heterossexual ou homossexual. Isso é ruim porque cria a ideia de que ser bissexual é uma fase, e não uma sexualidade válida. Que tal escrever um personagem que está seguro de ser bissexual, sem dúvidas sobre o assunto? Uma história bem feita de um personagem descobrindo a sua sexualidade, e experimentando no processo, pode ser interessante, ainda mais se no final, mesmo que esse personagem decida ficar em um relacionamento com outra pessoa, ela continue se identificando como bissexual. Para esse exemplo, é interessante ver a construção de Kelly, no episódio San Junipero de Black Mirror.

Uma das formas mais comuns de mostrar que um personagem é bissexual é falando que ele “gosta de pessoas”. Isso é uma forma de fazer o público entender, e funciona, mas acabou virando um recurso que a maioria dos criadores usam. A bissexualidade já é muito apagada, colocar essa conversa na boca de personagens pode fazer com que as pessoas falem e fiquem mais cientes dessa sexualidade. Então, se você pretende mostrar para o público a sexualidade do personagem, que tal fazer ele dizer “bissexual” com todas as letras?

Às vezes, quando existe um grupo de personagens, justo aquele que é bissexual é o que vai ter encontros com várias pessoas. Eu sei dar exemplos de alguns personagens bissexuais bem escritos que caem nesse estereótipo, mas se você pretende colocar só um personagem bissexual na sua história, poderia evitar que logo ele carregasse essa característica. O estereótipo de que pessoas bissexuais saem com “todo mundo” é muito forte na sociedade, então isso seria uma forma de mostrar um outro lado. O seu personagem pode ser a pessoa do grupo casada a mais tempo, por exemplo.

Nesse caso específico, muitas vezes o fato do personagem bissexual se relacionar com várias pessoas é colocado de uma forma negativa na narrativa. Isso porque a sociedade gosta de condenar pessoas que têm muitos parceiros ao longo da vida (geralmente mulheres). Uma coisa que eu gostaria de ver mais na cultura pop são personagens bissexuais que tenham alguns desses clichês, como por exemplo sair com várias pessoas, mas isso não é mostrado de forma negativa. É só mais uma característica, assim como a cor do cabelo ou o tom de voz. Porém, como falei acima, nem todos podem estar de acordo com a minha visão, há parte do público bissexual que se incomoda em ver mais um personagem com qualquer característica considerada clichê.

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Procure dar finais mais felizes para seus personagens bissexuais. Caso você esteja escrevendo uma história triste, onde todo mundo acaba se ferrando no final, faz mais sentido que essa não seja a sua opção, mas se alguns terão a chance de serem felizes, que tal incluir entre eles o que é bissexual? Personagens LGBT+ em geral às vezes sofrem na cultura pop por morrerem, ou terminarem seus arcos quebrados. Você pode sim fazer seus personagens sofrerem (eu inclusive sou super a favor de um drama na ficção), mas estamos cansados de ver personagens fora do padrão se dando mal. Isso pode passar a ideia de que ele está sendo punido por não ser heterossexual. Que tal um personagem bissexual que, mesmo passando por inúmeros problemas, consegue seu final feliz? Como é o caso de Korra, em Avatar.

Eu já falei isso em outro texto, mas acho bom repetir aqui: Uma pessoa bissexual, que exista de fato fora do mundo da ficção, não é errada ou tem a sexualidade invalidada por fazer qualquer uma dessas coisas. Ser confuso, indeciso ou sair com várias pessoas não são problemas, não há nada de errado com isso. A questão não é alguém ser assim, mas que a representação dessa minoria só dê escolhas específicas baseadas em estereótipos.

Escreva personagens bissexuais que são heróis, coadjuvantes, vilões, engraçados, românticos, inseguros, muito seguros, com arcos de redenção, que sobrevivem no final… O que queremos é que essa representação chegue no ponto em que esse tipo de personagem possa ser qualquer coisa, em qualquer gênero da cultura pop. Às vezes, quando o autor quer colocar um personagem bissexual na obra, ele o coloca como vilão ou algum personagem próximo deste. Inclusive a sexualidade seria parte da vilania, que pode ajudar a trazer uma imagem ruim para pessoas bissexuais, por isso é importante que esses personagens apareçam em todos os lugares, com a maior diversidade de motivações possíveis.

A maior dica que eu posso dar para fazer um personagem bissexual complexo e que não caía em estereótipos é: Escreva um bom personagem. Quando ele é bem escrito, ele até pode ter clichês, mas será mais que isso. A história de um personagem bissexual pode ser sobre sua sexualidade, mas não necessariamente, então busque outras coisas além das que você automaticamente pensa. Ouça pessoas bissexuais, leia sobre esses estereótipos e esteja disposto a entender as críticas. Escrever um personagem fora da sua zona de conforto não é fácil, mas com imaginação, que é necessário para todo o artista, e também humildade, você estará no caminho certo.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

Bendita Cura – Quadrinho sobre homofobia e os efeitos da terapia de reversão.

Os últimos dias tem sido sombrios e controversos para a comunidade LGBT. Se você esteve na internet nos últimos dias provavelmente viu que no dia 18 de Outubro o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, do Distrito Federal, cedeu uma liminar autorizando psicólogos a fazer terapias de reversão sexual com pacientes homossexuais. Essa decisão vai contra a OMS (Organização Mundial da Saúde) e contra o Conselho Federal de Psicologia, que veta tal prática. Por isso Bendita Cura: É Para o Bem Dele (Pt1), de autor Mário César Oliveira, chega em uma hora tão propícia.

O quadrinho acompanha a história de Acácio, desde a infância na década de 60, até os dias de hoje. Crescendo num lar conservador e homofóbico, Acácio teve a vida marcada por preconceito e terapias de conversão.

Mário César teve a idéia ainda em 2013, quando o pastor Marcos Feliciano assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O quadrinho é resultado de muita pesquisa e não é baseado em apenas um caso, mas em diversos depoimentos e reportagens que o autor teve contato ao longo dos anos. O primeiro roteiro ficou pronto em 2014 e agora passa por um processo de refinamento.

Vi que tinha um mote bom pra uma história que abordasse questões de orientação sexual e de gênero, me deparei com muitos relatos absurdos e fui montando o roteiro em cima disso. Nesse meio tempo fiz outras quadrinhos como o Púrpura e o Não existem super-heróis na vida real. Agora tô desenhando esse.

A idéia inicial era lançar a publicação no final do ano, mas com o que aconteceu nos últimos anos Mário sentiu que era o momento certo para fazer o lançamento. Não podia estar mais correto. Se passamos por tempos sombrios, os últimos dias começam a sentir como a idade média, e ter um trabalho assim em livre acesso para ser compartilhado e lido é muito importante.

