Cinco Garotas Adolescentes que Viajaram no Tempo!

A cultura pop está recheada de histórias sobre viagens no tempo. O que aconteceu no passado pode ser mudado? E o futuro, podemos mudá-lo também? Quais as consequências disso? Devemos evitar as grandes tragédias das gerações anteriores, ou deixar a história seguir o seu rumo? Todas essas perguntas aparecem em diferentes situações por um monte de universos ficcionais. E a gente adora!

Apesar de adorar trama com viagens no tempo uma coisa sempre me incomodou: são poucas as mulheres que realmente fazem esses passeios. Quando falamos sobre garotas adolescentes então, fica ainda mais difícil achá-las, mesmo em YA’s de sci-fi! Ainda assim, existem algumas garotas adolescentes que fizeram essas viagens não apenas como acompanhantes, mas como agentes centrais da história e de mudanças. Compilei algumas delas numa listinha que tem garotas viajantes do tempo para todos os gostos.

Kitty Pride – Dias de Um Futuro Esquecido

Em uma das fases mais clássicas dos X-Men, e que inspirou o último filme da franquia, Kitty Pride vivem num futuro distópico onde os mutantes estão presos em campos de concentração. Kitty então transfere a sua mente para uma versão mais jovem de si mesma e com a ajuda dos X-Men precisa evitar um momento crucial e fatal que serviu de estopim para a histeria anti-mutante. Tecnicamente é a Kitty adulta que viaja, mas como toda a ação principal acontece enquanto ela é adolescente, entrou na lista! Quando a história foi adaptada para o cinema ao invés de mandar a mente dela mesma, Kitty mandou a mente de Wolverine de volta para o Logan da década de 70.

Aqui no Brasil a Panini lançou a versão em quadrinhos (que você consegue comprar aqui), e a Novo Século lançou a novelização da saga (que você consegue comprar aqui).

Kate – Trilogia Chronos: Viajantes do Tempo

Imagina descobrir que a sua avó é uma viajante do tempo. E não só isso, que ela nasceu no futuro, de lá trouxe a tecnologia e que os segredos da sua família podem não só te transformar numa viajante no tempo, mas também te tornar responsável por impedir um desastre eminente? Kate é determinada a conseguir – e descobrir – tudo que ela quer, mesmo quando todos a sua volta aconselham o contrário. Mas como estamos falando de viagem no tempo ela precisa tomar muito cuidado para não alterar não só o futuro como conhecemos, mas para não apagar a sua própria existência. Chronos é um YA cheio de aventura, mistérios e romance!

O livro Chronos: Viajantes do Tempo, da autora Rysa Walker, é o último lançamento da DarkSide Books no selo Darklove. Você pode comprá-lo aqui.

Hagome/Kagome – Inuyasha

Imagina que um dia você cai, sem querer, num poço e quando se dá conta está na Idade Feudal Japonesa, uma era em que mulheres tinham ainda menos direitos e que, pra piorar tudo, está infestada por Yokais (demônios)? Eu pularia de volta no poço para nunca mais voltar, mas como Hagome não sou eu, ela não só fica num eterno ir e vir como também leva o almoço que a mãe dela faz para os amigos de outra era e assume uma posição central na luta contra os yokais. Inuyasha é bastante centrada no personagem título, mas eu sempre achei formidável o modo como Hagome caminha livremente entre uma era e outra, sem grandes preocupações e sempre correndo imenso risco de vida.

Puella Magi Madoka Magica

Eu não vou revelar qual personagem viaja no tempo porque esse é parte do mistério do anime, mas eu vou sempre pegar qualquer oportunidade para indicar um dos melhores desenhos que eu assisti em muito tempo. “Sailor Moon da bad infinita” é, talvez, o melhor resumo do que é Madoka Mágica. Uma série de garotas mágicas com uma pegada bem mais violenta, um tom mais macabro e realista, e uma animação inovadora, Madoka traz viagem no tempo como um recurso de narrativa que ajuda a sustentar a inevitabilidade trágica que é ser uma Garota Mágica em um universo que não é gentil como o da princesa da lua.

Você consegue assistir Madoka Magica no Netflix Brasil.

Max – Life is Strange

Depois de salvar acidentalmente a colega Chloe da morte, Max percebe que tem o poder de viajar no tempo. Inicialmente as viagens duram poucos segundos, que ela usa para mudar pequenos eventos, mas a medida que o jogo vai avançando, os poderes dela também vão aumentando. Max é uma adolescente introvertida e com poucos amigos, mas as escolhas do jogador acabam gerando mudanças nela e em suas relações. Ela entende a responsabilidade que tem com esse poder, mas acaba entrando em varias situações, inclusive algumas que saem de seu controle, culminando em decisões complexas. As escolhas de Max afetam tanto a sua vida, quanto a vida das pessoas ao seu redor, sendo que cada pequeno evento mudado pode alterar completamente a linha do tempo em que ela se encontra.

