Até mais e obrigada pelos peixes

Oi pessoas!
Aqui é a Rebeca Puig, Editora-Chefe do Collant (Sem Decote).

Venho aqui para conversar com vocês sobre um assunto que talvez pareça negativo, mas esperamos que, ao final do texto, vejam como algo positivo.

Ao longo dos quase quatro anos que mantenho o Collant, fechar o blog passou pela minha cabeça muitas vezes por um milhão de razões. Esse pensamento vinha sempre como consequência de algum evento negativo, da sensação de exaustão e também porque ninguém é de ferro.

O Collant representa muito para mim, assim como eu sei que representa algo para as nossas leitoras também. Eu não consigo mensurar o quão grata eu sou por ter conseguido erguer uma base de leitores tão incríveis como as que nos acompanham. A comunidade em torno do site sempre foi positiva e sempre abraçou os pontos altos e baixos pelos quais passamos ao longo desses anos. Toda vez que recebemos um comentário carinhoso, um depoimento de como ajudamos de alguma forma… Tudo isso sempre nos deu força para continuarmos por mais um tempo. É incrivelmente reconfortante ver o nosso trabalho ser reconhecido por quem importa – vocês. Por isso é importante para mim que vocês saibam:

Nós vamos fechar o Collant (Sem Decote).

Talvez alguns meses atrás eu escrevesse este texto cheio de ressentimentos e pensamentos negativos, mas hoje eu posso escrevê-lo com a tranquilidade. Eu sei que fechamos um ciclo em um ponto positivo, não para nos livrarmos de um fardo, mas para darmos um passo além. O Collant nasceu como um projeto pessoal meu, foi ao longo dos anos ganhando colaboradoras até que a Clarice França topou dividir a Editoria do blog comigo. Ao longo dos últimos meses, no entanto, nós duas conversamos e sentimos a necessidade de começar algo novo, criado por ambas, e que nos ajude não só a continuar e expandir o trabalho de crítica de cultura pop, mas que nos impulsione a produzir cultura pop nós mesmas.

Nosso novo projeto vai chegar junto com 2018, dia 10 de janeiro. Vamos manter as redes sociais do Collant, apenas apagando o conteúdo que está aqui para preenche-lo com o que criaremos para o novo projeto, mudando também a nossa @ para o nome do projeto. Esperamos que vocês continuem conosco, mas também entendemos se decidirem não o fazer.

O conteúdo do Collant permanecerá no ar por tempo indeterminado, migrando apenas alguns dos posts para o novo projeto. Ou seja, não se preocupe, nossos textos estarão lá sempre que você precisar.

Gostaríamos de agradecer aos nossos sites parceiros, Preta Nerd & Burning Hell, Momentum Saga, Nó de Oito, Séries por Elas, Valkírias, Delírium Nerd e Prosa Livre por todo o apoio ao longo desses anos. Continuamos juntos. ?

Por fim, queremos agradecer imensamente às nossas leitoras e leitores que por tantos anos nos acompanharam e nos apoiaram. Não conseguiríamos sem vocês. Obrigada! ❤

Cinco Garotas Adolescentes que Viajaram no Tempo!

A cultura pop está recheada de histórias sobre viagens no tempo. O que aconteceu no passado pode ser mudado? E o futuro, podemos mudá-lo também? Quais as consequências disso? Devemos evitar as grandes tragédias das gerações anteriores, ou deixar a história seguir o seu rumo? Todas essas perguntas aparecem em diferentes situações por um monte de universos ficcionais. E a gente adora!

Apesar de adorar trama com viagens no tempo uma coisa sempre me incomodou: são poucas as mulheres que realmente fazem esses passeios. Quando falamos sobre garotas adolescentes então, fica ainda mais difícil achá-las, mesmo em YA’s de sci-fi! Ainda assim, existem algumas garotas adolescentes que fizeram essas viagens não apenas como acompanhantes, mas como agentes centrais da história e de mudanças. Compilei algumas delas numa listinha que tem garotas viajantes do tempo para todos os gostos.

Kitty Pride – Dias de Um Futuro Esquecido

Em uma das fases mais clássicas dos X-Men, e que inspirou o último filme da franquia, Kitty Pride vivem num futuro distópico onde os mutantes estão presos em campos de concentração. Kitty então transfere a sua mente para uma versão mais jovem de si mesma e com a ajuda dos X-Men precisa evitar um momento crucial e fatal que serviu de estopim para a histeria anti-mutante. Tecnicamente é a Kitty adulta que viaja, mas como toda a ação principal acontece enquanto ela é adolescente, entrou na lista! Quando a história foi adaptada para o cinema ao invés de mandar a mente dela mesma, Kitty mandou a mente de Wolverine de volta para o Logan da década de 70.

Aqui no Brasil a Panini lançou a versão em quadrinhos (que você consegue comprar aqui), e a Novo Século lançou a novelização da saga (que você consegue comprar aqui).

Kate – Trilogia Chronos: Viajantes do Tempo

Imagina descobrir que a sua avó é uma viajante do tempo. E não só isso, que ela nasceu no futuro, de lá trouxe a tecnologia e que os segredos da sua família podem não só te transformar numa viajante no tempo, mas também te tornar responsável por impedir um desastre eminente? Kate é determinada a conseguir – e descobrir – tudo que ela quer, mesmo quando todos a sua volta aconselham o contrário. Mas como estamos falando de viagem no tempo ela precisa tomar muito cuidado para não alterar não só o futuro como conhecemos, mas para não apagar a sua própria existência. Chronos é um YA cheio de aventura, mistérios e romance!

O livro Chronos: Viajantes do Tempo, da autora Rysa Walker, é o último lançamento da DarkSide Books no selo Darklove. Você pode comprá-lo aqui.

Hagome/Kagome – Inuyasha

Imagina que um dia você cai, sem querer, num poço e quando se dá conta está na Idade Feudal Japonesa, uma era em que mulheres tinham ainda menos direitos e que, pra piorar tudo, está infestada por Yokais (demônios)? Eu pularia de volta no poço para nunca mais voltar, mas como Hagome não sou eu, ela não só fica num eterno ir e vir como também leva o almoço que a mãe dela faz para os amigos de outra era e assume uma posição central na luta contra os yokais. Inuyasha é bastante centrada no personagem título, mas eu sempre achei formidável o modo como Hagome caminha livremente entre uma era e outra, sem grandes preocupações e sempre correndo imenso risco de vida.

Puella Magi Madoka Magica

Eu não vou revelar qual personagem viaja no tempo porque esse é parte do mistério do anime, mas eu vou sempre pegar qualquer oportunidade para indicar um dos melhores desenhos que eu assisti em muito tempo. “Sailor Moon da bad infinita” é, talvez, o melhor resumo do que é Madoka Mágica. Uma série de garotas mágicas com uma pegada bem mais violenta, um tom mais macabro e realista, e uma animação inovadora, Madoka traz viagem no tempo como um recurso de narrativa que ajuda a sustentar a inevitabilidade trágica que é ser uma Garota Mágica em um universo que não é gentil como o da princesa da lua.

Você consegue assistir Madoka Magica no Netflix Brasil.

Max – Life is Strange

Depois de salvar acidentalmente a colega Chloe da morte, Max percebe que tem o poder de viajar no tempo. Inicialmente as viagens duram poucos segundos, que ela usa para mudar pequenos eventos, mas a medida que o jogo vai avançando, os poderes dela também vão aumentando. Max é uma adolescente introvertida e com poucos amigos, mas as escolhas do jogador acabam gerando mudanças nela e em suas relações. Ela entende a responsabilidade que tem com esse poder, mas acaba entrando em varias situações, inclusive algumas que saem de seu controle, culminando em decisões complexas. As escolhas de Max afetam tanto a sua vida, quanto a vida das pessoas ao seu redor, sendo que cada pequeno evento mudado pode alterar completamente a linha do tempo em que ela se encontra.

Life is Strange está disponível para Playstation, XBox e PC.

Consegue se lembrar de mais alguma garota adolescente que saiu por aí mexendo pelo tempo? Manda pra gente nos comentários!

Até mais! 😉

Este post é um oferecimento da Darkside Books.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Machismo nos Games | Cosplayer sofre ataques por causa de concurso

Neste domingo, a BGS lançou um concurso em suas redes sociais: Aproveitando que Hideo Kojima vem para o Brasil, o evento ia permitir que um dos fãs tivesse a chance de entregar a ele o Lifetime Achievement Award. Para escolher quem seria o sortudo, os fãs precisavam postar uma imagem no twitter com #KojimaNaBGS, a imagem com mais curtidas até o final de setembro seria a vencedora.

Até aí, tudo bem. Não é de hoje que eventos lançam concursos assim, da mesma forma que não é de hoje que os fãs tentam fazer as imagens mais criativas para ganhar. Infelizmente, também não é de hoje que parte da comunidade gamer é machista e destila seu ódio em qualquer oportunidade.

