Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Valquíria é bissexual, mas Thor: Ragnarok não te diz isso

Eu já começo esse texto com um tom de irritação, como vocês podem perceber. O bom e velho desapontada, porém não surpresa.

Tessa Thompson, atriz da Valquíria em Thor: Ragnarok, declarou no twitter que sua personagem era bissexual no filme, assim como no quadrinho. Eu não li nenhum dos quadrinhos de Thor e fui pega de surpresa, então quando finalmente fui assistir ao filme, fiquei de olho em qualquer coisa que pudesse indicar a sexualidade da personagem. Como uma pessoa que está exausta de procurar detalhes que indiquem qualquer tipo de representação LGBT+ na mídia, eu estava preparada para pegar os detalhes, e depois falar sobre como isso não é o suficiente, porque não é.

Há apenas uma cena, em certo momento, que se você tiver boa vontade, pode imaginar que talvez indique que Valquíria tinha um relacionamento com outra mulher. São segundos e, como eu disse, exige boa vontade, porque podia simplesmente não ser nada.

Há algum tempo, li essa entrevista da Tessa Thompson falando mais sobre o assunto. A atriz diz que falou com o diretor, Taika Waititi, sobre a personagem ser bissexual e eles fizeram uma cena em que, em certo momento, dava para ver uma mulher saindo do quarto de Valquíria, que daria a entender que elas tinham passado a noite juntas. Waititi manteve a cena o máximo que pode, mas eventualmente teve que cortar porque “distrairia o público da revelação vital naquela cena”.

Eu me pergunto como alguns segundos de uma mulher saindo do quarto de Valquíria atrapalharia qualquer coisa no filme. Alguns momentos que seriam o suficiente para nos fazer entender que a personagem é LGBT+, o que seria ótimo, considerando que a Valquíria é uma personagem com um arco interessante e que de várias formas foge de estereótipos.

Não conheço todo o trabalho de Waititi, mas dou o benefício da dúvida. Por outra matérias que li dele, imagino que o diretor de fato tentou manter a cena, mas considerando que estamos falando da Marvel, que ainda precisa caminhar muito no ponto de vista de diversidade, não me surpreenderia que ordens de cima tivessem cortado essa cena. Nós simplesmente não podemos ter coisas legais.

Esse episódio é apenas um dos inúmeros exemplos de como a representatividade LGBT+ é vista, como algo que não precisa ser falado e, se precisa, que seja por algo fora do produto em si, ou com um subtexto que deixa aberto à interpretações. Não ia atrapalhar em nada essa, ou outra cena, que mostrasse a sexualidade de Valquíria. Nós raramente temos uma personagem bissexual com tanto destaque, em uma franquia grande como essa. O fato de que é algo que podia ser resolvido de forma simples é o que acaba me incomodando mais.

Sim, a cena que Valquíria estende a mão para a companheira de batalha, para mim, indicava que elas eram amantes de alguma forma. Em parte por como a cena foi construída, mas também porque eu estava procurando qualquer indício para ver a sexualidade da personagem. Mas isso sou eu, pessoa que não só está treinada para procurar essas coisas, mas também que está cansada de ter que fazer isso. Para o resto do público, seria muito mais interessante se eles deixassem esse fato exposto de forma mais óbvia.

Eu não culpo ninguém especificamente por essa decisão, qualquer pessoa que tenha algum contato com área de entretenimento sabe que, se alguém acima de você diz não, é não. Também não posso medir o quanto Waititi poderia ter interferido nessa questão, o fato dele ter topado ouvir Thompson me parece um bom sinal, mas infelizmente não vimos isso no corte final. Personagens LGBT+ precisam ter a mesma chance de expressar sua sexualidade na mídia como pessoas hétero têm por tantos anos.

Nada disso muda o fato de Valquíria ser, além de uma personagem incrível, uma mulher bissexual, e eu vou fazer questão de não deixar ninguém esquecer, ainda mais quando a atriz fala de forma tão abertamente e feliz sobre isso. Mas é Marvel, vocês perderam a chance de fazer algo muito legal. Era simples e fácil, mas o conservadorismo ainda falou mais alto.

Thor: Ragnarok | Crítica

Havia uma boa expectativa para esse novo Thor. Taika Waititi é um bom diretor, os trailers estavam agradando aos fãs, o filme parecia que ia abraçar a comédia e, até certo ponto, o brega. Independente de gosto pessoal, é uma fórmula que boa parte dos fãs da Marvel tem gostado cada vez mais.

Thor está tentando impedir o Ragnarok. Depois que descobre que Loki está no lugar de Odin, ele e o irmão vão até a Terra buscar o pai. O problema é que Hela, a deusa da morte e filha mais velha de Odin, aparece. Agora Thor e Loki terão que impedí-la de tomar Asgard e destruir todo o seu povo. Essa crítica não tem spoilers.

O tema que as pessoas mais tem falado é o quão engraçado o filme é. Todo mundo sabe que a Marvel sempre puxa o humor, além de que todo mundo já deveria saber que piadas e humor não faz um filme bom ou ruim. No caso de Thor, especificamente, o humor sempre ajudou. O segundo filme é o que puxou mais para o lado do sério e também o que menos funcionou. Um dos grandes acertos de Thor: Ragnarok é abraçar esse aspecto de não se levar a sério demais.

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Mãe! | Crítica

Mãe! é um filme que tem dado o que falar nos últimos tempos. Aparentemente, é impossível sair do cinema sem uma opinião forte, você ama ou odeia. Antes de chegar na minha opinião pessoal, vou procurar fazer a crítica mais objetiva possível. Por enquanto, não vou falar de nenhum spoiler.

De fato é complicado falar sobre o que o filme é sem estragar a experiência, mas basicamente: Jennifer Lawrence, a mãe, (os personagens não têm nome, então vou usar o dos atores algumas vezes) mora nessa casa, no meio do nada, junto com seu marido, Javier Bardem, um poeta que está há algum tempo sem conseguir escrever. Mãe está reconstruindo a casa, que foi queimada e fez o marido perder tudo. Eles aparentemente vivem bem, até que Ed Harris, que é médico, chega na casa e é convidado a ficar lá pelo poeta. Mãe não fica feliz, e as coisas pioram quando a esposa do médico, Michelle Pfeiffer, também chega na casa.

Assim como a mãe, nós estamos perdidos nos inúmeros acontecimentos que vão acontecer ali. A câmera sempre acompanha Jennifer Lawrence, às vezes parado em seu rosto, outras vezes mostrando o que ela está vendo. Um dos grandes pontos positivos do filme é a atuação de Jennifer Lawrence, que coloca a emoção necessária em cada cena, dando movimento inclusive para momentos que são mais longos do que precisariam ser. As atuações como um todo se destacam, por mais que em boa parte do filme você não entenda porque os personagens agem de determinada forma, a atuação é o que faz o passo do filme não se perder.

Por outro lado, os personagens não tem profundidade. Sim, eu sei que há todo um significado por trás da história do filme e da identidade daqueles que estamos vendo, mas em termos de arco do personagem, a maioria deles termina no mesmo ponto em que começaram. Eles não passam de peças para o significado final da obra, o que até funciona, porém não vai além, não vemos mudanças e quando elas parecem que vão acontecer, principalmente com a protagonista, a personagem apenas volta para o ponto de seu arco que estava no começo.

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Death Note | Crítica

Quem acompanha o Guardiãs da Pipoca provavelmente já sabia que eu achava essa adaptação uma ideia péssima. Eu não sou contra adaptações em geral, eu acho que elas podem ser ideias legais, expandindo a história da mídia original para outras pessoas conhecerem também, isso sempre tem potencial de ser bom. Mas desde o primeiro momento, quando apareceu o whitewashing, minha boa vontade com o filme já não existia.

O Yo Ban Boo tem um vídeo ótimo sobre o whitewashing em Death Note, eu recomendo que vocês assistam. Basicamente, não há nenhuma justificativa boa para o ator ser branco e, como eu falei em um programa da rádio, Death Note é uma história com traços orientais bem marcantes, a começar pelo Ryuk ser um shinigami, então o mínimo era que Light fosse interpretado por um ator descendente de orientais. “Ah, mas se passa nos EUA” e desde quando não tem descendente de oriental nos Estados Unidos? E não me venha com “Ah, vai ver esse Light fez o melhor teste no casting” porque cara, se esse era o melhor que eles tinham, a coisa estava bem difícil.

Death Note é um manga de 2003, a adaptação para anime chegou em 2006. Nele, o estudante Light Yagami, um dos mais inteligentes do Japão, encontra um Death Note (Caderno da Morte). Esse caderno pertence a Ryuk, um shinigami entediado que resolve largar seu caderno no mundo dos humanos. Quando Light se dá conta de que ele de fato pode matar pessoas, ele decide aceitar aquilo como uma missão para eliminar do mundo todas as “pessoas ruins”. No começo são criminosos, mas depois elas viram qualquer um que entre em seu caminho.

Esse começo da crítica do filme será sem spoilers e depois eu entro em detalhes.

A minha vontade era de fazer o título da crítica, colocar “é ruim” e terminar o texto. “Ah, mas você acha isso porque não é fiel, adaptação não precisa ser fiel” sim, eu sei, eu tenho um texto falando exatamente sobre isso. O erro das pessoas é acharem que as adaptações precisam ser iguais ao original. Elas não precisam, cada mídia tem sua particularidade e, se é pra ver a mesma história, não tem porque fazer um produto novo.

E quer saber? Death Note da Netflix acerta em algumas mudanças. Eliminar a segunda metade do arco original, por exemplo, é a melhor coisa que eles poderiam ter feito. Os fatos principais do manga/anime que eles escolheram manter foram também boas escolhas, considerando que eles iam resumir toda a história da primeira metade do original para uma hora e meia. O problema é: Há um ponto extremamente básico para uma adaptação que eu falo no meu outro texto sobre o assunto: O filme precisa ser bom e Death Note da Netflix não é.

Ele tem momentos divertidos. Imagino que, para quem não conhece, certas demonstrações do poder de Kira são impressionantes. Mas não importa quantas cenas de tensão eles coloquem, não é tão simples esconder furos de roteiro, ainda mais quando eles estão em praticamente o filme todo. Os personagens tomam certas decisões apenas pelo fato de que a história precisa disso naquele momento. Coisas que qualquer pessoa com senso comum saberia que é uma má ideia, como por exemplo contar para uma pessoa que você mal conhece que você é um assassino. Há alguns diálogos de exposição bons, outros são bem forçados.

Os personagens me dão uma impressão mista. Eu consigo entender porque Light decide usar o caderno pela primeira vez, mas a construção dele não me convence, além do ator deixar a desejar em vários momentos. A história me diz que ele é um aluno brilhante, mas a única ação que eu vejo disso, tirando uma das viradas do final, é ele fazendo a lição de casa de todos os alunos. A partir disso, Death Note quer muito me convencer de que esse moleque é inteligente, mesmo que dez minutos depois ele conte para alguém que mal conhece que é um assassino (eu não vou superar isso). Ele toma várias atitudes burras, sendo inteligente só quando é conveniente para o roteiro.

Ryuk é divertido em alguns momentos, e até funciona em certas horas, mas o filme nunca se dá ao trabalho de me explicar porque Ryuk largou seu caderno no mundo dos humanos. Aliás, no começo há uma grande pista de que o shinigami bem terrível, uma ponta solta que nunca vai ser tratada de novo no filme. L começa bem, a atuação dele é melhor que a dos outros, o personagem está excêntrico e certas conclusões dele fazem sentido, mas tem outras que não, desculpa, não me interessa o quão inteligente o cara é, simplesmente não dá para assumir certas coisas, e o desenvolvimento dele no longa é bem descuidado.

Mia teve algumas mudanças até que interessantes. Ela não é a garota bobinha do original, completamente manipulada por Light. Eu gostei que Mia é mais inteligente no filme, muitas vezes ela mesma manipulando o Light. Isso é bem longe do original, e eu entendo que muitas pessoas sentiram falta de, nessa relação dos dois, não vermos o quão malvado Light pode ser, mas eu já vi inúmeras vezes a personagem mulher considerada burra sendo manipulada, então isso não foi de todo ruim. O que é má construção de personagem é eu ainda não ter ideia do motivo que fez Mia concordar em trabalhar com um assassino.

Os pontos negativos são maioria, mesmo tendo alguns pontos que poderiam ser promissores, ou até que funcionem em certos momentos. Há boas ideias nessa adaptação, mas Death Note deixa muito a desejar.

Agora eu quero fazer algumas pontuações com spoilers, tanto do filme quanto da obra original, então se você ainda quer fazer esse teste de resistência na Netflix, ou tem interesse em ver/ler o original e não teve a chance ainda (esse sim eu recomendo), então feche o texto agora.

No meu texto sobre adaptações, eu pontuo três coisas que precisamos ter em mente: O filme precisa ser bom, mudanças são necessárias e a essência precisa ser mantida. Há certas mudanças legais, mas Death Note da Netflix, além de falhar em ser um filme bom, também tem sérios problemas em entender a essência da obra original.

Eu não consigo desligar a parte do meu cérebro que conhece o anime/manga, em vários momentos do filme eu me peguei pensando “Mas e os olhos de shinigami?” antes de lembrar que isso nem foi um aspecto apresentado no filme. E quer saber? Ótimo. Considerando o tempo de filme, acrescentar mais essa possibilidade poderia ter deixado as coisas ainda mais complicadas. Mas a “essência” de uma história é algo muito mais simples e que pode ser colocado em uma adaptação de inúmeras formas.

Mudanças em personagens podem acontecer, mas é preciso tomar cuidado. Light é um protagonista tão interessante porque ele parece ser a última pessoa que poderia usar o caderno. O Light do original é inteligente, bonito, um dos melhores alunos do país, tem um futuro promissor, é charmoso quando quer, sabe falar bem… Por que esse cara acabaria entrando nessa espiral de auto destruição? Ninguém que conhece ele acredita quando as pistas passam a apontar Light como culpado. Ele detesta as pessoas “podres” do mundo, mas nessa aventura toda, ele se torna uma delas. Sim, ele mata pessoas terríveis, mas quem Light, ou qualquer pessoa, é para ditar quem vive ou morre? A solução para o mundo é eliminar quem comete crimes, sem segundas chances? Essas são questões importantes do original. Nós vemos parte disso em certas cenas, mas que fica no meio do mar de incoerências.

Um personagem não é o que ele diz, é o que ele faz. Não adianta você me dizer em alguns diálogos que Light é inteligente quando ele toma decisões burras. Ele não conhece Mia, mas confia nela o segredo do Death Note… Por algum motivo? O Light do original só confia em Misa porque ela tem provas da existência do caderno. Apesar de Misa ser muito manipulável, ela consegue armar planos em vários momentos e descobre quem Light é. Novamente, eu sei que a história não é para ser igual, mas é óbvio que você não vai admitir assassinato assim para um desconhecido a menos que essa seja a sua única escolha, ou sei lá, você acha que pode ser bom no futuro, mas o Light do filme não tinha nenhuma dessas motivações. E por que Mia não saiu correndo naquele momento? O filme não me deu nada para acreditar que essa moça tenha achado isso tudo aceitável.

Mais tarde, nós percebemos que Mia está disposta a matar pessoas inocentes. Isso não me incomoda, o que não me desce é, novamente, o que aconteceu na vida dessa moça para achar que matar o pai do namorado é algo aceitável? Isso não é uma decisão fácil de se tomar, ainda mais porque é muito provável que o namorado em questão não vá gostar dessa ideia. É uma boa sim mostrar como eles, que se dizem apaixonados, podem se virar um contra o outro para tentar ter o poder, isso seria um foco legal, mas essa construção não pode ser tão furada como uma peneira.

Uma das viradas do filme é interessante. Quando achamos que Ryuk matou os policiais, mas na verdade foi Mia. Mas a virada da roda gigante é fraca. Vamos lembrar que Light e Mia juraram amor um pelo outro e de repente eles estão colocando o nome um do outro no caderno. Novamente, uma ideia boa, se fizesse algum sentido. Quanto ao jeito que Light sobreviveu, o meu problema com isso nem é a virada toda, de que o Light sabia desde o começo que poderia dar errado, mas eu espero isso do Light original, que de fato é apresentado como alguém inteligente. Esse da Netflix só foi inteligente nesse nível quando o roteiro exigiu que ele fosse, por isso a resolução parece tão inacreditável.

O L, como já falei, começa bem, mas depois desanda bastante. No começo, quando ele confronta Light, na televisão, é uma grande referência ao original, só faltou a mesma inteligência. No manga/anime, L faz um teste com um prisioneiro, para ver com 100% de certeza uma pessoa ser morta por Light. Quando ele percebe que Kira está assistindo ao programa, o L original aparece, sem mostrar rosto ou nome, e desafia Light a matá-lo, mas obviamente nada acontece porque ele precisa de nome e rosto. É assim que L descobre como Kira mata. No filme, essa cena toda não faz sentido. Alguém com uma sniper poderia ter matado L, não precisava nem de caderno nenhum. E até onde L sabia, Kira poderia nem estar assistindo a televisão naquele momento. Até ele conseguir deduzir que Light estava nos Estados Unidos eu achei convincente, mas depois fica difícil. E como que, baseado nessa aparição, que nem mostra nenhuma demonstração de poder, L assume que Kira precisa de nome e rosto?

Eu acho interessante a ideia de mostrar que L, a pessoa que acredita em justiça e não em vingança, acaba perdendo o rumo quando Watari morre. O grande problema é que, como eu já falei, personagem não é o que fala, é o que faz. Nós vemos L falando sobre acreditar em justiça, mas eu não vejo nenhuma cena em que ele precise escolher entre justiça e vingança e decida pela primeira. E o final, onde ele pode ter matado Kira, deixa tudo ainda pior. Talvez a produção queria passar a ideia de que qualquer um pode ser terrível como Light, que de fato o poder passa adiante, assim como a obsessão por ser um deus, mas falta construção para chegar nesse ponto. Por que L acreditaria na história do caderno? Por que um suspeito falou para ele em um momento de pressão? L é um detetive da polícia, o que ele mais deve ter visto na vida é criminoso que mente sobre suas ações.

Uma coisa boa que o filme faz é mostrar como a sociedade se divide. Alguns acreditam que Kira é um criminoso, mas outros acham que ele é um deus. Também faz sentido L saber que Light é Kira quando ele se recusa a matar o próprio pai, é uma conclusão lógica, considerando tudo que ele já tinha descoberto até o momento. Mas a polícia nesse filme também só é inteligente quando é conveniente, porque no momento em que L acredita que Light é o assassino, ele deveria ter feito toda uma busca na casa dele, interrogado e coisa do tipo, mas ele convenientemente esperou até Watari sumir para fazer isso.

Death Note é uma obra tão legal porque ela brinca com a ideia de bem e mal. Nós torcemos por Kira, mesmo que ele seja um assassino. Também gostamos e torcemos por L, porque afinal de contas, Kira não pode matar quem quiser. A brincadeira de bem e mal não se dá só na narrativa, mas na ideia geral de sociedade, sobre ter o poder de decidir quem vive e morre. E o fato de alguém como Light, que é visto como uma pessoa que tem tudo, se afundar tanto nessa obsessão, é o que faz o final do original ser tão marcante e triste ao mesmo tempo. Ele tenta todas as últimas cartas, mas na sua obsessão ele se destrói e fica sozinho, mas ao mesmo tempo é bem feito, porque ele manipulou todos ao seu redor.

Eu não espero que um filme de menos de duas horas me passe a mesma profundidade, não tem como, mas ao menos uma dessas “essências” do original eu esperava ver. Eles podiam se focar na questão do bem e do mal, mas isso se perde no drama entre Mia e Light. Tudo bem, dava para focar em como um poder tão grande corrompe as pessoas, e eu acho que essa era a ideia final do filme, já que aparentemente L “segue” o mesmo caminho, mas foram tantos furos que levaram até a cena do hospital que essa mensagem perde a força.

No quesito de se destruir e de “todos podem ser Kira”, eu vejo algum potencial, mas como diria uma professora de roteiro minha: “Uma ideia é igual à p**** nenhuma”. Sem uma construção bem feita e plausível, o final se perde, o que é uma pena numa obra com tanto significado, numa história que fala sobre temas tão pesados. Muitos filmes tem um furo ou outro, eu não exijo perfeição, queria apenas algo convincente de que as coisas teriam acontecido da forma que foram, mas não é o caso.

O filme podia ter feito um personagem completamente diferente no lugar do Light, criar outra perseguição policial, o interesse romântico podia ser a grande mente do mal por trás de tudo, Ryuk podia ter sido apenas um expectador… Qualquer uma dessas mudanças poderia ser feita, o problema não é a fidelidade em si. A grande questão é que, no final do dia, Death Note falha tanto em ser um filme bom, quanto em ser uma adaptação que apresenta a essência da história.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 | Crítica

A franquia Guardiões da Galáxia começou sem muitas pessoas acharem que realmente os filmes iam para frente. Os heróis não eram muito conhecidos, mesmo sendo da Marvel, e nós achamos que não seria nada demais. Mas a Marvel já provou que pode dar destaque para seus super-heróis no cinema. Guardiões da Galáxia é um exemplo de que, quando o filme é bem feito, os protagonistas não precisam fazer parte da tríade dos quadrinhos para atrair público.

Guardiões da Galáxia foi uma surpresa, mas agora já existia expectativa para o Volume 2. Nós confiávamos em James Gunn e queríamos ver um filme bom e divertido, então foi ótimo ir ao cinema e ver que essa segunda parte não decepcionou.

Depois dos eventos do primeiro filme, os guardiões da galáxia, agora como um grupo, estão caçando uma fera em troca de dinheiro, mas as coisas dão muito errado quando Rocket (Bradley Cooper) acha que é uma boa ideia roubar baterias da raça para quem estavam trabalhando. Os guardiões precisam fugir e são salvos por ninguém menos que Ego (Kurt Russell), o pai de Peter (Chris Pratt).

Essa crítica não tem spoilers do filme.

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Escolha T2: Trainspotting | CRÍTICA

O texto contém SPOILERS

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Todo mundo da minha idade teve a época adolescente em que embarcou nos filmes que tratavam do universo das drogas e das experimentações estéticas. A gente viu Laranja Mecânica, Irreversível, Réquiem Para Um Sonho e Trainspotting. Pra gente, acostumado com um cinema adolescente, esses filmes eram a melhor coisa que a gente já tinha visto. Mas muitos desses filmes tinham ficado na minha memória adolescente e eu não tinha revisto desde então. Trainspotting era um deles.

Quando eu soube que ia ver T2, fui rever Trainspotting. E eu adorei. Ele é melhor do que eu lembrava em muitos aspectos. Mesmo tendo sido feito em 1996, ele não é um filme datado, aliás, ele é muito atual. Além disso, ele é sensorial – como grande parte dos filmes de  Danny Boyle – e descontrolado. As personagens são ótimas e os diálogos também. Até a voice-off, que normalmente é um recurso que eu tenho resistência porque costumo achar excessivamente didático, é muito bem usado. Trainspotting é revolucionário. T2 não é. Mas isso não é ruim.

T2 mostra as personagens que a gente já conhecia como homens de meia idade, que vivem questões e problemas que não são ligados necessariamente ao abuso de drogas. Mark Renton, que termina o primeiro filme tentando dar um novo rumo a sua vida, parece estabilizado, mas se encontra no meio de um processo de divórcio, trazendo a frustração de nunca ter tido filhos; Daniel “Spud” Murphy continua lutando contra o vício, pulando entre empregos rápidos e grupos de apoio, com uma relação distante da família; Frank Begbie, preso há vinte anos, foge da prisão e precisa entender sua relação com seu filho e retomar sua vida sexual depois de tanto tempo longe; e Simon “Sick Boy” é um chantagista dono de um bar vagabundo que pode falir a qualquer momento. Então a heroína não está mais estragando seus dias nem guiando suas ações, mas onde eles estão afinal? Esse movimento é interessante porque em alguma medida ele deixa claro que uma leitura óbvia e moralizante do primeiro filme não é possível. Se aquelas personagens sofriam, a droga não era a única coisa que causava esse sofrimento. E é quase melancólico.

E há, claro, Veronika. A personagem é uma prostituta búlgara, que tem um relacionamento estranho – entre amoroso e comercial – com Simon.  Explorada comercialmente, exposta a riscos, dividida entre continuar a tentar a vida em Edimburgo e voltar para casa sem nada conquistado. E além disso, incentivadora de Spud para que ele se descubra como o narrador das histórias dos quatro amigos e a arquiteta do plano para roubar o dinheiro que Mark e Simon, reproduzindo a traição do passado, mas dessa vez, com a expectativa de dar uma vida melhor a sua familia e a ajudar Spud a se redimir do passado de pai omisso. E nós não percebemos isso ao longo do filme. Nós ficamos tão fixados no quarteto e seus problemas que não reparamos na profundidade de Veronika. Ela tira vantagem disso e engana o espectador nostálgico e os personagens que não a levavam a sério. E se vocês querem saber, roubar 100.000 libras parece be melhor que 16.000.

Subestima mesmo, vai 😉

Mas T2 ganha principalmente por estar no lugar certo e na hora certa. O que torna o filme bom é justamente o entreato de vinte anos. Diante de uma indústria cinematográfica que se acelera, o tempo é um privilégio de poucos. Hoje o que se vê é uma absoluta rapidez nas produções, principalmente quando o assunto é adaptações literárias: Crepúsculo e 50 tons de cinza levaram menos de quatro anos para serem adaptados, talvez apostando numa efemeridade do fenômeno e buscando não perder aquele público; Game of Thrones já ultrapassou os livros, pois foi impossível escrever no mesmo ritmo que filmar a série. Quando se fala em eventos reais, o cinema parece estar ainda mais rápido: se antes nós nos perguntamos se dez anos era tempo suficiente para começar a fazer filmes sobre o atentado de 11 de setembro, hoje se encontra em produção um filme sobre a Operação Lava-Jato, que ainda não está terminada. E sabemos que isso é uma questão de mercado, de lucro, mas as  consequências éticas disso são bem discutíveis.

Se T2 tivesse sido feito cinco ou até dez aos depois do primeiro filme, nós não veríamos as personagens lidando com as questões que elas lidam aqui. Talvez nós as víssemos tendo recaídas no uso de drogas, mas seria apenas um pastiche, uma imitação sem a potencia do primeiro filme. Porém vinte anos depois, essas personagens não são mais os mesmos – inclusive eles sequer conseguem se tratar pelos apelidos e chamam uns aos outros pelo nome próprio. Elas já não querem mais as mesmas coisas e não querem reviver o passado de maneira nostálgica. Em um dos melhores momentos do filme, Sick Boy faz um comentário que não deixa de expressar o medo que todos sentimos ao saber que Trainspotting ganharia uma sequencia: “Você é um turista de sua própria memória”. Mas a memória daquelas pessoas não é confortável; na verdade, eles se encontram numa imobilidade desconfortável, como se suas angútias do passado ainda não estivessem resolvidas.