Life is Strange está disponível para Playstation, XBox e PC.

Consegue se lembrar de mais alguma garota adolescente que saiu por aí mexendo pelo tempo? Manda pra gente nos comentários!

Até mais! 😉

Este post é um oferecimento da Darkside Books.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Longa Viagem A Um Pequeno Planeta Hostil | Ficção-Científica, Diversidade e Representação.

Texto por Rebeca Puig e Clarice França

Uma das coisas engraçadas da ficção científica é como parte dos autores acaba reverberando conceitos tradicionais de sociedade, relacionamentos e protagonismo. Imagina-se que exatamente por serem sci-fi, essas obras deveriam abraçar a liberdade criativa que o gênero permite. Mas, em vez disso, é muito comum ver valores morais e sociais considerados retrógrados hoje presentes em obras de temática contemporânea. De certa forma, isso acabou me afastando um pouco de autores atuais, exatamente por insistirem em um conceito de narrativa e personagens conservadores.

 

Outra coisa que o sci-fi tem dificuldade de criar/representar, principalmente no cinema, são alienígenas que não se encaixem no conceito humano de beleza física ou mesmo que tenham uma cultura com moralidade diferente da nossa, humana. Quando vemos um alienígena que não é bípede, que poderia ser confundido com um inseto ou mesmo com um lagarto, ele muito provavelmente é um vilão ou capanga do vilão principal. É engraçado que, dentro de um universo tão gigante, com tantas possibilidades em química, biologia e física, nós só consigamos mostrar como positivo aquilo que é parecido com um bípede mamífero de inteligência mediana.

 

Talvez por isso eu tenha ficado tão encantada com a diversidade e a qualidade da representação dentro de A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. Becky Chambers já começa com o básico, buscando equilibrar o gênero dos personagens dentro da Andarilha, a principal nave do livro. A tripulação, contando a I.A., é composta por nove sapientes – quatro mulheres, quatro homens e um sapiente não binário, o Doutor Chef. Além de ser quantitativamente uma visão mais igualitária, essa decisão de equilibrar os números mostra que esse não é um universo ficcional em que vou ser obrigada a, mais uma vez, ler sobre a disparidade entre os gêneros humanos. Não, sapientes femininos, masculinos e não binários não são discriminados por causa de gênero.

 

Além disso, se analisarmos mais de perto os personagens, podemos ver que temos uma variedade interessante de personalidades, culturas e valores morais, sem que nenhum deles seja considerado errado ou transgressor.

 

Um dos elementos que mais me deixou feliz com o livro foi o modo como o futuro da sociedade humana é apresentado, e como podemos ver isso muito bem através do capitão da nave, Ashby. Em outros livros do gênero, teríamos Ashby como um capitão militarizado, arma na cintura, quarto de armas no fundo da nave, um herói de aventura como Mal, de Firefly. Mas Ashby é o oposto disso, ele acredita verdadeiramente que não precisa ser violento ou usar força física para ser o capitão de uma nave como a Andarilha; pelo contrário, ele repudia armas e é muito consciente quanto à capacidade humana de se corromper diante do perigo e da insegurança. No universo de Chambers, os humanos precisaram encarar sua inferioridade intelectual frente às raças alienígenas, aceitaram suas diferenças, olharam para toda a destruição que criaram e aprenderam a ser melhores. Além de ser uma representação masculina que não cai no tropo da masculinidade tóxica, o capitão da Andarilha é uma visão esperançosa de como nós, como sociedade, podemos evoluir.

 

A nave possui quatro humanos a bordo, entre eles Jenkins e Rosemary. Quero destacar esses dois porque eles possuem elementos que normalmente não são representados dentro do sci-fi, especialmente Space Óperas. Rosemary é negra, de origem rica, uma personagem que chega à Andarilha cheia de mistérios, mas que possui, só nessas duas características – ser negra e rica – uma história que pouco é usada pela cultura pop de maneira geral. Além de tudo isso, claro, Rosemary é uma personagem interessante, um tipo de novata espacial, o que a torna a nossa personagem de entrada no universo, outro fato quase inédito quando falamos de personagens femininas e negras.

