Valquíria é bissexual, mas Thor: Ragnarok não te diz isso

Eu já começo esse texto com um tom de irritação, como vocês podem perceber. O bom e velho desapontada, porém não surpresa.

Tessa Thompson, atriz da Valquíria em Thor: Ragnarok, declarou no twitter que sua personagem era bissexual no filme, assim como no quadrinho. Eu não li nenhum dos quadrinhos de Thor e fui pega de surpresa, então quando finalmente fui assistir ao filme, fiquei de olho em qualquer coisa que pudesse indicar a sexualidade da personagem. Como uma pessoa que está exausta de procurar detalhes que indiquem qualquer tipo de representação LGBT+ na mídia, eu estava preparada para pegar os detalhes, e depois falar sobre como isso não é o suficiente, porque não é.

Há apenas uma cena, em certo momento, que se você tiver boa vontade, pode imaginar que talvez indique que Valquíria tinha um relacionamento com outra mulher. São segundos e, como eu disse, exige boa vontade, porque podia simplesmente não ser nada.

Há algum tempo, li essa entrevista da Tessa Thompson falando mais sobre o assunto. A atriz diz que falou com o diretor, Taika Waititi, sobre a personagem ser bissexual e eles fizeram uma cena em que, em certo momento, dava para ver uma mulher saindo do quarto de Valquíria, que daria a entender que elas tinham passado a noite juntas. Waititi manteve a cena o máximo que pode, mas eventualmente teve que cortar porque “distrairia o público da revelação vital naquela cena”.

Eu me pergunto como alguns segundos de uma mulher saindo do quarto de Valquíria atrapalharia qualquer coisa no filme. Alguns momentos que seriam o suficiente para nos fazer entender que a personagem é LGBT+, o que seria ótimo, considerando que a Valquíria é uma personagem com um arco interessante e que de várias formas foge de estereótipos.

Não conheço todo o trabalho de Waititi, mas dou o benefício da dúvida. Por outra matérias que li dele, imagino que o diretor de fato tentou manter a cena, mas considerando que estamos falando da Marvel, que ainda precisa caminhar muito no ponto de vista de diversidade, não me surpreenderia que ordens de cima tivessem cortado essa cena. Nós simplesmente não podemos ter coisas legais.

Esse episódio é apenas um dos inúmeros exemplos de como a representatividade LGBT+ é vista, como algo que não precisa ser falado e, se precisa, que seja por algo fora do produto em si, ou com um subtexto que deixa aberto à interpretações. Não ia atrapalhar em nada essa, ou outra cena, que mostrasse a sexualidade de Valquíria. Nós raramente temos uma personagem bissexual com tanto destaque, em uma franquia grande como essa. O fato de que é algo que podia ser resolvido de forma simples é o que acaba me incomodando mais.

Sim, a cena que Valquíria estende a mão para a companheira de batalha, para mim, indicava que elas eram amantes de alguma forma. Em parte por como a cena foi construída, mas também porque eu estava procurando qualquer indício para ver a sexualidade da personagem. Mas isso sou eu, pessoa que não só está treinada para procurar essas coisas, mas também que está cansada de ter que fazer isso. Para o resto do público, seria muito mais interessante se eles deixassem esse fato exposto de forma mais óbvia.

Eu não culpo ninguém especificamente por essa decisão, qualquer pessoa que tenha algum contato com área de entretenimento sabe que, se alguém acima de você diz não, é não. Também não posso medir o quanto Waititi poderia ter interferido nessa questão, o fato dele ter topado ouvir Thompson me parece um bom sinal, mas infelizmente não vimos isso no corte final. Personagens LGBT+ precisam ter a mesma chance de expressar sua sexualidade na mídia como pessoas hétero têm por tantos anos.

Nada disso muda o fato de Valquíria ser, além de uma personagem incrível, uma mulher bissexual, e eu vou fazer questão de não deixar ninguém esquecer, ainda mais quando a atriz fala de forma tão abertamente e feliz sobre isso. Mas é Marvel, vocês perderam a chance de fazer algo muito legal. Era simples e fácil, mas o conservadorismo ainda falou mais alto.

Dois Pontos Positivos e Cinco Pontos Negativos da 2ª Temporada de Stranger Things.

[Todos os spoilers da segunda temporada!!]

Quando a segunda temporada de Stranger Things estreou eu estava receosa não só em assistir, mas também com o que eu ia achar da série. Essa sensação vem do fato de eu ter sido uma das poucas pessoas que eu conheço que não morreu de amores pela primeira temporada. Para mim, a série apresentava diversos buracos de roteiro, faltava substância para tanta referência, reforçava padrões de gênero negativos. Tudo isso podia ser resumido em um único problema: saudosismo demais prejudicou personagens e estrutura da história.

Infelizmente, e apesar de melhorar em alguns poucos pontos, a segunda temporada de Stranger Things sofre dos mesmos problemas da primeira, mas sem tantos elementos “cool” para disfarçar o estrago. Para simplificar as minhas críticas à série, eu resolvi pontuar 5 dos principais problemas e, honestamente, as duas únicas coisas positivas que eu vi na série. Vou começar pelos negativos para pelo menos terminar este texto numa nota positiva.

PONTOS NEGATIVOS

1) Falta substância, falta backstory – falta lore.

O combo Cidade Pequena + Laboratório Militar Secreto + Grande Mistério é uma construção clássica da ficção científica e está muito presente entre diversos filmes da década de 80/90. O imaginário americano sempre gostou de uma teoria da conspiração, seja sobre o assassinado de JFK, seja sobre o pouso do OVNI em Roswell. Tudo isso é ótimo e pode render histórias fantásticas, mas para isso acontecer é preciso construir o mistério – só o combo não se sustenta sozinho.

Uma das coisas mais importantes ao criar uma trama de mistério é não trair o espectador, ou seja, o público e os personagens podem não saber qual é o mistério – mas o criador da história precisa. Se o universo é construído em cima de alicerces fracos (referências, saudosismo e elementos superficialmente “cool”/legais), e se não se entrega qualquer tipo de informação sobre a história por trás do mistério, então o espectador provavelmente vai se sentir traído. Esse é um problema que eu observo em Stranger Things desde a primeira temporada, mas que lá ficou melhor disfarçado por causa do hype e das muitas referências facilmente reconhecíveis.

Do meu ponto de vista, existem dois tipos de possibilidades para a série e seu grande mistério: algo como Fringe (2008), em que a ciência é parte importante para o entendimento do mistério e do universo paralelo, ou como Arquivo X, onde o mistério se estende por longas (e nem sempre tão boas) temporadas, mas sempre entrega elementos substanciais para que o espectador não se sinta traído. Essa sensação vem do fato dos criadores da história saberem ao menos minimamente qual é o grande mistério por trás da sua trama e irem entregando periodicamente pequenas pistas. Um exemplo negativo, e do qual Stranger Things parece estar bem longe, é LOST, quando o excesso de informação sem resultado real acaba fazendo o espectador se sentir traído – os showrunners iam jogando mistérios sem saber qual seria a resolução final deles, e algumas vezes sem nunca realmente fechá-los.

