Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Dois Pontos Positivos e Cinco Pontos Negativos da 2ª Temporada de Stranger Things.

[Todos os spoilers da segunda temporada!!]

Quando a segunda temporada de Stranger Things estreou eu estava receosa não só em assistir, mas também com o que eu ia achar da série. Essa sensação vem do fato de eu ter sido uma das poucas pessoas que eu conheço que não morreu de amores pela primeira temporada. Para mim, a série apresentava diversos buracos de roteiro, faltava substância para tanta referência, reforçava padrões de gênero negativos. Tudo isso podia ser resumido em um único problema: saudosismo demais prejudicou personagens e estrutura da história.

Infelizmente, e apesar de melhorar em alguns poucos pontos, a segunda temporada de Stranger Things sofre dos mesmos problemas da primeira, mas sem tantos elementos “cool” para disfarçar o estrago. Para simplificar as minhas críticas à série, eu resolvi pontuar 5 dos principais problemas e, honestamente, as duas únicas coisas positivas que eu vi na série. Vou começar pelos negativos para pelo menos terminar este texto numa nota positiva.

PONTOS NEGATIVOS

1) Falta substância, falta backstory – falta lore.

O combo Cidade Pequena + Laboratório Militar Secreto + Grande Mistério é uma construção clássica da ficção científica e está muito presente entre diversos filmes da década de 80/90. O imaginário americano sempre gostou de uma teoria da conspiração, seja sobre o assassinado de JFK, seja sobre o pouso do OVNI em Roswell. Tudo isso é ótimo e pode render histórias fantásticas, mas para isso acontecer é preciso construir o mistério – só o combo não se sustenta sozinho.

Uma das coisas mais importantes ao criar uma trama de mistério é não trair o espectador, ou seja, o público e os personagens podem não saber qual é o mistério – mas o criador da história precisa. Se o universo é construído em cima de alicerces fracos (referências, saudosismo e elementos superficialmente “cool”/legais), e se não se entrega qualquer tipo de informação sobre a história por trás do mistério, então o espectador provavelmente vai se sentir traído. Esse é um problema que eu observo em Stranger Things desde a primeira temporada, mas que lá ficou melhor disfarçado por causa do hype e das muitas referências facilmente reconhecíveis.

Do meu ponto de vista, existem dois tipos de possibilidades para a série e seu grande mistério: algo como Fringe (2008), em que a ciência é parte importante para o entendimento do mistério e do universo paralelo, ou como Arquivo X, onde o mistério se estende por longas (e nem sempre tão boas) temporadas, mas sempre entrega elementos substanciais para que o espectador não se sinta traído. Essa sensação vem do fato dos criadores da história saberem ao menos minimamente qual é o grande mistério por trás da sua trama e irem entregando periodicamente pequenas pistas. Um exemplo negativo, e do qual Stranger Things parece estar bem longe, é LOST, quando o excesso de informação sem resultado real acaba fazendo o espectador se sentir traído – os showrunners iam jogando mistérios sem saber qual seria a resolução final deles, e algumas vezes sem nunca realmente fechá-los.

Mesmo sem ser LOST, Stranger Things parece perdido num vazio de substância, tentando buscar significado em referências. A gente não sabe o que é o mostro gigante, mas sabemos que é algo como Cthulhu porque Dustin nos mostra em um livro. Toda a “ciência” por trás do laboratório secreto se resume a uma mesa de botões com luzes piscantes e lança-chamas. Além disso a série cria regras do universo apenas para quebrá-las no próximo episódio. Um exemplo disso é D’Art, o demogorgon-pet do Dustin: numa cena aprendemos que ele não aguenta a luz direta, na outra ele está caminhando em plena luz do sol apenas para, mais tarde, outra pessoa nos dizer que os demogorgons só saem durante a noite. Falta consistência, e falta consistência porque falta conteúdo.

A série deixa muitas perguntas em aberto e, por entregar tão pouco e de maneira tão vazia, deixa a sensação de que nem mesmo os showrunners sabem o que realmente é esse outro lado. Eu sei que muitas perguntas devem ser interpretadas através de metáforas e simbologia, mas quando não há conteúdo o suficiente, o que fica no lugar é um vazio de significado.

2) O laboratório secreto que não sabe o que a palavra SECRETO significa.

Tem câmera de segurança, mas não faz uma revista na bolsa da Nancy.

Este é um problema que é consequência do primeiro tópico. Se não há conteúdo o suficiente para preencher o universo, ficamos com uma casca, um esqueleto vazio de significado e sentido.

Na primeira temporada, o laboratório secreto já se mostrou muito pouco eficiente: Joyce e Hopper entraram escondidos nele com a mesma facilidade com que eu passo pelo portão do meu prédio. Não apareceu um guardinha para perguntar o que eles faziam ali e as câmeras de segurança só os encontraram quando era relevante para a trama. Na segunda temporada, lembrando da falha de segurança que eles tiveram no ano anterior, espera-se que o pessoal do laboratório tenha melhorado nessa coisa de ser um “laboratório secreto”. Mas não.

Nancy, uma garota de 16 anos, consegue se infiltrar lá dentro com um plano simples e relativamente esperto: ela usa um telefone grampeado para marcar um encontro com uma pessoa importante, para quem ela quer revelar informações confidenciais. Já dentro do laboratório, Nancy grava toda a confissão de culpa do responsável pelo local com seu gravador de voz GIGANTE. Não é um daqueles pequenininhos que cabe no bolso, não é um celular porque são os anos 80, é um gravador do tamanho de walkman.

Eu sei que é a década de 80, e que os sistemas de segurança não eram tão avançados como os de hoje em dia, mas uma simples revista nos pertences da adolescente que eles levaram presa porque queria revelar informações sigilosas e extremamente prejudiciais já teria resolvido o problema. A série martela no medo do governo e da população norte-americana dos russos descobrirem segredos de estado, inclusive falando isso para Nancy, mas não se preocupa em olhar dentro da mochila dessa garota tão esperta. Ninguém leu um livro da Nancy Drew quando criança?

Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que a equipe deste laboratório está em último lugar no ranking de excelência dentro da agência secreta da qual fazem parte. Eles nunca serão a filial do mês.

3) Padrões e Representação Feminina.

Não tem nada mais empoderador do que maquiagem escura e a palavra “bitchin”.

Na primeira temporada Nancy parecia caminhar para um lugar reservado à Buffy Summers: uma garota “normal” que é forçada a um lugar de ação pelas circunstâncias sobrenaturais a sua volta. Ela perdeu a amiga, ela se sente culpada e vai passar por cima de todos que estão no seu caminho para reencontrar Barbs – mesmo que uma dessas pessoas seja o seu boy magia. Ao final da temporada Nancy termina em casa, com o boy que não é tão magia assim, namorando no sofá. Não é que eu queria que ela terminasse com Jonathan creepy-com-uma-câmara, é que eu esperava mais para ela. Veio a segunda temporada e, novamente, o que poderia ser um arco muito legal sobre uma garota procurando justiça para a amiga se tornou pano de fundo para um romance. Sai Steve, entra Justin. Ao final da temporada, quando Nancy decide deixar Mike para trás para ficar ao lado de Jonathan, os criadores jogaram o drama pessoal de Nancy (não estar presente para possivelmente ajudar a amiga) pela janela. Tendo passado por tudo que ela passou, faria muito mais sentido se ela tivesse ficado ao lado do irmão, ganhando a chance de se auto-redimir. Mas não, porque o que toda garota quer é um boy. Ou pelo menos é isso que a série diz.

Nancy tem Jonathan. Eleven/Jane tem Mike. Joyce tem Bob (e Hopper). Max tem Lucas. Faz sentido que Joyce, vivendo o que ela acredita ser um momento de calmaria na família, tenha encontrado amor. E é ótimo que ela tenha feito isso com um cara realmente legal como Bob. Mas ele não passa de um instrumento de roteiro para que nós tenhamos em Joyce, novamente, o modelo de mulher que pode tudo. Ela não só precisa salvar o filho do controle mental da criatura gigante, ela quer se vingar pelo homem que perdeu. Mas está tudo bem, porque ela tem Hopper ao seu lado. E eu quero acreditar que o relacionamento dos dois nunca vai passar de uma amizade verdadeira, mas a série me faz cada vez mais acreditar que eles estão caminhando os personagens para um romance.

