Onde estão as mulheres do quadrinho nacional?

No começo do ano, o site Toró de Ideia divulgou o resultado de uma pesquisa sobre o Quadrinho Nacional e o seguinte depoimento de uma leitora me chamou bastante atenção:

Eu gosto dos artistas nacionais, principalmente o Laerte, os irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá, o Willian Leite, Mário Cau e Carlos Ruas, quase sempre leio eles online, mas já comprei livros. Eu me pergunto onde estão as mulheres dos HQs nacionais? Eu acompanho muito as latinoamericanas e espanholas autoras de P8ladas, Ana Bélen Rivero, Monstruo Espagueti, “Diário de una volátil by Augustina Guerro, Let´s Pacheco e Moderna de Pueblo. Eu preferia importar o trabalho dessas artistas (livros e produtos) do que comprar os nacionais pela qualidade e pelos temas das histórias

Agora responde pra mim, rapidinho, quantas destas meninas do quadrinho nacional você conhece?

Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3
Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3

Pois bem. De 2012 pra cá, nós tivemos um aumento significativo de mulheres cis e trans produzindo tiras, web comics, zines e quadrinhos impressos com os mais variados temas. Assim como na gringa, aqui no Brasil mulheres estão desenhando, escrevendo, colorindo, letrando, organizando eventos de quadrinhos e ocupando cargos de direção em editoras.

Garotas incríveis como Beatriz Lopes, Gabi LoveLove6, Sirlanney, Laura Athayde, Débora Santos, Dharilya Sales, Luiza de Souza, Renata Nolasco, Lila Cruz, Thays Koshino e Mariana Paraizo, são apenas alguns das muitas brasileiras que encontram nas publicações independentes uma forma de contar suas histórias. Coletivos como Mandíbula, Zinas, Whatever 21, Foca no Rolê, Studio Seasons e Selo Pequi são exemplos de como o apoio mútuo entre mulheres fortalece o surgimento de novas publicações impressas e digitais.

_MG_5052pequeno
Alguns dos quadrinhos e zines feitos pelas mulheres citadas acima

Mesmo com produções de qualidade, poucas autoras figuram nas listas de melhores do mês-ano de sites especializados em HQ´s. Um número menor ainda aparece em coletâneas de quadrinhos, e só 13% dos indicados ao HQ Mix (uma das maiores premiações nacionais de quadrinhos) do ano passado eram mulheres, como vocês podem ler aqui e aqui. Mas por que isso acontece?

Se a gente voltar um pouquinho no tempo, vamos perceber que a história da arte (e da humanidade) enaltece os feitos dos homens enquanto criadores e delega à mulher o papel de musa, de companheira, de amante e de mãe. As que fogem a esse padrão são pouco conhecidas e precisam desafiar as imposições de suas épocas, além dos ambientes predominantemente masculino, para se tornar conhecidas pelo público. 

Nos quadrinhos não é diferente. Durante muitos anos Nair de Teffe, uma caricaturistas do início do século XX considerada importante para a narrativa gráfica brasileira, assinou seus trabalhos como Rian. Emy Acosta, desenhista da Mauricio de Souza Produções desde a década de 70 é responsável pelo formato arredondado da Turma da Mônica, mas só em 2015 os autores passaram a ser creditados.

Estranho né?

Antes de escrever este post, eu estava lendo  “As Mulheres nas Histórias em Quadrinhos” da Karina Goto, o que me permitiu voltar a refletir sobre o lugar comum permissível às quadrinistas. Explico. Ainda existe um pensamento dominante de que quadrinhos são produzidos apenas por homens e para homens e isso fica claro quando observamos a quantidade de quadrinhos feitos por homens presentes em editoras, em coletâneas, nas livrarias, na sua prateleira, no vlog que você assiste, nos sites que você lê e nas reações do público nas feiras de impresso. Já vi pessoas ficar empolgadas ao conhecer autoras, mas também já vi caras ignorando meninas em mesas mistas de artists alley. Isso só reforça a teoria de que mesmo que mulheres façam Hq´s de terror, de comédia, espaciais, eróticas, autobiográficas… estas produções serão consideradas fofas. Como afirma Fernanda Nia, na monografia da Karina: “Por mais que você trate de um tema profundo ou faça um material de qualidade, se suas cores forem claras e a personagem for feminina, o quadrinho já é tachado como “de mulher” e vai pro submundo onde a crítica nem chega perto.”

Enquanto permanecem invisíveis à mídia brasileira especializada em quadrinhos, muitas autoras são ridicularizadas por “caras engraçados” que decidem fazer piada com o traço, a mensagem, ou com a imagem das quadrinistas. Mesmo assim elas seguem publicando seus trabalhos na internet; Montando suas banquinhas em feiras de impressos por todo o Brasil; Sendo convidados de grandes eventos como FIQ, Comic Con e etc. inspirando outras mulheres a ler e fazer quadrinhos.

Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.
Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.

Nos próximos posts aqui no Collant sem Decote vamos continuar nossa conversa e tentar entender qual o lugar da mulher no quadrinho nacional, assim como espero apresentar pra vocês, trabalhos de autoras tão incríveis como estes da foto, permitindo que elas sejam reconhecidas pela qualidade do seu material, independente do gênero que elas escolheram pra contar suas histórias.

E se você gosta de artistas nacionais, mas não reconheceu as garotas da ilustração que abriu esse post, dá uma pesquisada nesses nomes:

1 ) Garota Siririca – Lovelove6

2 ) IlustraLu – Luiza de Souza

3 ) Vannila Tree – Brendda Costa Lima

4 ) DesalineadaAline Lemos

5 ) Gata Garota – Fefê Torquato

6 ) ManzannaAnna Mancini

7 ) Laços – Lu Cafaggi

8 ) Glitter Galaxia – Bárbara Malagoli

9 ) BlearghTombo Bê

10 ) Bear – Bianca Pinheiro

11 ) MarioneteMariana Sales de Clementino

12 ) Chiqsland – Fabiane BL Chiq

13 ) Cynthia B. – Cyn Neves

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *