Não, desenho mal feito não é a mesma coisa que sexualizar personagens femininas.

Ok, galera, vamos lá.

Essa imagem aí de embaixo surgiu na internet primeiro numa versão em inglês e depois nessa versão em português. Até a versão em inglês eu não ia falar nada, mas como, claro, fanboys machistinhas resolveram traduzir e agora ela não para de aparecer na minha timeline, resolvi mostrar algumas razões básicas do porque essas duas imagens não são as mesmas coisa.

merda

  1. Personagens masculinos de quadrinhos não são super sexualizados como as personagens femininas.

Não, colega. O Superman e o Batman serem super fortões, com tanquinho e bunda no lugar não é sexualizar o personagem. É um outro tipo de opressão que o machismo cultiva: a hiper-masculinação. Ou seja, o leitor que não se assemelha ao padrão super-herói pode se sentir oprimido por esse padrão, que faz parte da cultura da nossa sociedade de ligar força físca com ser homem. Durante séculos os homens vêm sofrendo com essa influência negativa e, claro, descontando nas mulheres.

  1. Sexualização vs. Desenho mal feito

Olha, existe uma diferença entre não saber desenhar uma anatomia humana de maneira que ela fique coerente, mesmo o Aranha sendo super flexível, e propositalmente desenhar uma personagem de modo que sua bunda esteja tão pra cima e as pernas tão abertas que você não somente consegue ver a marca da calcinha fio dental (porque, claro, essa é a opção de toda super-heroína ¬¬) como também deixa em evidência a divisão entre as duas nádegas. E, mano, eu sei que você sabe disso.

  1. Milo Manara

Milo Manara é um quadrinista Italiano especializado em arte erótica. Ele costuma ser muito reconhecido pelo seu trabalho nessa área. A culpa que ele possui é por ter feito um trabalho que além de ser espelho do próprio trabalho anterior parece esquecer que mulheres também precisam de nariz. Infelizmente a Marvel tem uma tradição de trazê-lo para o lado não-erótico dos quadrinhos para desenhar personagens femininas de modo sensual. A culpa por essa capa, em quase toda sua totalidade, é da Marvel que contratou alguém para sexualizar a personagem principal de uma revista que poderia ter muito apelo ao público feminino, mais uma vez demonstrando que o mercado de quadrinhos ainda é machista e prefere dar atenção a meninos punheteiros e não a meninas que só querem ler uma revista com uma personagem feminina legal e bem desenhada.

  1. Esta é uma capa extra, não é a original.

É eu sei, parece que deveria ser uma coisa positiva, mas não é. O fato desta ser uma capa extra é negativo por que quer dizer que a Marvel foi atrás de um desenhista que fosse sexualizar a personagem de modo que os tais fanboys punheteiros quisessem gastar dinheiro com uma revista com personagem feminina. Além de ser uma posição incrivelmente machista por parte da Editora, diminui vocês, caras, ao nível de moleques adolescentes que tem um braço mais forte que o outro. Eles acham que um cara não é capaz de ler e se interessar por uma personagem feminina, mesmo que ela seja tridimensional e tenha uma história legal. Além de depreciar uma personagem feminina a editora também deprecia vocês e, junto com o nº1, ajuda a dar continuidade ao ciclo de machismo na cultura pop.

Com certeza existem outras razões pelas quais as duas não são a mesma coisa. Mas na minha indignação e pressa para terminar outros projetos vou ficar por aqui.

Flw. Vlws.

Kill it with fire: A capa da edição nº1 de Mulher-Aranha.

Ah, Marvel. Eu te amo, mas você faz ser tão fácil te odiar de vez em quando.

O que você espera da capa de uma primeira edição de uma revista em quadrinhos? Vamos ver alguns exemplos:

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Personagens centralizados, talvez em posições de batalha, cercado de inimigos, em uma posição de poder ou heroica. Sim, talvez algum trabalho estético mais “refinado”, como as edições de Elektra.

 O que você não espera em uma capa de HQ de super-herói, no caso a Mulher-Aranha (Jessica Drew) é isto:

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Ahm… Isso não é uma roupa, é pintura corporal.

Milo Manara é um artista italiano conhecido por suas HQ’s pornôs. Ele é mundialmente reconhecido e desenha coisas bem legais sim. Infelizmente ele foca-se principalmente no corpo feminino, sempre sexualizando a personagem que estiver desenhando, independente do que ela esteja fazendo. A loucura é tão grande que a capa nem é original, e tem grande similaridade com um outro quadro dele. É importante lembrar que esse tipo de arte é a marca registrada do artista e, por mais que eu considere um desfavor desenhar super-heroínas desta maneira, a culpa não está única e exclusivamente em Manara. Na verdade, ela está em sua quase totalidade na editora que contratou um artista cujo trabalho faz um desfavor aos seus personagens femininos.

Manara já fez outros trabalhos para a Marvel, incluindo uma edição inteira das mulheres de X-men, para a qual eu realmente não tenho palavras. A revista existe única e exclusivamente para que garotos e homens possam bater punheta enquanto olham as suas personagens favoritas se banhar num riacho. No site da Marvel tem algumas das artes que ele fez por contrato. Na galeria há um personagem masculino, o Noturno, que não está nem um pouco sexualizado, claro. Estão lá também uma coleção completa de personagens femininas que estão invariavelmente em uma (ou mais) dessas posições: pernas abertas, bocas abertas, peito inclinado para frente, bunda projetada para trás.

A Marvel tem um histórico de personagens femininas legais, principalmente com as mudanças recentes, que fizeram fãs machistinhas tremer na base. Thor agora é uma mulher, Carol Denvers é Capitã Marvel, uma formação X-men inteira de mulheres, Gamora em Guardiões da Galáxia e etc. A própria capa da primeira edição de Elektra é incrível, e parece ser um padrão a ser mantido nas revistas da editora.

Então, por quê Marvel? Por quê?

O ápice do Butt Pose. Peito, bunda e uma cintura sem costelas. Tudo que o homem quer. A gente deu sorte de ver o rosto da Jessica Drew.
O ápice do Butt Pose. Peito, bunda e uma cintura sem costelas. Demos sorte de ver o rosto da Jessica Drew.

Por que você escolheria um desenhista conhecido por sua visão exageradamente sexualizada de mulheres para desenhar a primeira edição de uma revista de uma personagem feminina? Por que, apesar da personagem se chamar Mulher Aranha, mulheres não são o público alvo. Por que das duas uma, ou as duas: ou a Marvel não consegue entender por completo que é ofensivo sexualizar uma personagem feminina e que isso afasta uma parcela importante – e lucrativa – do público, ou ela só tá querendo fazer polêmica e causar posts indignados como este aqui.

Como eu não sou adepta das teorias da conspiração, e nem tenho tanta fé assim nos homens que comandam a Marvel, eu fico com a primeira opção. Apesar de dar passos avançados em direção a uma visão mais igualitária do seu público, a Marvel ainda não está nem pronta nem com vontade de soltar a mão do conteúdo exploitation e machista.

O peito, além de parecer um funil estranho é maior que o rosto da moça. Tá serto.
O peito, além de parecer um funil estranho é maior que o rosto da moça. Tá serto.

Sim, é apenas uma capa dentre todas as outras em que a Marvel parece ter acertado. Mas é importante porque ela continua reproduzindo uma imagem sexualizada da super-heroína que não apenas a reduz a objeto sexual para caras, mas retira parte da “seriedade” da sua história. Nós vivemos em um mundo em que a mulher usar roupa curta, ou mostra muito a pele, ou tem a sua sexualidade forte e definida significa que você não pode leva-la a sério, que ela não é uma mulher de verdade, que não merece respeito. Eu sei que você pode não pensar isso, mas isso está sim muito afixado no pensamento popular. Quando você reproduz o machismo em uma capa de revista você está não só batendo na mesma tecla chata e imbecil, mas também dando vazão para que o público  não veja nada além de um objeto sexual. Você esvazia a personagem de sentido antes mesmo da história começar. E lá nós vamos pra um ciclo sem fim de machismo institucionalizado.

Além disso tudo a Marvel também espanta as leitoras. Eu não quero pegar a revista e me deparar com uma personagem gostosona, sexy e que parece ter saído de um filme pornô. Eu até posso querer isso tudo, mas eu sei que pra isso existem os outros quadrinhos do Manara. O que eu quero é ver uma personagem bem construída, bem desenhada, com uma história tridimensional, com uma aventura empolgante. Mas tudo que eu vejo nessa capa é o moleque punheteiro que vai gastar todos klennex da mãe na frente do computador.

Vale lembrar que esta capa do inferno é uma segunda capa. Ou seja, eles tem uma capa normal, mas decidiram que uma capa mais exploitation era necessária. Say whaaat? Tá fodagalera.