Por enquanto você pode ler a metade do primeiro capítulo AQUI, Mário quer soltar o restante do quadrinho ou mensalmente, ou quinzenalmente – depende do que o fluxo de trabalho permitir. Quando o primeiro capítulo for terminado Bendita Cura também deve ficar disponível através da Social Comics, uma plataforma nacional de leitura de quadrinhos.

Você pode acompanhar o Bendita Cura por AQUI, Não Existem Super-heroís Na Vida Real está disponível na Amazon e você pode encontrar os outros trabalhos do Mário no site dele. Se você ainda não entendeu o problema da liminar, sugiro a leitura deste texto da Vice.

 

Os estereótipos dos personagens bissexuais na cultura pop

Dia 23 de setembro é o dia da visibilidade bissexual. Pois é, o B não é de banana, por mais que algumas pessoas insistam em ignorar as demandas dessa parte da comunidade LGBT+. Assim como as outras minorias, personagens bissexuais possuem um histórico cheio de problemas quando falamos de representação, então hoje vamos discutir um esses estereótipos na cultura pop.

Parece óbvio dizer que personagens bissexuais aparecem muito pouco na mídia. Com os anos, nossas opções para criar uma lista aumentam, incluindo alguns que realmente são positivos, mas ainda estamos muito longe de chegar em um ponto satisfatório. No relatório de 2016-2017 da GLAAD, foi estimado que apenas 4,8% dos personagens da televisão nos Estados Unidos eram LGBT+, ou seja, dentro desse número pequeno estão personagens gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, etc.

Entre esses, 30% foram considerados bissexuais, um total de 64 mulheres e 19 homens. Considerando o número de séries na televisão dos Estados Unidos, esse número é muito pequeno. Sim, se juntar cinema, quadrinhos, jogos e outras mídias, certamente esse número vai aumentar, mas tente comparar com a imensidão de personagens heterossexuais em todas essas mídias. A situação está muito longe de se tornar um cenário considerado igualitário.

A questão não são só os números baixos, mas também o estereótipo em que esses personagens são colocados sempre que aparecem. Esse texto é para pontuar clichês que sempre caem em cima dos personagens bissexuais, que colabora para uma imagem preconceituosa que é feita do B no LGBT+.

Como os números do GLAAD apontam, mulheres bissexuais possuem mais espaço na mídia do que homens. Isso dá uma falsa impressão de que mulheres são mais aceitas, mas basta ver a representação dessas personagens para perceber que isso não é verdade. Mulheres bissexuais ouvem com frequência que na verdade elas são hétero, que gostam mesmo é de homem e só beijam mulheres em baladas. O típico comentário de gente que acha que sabe da sexualidade de alguém mais que a própria pessoa, né? Mas voltemos aos estereótipos.

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Emmy 2017, Mulheres e Minorias.

O Emmy de 2017 com certeza surpreenderam muita gente, mas a verdade é que quando se dá espaço para minorias contarem histórias, contarem as suas histórias do seu ponto de vista, então muitas coisas incríveis pode acontecer. Não me surpreende que em um ano com tantas produções focadas em histórias femininas e em histórias de outras minorias o prêmio tenha sido entregue para essas pessoas.

Então vamos às mulheres que fizeram história e ganharam prêmios ontem ontem! <3

Lena Waithe se tornou a primeira mulher negra a ganhar um Emmy de Roteiro de Comédia pelo episódio “Thanksgiving”, em Master of None. Esse é, de longe, o episódio mais amado da segunda temporada e um episódio que conseguiu mostrar, para muitas pessoas LGBT, o drama e o humor de “sair do armário” para a família. Ou seja, não é só que uma mulher negra ganhou o Emmy de comédia, uma mulher negra e abertamente lésbica ganhou um Emmy ontem. E por mais que ainda seja pouco e que nós queiramos mais, não tem como não ficar feliz por ver Lena lá em cima segurando o troféu!

Eu vivo um caso de amor e receio com Master of None. Eu amo a primeira temporada, a segunda temporada me levantou a sobrancelhas algumas vezes por causa de alguns tipos de representação, mas Master of None é, de longe, a comédia de meia hora mais bem escrita que eu assisti em alguns anos. É diferente das minhas favoritas como Brooklin 99 e a eterna amada Parks and Recreation, comédias ainda um tanto formulaicas, mas consegue acertar em cheio não só na narrativa mas também no casting.

Julia Louis-Dreyfus se tornou a pessoa com mais Emmys ganhos pelo mesmo papel em um mesmo seriado. Julia está na há sete temporadas interpretando Selina Meyer na série Veep e levou para casa o prêmio de Melhor Atriz em Série de Comédia pela SEXTA vez consecutiva!

Eu não sou a doida de Black Mirror no Collant (essa é a Clarice), mas San Junipero com certeza é, dos episódios que eu já assisti, o meu favorito. Uma visão positiva, bem escrita e de maneira geral alegre de um relacionamento entre uma mulher lésbica e uma bisexual não é exatamente fácil de se achar por aí. Por isso os prêmios de Melhor Roteiro para Série Limitada, Filme ou Especial Dramático e o de Melhor Filme para Televisão são tão significativos. E, da minha parte, me enche o coração de esperança saber que talvez o episódio mais feliz de Black Mirror tenha ganhado. Em tempos tão sombrios acho que a gente precisa de um pouco de esperança e coisas boas.

Um dos grandes campeões da noite foi The Handsmaid Tale, a série do Hulu que adapta para a televisão/VOD o livro “O Conto da Aia” de Margaret Atwood. A produção levou para casa OITO prêmios, entre eles o de Melhor Direção em Série Dramático, que ficou com Reed Romano. A diretora tem um longo currículo como fotógrafa, e além de The Handsmaid Tale também dirigiu episódios de Billions e Halt and Catch Fire e o longa Meadowland. É sempre incrível ver o nome de uma mulher na lista de diretores premiados, ainda temos um longo caminho pela frente, e ele definitivamente precisa ser liderado por mais mulheres.

A eterna Rory Gilmore, Alexis Bledel, levou o prêmio de Melhor Atriz Convidada em Série Dramática pelo seu papel como Ofglen. Confesso que fiquei contente de ver Rory levando o troféu pra casa.

A série também levou Melhor Atriz Coadjuvante em Série Dramática, que levou o prêmio foi Ann Dowd, que interpretou a personagem Aunt Lydia na série. Além de Ann, Samira Wiley também estava indicada ao prêmio pelo seu papel como Moira.

Big Little Lies, da HBO, também levou para casa oito prêmios, entre eles Melhor Atriz Protagonista em Série Limitada ou Filme para Televisão, para Nicole Kidman. Melhor Atriz Coadjuvante em Série Limitada ou Filme para Televisão, para Laura Dern e Melhor Série Limitada.

Quando se fala de representação feminina é muito comum que ela caia dentro de um certo padrão de idade, então é muito legal ver que das seis mulheres que levaram estatuetas para casa, quatro delas estão acima dos 50. Papéis femininos bem construídos praticamente deixam de existir quando se chega à uma certa idade, diferente dos papéis masculinos que se tornam cada vez mais e mais complexos.