 

Jenkins é outro personagem que, enquanto eu ia descobrindo mais sobre sua história, mais interessante ficava a visão da autora sobre o que a humanidade poderia se tornar no futuro. Jenkins é anão, não por mágica, mas por ter nascido assim. Em um futuro em que todo tipo de alteração e aprimoramento genético está disponível, descobrir por que ele chegou à idade adulta sem ter recorrido a eles, o papel de sua mãe nisso e o nível de fanatismo a que o ser humano consegue atingir foi um dos pontos altos do livro. Além de ser uma representação pouco vista – um humano anão e negro -, Jenkins é responsável por trazer dois temas muito pertinentes sobre nosso futuro: Quanto nós podemos ou devemos interferir geneticamente numa criança, e o que nos torna humanos: carne ou inteligência? Sua amizade com Lovely, a inteligência artificial da nave, é mostrada de maneira natural, ao mesmo tempo levantando questões válidas sobre até que ponto seres sapientes podem bancar Deus e criar uma vida nova. É a partir de Jenkins que surgem as questões do livro mais eticamente complexas.

 

Sissix é a personagem que pilota a nave. Ela é uma aandriskana, bem diferente dos humanos, tanto nos costumes quanto na aparência. Os aandriskanos demonstram afeto de forma física muito mais aberta que outros, além de terem vários núcleos familiares. Entre os aandriskanos, a família que eles escolhem estar, que cuida deles durante seu crescimento, é mais importante que a família de sangue. Além disso, Sissix é uma das representações mais positivas na ficção de personagens com relacionamento poliamoroso. Pessoas que optam por relacionamentos não monogâmicos ainda são mal vistas em nossa sociedade, e os poucos personagens da ficção que se encaixam nesse modelo são considerados vilões ou não confiáveis. Com Sissix, temos uma personagem complexa, com uma família muito amorosa e relacionamentos fortes que não se encaixam em nosso padrão mais conservador, e esses aspectos nunca são usados para diminuir a personagem. Talvez, de todas as pessoas da Andarilha, seja Sissix  a que tem a maior estabilidade familiar e de relacionamento. Ao contrário do que podem imaginar acerca das pessoas que optam por relacionamentos parecidos com os de Sissix, através da personagem vemos que ela entende perfeitamente que nem todo mundo é obrigado a tomar as mesmas decisões que ela. Felizmente, quando Sissix se envolve romanticamente no livro, em vez de ela mudar seu jeito pelo “verdadeiro amor”, vemos que as pessoas respeitam e aceitam seus costumes.

 

Outro personagem interessante para a diversidade do livro é Dr. Chef. Ele conta para Rosemary sobre sua raça, os Grum. Para eles, o gênero é algo que muda ao longo da vida, eles começam como mulheres, passam a se identificar como homens e em seus últimos anos se entendem como não binários. Em nenhum momento ele é questionado sobre isso, desrespeitado ou desmerecido pela maneira como entende seu gênero. A dúvida de Rosemary em relação ao assunto existe por ela ser nova no espaço e não conhecer muito sobre as outras raças, mas a partir do momento em que aprende passa a chamar Dr. Chef da maneira que o personagem prefere.

 

Além da variedade, um dos grandes acertos do livro é fazer que essas questões de representatividade não sejam o ponto principal do arco dos personagens. É óbvio que é interessante uma história em que uma mulher vence em uma sociedade machista, mas Becky Chambers construiu um universo inteiro no futuro em que os problemas são outros. O arco de Rosemary nunca é sobre ela ser uma mulher negra. Para nós, leitores, isso é importante, porque não vemos isso com frequência, porém pessoas que não se encaixam no padrão da sociedade também possuem outras questões além daquilo que os torna uma minoria. É muito bom ler um livro com personagens tão diversos no qual eles podem ser mais do que apenas um elemento, em que os problemas de sua vida são relacionados a todo tipo de questões que você encontraria em um protagonista padrão.

 

Há outros personagens que valem a pena ser notados. Kissy é uma engenheira, uma função que normalmente vai para o personagem homem. Corbin é o único que faz um comentário racista no livro, e é imediatamente repreendido por sua atitude. Becky Chambers usa o gênero de ficção científica da melhor forma possível para mostrar que as histórias podem ter muito mais que o homem padrão, que os conflitos não precisam ser clichês e que há valor e oportunidade quando estamos abertos para a diversidade. Há inúmeras possibilidades de construção de personagens, ainda mais na ficção científica, e todo mundo que insiste em uma narrativa e em personagens conservadores tem um pouco a aprender com Becky Chambers.