Há obviamente muitas referências a momentos do primeiro filme, principalmente estéticas: planos recriados (meu favorito foi o da mesa da casa de Mark), frases ressignificadas em novos contextos e músicas reutilizadas em momentos distintos. A sequencia final, inclusive, se utiliza muito bem desses recursos, deixando claro que aquelas personagens estão na mesma espiral que os levou a tudo o que ocorreu no primeiro filme. Se Trainspotting abre o filme com Lust  for life, T2 fecha o filme com a música. Além disso, paralelos com cenas icônicas mostram a passagem do  tempo (alguém falou em pior banheiro da Escócia?) e como mesmo em situações diferentes, a insatisfação das personagens consigo mesmas e com a sociedade não mudaram.

O filme tem a grandeza de Trainspotting? Não. Mas T2 escapa a uma maldição incômoda de sequências que desapontam. É um filme muito bom justamente porque não se esforça pra ser tão icônico quanto o filme que o precedeu. Ele não pretende criar um grande evento que una o grupo de amigos e os redima de seus erros. T2 é sobre o tempo e a vida passando. E ela passa até para quem vivia pelo momento sem pensar nas consequências.

No fim, a questão que fica é: será que aquilo que nós traçamos pra nós hoje, aos 20 e poucos anos, vão nos definir pra sempre? Ou será que a sociedade não mudou tanto assim desde que Mark Renton decidiu “not to choose life”?

O número de protagonistas mulheres aumentou no cinema. E aí?

Já faz alguns anos que a discussão sobre a representatividade de mulheres na cultura pop tem ganhado força. Cada vez mais, o público pede por mulheres como protagonistas ou com papéis importantes. E parece que algumas produções de fato ouviram esses pedidos. Nos últimos tempos, tivemos alguns casos de representações femininas interessantes em certas franquias: Star Wars, Mad Max, Caça-Fantasmas, etc.

Não só parece que a situação melhorou um pouco, os números mostram que de fato há certas mudanças acontecendo. De acordo com um estudo realizado pelo Centro para Estudo de Mulheres na Televisão e Cinema da Universidade de San Diego, 29% dos protagonistas das maiores bilheterias de 2016 são mulheres. Foi um aumento de 7% se comparado com os números de 2015, além de ser uma marca histórica.

Isso é, de certa forma, um reflexo de tudo que tem sido debatido ultimamente, mas há outros aspectos que podem ter influenciado esse aumento. Na indústria do cinema, nomes grandes como Jennifer Lawrence e Jessica Chastain já falaram sobre a diferença salarial entre homens e mulheres em Hollywood. Isso sem contar todas as reclamações que o público tem feito sobre como a mídia trata atrizes de forma machista, principalmente durante premiações. É aquela velha história: Enquanto para o cara perguntam sobre a atuação, para a mulher perguntam sobre a roupa.

Em época de Oscar, podemos também ver as mudanças entre alguns dos indicados. Em A Chegada, temos uma mulher protagonista dentro da ficção científica, um gênero ainda encarado por muitos como “para homens”. Estrelas Além do Tempo, um dos melhores filmes do ano, é focado na história de três mulheres negras que trouxeram grandes avanços para a NASA. A protagonista que lidera o grupo rebelde em Rogue One é uma mulher e obviamente não podemos esquecer de Moana, a nova adaptação da Disney.

Essas personagens mulheres não estão focadas em apenas um gênero do cinema. Elas estão em sua maioria nos filmes de comédia e de drama, aparecendo com menor frequência em filmes de ação, onde compõe apenas 3% dos papéis principais do gênero.

Então parece que é isso, né? Pedimos mudanças e conseguimos. Problema resolvido. Ou não.

O número de mulheres atrás das câmeras ainda é muito pequeno. Nos grandes estúdios, apenas 7% dos filmes foram dirigidos por mulheres em 2016, um número inferior ao do ano anterior. Isso sem contar que, na maioria dos grandes filmes, a equipe criativa ainda é majoritariamente masculina.

Há outro dado interessante no estudo. Em filmes dirigidos por mulheres, 57% dos papéis principais eram de personagens femininas, enquanto em filmes dirigidos por homens esse número cai para 18%. As porcentagens ficam ainda menores quando procuramos por mulheres negras nesses papéis.