Espera-se, e assim parece, que esses papéis vão continuar a aumentar à medida que mais mulheres forem ganhando espaço no mercado, e à medida que nós formos dando valor para as mulheres mais velhas que já estão trabalhando há anos por trás das câmeras.

Algumas das atrizes não-brancas que estavam indicadas nas categorias de atuação também tinham mais de 50, como Viola Davis e Vanda Sykes, mas é importante notar que todas as ganhadoras dessas categorias deste ano foram brancas. Ainda temos um longo caminho no que diz respeito à protagonistas femininas não-brancas.

Mas nem só de mulheres foi feito o Emmy!

Sim, eu fiquei bem contente com todas as mulheres e séries com temática feminina que levaram o Emmy pra casa, mas não dá pra deixar de falar sobre alguns dos homens que também ganharam ontem.

  • Donald Glover (Community, Spider-man: De Volta ao Lar) levou Melhor Direção em Série de Comédia e Melhor Ator em Série de Comédia por Atlanta, a sua produção para o canal FX.
  • Riz Ahmed (Rogue One) ganhou como Melhor Ator em Série Limitada/Filme para TV por seu trabalho em The Night Of, da HBO. Ahmed também fez história ao se tornar primeiro homem do sul asiático à ganhar um Emmy de atuação.
  • Aziz Ansari é o co-roteirista do episódio “Thanksgiving” ao lado de Lena Waithe e, por isso, também é ganhador do Emmy de Melhor Roteiro para Comédia.
  • Sterling K. Brown levou pra casa o prêmio de Melhor Ator Protagonista em Série Dramática por This is Us e quebrou um hiato de dezenove anos desde que um ator negro ganhou esta categoria. Em 1998 Andre Braugher levou a estatueta por seu trabalho em Homicide: Life on the Street. O discurso de Sterling foi reduzido de maneira muito estranha, com até seu microfone sendo cortado. Mas, mais tarde, ele conseguiu terminar o discurso e agradecer a todo mundo que queria:

Então é. Os Emmys 2017 foram definitivamente uma vitória para a representação feminina e também de outras minorias, não apenas no que diz respeito à personagens mas também quanto à produção por trás das câmeras. Muitas pessoas esquecem, mas para uma série como The Handmaid Tale existir é necessário uma equipe de direção (dos cinco diretores, quatro eram mulheres) e uma sala de roteiristas (dos 11 roteiristas, 8 eram mulheres) trabalhando em conjunto e em coesão, para conseguir um trabalho não só merecedor de 8 prêmios mas que tenha agradado o público alvo como agradou. O mesmo pode ser dito de Atlanta, criada por Donald Glover, com a maioria de atores negros, a maioria de diretores e roteiristas que vem de minorias.

Há qualidade e diversidade no trabalho que não foca no homem branco padrão, ele só não recebia prêmios porque não se dava espaço para isso. Chegamos ao final do ano com uma premiação que dá um gostinho doce para uma realidade cada vez mais amarga.

A Longa Viagem A Um Pequeno Planeta Hostil | Ficção-Científica, Diversidade e Representação.

Texto por Rebeca Puig e Clarice França

Uma das coisas engraçadas da ficção científica é como parte dos autores acaba reverberando conceitos tradicionais de sociedade, relacionamentos e protagonismo. Imagina-se que exatamente por serem sci-fi, essas obras deveriam abraçar a liberdade criativa que o gênero permite. Mas, em vez disso, é muito comum ver valores morais e sociais considerados retrógrados hoje presentes em obras de temática contemporânea. De certa forma, isso acabou me afastando um pouco de autores atuais, exatamente por insistirem em um conceito de narrativa e personagens conservadores.

 

Outra coisa que o sci-fi tem dificuldade de criar/representar, principalmente no cinema, são alienígenas que não se encaixem no conceito humano de beleza física ou mesmo que tenham uma cultura com moralidade diferente da nossa, humana. Quando vemos um alienígena que não é bípede, que poderia ser confundido com um inseto ou mesmo com um lagarto, ele muito provavelmente é um vilão ou capanga do vilão principal. É engraçado que, dentro de um universo tão gigante, com tantas possibilidades em química, biologia e física, nós só consigamos mostrar como positivo aquilo que é parecido com um bípede mamífero de inteligência mediana.

 

Talvez por isso eu tenha ficado tão encantada com a diversidade e a qualidade da representação dentro de A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. Becky Chambers já começa com o básico, buscando equilibrar o gênero dos personagens dentro da Andarilha, a principal nave do livro. A tripulação, contando a I.A., é composta por nove sapientes – quatro mulheres, quatro homens e um sapiente não binário, o Doutor Chef. Além de ser quantitativamente uma visão mais igualitária, essa decisão de equilibrar os números mostra que esse não é um universo ficcional em que vou ser obrigada a, mais uma vez, ler sobre a disparidade entre os gêneros humanos. Não, sapientes femininos, masculinos e não binários não são discriminados por causa de gênero.

 

Além disso, se analisarmos mais de perto os personagens, podemos ver que temos uma variedade interessante de personalidades, culturas e valores morais, sem que nenhum deles seja considerado errado ou transgressor.

 

Um dos elementos que mais me deixou feliz com o livro foi o modo como o futuro da sociedade humana é apresentado, e como podemos ver isso muito bem através do capitão da nave, Ashby. Em outros livros do gênero, teríamos Ashby como um capitão militarizado, arma na cintura, quarto de armas no fundo da nave, um herói de aventura como Mal, de Firefly. Mas Ashby é o oposto disso, ele acredita verdadeiramente que não precisa ser violento ou usar força física para ser o capitão de uma nave como a Andarilha; pelo contrário, ele repudia armas e é muito consciente quanto à capacidade humana de se corromper diante do perigo e da insegurança. No universo de Chambers, os humanos precisaram encarar sua inferioridade intelectual frente às raças alienígenas, aceitaram suas diferenças, olharam para toda a destruição que criaram e aprenderam a ser melhores. Além de ser uma representação masculina que não cai no tropo da masculinidade tóxica, o capitão da Andarilha é uma visão esperançosa de como nós, como sociedade, podemos evoluir.

 

A nave possui quatro humanos a bordo, entre eles Jenkins e Rosemary. Quero destacar esses dois porque eles possuem elementos que normalmente não são representados dentro do sci-fi, especialmente Space Óperas. Rosemary é negra, de origem rica, uma personagem que chega à Andarilha cheia de mistérios, mas que possui, só nessas duas características – ser negra e rica – uma história que pouco é usada pela cultura pop de maneira geral. Além de tudo isso, claro, Rosemary é uma personagem interessante, um tipo de novata espacial, o que a torna a nossa personagem de entrada no universo, outro fato quase inédito quando falamos de personagens femininas e negras.

 

Jenkins é outro personagem que, enquanto eu ia descobrindo mais sobre sua história, mais interessante ficava a visão da autora sobre o que a humanidade poderia se tornar no futuro. Jenkins é anão, não por mágica, mas por ter nascido assim. Em um futuro em que todo tipo de alteração e aprimoramento genético está disponível, descobrir por que ele chegou à idade adulta sem ter recorrido a eles, o papel de sua mãe nisso e o nível de fanatismo a que o ser humano consegue atingir foi um dos pontos altos do livro. Além de ser uma representação pouco vista – um humano anão e negro -, Jenkins é responsável por trazer dois temas muito pertinentes sobre nosso futuro: Quanto nós podemos ou devemos interferir geneticamente numa criança, e o que nos torna humanos: carne ou inteligência? Sua amizade com Lovely, a inteligência artificial da nave, é mostrada de maneira natural, ao mesmo tempo levantando questões válidas sobre até que ponto seres sapientes podem bancar Deus e criar uma vida nova. É a partir de Jenkins que surgem as questões do livro mais eticamente complexas.

 

Sissix é a personagem que pilota a nave. Ela é uma aandriskana, bem diferente dos humanos, tanto nos costumes quanto na aparência. Os aandriskanos demonstram afeto de forma física muito mais aberta que outros, além de terem vários núcleos familiares. Entre os aandriskanos, a família que eles escolhem estar, que cuida deles durante seu crescimento, é mais importante que a família de sangue. Além disso, Sissix é uma das representações mais positivas na ficção de personagens com relacionamento poliamoroso. Pessoas que optam por relacionamentos não monogâmicos ainda são mal vistas em nossa sociedade, e os poucos personagens da ficção que se encaixam nesse modelo são considerados vilões ou não confiáveis. Com Sissix, temos uma personagem complexa, com uma família muito amorosa e relacionamentos fortes que não se encaixam em nosso padrão mais conservador, e esses aspectos nunca são usados para diminuir a personagem. Talvez, de todas as pessoas da Andarilha, seja Sissix  a que tem a maior estabilidade familiar e de relacionamento. Ao contrário do que podem imaginar acerca das pessoas que optam por relacionamentos parecidos com os de Sissix, através da personagem vemos que ela entende perfeitamente que nem todo mundo é obrigado a tomar as mesmas decisões que ela. Felizmente, quando Sissix se envolve romanticamente no livro, em vez de ela mudar seu jeito pelo “verdadeiro amor”, vemos que as pessoas respeitam e aceitam seus costumes.

 

Outro personagem interessante para a diversidade do livro é Dr. Chef. Ele conta para Rosemary sobre sua raça, os Grum. Para eles, o gênero é algo que muda ao longo da vida, eles começam como mulheres, passam a se identificar como homens e em seus últimos anos se entendem como não binários. Em nenhum momento ele é questionado sobre isso, desrespeitado ou desmerecido pela maneira como entende seu gênero. A dúvida de Rosemary em relação ao assunto existe por ela ser nova no espaço e não conhecer muito sobre as outras raças, mas a partir do momento em que aprende passa a chamar Dr. Chef da maneira que o personagem prefere.

 

Além da variedade, um dos grandes acertos do livro é fazer que essas questões de representatividade não sejam o ponto principal do arco dos personagens. É óbvio que é interessante uma história em que uma mulher vence em uma sociedade machista, mas Becky Chambers construiu um universo inteiro no futuro em que os problemas são outros. O arco de Rosemary nunca é sobre ela ser uma mulher negra. Para nós, leitores, isso é importante, porque não vemos isso com frequência, porém pessoas que não se encaixam no padrão da sociedade também possuem outras questões além daquilo que os torna uma minoria. É muito bom ler um livro com personagens tão diversos no qual eles podem ser mais do que apenas um elemento, em que os problemas de sua vida são relacionados a todo tipo de questões que você encontraria em um protagonista padrão.

 

Há outros personagens que valem a pena ser notados. Kissy é uma engenheira, uma função que normalmente vai para o personagem homem. Corbin é o único que faz um comentário racista no livro, e é imediatamente repreendido por sua atitude. Becky Chambers usa o gênero de ficção científica da melhor forma possível para mostrar que as histórias podem ter muito mais que o homem padrão, que os conflitos não precisam ser clichês e que há valor e oportunidade quando estamos abertos para a diversidade. Há inúmeras possibilidades de construção de personagens, ainda mais na ficção científica, e todo mundo que insiste em uma narrativa e em personagens conservadores tem um pouco a aprender com Becky Chambers.

Force Friday, as Irmãs Tico e Olha Essa Coisa Linda Chamada Representação!

Sim, sim. Eu sei. A Force Friday não passa de um evento para vender a maior quantidade de merchandising possível – no menor tempo possível. E eu mesma não saí de casa para virar a noite numa loja de brinquedos para comprar bonecos de Star Wars. MAS, isso não quer dizer que esse tipo de evento não pode resultar em coisas legais.

Como, por exemplo, algumas das reações à presença das Irmãs Tico na infinita seleção de brinquedos de Star Wars.

Eu acho que desde Pacific Rim (Círculo de Fogo) toda vez que eu vejo uma protagonista feminina chutar bundas, eu não consigo evitar o choro. Nas duas últimas vezes que eu fui ao cinema assistir Star Wars o filme nem tinha começado e eu já tinha os meus olhos cheios d’água. Furiosa me fez sair do cinema recarregada e de olhos inchados. O mesmo com Mulher-Maravilha. Eu sei o quão incrível é olhar para a tela e se ver representada, mas eu sou branca e só dessa listinha que eu fiz a maioria absoluta é de mulheres brancas.

Veja bem, Rose e Paige Tico não são protagonistas de Star Wars: Os Últimos Jedi (SOCORRO ESSA FALTA DE S ME MATA), mas elas são uma representação muito, mas muito difícil de se ver em filmes blockbusters de Hollywood – mulheres asiáticas. Diversas vezes nós vimos mulheres brancas assumindo papéis que originalmente deveriam ser de atrizes de ascendência ou origem asiática, então é mais do que só legal ver que elas vão sim estar na tela. Como DUAS IRMÃS REBELDES CHUTADORAS DE BUNDAS IMPERIAIS.

Tudo isso pra dizer que não tem como não achar legal a atriz Kelly Marie Tran, aka Rose Tico, abraçada em versões toys dela mesma! <3

Toda vez que alguém te disser que representação não importa porque nós deveríamos ser capazes de nos vermos em todo ser humano, manda essas fotos e pede pra conversar DEPOIS. Star Wars e todo o merchandising são sim produtos consumíveis, mas tentar dissociar esse tipo de representação da nossa sociedade é um tanto de ingenuidade. Agora é torcer, e cobrar, pra que cada vez mais Star Wars e os outros universos ficcionais que a gente tanto ama abracem mais e mais diversidade. Eu ainda quero ver a adaptação de Estrelas Perdidas. 😉

Star Wars: Os Últimos Jedi estréia no dia 15 de Dezembro (que não vai chegar rápido o suficiente).