Mesmo sem ser LOST, Stranger Things parece perdido num vazio de substância, tentando buscar significado em referências. A gente não sabe o que é o mostro gigante, mas sabemos que é algo como Cthulhu porque Dustin nos mostra em um livro. Toda a “ciência” por trás do laboratório secreto se resume a uma mesa de botões com luzes piscantes e lança-chamas. Além disso a série cria regras do universo apenas para quebrá-las no próximo episódio. Um exemplo disso é D’Art, o demogorgon-pet do Dustin: numa cena aprendemos que ele não aguenta a luz direta, na outra ele está caminhando em plena luz do sol apenas para, mais tarde, outra pessoa nos dizer que os demogorgons só saem durante a noite. Falta consistência, e falta consistência porque falta conteúdo.

A série deixa muitas perguntas em aberto e, por entregar tão pouco e de maneira tão vazia, deixa a sensação de que nem mesmo os showrunners sabem o que realmente é esse outro lado. Eu sei que muitas perguntas devem ser interpretadas através de metáforas e simbologia, mas quando não há conteúdo o suficiente, o que fica no lugar é um vazio de significado.

2) O laboratório secreto que não sabe o que a palavra SECRETO significa.

Tem câmera de segurança, mas não faz uma revista na bolsa da Nancy.

Este é um problema que é consequência do primeiro tópico. Se não há conteúdo o suficiente para preencher o universo, ficamos com uma casca, um esqueleto vazio de significado e sentido.

Na primeira temporada, o laboratório secreto já se mostrou muito pouco eficiente: Joyce e Hopper entraram escondidos nele com a mesma facilidade com que eu passo pelo portão do meu prédio. Não apareceu um guardinha para perguntar o que eles faziam ali e as câmeras de segurança só os encontraram quando era relevante para a trama. Na segunda temporada, lembrando da falha de segurança que eles tiveram no ano anterior, espera-se que o pessoal do laboratório tenha melhorado nessa coisa de ser um “laboratório secreto”. Mas não.

Nancy, uma garota de 16 anos, consegue se infiltrar lá dentro com um plano simples e relativamente esperto: ela usa um telefone grampeado para marcar um encontro com uma pessoa importante, para quem ela quer revelar informações confidenciais. Já dentro do laboratório, Nancy grava toda a confissão de culpa do responsável pelo local com seu gravador de voz GIGANTE. Não é um daqueles pequenininhos que cabe no bolso, não é um celular porque são os anos 80, é um gravador do tamanho de walkman.

Eu sei que é a década de 80, e que os sistemas de segurança não eram tão avançados como os de hoje em dia, mas uma simples revista nos pertences da adolescente que eles levaram presa porque queria revelar informações sigilosas e extremamente prejudiciais já teria resolvido o problema. A série martela no medo do governo e da população norte-americana dos russos descobrirem segredos de estado, inclusive falando isso para Nancy, mas não se preocupa em olhar dentro da mochila dessa garota tão esperta. Ninguém leu um livro da Nancy Drew quando criança?

Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que a equipe deste laboratório está em último lugar no ranking de excelência dentro da agência secreta da qual fazem parte. Eles nunca serão a filial do mês.

3) Padrões e Representação Feminina.

Não tem nada mais empoderador do que maquiagem escura e a palavra “bitchin”.

Na primeira temporada Nancy parecia caminhar para um lugar reservado à Buffy Summers: uma garota “normal” que é forçada a um lugar de ação pelas circunstâncias sobrenaturais a sua volta. Ela perdeu a amiga, ela se sente culpada e vai passar por cima de todos que estão no seu caminho para reencontrar Barbs – mesmo que uma dessas pessoas seja o seu boy magia. Ao final da temporada Nancy termina em casa, com o boy que não é tão magia assim, namorando no sofá. Não é que eu queria que ela terminasse com Jonathan creepy-com-uma-câmara, é que eu esperava mais para ela. Veio a segunda temporada e, novamente, o que poderia ser um arco muito legal sobre uma garota procurando justiça para a amiga se tornou pano de fundo para um romance. Sai Steve, entra Justin. Ao final da temporada, quando Nancy decide deixar Mike para trás para ficar ao lado de Jonathan, os criadores jogaram o drama pessoal de Nancy (não estar presente para possivelmente ajudar a amiga) pela janela. Tendo passado por tudo que ela passou, faria muito mais sentido se ela tivesse ficado ao lado do irmão, ganhando a chance de se auto-redimir. Mas não, porque o que toda garota quer é um boy. Ou pelo menos é isso que a série diz.

Nancy tem Jonathan. Eleven/Jane tem Mike. Joyce tem Bob (e Hopper). Max tem Lucas. Faz sentido que Joyce, vivendo o que ela acredita ser um momento de calmaria na família, tenha encontrado amor. E é ótimo que ela tenha feito isso com um cara realmente legal como Bob. Mas ele não passa de um instrumento de roteiro para que nós tenhamos em Joyce, novamente, o modelo de mulher que pode tudo. Ela não só precisa salvar o filho do controle mental da criatura gigante, ela quer se vingar pelo homem que perdeu. Mas está tudo bem, porque ela tem Hopper ao seu lado. E eu quero acreditar que o relacionamento dos dois nunca vai passar de uma amizade verdadeira, mas a série me faz cada vez mais acreditar que eles estão caminhando os personagens para um romance.

Max é a personagem feminina mais legal dessa nova temporada. Ela anda de skate, joga videogame, não admite ser tratada com desprezo e sabe mostrar interesse por quem trata ela legal: Lucas. Esse relacionamento é, provavelmente, o relacionamento melhor construído da série inteira. E isso provavelmente acontece porque há verdade nas emoções infantis/jovens dos dois personagens. Infelizmente, esse romance também ficou marcado com o triste episódio em que a atriz foi obrigada a fazer uma cena de beijo que não estava acordada antes. E fizeram isso exatamente porque ela ficou desconfortável com a ideia da cena. Mais uma vez homens poderosos tomando decisões para coagir mulheres, só que desta vez coagir uma criança.

Max e Eleven/Jane são um dos pontos mais decepcionantes da série, porque ela parte do princípio de que duas mulheres sempre vão disputar de alguma maneira o espaço dentro de um grupo de homens. Eleven tem automaticamente uma rivalidade contra Max por vê-la conversando com Mike, uma rivalidade que é representada através de violência. Ao conhecer Eleven, Max tenta ser amigável, mas é recebida com rancor. Eu consigo entender que Eleven vinha se sentido excluída do grupo, e que o sentimento de ter sido substituída faria sentido, mas esse rancor é direcionado apenas à Max, a única outra menina do grupo. É só bastante frustrante ver, novamente, um dos tantos estereótipos negativos (e muito oitentista) sobre relacionamentos femininos.