As meninas do The Mary Sue, onde eu primeiro vi esta notícia, entratam em contato com a Marvel, que declinou comentar sobre o assunto. ¬¬ E vários outros sites também viram o absurdo que essa capa é. O mundo ainda é amor, galera. O Comic Book Resources fez um post sobre isso, em que eles inclusive notam que o desenhista regular da série, Greg Land, já foi acusado de sexualizar as personagens femininas. Essa história só vai de ruim a pior pelo jeito.

"Eu sou dona do meu próprio destino"- hum... Não. Os homens da Marvel são donos dele. Mal, Jessica.
“Eu sou faço meu próprio destino”- hum… Não. Os homens da Marvel são fazem ele por ti. Mal aí, Jessica. Foda.

Maria Ísis, relacionamentos abusivos e Lolitas nas novelas.

Vai novela, vem novela, sempre aparece uma personagem feminina novinha que se envolve com um cara mais velho. Mulheres mais novas se interessam por caras mais velhos? Claro! E se essa relação é retratada de maneira coerente isso está longe de ser um problema. Várias amigas gostam de caras mais velhos e tem relacionamentos saudáveis e equilibrados.

Mas e se o cara foi o primeiro homem com quem essa menina transou? E se ela mal era maior de idade e ele já passava dos quarenta quando se envolveram? E se ele paga todas as despesas dela, inclusive bancando a vida dela no Rio de Janeiro? E se ele a proíbe de ajudar a família com o dinheiro que ele lhe dá? E se ela não pode nem receber a família? E se ela precisa estar sempre a disposição dele, na hora em que ele quiser? E se ele colocar uma empregada para vigiar a garota?

Qual é o limite? Quando é que uma relação de amor entre pessoas de idades diferentes se torna uma relação de poder e controle, em que o homem mais velho exerce tamanha influência na mulher mais nova que não permite que ela veja o problema e o assédio moral que sofre dentro deste relacionamento?

O caso em questão é o de Maria Ísis e o seu Comendador, personagens da novela Império, da Globo. Todas aquelas perguntas que fiz alí em cima se aplicam para o relacionamento dos dois. E isso é um problema por causa da maneira como foi retratado até agora.

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É muito comum, ao ler sobre casos de relacionamentos abusivos e de cárcere privado, que a vítima sinta como se ela estivesse errada e o agressor certo. Qualquer erro que ele cometa, vem das ações erradas dela. Tão comum quanto são casos em que homens mais velhos se aproveita de garotas mais novas dizendo que não foi ele que foi atrás, mas ela que o estava tentando. E a garota, induzida por um sentimento de culpa e dominação, diz ser verdade.

Deixando a diferença de idade deles de lado, vamos pensar na relação de poder. O personagem de Alexandre Nero tem um nome, Zé Alfredo, no entanto Maria Ísis se refere a ele, e com ele, como “meu Comendador”. Comendador já remete automaticamente a uma figura de poder, alguém que está acima dos outros. Só o modo como eles se referem um ao outro já deixa claro quem controla quem.

Maria Ísis pode ser apaixonada pelo seu Comendador, mas o relacionamento deles é baseado em quem tem o poder. O dia em que o Comendador resolver que ela não lhe serve mais, ela vai para a rua. Ela vai ser uma menina que veio de um lar desestruturado, foi dominada por um relacionamento abusivo e controlador, forçada a permanecer numa imagem quase infantil e que não vai saber quem é e nem para onde ir. Mas Maria Ísis é uma personagem ficcional, as Maria Ísis da vida real não.

O problema em glamourisar esse relacionamento é o mesmo de glamourisar os casais de 50 Tons de Cinza e Crepúsculo. Essas personagens são sim apaixonadas pelos seus respectivos, mas elas são mais frágeis e estão constantemente se apagando para dar vida ao que esses homens querem. Eu lembro de tremer de horror quando, no segundo filme, Bella dobra uma foto dela junto de Edward, deixando apenas o namorado. Isso é claramente efeito de um relacionamento abusivo e desequilibrado. Fora que, tanto Bella como a protagonista de 50 Tons, passam por situações de perigo e violência físca causadas pelos seus namorados. O feminismo luta para que a mulher possa realizar todas as suas fantasias, mas mesmo entre os adeptos de sadomasoquismo o consenso parece ser que aquilo não é experiência sexual, é abuso físico e de poder.

Dica: texto muito legal sobre 50 Tons de Cinza e relações abusivas http://naoaguentoquando.com.br/reflexoes/50-tons-de-cinza-e-perturbador/

Uma imagem que resume o problema: Ela se apaga da fotografia, ao mesmo tempo em que está ferida fisicamente.
Uma imagem que resume o problema: Ela se apaga da fotografia, ao mesmo tempo em que está ferida fisicamente.

Um outro problema, ao meu ver, é o modo como a personagem é vendida para o público. Antes mesmo da novela começar já era possível achar publicidade sobre as roupas e lingeries que ela iria usar. E as publicações sempre falam sobre o “clima Lolita” do guarda roupa da personagem. Todo ele remete a um clima de inocência e adolescência, há uma clara infantilização da personagem e, junto com isso, uma sexualização dessa aura infantil. E isso é uma das coisas mais podres que você pode fazer na televisão.

Marina Ruy Barbosa foi uma atriz mirim que cresceu aos olhos do público. Quero deixar claro que a minha crítica não tem nada a ver com ela como pessoa, a quem considero uma atriz talentosa. Mas toda vez que uma atriz mirim atinge a “maioridade” ela eventualmente passa por uma revoada de papéis em que ou interpreta a ninfeta, a periguete, ou a garota sexy. Bruna Marquezine em Salve Jorge e Débora Seco em Laços de Família e são apenas algumas. Para dar uma reviravolta na carreira, as mulheres jovens, mesmo as que não foram estrelas mirim, são submetidas ao papel de objeto sexual. Algumas personagens até são melhor desenvolvidas, como o caso de Suellen, personagem de Ísis Valverde em Avenida Brasil, mas o que realmente incomoda é a necessidade da sexualização da atriz para que ela seja “levada a sério”. Uma garota só deixa de ser menina ao se tornar sexy e desejável aos olhos do público masculino. Este fenômeno é uma constância que não se limita as novelas nacionais, vale lembrar.

Mas por que a personagem ser Lolita é um problema? Porque ao forçar atrizes a passar por esse estereótipo nós estamos dando continuidade não só a objetificação das mulheres, nós estamos sexualizando a infantilização de personagens femininas. Eu não estou dizendo para excluir de vez as personagens como Maria Ísis, mas acho que está mais do que na hora de dar mais profundidade e importância ao arco desse tipo de personagem, que constantemente são utilizadas para dar complexidade ao personagem masculino que as domina.

Além disso você limita o trabalho da atriz e a cartela de personagens femininas que uma novela possui. Homens são maridos, empregados, vilões, empresários, pais, fortões, traficantes e assim por diante, sempre dando flexibilidade a personalidade deles . Atrizes normalmente são mães, esposas, filhas, prostitutas, Lolitas e vilãs. Há sim personagens femininas que são empresárias e trabalhadoras, mas elas sempre estão de alguma maneira ligadas aos seus respectivos personagens masculinos. E o final feliz sempre é ao lado de um homem.

Eu preciso dizer porque uma personagem baseada em Lolita pode ser um grande problema?
Eu preciso dizer porque uma personagem baseada em Lolita pode ser um grande problema?

Basicamente o que Império tenta fazer neste momento é pegar uma mulher num relacionamento abusivo, trata-la como uma Lolita, a vestí-la como uma adolescente, fazer o homem com quem ela se relaciona de maneira submissa chamá-la de sweet child, e tentar me vender isso tudo como normal, romântico e engraçadinho – já que as cenas de Ísis com a família (que praticamente a agencia por debaixo dos panos) sempre vêm com aquela música que te induz a pensar que é uma cena de humor. Uma família que explora a filha é sempre engraçado, né gente? Não.

Uma mulher pode querer agradar o seu respectivo, pode querer se vestir com roupas que remetem a infância, pode curtir homem mais velho, pode ser bancada pelo homem, pode estar apaixonada por quem quiser. Mas quando um relacionamento abusivo engloba todos esses aspectos e é retratado como amor o machismo transparece.

A novela começou faz pouco tempo, e podem me chamar de otimista, mas ainda há tempo o suficiente para reverter essa situação. Maria Ísis pode ir aos poucos se dando conta dos diversos problemas que o seu relacionamento com o Comendador possui, e assim a novela vai condenando aquilo que normalizou no começo e educando o espectador que relacionamentos abusivos são diferentes de relacionamentos normais. Maria Ísis, quem sabe, pode até se tornar uma personagem tridimensionais com desejos e anseios que vão além daquilo que o seu homem quer para ela. Marina Ruy Barbosa tem calibre o suficiente para passar por essa transformação.

Há o filho do Comendador, um personagem que parece interessando na amante do pai, e que aparentemente consegue ver o canalha que ele é. Talvez seja essa a porta de libertação para Maria Ísis, talvez os dois consigam se ajudar ao encontrar cada um o caminho de liberdade e autoconhecimento que eles precisam. Eu só espero que, caso seja essa a escolha do autor, que ela seja feita de maneira com que Maria Ísis não seja só a donzela em perigo, que ela não abandone a história do pai para se tornar apenas parte da do filho, mas que ela saia dona de suas próprias decisões e da sua liberdade.