“Eu devo fazer o que me parece certo” Ator desiste de papel em Hellboy para tentar consertar embranquecimento.

Toda vez que falamos sobre embranquecimento sempre tem alguém pra dizer que é uma questão de meritocracia: provavelmente aquele ator era o melhor para o papel, passou por testes, foi escolhido por ser o melhor. Tudo isso ajuda a propagar a falácia de que não há atores de origem asiáticas que são bons, ou se quer que eles existem.

Como esquecer a declaração do diretor de Death Note em que ele disse que não havia atores orientais no filme porque nenhum tinha um inglês “bom”.

Eis que na semana passada a produção do reboot de Hellboy no cinema anuncia Ed Skrein como Major Ben Daimio, personagem de origem Japonesa/americana nos quadrinhos. A internet, com razão, caiu em cima do casting por novamente excluir uma representação asiática em prol de um ator branco, apagando mais uma possibilidade de vermos mais diversidade nas adaptações de quadrinhos.

Hoje, no entanto, Ed Skrein soltou um comunicado em que não só conta que não conhecia a origem do personagem, mas também abrindo mão do papel. Como me lembraram no facebook, Adam Lambert não aceitou o papel de Frank-N-Furter no remake de Rocky Horror para que uma pessoa trans pudesse assumir. Até onde sei, acho que é a primeira vez que um ator branco desiste de um papel para que ele seja interpretado por alguém da etnia correta.

Na semana passada foi anunciado que eu estaria interpretando Major Ben Daimio no reboot de Hellboy. Eu aceitei o papel sem saber que o personagem dos quadrinhos era de origem asiática. Houveram muitas conversas e uma compreensível preocupação/decepção desde o anuncio, e eu devo fazer aquilo que me parece certo.

Está bem claro que representar este personagem de maneira culturalmente correta é importante para as pessoas, e continuar a negligenciar essa responsabilidade seria continuar uma preocupante tendência de excluir a história de minorias étnicas nas artes. Eu sinto que importante honrar e respeitar isso. Por isso eu decidi desistir do papel para que ele possa ser apropriadamente ocupado.

Representação de diversidade étnica é importante, especialmente para mim que também sou possuo uma origem multifacetada. É nossa responsabilidade tomar decisões morais em tempos difíceis para dar voz à inclusão. Eu tenho esperança que um dia essas discussões se tornem menos necessárias e que nós possamos ajudar a fazer uma representação igualitária nas artes realidade.

Eu estou triste em deixar Hellboy, mas se essa decisão nos trás mais para perto deste dia, então vale a pena. Eu espero que faça a diferença.

Com amor e esperança,

Ed Skrein não é um ator consagrado, não tem uma carreira bem estabelecida e seu maior crédito até hoje é como o vilão de Deadpool e o primeiro Dario em Game of Thrones, ou seja, um papel em um grande lançamento como Hellboy poderia ser o tipo de trabalho que iria virar os ventos à seu favor. Por isso mesmo é corajoso da parte dele abrir mão do papel, e espero que isso o leve mais perto de outros papéis tão interessantes quanto Major Daimio.

Filmes com embranquecimento de personagens originalmente asiáticos são sinônimo de fracasso de bilheteria e/ou crítica, só este ano já tivemos Ghost in The Shell e mais recentemente Death Note. Eu espero, de verdade, que a postura de Skrein inspire atores e atrizes consagrados e com carreiras bem estabelecidas à fazer o mesmo nos próximos anos.

Hoje o dia termina com um ponto pra esperança. o/

Os Equívocos na Fala de James Cameron Sobre Mulher-Maravilha.

James Cameron é um diretor conhecido por seus ambiciosos filmes e por sua constante procura por conseguir avanços científicos através das suas produções. Titanic, Avatar e mesmo O Segredo do Abismo, todos eles precisaram que algum tipo de tecnologia fosse desenvolvida para que eles pudessem acontecer. James Cameron também é conhecido por ser o diretor de Aliens (1989), a continuação do clássico de ficção científica e, para muitos, o melhor filme da franquia e pela criação da franquia d’O Exterminador do Futuro.

Em uma entrevista ao The Guardian, o diretor de True Lies (1991), achou que seria conveniente fazer uma crítica ao modo como Hollywood recebeu o filme da Mulher-Maravilha:

Todos esses tapinhas nas costas, esse auto-elogio, que Hollywood vem se dando por causa de Mulher-Maravilha é muito equivocado. Ela é um ícone objetificação, e é só a Hollywood masculina fazendo a mesma coisa de sempre! Eu não estou dizendo que não gostei do filme, mas é um retrocesso.

A diretora de Mulher-Maravilha, Patty Jenkins, respondeu com o que provavelmente é o melhor resumo de todos os problemas da fala do diretor:

A incapacidade de James Cameron de compreender o que a Mulher-Maravilha é, ou o que ela representa, para mulheres ao redor do mundo não é surpreendente já que ele, apesar de ser um grande diretor, não é uma mulher. Mulheres fortes são ótimas. O elogio dele ao meu filme, Monster, e à nossa representação de mulheres forte apesar de perturbadas é muito apreciado. Mas se mulheres precisarem sempre ser forte, duras e perturbadas, e nós não formos livres para sermos multidimensionais e celebrarmos um ícone de mulheres em todo lugar porque ela é bonita e amável, então nós não fomos tão longe assim. Eu acredito que mulheres podem e devem ser TUDO, assim como personagens masculinos deveriam ser. Não existem um tipo certo ou errado de mulher poderosa. E a massiva audiência feminina que fez do filme o sucesso que é pode com certeza julgar o seus próprios ícones de progresso.

Existem muitos pontos a serem debatidos na fala de Cameron e, por mais que a fala de Patty seja uma resposta mais do que à altura ao que o diretor disse, eu sei que muitas pessoas ainda tem dificuldade para entender a problemática de Cameron ter dito o que disse.

O “auto-elogio” de Hollywood.

É verdade que toda vez que alguém faz o mínimo para a representação feminina ou de qualquer outra minoria Hollywood, e os envolvidos na produção, costumam se tornar símbolo de inclusão e acreditar que são os panteões da justiça (apesar de eu não achar que Patty Jenkins fez isso). E é importante que nós não acreditemos que Mulher-Maravilha chegou e pronto, todos os problemas de representação feminina estão resolvidos – porque não estão. Mas é engraçado como o diretor reclama do auto-elogio mas se dá um tapinha nas costas por causa de Sarah Connor.