Eleven/Jane sempre foi um ponto forte de discórdia entre eu e o resto da internet. Por mais legal que ela seja na primeira temporada, ao meu ver, ela não passa de uma personagem feminina forte: muito cool, pouca substância. E não é porque ela não tem elementos que podiam ser bem trabalhados, mas porque a série opta por mantê-la dentro do padrão “ela é nossa amiga e ela é louca”.

Na segunda temporada, nós vemos uma tentativa de desenvolver a personagem, com um episódio inteiro dedicado a desvendar o passado de Eleven/Jane. Infelizmente, é um episódio que, apesar de ter Cali e abrir um mundo de possibilidades para as duas irmãs, peca ao criar uma estrutura fraca e ao novamente subjugar Eleven/Jane aos padrões de feminilidade. Mais uma vez a personagem passa por um extreme makeover, só que desta vez ao invés da visão tradicional de menininha (peruca loira e o vestido rosa) entra o visual dark/punk, com gel no cabelo, maquiagem preta nos olhos e atitude “bitchy”.

A adultização da atriz Millie Bobbie Brown vem sendo tema de discussão nas últimas semanas, mas é importante notar que isso também acontece na série. Não só pela escolha do novo “look” da personagem, mas também ao modo como as emoções dela e de Mike são representadas. Isso, no entanto, já cabe dentro do nosso próximo tópico.

4) Crianças que não agem como crianças.

Mike, Eleven/Jane, Dustin, Lucas e Max estão naquele momento entre a infância e a adolescência, um lugar confuso e cheio de sentimentos e emoções que são muito particulares a este período. A primeira temporada da série tentou mostrar que eles, como um grupo, são capazes de funcionar melhor do que os adultos – e até certo ponto isso aconteceu principalmente por eles serem crianças e acreditarem no impossível (porquê eu acho que não funcionou até o final é assunto para outro texto). Na segunda temporada, no entanto, já está estabelecido para os adultos que o outro lado existe, é perigoso e pode matar. Seria de se esperar que os adultos em Stranger Things estivessem mais conscientes dos perigos e mais propensos a manter as crianças afastadas deles. Ledo engano.

A série, e os personagens adultos, parecem esquecer que as crianças são crianças e que os adolescentes são adolescentes. Joyce nem pestaneja ao levar os dois para tentar salvar Hopper das raízes/veias. Joyce e Hopper em momento nenhum pensam em desviar a rota um pouquinho e deixar Mike na casa dos pais deles antes de irem para o laboratório com Will. Não que os pais de Mike e Nancy se importem, já que é piada interna da série eles não saberem onde os filhos estão (o que, pensando na mãe dos dois na primeira temporada, não faz o menor sentido). Ninguém tenta manter as crianças realmente seguras e afastadas do perigo, pelo contrário, elas pegam na mão delas e correm em direção a ele. Eu sei que eles são, no fim, da onde sai grande parte do pseudo conhecimento do outro lado, mas a real é que eles são crianças. Dadas as circunstâncias era de se esperar que alguém se lembraria disso.

Mas a própria narrativa da série não se lembra, porque constrói em Mike e Eleven/Jane um relacionamento que possui sentimentos adultos, não infantis. Não vou mentir, já na primeira temporada eu achei o romance dos dois forçados. Eu sei que o primeiro amor pode ser algo forte, sei toda a carga dramática que existe depois do final da primeira temporada, mas nada no relacionamento desses dois pré-adolescentes diz “pré-adolescentes”. E por mais que eles tenham passado por um momento de crescimento rápido dadas às circunstâncias, ainda assim o arco dos dois, e também os personagens separados, acabam soando como adultos. Que tipo de garoto de 13 anos diz “Eu não quero te perder de novo?” para a namoradinha? Não é uma questão só de palavras, é uma questão de como esse relacionamento foi construído. E eu sei que Eleven/Jane passou por tudo que passou, mas faria mais sentido ver no relacionamento dos dois um comportamento ainda assim mais leve, mesmo que frente as adversidades que enfrentam.

Essa adultização não vem só dos adultos verem os dois como outros adultos, ou das roupas da Eleven/Jane, mas do modo como os sentimentos deles são apresentados na tela. Sim, Eleven é infantil ao ter ciúmes de Max, mas os dois conversam como um casal de adultos. Se colocarmos a relação de Mike e Eleven ao lado da relação de Lucas e Max, a diferença fica ainda mais gritante. Além disso, quando Eleven chora pela mãe, novamente me chamou atenção o modo como a garota chora – do mesmo modo que você esperaria uma mulher adulta chorar. Parece que ao tentar criar dois protagonistas consistentes, a equipe criativa da série esqueceu-se que esses são os protagonistas infantis, que por mais adversidades que eles tenham enfrentados, eles ainda têm apenas 12-13 anos.

5) Os adultos que a série não sabe que são creepies.

Completamente normal e engraçadinho esse creepy.

Logo no primeiro episódio me chamou atenção o modo como Hopper entra em casa, tira o cinto e o coloca sobre a mesa. Sabendo que há uma garota de 13 anos dentro daquela casa, eu não consegui não olhar aquilo com um olhar desconfiado. Eu sei que a série quer me dizer que Hopper está em casa, mesmo que aquela não seja a casa que nós vimos na primeira temporada. E eu sei que Hopper é um dos heróis da série, então ele não vai fazer nada de mal à Eleven/Jane, mas é uma questão de imagem e de simbolismo.

Hopper está tentando ser uma figura paterna para Eleven, um trabalho que não é fácil mesmo quando sua filha não tem superpoderes e não passou os primeiros dez anos de sua vida presa dentro de um laboratório. É de se esperar que seja um processo de adaptação difícil, principalmente se você acredita que a segurança dela está diretamente ligada ao confinamento dela. Mas, quando a série coloca Hopper e Eleven em conflito, ele assume um comportamento agressivo e violento, chegando a esmurrar a porta do quarto da menina. É de se esperar que Eleven se exalte e use seus poderes, porque ela se sente presa e com o comportamento de Hopper provavelmente se sente acuada e com medo. Toda a imagem que essa cena apresenta é de um homem sendo violento e abusivo com Eleven, um paralelo exato (e que a própria Eleven faz mais tarde, mas que a série não discute com profundidade) com o Papa. E por mais que a série esteja tentando me dizer que é apenas um homem tentando ser pai e uma garota tentando ser filha, que é uma briga normal, que é parte importante para que os dois encontrem o meio do caminho ideal para o relacionamento deles, o que a cena me mostra é um adulto gritando e esmurrando a porta de uma garota de 13 anos. Contar uma história não é apenas sobre o que você quer dizer, mas é sobre como você diz.