A cosplayer Laura Pyon, grande fã do trabalho de Hideo Kojima, resolveu participar com um desenho. Por ser cosplayer e gostar da personagem Quiet, Laura falou que compartilharia as fotos que faria do cosplay com as pessoas que a ajudaram a ganhar. Nada disso era um problema ou contra as regras da BGS.

Mas nós sabemos bem que, para o ódio, não precisa de muito motivo. Não demorou para que Laura começasse a receber ataques e ameaças de pessoas da comunidade gamer. No grupo do facebook Metal Gear Legacy Brasil, um dos caras queria entrar no concurso e ganhar, mas achava um absurdo uma “cosplayer” que, de acordo com o julgamento dele, nem era fã, ganhasse. Porque de alguma forma, esse cara achava que a opinião dele era mais importante do que a das inúmeras pessoas que estavam dando likes em vários tweets de quem estavam concorrendo.

 

 

 

As pessoas desse grupo, como vocês podem ver nos prints (e são só alguns), achavam que elas tinham total direito de perseguir uma pessoa na internet, mandar xingamentos, ofender e praticar ciberbullying só porque é uma “moça cosplayer”. O machismo na comunidade gamer, como dá para perceber, ainda é muito forte e presente. Mulheres são consideradas “menos fãs” só porque são mulheres, se fosse um homem cosplayer, a recepção seria bem diferente, se houvesse xingamentos, eles não seriam relacionados ao gênero da pessoa.

Há uma grande arrogância por parte da comunidade, que acha que pode se dizer mais fã ou não, acha que pode ditar quem é fã de verdade ou não. A arrogância em si se torna um problema quando eles também se sentem no direito de agredir uma pessoa dessa forma. Era um concurso e Laura não quebrou as regras, se quer ganhar, tente juntar conhecidos para te divulgarem e ganhar de forma justa. Um gamer deveria saber a diferença de jogar justo e usar cheat. Mesmo que Laura estivesse quebrando as regras, o que não foi o caso, assédio nunca é aceitável.

A BGS foi informada do incidente, isso fez com que os agressores fossem eliminados da competição. O problema é que a BGS, em um primeiro momento, também desclassificou Laura do concurso. Isso foi uma decisão muito errada, não só ela não estava infringindo nenhuma regra, como não há nenhum problema em fazer fotos de cosplay de um personagem que você gosta.

Mas depois de um tempo, a BGS se posicionou novamente, como vocês podem ver na declaração abaixo. Os agressores continuariam fora da competição, mas Laura poderia voltar a participar, já que ela foi a vítima e não fez nada de errado. A postura da BGS foi muito boa, reconhecendo as pessoas que realmente precisavam ser repreendidas. Que a atitude do evento seja exemplo para que outros entendam que machismo e ciberbullying não são aceitáveis, além de ser assunto sério. Não importa se você está xingando uma imagem no computador, é uma pessoa que está do outro lado e merece respeito.

Esse caso serve para percebemos como a comunidade gamer precisa melhorar muito. Há algumas coisas que precisamos refletir sobre o ocorrido. Por mais que esses casos não sejam isolados, aconteçam com alguma frequência e deixem muitas mulheres com medo de fazer parte da comunidade, ainda há muitos que acreditam que pessoas que fazem isso são exceções, que “tem problemas” e não representam o todo.

Obviamente eu não estou dizendo que toda a comunidade gamer é composta por pessoas assim, mas é uma parte grande o suficiente para que esses casos ainda aconteçam e façam todas as mulheres terem medo. Laura sofreu com o que aconteceu por ser mulher, porque o machismo é tóxico o suficiente nesse meio para chegar nesse ponto absurdo por causa de uma competição. As pessoas que fizeram isso sabiam exatamente o que estavam fazendo, por isso esses assuntos devem ser tratados com seriedade e não como exceção.

Por isso é ainda mais importante que a BGS tomou essa postura. A internet dá uma impressão perigosa de que o que acontece nela não é sério e sem consequências. Isso precisa parar, porque não dá mais para que as mulheres da comunidade gamer vivam com medo de qualquer coisa, só porque querem participar de campeonatos, falar de seus jogos preferidos ou participar de concursos.

Novas Fotos e Trailers da Segunda Temporada de Age of Youth (Helly, My Twenties!).

Age of Youth, um dos meus Doramas favoritos tá ganhando segunda temporada, algo bastante difícil nos KDramas, e apareceram um monte de fotos e trailers novos.

A segunda temporada começa um ano depois do final da primeira temporada. Jin Myung (Han Ye-Ri) voltou da China e conseguiu um emprego. Ye-Eun (Han Seung-Yeon) tirou um ano sabático para lidar com os efeitos colaterais do seu ex-namorado abusivo e agora está voltando para a universidade. Ji-Won (Park Eun-Bin) ainda não conseguiu achar um namorado e Eun-Jae (Ji-Woo) terminou com o seu primeiro amor e enfrenta as dores do término. As meninas tem uma nova companheira de casa, Jo Eun (Choi A-Ra), que ocupa o quarto que antes era de Yi-Na (Ryu Hwa-Young).

A série estréia essa semana, dia 24, e teve que enfrentar algumas polêmicas nas últimas semanas. Onew, uma das novas adições ao elenco da segunda temporada, se envolveu em uma polêmica de assédio sexual – ele teria tocado numa mulher enquanto bêbado numa balada. Onew alegou ser acidental e, ao que tudo indica, um acordo foi feito entre as duas partes e as acusações à polícia foram retiradas.

A produção da série se posicionou e o ator acabou saindo. Com o lançamento tão próximo, esse tipo de mudança no elenco com certeza trás muitos problemas para a produção da série, então é muito bom ver esse tipo de posicionamento vindo de quem está criando o conteúdo.

Os trailers estão em coreano, mas já dá pra sentir que a segunda temporada vai seguir com a fórmula de mistério, leveza e temas estranhamente pesados. Eu falei sobre a primeira temporada AQUI.

E agora a avalanche de imagens – que inclusive confirmam o retorno de Yi-Na (Ryu Hwa-Young), com certeza uma das personagens mais interessantes da primeira temporada.

Liberdade de Expressão ou Discurso de Ódio – Uma conversa sobre terror e cultura pop.

O termo “liberdade de expressão” é corriqueiramente jogado contra quem discute e critica o status quo excludente da cultura pop. Se criticarmos o status quo branco, masculino, heterossexual e cis, então estamos tentando censurar e por isso estaríamos rompendo com a liberdade de expressão dos produtores de cultura pop. 

Quando uma figura pública fala absurdos misóginos, racistas e etc, seus defensores correm para gritar “liberdade de expressão”. Mas o que talvez essas pessoas não saibam é que você ser livre para falar o que vem na sua cabeça, para jogar as suas idéias no mundo, não quer dizer que você é livre para clamar a morte de um grupo de pessoas. 

Durante o fim de semana do dia 12/08, nós assistimos em choque o que aconteceu na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia nos Estados Unidos. Enquanto muitos conseguiram ver o ataque pelo que ele foi, um ato de disseminação de ódio, preconceito e glorificação de uma ideologia segregada e assassina, algumas pessoas insistem que o que aconteceu foi, apenas, um grupo de pessoas expressando suas opiniões, o protesto contra a queda de uma estátua. 

Eu quero tentar tocar em todos os aspectos dessa discussão, mas antes de continuar, eu gostaria que você assistisse à este vídeo. São 20 minutos em que a equipe da Vice acompanha o grupo de nazistas que organizou a marcha de sexta e sábado. O vídeo possui imagens fortes do atropelamento, então se você não quiser assistir esta parte sugiro pular de 11:11 para 11:55 minutos. 

Liberdade de Expressão vs Consequências

Muitas pessoas entendem liberdade de expressão como um passe livre pra falar ou fazer qualquer tipo de coisa. Essas pessoas falam e agem da maneira que bem entenderem, mas quando a sociedade responde ao seu comportamento e à sua fala, elas ficam indignadas e confusas – como assim liberdade de expressão não as exime de responsabilidades? 

Alguns anos atrás, quando o caso da jovem que sofreu estupro coletivo no Rio veio à tona, um ilustrador brasileiro postou comentários misóginos e transfóbicos na sua página pessoal de facebook. A empresa que fazia o seu agenciamento para o mercado internacional decidiu desligar-se dele, cancelando o contrato dos dois. Muitos chamaram a decisão da empresa de censura, de submissão ao politicamente correto. A verdade é que a empresa não tirou lápis, papel e computador do ilustrador, ela apenas decidiu que não serviria mais de plataforma para o trabalho dele. 

Você pode falar o que você quiser, pode postar na sua página pessoal do facebook ou do twitter o que você quiser, mas isso não quer dizer que ninguém vai cobrar responsabilidade sobre o que você expressa. Liberdade de expressão não significa que o que você fala não será julgado, não significa que você não sofrerá consequências pelo que você diz, pelo que você coloca no mundo.