It’s a Trap: Marvel e Disney excluem Gamora de grande parte do Merchandise de Guardiões da Galáxia

Você fica toda feliz com um filme, escreve dois textos sobre como o filme é legal, vê a internet falar sobre como o filme é um grande sucesso e BAM! A empresa responsável pelo filme te dá uma voadora nas costas e depois ainda pula de cotovelo sobre os seus rins.

Guardiões da Galáxia atraiu 44% do público feminino e ainda sim Gamora, e qualquer outra personagem feminina do filme, estão sendo excluídas do merchandise. Saporra não faz o menor sentido. Você, estúdio, faz um dos primeiros filmes a retratar super-heroínas de maneira tridimensional, com uma atriz incrível, o maior sucesso do verão e decide que elas não vão ter espaço nos produtos? Você tem merda na cabeça?

Os estúdios em questão são o Marvel Studios e a Disney. Que comprou a Marvel e que têm se não o maior, um dos maiores mercados de merchadise para meninas do mundo. Você já viu quantas fantasias de princesas Disney existem? No começo do ano minha irmã penou para conseguir comprar as bonecas da Anna e da Elsa de presente pra sobrinha! E, ainda sim, o merchandise quase inteiro é voltado para o público masculino!

Olha, eu quero um Groot filhote dançante? Sim! Claro que eu quero. Eu quero um Groot com o Rocket atirando? Claro! Mas eu quero uma Gamora também! Eu quero poder ir até a loja e selecionar qual Gamora eu acho mais legal, eu quero poder comprar um kit que tenha os cinco personagens juntos, uma camiseta que tenha os cinco personagens juntos. E isso tem se mostrado muito difícil.

Alguns sites noticiaram hoje que no Wal-Mart americano, apesar de estar na imagem da torre de produtos do filme, Gamora tem sido inclusive excluída de camisetas com a formação da equipe. Quill, Rocket, Drax, Groot . Mas nada de Gamora. Então você teve a pachorra de photoshopar ela pra fora da imagem, ou você só achou que photoshopar uma mulher é muito mais difícil do que um homem?

Sério, Disney e Marvel, você consegue ver o que estão fazendo de errado?

Aparentemente esse “fenômeno” também aconteceu na época em que Avengers foi lançado. A Viúva Negra também esteve ausente de uma série de merchandises por que, né? Que mulher vai querer comprar o action figure da única personagem feminina do filme?

Ei, vocês aí tomando as decisões sobre filmes de super-heróis. Vocês não conseguem se dar conta de que nós, mulheres, também ADORAMOS ESSA PORRA? Que a gente também gasta dinheiro com vocês? Que a gente também fornece muitos dos milhões que vocês ganham a cada seis meses com um novo filme?

A sensação ao ler as notícias é quase de traição.

[Atulização]

A notícia se espalhou pela internet e foi criado um hashtag no twitter #wheresgamora onde vários fãs do filme comentam e reclamam a exclusão dela do merchadise. Além disso, outros sites também comentaram o sumisso da heroína: aquieste também, e mais este, e por fim este aqui.

E tem site nacional noticiando o problema também, ó!

[Fim da Atualização]

Aparentemente, no começo do ano houve uma polêmica envolvendo a produção de merchandise da Princesa Leia, com a Disney Store dizendo que não tinha planos de fazer mais material direcionado à personagem. Depois de muitas reclamações a empresa acabou voltando atrás. Fica a esperança de que o mesmo aconteça com Guardiões da Galáxia.

Caso você não tenha problemas em pagar o frete e a grana pra retirar o produto do correio, a ETSY sempre tem opções pra quando os grandes estúdios resolvem não se dar conta de que a gente também quer gastar dinheiro com eles.

Por que sério. Isso é uma questão de machismo? Sim. É uma questão de falta de representação? Sim. Mas é, acima de tudo, burrice por parte deles. Burrice porque são machistas e não conseguem aceitar e ver aquilo que está piscando em neon na cara deles: EU, MULHER, QUERO GASTAR DINHEIRO COM VOCES.

Reciclando Gif porque a raiva me faz querer partir a cabeça dos chefes dos estúdios.

Mas, meninas, não vamos desanimar. Vamos ir sim ao cinema ver Guardiões, mostrar que a gente quer mais, espera mais deles. O filme continua sendo ótimo, escrito por uma mulher e com personagens muito interessantes.

🙂

Por que tantas mulheres foram assistir Guardiões da Galáxia?

Pela internet inteira há um burburinho sobre Guardians of the Galaxy. O filme foi o blockbuster a mais arrecadar neste ano. Mais do Godzila, Espetacular Homem-Aranha 2, Transformers: Age of Extintion e todos os outros.  Há também um burburinho sobre como mais de 40% do público de Guardians of the Galaxy é composto por mulheres. Particularmente, isso não me surpreende nem um pouco, mas já que parece ser assim tão inexplicável para algumas pessoas, aqui vão algumas razões pelas quais o público feminino é tão grande e por que Guardiões foi tão bem.


1. Nós também gostamos de blockbusters e Super-heróis. 
De novo, o que pra mim é óbvio pode não ser para os outros. Mas garotas também gostam de ver coisas explodirem, dinossauros feitos de metal, lutas espaciais e todas essas coisas.


2. O filme é mágico e lindo

3. Não, o tanquinho de Chris Pratt não é a principal razão para a audiência feminina
Morte a todos os comentaristas da internet que falarem que nós só fomos ao cinema por causa do tanquinho do Chris Pratt. Tem muita mulher que adora um tanquinho tanto quanto homem adora um peito e uma bunda (mulheres também gostam de bundas, aliás). Mas, apesar de possívelmente algumas moças terem ido ao cinema porque o cara é gatinho, essa não é a principal razão.

Pras moças que preferem tanquinhos.

4. Transformers só objetifica e em Godzila nós somos ajudante e mãe. (E por isso não ganham Gif)
Sou a única, entre meus amigos próximos, a realmente gostar do primeiro Transformers. Optimus Prime é amor em forma de caminhão. Assisti a todos os primeiros três filmes no cinema, o terceiro em IMAX. Mesmo querendo loucamente ver Optimus Prime montado no dinossauro robô não me mexi da cadeira para ir ao cinema ver o último lançamento. Por quê? Por que cansei de ir ao cinema assistir filmes em que as personagens femininas vão gritar por socorro, dirigir um reboque e fazer cara e poses sexys. Por que eu quero mais, exijo mais. Assim como eu, muitas mulheres provavelmente sentiram a mesma coisa ao se recusarem a ir ao cinema assistir Transformers neste verão americano. Transformers fez dinheiro e vai continuar fazendo, mas foi o filme com o menor percentual de público feminino do verão – e de todas os seus predecessores. E por isso perdeu uma boa fatia de milhões de dólares. Michael Bay, acho que é hora de crescer, colega.
Godzila é um filme muito legal. Mas temos três protagonistas e todos são homens. Eu falei bastante sobre isso num Colant, então é só passar lá e dar uma olhada. 😉
Diferente de Transformers, Guardiões soube cortar cenas que poderiam ser ofensivas, e que objetificavam a única personagem feminina. Especialmente quando nos momentos seguintes ela sofreria com a ameaça nos presos. É quase indescritível o quão importante é terem cortado essa cena:

5. Mulheres querem ver mulheres na telona. 

E nós queremos vêlas sendo mais do que princesas em perigo, mais do que namoradas, mais do que sacrifícios, mais do que a mina que diz que o Superman é “Kind of Hot”.
Muitos dos argumentos para rebater a necessidade de mais personagens femininas (ou de qualquer outra minoria) na tela se resumem a “Mas a história é universal, você pode se identificar com ela sendo homem ou mulher”. Se este fosse o pensamento dos estúdios e autores teríamos então personagens femininas protagonistas em séries como True Detective, teríamos mais do que a moça em perigo em Transformers, e teríamos mais do que uma personagem feminina em Avengers. Viúva Negra é uma personagem muito legal, mas é a única mulher em um grupo com outros quatro homens. Legal. Vlws. Flws.
Sim, Guardiões da Galáxia tem uma personagem mulher e outros quatro personagens “homens” – acho difícil classificar Guaxinins e Árvores. Mas temos ainda Nebula e Nova Prime, personagens femininas que, apesar de não terem uma participação tão efusiva, são interessantes e em posição de poder. Gamora, como eu disse no Colant Sem Decotes do filme, é mais do que chutar bundas. O filme representa mulheres, na maioria do tempo, de maneira saudável e tridimensional. E é isso que a gente quer.  E ele foi escrito por uma mulher também, eu realmente preciso dizer o quão positivo é colocar mais mulheres na sala de roteiro/direção/produção/qualquer outra coisa?