O outro homem adulto da série que ultrapassa todas as linhas de “creep alert” é Murray Batman, o “detetive” para quem Nancy e Jonathan entregam a gravação. A primeira imagem dele já é a descrição perfeita de um homem creepy: roupão aberto, óculos escuros que mora num buraco com uma alcova secreta. Não contente com tudo isso, ele ainda oferece vodca para menores de idade. Só isso já seria o suficiente para assustar qualquer um, mas, além disso, ele decide ter uma conversa extremamente desconfortável, invasiva e bizarra sobre a vida amorosa e sexual de Nancy e Jonathan – tanto antes, como depois deles passarem a noite juntos. A série sabe que este é um comportamento estranho e inapropriado para um homem adulto em relação a dois adolescentes? Eu acho que não, até porque todo este cenário é construído para tirar risadas, mesmo que nervosas, do espectador. Para terminar, ele ainda presenteia o casal com uma garrafa de vodca. Ah, os anos 80, essa década maravilhosa. (Altas doses de ironia)

Mas nem só de homens com comportamentos perturbadores vive a série, falemos de Karen Wheeler, mãe de Mike e Nancy. Não basta ter sua personagem reduzida consideravelmente ao papel de mãe relapsa que bebe vinho na banheira, o único momento de personagem que ela possui nos nove episódios é ao responder positivamente aos avanços românticos de um menor de idade. Não interessa o quão cretino Billy seja, ele ainda é um adolescente menor de idade. Ele pode ter uma visão perturbada do mundo onde ficar com uma mulher adulta seria maravilhoso, mas Karen não podia responder daquela maneira. Ela já é retratada como uma mulher que recebe pouca ou nenhuma atenção do marido, como uma mãe desinteressada padrão, aí quando vemos ela com sua sexualidade ativa, está direcionada a um menor de idade. Esse tipo de história sustenta o mito de que o garoto amadurece sexualmente mais rápido do que a garota, já que ele está apto a te rum relacionamento sexual com uma mulher adulta. Isso não só sexualiza um adolescente através de um olhar adulto, mas também ignora toda a carga emocional e a relação de poder dentro de um relacionamento entre um adulto e um adolescente, independente dessa relação ser entre um homem e uma garota, ou entre uma mulher e um garoto. Novamente, a série não parece querer discutir isso, já que a cena também é criada para tirar risos do espectador e, mais uma vez, Stranger Things cai no erro por causa do saudosismo, já que até há alguns anos atrás esse tipo de relação era vista como normal.

PONTOS POSITIVOS

1) Steve e as crianças.

Farrah Fawcett.

Steve Harrington, um dos personagens que eu mais detestei da primeira temporada, chegou na segunda para me surpreender. Ele não só é um dos poucos (senão o único) personagem com um arco de desenvolvimento claro e bem estruturado, como também se tornou parte central de um dos elementos mais importantes da trama: as crianças.

Steve começa a temporada tentando fugir de tudo que aconteceu na primeira temporada, ele não quer apenas tentar esquecer o que aconteceu com Barbs – ele quer esquecer tudo e viver uma vida normal. Mas, assim como deveria ser, Steve mora em Hawkins e logo que a história começa a se desenvolver, ele se vê ajudando Dustin, protegendo as outras crianças e tendo que lidar não com um demogorgon como na primeira temporada, mas com múltiplos (quando você ignora seus problemas, eles tendem a acumular). É um arco tão redondinho e tão bem construído que quase não parece acontecer em Stranger Things. Me perdoem, eu estou um pouco amargurada com a série.

Não é que tudo é mil maravilhas com Steve, não. Ele perdeu o seu lugar como “garoto legal” no colégio e, apesar de não parecer preocupado com isso, ainda carrega em si muito da masculinidade tóxica da primeira temporada (deixa a namorada bêbada na festa para outro cara levar para casa, fica colocando na cabeça de Dustin conceitos bizarros sobre o que as garotas querem, etc.). Mas é através do laço que forma com Dustin que ele vai aos poucos se redimindo e se tornando um personagem muito melhor do que na primeira temporada.

Ao tentar ajudar Dustin e ao se tornar responsável pela segurança do grupo de crianças, Steve se torna a única pessoa na série que vê as crianças como o que elas são: crianças. E o relacionamento entre eles funciona tão bem exatamente porque Steve caminha entre ser condescendente (como todo adolescente é quando fala com crianças), protetor e, ao mesmo tempo, tratá-los como iguais. Mas não é uma equidade que faz com que eles também sejam adultos – algo que nem Steve é – mas que faz os laços de amizade e respeito diminuírem o gap geracional que existe entre eles.

2) Max e Lucas.

Se eu tenho todos os problemas do mundo com Mike e Eleven/Jane, eu não poderia estar mais feliz com Max. Além dos atores serem incríveis, o elo que vai se formando entre os dois personagens, um elo de amizade e romance, é compatível com dois pré-adolescentes. Eles falam sobre morte e sobre o perigo da maneira que crianças falariam, eles se aproximam de maneira natural e encontram um no outro um lugar de tranquilidade – sem o peso descomunal de um diálogo adulto.

Lucas quer muito que Max faça parte do grupo, porque ele quer alguém com quem se conectar de verdade e porque ele obviamente desenvolveu um crush pela menina quando a viu andando de skate e jogando videogame. Por mais que isso seja também um estereótipo, eles são crianças, essa visão idealizada faz sentido para ele e logo em seguida é quebrada porque Lucas percebe que Max é mais do que “a garota legal”. A cena em que a família de Lucas está sentada na mesa e ele pergunta ao pai o que fazer é importantíssima, porque a mensagem que fica é que honestidade é sempre o melhor caminho num relacionamento.

Max vem de uma família no mínimo problemática, as únicas referências masculinas que ela tem presentes no seu dia-a-dia são violentas. Em Lucas ela encontra não só um amigo que conversa com ela em pé de igualdade, mas alguém que assim que a encontra, quer lhe acolher. Claro que ela vai ver nele uma figura positiva – porque ele é.

O relacionamento dos dois é natural e soa verossímil porque, apesar de lidar com todos esses temas pesados, (a morte eminente, a família violenta, o possível racismo do meio-irmão de Max, o monstro de outra dimensão querendo destruir tudo) faz isso através da ótica de duas crianças. Diferente de Eleven/Jane e Mike, o relacionamento de Max e Lucas não soa como a história contada do ponto de vista de um adulto, soa como duas crianças se conhecendo, encontrando a amizade e aprendendo sobre amor. E não tem nada mais oitentista do que isso.

Considerações Finais

Eu espero, do fundo do meu coração, que para a terceira temporada, os produtores da série tenham conteúdo o suficiente para apresentar um universo mais coeso e com mais substância. Stranger Things é uma série que me frustra exatamente por ter tanto potencial, mas entregar muito pouco. O pequeno comentário sobre as críticas que a primeira temporada sofreu, feito através de Max ao comentar a história que Lucas lhe conta, mostra que talvez os criadores ainda não estejam preparados para encarar críticas como algo construtivo. Mas fica a esperança.

Para a terceira temporada seria incrível ver mais sobre o outro lado, sobre o monstro gigante e sobre os personagens – que ao meu ver ficaram com o desenvolvimento meio sucateado nesta temporada. Também seria incrível ver a Eleven/Jane romper as amarras de feminilidade nas quais insistem em prendê-la. Ia ser formidável ter um laboratório militar secreto que realmente fosse ameaçador e com sistemas de segurança contundentes. Mas, acima de tudo, seria maravilhoso ver a equipe criativa da série entender que é possível fazer uma homenagem à década de 80 sem cair nos mesmos padrões e estereótipos negativos que foram tão difundidos naquela época.