Um outro exemplo disso aconteceu alguns meses atrás, o youtuber PiewDiePie perdeu patrocinadores quando começou a chamar atenção para o conteúdo envolvendo nazismo que ele produzia para o seu canal. De novo gritaram censura e ditadura do politicamente correto, mas agora, em face do que aconteceu em Charlottesville, PiewDiePie soltou uma declaração dizendo que vai definitivamente excluir esse tipo de conteúdo de seu canal – ele não quer dar plataforma para uma ideologia na qual não acredita. Isso não é censura, não é ele se entregando para a suposta ditadura do politicamente correto, é um posicionamento importante em um momento de instabilidade como o atual. Espero, de verdade, que ele tenha entendido os problemas com o conteúdo que ele disponibilizava. 

Entender a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio é imprescindível para que nós continuemos a afastar e coibir movimentos nazistas como o de Charlottesville. A Lorelay Fox soltou um vídeo ontem que sintetiza muito bem a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio.

“Quando um discurso inferioriza o outro, quando um discurso tenta segregar religiões ou raças, quando um discurso inferioriza e ofende e pode gerar comportamentos agressivos contra outras pessoas. Um discurso que visa manter alguém no poder enquanto rebaixa uma parcela da sociedade.”

Lorelay destaca que no Brasil o discurso de ódio contra negros, mulheres e religiões está registrado como crime na nossa constituição, mas o mesmo não acontece com o preconceito contra LGBT – essa é uma luta que ainda está sendo travada.

Eu entendo que é difícil entender como falar de tolerância querendo cercear algum tipo de discurso – mas isso é um paradoxo. Não é possível falar em liberdade de expressão se parte do discurso que deveria ser liberado busca atacar uma parcela da sociedade. A Picoline fez um quadrinho que fala de maneira interessante dessa questão:

Além de entender a diferença entre Liberdade de Expressão e Discurso de Ódio é preciso lembrar de algo que nós sempre falamos por aqui: você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Nós falamos sobre isso com certa frequência por aqui: Você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Inclusão vs Segregação

Esse é um ponto que, ao meu ver, deveria ser muito mais fácil de entender do que parece ser. Ainda assim, muitas pessoas tem dificuldade de entender sobre o que são os movimentos sociais mais recentes, seja na discussão sobre representação dentro da cultura pop, seja em movimentos sociais que tomam as ruas como o Black Live Matters. 

Duas das frases que os manifestantes neonazistas e supremacistas gritavam em Charlottesville eram “White Lives Matter” e “You/Jews will not replace us”, respectivamente “Vidas Brancas Importam” e “Vocês não vão nos substituir”. Esses dois cânticos mostram um desconhecimento, muitas vezes opcional, sobre o que realmente são as discussões que ocupam as notícias dos últimos anos. 

Movimentos Sociais que buscam justiça social não são sobre colocar homens brancos em caravelas e mandar de volta para a Europa, eles são sobre tornar a nossa sociedade realmente justa e igualitária para TODOS. 

Black Live Matter não é sobre apenas a vida de uma pessoa negra importar, é sobre a vida de uma pessoa negra ter o mesmo valor da vida de uma pessoa branca. É sobre uma mulher negra e grávida ter as mesmas chances de não ser assassinada pela polícia que ela mesma chamou, chances que uma mulher branca nas mesmas condições teria. É sobre um garoto adolescente negro poder caminhar pela calçada da rua sem ser morto, assim como diversos outros garotos brancos fazem todos os dias. Não é sobre excluir brancos, não é sobre a vida branca não importar, é sobre não matar negros. Pedir para que a sociedade seja mais justa e não mate pessoas negras apenas por serem negras não me parece pedir por muito, parece ser pedir pelo mínimo. 

“Vocês não vão nos substituir” é um cântico que conversa diretamente com o discurso de alguns ativistas racistas e misóginos da cultura pop. Essas pessoas acham que, porque nós queremos mais representação feminina e de outras minorias, nós estamos dizendo que personagens brancos e masculinos precisam ser substituídos, mas não é sobre isso. É sobre abrir a cultura pop para representações que abranjam mais do que o branco e masculino – porque a nossa sociedade é muito mais do que isso. Nós não queremos pegar autores, ilustradores e personagens brancos e esquecê-los, nós queremos incluir novos personagens, queremos ver novas e mais diversas histórias sendo contadas. O mesmo pode ser dito sobre incluir minorias de maneira mais justa dentro da nossa sociedade. 

Sobre  manter-se neutro/imparcial. 

Muitas vezes, quando discutimos questões sociais como racismo e machismo, muitas pessoas caem no discurso que procura colocá-los num lugar de neutralidade sobre os assuntos: “Não são machista nem feminista”, “os dois lados estão errados”. Além de demonstrar um desconhecimento sobre as lutas e o significado das palavras, esse tipo de discurso, por mais que tente não ser, é sim um discurso político, já que acaba caindo no silêncio. 

Quando estatísticas mostram os números da representação feminina e masculina, quando as estatísticas de mortes entre a população negra cruza com as estatísticas de acesso à formação e direitos humanos básicos, quando o número de mulheres assassinadas por seus companheiros explode bem na cara dessas pessoas e ainda assim eles decidem assumir uma postura “imparcial” ou neutra, isso é escolher um lado. Porque mesmo com todas as informações e dados entregues nos seus colos de mãos beijadas, eles decidem olhar para o outro lado e, ao ignorar esses dados, estão escolhendo manter o status quo assassino e excludente em detrimento daqueles que são oprimidos por ele. 

Alguns meses atrás eu escrevi sobre Nick Spenser e seu arco de histórias na Marvel em Capitão América: Sam Wilson. Neste arco um Capitão América negro chega à conclusão de que precisa ocupar um espaço de neutralidade frente às questões políticas dentro da sociedade. Essa necessidade vem da errônea visão de que Steve, o Capitão original, sempre foi neutro. Sobre isso eu escrevi: 

Assumir que alguém é neutro politicamente é ignorar os sistemas de poder em ação na nossa sociedade – todo mundo é político, mas essa narrativa de neutralidade é algo do qual Spencer e seus semelhantes se aproveitam e validam. Eles são tão privilegiados que são incapazes de reconhecer esses privilégios, acreditando que são a norma, aquilo que é o padrão. O inquestionável. Qualquer um que esteja fora dessa norma, facilmente qualquer grupo de minoria, se torna político e, por isso, tendencioso. Essa visão, além de ignorar que a própria escolha de se ocupar uma suposta neutralidade política é um ato político (já que você decide se esquivar de responsabilidades, por exemplo), também lança uma sombra negativa sobre as minorias, já que à elas não é dada a opção de ocupar o tal lugar neutro.

Não contente, Spencer ainda foi responsável pela alteração da origem do Capitão América, colocando ele como um agente da Hydra desde o começo. Eu sei que a ordem cronológica da Marvel é uma bagunça e nada é definitivo, mas em tempos como os nossos esse tipo de mudança tem um peso muito grande, ainda mais com um personagem que foi criado como símbolo de luta contra o nazismo. 

Naja Later, autora no site Woman Write About Comics, resumiu bem o problema com o modo como a cultura pop, em específico a Marvel e Nick Spenser, tratam esse assunto: 

Se nós concordamos em Capitão América: Sam Wilson que Steve é “neutro”, então toda a identidade política de Steve é esvaziada para dar lugar à história de origem nazista em Capitão América: Steve Rogers #1. Nazismo se torna parte do espetro aceitável, e isso acontece porque Spencer construiu essa lógica narrativa desde o começo.

Como Gail Simone lembrou muito bem durante o fim de semana, os quadrinhos odeiam o Nazismo. 

Charlottesville e Nazismo

Eu até consigo entender, ou tentar entender, quem possui resistência quando discutimos cultura pop e representação. Nós estamos há décadas consumindo só um tipo de cultura pop, com um tipo de representação, é fácil cair na falácia da representação branca como padrão e universal. Mas neste caso, no que aconteceu em Charlottesville, quando falam em “liberdade de expressão” eu realmente não consigo entender. Porque eu tenho poucas certezas na minha vida, mas se existe uma certeza que é tão certeira quanto a morte é que Nazismo é ruim. 

Se você acompanha meus textos e as nossas Lives no Facebook, você sabe que quando anunciaram que o filme da Mulher-Maravilha ia se passar durante a Primeira Guerra Mundial, eu fiquei receosa. Diferente da Segunda Guera Mundial, a Primeira foi uma guerra envolvendo muitos lados, muitas questões políticas e foi muito complexa. A Segunda Guerra não, nela é muito fácil indicar qual é o lado que estava errado, quem era o grande vilão da Guerra: O Nazismo. 

Nenhum governo totalitário, de esquerda ou de direita, é bom. Ditadura sempre vem acompanhada de opressão, perda de direitos e mortes. O mundo já viu diversas ditaduras em diferentes continentes, mas se há um exemplo definitivo de maldade absoluta que é reconhecido por todo o mundo, esse exemplo é o Nazismo. 

(Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre o Nazismo ser de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.)

Então, quando alguém grita que Charlottesville foi sobre “liberdade de expressão”, esta pessoa está errada. Não foi sobre uma estátua, foi sobre demonstração de poder, foi sobre discurso de ódio. Foi sobre um grupo de pessoas se unindo para gritar cânticos que clamavam por exclusão e morte. Pessoas que se consideram superiores por serem brancas carregavam bandeiras nazistas. Foi sobre ódio e sobre propagar uma ideologia assassina. 