Max é a personagem feminina mais legal dessa nova temporada. Ela anda de skate, joga videogame, não admite ser tratada com desprezo e sabe mostrar interesse por quem trata ela legal: Lucas. Esse relacionamento é, provavelmente, o relacionamento melhor construído da série inteira. E isso provavelmente acontece porque há verdade nas emoções infantis/jovens dos dois personagens. Infelizmente, esse romance também ficou marcado com o triste episódio em que a atriz foi obrigada a fazer uma cena de beijo que não estava acordada antes. E fizeram isso exatamente porque ela ficou desconfortável com a ideia da cena. Mais uma vez homens poderosos tomando decisões para coagir mulheres, só que desta vez coagir uma criança.

Max e Eleven/Jane são um dos pontos mais decepcionantes da série, porque ela parte do princípio de que duas mulheres sempre vão disputar de alguma maneira o espaço dentro de um grupo de homens. Eleven tem automaticamente uma rivalidade contra Max por vê-la conversando com Mike, uma rivalidade que é representada através de violência. Ao conhecer Eleven, Max tenta ser amigável, mas é recebida com rancor. Eu consigo entender que Eleven vinha se sentido excluída do grupo, e que o sentimento de ter sido substituída faria sentido, mas esse rancor é direcionado apenas à Max, a única outra menina do grupo. É só bastante frustrante ver, novamente, um dos tantos estereótipos negativos (e muito oitentista) sobre relacionamentos femininos.

Eleven/Jane sempre foi um ponto forte de discórdia entre eu e o resto da internet. Por mais legal que ela seja na primeira temporada, ao meu ver, ela não passa de uma personagem feminina forte: muito cool, pouca substância. E não é porque ela não tem elementos que podiam ser bem trabalhados, mas porque a série opta por mantê-la dentro do padrão “ela é nossa amiga e ela é louca”.

Na segunda temporada, nós vemos uma tentativa de desenvolver a personagem, com um episódio inteiro dedicado a desvendar o passado de Eleven/Jane. Infelizmente, é um episódio que, apesar de ter Cali e abrir um mundo de possibilidades para as duas irmãs, peca ao criar uma estrutura fraca e ao novamente subjugar Eleven/Jane aos padrões de feminilidade. Mais uma vez a personagem passa por um extreme makeover, só que desta vez ao invés da visão tradicional de menininha (peruca loira e o vestido rosa) entra o visual dark/punk, com gel no cabelo, maquiagem preta nos olhos e atitude “bitchy”.

A adultização da atriz Millie Bobbie Brown vem sendo tema de discussão nas últimas semanas, mas é importante notar que isso também acontece na série. Não só pela escolha do novo “look” da personagem, mas também ao modo como as emoções dela e de Mike são representadas. Isso, no entanto, já cabe dentro do nosso próximo tópico.

4) Crianças que não agem como crianças.

Mike, Eleven/Jane, Dustin, Lucas e Max estão naquele momento entre a infância e a adolescência, um lugar confuso e cheio de sentimentos e emoções que são muito particulares a este período. A primeira temporada da série tentou mostrar que eles, como um grupo, são capazes de funcionar melhor do que os adultos – e até certo ponto isso aconteceu principalmente por eles serem crianças e acreditarem no impossível (porquê eu acho que não funcionou até o final é assunto para outro texto). Na segunda temporada, no entanto, já está estabelecido para os adultos que o outro lado existe, é perigoso e pode matar. Seria de se esperar que os adultos em Stranger Things estivessem mais conscientes dos perigos e mais propensos a manter as crianças afastadas deles. Ledo engano.

A série, e os personagens adultos, parecem esquecer que as crianças são crianças e que os adolescentes são adolescentes. Joyce nem pestaneja ao levar os dois para tentar salvar Hopper das raízes/veias. Joyce e Hopper em momento nenhum pensam em desviar a rota um pouquinho e deixar Mike na casa dos pais deles antes de irem para o laboratório com Will. Não que os pais de Mike e Nancy se importem, já que é piada interna da série eles não saberem onde os filhos estão (o que, pensando na mãe dos dois na primeira temporada, não faz o menor sentido). Ninguém tenta manter as crianças realmente seguras e afastadas do perigo, pelo contrário, elas pegam na mão delas e correm em direção a ele. Eu sei que eles são, no fim, da onde sai grande parte do pseudo conhecimento do outro lado, mas a real é que eles são crianças. Dadas as circunstâncias era de se esperar que alguém se lembraria disso.

Mas a própria narrativa da série não se lembra, porque constrói em Mike e Eleven/Jane um relacionamento que possui sentimentos adultos, não infantis. Não vou mentir, já na primeira temporada eu achei o romance dos dois forçados. Eu sei que o primeiro amor pode ser algo forte, sei toda a carga dramática que existe depois do final da primeira temporada, mas nada no relacionamento desses dois pré-adolescentes diz “pré-adolescentes”. E por mais que eles tenham passado por um momento de crescimento rápido dadas às circunstâncias, ainda assim o arco dos dois, e também os personagens separados, acabam soando como adultos. Que tipo de garoto de 13 anos diz “Eu não quero te perder de novo?” para a namoradinha? Não é uma questão só de palavras, é uma questão de como esse relacionamento foi construído. E eu sei que Eleven/Jane passou por tudo que passou, mas faria mais sentido ver no relacionamento dos dois um comportamento ainda assim mais leve, mesmo que frente as adversidades que enfrentam.

Essa adultização não vem só dos adultos verem os dois como outros adultos, ou das roupas da Eleven/Jane, mas do modo como os sentimentos deles são apresentados na tela. Sim, Eleven é infantil ao ter ciúmes de Max, mas os dois conversam como um casal de adultos. Se colocarmos a relação de Mike e Eleven ao lado da relação de Lucas e Max, a diferença fica ainda mais gritante. Além disso, quando Eleven chora pela mãe, novamente me chamou atenção o modo como a garota chora – do mesmo modo que você esperaria uma mulher adulta chorar. Parece que ao tentar criar dois protagonistas consistentes, a equipe criativa da série esqueceu-se que esses são os protagonistas infantis, que por mais adversidades que eles tenham enfrentados, eles ainda têm apenas 12-13 anos.

5) Os adultos que a série não sabe que são creepies.

Completamente normal e engraçadinho esse creepy.

Logo no primeiro episódio me chamou atenção o modo como Hopper entra em casa, tira o cinto e o coloca sobre a mesa. Sabendo que há uma garota de 13 anos dentro daquela casa, eu não consegui não olhar aquilo com um olhar desconfiado. Eu sei que a série quer me dizer que Hopper está em casa, mesmo que aquela não seja a casa que nós vimos na primeira temporada. E eu sei que Hopper é um dos heróis da série, então ele não vai fazer nada de mal à Eleven/Jane, mas é uma questão de imagem e de simbolismo.

Hopper está tentando ser uma figura paterna para Eleven, um trabalho que não é fácil mesmo quando sua filha não tem superpoderes e não passou os primeiros dez anos de sua vida presa dentro de um laboratório. É de se esperar que seja um processo de adaptação difícil, principalmente se você acredita que a segurança dela está diretamente ligada ao confinamento dela. Mas, quando a série coloca Hopper e Eleven em conflito, ele assume um comportamento agressivo e violento, chegando a esmurrar a porta do quarto da menina. É de se esperar que Eleven se exalte e use seus poderes, porque ela se sente presa e com o comportamento de Hopper provavelmente se sente acuada e com medo. Toda a imagem que essa cena apresenta é de um homem sendo violento e abusivo com Eleven, um paralelo exato (e que a própria Eleven faz mais tarde, mas que a série não discute com profundidade) com o Papa. E por mais que a série esteja tentando me dizer que é apenas um homem tentando ser pai e uma garota tentando ser filha, que é uma briga normal, que é parte importante para que os dois encontrem o meio do caminho ideal para o relacionamento deles, o que a cena me mostra é um adulto gritando e esmurrando a porta de uma garota de 13 anos. Contar uma história não é apenas sobre o que você quer dizer, mas é sobre como você diz.