Até mais! 😉

Thor: Ragnarok | Crítica

Havia uma boa expectativa para esse novo Thor. Taika Waititi é um bom diretor, os trailers estavam agradando aos fãs, o filme parecia que ia abraçar a comédia e, até certo ponto, o brega. Independente de gosto pessoal, é uma fórmula que boa parte dos fãs da Marvel tem gostado cada vez mais.

Thor está tentando impedir o Ragnarok. Depois que descobre que Loki está no lugar de Odin, ele e o irmão vão até a Terra buscar o pai. O problema é que Hela, a deusa da morte e filha mais velha de Odin, aparece. Agora Thor e Loki terão que impedí-la de tomar Asgard e destruir todo o seu povo. Essa crítica não tem spoilers.

O tema que as pessoas mais tem falado é o quão engraçado o filme é. Todo mundo sabe que a Marvel sempre puxa o humor, além de que todo mundo já deveria saber que piadas e humor não faz um filme bom ou ruim. No caso de Thor, especificamente, o humor sempre ajudou. O segundo filme é o que puxou mais para o lado do sério e também o que menos funcionou. Um dos grandes acertos de Thor: Ragnarok é abraçar esse aspecto de não se levar a sério demais.

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Mindhunter | Primeira Temporada

Mindhunter é uma série nova da Netflix que tem dado o que falar. Baseado em alguns relatos e pessoas reais, David Fincher já anunciou que quer fazer cinco temporadas da série. Nela, acompanhamos Holden Ford (Jonathan Groff), um agente do FBI que estuda Ciência Comportamental. Ele se junta a Bill Tench (Holt McCallany) e começa a entrevistar assassinos para tentar entender a mente deles e, se possível, ajudar as investigações futuras.

Assisti tudo no melhor estilo de maratonar série, um episódio atrás do outro e depois precisei tirar alguns minutos para pensar no que tinha assistido. Eu gosto do trabalho do David Fincher, adoro Seven, mas há outros trabalhos dele que não me pegam, como é o caso de Zodíaco, que não aguento (polêmica). Mindhunter teve momentos que me prenderam muito e outros que pensei “é isso do Fincher que eu não gosto”.

Eu já considero mérito uma obra audiovisual que me faz pensar além da história apresentada, nesse ponto Mindhunter acerta bastante. Assim como os assassinos vão entrando na pele de Holden aos poucos, inúmeros questionamentos começam a aparecer nas nossas cabeças enquanto assistimos.

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Como as fanfics me ajudaram a escrever melhor

Eu sei o que você pode estar pensando. Quando pensamos nesse assunto, o automático é que nossa mente vá para Cinquenta Tons de Cinza, um livro que acho que todos nós podemos concordar que é bem ruim. Para quem não sabe, a história veio de uma fanfic de Crepúsculo.

Por esse e outros motivos, criou-se essa imagem de que fanfics são sempre ruins, mal escritas e de pouca qualidade. Não que não existam fanfics ruins, todo mundo aí que já gastou madrugadas no AO3, procurando histórias do seu ship preferido, já encontrou histórias que dá vontade de desver. Mas a coisa legal do mundo das fanfics é que é todo um espaço mágico, com espaço para histórias ruins e, veja só, outras que de fato são boas.

Se você é, assim como eu, uma pessoa que de vez em quando passa um tempo caçando fanfic, você provavelmente já se deparou com uma história boa de verdade. Não só os fatos são bem colocados, mas a própria escrita em si era bem feita. Sim, elas existem, dá uma chance para o seu fandom e eu garanto que você vai achar alguma que vale a pena.

Piadas na internet a parte, e eu gosto sim de brincadeiras com fanfics, essa parte do fandom e a prática de escrever essas histórias podem ajudar futuros escritores mais do que você pensa. Pelo menos para mim eu sei que ajudou. Hoje eu estou trabalhando em um projeto original meu e, quando tudo der certo, eu vou saber que parte disso é porque eu pratiquei por algum tempo com as tais das fanfics.

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BGS 2017: Lista de games para jogar e se divertir na #BGS10

Semana de Brasil Game Show na Expo Center Norte em São Paulo e, nós, do time Collant estamos cobrindo as novidades de games e de desenvolvimento indie no Brasil que estão acontecendo pelo evento — além do Guardiãs na Pipoca ao vivo na BGS nos próximos dias. Por isso, tivemos o privilégio de visitar alguns stands no dia da imprensa (quarta-feira) e fazer uma lista de jogos de triple AAA famosinhos para prestar atenção esse ano na BGS.

Uncharted: The Lost LegacyPoster de Uncharted com as personagens Chloe Frazer e Nadine Ross

O exclusivo para PS4 está arrasando esse ano com duas personagens femininas E NÃO BRANCAS no papel principal, o que enche meu coraçãozinho de alegria. O cenário principal é a India, onde Chloe Frazer e a mercenária Nadine Ross buscam um artefato lendário para um cliente. Ao longo do jogo, acontecem altas tretas e elas deverão trabalhar juntas para sobreviver a um inimigo em comum.

O jogo já foi lançado em agosto, porém ele está disponível no stand enorme da Playstation para a galera que ainda não comprou.

Assassin’s Creed Origins

Poster de Assassin's Creed Origins com o fundo temático no Egito Antigo

Prepare-se, porque na Ubisoft está acontecendo uma viagem incrível para o Egito Antigo para conhecer o nascimento da Irmandade dos Assassinos em Assassin’s Creed Origins. Nós jogamos agora com Bayek e conheceremos como a sua jornada por vingança o levará até a Irmandade. Você vai poder vivenciar o modo história com tumbas, pirâmides e o jogo está incrível! O stand está muito bonito e temático, por sinal! <3

Cuphead

Poster de Cuphead com um Boss no fundo e os personagens Cuphead e Mugman à esquerda

A expectativa desde a BGS de 2015 foi saciada com Cuphead finalmente lançado mês passado. Só em outubro, o jogo teve 500 mil unidades vendidas na Steam. Então, se você gosta de referências de cartoons dos anos 30 e jogos desafiantes, você provavelmente vai amar/odiar Cuphead. No game, você é Cuphead – dá pra jogar com o Mugman também no modo multiplayer local – e você faz um pacto com o diabo enquanto apostava num cassino. Para aliviar seu pacto, você terá que caçar todas as almas que puder para o diabo durante as missões.

Você vai poder jogar Cuphead no stand da Xbox, do ladinho do stand da Playstation.

Star Wars: Battlefront II

Poster de Star Wars BattleFront 2

Após o Beta ser lançado para o público – e nem tanta gente assim poder testar no PC, assim como eu -, estávamos esperando jogar Star Wars BattleFront II nos consoles. No stand coletivo da EA + Capcom + WB Games você poderá desfrutar um pouco do que será o próximo jogo da franquia BattleFront.