Elsa, Anna e Katniss não levaram multidões ao cinema só porque são princesas Disney ou por ser adaptação de Best Seller, elas fizeram isso por que abriram um leque de personagens interessantes em um meio tão focado no homem.
O fato de Guardiões não ser um filme apenas feminino só advoga em favor de termos  mais espaço e mais representação. Mesmo em filmes que a cabeça bipolarizada do produtor americano acredita ser muito mais vendível para homens, nós marcamos presença e pagamos ingressos caros múltiplas vezes pra ver um filme lindo em que fazemos parte ativa da história.
Acabou rolando um TOP 5. Mas estes cinco pontos são apenas uma pequena porcentagem de todas as razões pelas quais nós, moças, fomos ao cinema assistir Guardiões em peso.

🙂

 

Superman e Eu.

Acho que o meu primeiro contato com os super-heróis foi com Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman, Batman: A série animada e The Flash. Eu adorava as duas séries, mas tinha uma preferência pelo Homem de Aço e pela Lois. A série era tosca, eu sei, mas era inocente e como criança eu aprendi muitos valores importantes admirando o casal. E o filme da década de 80 só ajudou a sacramentar esse meu apreço.

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Muitas pessoas julgam o Superman bobo, inocente, chato, indestrutível demais, corretinho de mais, bom moço demais, um tédio. Eu acho que o Superman é o ícone de super-heróis que ele é por uma simples razão: Ele é tudo que a humanidade precisa.

Você pode vir com o papo de “he’s the hero Gotham diserve, but not the one it needs” pra cima de mim. Eu gosto do Batman também, a série animada também foi definitivamente muito importante na formação da pessoa e da autora que eu sou hoje. E o Batman também é um personagem muito interessante, e com muitas camadas e muito aprofundamento e, minha nossa, muita, muita dor.

Mas o Superman perdeu os pais, perdeu o planeta, perdeu tudo aquilo que hoje nos torna humanos, ele perdeu toda a sua civilização. Ele é sim uma parea, talvez não pelos humanos que ele salva, mas por si mesmo. Quem nunca se sentiu desconfortável mesmo quando todos a sua volta estavam te recebendo bem? E mesmo conhecendo tudo que há de ruim no mundo, no homem, em Zod, no fucking espaço, ainda sim ele acha bondade. Ainda sim ele transforma dor e destruição em esperança e reconstrução.

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Eu não sou uma leitora assídua de Superman (DC, nos quadrinhos, nunca foi meu forte), e talvez não saiba de tudo pelo qual ele passou, mas acho que o Superman é sim o herói que o planeta inteiro precisa. Por que mesmo depois de tanta merda, mesmo depois de tanta destruição e perda, ele aceita a humanidade pelo que ela é. Ele é sempre um ícone de esperança. E em tempos de guerra constante, de ataques pessoais pela internet, de estrupos coletivos e dessa merda toda que envolve o mundo a tantos séculos o Superman é sim o herói que a gente precisa.

Pra lembrar que mesmo sem ser humano ele é o melhor de nós. Mesmo nem sendo real.

Pra lembrar que mesmo quando o mundo te joga contra a parede e faz questão de pegar o pedaço de tijolo que caiu e te acertar mais um pouco, sempre tem alguma coisa que vai fazer valer a pena a luta e cada passo.

Então vai a merda, Zack Snyder, por fazer o Superman matar o Zod e depois ganhar abraço.

Te vejo na zona fantasma, seu filho da puta.

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 Por que isso agora? Por que eu assisti ao filme de novo, e apesar de gostar da primeira hora, não gosto do final. E porque o Snyder não é o “Visionário Diretor de 300”. 300 nem é visionário. Fuck this shit.

🙂

Review: Guardiões da Galáxia (Nicole Pearlman)

Muitas vezes a equipe responsável pela publicidade de um filme faz um trabalho tão bem feito que a gente entra no cinema com a expectativa lá em Marte, mas acaba voltando para Terra longo nos primeiros minutos do filme. Guardiões da Galáxia nos prometeu o universo, e colega, ele cumpriu!

(Pra escutar enquanto lê: https://www.youtube.com/watch?v=Iux7hP8RBRs)

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Nicole Perlman.

O que é aquela “história de Origem”? Em questão de cinco minutos somos apresentados ao personagem principal, simpatizamos, choramos (se você é manteiga derretida como eu), estranhamos o dente CGI da mãe moribunda dele (sério. A única coisa de CGI que ficou estranho foi aquele dente), descobrimos que a mãe dele acha que o pai do menino é um “ser de luz”, a mãe morre e PA PUM. Peter Quill é abduzido por uma espaço-nave mucho loca. Em cinco minutos Guardiões da Galáxia faz o que os Espetaculares Homem-Aranha não conseguiram fazer em dois filmes – estabelecer uma história de origem de maneira coerente e interessante.

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Os Guardiões da Galáxia são cinco: Peter Quill (Chris “Andy Dwight” Pratt), Gamora (Zoey Saldana), Rocket (Bradley Cooper), Drax (Dave Bautista) e Groot (Vin Diesel). De todos os nomes, Bautista é o ator mais limitado, mas ainda sim consegue sustentar bem o fortão emotivo Drax – sua melhor cena é quando luta contra Roran para vingar sua família e perde. Eu realmente senti ao lado dele a sensação de derrota (leia-se emoção em forma de lágrimas). Fora das telas Dave declarou que adorou ver personagens femininas bem desenvolvidas. Tendo sido criado apenas pela mãe, ele consegue enxergar o quão fortes e determinadas as mulheres são. Vindo de um lutador de WWE, símbolo do que o “macho” deveria ser, escutar essa declaração talvez ajude os caras – e os executivos de Hollywood – a aceitarem de vez que nós não vamos desistir de sermos retratadas como humanas – ou alienígenas – complexas.  E Bautista, te amo. <3

Rocket, eu não sei quem te dublou, mas Bradley Cooper ou esqueceu de aparecer para o dia de gravação de voz, ou fez um trabalho fenomenal. Em momento algum eu escutei Rocket falar e fui puxada para fora por que aquela é claramente a voz de Cooper. Ele consegue dar flexibilidade, graça e emoção ao Racoon. É impossível não gostar de Rocket e de Groot. Eles são um par perfeito, e por mais que Rocket seja um cretino, Groot é muitas vezes seu coração e isso funciona de maneira incrível. Particularmente, tenho um soft spot pelo Vin Diesel (e pelo The Rock também). Achei fofíssimo ele como Groot, e a sua capacidade de expressar bastante pela sua única frase “I am Groot” recebe ajuda pelos olhos brilhantes da criatura-árvore. Ele dublou o “I am Groot” em diversas linguas, inclusive português!

 groot e racoon

Rocket, Groot e Drax compartilham de um dos momentos mais tocantes do filme, o sacrifício de Groot. O humanoide árvore é apresentado como algo muito maior do que ser humano, alienígena ou estar vivo – ele é a redenção e o amor e no fim, significa a amizade entre todos os cinco. Rocket chora compulsivamente o sacrifício do amigo e Drax o conforta, da mesma maneira com que Groot o confortou após ter perdido a luta para Ronan. Essas cenas, junto com os momentos particularmente dramáticos de Peter Quill mostram homens (ou guaxinins) adultos se permitindo realmente sentir a dor e a emoção que estão sentido. Não me lembro de uma só vez em que um deles foi repreendido ou não se deixou sentir. E quando Rocket explode, bêbado, sobre o seu drama pessoal, Quill está lá para aceitá-lo. É sutil? Sim. Mas é a mensagem que devemos passar aos nossos meninos: sentir é ser humano. E não há nada de errado com isso.

 quill

Peter Quill é uma mistura divertida de comédia, ação e um toque de drama pessoal. Eu acompanho a carreira de Chris Pratt desde a findada “Everwood”, e vê-lo chegar ao nível de herói de ação da Marvel é estranhamente reconfortante. Em Parks and Recreations eleconquistou o público com o burrinho de bom coração Andy, mas Guardians of the Galaxy leva Pratt além. A cena em que ele briga com o guarda por causa de seu walkman é, além de divertida, incrivelmente tocante. Ele sabe que vai se ferrar, mas o walkman é seu principal contato com a Terra e com a mãe. Pratt brilha incrivelmente nas cenas de ação e de comédia, mas nesses momentos que misturam humor e drama a atuação de Pratt é realmente impressionante. Peter Quill é o Han Solo da nova geração.

gamora

Do cast principal Zoe Saldana é, de longe, a atriz com mais estrada, uma carreira já bem sólida e diversificada. O que eu gosto bastante nela é que Zoe não parece presa a nenhum tipo de gênero, fazendo de TV à Cinema, sempre procurando por papéis que sejam interessantes para ela como atriz e como mulher. Em uma entrevista recente ela disse que a medida que foi amadurecendo foi sentindo a necessidade e a responsabilidade de exigir dos papeis que lhe são oferecidos personagens bem desenvolvidos e que passem a mensagem certa para o seu público. Tem como não amar?

Nicole Perlman.