Sarah Connor não era um ícone de beleza. Ela era forte, ela era perturbada, ela era uma mãe terrível e ela ganhou o respeito da audiência através da força de sua personalidade. E, para mim, o benefício de uma personagem como a Sara é óbvio. Quer dizer, metade da audiência é feminina!

Ou seja, uma personagem que ele criou é muito mais completa e uma visão muito mais positiva de representação feminina do que aquela trabalhada por uma mulher. Se isso não é o auto-elogio masculino mais comum, eu não sei o que é.

O Tipo Certo de Mulher

Mas essa declaração de Cameron não é problemática só por se considerar capaz de fazer um trabalho superior ao escrever uma personagem feminina do que o que uma diretorA poderia fazer. Ela também indica que Cameron parece acreditar que há apenas um tipo de mulher que pode causar identificação através da força de sua personalidade – aquela que reune qualidades normalmente atribuídas à personalidades masculinas, ou que renunciam ao que é considerado “feminino demais”.

Veja bem, em toda a sua carreira, Cameron possui três protagonistas femininas solo: Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro, a Tenente Ripley, de Aliens, e Max, da série Dark Angel (que eu vou falar mais tarde).

Sarah e Ripley, por mais que eu as ame e acredite que sejam personagens femininas muito interessantes, apresentam traços de personalidade que são normalmente associados ao masculino: predisposição à violência, capacidade de combate e nenhuma das duas atrizes se encaixava no que seria o padrão de feminilidade da década de 80.

Em Dark Angel, Max é uma mulher que foi cobaia num laboratório para modificação genética de crianças. Ela é mais forte do que o normal, uma guerreira nata e a representação de tudo que um protagonista masculino de ação é – mas ela faz isso tudo de salto. Novamente nós temos uma heroína feminina que ganha valor por ter características normalmente atribuídas à personagens masculinos.

Além delas Cameron tem ainda Helen Tasker, de True Lies, uma dona de casa que precisa abandonar o seu instinto caseiro e materno para se juntar ao marido agente secreto num plano para parar uma ameaça terrorista e salvar a filha do casal. Aqui, Cameron coloca o papel de dona-de-casa e mãe como algo negativo e, apesar de ser o marido o principal responsável pela crise no casamento, mostra Helen como a culpada.

Veja bem, eu AMO uma personagem feminina que chutas bundas, atira granadas, luta contra aliens em um robô e sabe kung-fu, mas mulheres não são só isso. Essa visão de que se uma personagem feminina não se encaixa num núcleo preciso de qualidades masculinas consideradas positivas, então elas não são revolucionárias o suficiente, é uma visão retrógrada. Porque se para ser considerada uma personagem bem construída, com quem a platéia possa se identificar, a personagem feminina precise assumir características masculinas, então está se apagando aquilo que é considerado feminino, está se ligando essas características à algo negativo.

Essa visão de que maternidade e características femininas são algo negativo está presente dentro dos filmes do diretor. Em determinado momento da história de Dark Angel, o fato de Max ser mulher e poder gerar um filho é usado contra ela, Helen tem anseios por carinho e atenção que True Lies trata como algo negativo e a responsabiliza pela crise no casamento, Cameron disse que Sarah é uma péssima mãe – quando na verdade ela está tentando fazer de tudo para salvar o filho e o mundo. Ripley, na versão do diretor de Aliens, descobre que sua filha morreu de velhice antes que ela pudesse voltar à vê-la, o que faz com que ela se sinta culpada. Mesmo em Titanic nós temos o caso clássico do estereótipo da mãe malvada que quer usar a filha para continuar rica. Se é feminino, é negativo.

Mulher-Maravilha, ícone de objetificação.

Se você acompanha o Collant sabe que volta e meia eu falo sobre objetificação feminina e, mais de uma vez, falei sobre como me incomoda o modo como as super-heróicas são representadas – incluíndo a MM. Eu continuo achando a roupa da Mulher-Maravilha uma das coisas mais não-práticas e feitas apenas para agradar o olhar masculino – podia ser ótimo lutar de saia na época da Grécia Antiga mas, passando alguns milhares de anos, era de se esperar que roupas de batalha tivessem evoluído também.

Muitas das minhas críticas ao modo como super-heroínas são retratadas tem como causa o fato de que quem faz a maioria dessas representações são homens, porque o mercado criativo seja de cinema ou de quadrinhos, ainda é dominado pelo olhar masculino. E esse olhar tende a ser objetificante e desumanizador. Por isso o que se iniciou como um símbolo de liberdade sexual feminina, como o uniforme da Mulher-Maravilha, ao longo dos anos acabou se tornando uma maneira para que homens criadores pudessem explorar todos os ângulos ginecológicos possíveis.

É engraço ver Cameron falar sobre MM ser objetificada, quando a Helen de True Lies é forçada pelo próprio marido à fazer um strip-tease para alguém que ela acredita ser um estranho. Fica mais engraçado lembrar que, apesar de todos os outros membros da nave estarem vestidos com calças e shorts, Ripley continua usando o kit calcinha + blusinha para viajar. Eu rolo de rir ao lembrar que Max, por mais incrível que Dark Angel seja, era interpretada por Jessica Alba e tratada como símbolo sexual o tempo todo – chute bundas, mas seja sexy. E não podemos esquecer da raça alienígena de Avatar onde as fêmeas tem as mesmas características físicas das mulheres humanas – incluíndo seios.

Jessica Alba, que interpretava Max, disse em uma entrevista alguns anos atrás:

Uma série minha (Dark Angel) premiou quando eu tinha 19 anos. E logo de cara todo mundo tinha uma opinião muito forte sobre mim por causa do jeito que o meu marketing foi feito. Eu deveria ser sexy, essa garota forte de sexy. Era o que as pessoas esperavam. Eu senti como se estivesse sendo objetificada, e isso me deixou desconfortável.

Apesar do uniforme da Mulher-Maravilha ser minúsculo e pouco favorável para um campo de batalha, Patty conseguiu fazer aquilo que, para muitos diretores, é impossível: ela não objetificou a personalidade. A sexualidade que Diana apresenta no filme é dela, não do olhar que é colocado sobre ela. Não existem sequências da câmera deslizando sobre o corpo da atriz para ser objetificada, quando a câmera mostra o corpo dela é para enfatizar o seu poder e sua força. Talvez esse seja o tipo de avanço que passe despercebido para o olhar masculino, já que ele tende a não entender onde começa o erro da objetificação feminina.

O Tipo Certo de Representação

Patty Jenkins está muito certa em dizer que Cameron não consegue entender a importância da MM por não ser mulher. Empatia pela história do outro é algo que todos nós podemos ter, eu cresci assistindo protagonistas masculinos e me identificando com eles, eu fui programada desde criança a ter empatia por aquilo que não me representava de verdade. Por isso é muito mais fácil para mim assistir Capitão América e me identificar com os valores e a história do personagem do que para um cara assistir Mulher-Maravilha e fazer o mesmo. E isso é, no mínimo, triste.