Destiny 2

Poster de Destiny com três personagens com armas do game à direita

Seguindo a mesma linha de estreias de modos Beta recentemente, o público amou Destiny 2 e seu cenário apocalíptico com várias opções missões e armas novas para jogar com os migos e as migas. Destiny 2 está no mesmo stand de Call of Duty: World War II e você poderá jogar o modo multiplayer no Crisol junto com outros visitantes do evento.

 

Então é isso! Se planeje antes de ir para o evento para jogar e divirta-se! E acompanhem nossos stories no Instagram para mais notícias e novidades da #BGS10.

Star Trek: Discovery | Primeiras Impressões

Star Trek: Discovery é a nova série da franquia, que pode ser encontrada na Netflix. Ao contrário de outras que estão lá, os episódios de Star Trek: Discovery estão sendo lançados aos poucos, então só vai dar para maratonar caso você tenha alguma paciência para esperar todos saírem.

Criada por Brian Fuller e Alex Kurtzman, a história acontece 10 anos antes da série clássica. Os dois primeiros episódios são na verdade uma introdução do que acontecerá ao longo da temporada. Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) é a primeira oficial da capitã Philippa Georgiou (Michelle Yeoh). As duas percebem algo estranho em um cinturão de asteroides próximo de sua localização. Quando Michael vai investigar, ela descobre que acabaram de topar com os Klingons.

Por enquanto, assisti aos três primeiros episódios e vou falar um pouco das minhas primeiras impressões deles, sem spoilers.

Eu não assisti a série clássica, então falo como pessoa de fora do fandom de Star Trek. Para mim, o primeiro mérito é que Discovery consegue abraçar os fãs novos e que sabem pouco da história de Star Trek. Mesmo não sabendo alguns dos termos e informações desse universo, ao longo desses dois primeiros episódios já é possível aproveitar tudo que o roteiro apresenta sem ficar completamente perdido.

STAR TREK: DISCOVERY

Star Trek tinha rendido comentários por ter uma personagem mulher negra como protagonista. Nós não vemos muita diversidade em ficção científica, então Michael foi um dos primeiros motivos que me fez assistir a série. Acredito que, a partir do terceiro episódio, a série perde um pouco a chance de incluir mais representatividade, mas ainda assim é bem satisfatório ver uma tripulação que não é composta por pessoas completamente iguais.

Michael é uma personagem muito interessante. Ela foi criada em Vulcano, então preza a sua frieza e suas ações bem calculadas. Michael tem as melhores intenções, faz o que for preciso para completar sua missão, mas alguns acontecimentos fazem com que ela cometa erros que nem ela mesma esperava. Isso pode parecer incoerente com a personagem apresentada, mas eu particularmente acho muito humano da parte dela. Por mais controlados que sejamos, há sim situações de stress que podem tirar qualquer um do sério. É legal que a série permita que Michael erre e comece a tentar se reerguer, senti que dá mais veracidade para a personagem. Para mim, essa protagonista foi um dos pontos positivos. Os outros personagens são divertidos, mas por enquanto o destaque continua com Michael. Espero que os outros também tenham espaço para crescer e se desenvolverem.

O roteiro funciona, mas em certos momentos me incomoda um pouco. Primeiro pela questão dos flashbacks. Acho que esse é um artifício válido e, em certos momentos, funciona. É interessante saber o passado de Michael, até porque muito disso acaba conversando com as decisões atuais que ela está tomando, então eles têm motivo para estarem ali. O que incomoda é que eles aparecem muito de repente em certos momentos, quase como que quebrando o ritmo que está sendo estabelecido. As coisas pareceram melhores no terceiro episódio, então pode ser que essa sensação vá diminuindo ao longo da série.

Visualmente, Star Trek: Discovery está linda. A cena em que Michael vai até o asteroide é sensacional, mas a série toda merece esse mérito. Os efeitos especiais também estão bons, os episódios conseguem te transportar para a atmosfera de ficção científica com aventuras no espaço que esperamos de uma história como essa. E dá para perceber que há muito ainda a ser contado, principalmente depois do terceiro episódio, que fez meu interesse aumentar.

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Caso você esteja se perguntando se vale a pena ver, a resposta é sim. Você não vai conseguir ver tudo de uma vez, porque mesmo estando no Netflix, como já comentei, os episódios estão sendo liberados aos poucos, o que eu honestamente acho que atrapalha um pouco o ritmo, mas saberemos disso melhor no final. Porém, mesmo assim, é uma série que vale a pena dar uma chance se você for fã desses elementos falados acima.

Eu espero ver algumas coisas nos próximos episódios. Primeiro, quero cada vez mais descobrir e conhecer Michael. Como já disse, ela é uma personagem bem interessante, uma mulher negra, protagonista de uma série de ficção científica que tem espaço para mostrar vários lados da personagem. Mas também quero ver mais de outras pessoas da tripulação, principalmente as interações que a protagonista terá com elas.

Quanto ao roteiro, espero que o ritmo melhore e que os acontecimentos não fiquem com um ar tão repentino como aconteceu algumas vezes nos dois primeiros episódios, ainda mais quando o assunto é flashback. Há coisas bem interessantes sendo apresentadas, vamos ter que esperar para ver como elas serão tratadas.

As primeiras impressões de Star Trek: Discovery são positivas. A série tem sim pontos para melhorar, mas vem com bastante coisa divertida que vale o seu tempo. Não sei se todos os fãs de Star Trek concordam, mas para essa pessoa que conhece pouco do fandom, fiquei feliz e quero ver o que mais vem por aí.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

Mãe! | Crítica

Mãe! é um filme que tem dado o que falar nos últimos tempos. Aparentemente, é impossível sair do cinema sem uma opinião forte, você ama ou odeia. Antes de chegar na minha opinião pessoal, vou procurar fazer a crítica mais objetiva possível. Por enquanto, não vou falar de nenhum spoiler.

De fato é complicado falar sobre o que o filme é sem estragar a experiência, mas basicamente: Jennifer Lawrence, a mãe, (os personagens não têm nome, então vou usar o dos atores algumas vezes) mora nessa casa, no meio do nada, junto com seu marido, Javier Bardem, um poeta que está há algum tempo sem conseguir escrever. Mãe está reconstruindo a casa, que foi queimada e fez o marido perder tudo. Eles aparentemente vivem bem, até que Ed Harris, que é médico, chega na casa e é convidado a ficar lá pelo poeta. Mãe não fica feliz, e as coisas pioram quando a esposa do médico, Michelle Pfeiffer, também chega na casa.

Assim como a mãe, nós estamos perdidos nos inúmeros acontecimentos que vão acontecer ali. A câmera sempre acompanha Jennifer Lawrence, às vezes parado em seu rosto, outras vezes mostrando o que ela está vendo. Um dos grandes pontos positivos do filme é a atuação de Jennifer Lawrence, que coloca a emoção necessária em cada cena, dando movimento inclusive para momentos que são mais longos do que precisariam ser. As atuações como um todo se destacam, por mais que em boa parte do filme você não entenda porque os personagens agem de determinada forma, a atuação é o que faz o passo do filme não se perder.