O outro homem adulto da série que ultrapassa todas as linhas de “creep alert” é Murray Batman, o “detetive” para quem Nancy e Jonathan entregam a gravação. A primeira imagem dele já é a descrição perfeita de um homem creepy: roupão aberto, óculos escuros que mora num buraco com uma alcova secreta. Não contente com tudo isso, ele ainda oferece vodca para menores de idade. Só isso já seria o suficiente para assustar qualquer um, mas, além disso, ele decide ter uma conversa extremamente desconfortável, invasiva e bizarra sobre a vida amorosa e sexual de Nancy e Jonathan – tanto antes, como depois deles passarem a noite juntos. A série sabe que este é um comportamento estranho e inapropriado para um homem adulto em relação a dois adolescentes? Eu acho que não, até porque todo este cenário é construído para tirar risadas, mesmo que nervosas, do espectador. Para terminar, ele ainda presenteia o casal com uma garrafa de vodca. Ah, os anos 80, essa década maravilhosa. (Altas doses de ironia)

Mas nem só de homens com comportamentos perturbadores vive a série, falemos de Karen Wheeler, mãe de Mike e Nancy. Não basta ter sua personagem reduzida consideravelmente ao papel de mãe relapsa que bebe vinho na banheira, o único momento de personagem que ela possui nos nove episódios é ao responder positivamente aos avanços românticos de um menor de idade. Não interessa o quão cretino Billy seja, ele ainda é um adolescente menor de idade. Ele pode ter uma visão perturbada do mundo onde ficar com uma mulher adulta seria maravilhoso, mas Karen não podia responder daquela maneira. Ela já é retratada como uma mulher que recebe pouca ou nenhuma atenção do marido, como uma mãe desinteressada padrão, aí quando vemos ela com sua sexualidade ativa, está direcionada a um menor de idade. Esse tipo de história sustenta o mito de que o garoto amadurece sexualmente mais rápido do que a garota, já que ele está apto a te rum relacionamento sexual com uma mulher adulta. Isso não só sexualiza um adolescente através de um olhar adulto, mas também ignora toda a carga emocional e a relação de poder dentro de um relacionamento entre um adulto e um adolescente, independente dessa relação ser entre um homem e uma garota, ou entre uma mulher e um garoto. Novamente, a série não parece querer discutir isso, já que a cena também é criada para tirar risos do espectador e, mais uma vez, Stranger Things cai no erro por causa do saudosismo, já que até há alguns anos atrás esse tipo de relação era vista como normal.

PONTOS POSITIVOS

1) Steve e as crianças.

Farrah Fawcett.

Steve Harrington, um dos personagens que eu mais detestei da primeira temporada, chegou na segunda para me surpreender. Ele não só é um dos poucos (senão o único) personagem com um arco de desenvolvimento claro e bem estruturado, como também se tornou parte central de um dos elementos mais importantes da trama: as crianças.

Steve começa a temporada tentando fugir de tudo que aconteceu na primeira temporada, ele não quer apenas tentar esquecer o que aconteceu com Barbs – ele quer esquecer tudo e viver uma vida normal. Mas, assim como deveria ser, Steve mora em Hawkins e logo que a história começa a se desenvolver, ele se vê ajudando Dustin, protegendo as outras crianças e tendo que lidar não com um demogorgon como na primeira temporada, mas com múltiplos (quando você ignora seus problemas, eles tendem a acumular). É um arco tão redondinho e tão bem construído que quase não parece acontecer em Stranger Things. Me perdoem, eu estou um pouco amargurada com a série.

Não é que tudo é mil maravilhas com Steve, não. Ele perdeu o seu lugar como “garoto legal” no colégio e, apesar de não parecer preocupado com isso, ainda carrega em si muito da masculinidade tóxica da primeira temporada (deixa a namorada bêbada na festa para outro cara levar para casa, fica colocando na cabeça de Dustin conceitos bizarros sobre o que as garotas querem, etc.). Mas é através do laço que forma com Dustin que ele vai aos poucos se redimindo e se tornando um personagem muito melhor do que na primeira temporada.

Ao tentar ajudar Dustin e ao se tornar responsável pela segurança do grupo de crianças, Steve se torna a única pessoa na série que vê as crianças como o que elas são: crianças. E o relacionamento entre eles funciona tão bem exatamente porque Steve caminha entre ser condescendente (como todo adolescente é quando fala com crianças), protetor e, ao mesmo tempo, tratá-los como iguais. Mas não é uma equidade que faz com que eles também sejam adultos – algo que nem Steve é – mas que faz os laços de amizade e respeito diminuírem o gap geracional que existe entre eles.

2) Max e Lucas.

Se eu tenho todos os problemas do mundo com Mike e Eleven/Jane, eu não poderia estar mais feliz com Max. Além dos atores serem incríveis, o elo que vai se formando entre os dois personagens, um elo de amizade e romance, é compatível com dois pré-adolescentes. Eles falam sobre morte e sobre o perigo da maneira que crianças falariam, eles se aproximam de maneira natural e encontram um no outro um lugar de tranquilidade – sem o peso descomunal de um diálogo adulto.

Lucas quer muito que Max faça parte do grupo, porque ele quer alguém com quem se conectar de verdade e porque ele obviamente desenvolveu um crush pela menina quando a viu andando de skate e jogando videogame. Por mais que isso seja também um estereótipo, eles são crianças, essa visão idealizada faz sentido para ele e logo em seguida é quebrada porque Lucas percebe que Max é mais do que “a garota legal”. A cena em que a família de Lucas está sentada na mesa e ele pergunta ao pai o que fazer é importantíssima, porque a mensagem que fica é que honestidade é sempre o melhor caminho num relacionamento.

Max vem de uma família no mínimo problemática, as únicas referências masculinas que ela tem presentes no seu dia-a-dia são violentas. Em Lucas ela encontra não só um amigo que conversa com ela em pé de igualdade, mas alguém que assim que a encontra, quer lhe acolher. Claro que ela vai ver nele uma figura positiva – porque ele é.

O relacionamento dos dois é natural e soa verossímil porque, apesar de lidar com todos esses temas pesados, (a morte eminente, a família violenta, o possível racismo do meio-irmão de Max, o monstro de outra dimensão querendo destruir tudo) faz isso através da ótica de duas crianças. Diferente de Eleven/Jane e Mike, o relacionamento de Max e Lucas não soa como a história contada do ponto de vista de um adulto, soa como duas crianças se conhecendo, encontrando a amizade e aprendendo sobre amor. E não tem nada mais oitentista do que isso.

Considerações Finais

Eu espero, do fundo do meu coração, que para a terceira temporada, os produtores da série tenham conteúdo o suficiente para apresentar um universo mais coeso e com mais substância. Stranger Things é uma série que me frustra exatamente por ter tanto potencial, mas entregar muito pouco. O pequeno comentário sobre as críticas que a primeira temporada sofreu, feito através de Max ao comentar a história que Lucas lhe conta, mostra que talvez os criadores ainda não estejam preparados para encarar críticas como algo construtivo. Mas fica a esperança.

Para a terceira temporada seria incrível ver mais sobre o outro lado, sobre o monstro gigante e sobre os personagens – que ao meu ver ficaram com o desenvolvimento meio sucateado nesta temporada. Também seria incrível ver a Eleven/Jane romper as amarras de feminilidade nas quais insistem em prendê-la. Ia ser formidável ter um laboratório militar secreto que realmente fosse ameaçador e com sistemas de segurança contundentes. Mas, acima de tudo, seria maravilhoso ver a equipe criativa da série entender que é possível fazer uma homenagem à década de 80 sem cair nos mesmos padrões e estereótipos negativos que foram tão difundidos naquela época.

Até mais! 😉

Thor: Ragnarok | Crítica

Havia uma boa expectativa para esse novo Thor. Taika Waititi é um bom diretor, os trailers estavam agradando aos fãs, o filme parecia que ia abraçar a comédia e, até certo ponto, o brega. Independente de gosto pessoal, é uma fórmula que boa parte dos fãs da Marvel tem gostado cada vez mais.

Thor está tentando impedir o Ragnarok. Depois que descobre que Loki está no lugar de Odin, ele e o irmão vão até a Terra buscar o pai. O problema é que Hela, a deusa da morte e filha mais velha de Odin, aparece. Agora Thor e Loki terão que impedí-la de tomar Asgard e destruir todo o seu povo. Essa crítica não tem spoilers.

O tema que as pessoas mais tem falado é o quão engraçado o filme é. Todo mundo sabe que a Marvel sempre puxa o humor, além de que todo mundo já deveria saber que piadas e humor não faz um filme bom ou ruim. No caso de Thor, especificamente, o humor sempre ajudou. O segundo filme é o que puxou mais para o lado do sério e também o que menos funcionou. Um dos grandes acertos de Thor: Ragnarok é abraçar esse aspecto de não se levar a sério demais.

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Mindhunter | Primeira Temporada

Mindhunter é uma série nova da Netflix que tem dado o que falar. Baseado em alguns relatos e pessoas reais, David Fincher já anunciou que quer fazer cinco temporadas da série. Nela, acompanhamos Holden Ford (Jonathan Groff), um agente do FBI que estuda Ciência Comportamental. Ele se junta a Bill Tench (Holt McCallany) e começa a entrevistar assassinos para tentar entender a mente deles e, se possível, ajudar as investigações futuras.

Assisti tudo no melhor estilo de maratonar série, um episódio atrás do outro e depois precisei tirar alguns minutos para pensar no que tinha assistido. Eu gosto do trabalho do David Fincher, adoro Seven, mas há outros trabalhos dele que não me pegam, como é o caso de Zodíaco, que não aguento (polêmica). Mindhunter teve momentos que me prenderam muito e outros que pensei “é isso do Fincher que eu não gosto”.

Eu já considero mérito uma obra audiovisual que me faz pensar além da história apresentada, nesse ponto Mindhunter acerta bastante. Assim como os assassinos vão entrando na pele de Holden aos poucos, inúmeros questionamentos começam a aparecer nas nossas cabeças enquanto assistimos.

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Mãe! | Crítica

Mãe! é um filme que tem dado o que falar nos últimos tempos. Aparentemente, é impossível sair do cinema sem uma opinião forte, você ama ou odeia. Antes de chegar na minha opinião pessoal, vou procurar fazer a crítica mais objetiva possível. Por enquanto, não vou falar de nenhum spoiler.

De fato é complicado falar sobre o que o filme é sem estragar a experiência, mas basicamente: Jennifer Lawrence, a mãe, (os personagens não têm nome, então vou usar o dos atores algumas vezes) mora nessa casa, no meio do nada, junto com seu marido, Javier Bardem, um poeta que está há algum tempo sem conseguir escrever. Mãe está reconstruindo a casa, que foi queimada e fez o marido perder tudo. Eles aparentemente vivem bem, até que Ed Harris, que é médico, chega na casa e é convidado a ficar lá pelo poeta. Mãe não fica feliz, e as coisas pioram quando a esposa do médico, Michelle Pfeiffer, também chega na casa.

Assim como a mãe, nós estamos perdidos nos inúmeros acontecimentos que vão acontecer ali. A câmera sempre acompanha Jennifer Lawrence, às vezes parado em seu rosto, outras vezes mostrando o que ela está vendo. Um dos grandes pontos positivos do filme é a atuação de Jennifer Lawrence, que coloca a emoção necessária em cada cena, dando movimento inclusive para momentos que são mais longos do que precisariam ser. As atuações como um todo se destacam, por mais que em boa parte do filme você não entenda porque os personagens agem de determinada forma, a atuação é o que faz o passo do filme não se perder.

Por outro lado, os personagens não tem profundidade. Sim, eu sei que há todo um significado por trás da história do filme e da identidade daqueles que estamos vendo, mas em termos de arco do personagem, a maioria deles termina no mesmo ponto em que começaram. Eles não passam de peças para o significado final da obra, o que até funciona, porém não vai além, não vemos mudanças e quando elas parecem que vão acontecer, principalmente com a protagonista, a personagem apenas volta para o ponto de seu arco que estava no começo.

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7º Episódio: The Dragon and the Wolf | 7ª Temporada de Game of Thrones

Mais uma temporada de Game of Thrones chega ao fim. Com um episódio de uma hora e meia, The Dragon and the Wolf deixa tudo preparado para o grande conflito que vai dar um ponto final na história de Westeros. Arcos foram concluídos e muitas decisões foram tomadas, nem todas da melhor forma.

O episódio no geral é divertido, a segunda metade é melhor que a primeira. Infelizmente, The Dragon and the Wolf começa de forma mais maçante e, inclusive, com algumas incoerências, mas com o tempo vai melhorando o ritmo e chegando no final. Algumas coisas de fato foram bem previsíveis, mas certos pontos da trama só tinham um caminho para ir até agora.

Por mais que Game of Thrones, como já mencionei antes, saiba fazer um show, as incoerências de roteiro ainda fazem com que certas cenas percam a força. Em alguns momentos, é como se eles tivessem medo de escolher caminhos arriscados, que é uma das grandes característica da série, que faz tanta gente gostar de assistir Game of Thrones. Entre momentos ruins e outros que nos fizeram vibrar, a série conclui sua penúltima temporada.

A partir daqui o texto terá spoilers do episódio.

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Death Note | Crítica

Quem acompanha o Guardiãs da Pipoca provavelmente já sabia que eu achava essa adaptação uma ideia péssima. Eu não sou contra adaptações em geral, eu acho que elas podem ser ideias legais, expandindo a história da mídia original para outras pessoas conhecerem também, isso sempre tem potencial de ser bom. Mas desde o primeiro momento, quando apareceu o whitewashing, minha boa vontade com o filme já não existia.

O Yo Ban Boo tem um vídeo ótimo sobre o whitewashing em Death Note, eu recomendo que vocês assistam. Basicamente, não há nenhuma justificativa boa para o ator ser branco e, como eu falei em um programa da rádio, Death Note é uma história com traços orientais bem marcantes, a começar pelo Ryuk ser um shinigami, então o mínimo era que Light fosse interpretado por um ator descendente de orientais. “Ah, mas se passa nos EUA” e desde quando não tem descendente de oriental nos Estados Unidos? E não me venha com “Ah, vai ver esse Light fez o melhor teste no casting” porque cara, se esse era o melhor que eles tinham, a coisa estava bem difícil.

Death Note é um manga de 2003, a adaptação para anime chegou em 2006. Nele, o estudante Light Yagami, um dos mais inteligentes do Japão, encontra um Death Note (Caderno da Morte). Esse caderno pertence a Ryuk, um shinigami entediado que resolve largar seu caderno no mundo dos humanos. Quando Light se dá conta de que ele de fato pode matar pessoas, ele decide aceitar aquilo como uma missão para eliminar do mundo todas as “pessoas ruins”. No começo são criminosos, mas depois elas viram qualquer um que entre em seu caminho.

Esse começo da crítica do filme será sem spoilers e depois eu entro em detalhes.

A minha vontade era de fazer o título da crítica, colocar “é ruim” e terminar o texto. “Ah, mas você acha isso porque não é fiel, adaptação não precisa ser fiel” sim, eu sei, eu tenho um texto falando exatamente sobre isso. O erro das pessoas é acharem que as adaptações precisam ser iguais ao original. Elas não precisam, cada mídia tem sua particularidade e, se é pra ver a mesma história, não tem porque fazer um produto novo.

E quer saber? Death Note da Netflix acerta em algumas mudanças. Eliminar a segunda metade do arco original, por exemplo, é a melhor coisa que eles poderiam ter feito. Os fatos principais do manga/anime que eles escolheram manter foram também boas escolhas, considerando que eles iam resumir toda a história da primeira metade do original para uma hora e meia. O problema é: Há um ponto extremamente básico para uma adaptação que eu falo no meu outro texto sobre o assunto: O filme precisa ser bom e Death Note da Netflix não é.

Ele tem momentos divertidos. Imagino que, para quem não conhece, certas demonstrações do poder de Kira são impressionantes. Mas não importa quantas cenas de tensão eles coloquem, não é tão simples esconder furos de roteiro, ainda mais quando eles estão em praticamente o filme todo. Os personagens tomam certas decisões apenas pelo fato de que a história precisa disso naquele momento. Coisas que qualquer pessoa com senso comum saberia que é uma má ideia, como por exemplo contar para uma pessoa que você mal conhece que você é um assassino. Há alguns diálogos de exposição bons, outros são bem forçados.

Os personagens me dão uma impressão mista. Eu consigo entender porque Light decide usar o caderno pela primeira vez, mas a construção dele não me convence, além do ator deixar a desejar em vários momentos. A história me diz que ele é um aluno brilhante, mas a única ação que eu vejo disso, tirando uma das viradas do final, é ele fazendo a lição de casa de todos os alunos. A partir disso, Death Note quer muito me convencer de que esse moleque é inteligente, mesmo que dez minutos depois ele conte para alguém que mal conhece que é um assassino (eu não vou superar isso). Ele toma várias atitudes burras, sendo inteligente só quando é conveniente para o roteiro.

Ryuk é divertido em alguns momentos, e até funciona em certas horas, mas o filme nunca se dá ao trabalho de me explicar porque Ryuk largou seu caderno no mundo dos humanos. Aliás, no começo há uma grande pista de que o shinigami bem terrível, uma ponta solta que nunca vai ser tratada de novo no filme. L começa bem, a atuação dele é melhor que a dos outros, o personagem está excêntrico e certas conclusões dele fazem sentido, mas tem outras que não, desculpa, não me interessa o quão inteligente o cara é, simplesmente não dá para assumir certas coisas, e o desenvolvimento dele no longa é bem descuidado.

Mia teve algumas mudanças até que interessantes. Ela não é a garota bobinha do original, completamente manipulada por Light. Eu gostei que Mia é mais inteligente no filme, muitas vezes ela mesma manipulando o Light. Isso é bem longe do original, e eu entendo que muitas pessoas sentiram falta de, nessa relação dos dois, não vermos o quão malvado Light pode ser, mas eu já vi inúmeras vezes a personagem mulher considerada burra sendo manipulada, então isso não foi de todo ruim. O que é má construção de personagem é eu ainda não ter ideia do motivo que fez Mia concordar em trabalhar com um assassino.

Os pontos negativos são maioria, mesmo tendo alguns pontos que poderiam ser promissores, ou até que funcionem em certos momentos. Há boas ideias nessa adaptação, mas Death Note deixa muito a desejar.

Agora eu quero fazer algumas pontuações com spoilers, tanto do filme quanto da obra original, então se você ainda quer fazer esse teste de resistência na Netflix, ou tem interesse em ver/ler o original e não teve a chance ainda (esse sim eu recomendo), então feche o texto agora.

No meu texto sobre adaptações, eu pontuo três coisas que precisamos ter em mente: O filme precisa ser bom, mudanças são necessárias e a essência precisa ser mantida. Há certas mudanças legais, mas Death Note da Netflix, além de falhar em ser um filme bom, também tem sérios problemas em entender a essência da obra original.

Eu não consigo desligar a parte do meu cérebro que conhece o anime/manga, em vários momentos do filme eu me peguei pensando “Mas e os olhos de shinigami?” antes de lembrar que isso nem foi um aspecto apresentado no filme. E quer saber? Ótimo. Considerando o tempo de filme, acrescentar mais essa possibilidade poderia ter deixado as coisas ainda mais complicadas. Mas a “essência” de uma história é algo muito mais simples e que pode ser colocado em uma adaptação de inúmeras formas.

Mudanças em personagens podem acontecer, mas é preciso tomar cuidado. Light é um protagonista tão interessante porque ele parece ser a última pessoa que poderia usar o caderno. O Light do original é inteligente, bonito, um dos melhores alunos do país, tem um futuro promissor, é charmoso quando quer, sabe falar bem… Por que esse cara acabaria entrando nessa espiral de auto destruição? Ninguém que conhece ele acredita quando as pistas passam a apontar Light como culpado. Ele detesta as pessoas “podres” do mundo, mas nessa aventura toda, ele se torna uma delas. Sim, ele mata pessoas terríveis, mas quem Light, ou qualquer pessoa, é para ditar quem vive ou morre? A solução para o mundo é eliminar quem comete crimes, sem segundas chances? Essas são questões importantes do original. Nós vemos parte disso em certas cenas, mas que fica no meio do mar de incoerências.

Um personagem não é o que ele diz, é o que ele faz. Não adianta você me dizer em alguns diálogos que Light é inteligente quando ele toma decisões burras. Ele não conhece Mia, mas confia nela o segredo do Death Note… Por algum motivo? O Light do original só confia em Misa porque ela tem provas da existência do caderno. Apesar de Misa ser muito manipulável, ela consegue armar planos em vários momentos e descobre quem Light é. Novamente, eu sei que a história não é para ser igual, mas é óbvio que você não vai admitir assassinato assim para um desconhecido a menos que essa seja a sua única escolha, ou sei lá, você acha que pode ser bom no futuro, mas o Light do filme não tinha nenhuma dessas motivações. E por que Mia não saiu correndo naquele momento? O filme não me deu nada para acreditar que essa moça tenha achado isso tudo aceitável.

Mais tarde, nós percebemos que Mia está disposta a matar pessoas inocentes. Isso não me incomoda, o que não me desce é, novamente, o que aconteceu na vida dessa moça para achar que matar o pai do namorado é algo aceitável? Isso não é uma decisão fácil de se tomar, ainda mais porque é muito provável que o namorado em questão não vá gostar dessa ideia. É uma boa sim mostrar como eles, que se dizem apaixonados, podem se virar um contra o outro para tentar ter o poder, isso seria um foco legal, mas essa construção não pode ser tão furada como uma peneira.

Uma das viradas do filme é interessante. Quando achamos que Ryuk matou os policiais, mas na verdade foi Mia. Mas a virada da roda gigante é fraca. Vamos lembrar que Light e Mia juraram amor um pelo outro e de repente eles estão colocando o nome um do outro no caderno. Novamente, uma ideia boa, se fizesse algum sentido. Quanto ao jeito que Light sobreviveu, o meu problema com isso nem é a virada toda, de que o Light sabia desde o começo que poderia dar errado, mas eu espero isso do Light original, que de fato é apresentado como alguém inteligente. Esse da Netflix só foi inteligente nesse nível quando o roteiro exigiu que ele fosse, por isso a resolução parece tão inacreditável.

O L, como já falei, começa bem, mas depois desanda bastante. No começo, quando ele confronta Light, na televisão, é uma grande referência ao original, só faltou a mesma inteligência. No manga/anime, L faz um teste com um prisioneiro, para ver com 100% de certeza uma pessoa ser morta por Light. Quando ele percebe que Kira está assistindo ao programa, o L original aparece, sem mostrar rosto ou nome, e desafia Light a matá-lo, mas obviamente nada acontece porque ele precisa de nome e rosto. É assim que L descobre como Kira mata. No filme, essa cena toda não faz sentido. Alguém com uma sniper poderia ter matado L, não precisava nem de caderno nenhum. E até onde L sabia, Kira poderia nem estar assistindo a televisão naquele momento. Até ele conseguir deduzir que Light estava nos Estados Unidos eu achei convincente, mas depois fica difícil. E como que, baseado nessa aparição, que nem mostra nenhuma demonstração de poder, L assume que Kira precisa de nome e rosto?

Eu acho interessante a ideia de mostrar que L, a pessoa que acredita em justiça e não em vingança, acaba perdendo o rumo quando Watari morre. O grande problema é que, como eu já falei, personagem não é o que fala, é o que faz. Nós vemos L falando sobre acreditar em justiça, mas eu não vejo nenhuma cena em que ele precise escolher entre justiça e vingança e decida pela primeira. E o final, onde ele pode ter matado Kira, deixa tudo ainda pior. Talvez a produção queria passar a ideia de que qualquer um pode ser terrível como Light, que de fato o poder passa adiante, assim como a obsessão por ser um deus, mas falta construção para chegar nesse ponto. Por que L acreditaria na história do caderno? Por que um suspeito falou para ele em um momento de pressão? L é um detetive da polícia, o que ele mais deve ter visto na vida é criminoso que mente sobre suas ações.

Uma coisa boa que o filme faz é mostrar como a sociedade se divide. Alguns acreditam que Kira é um criminoso, mas outros acham que ele é um deus. Também faz sentido L saber que Light é Kira quando ele se recusa a matar o próprio pai, é uma conclusão lógica, considerando tudo que ele já tinha descoberto até o momento. Mas a polícia nesse filme também só é inteligente quando é conveniente, porque no momento em que L acredita que Light é o assassino, ele deveria ter feito toda uma busca na casa dele, interrogado e coisa do tipo, mas ele convenientemente esperou até Watari sumir para fazer isso.

Death Note é uma obra tão legal porque ela brinca com a ideia de bem e mal. Nós torcemos por Kira, mesmo que ele seja um assassino. Também gostamos e torcemos por L, porque afinal de contas, Kira não pode matar quem quiser. A brincadeira de bem e mal não se dá só na narrativa, mas na ideia geral de sociedade, sobre ter o poder de decidir quem vive e morre. E o fato de alguém como Light, que é visto como uma pessoa que tem tudo, se afundar tanto nessa obsessão, é o que faz o final do original ser tão marcante e triste ao mesmo tempo. Ele tenta todas as últimas cartas, mas na sua obsessão ele se destrói e fica sozinho, mas ao mesmo tempo é bem feito, porque ele manipulou todos ao seu redor.