Foi sobre assassinato, sobre James Alex Fields acelerar o carro contra manifestantes anti-nazistas e matar Heather Heyer, uma mulher que lutava contra tudo aquilo que aqueles manifestantes representam. 

“Socar nazis é agir da mesma maneira que eles”  

Não, não é. Eu não sou à favor de violência, e tento ao máximo abrir um diálogo sobre as questões que levanto aqui no blog, mas eu entendo quando alguém não consegue manter a calma e acaba explodindo frente à um ato preconceituoso.

Um monte de nazistas e supremacistas brancos, pessoas que não tem medo de se auto-identificarem assim, vão fazer uma passeata com tochas (símbolo da Ku Kux Klan) e armas, numa clara demonstração de poder, trazendo de volta uma ideologia que foi responsável pelo massacre de diferentes povos, que prevê o genocídio de tudo que não é igual à eles – eu consigo entender o sentimento de revolta e raiva que toma conta das pessoas que se opuseram à isso. Porque não existe essa coisa de “os dois lados se exaltaram e há culpa em todos os lados”. Porque está obviamente claro quem está errado – os Nazistas. 

Eu não estou dizendo que acho que violência só será resolvida com violência – não. Mas eu entendo e não consigo condenar quem soca um nazista, porque é possível que, se eu estivesse ao lado de um imbecil falando esse tipo de merda, um cara que abertamente se diz à favor de uma ideologia que prega morte à pessoas não-brancas, judeus, LGBT+ e outras minorias, se eu estivesse na manifestação que terminou com a morte de uma mulher, então é possível que eu terminasse socando um nazista também. 

Os Estados Unidos tem um histórico de lutar por igualdade de direitos, e mesmo depois de muitas conquistas, a situação continua longe do ideal. Por isso eu imagino o que deve significar para aquelas pessoas ver se repetir uma cena que a geração atual só escutou falar. Eu consigo entender a dor, a frustração e a raiva que isso pode causar. 

No conflito de Charlottesville só existe um lado errado: O que não só pregou ódio, mas que assassinou uma mulher – os nazistas. Você é responsável pelo ódio que você semeia. 

Mas o que isso tem a ver com a Cultura Pop? 

Absolutamente tudo. A nossa cultura reflete o momento histórico no qual nós estamos, literatura, filmes, séries, quadrinhos e games – tudo isso absorve e reproduz aquilo que acontece à nossa volta. Capitão América e Mulher-Maravilha foram criados exatamente como forças contra o nazismo, a ficção-científica continua até hoje discutindo as causas e os efeitos da Segunda Guerra Mundial – até Senhor dos Anéis faz isso. Mas mais do que isso, a cultura pop pode, infelizmente, reproduzir mentiras e estereótipos que ajudam a fomentar e fortalecer esses discursos de ódio. 

No vídeo da Vice que coloquei lá no começo do texto, é possível ver um dos líderes da manifestação, Christopher Cantwell, responder que ele começou a se envolver com o ativismo depois que questões raciais como Trayvon Martin, Michael Brown e Tamir Rice (todos jovens negros assassinados por serem negros) começaram a aparecer: 

“Em qualquer um desses casos é um imbecil negro se comportando como um selvagem, e ele se coloca em problema. Seja qual forem os problemas que eu tenho com os meus colegas brancos, eles geralmente não estão inclinados à esse tipo de comportamento. E você precisa levar isso em consideração quando você está pensando sobre como organizar a sociedade.”

Esse discurso, de que pessoas brancas são predominantemente pacíficas, e que pessoas negras são violentas, é profundamente disseminado na cultura pop. As histórias de heróis estão lotadas de protagonistas brancos bonzinhos, ou vilões brancos injustiçados. Essas mesmas histórias tem pessoas negras sendo responsáveis pela própria escravidão, ou sempre representadas como bandidos e vilões. Esses estereótipos são negativos porque ajudam a sustentar esse discurso de Christopher Cantwell, de que pessoas negras são mais propensas à violência do que pessoas brancas. 

É assustador ver a relutância da mídia em chamar o grupo de nazistas e supremacistas brancos de “nazistas e supremacistas brancos”, mesmo quando eles próprios se auto-denominam assim. Essa mesma relutância não chama o homem que assassinou Heather Heyer no protesto de terrorista, mas fosse ele um homem não-branco, esse adjetivo teria sido automaticamente adicionado ao seu nome. 

Porque a Cultura Pop é tão influente e importante na nossa sociedade, me assusta ver o comportamento da Marvel de, nos últimos meses, tentar afastar a Hydra do Nazismo, ideologia que não só foi inspiração, mas da qual foi representação desde sua primeira aparição nos quadrinhos. Isso me assusta porque Ike Perlmutter, CEO da Marvel, é apoiador do Trump, que por sua vez apoia movimentos supremacistas brancos. Isso me assusta porque a DC, antes da Mulher-Maravilha, tinha um discurso neo-facistinha no cinema, mesmo nos filmes do Nohlan, mesmo que essa não fosse a intenção deles (o que só deixa tudo pior, na verdade). 

Mas, acima de tudo isso, me assusta porque nenhuma cultura pop que a gente consome ou produz existe dentro de uma bolha. Ela existe dentro da nossa sociedade e, além de refletir o momento histórico em que é criada, também pode ajudar a sustentar o status quo que vilaniza e oprime minorias. 

Não é só nos Estados Unidos e Nós Não Podemos Nos Silenciar

A reflexão de hoje pode ser sobre o horror do que aconteceu em Charlottesville, mas engana-se quem acha que aqui no Brasil a situação é melhor, ela só é diferente. Porque enquanto nos EUA esses supremacistas e nazistas não tem medo de se auto-denominarem assim, aqui no Brasil nós temos esses grupos infiltrados na nossa política, só que de maneira mais silenciosa. Eles estão na produção de cultura pop, na televisão, no cinema e na política também. Eles são eleitos pela população e podem inclusive concorrer à presidência. 

A imensa maioria das fotos e vídeos de Charlottesville mostravam a grande maioria masculina nazista e supremacista branca – mas também haviam mulheres lá. E é importante que nós, mulheres brancas, entendamos nosso lugar na manutenção dessa ideologia e em como a nossa representação dentro da cultura pop pode também ajudar a manter esses mesmos conceitos errados sobre outras minorias. 

Racismo, misoginia e outras opressões existem no Brasil também, e nós usamos não só da nossa cultura pop, mas da que consumimos em massa dos EUA, para justificar comportamentos e tradições que são excludentes e assassinas. O mesmo discurso que permite à Christopher Cantwell dizer que Tamir Rice é responsável pela própria morte sustenta um sistema racista que mata Tamir Rices brasileiros todos os dias. 

Minha família precisou fugir da Espanha durante o governo franquista. Meus bisavós foram um porto seguro para os filhos das famílias espanholas que eram perseguidas pelo governo, meu avô lutou pela Resistência Francesa contra os invasores Nazistas. Pra mim, ver as cenas de Charlottesville me pesou pois me assusta como pode, depois de tão pouco tempo, nós ainda tolerarmos esse tipo de discurso de ódio. Não aprendemos nada? Será que a história vai se repetir? Durante a Segunda Guerra, o Nazismo como mau comum conseguiu unir todos os espectros políticos contra ele – EUA e URSS lutaram juntos para por fim a ofensiva Nazista pela Europa. Eu espero que nós possamos discutir com quem realmente quer discutir, não com quem ainda acredita que cantar “Os Judeus Não Vão Nos Substituir” é apenas liberdade de expressão.

Ao fundo, à esquerda, minha bisavó Emília e algumas das crianças que a escola dela e de meu bisavô acolheu durante o governo Franco.

Cultura Pop é o ambiente que nos permite ir além da nossa realidade, mas também nos permite refletir sobre os nossos tempos e impedir que nossas fraquezas como sociedade se repitam. Horizon Zero Dawn fala sobre isso, Capitão América fala sobre isso, Jogos VorazesHarry Potter e tantos outros livros, quadrinhos, jogos e filmes falam sobre isso. É nossa responsabilidade, como sociedade, não esquecer que o Holocausto aconteceu à menos de 80 anos, e que esse mesmo tipo de coisa continua acontecendo todos os dias em diferentes lugares do mundo. 

É nossa responsabilidade aprendermos com os erros de nossos antepassados e não nos calarmos quando algo tão horroroso como Charlottesville acontece. É nossa responsabilidade garantir que o que aconteceu no último fim de semana não seja um recomeço para esse grande mau, mas um marco de virada por um presente mais seguro e mais justo para TODAS as pessoas. E nós só vamos conseguir fazer isso quando começarmos à parar de achar que, porque a liberdade de expressão existe, você pode fazer o que quiser sem consequências, quando pararmos de equiparar nazistas e pessoas que são contra o nazismo. É nossa responsabilidade entender que liberdade de expressão não pode abraçar discurso de ódio. 