Por outro lado, os personagens não tem profundidade. Sim, eu sei que há todo um significado por trás da história do filme e da identidade daqueles que estamos vendo, mas em termos de arco do personagem, a maioria deles termina no mesmo ponto em que começaram. Eles não passam de peças para o significado final da obra, o que até funciona, porém não vai além, não vemos mudanças e quando elas parecem que vão acontecer, principalmente com a protagonista, a personagem apenas volta para o ponto de seu arco que estava no começo.

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Escrevendo personagens bissexuais

Há alguns dias eu postei um texto sobre estereótipos que encontramos em personagens bissexuais na cultura pop. Eu terminei concluindo que o problema não é a característica clichê em si, mas como isso pode dar uma representação ruim como um todo, já que muitas vezes é a única que vemos. Personagens que se resumem ao estereótipo não são representações tão interessantes, mas quando isso é uma característica no meio de várias, ou um personagem bissexual no meio de outros, aí a representação pode ser mais positiva.

Isso tudo aqui é o ponto de vista de uma pessoa, então seguir as minhas dicas não significa que nenhuma outra pessoa bissexual no mundo não vai criticar a representação da sua obra. Mas ler sobre o assunto, ouvir as pessoas da minoria em questão e, mais importante, se permitir ouvir críticas e dicas pode ajudar.

Eu entendo que às vezes ouvir críticas não é fácil, principalmente no ponto de vista de representação. Isso é considerado uma característica secundária das obras, então há sim muitos artistas que acham que pensar criticamente sobre isso é “censura” ou “impedir minha arte de ser livre”. Mas assim como estamos dispostos a ouvir dicas sobre narrativa, revisão de texto ou formatação, também precisamos estar dispostos a ouvir quando o assunto é representação.

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Você não precisa ser bissexual para escrever um personagem que é. J. K. Rowling não é um homem, mas o protagonista de sua história mais famosa é o menino que sobreviveu. Se as suas histórias só possuem personagens que tem algo em comum com você, a variedade será muito pequena. Parte do trabalho de escrever é tentar se colocar no lugar do outro, e quanto mais pessoas criarem personagens diversos, melhor! Você não precisa ser da minoria em questão para fazer isso.

Normalmente a primeira coisa que ajuda a fugir dos estereótipos de personagens bissexuais é ter mais de um na sua obra. Cada um deles com sua personalidade, manias e formas de agir diferentes ajuda a mostrar que a sexualidade não é algo que define as pessoas. Basta ver que, uma história que só tem personagens hétero, constrói todos eles de forma diferente um do outro, exatamente porque a sexualidade não define uma pessoa. Dessa forma, se um dos seus personagens bissexuais acabarem caindo em algum clichê, o fato de ter outro que não apresenta a tal característica melhora a representação. Isso acontece em Dragon Age, há personagens bissexuais que podem cair no clichê de certa forma, mas como existem outros, a representação se expande.

Talvez o grande problema é que, quando muitas pessoas vão construir um personagem fora do padrão cis heteronormativo, elas se focam na característica que faz com que esses personagens fujam do padrão. Uma história que mostre um personagem bissexual, que tenha que lidar com o preconceito que sofre pela sua sexualidade é muito legal, mas um personagem bissexual pode ter outros tipos de questões, assim como todas as outras pessoas, de qualquer sexualidade. Imagine só um personagem bissexual que, ao contrário de ter algum problema que envolva relacionamentos ou sexualidade, tem que enfrentar o fato de que sempre que espirra, o tempo é congelado? Normalmente, quando a sexualidade não importa, nós assumimos o padrão hétero, mas algo muito interessante para a representação na cultura pop em geral é que personagens bissexuais, ou de qualquer outra sexualidade, possam ser qualquer coisa, como acontece com os que são heterossexuais. Basta ver Max, de Life is Strange. Ela é a protagonista e a bissexualidade não é o ponto principal da personagem.

Mas de qualquer forma, independente de quantos personagens bissexuais você tenha na sua história, há alguns estereótipos que é interessante ficar de olho.

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Há algumas histórias que colocam seus personagens como pessoas indecisas, que não entendem sua sexualidade e por isso se relacionam com pessoas de vários gêneros. Isso pode ser seguido do personagem acabar escolhendo ficar com uma pessoa como “interesse romântico” e passar a ser chamada de heterossexual ou homossexual. Isso é ruim porque cria a ideia de que ser bissexual é uma fase, e não uma sexualidade válida. Que tal escrever um personagem que está seguro de ser bissexual, sem dúvidas sobre o assunto? Uma história bem feita de um personagem descobrindo a sua sexualidade, e experimentando no processo, pode ser interessante, ainda mais se no final, mesmo que esse personagem decida ficar em um relacionamento com outra pessoa, ela continue se identificando como bissexual. Para esse exemplo, é interessante ver a construção de Kelly, no episódio San Junipero de Black Mirror.

Uma das formas mais comuns de mostrar que um personagem é bissexual é falando que ele “gosta de pessoas”. Isso é uma forma de fazer o público entender, e funciona, mas acabou virando um recurso que a maioria dos criadores usam. A bissexualidade já é muito apagada, colocar essa conversa na boca de personagens pode fazer com que as pessoas falem e fiquem mais cientes dessa sexualidade. Então, se você pretende mostrar para o público a sexualidade do personagem, que tal fazer ele dizer “bissexual” com todas as letras?

Às vezes, quando existe um grupo de personagens, justo aquele que é bissexual é o que vai ter encontros com várias pessoas. Eu sei dar exemplos de alguns personagens bissexuais bem escritos que caem nesse estereótipo, mas se você pretende colocar só um personagem bissexual na sua história, poderia evitar que logo ele carregasse essa característica. O estereótipo de que pessoas bissexuais saem com “todo mundo” é muito forte na sociedade, então isso seria uma forma de mostrar um outro lado. O seu personagem pode ser a pessoa do grupo casada a mais tempo, por exemplo.

Nesse caso específico, muitas vezes o fato do personagem bissexual se relacionar com várias pessoas é colocado de uma forma negativa na narrativa. Isso porque a sociedade gosta de condenar pessoas que têm muitos parceiros ao longo da vida (geralmente mulheres). Uma coisa que eu gostaria de ver mais na cultura pop são personagens bissexuais que tenham alguns desses clichês, como por exemplo sair com várias pessoas, mas isso não é mostrado de forma negativa. É só mais uma característica, assim como a cor do cabelo ou o tom de voz. Porém, como falei acima, nem todos podem estar de acordo com a minha visão, há parte do público bissexual que se incomoda em ver mais um personagem com qualquer característica considerada clichê.

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Procure dar finais mais felizes para seus personagens bissexuais. Caso você esteja escrevendo uma história triste, onde todo mundo acaba se ferrando no final, faz mais sentido que essa não seja a sua opção, mas se alguns terão a chance de serem felizes, que tal incluir entre eles o que é bissexual? Personagens LGBT+ em geral às vezes sofrem na cultura pop por morrerem, ou terminarem seus arcos quebrados. Você pode sim fazer seus personagens sofrerem (eu inclusive sou super a favor de um drama na ficção), mas estamos cansados de ver personagens fora do padrão se dando mal. Isso pode passar a ideia de que ele está sendo punido por não ser heterossexual. Que tal um personagem bissexual que, mesmo passando por inúmeros problemas, consegue seu final feliz? Como é o caso de Korra, em Avatar.

