Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Crítica | Mulher-Maravilha: Dentre Todos os Super-heróis, a Melhor.

Histórias de super-heróis caminham numa linha tênue entre o autoritarismo e o altruísmo. Os últimos filmes da DC nos cinemas por diversas vezes cruzam a linha para o lado do autoritarismo, sem prover, em profundidade, uma discussão sobre esse aspecto dos Super-heróis. Mas esses super-seres não foram criados para representarem um poder extremo e inalcançável, eles foram criados para serem símbolos de esperança, liberdade e empatia. E é exatamente por conseguir equilibrar esses três elementos, e também a discussão sobre autoritarismo, que Mulher-Maravilha sopra um fôlego novo nos filmes de super-heróis.

Uma das minhas maiores preocupações ao entrar na sala de cinema era como o filme retrataria a guerra. Diferente da Segunda, a Primeira Guerra Mundial tinha lados muito mais embaçados, sem um dos lados representar o mau absoluto, como o nazismo. Ela aconteceu por diversas razões, em diferentes territórios e por diferentes interesses políticos também. O filme consegue manter um certo equilíbrio nessa questão na maneira como questiona – e representa – os oficiais ingleses à quem Steve Trevor serve. Diana bate de frente com eles, demonstrando como o poder e a guerra estão diretamente ligados ao poder burocrático, que joga com a vida de soldados e civis de acordo com os seus interesses.

Diana representa o que há de melhor entre nós, ela tem empatia, inocência, garra, senso de justiça e, principalmente, ela é uma mensagem de esperança. Não só para o mundo dos homens, como para Temisciria. Se as amazonas já estão cansadas e marcadas pela guerra que as levou à ilha paraíso, Diana possui um senso de aventura e determinação que a torna não só a emissária perfeita, como também a heroína amazona que o mundo precisa. Diana não é um poço de niilismo e tragédia como o Batman e o Superman do universo cinematográfico da DC, ela é capaz de ver a tragédia, de empatizar de verdade com aqueles que sofrem, de querer ajudá-los e de se preocupar com o que vem depois de seus atos. Não é sobre o umbigo de Diana, não é sobre revanche, é sobre a humanidade.

E é exatamente por conseguir definir isso que o filme tem tanto sucesso na personagem. Aqui, Diana não sabe exatamente quem  ela é, nem qual é o seu destino no mundo dos homens e dos Deuses Ela segue seu coração, tenta fazer aquilo que lhe parece certo dentro dos preceitos e da moral que aprendeu com as Amazonas. E Diana tem muito coração, tanto quanto tem garra e coragem. Diana enfrenta seus desafios e, mesmo quando duvida de si e da humanidade, faz isso dentro de sua personalidade. Ela não é inconsistente, no fundo ela é humana.

Gal Gadot consegue passar todas essas camadas de Diana de maneira incrível, a atriz consegue acertar não só a postura de princesa guerreira, mas também o de uma garota que apesar de curiosa com um mundo novo, não compreende suas regras machistas e por vezes repugna muitos de seus aspectos. Fisicamente ela se impõe como guerreira sem que nos faça duvidar de todo o seu poder. Gadot consegue caminhar muito bem também no timing de comédia, nos momentos em que ela aparece. Uma das melhores piadas do filme acontece enquanto Diana e Steve vão embora de Temisciria e me fez gargalhar alto no cinema.

Para os que estavam preocupados com Steve tomar muito tempo de tela, podem relaxar. O papel do espião é muito semelhante ao de um guia, ajudando Diana a transitar pelo universo desconhecido que é a sociedade moderna da época. Ele também não tem oposição nenhuma em ser liderado ou mesmo protegido por Diana, entendendo muito rápido que é ela quem possui as habilidades e o poder para liderar. Ainda assim, para aqueles que estavam preocupados com uma possível emasculação do personagem – ele vai muito bem, obrigada.

Existem alguns fatores que eu gostaria de ter visto de maneira diferente no filme. Apesar de haver Amazonas não-brancas em Temiscira, e de algumas delas possuírem lugares de destaque, ainda assim não é o suficiente. Os companheiros de Diana no mundo dos homens não são todos brancos, e levanta-se a questão de como isso influencia ou influenciou a vida deles mas, de novo, fica a sensação de que podíamos ter tido mais. Eu espero que nos próximos filmes da MM nós vejamos mais sobre Temisciria, já que passamos a maior parte do tempo entre as guerreiras. Seria incrível descobrir uma variedade de mulheres que existem dentro da ilha – eu aposto que elas não são todas atléticas e muito menos brancas. Seria também interessante que os próximos filmes abordassem a questão da sexualidade das amazonas, algo que não é nem de leve tocado no filme.

Etta James (Lucy Davis), amiga da Mulher-Maravilha, apesar de assumir um papel de liderança na missão, também merecia mais espaço do que lhe foi dado – ela por pouco não cai no estereótipo da mulher gordinha e alívio cômico (o fato dela ser gorda nunca é utilizado como punchline). Eu entendo, do ponto de vista histórico, que os companheiros de Diana tenham sido homens. Mas acredito que o filme, que é sobre uma princesa amazona com super-poderes vinda de uma ilha paraíso, podia ter tomado mais liberdade história e ter substituído pelo menos um dos companheiros de Diana, por uma mulher.

Connie Nielson (Rainha Hipólita) e Robin Wright (General Antiope) estão maravilhosas em seus papéis. Connie consegue mostrar Hipólita como uma mãe, uma guerreira, uma rainha e uma mulher marcada e cansada de guerras. Wright foi um acerto em cheio na escalação para Antíope, tanto fisicamente como com sua atuação. O filme abraça a idade das duas mulheres, usando isso para criar personagens ainda mais complexas do que se esperaria com o tempo de tela que elas tem. De maneira geral as mulheres de Mulher-Maravilha são fabulosas, não só porque são amazonas, mas porque o filme as permite expressar sentimentos sem que a natureza guerreira delas tente, de alguma maneira, envergonhar esse lado humano que, muitas vezes, seria considerado um sinal de fragilidade. Sentir e empatizar são as palavras chaves de Mulher-Maravilha, e isso é maravilhoso.

