Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Filmes e Diversidade: uma reflexão sobre os anúncios da Marvel e da DC.

O dia ontem foi louco, heimFoi o dia de glória para o mundo nerd desavisado. O evento misterioso da Marvel jogou no colo da fangirl e do fanboy desavisado nada menos que NOVE filmes. Sim! Ainda nem nos recuperamos do levante de filmes que a DC/Warner anunciaram na semana passada e já estamos regorgizando na ressaca da avalanche Marvel. 

Eu posso ser chamada de chata por isso, mas neste momento de orgasmo nerd também é importante pararmos para analisar e refletir sobre o perfil dos filmes anunciados – e dos que vieram antes deles também.

O primeiro Blade foi lançado em 1998 e, de certa maneira, permitiu à Marvel começar a considerar se jogar no cinema de verdade. Foi ele que abriu as portas para os primeiros filmes do Homem-Aranha e dos X-Men. Protagonista negro e sucesso foram cartas que aconteceram na década de 90. O último Blade é de 2004 e nós vamos ver outro protagonista negro só em 2016, com Quarteto Fantástico. E em um filme solo só em 2017, treze anos depois de Blade: Trinity.

Para nós, mulheres, é momento de vitória. Semana passada tivemos a confirmação do filme da Mulher Maravilha, ontem recebemos a notícia linda de que Captain Marvel vai ser protagonizado por Carol Denvers. Finalmente recebemos os filmes de super-herói com protagonistas femininas que tanto sonhamos e merecemos. É lindo, é mágico e 2017 não vai chegar rápido o suficiente. Mas estamos em 2014 e o primeiro filme protagonizado por uma mulher vai sair só daqui três anos.

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Os primeiros filmes de super-heróis baseados em quadrinhos começaram a sair no começo dos anos 2000, final dos anos 90. Levando em consideração que o sucesso das adaptações realmente começou a disparar com o lançamento de X-Men, em 2000, foram catorze anos de filmes quase exclusivamente protagonizados por homens brancos para que filmes protagonizados por mulheres e por etnias não-caucasianas começassem a ser anunciados.

Não é que eu não esteja achando o máximo esses filmes, eu tô vibrando e passei o dia inquieta depois do anuncio. No entanto, tivessem sido anunciados dois, três anos atrás talvez eu não estivesse levantando essa reflexão. Dois anos atrás nós estávamos assistindo Vingadores (2012) no cinema, depois de termos passado por dois Homens de Ferro e um Thor. Esse teria sido o momento ideal para anunciar filmes protagonizados por mulheres e personagens não-caucasianos. Se tivesse acontecido antes, seria mais lindo ainda. Mas em 2012 a Marvel já tinha dado início ao seu caminho triunfal no estabelecimento do universo cinematográfico e, um ano depois estreou Agents of Shield, com Ming-Na como a única personagem não-branca do elenco.

black panther
Qual incrível é esse uniforme? *_*

Eu entendo que uma empresa tem receio em sair do “padrão” de sucesso que homens brancos heterossexuais são – a garantia de rentabilidade é importante quando você está tentando criar um universo como a Marvel estava fazendo. Talvez até aquele momento o anuncio de Capitã Marvel e Pantera Negra tivesse sido recebidos como ato de “coragem” e “visão”. A verdade é que mesmo hoje a notícia talvez também seja recebida assim – mas não é coragem e não é ser visionária, é atender uma demanda e largar mão de ser racista e sexista.

A DC tem uma história diferente. A grande maioria dos filmes feitos até então eram versões do Batman e do Superman – o que em si só já mostra o medo da editora em apostar em outros personagens. Tivemos The Flash no começo dos anos 90 e a série da Mulher-Maravilha na década de 70 . E só.

O anuncio do levante de filmes no último dia 15 era algo aguardado, mas a editora vêm dando passos mais desavisados e, me parece, descontrolados. A idéia de um filme da Liga da Justiça e do estabelecimento de um universo cinematográfico próprio é mais recente, e começou a ser levada a sério mesmo quando do lançamento do polêmico Homem de Aço (2013). Para muitos, inclusive para mim, parece que a DC está tentando formular o universo sem ter pensado nisso com muita antecedência, quase uma reação ao sucesso da Marvel no cinema. Nos dias de hoje teria sido loucura anunciar nove filmes sem que pelo menos um deles fosse da Mulher Maravilha e de um personagem negro.

Vale dar algum crédito a mais para a DC, já que o Ciborgue, por mais legal que ele seja, não tem a fama que os demais personagens da editora. Houve uma preocupação em tender a demanda, mesmo que tenha sido apenas por motivos de marketing. Ao meu ver, faria muito mais sentido lançar o Lanterna Verde com John Stewart como protagonista do que um filme do Ciborgue (ou que tal os dois?). Vale lembrar também que eles trocaram os cabelos loiros e nórdicos do Aquaman pelos traços nativo-americanos de Jason Mammoa – e eu falei em outro post sobre porque essas mudanças de etnia são legais e muito bem vindas.

captain marvel

A questão aqui é por que se levou tanto tempo para anunciar esses filmes? Foram necessários catorze anos para que realmente começasse a se escutar os apelos do público e a enxergar a sociedade com a pluralidade que ela tem – mas ainda não é o suficiente. Para os próximos seis anos temos 28 filmes de super-heróis marcados. Três deles serão protagonizados por mulheres (Mulher Maravilha, Capitã Marvel e um da parceira Sony/Marvel que ainda não foi anunciado quem é a personagem) e dois por homens negros, o que deixa um total de 23 filmes para equipes e protagonistas masculinos.

Eu gosto de ser positiva e acreditar que os filmes de equipe vão se preocupar em deixar de lado a mania de ter apenas uma mulher na equipe (Os Vingadores já aponta para isso, com Feiticeira Escarlate e talvez Capitã Marvel se juntando nos próximos filmes). Há também múltiplos personagens femininos e não-caucasianos que podem ser incluídos nos filmes de equipe, e as etnias podem ser invertidas. Mas mesmo assim falta, ao meu ver, coragem das produtoras de realmente tomar a dianteira e se mostrar aberta para as mudanças que a sociedade vêm exigindo.

Falei bastante sobre a falta de personagens femininos e não-caucasianos como protagonistas, mas um abismo muito maior se estabelece quando pensamos na representação LGBT. Eu sei que pra muita gente parece desnecessário, já que somos todos ou homens ou mulheres (há divergências nesse quesito, aliás), mas representação é o que faz todos nós nos sentirmos parte da sociedade, especialmente nma sociedade homofóbica, misógina, transfóbica e sexista como a nossa. Sei que a barreira LGBT ainda vai ser difícil de quebrar, mas o primeiro passo foi dado com a contratação de Ezra Miller como o novo Flash. Agora é aguardar, observar e exigir qual será o próximo passo.

Novamente, estou animadíssima com os novos filmes e a diversidade que vai aos poucos conseguindo se jogar no meio, e acho animal que as editoras e os estúdios finalmente tenham tido coragem de jogar esses filmes na roda – mas é importante também lembrar que ainda não é o suficiente, e que a gente quer e precisa de mais diversidade. Agora é sentar e esperar 2017 com o balde de pipoca e o laço da verdade na mão – talvez pra esse filme eu abra uma exceção e vá de cosplay para o pré-lançamento. 😉

Acho que a DC devia esquecer a Liga da Justiça e apostar num filme dos Superamigos.
Acho que a DC devia esquecer a Liga da Justiça e apostar num filme dos Superamigos.