Gamora, uma das filhas adotivas de Thanos, é a personagem com mais desenvolvimento depois de Peter Quill. O roteiro de Guardiões acerta muito em dar a todos os personagens o seus bits de desenvolvimento (me arrepiei com os pedaços de metal nas costas de Rocket, e como a gente conseguiu sentir essa dor pelos olhos de Quill é writing masterpiece), mas Gamora tem mais tempo e mais camadas do que os demais. Ela se abre numa cena um tanto explicativa junto à Quill, mas na mesma cena em que descobrimos mais sobre a sua origem e sua motivação, ela também deixa claro que não é a protagonista feminina que vai se deixar levar pelo chame cafajeste do companheiro. De todos alí Gamora é a que mais fácil procura e aceita o manto de herói. Ela é uma destruidora de mundos em busca de redenção.

sister love

A relação dela com a irmã, Nebula, também e tocada de leve. Todo mundo já quis chutar a bunda do irmão/irmã (ou já o fez XD), mas as duas levam esse embate familiar a outro nível, não só por que são guerreiras, mas por que o que as une não é o sangue, mas o medo de Thanos e a raiva e rancor que sentem por ele. Gamora vê em Nebula a mesma raiva e determinação que vê em si mesma, mas concentrada para fins menos nobres. Nebula, por mais que seja só a sidequick do vilão, possui um desenvolvimento muito interessante para uma personagem tão pequena. E é sempre legal ver os atores de Doctor Who alcançarem outros vôos.

Nicole Perlman.

Mesmo amando o filme, e o considerando o melhor da Marvel até agora, Guardiões da Galáxia ainda sofre com o toque do “machismo nosso de todo filme”. Gamora têm butt scenes que são absolutamente desnecessárias (mas qual não é? Até George Clooney já sofreu com elas). E a mulher que Peter Quill esqueceu que estava na nave é um tanto revoltante. Ser garanhão pode ser um traço do seu personagem, mas ele precisava ter esquecido que ela estava lá? Mulheres descartáveis não são legais não interessa o quão fantástico o seu personagem ou filme sejam. Me falaram sobre a Gamora está de saia na cena final. Eu realmente não notei, talvez por que eu estivesse tão ligada em como o filme é legal e em como a personagem é construída que não me saltou aos olhos. Mas por que a Gamora, chutadora de bundas defensora da galáxia, estaria de saia logo quando eles estão saindo para uma próxima aventura? Não faz sentido mesmo.

Vi algumas críticas que definiam Gamora apenas como “that sexy green lady” o que, ao meu ver, resume bastante o modo como as personagens femininas são vistas pelo público homem especializado. Rocket e Groot não são humanos, mas por serem divertidos, são vistos como personagens com mais personalidade do que a filha de Thanos, ex-assassina, orfã de um mundo inteiro, geneticamente modificada e com muitos sister-issues. Para essas pessoas eu apresento Nicole Pearlman.

Nicole

Nicole Perlman é a primeira mulher a escrever um filme de super-heróis da Marvel – e provavelmente da história recente dos filmes do gênero. E é tão claro o seu toque pelo filme que fico me perguntando por que diabos ninguém fez isso antes. Mesmo com os problemas que pontuei no parágrafo anterior, as personagens femininas são muito consistentes, e a grande maioria delas não é mal utilizada. Em todo o filme há uma, UMA, mulher utilizada como objeto. Você consegue imaginar isso? É lindo. E mesmo que James Gunn, que co-roteirisou, seja um cara muito legal e tudo mais, com certeza foi o trabalho de Pearlman que fez essa diferença. Ao que tudo indica, antes mesmo de Gunn e Pratt terem assinado os seus contratos, era Pearlman quem lutava para encaixar a equipe no cânone cinematográfico da Marvel.

Ser mulher e escrever ficção-científica é uma combinação um tanto problemática. Ao longo da história da literatura e da tele-dramaturgia podemos contar nos dedos os nomes das autoras das quais nos lembramos de cabeça, ou das obras escritas por mulheres. Este cenário vêm mudando com a maior apreciação da literatura para jovens adultos, mas mesmo assim ainda há muito preconceito tanto em relação ao gênero quanto ao fato dele ser dominado pelas mulheres. Quando digo que não nos lembramos de cabeça quero dizer que a maioria das escritoras do gênero não recebem o mesmo tipo de atenção que os escritores homens. Por que elas estão lá, e são muitas e incríveis.

No caso de Perlman ela ainda transita por um lugar especialmente machista: Hollywood. Já senti na pele alguns dos problemas de ser mulher e roteirista (além de brasileira) e tentar conseguir um pequeno espaço no mundo do cinema lá de fora. Pearlman é, para mim, um ícone de mudança. Talvez seja realmente este momento em que estamos, o momento em que as coisas vão começar a mudar, em que a grande mídia vai passar a nos reconhecer não só como namoradas, objetos e o público colateral, mas como consumidoras, criadoras e personagens. Pearlman está linkada a um possível filme solo da Viúva Negra. Katee Sackhoff (Starbuck – Battlestar Gallactica) postou tweets que levam a crer que ela pode viver a Capitã Marvel nos cinemas. Lucy bateu Hercules no outro final de semana. E Katniss está voltando para chutar mais bundas e atirar mais flechas nos machistas.

poster retro

Dizer que eu adorei Guardiões da Galáxia é eufemismo. Gostei tanto que estou indo ao cinema novamente daqui há duas horas. Este foi o review mais demorado que escrevi pro Colant, uma tentativa de me afastar e ver mais de perto os problemas que o filme tem. Eles estão lá? Sim. Mas há tanta coisa positiva que envolve o lançamento, a produção e as personagens que como um todo o filme me parece um avanço em relação a todos os outros do gênero.

Pra terminar, fiquem com o Groot dançante. Eu realmente espero que ele vire um toy art e que eu possa utilizá-lo como centro de mesa.

dancing-groot

PS: Nunca acaba, eu sei. Mas precisava dizer que Guardiões faz com o dano colateral algo que muito poucos filmes como ele conseguem fazer – nós e os personagens o sentimos. Quando o piloto de uma das naves de Nova Prime, Saal (Peter Serafinowics – Shawn of The Dead) morre prensado ao lado de todos os seus companheiros, sentimos a perda de um personagem de terceiro escalão pelos olhos de Rocket. É triste, bonito e incrivelmente eficaz. Além disso é deixado bem claro que a cidade foi evacuada, numa tentativa de minimizar as perdas. Espero que mais filmes aprendam com Guardiões que toda destruição tem seu dano colateral.

Review: Como Treinar Seu Dragão 2 – ou, Como Treinar Seu Alfa.

Antes de começar, queria lembrar a quem estiver lendo este texto de que, apesar de serem as mulheres as afetadas pelo comportamento machista, homens também sofrem com o sexismo.

A necessidade do menino crescer e assumir a responsabilidade da casa – ou vila, no caso do filme – é uma imposição da sociedade patriarcal. Meninos passam a vida inteira escutando que é dever deles cuidar das pessoas que estão à sua volta, das irmãs, mães e esposas. Eles aprendem que sentimentos é coisa de menina, não de menino. Que homens não choram. Que eles precisa sempre ser fortes. Isso não só acaba privando as mulheres de liberdades iguais às dos respectivos homens, como priva esses meninos de entender que fraquejar, amar e sentir emoções é algo inerente da natureza humana – independente do seu sexo. Querer proteger e cuidar é algo que deve vir de dentro, não forçado pela sociedade como um dever masculino. Estóico é a representação dessa sociedade, ele quer forçar Soluço, um garoto claramente não interessado em poder, a se tornar o líder da vila, pois esse seria o seu direito e o seu dever. E no final, mesmo contra sua vontade, Soluço é forçado por essa cultura a assumir a posição de Alfa.

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Tive muitas dúvidas de como escrever este Colant sobre Como Treinar Seu Dragão II. Eu amo o primeiro filme, ele tem uma mensagem muito bonita sobre como ser você mesmo – não interessa quem seja – é melhor do que se contorcer para encaixar nos estereótipos dos outros. Ele também quebra muito bem o machismo que normalmente circula nos filmes coming of age sobre meninos crescendo. No primeiro filme, Soluço é o oposto do resto da sua vila: ele não tem nenhum atributo físico de força e possui um coração maior que o bafo de um dragão de duas caudas. Ele é um garoto que não se encaixa numa sociedade de homens e mulheres macho. E a lição final do filme é que isso não faz dele pior do que nenhum deles, muito pelo contrário, é a sua capacidade de amar desta forma que transforma a vila para melhor.

Eu tinha expectativas muito altas para este filme. Tipo, extratosféricas. Eu dirigi 40 minutos para chegar num cinema que estivesse passando o filme na língua original, logo na sexta-feira em que ele estreou – eu realmente queria aproveitar ao máximo o filme. E assim eu o fiz, até escutar o termo alfa pela primeira vez. 