Não só porque esse cara vive dentro de uma bolha, mas porque ele cresceu escutando que só a história dele importa. Homens, especialmente brancos, hetero e cis,  possuem todo e qualquer tipo de representação possível em quantidades imensas. Talvez por isso seja tão difícil para eles entenderem porque Mulher-Maravilha foi tão importante para tantas mulheres, talvez por isso eles achem que tem o direito de dizer o que é certo ou errado na representação feminina.

Homens também crescem escutando do mundo que eles estão corretos, e mulheres crescem escutando que elas provavelmente estão erradas. Por isso Cameron se sente no direito de fazer esse tipo de comentário e apontar o que “está errado”. E por isso é tão importante que Patty tenha dado uma resposta tão firme sobre o assunto – porque Cameron está errado. Existe espaço para todo tipo de mulher, e todo tipo de mulher pode e deve ser um símbolo de resistência e força.

Conclusão

Parece que o problema de James Cameron com Mulher-Maravilha é que ela é uma personagem feminina que está diretamente ligada àquilo que é considerado feminino. Por mais que eu ache um retrocesso dividir sentimentos e características de personalidade binariamente entre masculino e feminino, é pior ainda ignorar e menosprezar sentimentos que foram considerados femininos e por isso menores durante tanto tempo. Eu adorei Mulher-Maravilha e, para mim, um dos pontos fortes do filme é o modo como ele não foge de falar de sentimentos e de amor – inclusive acredito que a força principal do filme e da mensagem dele para o mundo está aí. E não tem nada considerado mais feminino do que sentimentos e amor.

Essa visão de que para Cameron algo considerado feminino, como amor e sentimentos, é algo negativo fica ainda mais evidente quando pensarmos que tirando esses elementos a Mulher-Maravilha é uma guerreira. Ela pode não apontar uma metralhadora, jogar granadas ou dirigir motos futurísticas, mas ela empunha um escudo e uma espada. Então é sobre ela ser feminina demais, ou sobre não ser do jeito que ele acha deveria ser?

Não é sobre vilanizar James Cameron. Eu adoro muitas das personagens que ele criou ou com que trabalhou. Ripley tá na parede da minha sala, Dark Angel era uma das minhas séries favoritas na adolescência e apesar de saber das fraquezas do filme, Avatar não me incomodou como incomodou à muitas pessoas. Mas as declarações do diretor deixam bastante evidente um desconforto que produções como Mulher-Maravilha, e qualquer produção de sucesso que esteja ligada à alguma minoria, causam aos poderosos homens de Hollywood. Porque se a história que faz sucesso e está sendo contada não é a deles, ou se é uma história que não é contada através do olhar deles, então ela não está sendo feita da maneira correta.

Até mais! 😉

Alguns textos que talvez ajudem a entender melhor:

A HIPERSEXUALIZAÇÃO FEMININA NO ENQUADRAMENTO E NO MOVIMENTO DE CÂMERA.

MANARA, CHO E A TAL DA SUBVERSÃO DO TABU.

O AMOR EM MULHER-MARAVILHA.

ARLEQUINA E MULHER-MARAVILHA: A HIPER-SEXUALIZAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA. 

O Blackpower da Dominó – Sobre Machismo e Racismo.

Desde o dia do anúncio de Zazie Beetz no papel de Dominó em Deadpool 2, ainda lá em Março deste ano, a internet ficou polvorosa com o fato da atriz ser negra e não ter a pele branca como uma folha de papel da versão original dos quadrinhos. Esta semana, com a chegada da primeira imagem de Beets caracterizada como Dominó, a internet novamente ficou doida: Como assim Dominó tem um Blackpower?

Mulheres e cabelos, essa é uma relação de amor e ódio que dura séculos e que é profundamente pautado pelo que o homem, principalmente branco, acredita ser sexy ou não. Para serem considerados bonitos, os cabelos precisam manter um padrão inatingível de beleza, ser liso, ou levemente ondulado. Se tiver cachos, precisam ser definidos. Qualquer coisa que saia desse padrão ainda é visto como feio e, muitas vezes, como sujo ou descuidado.

Algumas das críticas ao cabelo da Dominó foi que o Blackpower da personagem seria pouco prático para uma assassina. Algo similar aconteceu quando Riri foi anunciada e sua ilustração a mostrava com um Blackpower maravilhoso – como ela vai colocar esse monte de cabelo dentro da armadura, eles perguntavam.

É Ironheart, colega.

A questão da suposta praticidade do cabelo nunca é levantada por esses críticos quando se trata de mulheres brancas em papéis de heroínas, anti-heroínas ou vilãs. Isso também não aconteceu com os longos e esvoaçantes cabelos de Gamora, interpretada pela atriz negra e latina Zoe Saldanha, porque Saldanha se encaixa num padrão de beleza considerado branco – e sua pele estava pintada de verde.

Existem duas razões pelas quais as mesmas alegações não acontecem quando temos uma atriz branca de longos cabelos lisos: hipersexualização e racismo.

Os longos cabelos de Jean Grey, de Sif, de Jessica Jones e os cachos ruivos incrivelmente da Viúva Negra nunca foram questionados quanto à sua praticidade. Tão pouco foram os longos cabelos da Mulher-Maravilha. Isso é explicável porque nós, como sociedade, vemos mulheres brancas de longos cabelos lisos ou levemente cacheados como sexy. Elas precisam sacudir os cabelos para o lado em câmera lenta, os cachos precisam cair graciosamente sobre o colo dos seus seios para que nós possamos sentir que, além de chutar bundas, elas também são mulheres que você gostaria de levar para a cama. O mesmo acontece com Gamora, que apesar de ser interpretada por uma atriz negra, possui longos cabelos lisos em uma pele verde.

Quem tem ou já teve cabelo comprido sabe a dor de cabeça que ele é no vento forte, ou quando você está praticando um esporte e ele gruda na sua cara por causa do suor, ou como ele corre na frente dos seus olhos se você corre com muita velocidade. Mas nenhuma dessas questões, que mostram o quão pouco prático é qualquer tipo de cabelo comprido em uma situação de ação, é levantada quando analisamos o mundo sob uma ótica branca e masculina.

Cabelos longos são sinônimos de sexy, e o mesmo valor não se dá para cabelos blackpowers ou qualquer tipo de cabelo associado à etnia negra.

Quando criticam o cabelo blackpower da Dominó o que está sendo levantado é, na verdade, que ela é errada. Que ela deveria ser branca de longos cabelos pretos, porque isso seria sexy. Isso revela um racismo que, ao se basear dentro de um padrão branco de beleza, excluí qualquer coisa que saía dele. Veja bem, um problema revela o outro: a crítica ao cabelo não é porque ele é pouco prático, mas é porque o racismo de quem critica fica exposto sob a ótica de que se a mulher negra não se encaixar dentro do padrão de beleza que a nossa sociedade impõe, então ela não é digna de ser considerada sexy ou bonita. E ao limitar o valor de uma mulher, negra ou branca, ao quão atraente ela é para os olhos masculinos, esses críticos objetificam as personagens, tornando-as apenas tokens da punheta masculina.