Eu não espero que um filme de menos de duas horas me passe a mesma profundidade, não tem como, mas ao menos uma dessas “essências” do original eu esperava ver. Eles podiam se focar na questão do bem e do mal, mas isso se perde no drama entre Mia e Light. Tudo bem, dava para focar em como um poder tão grande corrompe as pessoas, e eu acho que essa era a ideia final do filme, já que aparentemente L “segue” o mesmo caminho, mas foram tantos furos que levaram até a cena do hospital que essa mensagem perde a força.

No quesito de se destruir e de “todos podem ser Kira”, eu vejo algum potencial, mas como diria uma professora de roteiro minha: “Uma ideia é igual à p**** nenhuma”. Sem uma construção bem feita e plausível, o final se perde, o que é uma pena numa obra com tanto significado, numa história que fala sobre temas tão pesados. Muitos filmes tem um furo ou outro, eu não exijo perfeição, queria apenas algo convincente de que as coisas teriam acontecido da forma que foram, mas não é o caso.

O filme podia ter feito um personagem completamente diferente no lugar do Light, criar outra perseguição policial, o interesse romântico podia ser a grande mente do mal por trás de tudo, Ryuk podia ter sido apenas um expectador… Qualquer uma dessas mudanças poderia ser feita, o problema não é a fidelidade em si. A grande questão é que, no final do dia, Death Note falha tanto em ser um filme bom, quanto em ser uma adaptação que apresenta a essência da história.

Crítica | Hellblade: Senua’s Sacrifice

É sempre legal curtir um jogo que você está esperando pelo lançamento há algum tempo, mas também é ótimo se surpreender com um título que você não esperava nada. Essa foi a minha sensação com Hellblade: Senua’s Sacrifice. Até o momento, nenhum jogo da Ninja Theory tinha me chamado a atenção. Quando eu vi que a protagonista era uma mulher, pensei que poderia jogar eventualmente, talvez quando o preço abaixasse ou eu estivesse mais livre. Comecei a ver as críticas e meu interesse aumentou ainda mais. O último empurrão que eu precisava foi quando me disseram que a equipe do jogo fez toda uma pesquisa sobre transtonos mentais para retratar sua protagonista.

Hellblade: Senua’s Sacrifice, como o nome indica, conta a história de Senua. Ela é uma guerreira celta que mora em uma vila com seu amado, Dillion. Por motivos que serão explicados durante o jogo, ela se isola na floresta, mas quando volta para casa, vê que todos foram atacados e mortos pelos vikings. Dillion tinha sido sacrificado para os deuses nórdicos, portanto Senua começa uma viagem até Helheim, o mundo dos mortos nessa mitologia, para trazer Dillion de volta. Para isso, ela terá que enfrentar Hela, a deusa desse mundo.

Jogos onde o protagonista é uma pessoa que quer matar deuses não é algo novo, mas o diferencial de Hellblade aparece logo no começo. Somos apresentados à Senua através de uma das vozes de sua mente. A protagonista tem um transtorno mental, ela ouve vozes, vê rostos onde não existem, padrões em lugares aleatórios… E tudo isso faz parte da mecânica do jogo, além de compor a história.

As vozes na cabeça de Senua vão contando o passado da personagem ao longo do jogo, mas elas também dão dicas dos puzzles, avisam quando inimigos estão chegando perto e guiam tanto a protagonista quanto o jogador. As vozes pode ser irritantes e úteis ao mesmo tempo. Há momentos em que Senua conversa com pessoas que não estão ali, vê coisas que não são reais, mas todas elas acabam trazendo informações importantes para o jogo.

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6º Episódio: Beyond the Wall | 7ª Temporada de Game of Thrones

Os sentimentos são mistos com Beyond the Wall. O penúltimo episódio da temporada é sempre um dos mais bombásticos, desde o começo esperamos por esse episódio para ver algo muito grande acontecer. De fato, Beyond the Wall teve muita coisa importante acontecendo, mas a execução delas não foi das melhores.

Por um lado, não tem como não vibrar com certas cenas, ou não ficar tenso esperando ver o que vai acontecer. O episódio é tecnicamente bem produzido, porque Game of Thrones erra em várias coisas, mas não no espetáculo que eles trazem. E esse episódio foi divertido, eu ri, eu fiquei bem emocionada, senti raiva e gritei. Está longe de ser um episódio parado.

Ao mesmo tempo, as coisas aconteceram de forma tão repentina e apressadas, que elas foram só legais e divertidas, quando vários desses momentos deviam ter sido mais do que isso. Talvez com um pouco mais de cuidado, com menos furos no roteiro, o episódio poderia ter sido impactante e não só entreter. Beyond the Wall entrega os momentos que propõe, mas ele poderia ter sido melhor e com menos furos.

A partir daqui o texto terá spoilers.

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Arya continua cutucando Sansa e esfrega na cara da irmã a carta que achou. Ela acusa Sansa de ter traído a família, de não ter feito nada para impedir Ned de ser morto. Arya ameaça mostrar aquela carta para os nobres, afinal ela acredita que a irmã quer tirar o lugar de Jon como rei do Norte e obviamente isso deixa Sansa tensa. Como ela mesma vai dizer mais tarde, esses nobres não precisam de muito para quererem trocar quem está no trono.

Há algumas coisas aqui que valem ser faladas. Arya e Sansa nunca se deram bem, eu entendo, mas então por que o primeiro reencontro delas foi tão amigável? Arya já estava provocando Sansa antes de encontrar a carta. Ela diz que se lembra bem do dia em que Ned morreu, insinuando que Sansa não fez nada. Arya devia checar sua memória, porque no dia da execução Sansa gritou, esperneou e implorou para que Ned não fosse morto, basta ver as imagens do episódio. E como Sansa bem pontuou, se Arya queria tanto que alguém fizesse algo, por que ela mesma não o fez? A resposta é óbvia e Sansa sabe: Porque não tinha como impedir aquilo, se elas tentassem, as duas morreriam.

Também vale lembrar que, quando Robb e Catelyn receberam a carta de Sansa, ambos sabiam que ela tinha sido forçada a escrever aquilo. Lógico que era, Sansa era uma adolescente apavorada, com medo pela própria vida e pelo resto de seus familiares. E sabe, eu entendo que a Arya não tenha essa facilidade em perceber isso, afinal ela também era uma criança e ela passou por coisas muito diferentes. Quando a dor é grande, ela ultrapassa a razão. Mas se tem uma coisa que eu não entendo é Arya julgar os outros por sobreviverem. Ela não passou por tudo que passou, conviveu com Tywin Lannister e fugiu para sobreviver? Sansa também, só que de formas diferentes.

A Arya do começo da série obviamente não entenderia que o que Sansa fez foi sobreviver também, se essa briga tivesse acontecido mais cedo, ou ao menos sem o primeiro encontro amigável, faria sentido. Mas do que adianta fazer uma personagem que não se desenvolve? Porque eu juro que essa Arya que eu estou vendo só é diferente da primeira porque sabe lutar, o resto me parece igual, só que mais arrogante. Eu fico feliz que Sansa respondeu, porque ela estava certíssima. Além de ter sido uma adolescente que foi abusada e forçada a fazer o que fez, foi ela que conquistou o Norte, se dependesse só do Jon eles teriam perdido para os Bolton. Faz sentido que Arya não entenda, ou nem se importe com essas questões, ela nunca gostou de Sansa e, por também ter sofrido jovem, pode estar descontando o trauma na irmã, mas não me convence da forma que está acontecendo.

Estar em Winterfell é reviver tudo para Arya, mas isso não a faz ter razão em acusar Sansa. Eu espero que isso seja construído de forma que mostre que Arya está errada nos próximos episódios. Do jeito que está acontecendo, parece que só Sansa avançou como personagem, mas que Arya ficou travada no seu arco, só aprendendo a lutar. Isso é uma droga, eu gosto muito de Arya, ela é a minha Stark favorita e desde a última temporada o tratamento dela tem sido bem ruim. Arya pode não entender de nobreza, pode ter ressentimentos com a Sansa e pode ser impulsiva, mas ela não é burra.