Num filme sobre um garoto virando um homem, quando você escuta o termo alfa, é difícil fazer a ligação com o alfabeto romano, é mais fácil se assustar porque a mensagem pode ser exatamente esta: esse garoto vai crescer para se tornar o macho alfa de sua tribo. E isso, colega, dói pra cacete. Dói em mim.  

Depois de assistir ao filme, corri para internet para tentar entender a confusão em que a minha cabeça estava. Ao mesmo tempo que via pessoas notarem os problemas que eu notei, via que outras acreditavam que a mensagem era diferente. Depois de pensar bastante sobre o assunto, acho que o problema não é que a mensagem não está lá, mas sim que ela não é exposta o suficiente. Na tentativa de tratar o tema do Macho Alfa com uma virada nova, o filme falha e acaba ressaltando a falsa importância dele. 

astrid and hiccup
Ponto muito positivo: um casal de iguais.

No começo do filme, Soluço conversa com Astrid sobre a posição de líder que seu pai quer que ele assuma. Soluço não está interessado, ele quer continuar explorando, voando com Banguela, conhecendo e mapeando lugares novos. Astrid, no entanto, demonstra-se interessada pela posição de líder. Nesse momento, achei que o filme estivesse nos preparando para a virada do final, em que Soluço conquista a liberdade de ser quem ele quiser, de verdade, sem se prender ao papel que a sociedade impõe para ele, e que Astrid assumiria a posição que a sociedade não espera dela. Logo na sequência de abertura, enquanto os jovens participam do torneio com dragões, Estóico se sente orgulhoso de ter uma futura-nora campeã. Para mim, era claro que isso ia acontecer – especialmente se você pensar no outro filme. Mas não. O que vemos é Soluço assumir a posição que ele nunca quis, e Astrid não ser nada além de uma sidekick/namorada de luxo.

A relação de Soluço e Astrid é bastante interessante. Eles são, claramente, namorados. E estão em pé de igualdade, em momento nenhum Soluço é apresentado como superior a Astrid, e vice-versa. Eles são cavaleiros de dragões iguais, tão competentes quanto. Astrid, por ser fisicamente forte, não é turbilhão de emoções e demonstrações de afeto, o que é um ponto muito positivo para a personagem. Mas, ao longo do filme, ela fica cada vez mais para trás. Eu entendo muito bem que essa não é a história de Astrid e seu dragão, mas ela passa a funcionar apenas como um mecanismo para afirmar as ações de Soluço e do novo personagem, Eret (o primeiro vilão, que se torna aliado dos cavaleiros de dragões). É triste ver uma personagem tão legal ser jogada de escanteio. E, pior, no final do filme se tornar o prêmio do herói Alfa. Aff.
A temática do homem forte que está no poder, que Soluço renega e Estóico defende, fica mais clara a medida que o termo Alfa começa a aparecer no filme, e culmina na luta entre Estóico e Drago, que se sobrepõe no quadro à luta entre o Dragão Alfa “Bom” e o Dragão Alfa “Mau”. Está ali, desenhado na tela, a disputa entre dois alfas – um defendendo o poder (Drago) e o outro defendendo a família (Estóico). O que me dói muito nessa luta é que ela me parece forçada. Valka passou 20 anos protegendo esses dragões, eles são a família dela, a sua vida até ali foi dedicada a afastá-los de Drago. Mas ela não tem o direito de lutar por eles, porque a luta fica a cargo do Alfa, Estóico. 

Valka sendo incrível.
Valka sendo incrível.

O legal de Valka é que ela não é a típica Strong Female Character; não é a força bruta que lhe é tão forte, é o seu controle e convívio com os dragões. Ela é um tanto louca, mas é incrivelmente poderosa pelas amizades que tem. Pode-se até argumentar que o fato dela não ter força bruta justifica Estóico tomar a luta para ele. Mas… ELA TEM DRAGÕES. FUCKING DRAGONS. Fucking Daenerys.

fuck me valka
Tirar essa luta de Valka significa empoderar a teoria de que a mulher não pode lutarpelo que quer, que é preciso que um homem de poder intervenha na sua luta para justificá-la, para torná-la mais forte. E isso é foda. São duas coisas que poderiam ter mudado completamente o meu ponto de vista do filme: mudar o termo Alfa para líder, e manter esta luta em Valka. Estóico ainda poderia se sacrificar por Soluço, é claro que este é o caminho do personagem desde o primeiro filme, já que ele foi o pai que criou o garoto, que viu ele se transformar e que se orgulhou de ver o filho como ele realmente era (o que só descredibiliza mais ainda a imposição dele sobre Soluço). É dele o direito de se sacrificar pelo filho, não de Valka, que ficou ausente por 20 anos.

Drago and his alfa
Drago e seu Dragão Alfa

Estóico morre quando Banguela, que fica sob o controle do Dragão Alfa Mau, parte para cima de Soluço. É uma morte de sacrifício e amor, profundamente triste e emocionante. O fato de Banguela estar agindo contra sua vontade, por estar sob o poder do macho Alfa, pode ser muito importante para a mensagem que o filme, acredito eu, tenta mas falha em passar. Banguela, como Valka lembra Soluço, não sabia o que estava fazendo. Ele estava sob o controle do Macho Alfa, um poder negativo, uma influência claramente ruim. Isso seria ótimo, caso o filme não tivesse terminado do jeito que terminou. Mais a frente, quando Banguela vence o controle do Macho Alfa Mau e o derrota, assumindo a posição de Alfa, a sua reação é de orgulho. Ele regojiza no fato de ser reverenciado. Isso neutraliza para pior toda a discussão que o filme poderia ter levantado, e é muito fora do personagem. Banguela é como um gato brincalhão, ele leva as coisas a sério sim, mas se diverte com elas. Vê-lo feliz por ser reverenciado não é legal, e passa a mensagem errada, de que ser Alfa é sim algo muito importante.

Durante todo o filme, o uso do termo alfa está associado ao comportamento de líder de grupo, seja de influência positiva ou negativa. Tentar argumentar que Alfa não é necessariamente algo masculino me soa um tanto ingênuo e bobo, este termo é sempre associado à representação do macho líder, seja ele um cavalo ou um homem. Caso o site e o filme não usassem o termo “he” ou “him” para identificar os dragões, seria lindo dizer que eles não têm o gênero definido. Se no primeiro filme o gênero dos dragões não importava, o uso do termo Alfa contamina essa suposta indiferença de gênero do animal, tornando-o macho. Ah, como eu quis que Valka soltasse um “Mas Banguela não é macho, Soluço. É uma fêmea.” Isso também teria mudadoa transmissão da mensagem que o filme pretendia passar, sem ter afetado o desenvolvimento da história.

Gobber
Você teria notado a “saída do armário” se já não tivesse lido sobre ela antes?

Ah! Lembra o personagem gay que a DreamWorks disse que ia ter no filme? Perdeu o momento em que ele disse que era gay? Pois é, eu também. É o Gobber (não sei o nome dele em português), braço direito de Estóico, e tudo que ele disse sobre isso foi um “É por isso que eu não me caso. Por isso e por mais uma razão.” Nossa, DreamWorks, sério? Você conseguiu fazer menos do que a Disney fez com a foto de dois segundos da família gay em Frozen. 

Banguela e Soluço em momento extrema fofura.
Banguela e Soluço em momento extrema fofura.

Como Treinar Seu Dragão 2 não falha em entreter e emocionar. É um filme incrivelmente divertido, cheio de aventura e momentos bonitos. Eu indico sim que você vá assistir e, se for o caso, com crianças também. Mas é legal conversar com elas depois do filme para talvez esclarecer a mensagem que o filme quer passar – e a que ele realmente passa. 

Filhote do dragão Terrível Terror.
Filhote do dragão Terrível Terror.

Valka diz que filhotes de dragões são livres do controle dos alfas, o que é uma coisa legal. É falar que as crianças são inocentes e que o modo como a gente mostra o mundo pra elas é que corrompe o olhar. Talvez o filme tenha tentado passar essa mensagens, mas sai tudo de maneira torta. É lindo achar que todo mundo que sentou para ver o filme enxergou a mesma coisa que o Matt Brown, que entendeu a mensagem de que o comportamento Alfa é algo maléfico. Mas a realidade é diferente. A verdade é que essas crianças vão sair do cinema com um reforço daquilo que a sociedade, infelizmente, ainda ensina para elas: que o papel do menino é cuidar das meninas e da família. Que ele é responsável por protegê-las e que isso deve estar acima de tudo, tanto dos sonhos dele, como da liberdade delas.

=)

*Este post foi atualizado em seus primeiro e segundo parágrafos, para adequar melhor o uso das palavras “machista” e “sexista”.

A Copa, as comemorações e a mulher que não faz parte.

Hoje o Brasil joga mais um jogo da copa, e é de se esperar que, mesmo que o Brasil perca, a Vila Madalena em São Paulo vai estar lotada de gente. Gringos e brasileiros, todos juntos festejando, comemorando ou chorando a copa. E essa cena vai se repetir em tantos outros pontos de encontro hypadinhos ao redor do Brasil. E isso é legal, e divertido e demais.