É possível tirar algumas conclusões desses números. Primeiro que, por mais que o número de mulheres protagonistas tenha aumentado, e isso é ótimo, 29% ainda não é um número bom, principalmente quando a maioria dessas personagens são mulheres consideradas dentro do padrão. Não adianta nada mudar um pouco as coisas na frente da câmera, quando nos estúdios as mulheres não possuem as mesmas chances de emprego que os homens.

Aumentar a representatividade é bom, mas não é o suficiente. As mudanças precisam acontecer na indústria toda, até porque, como os números apontam, quanto mais mulheres trabalhando nas equipes criativas dos filmes, maiores as chances delas serem representadas diante das telas. E bem representadas, o que também é importante, não adianta ter uma mulher protagonista que é um estereótipo ambulante. Esquadrão Suicida tinha mulheres no elenco, mas todas elas tinham problemas bem sérios de construções estereotipadas.

Então é bom que essas discussões continuem acontecendo, até porque ainda tem uma parte do público que continua achando que não tem nenhum problema em só ter homens padrões como protagonistas. E também para que mais mulheres entrem na indústria, eu quero ver personagens mulheres nas telas, mas eu também quero mulheres reais trabalhando nessa área que ainda é muito dominada por homens. Essa pesquisa é um bom exemplo para mostrar que sim, algumas coisas melhoraram, mas ainda há muita coisa para mudar na indústria cinematográfica.

Via Variety

Adaptações e os acertos de A Chegada

É possível fazer um texto apenas com os acertos de A Chegada no geral. O filme é uma adaptação do conto de Ted Chiang “História da sua Vida”, lançado em 2016 e também indicado para algumas premiações, incluindo o Oscar de melhor filme. Mesmo o Oscar tendo um histórico de não necessariamente premiar ou indicar os melhores filmes sempre, A Chegada é realmente um longa muito bom. Para mim, junto com Estrelas Além do Tempo, é o melhor filme do ano.

A Chegada é dirigido por Denis Villeneuve. A protagonista é Louise Banks (Amy Adams), uma linguista que é chamada pelo governo para ajudar com os primeiros contatos com a raça dos heptapodes, que são alienígenas que pousaram em vários lugares da terra. Os humanos não sabem o que eles querem e descobrir isso é o grande desafio da história.

Há várias análises que podem ser feitas a partir desse filme. Em tempos de intolerância e conflitos, um filme sobre alienígenas que mostra os humanos tentando conversar antes de atirar é muito oportuno. A Chegada vai falar sobre dificuldades de comunicação, sobre como é  mais fácil assumir o pior do “outro” e também sobre outros aspectos mais filosóficos do ser humano. Mas o foco neste texto é falar como um conto de algumas páginas conseguiu virar um filme tão bom, a partir daí podemos pensar um pouco sobre os aspectos que fazem uma adaptação agradar o público.

O texto contém spoilers do filme A Chegada e do conto História da sua Vida.

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La La Land – Cantando Estações | Crítica

O queridinho dos críticos finalmente está em cartaz nos cinemas brasileiros. La La Land já ganhou sete prêmios no Globo de Ouro, incluindo a categoria Melhor Filme de Comédia/Musical. Obviamente todas essas premiações criam uma hype ao redor do longa, o que já o tornou um dos preferidos de muitos.

La La Land, dirigido por Damien Chazelle, é um musical que faz uma homenagem ao jazz e também à Hollywood. O filme conta a história de Mia (Emma Stone), uma moça que está tentando seguir a carreira de atriz, e Sebastian (Ryan Gosling), um cara completamente apaixonado por jazz.

Marcando o tempo com as estações do ano, La La Land mostra como Mia e Sebastian se conhecem. Inicialmente eles não se gostam, mas a história vai caminhando e mostrando como os sentimentos deles vão mudando. Emma Stone e Ryan Gosling entregam atuações divertidas e interpretam seus papéis muito bem. Ambos os personagens são bem construídos, sabemos seus conflitos e o que eles querem da vida, portanto é divertido e até tenso ver esses dois personagens tentando conquistar seus sonhos. O roteiro também sabe balancear as cenas que trabalham a relação entre os dois protagonistas com as cenas focadas nos objetivos pessoais de cada um.

A história em geral funciona bem e tem um ritmo bom. Não há momentos excessivamente arrastados, há uma variação boa de problemas e conquistas que mantém o roteiro bem dinâmico. Eu consigo pensar em apenas uma cena que me pareceu escapar do clima que estava sendo criado. O longa também sabe colocar as cenas de música e dança nas horas certas, apesar de que particularmente achei que poderia ter mais cenas com os atores cantando.

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