Até Mais.

Separei alguns links que talvez possam ajudar a entender e problematizar toda essa discussão. À medida que eu for encontrando novos links, vou adicionando aqui.

Em Inglês:

Como o Agressor de Charlottesville se Radicalizou.

Nem os descendentes dos Confederados querem que os monumentos continuem de pé.

O presidente de uma sinagoga em Charlottesville fala sobre o que aconteceu quando a manifestação passou em frente ao prédio.

Quem foi Heather Heyer, a mulher que morreu em Charlottesville.

A Vice perguntou para um especialista em ética se a gente pode socar nazistas.

Coisas importantes para se saber antes de socar um nazista – uma thread.

A longa história dos quadrinhos batendo em nazis.

Em Português:

A palavra é a nossa arma.

O Desabafo de uma idosa que confrontou os neo-nazistas em Charlottesville.

Como a resposta de Trump à Charlottesville afastou o presidente dos maiores empresários dos EUA.

Nazismo é de esquerda ou de direita? 

Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre se o Nazismo foi de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.

Conversa com Autores | “Apontaram preconceitos na minha obra. E agora?”

Criar algo não é um trabalho fácil. Receber críticas em cima do trabalho sobre o qual você passou horas, dias, meses ou até mesmo anos debruçado é mais difícil ainda. Uma das primeiras lições que eu aprendi quando comecei a estudar roteiro para TV e Cinema foi: Quebre o seu ego. Para crescer e evoluir como profissional, você precisa escutar e aceitar críticas. Isso não quer dizer que você precisa aceitar absolutamente tudo que lhe disserem, apenas que nós, como criadores e artistas, precisamos estar abertos para críticas. 

Quando a crítica ao nosso trabalho vem associada à questões como estereótipos, construções de narrativas ou personagens não-brancos, femininos, LGBT+ e outras minorias, muitos criadores e artistas começam a perder a linha. Não porque eles sejam Gargaméis que fazem tudo de propósito, mas muitas vezes porque se recusam a aceitar ou se quer ouvir essas críticas, já preparando um discurso defensivo, para justificar ou se eximir de qualquer erro. 

Se você contrata um profissional para lhe dar um feedback, então ele provavelmente virá na forma de um documento apontando os erros e os acertos, ou de uma conversa durante uma reunião. Seus amigos talvez te passem os detalhes numa mesa de bar, mas nem todos os críticos ao seu trabalho vão ser tão educados, e muitos desses críticos vão vir da internet. Poucas coisas são mais temidas do que o holofote do PRECONCEITUOSO dando luz ao seu trabalho. 

Eu vou tocar tanto no tipo de crítica que o criador recebe, como na recepção dessa crítica e como reagir quando esse tipo de crítica acontece – independente de como essa crítica chegará até esse criador.

O Preconceito Intrínseco

O Preconceito Intrínseco Nós vivemos numa sociedade que, historicamente, oprimiu e excluiu pessoas não-brancas, mulheres e outras minorias. Nós não vemos tantos nomes femininos entre cientistas famosos, escritores clássicos ou líderes mundiais por consequência dessa exclusão, já que o acesso à educação e à cultura sempre foi limitado para esses grupos. Ou, quando uma pessoa desses grupos obtinha sucesso, os méritos ficavam com seus colegas homens e brancos. 

Há poucas mulheres na literatura clássica, não porque as mulheres do século XV não queriam escrever, mas porque à maioria delas não possui se quer permissão para aprender. O mesmo com mulheres no ramo da ciência, matemática e outras artes – temos também as vezes em que elas de fato conseguiam sucesso, mas os méritos ficavam apenas com seus colegas homens. Quando falamos sobre outras minorias não-brancas ou LGBT+ fica pior, já que no mundo ocidental branco eles eram tratados como menos do que humanos, ou simplesmente impedidos de existir em liberdade. 

No Brasil, a escravidão foi abolida em 1888, o voto feminino só veio em 1932. Em 1887 a primeira mulher se formou em medicina, mas apenas em 1945 nós tivemos a nossa primeira mulher negra formada em engenharia. Apesar de todos esses marcos, mesmo que tardios, não foi porque eles aconteceram que automaticamente todos passaram a viver com as mesmas oportunidades, e nem mesmo os mesmos direitos. E é nessa sociedade, que ainda exclui e carrega muitos preconceitos, que nós crescemos. 

Por mais que nossos pais se esforcem para que cresçamos com igualdade e sem preconceitos, a sociedade não se preocupa com isso. Quando você toma a decisão de cruzar a rua porque um homem negro de boné vem caminhando na sua direção, você não faz isso porque é um ser desprezível, você faz isso porque você cresceu absorvendo a informação de que homens negros são bandidos, mas isso é racismo. Quando você ri da piada em que o punchline é uma pessoa LGBT+, você não é necessariamente o Gargamel, mas isso é LGBTfobia. Ou quando seu amigo fica “imitando japonês” e começa uma sequência de “pastel de flango” – isso é xenofobia. 

Dito isso tudo: Você pode não ser a pior pessoa do mundo, mas isso não te dá passe livre para não se educar e lidar com as consequências dos erros que você cometeu, mesmo que inconscientemente. 

Preconceitos estão enraizados em todos nós. Mesmo eu, mulher, posso disseminar e endossar comportamentos machistas e misóginos. Mesmo eu, engajada do jeito que sou, posso acabar disseminando e reproduzindo discursos racistas, LGBTfóbios, xenofóbicos sem querer exatamente por não saber reconhecê-los. E é aí que eu volto para questão de quebrar o ego do criador/artista:

Nós precisamos estar abertos para críticas.

Assim como você vai receber críticas se deixar buracos na sua história, ou se errar completamente a perspectiva de um desenho, você também está propenso a receber críticas quanto a representação de minorias. Com os dois tipos de críticas, você tem oportunidades de vê-las como possibilidade de aprendizado e evolução para o seu trabalho como profissional. 

Muitos criadores tendem a jogar as críticas relativas à representação dentro do saco de “críticas negativas”, como se ele não tivesse anda a aprender, como se essas críticas não fossem construtivas. Esse tipo de comportamento acaba impedindo o artista de ir além, de superar a si mesmo e de deixar o trabalho dele melhor e mais completo. 

Novamente: Não é fácil receber críticas, mesmo àquelas que nos são apresentadas com todo o carinho do mundo, mas é parte importante da evolução de um artista. É ainda mais difícil quando essa crítica vem junto de palavras como racismo, machismo, homofobia e etc, mas é aí que fica ainda mais importante estar aberto para elas. 

Quando nos acusam de algo o nosso primeiro instinto é nos defendermos ou tentar nos justificar. Se você é alguém já engajado ou um aliado de alguma causa, então talvez o seu primeiro instinto seja apresentar as suas credências e os seus amigos – isso só fica pior. É muito difícil aceitar que nós podemos estar errados, porque a sociedade como um todo diz que você sempre está certo, porque como artista nós aprendemos que estamos certos. Quando esse erro está ligando você a um comportamento preconceituoso então, todo sistema de defesa começa a apitar descontroladamente. 

Mas, e se ao invés de nos protegermos, nós estivéssemos abertos para realmente escutar essas críticas? E se, ao invés de começar com “Mas eu não/Meu trabalho/ Não foi isso que eu quis”, nós começássemos com “Quais foram os problemas que você viu?” ou talvez até “Essa não era a minha intenção, podemos conversar mais sobre isso?”

Esse processo de parar e escutar, respirar e resistir ao impulso de se justificar logo de cara é um dos processos mais difíceis mas mais necessários quando se quer desconstruir preconceitos que a gente nem sabia que tinha. Escutar o outro, suprimir a nossa vontade de se justificar e depois pesquisar e pensar sobre o assunto. Uma técnica que funciona tanto para a crítica padrão, quanto para a crítica ligada à representação. 

O Crítico Raivoso

Muitas das críticas que você vai receber vão vir da internet. E como a gente sabe, a internet pode ser maravilhosa e terrível ao mesmo tempo. Então sim, muitas das críticas que você vai receber provavelmente não serão entregues em almofadas perfumadas, talvez nem mesmo de maneira minimamente educada – mas isso não quer dizer que você está certo. 

Ninguém gosta de receber xingamento, e no mundo ideal ninguém receberia. No mundo ideal parte das críticas ao seu trabalho não viriam em forma de acusações, ironias ou posts raivosos. No mundo ideal, no entanto, também não haveria razão para que esses críticos estivessem com raiva. É preciso ressaltar uma coisa: críticas raivosas não são a mesma coisa que agressão e assédio. “Espero que você morra” não se encaixa em críticas raivososas, e nem você nem ninguém deveria receber esse tipo de comentário. 

Nós crescemos consumindo majoritariamente uma narrativa branca e escrita por brancos. Sim, existe a Tempestade, o Blade, a Psylock (?) e mais um punhado de outros personagens não-brancos. Mas sejamos sinceros: A imensa maioria das histórias ocidentais que consumimos no cinema, na televisão, nos games, na literatura ou nos quadrinhos é de personagens brancos e majoritariamente masculina. É uma narrativa considerada padrão, na qual todo tipo de pessoa poderia se identificar – uma experiência universal. 