MAS, como sempre, alguns carinhas sempre aparecem pra jogar o holofote na parte zoada e absurda dessas comemorações. A parte triste é que eles nem percebem o que estão fazendo. Muito pelo contrário – acham que é um arraso.

Acordei ontem de manhã e, ao abrir o Facebook (sim, eu sei. Péssimo hábito. Estou tentando parar, tenham paciência…), dei de cara com a reportagem do UOL Esportes sobre essas festas do tipo micaretas na Vila Madalena. Até aí, ok. É Copa, é futebol, é esporte e é comemoração da Copa. Até aí, lindo. Mas o problema é que, desde a primeira linha, o texto parte do princípio de que as mulheres não participam da festa, elas estão lá, não como parte integrante da festividade, e sim como objetos a serem admirados e desejados.

Um

três

Eu sei que quando se usa o “Brasileiro”, está-se querendo falar de ambos os sexos, mas no caso deste texto fica claro que esse não é o pensamento dos escritores (o texto é creditado a sete autorestodos homens). Ao separar mulheres bonitas de Os brasileiros e de os gringos, os autores do texto automaticamente tornam as mulheres decoração, e não parte da festa. Fala-se de mulheres em quatro momentos. Em pelo menos três momentos a mulher é tratada como objeto de cobiça sexual, um adorno para a festa da qual ela não é parte. Uma única vez a entrevistada não parece estar sendo julgada ou classificada como objeto.  Em todas as vezes, a representação feminina ajuda a aumentar o já tão grande estereótipo de que a mulher brasileira é “fácil”. E, claro, há o “equivoco” de dizer que forçar o beijo em alguém é “tática de conquista”, e não assédio.

quatro

Quando você está numa micareta e um homem parte para tentar te beijar e você está a fim, manda ver. O corpo é seu, a boca é sua e você tem o direito de se dar prazer. Mas este homem que está puxando meninas para um beijo forçado está também as assediando de uma maneira invasiva e errada. É assim tão difícil conversar com a garota? Perguntar se ela está a fim? E, caso ela diga não, responder um simples “beleza”? A tal “técnica de conquista” nada mais é do que uma imposição do homem (que, de acordo com o próprio texto é do tipo marombado, ou seja, forte e intimidador) sobre o seu direto de querer ou não beijá-lo. É uma tentativa – mesmo que inconsciente – de impor a vontade dele na mulher. Forçar alguém a te beijar não é conquista ou flerte, colega, é assédio sexual.

cinco

O texto ainda deixa claro que a tática não funcionava com as mulheres estrangeiras porque os brasileiros tinham problema de comunicação. Amigo, quando um cara te puxa pra perto e tenta te beijar, ele pode estar falando javanês, você sabe muito bem o que ele está querendo. Já parou pra pensar que, sei lá, vou jogar uma ideia meio louca aí, a garota não queria? Eu sei, eu sei. Parece absurdo que uma mulher não queira ser beijada por um homem – independente de quão fortão e charmoso ele seja. Afinal, que mulher não sonha em ser agarrada na rua por um estranho bêbado? Pois é.

Pensando nas estrangeiras, vamos para aquele ponto tão importante também em que, um texto como este, ajuda a propagar a imagem de que toda mulher brasileira é fácil. Veja bem, esse é um estereótipo muito, muito ruim. Vou dividir a minha experiência pessoal: num evento profissional que fui durante o ano em que morei em Vancouver, roteiristas e produtores se encontravam para conversar sobre possíveis projetos de televisão e cinema. Uma chance muito interessante para quem estava começando, e para quem procurava novas ideias. Enquanto esperava uma oportunidade para conversar com o único produtor que realmente me interessava ali (ele representava uma empresa que fazia MOWs de ficção científica), fui abordada por um Diretor. O papo começou com os nossos projetos mas, notando meu sotaque, ele logo perguntou de onde eu era. Pronto. Ao escutar que eu era brasileira, a conversa foi ladeira a baixo. O assunto mudou para Rio, carnaval, mulatas, biquínis, liberalidade do corpo, meus biquínis…

Mas por que eu não poderia simplesmente virar as costas e sair? Este é um ambiente profissional, este cara é um diretor que trabalha no meio, eu sou uma roteirista iniciante. Caso eu decida agir do modo que eu realmente gostaria, eu poderia estar, alí mesmo, perdendo oportunidades. As pessoas comentam. Uma amiga da minha professora recebeu a foto de um pênis logo antes de uma reunião com um produtor – dono do pênis em questão. Ela nunca apareceu para o encontro, mas também nunca denunciou o imbecil. Constrangimento é uma arma forte e perigosa, quem já passou por ela sabe o quanto pesa. E tanto lá fora, como aqui dentro, é uma tática utilizada ad-infinitum quando um homem quer sobrepor a sua vontade à liberdade de escolha da mulher.

Veja bem, você tem o direito de ser quão fácil você quiser. E eu te apoio completametne nisso! Vai lá, beija quem você quiser beijar, dorme com quem você quiser. O corpo é seu e você tem sim o direito de sentir e dar prazer. Mas isso deve vir de você, não de um imbecil que acha que tem o direito de partir pra cima de ti só por que você é brasileira ou, no caso das gringas da Vila Madalena, só porque você e mulher.

Sabe por que isso aconteceu? Porque assim como eu, milhares de mulheres brasileiras passam pelo mesmo problema, porque o estereótipo que este texto e os tantos outros que circulam pela internet com as “musas da copa” ajudam a propagar. E isso, amigo, é uma merda. Quando vai se desenhar uma mulata brasileira, ela têm peito e bunda proeminentes, mas quando a propaganda é com o Hulk, da seleção, o principal “atributo” físico dele é ignorado, e ele é desenhado com um peitoral gigante, e a bunda mínima. Não estou dizendo “vamos sexualizar todo mundo e é isso aê”. Estou afirmando que há sim uma disparidade de como a sociedade vê uma mulher mulata brasileira e um homem mulato brasileiro. Uma visão que se espalha pelo mundo e que atinge mulheres, mulatas ou não, mesmo dentro do próprio país.

Caso fossem retiradas as partes em que se fala especificamente sobre mulheres, a matéria talvez passasse como uma notícia normal, falando sobre a festança e a integração de culturas diferentes. Sem a objetificação da figura feminina na festa, pareceria inclusive que elas fazem parte dela. Mas não. Ao tornar a mulher um objeto a ser conquistado, o texto retira a figura feminina da integração entre culturas e a torna apenas parte da decoração sexual a ser aproveitada pelo turista e pelo brasileiro homem.

Review: Godzilla

Este post foi originalmente publicado no Coelho Matador.

RAlgo que venho notando muito nos últimos anos, e que a indústria parece dar os primeiros sinais de preocupação também, é que os papeis femininos, mesmo quando de destaque, ou não têm o mesmo desenvolvimento e impacto que os masculinos, ou são apenas personagens de suporte. Isso quando não são diminuídos a simples objetos de cenaComo público, mulher e nerd, tenho cada vez mais sentido falta de um personagem que me represente na tela.

Acredito de verdade que nós temos a capacidade de nos identificarmos com qualquer personagem, seja ele homem, mulher, trans, gaynegrobrancolatino, asiático etc. Isso não quer dizer, no entanto, que temos que nos conformar com a falta de representação das outras etnias e gêneros em relação à representação do homem heterosexual branco.

MAS vamos voltar ao filme da semana: GODZILLA. E atenção: esse review vem com spoilers!

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Espera. Antes que eu comece a falar sobre o filme, deixe-me dizer que eu gostei muito dele. Não tanto quanto eu gosto de Pacific Rim (sim, eu sei que só há uma personagem feminina de expressão no filme, e eu acho isso um problema. No entanto, ela é uma personagem incrivelmente desenvolvida e vital para o plot.), mas eu me diverti muito. Ver o Godzilla cuspir fogo radioativo foi o ápice do meu dia. Mas mantenham em mente que, apesar de gostar de um filme/quadrinho/música/livro/seriado, eu ainda assim posso observar as falhas que ele têm.

Caso você, como eu, nunca tenha realmente acompanhado os filmes japoneses do Godzilla, e fizer uma pequena pesquisa sobre a franquia japonesa, vai descobrir que o monstrão já encarou diferentes papéis ao longos de seus sessenta anos de existência. Já foi vilão, já foi mocinho. E, no filme de Gareth Edwards (Monstrosele assume este último papel.

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O filme começa com o Dr. Ishiro Serizawa (Ken Watanabe) e a sua assistente, Viviene Graham (Sally Hawkins), chegando às Filipinas para investigar um acidente geológico que revelou o que poderia ser a procura de uma vida inteira: um esqueleto gigante e dois ovos imensos. Um deles já quebrado, o outro ainda não. Mas Ishiro sabe que aquele não é o monstro pelo qual ele vem procurando.
A primeira ameaça ao planeta chega na forma de abalos sísmicos na cidade de Janjira, Japão, onde uma planta nuclear acaba sucumbindo e matando Sandra (Juliette Binoche), a esposa de Joe (Bryan Cranston) e mãe do nosso protagonista, Ford (Aaron Taylor-Johnson).