Patty Jenkins, diretora do filme, mostra um controle incrível sobre as cenas de ação. Mesmo quando usa um recurso tão batido quanto slow-motion, ela o faz com um sentido narrativo. Na cena em que Diana invade uma sala com inimigos, e que aparece já no trailer, cada slow-motion serve para mostrar um aspecto das habilidades de Diana – seja sua força, sua destreza ou a avalanche de poder que ela carrega em seu corpo. Tanto as cenas nas trincheiras, quanto a grande cena de ação final, caminham junto com a temática de liberdade e poder do filme, e são momentos em que a diretora se permite também discutir um pouco mais sobre esperança e autoritarismo.

Talvez um diretor homem não teria permitido que suas personagens femininas tivesse o nível de complexidade que as amazonas ganham no filme. Talvez elas tivessem sido apenas vasos vazios de significados, mas cheios de força e sensualidade. Diana não é hipersexualizada em momento nenhum durante o filme, e é muito óbvio, através do trabalho de câmera e enquadramento, que fez toda diferença ter uma mulher como diretora do longa.

Mulher-Maravilha é, hoje e na minha opinião, a melhor representação do que um super-herói deveria ser. Capitão América talvez divida essa posição com ela, mas Diana é algo novo e de um ponto de vista diferente, um ponto de vista que ao mesmo tempo que promove uma ação épica também se preocupa em manter um super-herói como um símbolo de esperança, de empatia.

Depois de anos escondida dentro do mito da “personagem difícil de ser adaptada”, Mulher-Maravilha chega finalmente aos cinemas como uma história de origem, uma história que precisava e merecia ser contada. Ao final do filme eu me peguei querendo saber como Diana iria reagir e superar os acontecimentos finais do longa, qual será o arco maior da personagem, espero que Liga da Justiça consiga continuar desenvolvendo um pouco isso. Depois de anos de espera, a experiência de ver a MM chegar às telonas é catártica, mas é também um sinal de esperança. Um ponto de força, empatia e luz em nossos tempos tão sombrios.

Mulher-Maravilha chega nesta quinta, 1º de Junho, aos cinemas.

O relacionamento abusivo entre a Arlequina e o Coringa

Esquadrão Suicida estreia essa quinta-feira. Depois de muitas pessoas empolgadas, polêmicas, muitas cenas e informações “vazadas”, finalmente veremos o resultado final. Eu já comentei algumas vezes o quanto certas coisas divulgadas do filme tem me incomodado.

Há muitos debates sobre a sexualização da Arlequina, desde a roupa que ela usa no filme até enquadramentos de câmera mostrados no trailer. Mas hoje especificamente eu gostaria de falar sobre outro aspecto ao redor da personagem da Arlequina que tem sido muito comentado ultimamente.

Antes do filme do Esquadrão Suicida começar a ser produzido, já tínhamos discussões sobre o relacionamento da Arlequina com o Coringa. Muitas pessoas romantizam essa relação como se fosse algum exemplo perfeito de amor no meio nerd. Com o lançamento do filme se aproximando, muitos ainda insistem em falar que, apesar de complicado, é um relacionamento em que os dois se amam independente de qualquer coisa.

Esse texto é para explicar que não há romance nesse relacionamento, é abuso.

O relacionamento abusivo existe quando uma das pessoas tenta ter o poder sob a outra. A pessoa abusiva busca controlar as ações do parceiro, tem um comportamento possessivo e machuca a outra no processo, podendo ser psicologicamente ou fisicamente. A Arlequina passa por tudo isso durante seu relacionamento com o Coringa, tanto nas animações quanto nos quadrinhos e romantizar isso como “complicado, mas que se amam” é um desserviço.

A Arlequina apareceu pela primeira vez no Batman durante a série animada, em 1992, como uma ajudante do Coringa. A personagem fez tanto sucesso e os criadores ficaram tão encantados com o resultado final que Arlequina acabou aparecendo mais vezes. No quadrinho Mad Love (Amor Louco) nós ficamos sabendo a origem da personagem, que já mostra como realmente era a relação entre ela e o Coringa.

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Tá Tudo Errado em A Piada Mortal.

Texto escrito em colaboração por:
Brendda Lima, Clarice França e Rebeca Puig

A Piada Mortal é uma graphic novel, lançada em 1988, famosa por contar como se deu origem do Coringa no conturbado universo do Batman. Mas também  é conhecida pela forma como os autores Allan Moore e Brian Bolland abusaram do tropo “Mulheres no Congelador” ao transformar a sidekick Batgirl em vítima de um tiro que a deixou paraplégica, seguido de estupro, para motivar uma virada na história dos dois protagonistas da história.

Embora seja considerado uma obra genial por boa parte do público que produz e consome quadrinhos, A Piada Mortal colabora para a normatização a inferiorização da mulher ao utilizar o estupro como “recurso narrativo”, e isso é um dos principais pontos que fizeram a gente aqui do Collant, assim como tantas outras leitoras, questionar a necessidade de se adaptar para o cinema essa obra tão controversa.

O medo era de que uma adaptação quadro a quadro, como ela vinha sendo anunciada, iria apenas vitimar a Batgirl, e novamente jogar na geladeira a personagem Barbara Gordon, que já tinha se reinventado de uma maneira super legal como Oráculo, liderado o Esquadrão Suicida, as Aves de Rapina e se tornado, atualmente, uma das maiores detetives do universo Gotham.

Apesar desse receio, nós realmente não imaginamos que podia ficar muito, muito pior.

A Piada Mortal muda a relação entre Batman e Batgirl, promovendo um envolvimento sexual entre os personagens. Os criadores tentaram colocar panos quentes no assunto, no entanto, dizendo que fariam um prólogo para tornar Bárbara o foco central da história, desenvolvendo-a como personagem excitante que ela era de maneira à não vitimá-la novamente. Mas o que vimos foi a insistência de colocar Batman e Batgirl num tipo de relacionamento complicado, em que os dois deixam seus sentimentos pessoais se misturar com o trabalho de vigilante, e a representação de uma heroína que é traída pelos seus sentimentos.

Essa não é a primeira vez que Bruce Timm fala da relação entre Batman e Batgirl em suas adaptações. Em “Batman: A série animada”, Bruce e Bárbara também tem um breve romance bizarro e em “Batman: Beyond”, nós ficamos sabendo que ela chegou a ficar grávida de Bruce, mas acabou perdendo o bebê. É incrivelmente sintomático numa industria dominada por criadores homens a utilização de envolvimentos sexuais como motivações para desenvolvimento de personagens.

Mas os problemas de representação feminina não param ai. No prólogo, Batgirl/Bárbara Gordon só fala sobre o Batman; Sobre como ele não admite que ela é a melhor aluna que ele já teve; Sobre como ele não pode dizer o que ela pode ou não fazer; Sobre os sentimentos que ela tem por ele e os sentimentos que ele talvez tenha por ela; Sobre como ele não pode impedí-la de ir atrás “desse” vilão, sobre como foi só sexo pelo amor de deus. Porque de que outra maneira o público iria se identificar com a Bárbara se ela não estivesse envolvida com o Batman?

Seria engraçado, se não fosse deprimente conhecer essa Bárbara quase escandalosa, que grita no telefone “Foi só sexo, pelo amor de deus”, e que agride com um golpe de judô um cara que está reclamando, de maneira grosseira para sua namorada que está sempre grudada nele, que ele quer espaço.

Essas atitudes não só fogem completamente da personalidade da Bárbara dos quadrinhos, como também ajudam a perpetuar a ideia de que mulheres são descontroladas emocionalmente, que não sabem separar o profissional do pessoal e como bem disse Marcy Cook no The Mary Sue, acaba caindo numa narrativa de empoderamento através da violência e da dominação:

Essa não é uma cena empoderadora, é só Babs sendo fisicamente abusiva, agindo numa maneira ainda pior do que namorado tinha agido. Mulheres não precisam ser abusivas para serem empoderadas. Isso é o empoderamento por dominância masculino, não uma mulher empoderada. Escritores (homens) muitas vezes não entendem a diferença.

Não é que personagens mulheres não possam ser violentas, mas aqui isso é colocado como estereótipo e um “empoderamento” falso, inclusive com espaço para a piada de que a Batgirl devia estar de TPM.

Além de mostrar Bárbara como “descontrolada”, o roteiro ainda hipersexualiza a personagem. Não só Batgirl é a única que aparece tirando a roupa, mas o vilão da primeira parte do filme a objetifica a todo momento e Bárbara acha “fofo”. Depois de tudo isso, ainda temos um ótimo exemplo de mansplaining (ou homenxplicação) quando Batman dá uma bronca em Batgirl por não perceber que está sendo objetificada. Bárbara é tratada por Bruce como “criança” o filme todo, como se ela não fosse uma mulher capaz de tomar as próprias decisões.

Mostrar a Batgirl como “centro” da história para reduzi-la a esses estereótipos não é empoderador, apenas reduz a personagem. Além de toda essa caracterização que enfraquece Bárbara, parece que todo esse suposto “desenvolvimento” da personagem só foi colocado no começo para servir de motivação para o Batman. O filme mostra Bárbara como “romance” e usa o abuso do Coringa como combustível para o herói derrotar o vilão. Não é empoderador, é ruim e batido mesmo.

O filme termina com um epílogo em que Bárbara parece ter assumido seu papel como Oráculo. Talvez, se eles tivesse optado por deixar apenas essa cena e não fazer o tão mal construído prólogo, ela sozinha já ajudaria a apaziguar o problema em torno de A Piada Mortal. Mas a verdade é que só a existência dessa cena já é uma injustiça, não com Bárbara, mas com os autores que realmente criaram a Oráculo. A Piada Mortal nunca quis criar a Oráculo, nunca teve a intenção de iniciar um arco com uma super-heroína deficiente e as dificuldades que ela teria com a nova realidade. Como bem lembrou o Kieran Shiach, do Comics Alliance, foram John Ostrandre e Kim Yale, na revista do Esquadrão Suicida, que re-apresentaram Barbara como uma hacker que ajudava a equipe, criando um plot para a personagem que mostrava que deficientes físicos podem ser super-heróis, que não são incapazes e que não são descartáveis.

Durante a SDCC desse ano, quando a equipe foi questionada sobre esses estereótipos, Brian Azzarello xingou um fã o chamando de “pussy”, que em inglês é um xingamento bem misógino. Ou seja, um dos escritores de uma animação que deveria “empoderar a Batgirl” é misógino com o público. Isso não só pega muito mal pra DC, como mostra que sua equipe criativa precisa melhorar muito.

Talvez se a DC decidisse incluir mais mulheres escritoras em suas obras o resultado seria diferente, mas enquanto eles não estiverem dispostos a mudar sua abordagem com as personagem mulheres, continuaremos vendo esses estereótipos que só empobrecem a narrativa. Então não, A Piada Mortal não empodera Batgirl e não fala de poder feminino, só conseguiu deixar uma história que já era machista ainda pior.

Batgirl 50. Arte de Babs Tarr.
Tá difícil, Barbs. Tá difícil.

 

As personagens que nos marcaram | Dia Internacional da Mulher

Hoje é dia internacional da mulher, um dia que vai muito além das flores e dos chocolates, é o dia para lembrarmos porque lutamos e discutimos todos os dias pelas questões feministas. Uma das coisas que mais falamos aqui no Collant é a questão da representatividade, sempre pedimos mais espaço para mulheres, reais e ficcionais, no mundo nerd, porque sabemos como isso é importante. Todas nós aqui do Collant nos sentimos representadas por alguma personagem ficcional, então nós decidimos fazer uma lista com algumas dessas personagens maravilhosas que mudaram a forma como nós vemos a posição da mulher, o feminismo e a sociedade.

Docinho | Meninas Superpoderosas – Tempestade | X-Men – Elizabeth Bennet | Orgulho e Preconceito (Rafaela Lopes)

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Docinho: marcou minha infância por ser a primeira personagem com a qual me identifiquei em relação à personalidade.
Tempestade: se eu me via na Docinho por causa da personalidade, na Tempestade eu me via na cor. Além de ser uma das personagens mais badass dos HQ’s
Elizabeth Bennet: Orgulho e Preconceito foi meu livro favorito durante toda a adolescência, Elizabeth é rebelde pra uma mulher da sua época. Sem falar que há muita influência da construção das personagens escritas depois dela.

Mulher-Gato | Batman (Maria Celina Gil)

Entendam, Celina é um nome incomum. E quando você é criança, os comentários costumam ser “eu tenho uma tia chamada Celina” ou “nossa, mas é o nome da minha avó”. Não é muito legal. Daí eu descobri Selina Kyle (na época, eu mal sabia escrever e o nome se pronuncia igual). Sério, tem alguma coisa mais legal no mundo do que ter um herói com seu nome? Tem: TER UMA VILÃ COM SEU NOME. A primeira versão da Mulher-Gato que eu tomei contato foi a do Batman Animated (1992). Além de maravilhosa (porque, sim, eu achava e ainda acho a Mulher-Gato uma das personagens mais lindas de todas) ela era divertida e independente – alguém manda nessa mulher? Ela dava altas voltas no Batman quando estava de Mulher-Gato e dava vários xingos em empresários imbecis quando estava de Selina. Eu amava o quanto ela era irônica com todo mundo (antes de eu saber que aquilo chamava ironia) e o quanto ela sempre conseguia fazer tudo dar certo pra ela.  Mas o que eu mais adorava nela é que ao mesmo tempo em que ela era uma ladra de joias, ela também comprava brigas pra salvar animais em extinção. E eu sempre achei incrível que ela fosse meio vilã, meio mocinha. É até hoje uma das minhas personagens favoritas.

Isabela | Dragon Age 2 (Clarice França)

Aposto que ninguém está surpreso por eu ter pego uma personagem de um dos meus jogos favoritos, mas não é só por amar Dragon Age não, é porque a Isabela é muito importante pra mim. Ela é uma mulher negra e bissexual, uma pirata muito conhecida e que conseguiu escapar de um relacionamento abusivo com um homem que foi forçada a se casar. Apesar de parecer seguir a filosofia do “cada um por si”, ela se colocou em perigo para salvar um grupo de escravos e no jogo aparece em vários momentos ajudando seus amigos e pessoas que precisam.

O que mais me atrai na personagem é o quão confiante ela é e a sua autoestima. Eu sou uma pessoa que passei anos me colocando pra baixo e só recentemente comecei a conhecer o tal do amor próprio, mas sempre que eu ficava mal comigo mesma o pensamento “O que Isabela faria?” passou pela minha cabeça. Ela não tem medo de falar sobre sua sexualidade e muitas vezes é julgada por inúmeros personagens, mas quando perguntam se ela não se incomoda com os comentários, ela responde: “Eles não me conhecem, eu me conheço”. A amizade dela com a Merrill, outra personagem do jogo, pra mim sempre mostrou muito a questão da sororidade.

E se você ainda não acha que ela é uma personagem maravilhosa, em certo momento do jogo ela fala sobre como era ser a capitã de um navio cheio de piratas homens e como é difícil conseguir respeito deles sendo mulher, daí ela solta uma frase que vira e mexe eu uso “Você precisa trabalhar o dobro pra ganhar metade do respeito”. Dragon Age tem inúmeras mulheres incríveis, mas quando penso em uma que seja um modelo pra mim, eu penso na Isabela.

Barbara Gordon | Batgirl (Brendda Lima)

Não lembro exatamente se comecei a gostar da Batgirl pela série animada do Batman ou pelo Filme Batman e Robin, mas foi pra descobrir mais sobre ela que eu comecei a ler os quadrinhos do Batman. Algum tempo depois tive um choque quando li a piada mortal e vi que nem mesmo as super heroinas estão livres de serem abusadas por homens. Sinto um aperto no peito toda vez que lembro das cenas.

Mas a Barbara foi mais forte. Mesmo em cadeira de rodas provou que podia continuar lutando contra o crime, como Oráculo. Se recuperou, reassumiu o posto de Batgirl, e protagoniza um dos quadrinhos que mais coloca questões de gênero na narrativa dos Super Herois.  

Lilja | Para Sempre Lilja (Carolina Ferreira)

Quando eu tinha 19 anos, um amigo meu me aconselhou a assistir a um filme chamado Para Sempre Lilja, que, segundo ele, era “muito muito pesado, mas muito bom”. Acabei pegando o filme emprestado com ele e assisti em casa. De fato — era pesado demais. Desculpa dar spoilers, mesmo que o filme já seja um pouco velho, mas em resumo é uma história tristíssima de uma garota russa, abandonada pela mãe aos 16 anos, e que acaba sendo sequestrada e transformada em escrava sexual.  O filme não me marcou pela personagem de Lilja em si, mas por mostrar de forma tão crua a realidade de tantas meninas e mulheres que passam pela mesma situação, praticamente sem nenhuma chance de sair, de levar uma vida normal.

Nessa época, eu já tinha tido alguns momentos de “hmmm, calma, tem alguma coisa errada” em relação à posição da mulher na sociedade, mas tudo de forma muito vaga — minha ideia era simplesmente evitar as coisas que me pareciam injustas, tipo: trabalhar para nunca ser dependente de um marido ou namorado, tomar muito cuidado andando sozinha na rua, correr o mais longe possível de qualquer estereótipo, enfim, essas coisas. Porque as agressões, as injustiças sociais, os estereótipos, e tudo aquilo que faz com que a mulher tenha uma posição secundária e oprimida na sociedade me parecia evitável individualmente. Eu não tinha a mínima ideia da opressão sistêmica; não tinha a mínima ideia de que sim — você pode tentar evitar a opressão individualmente, você pode tentar “não ser como aquelas meninas que…”, mas não vai adiantar nada.

Assistir Para Sempre Lilja foi um primeiro passo para destruir todas essas pré-noções, porque o que acontece com a Lilja é injustificável, horrível, e absurdamente comum. Saí do filme com um sentimento péssimo de impotência por não poder fazer nada por garotas como a Lilja, e com a certeza de que sim, havia algo muito errado na forma em que a sociedade via e tratava mulheres — como se a vida, a saúde e o bem-estar delas fosse menos importante do que o desejo masculino. Acho que foi um momento decisivo para me tornar feminista, alguns anos mais tarde.

Ayla | Os Filhos da Terra (Renata Alvetti)

Aos 16 anos, conheci Ayla, uma menininha cro-magnon de 5 anos vivendo em vales do leste europeu 9.000 anos atrás. Nas primeiras páginas de uma saga de 6 livros, Ayla perde os pais em um terremoto e é encontrada por um grupo de Neanderthais. Ela é mais inteligente, ágil e evoluída que eles. Ela não compreende os papéis sociais extremamente limitantes para mulheres dessa comunidade e sofre muito para se encaixar.

Os livros foram escritos pela socióloga Jean M. Auel e foram essenciais para meu desenvolvimento como mulher. Talvez juntamente com Morgana de Brumas de Avalon, Ayla me ensinou sobre ser uma mulher que deseja e ama sexo, e como isso é natural em todas nós, e como jamais deveria ser condenável. Na saga “Os Filhos da Terra”, eu pude aprender como foi uma sociedade sem a noção de pecado e culpa cristã, e como mais livres era as mulheres por conta disso. Até hoje, tenho uma certa vontade de viver naquela época (ignorando o fato de todos viverem em cavernas, temendo o inverno e sem tomar banho por semanas a fio).

Ayla por si só, é uma mulher fascinante, humana, com falhas, mas extremamente talentosa. Se você conhecer os livros, entenderá quando eu digo: “essa mulher mudou a pré-história”. E mudou minha vida também. Obrigada Ayla.

Liga da Justiça: Deuses e Monstros – Por que ainda ligamos personagens femininas a casamentos?

Liga da Justiça: Deuses e Monstros, produzido por Bruce Timm e dirigido por Sam Blabla, re-imagina a tríade clássica da DC com diferentes origens e uma visão adulta, sombria e muito mais violenta. O filme tem a estética clássica de Bruce Timm, mas decepciona no que diz respeito à construção de personagens.

No filme, Superman foi gerado dentro da nave que o trouxe à Terra. O processo todo é um pouco confuso, já que aparentemente tudo que precisa para se fazer uma criança kriptoniana é o DNA de duas pessoas, mas o básico é que o DNA de Lara se mistura com o DNA de Zod, não de Jor-El. Já na Terra, Superman é adotado não pelos Kents, mas sim por uma família de imigrantes que estava cruzando a fronteira. E é aqui que a coisa fica um pouco problemática para mim.

YEP. Continuo achando esse uniforme da MM equivocado e feio.
YEP. Continuo achando esse uniforme da MM equivocado e feio.

Essa versão de Superman dá headshots de visão de calor nos seus inimigos, ele os mata sem pestanejar e acredita estar fazendo a coisa certa. Quando questionado por Lois Lane sobre os seus métodos (eles não são um casal, a repórter despreza a Liga da Justiça), Superman diz que conhece a dureza e a dor, porque ele cresceu numa família de imigrantes, e é por isso que responde da maneira que responde às ameaças. Não me entenda mal, eu sei que a vida de imigrantes nos Estados Unidos é difícil, muitas vezes vivendo à margem da sociedade e passando por todo tipo de dificuldades, mas sério mesmo que optaram por justificar a brutalidade desse Superman nele ser imigrante? Me perguntei se não seria uma crítica ao modo como o governo americano lida com imigrantes, muitas vezes deportando e os deixando em uma situação de perigo ainda maior, mas Superman tem um relacionamento amistoso com o governo, o que ajudou na impressão de que é só uma escolha equivocada de construção de história pregressa. A intenção pode ser a melhor de todas, e é legal ver um personagem poderoso como uma representação latina (já que ele foi criado dentro de uma família latina), mas a escolha por essa narrativa em particular deixa um gosto amargo.

Batman, por sua vez, é Kirk Langstrom, físico brilhante que acaba se tornando um vampiro depois de tentar se curar de um câncer com uma mistura da sua pesquisa com a de seu colega, Magnus. Essa versão do Batman mata e consome o sangue de seus inimigos, mas possui um forte elo com Magnus e sua esposa, Tina, colegas de faculdade que o ajudaram na sua transformação e que continuam a procura de uma cura para o amigo. Não há nada de especialmente problemático no passado de Kirk, mas serve para mostrar um paralelo com o de Bekka, a Mulher Maravilha desse universo.

Bekka é uma Nova Deusa, ex-noiva do filho de Darseid, que fugiu de seu planeta após o massacre comandado por seu pai contra a família de seu noivo. Oh boy.

Bekka e Orion, erupções vulcânicas e romance em Apokolips
Bekka e Orion, erupções vulcânicas e romance em Apokolips

É legal ver uma outra personagem assumir o manto de Mulher Maravilha, sempre pode ser interessante ver outra perspectiva de uma personagem clássica. Mas por que a história pregressa dela precisava ser sobre casamento e amor? Eu sei que essa é a história clássica da Bekka dos quadrinhos, e é também uma história de traição, e eu também sei que Kirk é apaixonado por Tina. Mas por que precisavam escolher logo essa personagem? Por que logo esse acontecimento? O que me decepciona nessa Mulher Maravilha, é que a personagem clássica tem em sua origem essa desconexão com o clichê tradicional de amor/família/casamento. Sim, Diana é em alguns momentos apaixonada por Steve, mas isso não está na sua origem, não é o que a definiu como super-heroína. No caso de Bekka é sua relação (de uma noite, diga-se de passagem) e o modo como ela é tragicamente encerrada que a define.

Eu gosto de romance, e quando ele é bem feito e cabe dentro de arcos interessantes de história e de personagem, melhor. Mas nesse caso me parece uma oportunidade perdida já que histórias sobre mulheres raramente não estão ligadas com amor, família e casamento. Por que essa Mulher Maravilha não poderia ter um passado que envolvesse traição, guerra e outros planetas sem que isso envolvesse um marido? Por que não fazer dela a herdeira do trono que é traída pelo pai e por isso precisa fugir? Por que não uma cientista que criou uma tecnologia poderosa demais para entregá-la ao seu governo? Casar, amar e ter um marido não são necessariamente elementos negativos da narrativa feminina, mas utilizá-los na única personagem feminina central da sua história, é.

Durante uma luta-treino com Steve, Bekka diz que não pertence a homem nenhum, a que Steve reponde a lembrando que ela um dia pertenceu a alguém. Primeiro que Steve é um canalha por jogar a informação que foi obviamente dita num momento de intimidade na cara de Bekka só porque está com o ego ferido, segundo que essa é a pior escolha de palavras do filme inteiro.

A espada de Bekka, presente de casamento de Orion.
A espada de Bekka, presente de casamento de Orion.

Não bastasse a história clichê, o uso do termo pertencer é tão ou mais problemático que todo o resto porque caímos na visão da sociedade de que quando uma mulher está com um homem, ela o pertence. Parece algo pequeno, mas isso também é uma objetificação da figura feminina que a abstém de controle sobre si mesma. Casais reais comumente dizem que um pertence ao outro, mas quando isso é representado na mídia o termo é raramente usado da mesma maneira. Quantas vezes você viu um herói dizer que pertence à alguém? Pois é. Pensando no que o título de Mulher Maravilha representa, uma mulher forte, independente e guerreira, é com certeza uma escolha equivocada de palavras.

Na época em que os curtas que antecedem o filme foram lançados eu comentei que estava ao mesmo tempo decepcionada e feliz com a personagem. Parte da minha decepção é que enquanto Batman e Superman são personagens sombrios por causa de seus atos, o que há de sombrio na Mulher Maravilha viria da sua sexualidade. Depois de ter assistido ao filme, e agora pensando na origem da personagem, ela realmente não está em pé de igualdade com seus colegas masculinos. Eu não estou dizendo que a história da Mulher Maravilha não é legal, apenas que ainda espero pelo dia em que vão  criar uma personagem feminina realmente sombria sem precisar apelar nem para a sexualidade, nem para o clichê do casamento.

E se era para ter um personagem sexy e com backstory romântico, porque não juntar mais esse clichê e fazer do Superman um Latin Lover? 😛

Collant no Youtube – Ser Nerd Na Semana Passada S01E03

Problemas técnicos definem, mas saiu o Ser Nerd Na Semana Passada – e apesar de sair agora no final dessa semana é na verdade sobre a semana passada.
Trava língua.

https://youtu.be/4F4xLrMvuYQ

A gente discute:
0:40 – Ava Durvaney que não vai dirigir Pantera Negra e nós estamos tristes. E também sobre o que esperamos do filme do Pantera Negra e especulamos porque a negociação não fechou. =
1:52 – Definimos que a presença do gato Darth Vader vai ser presente ou quebrando coisas, ou miando ou fazendo aparições. Oo
4:28 – WE COULD HAVE HAD IT AAAAAAAAALL. =\
8:18 – Super analizamos as fotos do Batman Lego vs Superman – e nos divertimos horrores. 😀
22:14 – Comentamos algumas revistas do line-up de Marvel pós Secret Wars. 🙂
27:54 – Nenhuma mulher quer trabalhar com o Steven Moffat.

http://bit.ly/1gr5a4D

Bruce Timm acerta com a Mulher Maravilha.

Semana passada eu comentei sobre como Bruce Timm errou feio a mão com a Arlequina no primeiro curta pré-lançamento de Liga da Justiça: Deuses e Monstros. Hoje tô aqui pra dizer que os erros com Arlequina continuam, mas que o último curta, estrelado pela Mulher Maravilha, é bem diferente.

A gente sempre discute aqui no collant que um dos principais problemas com a sexualização dos uniformes de super-heroínas está no fato de que a sexualidade das personagens nunca são trabalhadas a favor delas, e sim a favor do olhar masculino, diminuindo a personagem à uma idealização sexualizada.

Captura de Tela 2015-06-12 às 17.41.54

Muitas das personagens femininas oriundas dos quadrinhos de super heróis passam por esse problema. A Mulher-Maravilha é uma das poucas a ter a sua sexualidade atrelada à ela desde a sua criação, já que em sua origem ela foi criada exatamente para discutir sexualidade e gênero, tendo inclusive simbolismos de BDSM no seu uniforme clássico. Infelizmente, como acontece tanto no mundo dos quadrinhos, ao longo dos anos a personagem foi perdendo essa força de discussão e passou muito tempo sendo desenhada e transformada em mais uma personagem feminina em que a sexualidade não lhe pertence, mas sim ao leitor/espectador. Mas Bruce Timm parece ter acertado no que tantos (inclusive ele) erraram.

No curta, MM está bem evidentemente em controle de sua sexualidade, o que é muito legal e ajuda o quesito “sexy” da roupa dela fazer sentido. Eu continuo achando o design feio e continuo tendo certeza de que tomara que caias com decotes até o umbigo estão infinitamente longe de serem a escolha certa quando você desenha uma super-heroína. A roupa da Arlequina, no entanto, continua não fazendo o menor sentido. E hey, a Mulher-Gato de Timm tá aí para provar que sexy não quer dizer partes do corpo à mostra.

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Eu devo dizer que eu ainda estou com o pé atrás, no entanto. Por mais que eu tenha gostado do curta da Mulher Maravilha, tanto o do Batman quanto o do Super-Homem mostram versões realmente mais sombrias dos heróis, enquanto no caso da MM o sombrio fica por conta da sexualidade dela. Mulheres ainda sofrem muitos estigmas com o que diz respeito à sua sexualidade, sendo constantemente reduzidas a isso, por isso me incomoda um pouco que os personagens masculinos tenham tido uma mudança de personalidade para o sombrio, então o que aconteceu com a MM me parece ter sido uma volta às origens acima de tudo. MAS isso tudo falando sobre os curtas. Vamos esperar o filme para ver como isso vai ser trabalhado.

Além disso tudo, vale dizer que a atriz que dubla a voz da Mulher Maravilha é Tamara Taylor, atriz negra que me deixou querendo ainda mais que tivesse mudado a etnia da personagem para esses filmes. A Tamara está no ar em Bones, como a cientista chefe da equipe do seriado. Teria sido uma mudança muito bem vinda se, assim como com o Superman, a gente tivesse visto uma mudança de origem e etnia na Mulher Maravilha.