A experiência branca e masculina não é uma experiência universal. 

Uma vida inteira consumindo uma cultura pop em que a imensa maioria de protagonistas, arcos de personagens bem construídos, personalidades interessantes e poderosos eram masculinos. Uma vida inteira vendo personagens femininas, mesmo que protagonistas, sendo escanteadas, diminuídas, donzelas em perigo, desempoderadas, sexualizadas, violentadas e mortas. Chega um momento que cansa, e quando você vê uma obra em 2017 com esse tipo de problemas, é mais do que normal sentir raiva. 

Constantemente recebemos comentários de amigos homens dizendo que a raiva não vai ajudar a passar a mensagem. E eu tento ser o mais didática possível aqui no Collant. Mas, por mais minuciosa que eu seja, eu não posso deixar passar nem um pouco da minha frustração, porque aí eu estou sendo agressiva e automaticamente “perco a razão”.

Só que não, eu não perco. Porque os erros que foram apontados pelos comentários raivosos não deixam de existir só porque eles não foram entregues em uma almofada, ou mesmo de maneira educada. O autor pode colocar o corpo desmembrado da namorada do protagonista dentro de uma geladeira, mas eu não posso ficar com raiva. O autor pode colocar uma mulher negra e nua sendo açoitada, mas pessoas negras não podem ficar com raiva. 

Quando se cria algo é preciso estar aberto às críticas – mesmo às mais duras. E é normal errar, ninguém nasce desconstruído ou bem informado, mas é preciso aprender com os nossos erros. É preciso tentar entender de onde vem a raiva e a revolta do outro, porque há grandes chances que seja exatamente dessa raiz do problema que você vai tirar os maiores aprendizados. Escute o outro, mesmo quando ele está com raiva. Você não precisa abaixar a cabeça e aceitar todo xingamento que receber, mas você precisa saber escutar aquilo que importa, porque infelizmente muitas pessoas estão com raiva do modo como elas são representadas na grande mídia. 

Como eu disse no começo do texto, nós não vivemos numa sociedade que trata todas as pessoas igualmente. E isso se reflete na cultura pop que produzimos. Então quando uma pessoa negra vê um personagem negro sendo usado como pano de fundo para o heroísmo branco, ele sabe o que isso significa dentro da nossa sociedade. Quando uma mulher vê uma personagem feminina sendo usada para idolatrar a figura masculina, ela sabe o que isso significa na nossa sociedade. E por mais que nós, criadores e artistas, possamos não ter tido a intenção, nós podemos sim estar sustentando um sistema de comportamento negativo e abusivo.

Sua Obra Não Existe Dentro de Uma Bolha

Tudo que você cria, se der tudo certo, vai chegar até o público. Seja através de uma distribuidora, uma editora ou do seu trabalho independente. No mundo ideal o seu trabalho vai ser consumido e vai passar a fazer parte do repertório das pessoas que tiveram acesso à ele. Essas pessoas, com seus repertórios, irão integrar a sociedade que a gente vive hoje. Você não é responsável pelo que as pessoas fazem com o repertório que elas adquirem. Mas…

Você é responsável pelo que você cria. 

Como autores, nós precisamos estar conscientes daquilo que colocamos no mundo. Nenhum bom artista cria para o próprio umbigo, nós queremos que aquilo que produzimos atinja alguém, faça o público sentir alguma coisa. Mas esse desejo de alcançar as pessoas nos faz responsáveis pelo que colocamos no mundo. 

Você não é culpado por todo racismo, machismo ou qualquer tipo de preconceito que existe no mundo. Mas a sua obra pode, mesmo que sem a intenção, ajudar a sustentar um sistema que mantém minorias sociais em opressão. A sua não-intenção em nada te livra da responsabilidade que você tem com a sua obra. 

Também não estou dizendo que toda obra de cultura pop precisa ter um subtexto político – eu adoro poder só escapar por algumas horas através de um seriado ou um bom quadrinho. Porém, se a sua obra possui apenas personagens masculinos e brancos, então você está excluindo boa parte da sociedade, limitando o seu potencial criativo e fortalecendo a narrativa de que só o que é branco e masculino importa.

Ou Seja… 

Esteja aberto para críticas, mesmo aquelas que não são muito fáceis de serem escutadas. Mas antes de se defender ou se justificar, antes de se sentir injustiçado, procure escutar e entender a crítica que está sendo feita. Pode ser que o próprio crítico te explique, pode ser que não. Mas em todo caso você sempre pode pegar a informação e ir atrás de conteúdo sobre aquilo – se eduque. Ninguém é obrigado a te educar. 

Mais uma vez: não estou dizendo para aceitar toda agressão online de bom grado – ninguém deveria ser assediado online. Estou dizendo para tentar entender porque o seu trabalho está causando esse tipo de reação nas pessoas. 

Então, da próxima vez que alguém apontar racismo, machismo, Lgbt+fobia ou qualquer tipo de preconceito no seu trabalho, lembrete que as críticas podem fazer de você um artista melhor, mais completo. Lembre-se que você não está sempre certo, que não é porque alguém apontou um erro no seu trabalho que ele te vê como o diabo na terra. Mas, principalmente e acima de tudo, escute, se eduque e aprenda com o erro que você cometeu.

Até mais. 😉  

 

 

Quadrinho das Caça-Fantasmas tem Kelly Thompson no roteiro!

Enquanto a gente espera impacientemente a Sony tomar uma decisão sobre uma continuação de Caça-Fantasmas: Atenda ao Chamado (2016), hoje a incrível Kelly Thompson anunciou o quadrinho, de mesmo nome do filme, que vai expandir o universo do time formado por Abby, Erin, Holtzman e Patty!

Edição Nº1 – Ilustrações de Corin Howell e cor de Luis Antonio Delgado

A publicação, que sai pela IDW Publishing traz Kelly Thompson (Hawkeye) nos roteiros e Corin Howell (Mighty Morphing Power Rangers) – as duas tem no currículo outros quadrinhos que se passam no universo dos Caça-Fantasmas.

Para o LATimes, Thompson disse:

Eu estou muito feliz em trazer essa primeira aventura solo das mulheres “Ghostbusters” para o mundo dos quadrinhos. Espere muitos elementos sobrenaturais e coisas do tipo “salvar o mundo”.

Essas moças são mágicas quando estão juntas, e eu adoro escrever sobre a criatividade maluca, o cérebro científico e o bom coração delas.

Mas vamos ser sinceras, eu estou aqui mesmo para colocar o máximo de piadas possíveis. E com essas moças as piadas vem rápidas e furiosas. E ainda, quem não quer escrever o Levin? É um sonho realizado!

Howel prometeu mais fantasmas e um eye candy já conhecido

Eu acabei de lembrar que eu vou poder desenhar o Kevin, eu estou muito animada!

Capa da edição nº 2 – Artista: Emma Viecelli e Cor: Luis Antonio Delgado

A história começa com “What Dreams May Come, Part 1”, na aventura o time recebe um chamado para se livrar de um fantasma classe III, mas acaba dando de cara com um assustador Classe VII.

EU ESTOU TÃO ANIMADA. Quero ontem.

Capa variante da edição 1 Artista: Valentina Pinto

Quadrinistas homens não vão ao Lady’s Comics, perdem a oportunidade de serem melhores.

Durante o primeiro fim de semana de Maio aconteceu o Encontro Lady’s Comics em São Paulo. O evento é encabeçado pelas meninas do Lady’s Comics, foi sediado e co-organizado pela Quanta Academia de Artes. O encontro, que está na sua terceira edição e primeira na capital paulista, trouxe nomes do quadrinho nacional e latino-americano para falar sobre todos os temas que envolvem a produção de quadrinhos, do roteiro até o jornalismo.

O Lady’s foi um encontro com oportunidades incríveis de aprendizado e aprofundamento, de entrar em contato com temas que nem sempre são abordados em eventos de quadrinhos e de se conectar com profissionais excelentes históricos diferentes. Foi inspirador ver todas aquelas mulheres palestrando e dividindo experiências, ver os futuros profissionais do quadrinho nacional, tanto homens quanto mulheres, participando do evento.

Infelizmente, muitos quadrinistas já reconhecidos que moram em São Paulo não compareceram e assim, não só refletindo o machismo inerente dentro do meio, mas também perdendo a oportunidade de melhorar os seus próprios trabalhos.

O que não falta no quadrinho nacional é a representação feminina reduzida à objeto e hipersexualização, a figura feminina é vítima constante do machismo e da misoginia, seja em quadrinhos de sci-fi ou fantasia, seja em quadrinhos que buscam representar a realidade (uma realidade geralmente masculina, heterossexual e branca, diga-se de passagem). Charges, tiras, coleções ou graphic novels – homens quadrinistas brasileiros adoram reduzir suas personagens femininas às suas fantasias sexuais pubescentes, mesmo que eles mesmos não se dêem conta disso.