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Depois Mindinho tenta aconselhar Sansa sobre toda a história de Arya, falando sobre a promessa que Brienne fez de proteger as duas irmãs. No começo, achei que ele estivesse insinuando que Sansa devesse manter Brienne por perto, mas ela a manda para Porto Real, porque está certíssima em não ir até lá. Mas aí eu fico confusa, por que Sansa tomou essa decisão? Brienne fala que não confia em Mindinho e Sansa deveria ouví-la, mas ela ignora e Brienne vai para Porto Real. Independente do real motivo, toda essa troca ficou muito confusa, parece só mais uma desculpa para que as coisas funcionem do jeito conveniente para a história.

A última cena mostra Sansa encontrando as máscaras de Arya. A irmã mais nova chega bem nessa hora e, novamente arrogante, provoca Sansa. Ela pergunta sobre Jon e, quando Sansa não responde, explica o que são as máscaras. Por um segundo eu achei que Arya fosse tentar algo contra a irmã, mas ela apenas entrega a adaga. Eu estou até agora tentando entender o ponto dessa história toda. O que Arya quer que Sansa faça? Qual é o objetivo disso tudo? Honestamente, eu espero bastante que Sansa pare de confiar no Mindinho e que Arya desça do pedestal e fique mais humilde. Se as irmãs estão juntas de novo, não é para terem o mesmo conflito de antes, então realmente espero que a conclusão dessa briga leve esse núcleo para algum lugar relevante.

Em Pedra do Dragão, Daenerys e Tyrion falam de Jon. Esse diálogo é legal, porque começa divertido e depois toca em pontos importantes para a história. Tyrion insinua que Jon está interessado em Daenerys e eles começam a falar sobre o encontro com Cersei. Tyrion continua insistindo que Daenerys precisa ter mais que o medo das pessoas, que ela precisa balancear isso melhor e não queimar os outros como fez com os Tarly. Depois disso, ele questiona quem sentará o trono depois dela, já que seus únicos filhos são os dragões. Daenerys não gosta disso e fala que é algo que eles precisam se preocupar mais tarde, porque pensar a longo prazo fez com que eles perdessem alguns aliados.

Os dois têm pontos válidos aqui. Por um lado, Daenerys de fato precisa se preocupar antes em vencer, porque se perder a guerra, não tem porque pensar em qualquer pessoa para sentar no trono depois dela. Sem contar que se os White Walkers ganharem, não vai ter trono nenhum. Mas Daenerys é uma líder que vai para o combate, então Tyrion não está errado em pensar que, caso ela morra, a conquista dela estará completamente acabada e os que a seguiram vão sofrer. Como Daenerys não pode ter filhos, Tyrion sugeriu que ela olhasse o modo como a Patrulha da Noite e os Greyjoy escolhem sucessores. Isso é interessante, Daenerys sempre fala sobre quebrar a roda, que seria quebrar o sistema, mas ela assumir o trono não é acabar com o sistema. Agora, tanto a Patrulha da Noite como os Greyjoy usam o sistema de votação para escolher quem ficará no comando. Se Daenerys estabelece isso, aí de fato ela quebrará a roda, porque ao invés de uma monarquia, Westeros poderia chegar perto de uma democracia. De qualquer forma, Daenerys corta essa conversa porque quer se focar no agora.

O esquadrão suicida tem várias cenas ao longo do episódio, as primeiras mostram interações entre os personagens, o que torna esse núcleo mais interessante. Uma delas foi Tormund falando para Jon que o orgulho de Mance em não ajoelhar fez muitos deles morrerem. Isso é importante porque vai desdobrar numa escolha de Jon no final do episódio. Ele também conversa com Jorah e entrega Garralonga, espada dos Mormont, mas Jorah não aceita.

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Eles encontram um urso pólar zumbi e Thoros acaba sendo gravemente ferido, mas por enquanto ele sobrevive. Essa cena também vai ser relevante para outro ponto mais tarde. O esquadrão suicida monta uma armadilha para capturar um grupo específico de White Walkers, que nos dá uma nova informação sobre eles: Caso você mate um dos líderes, todos que foram transformados por esse primeiro vão ser destruídos. Que sorte que, quando o Jon atacou o líder, só sobrou um, não é mesmo? Mas ele faz tanto barulho que atrai os outros White Walkers. Percebendo que a coisa vai ficar muito ruim, Jon manda Gendry, o mais rápido, correr até Atalaialeste de novo e mandar um corvo para Daenerys. Ele até pode ser o mais rápido, mas nunca viu neve, então mandá-lo não era exatamente a melhor opção.

Obviamente essa ideia ia dar errado. O esquadrão suicida corre e se isola numa pedra no meio de um lago de gelo. A medida que os White Walkers vão correndo atrás deles, o gelo vai quebrando, e graças a isso eles conseguem ficar seguros por um tempo, mas completamente cercados por todos os lados. Enquanto isso, Gendry consegue correr e chegar em Atalaialeste antes de congelar e é recebido por Davos. De acordo com as contas que alguns fãs fizeram, parece que se passaram alguns dias, por volta de quatro, enquanto o esquadrão suicida preso. Thoros acaba morrendo congelado e Beric considera tentar alcançar os líderes dos White Walkers, incluindo o rei da Noite, para matá-los, assim os outros zumbis seriam destruídos ou pelo menos o número ia diminuir. Só que se eles conseguissem, o que era improvável, então qual é o ponto de buscar um deles para provar a história toda para a Cersei? Era mais fácil só matar todos e fim da história.

O corvo chega em Pedra do Dragão e Daenerys resolve pegar os três dragões e ir até o esquadrão suicida. Tyrion é contra, afinal teve toda a conversa sobre Daenerys morrer e não ter ninguém para ficar no lugar dela, mas ela ignora. Levar os três dragões não foi o mais inteligente, mas eu acho justo Daenerys enfrentar as próprias lutas. Eu sou da opinião que, se um rei ou rainha é capaz de lutar de alguma forma, eles devem se envolver nas batalhas.

Depois desses supostos quatro dias, o lago volta a congelar e os White Walkers atacam. Eu me pergunto se o rei da Noite não tinha como atacá-los mesmo antes. Mais tarde nós vamos descobrir que ele é ótimo em arremesso, então será que precisava mesmo ficar esperando? De qualquer forma, a luta começa. A batalha é tensa, os White Walkers estão vindo de todos os lados e não tem para onde correr. Por incrível que pareça, nenhum deles morre além de Thoros e eu acho que isso é um erro. Não que toda a história precise matar personagens sempre, mas Game of Thrones nunca teve medo de matar as pessoas. Na primeira temporada a série construiu Ned Stark como o principal para matá-lo no nono episódio. Inúmeros personagens de peso morreram em algum desses momentos, então o esperado era que isso acontecesse. Thoros morre, mas a morte dele não é tão impactante. A própria série sabe que precisava ter mortes na hora da luta em si, porque alguns figurantes, que nem foram apresentados, morreram. Tem uma cena que praticamente mata Tormund, mas no último segundo ele escapa. Achei que foi uma escolha covarde e até inacreditável. A situação era muito terrível, alguém ia cair naquela situação.

Daenerys ex machina aparece, mas eu vou perdoar um pouco esse porque, pelas contas dos fãs, de fato o tempo bate. Os três dragões chegam queimando tudo e é lindo, mas não só pela fotografia ou pelos efeitos. Aliás, se tem algo maravilhoso nesse episódio, é o quão bonito ele é. Os efeitos dos dragões estão incríveis. Mas também é lindo porque, pela primeira vez, gelo e fogo se encontram dessa forma literal. Os grandes símbolos de cada elemento se enfrentam, assim como Daenerys e Jon se viram nessa temporada, que são as personificações desses dois elementos. Se Daenerys tinha alguma dúvida sobre os White Walkers, não existe mais, porque não tem como discutir com essa batalha. Todos sobem em Drogon, mas Jon continua lutando… Por motivo nenhum. Ele se afasta sem razão alguma. Enquanto eles esperam Jon voltar, o rei da Noite acerta Viserion com uma lança e o dragão morre.

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Antes de falar dos furos dessa luta, deixa eu falar dessa cena específica. Eu quase chorei, eu fiquei arrasada, mesmo sabendo desde sempre que um dragão ia morrer. A cena em si foi muito boa, dá para ver nos olhos da Daenerys um misto de tristeza e até incredulidade. E eu adoro dragões, é um dos elementos de fantasia medieval que eu mais amo, então doeu muito ver Viserion afundar no lago. Daenerys é inteligente em mandar Drogon e Rhaegal irem embora sem Jon, porque se o rei da Noite, com uma lança, matou um dos dragões, ela não vai ficar lá dando sopa esperando ele arrumar outras lanças.