Kill it With Fire: Bruce Timm, Mulher Maravilha, Arlequina e quando um gênio falha.

O mercado dos quadrinhos de super-heróis vem passando por muitas mudanças nos últimos anos – para dizer o mínimo. Uma delas é que nós, leitrAs, estamos exigindo cada vez mais e melhor representação dentro desse universo que tanto gostamos. Algumas das melhorias que queremos, e que está constantemente em discussão, diz respeito aos uniformes das heroínas e vilãs.

Logo que foi lançado, o nome uniforme da Mulher Maravilha causou uma revoada de reclamações machistas vindas inclusive de profissionais da área. Muitos homens reclamaram que é um absurdo mudar o uniforme clássico por causa de feministas – sempre acusando de conservadoras e policiais do politicamente correto quem acha um disparate uma mulher lutar contra super-seres usando um maiô tomara que caia (eu ADORO quando dizem que querer igualdade e melhor representação é conservadorismo).

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Apesar de considerar o uniforme antigo um clássico, e de inclusive gostar do design, tomara-que-caia nunca foi blusa nem pra andar de ônibus em rua esburacada – quem dirá lutar contra exércitos alienígenas ou legiões de super-vilões. Já fui apaixonada por um uniforme anterior da MM, desenhado por Jim Lee e que tinha a malfadada jaquetinha. Eu adoro a jaquetinha. Sei lá, vai ver é a fangirl 90’s dentro de mim. O fato é que tanto o de Lee, quanto o mais recente, são uniformes que fazem muito mais sentido dentro do corre-corre diário de uma super-heroína.

Com calças, camisa justa de gola alta, o tradicional corpete e ombreiras de metal, o novo uniforme da Mulher-Maravilha mostra o quão longe do ideal o design da roupa da amazona em Batman vs Superman está. Eu não odeio o uniforme do filme de Zack Snyder, mas não consigo entender como é que aquela saia aconteceu. Parece que alguém disse “Zack, acho que a gente devia tentar algo diferente do maiô. Algo mais prático” e Snyder respondeu “vamos fazer uma saia com um recorte na altura das coxas. Tipo a sunga do Tarzan, mas não é sunga, é saia”. ¬¬

Eis que surge a nova versão da Mulher-Maravilha, re-imaginada por Bruce Timm para o universo paralelo em que seu novo filme, Liga da Justiça: Deuses e Monstros acontece.

Ache o problema nessa imagem (tirando o ângulo bizarro que estou optando por não comentar).

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Se você pensou “tomara que caia com decote profundo”, você acertou. Eu estou optando por ignorar o horrendo adereço de cabeça da amazona, já que além de ser feio ele não parece servir para muita função.

Olha, eu adoro o Bruce Timm. Batman: A Série Animada, foi o meu desenho favorito quando criança (junto com X-Men), e continua sendo um dos favoritos depois de adulta. Eu tenho toda a série em DVD, também tenho Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites. Amo Batman Beyond. Eu adoro o design de Timm, o traço com uma pegada retrô-futurista é um dos meus favoritos. Todas as personagens femininas dele são lindamente desenhadas, desde a Mulher-Maravilha até a Hera Venenosa. Mas não estamos em 1991, nem em 2000. Estamos em 2015, e se você tem a oportunidade de re-imaginar a personagem que é a maior representação feminina dentro dos quadrinhos – porque por mais que você não goste muito dela não tem como negar que a MM é a super-heroína mais conhecida – você não coloca ela num collant branco, tomara que caia e com uma fenda que desce até o umbigo. Você simplesmente não faz isso.

todos

Liga da Justiça: Deuses e Monstros tem uma pegada mais sombria (Zack Snyder mandou um alô), com histórias mais pesadas e personagens totalmente reinventados. Batman é um vampiro, Superman cresceu numa família de imigrantes com um pai violento (¬¬) e por isso é mais propenso à violência, e a Mulher Maravilha é a esposa do novo deus Orion (nos quadrinhos, um dos filhos de Darkside). Como ainda não assisti ao filme não quero fazer juízos sobre essas descrições, mas vale nota o fato de que Superman criado pelo casal branco americano com um pai amoroso é um cara muito legal e menos propenso à violência, e que a origem da única personagem feminina do filme sentiu a necessidade de casá-la para talvez justificar seu lado mais sombrio. Tá sendo difícil não achar isso ruim, mas vou esperar o filme ser lançado para discutir isso mais a fundo.

[Nota da autora: algumas pessoas vieram me avisar que a Mulher Maravilha na história não é Diana, e sim Bekka, que tem origem Asgardiana. Quando escrevi o texto não senti a necessidade de falar sobre isso porque a origem Asgardiana, e o fato da MM não ser a Diana, em nada altera o fato do uniforme dela ser péssimo e da origem dela ainda me preocupar. Honestamente, acho que já que iam alterar a personagem sob o manto da Mulher Maravilha ia ter sido muito mais animal ver uma personagem não-branca do que mais uma mulher branca. Mas ok.]

Não bastasse tudo isso, ontem saiu o curta pré-filme Twisted, protagonizado pelo Batman e em que ele encontra uma versão da Arlequina que atinge níveis de psicopatia completamente impensáveis para a versão tradicional da personagem – mas esse não é o meu problema. Particularmente acho que se um cara como o Bruce Timm chega para você e diz “quero fazer uma versão tão sombria quanto Seven – Os Sete Pecados Capitais da Liga da Justiça” você responde “MAS COM CERTEZA”. Quanto à violência e às cenas MUITO PESADAS do curta, e que possivelmente se repetem no longa, acho que contanto que o filme seja direcionado à um público não infantil, ok. Não sou muito à favor do excesso de violência, e essa “pegada mais sombria” não me agrada e acho que está constantemente tentando disfarçar um trabalho mal feito. Mas sabe, é o Bruce Timm. MAS, quando em 2015, esse mesmo cara resolve colocar a Arlequina numa calcinha branca com cinta-ligas você fala “então Timm, o que que tá pegando?”

OH LORDE WHY?
OH LORDE WHY?