Eu já falei isso em outro texto, mas acho bom repetir aqui: Uma pessoa bissexual, que exista de fato fora do mundo da ficção, não é errada ou tem a sexualidade invalidada por fazer qualquer uma dessas coisas. Ser confuso, indeciso ou sair com várias pessoas não são problemas, não há nada de errado com isso. A questão não é alguém ser assim, mas que a representação dessa minoria só dê escolhas específicas baseadas em estereótipos.

Escreva personagens bissexuais que são heróis, coadjuvantes, vilões, engraçados, românticos, inseguros, muito seguros, com arcos de redenção, que sobrevivem no final… O que queremos é que essa representação chegue no ponto em que esse tipo de personagem possa ser qualquer coisa, em qualquer gênero da cultura pop. Às vezes, quando o autor quer colocar um personagem bissexual na obra, ele o coloca como vilão ou algum personagem próximo deste. Inclusive a sexualidade seria parte da vilania, que pode ajudar a trazer uma imagem ruim para pessoas bissexuais, por isso é importante que esses personagens apareçam em todos os lugares, com a maior diversidade de motivações possíveis.

A maior dica que eu posso dar para fazer um personagem bissexual complexo e que não caía em estereótipos é: Escreva um bom personagem. Quando ele é bem escrito, ele até pode ter clichês, mas será mais que isso. A história de um personagem bissexual pode ser sobre sua sexualidade, mas não necessariamente, então busque outras coisas além das que você automaticamente pensa. Ouça pessoas bissexuais, leia sobre esses estereótipos e esteja disposto a entender as críticas. Escrever um personagem fora da sua zona de conforto não é fácil, mas com imaginação, que é necessário para todo o artista, e também humildade, você estará no caminho certo.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

Machismo nos Games | Cosplayer sofre ataques por causa de concurso

Neste domingo, a BGS lançou um concurso em suas redes sociais: Aproveitando que Hideo Kojima vem para o Brasil, o evento ia permitir que um dos fãs tivesse a chance de entregar a ele o Lifetime Achievement Award. Para escolher quem seria o sortudo, os fãs precisavam postar uma imagem no twitter com #KojimaNaBGS, a imagem com mais curtidas até o final de setembro seria a vencedora.

Até aí, tudo bem. Não é de hoje que eventos lançam concursos assim, da mesma forma que não é de hoje que os fãs tentam fazer as imagens mais criativas para ganhar. Infelizmente, também não é de hoje que parte da comunidade gamer é machista e destila seu ódio em qualquer oportunidade.

A cosplayer Laura Pyon, grande fã do trabalho de Hideo Kojima, resolveu participar com um desenho. Por ser cosplayer e gostar da personagem Quiet, Laura falou que compartilharia as fotos que faria do cosplay com as pessoas que a ajudaram a ganhar. Nada disso era um problema ou contra as regras da BGS.

Mas nós sabemos bem que, para o ódio, não precisa de muito motivo. Não demorou para que Laura começasse a receber ataques e ameaças de pessoas da comunidade gamer. No grupo do facebook Metal Gear Legacy Brasil, um dos caras queria entrar no concurso e ganhar, mas achava um absurdo uma “cosplayer” que, de acordo com o julgamento dele, nem era fã, ganhasse. Porque de alguma forma, esse cara achava que a opinião dele era mais importante do que a das inúmeras pessoas que estavam dando likes em vários tweets de quem estavam concorrendo.

 

 

 

As pessoas desse grupo, como vocês podem ver nos prints (e são só alguns), achavam que elas tinham total direito de perseguir uma pessoa na internet, mandar xingamentos, ofender e praticar ciberbullying só porque é uma “moça cosplayer”. O machismo na comunidade gamer, como dá para perceber, ainda é muito forte e presente. Mulheres são consideradas “menos fãs” só porque são mulheres, se fosse um homem cosplayer, a recepção seria bem diferente, se houvesse xingamentos, eles não seriam relacionados ao gênero da pessoa.

Há uma grande arrogância por parte da comunidade, que acha que pode se dizer mais fã ou não, acha que pode ditar quem é fã de verdade ou não. A arrogância em si se torna um problema quando eles também se sentem no direito de agredir uma pessoa dessa forma. Era um concurso e Laura não quebrou as regras, se quer ganhar, tente juntar conhecidos para te divulgarem e ganhar de forma justa. Um gamer deveria saber a diferença de jogar justo e usar cheat. Mesmo que Laura estivesse quebrando as regras, o que não foi o caso, assédio nunca é aceitável.

A BGS foi informada do incidente, isso fez com que os agressores fossem eliminados da competição. O problema é que a BGS, em um primeiro momento, também desclassificou Laura do concurso. Isso foi uma decisão muito errada, não só ela não estava infringindo nenhuma regra, como não há nenhum problema em fazer fotos de cosplay de um personagem que você gosta.

Mas depois de um tempo, a BGS se posicionou novamente, como vocês podem ver na declaração abaixo. Os agressores continuariam fora da competição, mas Laura poderia voltar a participar, já que ela foi a vítima e não fez nada de errado. A postura da BGS foi muito boa, reconhecendo as pessoas que realmente precisavam ser repreendidas. Que a atitude do evento seja exemplo para que outros entendam que machismo e ciberbullying não são aceitáveis, além de ser assunto sério. Não importa se você está xingando uma imagem no computador, é uma pessoa que está do outro lado e merece respeito.

Esse caso serve para percebemos como a comunidade gamer precisa melhorar muito. Há algumas coisas que precisamos refletir sobre o ocorrido. Por mais que esses casos não sejam isolados, aconteçam com alguma frequência e deixem muitas mulheres com medo de fazer parte da comunidade, ainda há muitos que acreditam que pessoas que fazem isso são exceções, que “tem problemas” e não representam o todo.

Obviamente eu não estou dizendo que toda a comunidade gamer é composta por pessoas assim, mas é uma parte grande o suficiente para que esses casos ainda aconteçam e façam todas as mulheres terem medo. Laura sofreu com o que aconteceu por ser mulher, porque o machismo é tóxico o suficiente nesse meio para chegar nesse ponto absurdo por causa de uma competição. As pessoas que fizeram isso sabiam exatamente o que estavam fazendo, por isso esses assuntos devem ser tratados com seriedade e não como exceção.

Por isso é ainda mais importante que a BGS tomou essa postura. A internet dá uma impressão perigosa de que o que acontece nela não é sério e sem consequências. Isso precisa parar, porque não dá mais para que as mulheres da comunidade gamer vivam com medo de qualquer coisa, só porque querem participar de campeonatos, falar de seus jogos preferidos ou participar de concursos.