Eu acho perfeitamente plausível que o rei da Noite tenha uma lança que faça esse estrago contra dragões. Ele é a criatura mais temida e possivelmente mais poderosa de Westeros, ele é o chefão final desse jogo, se ele não tivesse um poder grande assim, o combate no futuro não seria tão tenso. O que eu não entendo é porque o rei da Noite não mirou no Drogon. Ele é o maior dragão, com gente montando nele e parado no meio do lago. Viserion estava voando e é um alvo menor, era muito mais fácil, e eficiente, ter acertado Drogon. Se Viserion tivesse ao menos tentado atacá-los diretamente, eu poderia acreditar que o rei da Noite é um cara rancoroso e não aceita desaforo, mas do jeito que foi é a conveniência do roteiro mesmo.

Jon consegue sobreviver, mas os White Walkers ainda não foram embora, então ele não está a salvo. Mas tudo bem, porque Benjen ex machina está chegando! E ele só aparece para alcançar Jon, entregar seu cavalo e mandá-lo sair dali, se sacrificando no final. Custava ter incluído ele no esquadrão suicida antes? Imagina, Jon gostava de Benjen, eles se reencontram, conversam no caminho, falam dos velhos tempos, mas Benjen não sobrevive. Isso é um exemplo do meu maior problema com essa luta toda. Foi divertida, teve momentos emocionantes e muita coisa estava em jogo, mas além de ter sido um plano muito burro e desnecessário, que poderia ter sido resolvido de inúmeras maneiras mais fáceis e com menos riscos, não foi bem construído. Sim, os momentos são legais, é incrível (e terrível) ver Viserion caindo do céu, mas parece que Game of Thrones está sofrendo, mais do que nunca, da crise da DC nos cinemas: Fazer coisas só porque é legal.

É óbvio que uma produção de entretenimento precisa ter elementos que as pessoas gostem. Não é um problema fazer algo que os fãs querem, é ruim quando isso é jogado. Há várias coisas nessa temporada que acontecem porque são legais, mas elas não são bem construídas, e com todos os furos, acabam sendo menos do que poderiam ser. Essa luta poderia ter sido muito mais impactante, até muito mais emocional, mas a situação toda parecia tão falsa do ponto de vista narrativo (sim, eu sei que dragões e White Walkers não existem, antes de vocês me acusarem de querer realismo), que só se torna um momento legal que tinha muito mais potencial.

Jon consegue chegar na Muralha antes de Daenerys ir embora, afinal ela ficou esperando por ele. Eles entram no barco e ela vê os ferimentos que mataram Jon. Agora sim vamos falar de Jonerys. Jon pede desculpas pelo que aconteceu com Viserion, mas ao menos agora ela acredita nele. Daenerys também ganhou um grande incentivo para matar o rei da Noite, afinal ele matou um de seus filhos. Os dois dão a mão e Jon até a chama de “Dany”. Ouvindo o conselho de Tormund, Jon anuncia que está se ajoelhando (porque ele está deitado e não pode, né), e jura servir a rainha Daenerys. Eles trocam um olhar bem fofo, que praticamente confirma qualquer última dúvida que restava sobre o casal.

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Eu resolvi parar e pensar em todas as interações desse ship. A relação tia e sobrinho sempre me atrapalhou para gostar desse casal, mas tentei pensar mais friamente nas interações deles. Eu ainda sinto que faltou uma coisa ou outra. Talvez uma interação a mais, um comentário que fizessem para Jon sobre os dois, assim como teve nesse episódio com Daenerys por parte de Tyrion. Eu não preciso de muito para aceitar um casal, não mesmo, mas pelo fato deles terem começado se desgostando e pelo ritmo estar tão acelerado, eu entendo porque as pessoas achem forçado, eu também acho que tem momentos que, por mais que meu coração shipper curta, minha cabeça acha muito acelerado. Mas, dito isso, olhando o ponto em que chegamos nesse episódio, não acho que a coisa foi tão corrida ou muito forçada quanto alguns falam. São pequenas coisas a mais (ou a menos) que, na minha opinião, melhoraria a percepção das pessoas, mas há pontos interessantes também.

Outra coisa que me incomoda é como Daenerys reagiu à morte de Viserion. Eu entendo perfeitamente que na hora ela não tenha perdido o controle, afinal ela estava no meio de uma luta, e ela é Daenerys, que controla muito suas emoções e como as expressa. Mas eu senti falta de ver algo depois da batalha, algum tipo de luto, nem que fosse na forma de raiva. Quando seus dragões foram sequestrados, Daenerys gritava, mas agora quando um deles morre ela mostra mais emoções por Jon? Eles ainda não tem uma relação forte para ter chegado nesse ponto. O fato de Jon ter chamado Daenerys de “Dany” também me fez sair um pouco da imersão fangirl. Isso sim eu achei forçado. Por que ele resolveu chamá-la assim? Ninguém nunca diz isso e, como eu disse, a relação deles ainda não está nesse ponto de intimidade. O clima já estava estabelecido, dá para ter calma com esses dois. Entendo que foi uma forma de falar que ele ia se ajoelhar, mas tinha outras maneiras de construir esse diálogo.

Mas a cena da mão não me incomodou como fez com algumas pessoas. Para mim a situação é: Os dois estavam começando a se entender e foram numa missão de vida ou morte. Ambos perderam pessoas com quem se importavam, Viserion e Benjen. Todo o stress da batalha e essas perdas faz com que eles fiquem sensíveis, e nessas situações, é esperado que as pessoas acabem encontrando consolo, e até mais, umas nas outras. Westeros é um mundo cheio de guerra e violência, talvez por esses elementos aparecerem tanto, nós esquecemos que são situações muito estressantes para esses personagens. E agora ambos fizeram algo que capturou a atenção do outro. Jon fez um ato heróico, que por mais que Daenerys ache burro, ela aprecia, é óbvio na forma em que ela lista os homens para Tyrion. Além do fato de Jon ter confiado nela quando ele foi na cara e na coragem até Pedra do Dragão. Jon não tem medo de fazer o que precisa e Daenerys viu isso. Já Jon foi salvo por Daenerys, ela acreditou o suficiente nele para ir atrás do esquadrão suicida, ela perdeu um dragão para salvá-lo e isso é muito grande.

Para terminar essa zona toda, o rei da Noite transforma Viserion no tão esperado dragão de gelo. É interessante que eles tenham mostrado um urso transformado no mesmo episódio, para lembrar a audiência de que animais também correm esse risco. Isso é gigante. Drogon e Rhaegal vão ter que lutar contra o seu irmão. Westeros vai ter que encarar um dragão do rei da Noite. Sim, os dragões serem de Daenerys é ruim para os inimigos, mas dá para conversar com Daenerys e não há papo com os White Walkers.

Por mais que eu tenha me divertido com o episódio, os furos de roteiro estão aparecendo mais do que nunca, o que corta parte da imersão. É uma pena, porque vários momentos desse episódio poderiam ter sido mais impactantes, assim como as relações teriam mais tempo para serem melhores construídas. Game of Thrones diverte e dá um show de produção, mas isso acaba deixando a qualidade do roteiro um pouco de lado.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

4º Episódio: The Spoils of War | 7ª Temporada de Game of Thrones

Todo mundo se recuperou desse episódio? Muito dos grandes momentos dessa temporada foram tão impactantes pelo que já aconteceu na história de Westeros. Não tirando o mérito dos acertos, mas até quando a cena nem era tão boa, ela causava algo nos fãs que estavam acompanhando desde a primeira temporada.

Com The Spoils of War nós também vemos isso, mas o episódio vai além, colocando novas coisas em jogo. Esse final com certeza vai ficar na memória de muita gente. Por mais que eu tenha achado que poderia ter acontecido mais coisa, até porque esse episódio foi mais curto do que o normal, tivemos muitos momentos importantes que, ao que tudo indica, serão ainda mais relevantes para o futuro.

Daenerys e Cersei continuam movendo seus respectivos exércitos, enquanto Jon segue tentando convencer as pessoas de que os White Walkers são uma ameaça real. Algumas cenas foram bem bonitas, outras me deixaram com algumas pulgas atrás da orelha sobre certos segredos que ainda podem ser revelados.

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