Timm sempre fez muito uso dos designs clássicos de personagens – inclusive é dele a fantasia mais icônica da Arlequina. Suas personagens femininas sempre foram interessantes, sexys e em Liga da Justiça ele construiu uma Hawkgirl tão complexa que a tornou a minha personagem favorita. Mas você não sexualiza uma personagem nesse nível sem justificativa. Será que é realmente tão difícil assim colocar pelo menos um shorts na personagem?

Assistindo ao curta não há absolutamente nada de sexual sobre a Arlequina nessa versão – ela é uma garota com óbvios problemas relacionados à família, mas nada que aparentemente justifique ela estar de calcinha BRANCA, corpete meio aberto e cinta-liga. Ela é completamente louca? Sim, mas em momento nenhum a sexualidade dela é mostrada de maneira a representar parte da personalidade da vilã. É a sexualização pela sexualização. Sem contar que a calcinha tem babadinhos o que remete à uma infantilização da personagem e acho que só isso já dá para problematizar infinitamente.

Ela está assustadora? Sim. Mas também está desnecessariamente sexualizada.
Ela está assustadora? Sim. Mas também está desnecessariamente sexualizada.

Não interessa o quão genial você é, se você não consegue perceber o que está acontecendo ao seu redor, ou se recusa a aceitar as mudanças você vai ficar obsoleto. A história do filme pode ser incrível, e eu posso estar gigantemente errada nas minhas preocupações com as origens da Mulher Maravilha e do Superman, mas já estou com os dois pés atrás por causa dos designs desses uniformes e por causa do modo como a Arlequina foi representada.

“Mas são só uniformes”, dirão os desavisados.

Experimenta sair na rua de corpete e calcinha e vê o que acontece. Aliás, experimenta ser mulher e sair na rua – ponto. Ao sexualizar uma personagem apenas porque você acha legal e sabe que os fãs gostam desse tipo de representação punheteira, você está se recusando a aceitar que aquilo que você coloca no papel ou na tela faz parte de um sistema que alimenta a cultura do estupro e vitima tanto a mulher que assisti ao filme quanto às mulheres que trabalham ao seu lado.

Gal Gadot responde às críticas machistas sobre seu corpo.

Ser mulher no mundo nerd apresenta todo tipo de dificuldade, seja você criadora, seja você crítica/comentadora, seja você personagem, seja você atriz interpretando personagem. Lembro que quando a Scarlett Johanson foi escalada como Viúva Negra muita gente caiu em cima da coitada porque ela não tinha o corpo certo, porque ela era loira, porque ela era “muito gostosa”, porque ela não parecia forte o suficiente. O excesso de preocupação com a aparência da personagem feminina nas adaptações é tão grande que antes mesmo do filme entrar em produção a equipe do O Fantástico Homem-Aranha teve que soltar uma nota dizendo o quão surpresos eles estavam por descobrir que o cabelo da Emma Stone, que interpretou a Gwen Stacy, era, na verdade, loiro! Fãs podem ser cansativos.

wonder woman

A última a receber uma saraivada de comentários negativos quanto à sua aparência ser inadequada para o papel foi Gal Gadot, que dá vida à Mulher-Maravilha no próximo filme da DC, Superman vs Batman. Deixando de lado o quão horroroso é esse nome de filme, Gal tem sido vítima do ódio nerd desde que seu nome apareceu como possível candidata. Por ser magra demais, por ser branca de menos, por ser modelo demais, por ser musculosa de menos, por ser branca de mais, Grega de menos. Por não ter os olhos azuis e por não ter o cabelo cacheado o suficiente. A verdade é que Gal nunca foi suficiente para ser a Mulher-Maravilha aos olhos dos fãs.

Eu entendo que a gente guarda com carinho aquele desenho tradicional dos nossos personagens – entendo mesmo. Mas é incrível como com mulheres essa discussão toda toma um nível ridiculamente exacerbado. Quase ninguém gosta do Ben Affleck como Batman porque ele é o Ben Affleck, tiram sarro do queixo furado dele, mas isso não define o ator. Henry Cavill foi criticado por ter pelos no peito, mas fora não houve grande alvoroço sobre a sua escalação. Gadot, por outro lado, tem aguentado um mar de críticas objetificantes.

Recentemente, a interprete da amazona comentou durante uma entrevista

“Eles disseram que eu era muito magra para o papel e que meus seios eram muito pequenos [risos]… Depois de terem me perguntado, aqui em Israel, se eu tinha distúrbios alimentares e o porque de eu ser tão magra – eles disseram que minha cabeça era muito grande e meu corpo era como uma vassoura – eu posso aguentar qualquer coisa. É só conversa vazia. Eu entendo que parte do que estou fazendo significa estar exposta, e parte de estar exposta significa ficar sob fogo direto.

Quando eu era mais nova eu encarava críticas muito mal, mas agora a maioria delas só me diverte. A verdadeira amazona tinha um único seio para não atrapalhar com o arco. Então não é como as amazonas de verdade, a gente sempre tenta deixar todo mundo feliz, mas não conseguimos.”

 Acho ótimo que ela esteja falando abertamente sobre as críticas. Sou muito a favor de que a representação feminina não fique só dentro do padrão magro que Hollywood impõe, mas também não acho que criticar a atriz por estar dentro desse padrão é o caminho correto – até porque essas críticas, em sua imensa maioria, não vêm para questionar esse padrão, e sim para diminuir a atriz. As críticas devem ser direcionadas à quem impõe esses limites, essas diretrizes do que é bonito e vendável.

Wonder-Woman-Gal-Gadot

 Aliás, quando Gal fala sobre as Amazonas originalmente não terem um dos seios, me lembrou o modo como fanboys adoram usar esse argumento numa tentativa de diminuir e descredibilizar a Mulher-Maravilha. O que mais dá em grupos de facebook e discussões sobre a personagem é gente jogando essa informação, tentando passar como grande conhecedor de mitologia, mas na verdade diminuindo a personagem.

A Mulher-Maravilha é um símbolo de empoderamento e, particularmente, acho que ela tem a força necessária para o papel. Agora nos resta esperar o lançamento de Down of Justice para saber o que realmente importa: o que a atriz trouxe para o papel e como o roteiro trabalha a personagem.

via Robot Underdog