Então, quando um evento como o Lady’s acontece, e eu vejo na programação palestras como a da incrível LoveLove6, “Desconstruindo o olhar masculino”, e a da Gabriela Borges, “A representação da mulher e os discursos de gênero”, eu fico desapontada, mas nem um pouco surpresa ao não ver esses quadrinistas nas cadeiras. Tirando os quadrinistas que estavam na equipe da Quanta, apenas dois ou três passaram por lá. Eles não comparecem provavelmente porque  acreditam que são tão superiores que não há nada para aprender, ou porque continuam achando que desenhar mulheres com peitos maiores que a cabeça é uma questão e estilo, não de machismo e mediocridade.

Como artista, uma das coisas mais difíceis de se enfrentar são as críticas ao seu trabalho, mas aprender a aceitá-las e a separar aquilo que é construtivo e o que é só hate é muito importante. Mas tão importante quanto isso é aprender a identificar onde os seus privilégios barram o seu trabalho de ser melhor, de ser maior. Existe, dentro da maioria dos artistas, um tipo de arrogância que vem da possibilidade de criar universos novos, é algo que a própria cultura artística infelizmente cultiva. Quando juntamos isso a percepção masculina de que apenas por serem homens eles têm uma suposta superioridade, a arrogância se torna burrice, que termina por ser opcional.

O privilégio masculino é algo que, para o próprio homem, é muito difícil de perceber, admitir ou fazer algo sobre. Essa dificuldade não o exime de culpa por não notá-lo e, no fim, esse mesmo privilégio acaba limitando aquilo que ele pode fazer com a sua própria arte. Por causa disso, eles não só acreditam que não há nada para aprender com profissionais mulheres, eles também não se dão conta que a escolha de “pular” um evento como Lady’s tem sim a ver com o gênero das palestrantes.

O Lady’s foca em convidadas mulheres, mas em momento nenhum exclui homens de participarem como espectadores ou apoiadores. Ele também não é um evento focado apenas em discutir gênero, tiveram mesas maravilhosas que nada tinham a ver com gênero – que, inclusive, representou a minoria dos temas abordados. A escolha de não participar vem única e exclusivamente deles e, mesmo que feita de maneira não-intencional, está sim baseada no gênero dos profissionais que ganham enfoque no evento.

Faz-se fila para aprender com os grandes nomes do passado, compra-se suas coleções e lotam salas de discussão – mas apenas se eles forem nomes masculinos como Ziraldo, Quirino ou Angeli. Ao que parece, quadrinistas homens não se interessam em aprender com nomes femininos que conseguiram driblar a censura e publicar tiras críticas durante a ditadura, como Ciça Pinto, ou com um dos nomes mais importantes da ilustração de imprensa, como Mariza Dias Costa.

Eles também não tem interesse em assistir palestra de profissionais de editoras, não se elas forem todas mulheres, e nem querem aprender um pouco mais sobre técnicas de pintura ou mesmo sobre como quadrinhos são utilizados dentro da sala de aula (uma ótima fonte de renda, diga-se de passagem). Eles também não querem entender ou aprender um pouco mais sobre maternidade e quadrinhos, muito menos sobre homoafetividade e quadrinhos – tá tudo bem, todo mundo viu Sense8.

Quadrinho é arte, mesmo o quadrinho de super-herói é uma forma de arte, porque ele nos conecta com temas e sentimentos, porque vivemos experiências novas ou já conhecidas através dos universos e personagens que encontramos. Porque, mesmo que inconscientemente, ele reflete a realidade à nossa volta. E é muito fácil para o artista, especialmente se ele é homem, se perder no seu próprio umbigo e acreditar que aquele mundo é o mundo à sua volta.

É assim que quadrinistas incríveis viram quadrinistas medíocres, porque acreditam que a história que estão contando, uma história que reflete apenas aquilo que eles acham ou acreditam, aquilo que eles veem apenas dentro da suas lentes míopes masculinas, aquilo que eles aprenderam apenas com outros homens é o melhor que eles podem fazer. Peitos maiores do que a cabeça, personagens femininas diminuídas a objetos sexuais ou subdesenvolvidas não é uma questão de estilo, é uma questão de mediocridade. E é uma mediocridade que existe apenas porque o artista é preguiçoso e se recusa a aprender e a olhar além do seu próprio umbigo.

Quando esses fabulosos quadrinistas já consagrados do quadrinho nacional decidem não comparecer à um evento como o Lady’s Comics, o mercado de quadrinho perde. Perde porque eles vão continuar fechados dentro de seus clubes do bolinhas, com suas broderagens e mesmo com o seu silenciamento frente ao machismo e a misoginia inerente ao mercado. Mas quem perde muito também são eles mesmos, já que limitam seu trabalho à visão masculina, como se a sua verdade fosse a grande e única verdade, como se não tivessem nada a aprender ou evoluir com visões diferentes. Eles próprios diminuem sua arte à mediocridade do olhar único. Espero que até o próximo Lady’s, ou quem sabe até o curso de verão da LoveLove6 que foi sugerido durante o encerramento do evento, esses quadrinistas decidam libertar o seu trabalho, e a sua cabeça, dessas correntes machistas que os impedem de ir além, de serem melhores.

Até mais.

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Para Ler Mais:

Broderagem, Mercado e Exclusão

O elefante na sala: Assédio no meio do quadrinho nacional. 

Como você, homem, pode ajudar a acabar com o machismo e o assédio no meio dos quadrinhos.

Oportunismo Machista: Como Quatro Twittes sobre as axilas da Mulher-Maravilha se Tornaram a Polêmica da Vez

Quando vi o link falando sobre o backlash contra o filme da Mulher-Maravilha eu ri. “Deixa eles chorarem sozinhos, eu pensei” – vida que segue. Não deu um dia completo e começaram a surgir novos links falando sobre “as críticas”, “as feministas” e o tal “backlash” contra o filme da MM. Aí eu suspirei e me perguntei PORQUE DIABOS VOCES QUEREM ME FAZER FALAR SOBRE O SOVACO DA DIANA, CARAMBA?

MAS, aqui estou eu.

A primeira coisa a se considerar sobre isso tudo é que QUATRO TWITTES não são “crítica” da maneira que os títulos de posts tentam fazer soar e muito menos são backlash. Backlash é aquilo que acontece quando um filme com protagonistas femininas fora do padrão donzela ousa ser lançado, é quando um bando de homens brancos desocupados resolvem fazer um grupo em chan pra dar dislike em trailer de série ou para dar nota baixa pra um filme que ainda não foi lançado.

O que aconteceu com Dear White People, Ghostbusters e tantos outros é backlash. Quatro twittes… Não.

“Trailer de ‘Mulher-Maravilha’ é alvo de crítica por conta das axilas depiladas de Gal Gadot” Não.

Eu só resolvi tocar no assunto porque, obviamente, os blogs e sites nacionais não poderia deixar passar esse FURO JORNALSTICO e também escreveram sobre o assunto. E assim como se espalha ódio, se espalha desinformação, por isso acho importante responder a esse tipo de situação.

Longe de mim querer dizer o que a mídia deve reportar ou não, mas sei lá. Quatro twittes perdidos não me parece ser assunto de verdade, que de fato ofereça algum tipo de credibilidade em relação à críticas. Porque né, são quatro twittes de quatro pessoas desconhecidas, sem nenhum tipo de alcance midiático.

A relevância desse perfil. O número de seguidores. O reconhecimento regional e mundial. Avassalador.

Vou dar um exemplo de twittes similares e que nunca se tornaram headlines. Um tempo atrás eu falei sobre Dorama no twitter, dizendo que não tinha paciência para dramas de mais de 20 episódios. Felizmente ninguém me levou a sério e não surgiu a manchete “Doramas recebem críticas por ter mais de 20 episódios”. Sabe porque? Porque não tem absolutamente nada de click baiting em noticiar meus twittes sobre dorama. Não tem nada que possa ser difamado com essa notícia. Mas ao dizer que o filme da Mulher Maravilha sofreu críticas/backlash por axilas depiladas sabe quem é que recebe o alvo grudado nas costas? Feministas e mulheres que OUSAM criticar cultura pop.

Não acredita em mim? Olhem esses comentários em um dos textos nos sites nacionais:

Não dava pra deixar passar sem cobrar a carteirinha, não é mesmo?

Quando discutimos representação feminina dentro de um universo que se construiu em alicerces machistas e misóginos – e foi assim que os quadrinhos de super-heróis se sustentaram por anos – nós sabemos o que é receber ataques apenas por sermos mulheres ou por criticarmos esses mesmos alicerces. Tudo isso pesa, mas vale a pena quando olhamos para as mudanças que a indústria vem apresentando nos últimos três anos, com o número de personagens femininas aumentando e com a melhora da representação dessas mesmas personagens. Uniformes hiperssexualizados são substituídos, posições ginecológicas trocadas por posições empoderadoras, o aumento de mulheres na produção desses mesmos produtos – todas vitórias muito importantes. Vitórias que todo mundo esquece à primeira menção do suvaco depilado da Mulher-Maravilha.