Conversando com a Camila Cerdeira, do site Preta, Nerd & Burning Hell, ela complementou:

Uma das questões importantes sobre a Dominó ser negra é compreender que feminilidade possui cor e não é a negra. Como mulher negra estou familiarizada com a exclusão de feminilidade que nossa negritude acarreta. Por consequência dessa ausência de feminilidade, negras são vista como desmasculinizadoras. Dominó negra e ostentado um cabelo natural quebra a noção de feminilidade e demonstra não ser submissa, o reforço disso é ela deitada sobre um tapete de pele do Deadpool, a máxima da desmasculinização do protagonista.

Tudo isso dito, personagem feminina nenhum deve ser diminuída à sexo, principalmente se a sexualidade que está sendo trabalhada não é a dela, e sim a do espectador masculino. Personagens femininas não devem existir apenas para agradar ao olhar objetificante masculino, muito menos personagens femininas negras ao olhar masculino e branco – algo infelizmente tão comum e que cai num fetichização racista que é extremamente prejudicial para a imagem que a nossa sociedade contrói em torno da mulher negra.

Apesar de toda a crítica, muitas pessoas deixaram comentários positivos e, vejam só, já tem até fanart dessa lindeza:

Resumindo: quando qualquer outra personagem feminina foi anunciada, ninguém nunca reclamou porque o padrão de beleza ao qual essas personagens se encaixam é o padrão e branco e objetificante. As críticas que a caracterização da Dominó vem recebendo nada tem a ver com uma suposta fidelidade aos quadrinhos. Não, o fundo das críticas vem sim baseadas em um racismo que, por mais que os autores das críticas não se deem conta, existe e está impregnado no nosso conceito de beleza e do que é aceitável para personagens femininas. Eu ainda estou procurando uma crítica ao tamanho desnecessário do decote do uniforme, mas disso ninguém reclamou.

Personagens femininas não podem só chutar bundas, elas precisam fazer isso enquanto agradam o patriarcado machista e racista. Dominó, no entanto, parece já ter chegado pra chutar bundas inclusive antes de se quer começar a filmar suas cenas.

Deixo vocês com o último exemplo de como a crítica sobre o cabelo blackpower da Dominó é sim de fundo machista e racista:

Resenha: “Outros jeitos de usar a boca”

“Outros jeitos de usar a boca”, de Rupi Kaur, virou o livro de cabeceira de muita gente. Mais especificamente de 40 milhões de leitores ao redor do mundo. “milk and honey” (título original) de Rupi está, há semanas, como #1 da lista de mais vendidos do New York Times, e chegou no Brasil há pouco tempo, mas já virou best-seller aqui também.

Uma das razões pra esse sucesso gigantesco se deve ao fato da poesia dela ser clara, direta e curta. É simples de ler e ainda tem imagens – maravilhosas – da própria autora que facilitam a compreensão. Mas a temática em si não é fácil. Rupi abre seu coração e suas experiências de vida em “Outros jeitos de usar a boca” em quatro partes: “a dor”, “o amor”, “a ruptura” e “a cura”.

As 4 fases formam um arco narrativo subjetivo sobre as noções de abuso, relacionamento, perda, cura e feminismo. Mas por mais que sejam as experiências da Rupi, a maneira que ela escreve possibilita a abertura de uma discussão de micro pra macro, como o papel da mulher na sociedade, impunidade, amor próprio e até relações interpessoais com familiares e namorados(as). De certo modo, ela acolhe as leitoras com suas próprias experiências do que é a feminilidade, o que é ser mulher atualmente.

Os desenhos minimalistas do livro são da própria Rupi e já foram tatuadas nas peles de muitas mulheres. Assim como a linguagem escrita, a visual também é simples, delicada e forte. Desse modo, os desenhos complementam de uma forma essencial os próprios poemas. É desse jeito, por exemplo, que ela cria uma experiência completa para o leitor quando descreve a natureza feminina como algo lindo em “a cura”. Ela torna esse e vários outros tabus algo fácil de ler e compreender.

Hoje, a Rupi é uma escritora famosa e que usa diferentes formatos, não só o impresso, pra divulgar seus poemas. Ela também usa muito o Instagram como ferramenta. Inclusive foi ela que postou a foto menstruada com a calça e o lençol manchados e causou polêmica em 2015, abrindo a discussão sobre o tabu que se cria em cima de questões tão básicas da natureza feminina, como menstruação.

thank you @instagram for providing me with the exact response my work was created to critique. you deleted a photo of a woman who is fully covered and menstruating stating that it goes against community guidelines when your guidelines outline that it is nothing but acceptable. the girl is fully clothed. the photo is mine. it is not attacking a certain group. nor is it spam. and because it does not break those guidelines i will repost it again. i will not apologize for not feeding the ego and pride of misogynist society that will have my body in an underwear but not be okay with a small leak. when your pages are filled with countless photos/accounts where women (so many who are underage) are objectified. pornified. and treated less than human. thank you. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀ this image is a part of my photoseries project for my visual rhetoric course. you can view the full series at rupikaur.com the photos were shot by myself and @prabhkaur1 (and no. the blood. is not real.) ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ i bleed each month to help make humankind a possibility. my womb is home to the divine. a source of life for our species. whether i choose to create or not. but very few times it is seen that way. in older civilizations this blood was considered holy. in some it still is. but a majority of people. societies. and communities shun this natural process. some are more comfortable with the pornification of women. the sexualization of women. the violence and degradation of women than this. they cannot be bothered to express their disgust about all that. but will be angered and bothered by this. we menstruate and they see it as dirty. attention seeking. sick. a burden. as if this process is less natural than breathing. as if it is not a bridge between this universe and the last. as if this process is not love. labour. life. selfless and strikingly beautiful.

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No final das contas, o sangue não era real, mas faz parte do trabalho visual e militância dela, ambos aspectos muito fortes do que ela faz, inclusive em “Outros jeitos de usar a boca”.

Finalmente, o trabalho dela é incrível. Ao longo do livro se vê a alma dela aberta para o leitor, algo que requer muita coragem. E não à toa, aos 24 anos ela é autora de best-seller e a poesia dela já faz parte da literatura feminista. Inclusive, 40 milhões de exemplares vendidos de uma obra feminista vendidos no mundo só mostra o quanto o movimento está crescendo.

Se você quiser conhecer mais sobre a Rupi, assista ao TED dela sobre retomar o próprio corpo: 

Você também pode comprar “Outros jeitos de usar a boca” na Livraria Cultura por R$19,90.