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Quinze anos no futuro. Ford (Aaron Jhonson) volta aos EUA depois de uma temporada servindo o exército como desarmador de bombas. Ele é recebido de volta pela esposa Elle (Elizabeth Olsen) e o filho Sam (Carson Bolde). O reencontro, no entanto, dura muito pouco. Ford recebe uma ligação e descobre que seu pai, Joe, foi preso no Japão ao tentar ultrapassar a barreira de quarentena de Janjira. Joe se tornou um ativista conspiracionista, ele acredita que o acidente de quinze anos atrás foi causado por alguma coisa que não um terremoto, e pior – os padrões estão se repetindo novamente.

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Joe e Ford conseguem quebrar a quarentena e entrar na cidade – apenas para descobrir que diferente do que foi noticiado, Janjira não está com níveis de radiação perigosos. Eles conseguem entrar na antiga casa da família e recuperar os discos que Joe acredita que provarão que o que aconteceu não foi um acidente geológico, mas acabam apreendidos pela empresa Monarch. Lá eles descobrem que a empresa para qual Dr. Ishiro e Viviene trabalham é responsável por investigar a ameaça conhecida como MUTO, a verdadeira causa da destruição da usina quinze anos atrás. A criatura, até então adormecida e se alimentando da energia nuclear da planta, acorda e sai de seu casulo, destruindo a base de operações e matando, dentre muitos outros funcionários, Joe Brody. É aí que os militares americanos entram e que conhecemos o Almirante Stenz. Pronto.

Agora nós já estamos aproximadamente uns trinta? Quarenta minutos dentro do filme? Talvez um pouco mais ou menos. Mas já conhecemos todos os personagens humanos que formam o núcleo principal da trama. Até agora são sete (se você não contar Sam Brody) personagens, dos quais três deles são mulheres. Parece um bom número – muito melhor do que a maioria dos blockbusters de monstros mais recentes. Mas número nem sempre quer dizer qualidade.

Sandra Godzilla

Sandra Brody morre nos primeiros dez minutos de filme. Ela tem a função de morrer e motivar o marido a perseguir a verdade custe o que custar, já que ele próprio se sente culpado por não ter conseguido salvar a esposa. É o bom e velho clichê da mulher na geladeira, exceto que neste caso Joe, o homem atormentado pela morte da mulher, também morre logo no começo do filme, deixando a morte de Sandra com ainda menos sentido. A personagem é usada para tornar Joe o gatilho, a pólvora que o plot precisa para que a história chegue de novo até Janjira e até o primeiro MUTO. Depois que isso acontece, Sandra é esquecida e seu clichê abandonado apenas para ser substituído por outro.

Elle Godzila

Com o passar dos anos e o retorno de Ford para o seio familiar, nós conhecemos a terceira personagem feminina do filme: Elle. A esposa e mãe que, por acaso, também é enfermeira – algo que nunca é nem remotamente utilizado pela narrativa do filme, já que a única coisa que ela faz dentro do hospital é usar o telefone e esperar pelo marido. Elle é o complemento do clichê masculino de Ford: quando Joe morre, ele diz para o filho que ele deve proteger a família a qualquer custoessa é a sua obrigação.

A intenção aqui não é retirar o valor nobre da ação de Ford, mas questionar o uso de clichês como esses. Enquanto Ford tenta a todo custo chegar a São Francisco e proteger sua família, Elle espera por ele dentro de uma cidade à beira da destruição. A única coisa sensata nisso tudo é mandar o pequeno Sam para um campo de refugiados. E essa ação revela um grande problema desse clichê para os personagens envolvidos – ele não faz sentido com quem Ford é. Ford é militar, e em momento nenhum durante o filme ele questiona as decisões militares de seus superiores; muito pelo contrário, também com o objetivo de proteger a sua família, ele se oferece para tomar parte em uma missão suicida. O que levanta a pergunta: se em momento nenhum Ford duvida da capacidade dos militares de resolver o problema, por que ele manda a mulher esperar com o filho dentro da cidade ao invés de mandá-los para um campo de refugiados, onde eles seriam cadastrados e, passado o problema, o encontro seria facilitado?

ford godzila 3

Porque nós precisamos de outro clichê: a donzela em perigo. Elle, que espera por Ford, é quase esmagada pelos escrombos de um prédio perto de uma das lutas entre o Godzilla e o MUTO. É preciso achar que a donzela está correndo risco de vida – e talvez esteja inclusive morta – para que o ato de Ford seja tão grandioso quanto puder. Mesmo sem saber se a família está segura ou não, ele ainda assim arrisca sua vida para salvá-los.
Bonito né?

Não. Acho chato e batido. Ford, junto a Godzila, é o personagem principal do filme. Ao seu redor estão seu pai, Dr. Ishiro, Elle e o Almirante Stenz. Tirando Elle, todos os outros personagens têm importância vital para que o plot do filme evolua. Joe foi o gatilho, aquilo que envolveu Ford na caçada ao MUTO, que o motivou a não parar até chegar à sua família. Dr. Ishiro é a fonte de conhecimento sobre os monstros, é dele que sai todo o backstory sobre os monstros, e que oferece uma alternativa ao ataque armado. O Almirante é tanto o homem das armas que as vezes é apresentado como opositor a Ishiro, como um homem cujo único objetivo é salvar a vida de civis. Elle é a esposa que fica esperando o marido, e cuja falta de ação própria quase lhe custa a vida.

vivienne godzila

Mas e a terceira personagem feminina? Ah, simVivenne Graham. A sidekick super inteligente. Vivienne é apresentada no começo do filme com ares de aprendiz, a parceira de Dr. Ishiro na busca por Godzila. Quinze anos depois, Vivienne continua com o mesmo papel. Apesar de ter talvez tanto conhecimento quanto Ishiro sobre o monstro, Viviene é constantemente reduzida às margens das ações e das decisões – que são tomadas todas por homens, claro. Uma cientista que podia muito bem ter uma participação maior na trama, mas sofre da síndrome de personagem secundário sem função.

Pode parecer exagerado (ah, como eu amo essa palavra ¬¬) mas por que motivo Ford Brody não pode ser Felicia Brody, do esquadrão anti-bombas? As mesmas motivações que movem Ford movem também “mães de família”. Você poderia até argumentar que uma mãe lutando para salvar sua prole talvez tivesse maior impacto com o público. No caso da idéia de um blockbuster de monstro ter uma protagonista feminina ser uma idéia um pouco liberal demais para você, por que Dr. Ishiro não poderia ser Dra. Ishiro? Por que manter as personagens femininas em papéis marginais e clichês?

Saindo do aspecto feminista da discussão, mas mantendo o foco na representação, outra coisa que me chamou atenção foi a falta de diversidade étnica no casting. Se você entrar no IMDB do filme vai ver que, com a excessão de Ken Watanabe, apenas o décimo nome do cast não é branco, e eles estão todos em papéis secundários e terciários. A única mulher negra tem apenas uma fala durante todo o filme, que é também a única vez que ela aparece em tela. O personagem cujo erro chama a atenção do MUTO para Ford sobre a ponte, enquanto eles tentavam levar as bombas para São Francisco, é latino e se encaixa no estereótipo do latino engraçado/incompetente. Fosse o filme mais preocupado com a representação, ele seria apenas mais um personagem -mas como ele é um dos poucos latinos com falas, esse clichê chama atenção.

A foto com a melhor definição que achei de um personagem secundário.

Matt Brown, do site Twitch, tem uma coluna semanal chamada Destroy All Monsters, em que ele fala bastante sobre as falhas relacionadas à diversidade e a representaação feminina nos filmes. A coluna dele sobre Godzilla trata de algo diferente, ele vê o filme como sendo unicamente do Godzila, em que os humanos são representados como formigas, com Ford ou sem Ford Godzila ainda teria ganharia a luta – os humanos são irrelevantes. Olhando deste ponto de vista a missão de Godzila como filme vai muito além do que eu tinha inicialmente interpretado. No entanto, por mais que este filme não seja de Ford, e os humanos sejam apenas as formigas perante a presença de um Deus, se o roteirista decide incluir uma história do ponto de vista desses personagens é importante que ela seja bem construída, interessante e preocupada com a representatividade.

godzilla roar

De maneira geral, Godzilla é um filme divertido. Se você gosta de sci-fi bem desenvolvido e com pelo menos um quê de discussão social (neste caso, a relação do homem com a natureza), Godzila com certeza vai lhe valer o dinheiro do ingresso IMAX. Os atores são todos muito bons, e por isso me entristece ver Julliett Binoche, Bryan Cranson e Elizabeth Olsen tão sub-utilizados.

juro. Ford Brody tinha um trabalho. Desde o começo do filme, estava bem claro que ele tinha que desarmar uma bomba no final do filme. Mas aí ele vai lá e dorme. You had one job, Ford. One Job.

=)