Não interessa o quão grande é o avanço, não importa o quão felizes nós estejamos com as mudanças – sempre vai ter alguém para pegar QUATRO TWITTES e transformar em polêmica. Sempre vai ter alguém para culpar feministas, essas mesmas que conseguiram com muita luta melhorar a representação feminina, por uma polêmica que NEM EXISTE DE VERDADE. É assim que o machismo e a misoginia se propaga: com aqueles que estão dispostos à fazer qualquer coisa por um clique. Pela audiência. Ao invés de apontar dedos para feministas, ao invés de inventar que “grupos feministas criticaram filme da Mulher-Maravilha”, que tal criticar os portais que resolveram criar polêmica a partir de quatro twittes.

Os twittes da discórdia:

Essas duas contas foram apagadas.


Aos blogueiros/jornalistas/whatever nacionais que deram ibope pra quatro twittes:

Sabe quem ia ficar decepcionada com os infelizes que resolveram fazer de quatro twittes polêmica? Essa mesma, Diana Price – aka Mulher-Maravilha. Porque o que está se fazendo nada mais é do que vitimando uma discussão muito importante dentro da cultura pop e dos quadrinhos, representação feminina, e usando feministas como bode expiatório. É tão infantil e tão bobo que eu só resolvi escrever sobre isso depois de ver o alcance que um dos textos nacionais havia recebido.

A única coisa real que vocês conseguem com esse tipo de comportamento é fomentar e sustentar uma cultura de ódio que vitima diversas mulheres todos os dias. Seja porque vocês sustentam a desinformação sobre o que é feminismo e sobre o que as feministas consideram pauta, seja porque vocês dão voz ao ódio que persegue e ameaça mulheres todos os dias na internet e nas ruas.

Pelo amor da Amazona Sagrada – SEJAM MENAS. Parem de passar vergonha na internet e sei lá, ao invés de ficar criando click baite, produzam matérias interessantes para o site de vocês. Isso é só uma dica. Parem de achar que uma – ou quatro – pessoas falam pelo movimento feminista. E, principalmente, LEIA A DROGA DA THREAD INTEIRA. Se tivesse feito isso teriam visto que um dos twittes era uma piada. Sei lá, talvez se vocês soubesse que eram só três twittes não achariam que dava pauta.

Até mais.

**Este texto foi atualizado em 23/03/2017 para adicionar imagens dos quatro twittes da discórdia e informações extras. 

Crítica: A Bela e A Fera (2017) – Sentimentos são… Confusos.

Nós vivemos a era das adaptações: livros, quadrinhos, filmes antigos – e não tão antigos – tudo está ou pulando pra tela do cinema, ou voltando pra ela. A Bela e a Fera é a terceira adaptação da Disney para Live Action de obras anteriormente animadas: Malévola, Cinderela e no ano passado Mogli – O Menino Lobo, todas versões de animações consagradas.

Particularmente eu acredito que toda adaptação, seja do meio que for, precisa trazer alguma coisa nova para a história. Contar a mesma história além de redundante pode ser um tiro no pé – A animação original já era um filme narrativamente muito bem construído, porque mexer no que já estava perfeito? Para que fazer tudo de novo, sem nenhuma novidade?

Quando falamos de adaptar algo que marcou a infância de muitas pessoas é sempre difícil alcançar o tipo de expectativa que se cria em volta do filme. A Bela e A Fera até consegue alcançar algumas dessas expectativas, mas é ao tentar construir algo novo que acaba se perdendo – e é aí que eu fico mais frustrada com a produção.

O filme tenta se aprofundar na história pregressa dos protagonistas mas, com interpretações muito caricatas e diálogos um tanto sofríveis fica difícil embarcar na emoção que essas cenas querem alcançar. Elas também parecem longas e desconectadas da história central. Ao meu ver o que ficou faltando foram um ou dois tratamentos de roteiro a mais, exatamente para afinar o diálogo e alinhar essas adições na história original.

Um dos pontos legais porém mal construídos do filme está no desenvolvimento extra que o roteiro tenta entregar para a personagem, abordando o que diabos teria acontecido com a mãe da personagem. A relação entre Bela e seu pai, Maurice (Kevin Kline) sempre foi o motor guia para as ações da personagem na animação, no live action ela ainda é, mas o filme tira um tempo para desenvolver o mistério por trás da morte da mãe de Bela. É uma pena que seja exatamente nesses momentos em que o filme quer entregar mais que ele se perde.

Muito se discute sobre a Bela e A Fera e a representação feminina, nós já discutimos o assunto num vídeo de alguns anos atrás, e o filme de fato se esforça para fugir dos padrões machistas e problemáticos que a história original apresenta. Nesse filme Bela (Emma Watson) é mais ativa e é uma figura mais contestadora – a única mulher a saber ler na vila, ela é vista com maus olhos pela figura religiosa. É um ponto pequeno mas que ajuda a criar uma personagem mais interessante. Além disso a Bela de 2017 tenta ativamente fugir do castelo e, já quando se deixa prender no lugar de seu pai, faz isso com o objetivo de fuga em mente.

Tudo isso não quer dizer que a história super tradicional de uma garota que se apaixona por uma figura violenta deixou de existir, ela ainda está lá, e o filme sabe disso. Talvez na tentativa de diminuir essa vertente da narrativa os roteiristas se esforçam para justificar o comportamento da Fera (Dan Stevens) e, não sei se conscientemente, acabam transformando o filme em uma discussão sobre masculinidade tóxica. Não a discussão mais profunda que você vai ver, mas é interessante notar esse tipo de história dentro de um filme como esse – homens violentos criam homens violentos.

**Atenção para pequeno spoiler sobre LeFou**

Essa discussão, que pode-se argumentar que sempre existiu na forma do Gaston (Luke Evans), ganha um pouco mais de força ao olharmos para LeFou (Josh Gad), o tal personagem gay do filme. Ele é gay? Sim? Não? Talvez? Como em tantos outros filmes mainstream que tentam mostrar personagens LGBT, A Bela e a Fera se perde ao apresentar LeFou como alívio cômico – algo que ele já era inclusive na versão original. O mais interessante sobre o ele está nas mudanças que foram feitas, talvez o personagem com a maior mudança de arco e personalidade. Antes apenas um Tolo seguidor de Gaston, em 2017 LeFou é claramente apaixonado pelo líder, mas não é incapaz de perceber quando ele passa dos limites, tanto que chega a falar sobre Gaston como sendo ele mesmo a Fera que está solta. LeFou ganha um arco de redenção que provavelmente também foi uma tentativa do filme de não cair no clichê do gay malvado.

Outro aprofundamento que se dá é na presença maior da Feiticeira responsável pela maldição da Fera e do Castelo. A cena de abertura do filme é maior do que a pequena animação de vitrais do original (talvez o ponto mais fraco do filme, já que é muito caricatural) e ela tem um papel mais decisivo para a história. Infelizmente é mais um apêndice que poderia ter sido melhor trabalhado – ou absolutamente cortado.

Lumière, Plumette Cogsworth e Mrs Potts (todos interpretados por atores pra lá de gabaritados) ganharam no live action ainda mais companhias interessantes. Madame Garderobe (a guarda-roupa) tem uma participação maior e serve como o ticking clock mais óbvio sobre o medo dos personagens de se tornarem antiguidades. É interessante ver um pouco mais sobre a vida pré-feitiço desses personagens, e o filme até oferece uma resposta para uma das maiores perguntas que o original deixou “Como ninguém encontrou esse castelo antes?”. Eu gostaria que o design desses personagens não fosse tão pautado na realidade, talvez tivesse me ajudado a me relacionar mais com eles como na animação.

A Direção do filme ficou por conta de Bill Condon e eu não consigo não achar que qualquer outra opção teria sido melhor. Com cenários e figurinos incríveis, atores pra lá de competentes, ainda assim o filme parece não ter toda a magia que uma direção mais interessante poderia ter apresentado. Faltou usar melhor todos esses atributos, de cenário à atores, para criar algo visualmente deslumbrante como o filme original. Deixando de lado as óbvias diferenças e possibilidades que uma animação trás para a narrativa, a impressão que fica é que o diretor não soube aproveitar nem o elenco nem as locações, principalmente quando chegamos perto do final e as imagens se tornam cada vez mais dramáticas.

De maneira geral A Bela e A Fera é um filme gostoso de assistir e que vai com certeza falar com a garota pequena dentro de muitas espectadoras. Para muitas a Bela foi a primeira “princesa” da Disney que parecia fugir um pouco a regra, e o filme se empenha em mostrar que ela realmente é isso. A trilha sonora tem alguma adições muito legais, como uma música cantada pela Fera (e a voz do Dan Esteves é linda) que ajuda a dar uma visão maior sobre como o personagem se sente ao final do filme. A sensação que fica é que a produção poderia ter aproveitado alguns meses a mais de trabalho em cima do roteiro para criar uma história mais coerente e que realmente encaixasse todas as discussões e mudanças que o filme parece querer agregar à história original.