Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Toda Frida – Representatividade e Girl Power em Linha de Roupas!

Quando você é nerd, ou só gosta de um filme/quadrinho/série, e quer comprar uma camiseta com a sua personagem feminina favorita, essa missão pode acabar se tornando um grande fracasso. Por isso, aqui no Collant, a gente adora a Toda Frida.

Pra quem não está ligando “o nome à pessoa”, a Toda Frida é a loja que transforma as ilustrações maravilhosas do Fight Like a Girl, da Kaol Porfírio, em camisetas e moletons. A coleção traz uma variedade imensa de personagens, cobrindo tanto o mundo dos filmes, como séries de televisão, animes, animações, quadrinhos, videogames e mulheres reais também!

Uma das coisas mais legais da marca é que ela se preocupa de verdade com representatividade. Além de usar modelos “reais”, mulheres que caminham entre nós mortais, que não nos encaixamos no padrão passarela de corpo, ela também tem do tamanho PP até o 3G!

A gente fez uma seleção das nossas estampas favoritas, todas transbordando GRL PWR!

Crystal Gems

Para o dia em que você precisa dazamigas para vencer o mal.

Nina Simone

Para o dia em que você acorda no clima de música e inspiração.

Max e Chloe

Para quando você lembra que apesar de tudo… Amor. <3 

Kamala Khan

Para o dia em que você acorda super-heroína, mas com os problemas de uma adolescente normal.

Hermione

Para o dia em que você acorda mágica, mas sabe que vai precisar de mais do que isso na prova da faculdade.

Mulher Maravilha

Quando você sabe que é poderosa, maravilhosa e chuta bundas como ninguém.

Arya Stark

Para os dias em que você vai precisar de muito mais do que a sua carinha bonita pra vencer a lista de to-dos.

Rey

Para os dias em que vão parecer jornadas inteiras em galáxias distantes. 

Tempestade

Porque você é a rainha da p***a toda e todo mundo sabe disso.

Marie Curie

Para os dias em que você sente que vai deixar um rastro de descobertas fabulosas.

011

Para o dia em que sair da cama precisa da força de atravessar para um outro universo.

Commander Shepard

Para os dias em que você está no clima de salvar a galáxia – e fazer isso com estilo.

Malala

Para o dia em que tudo parece ruim e você precisa de um pouco mais de esperança.

Lá no site da Toda Frida tem mais um monte de opções de heroínas – reais ou não! Então corre lá e já garante a sua!

Os Equívocos na Fala de James Cameron Sobre Mulher-Maravilha.

James Cameron é um diretor conhecido por seus ambiciosos filmes e por sua constante procura por conseguir avanços científicos através das suas produções. Titanic, Avatar e mesmo O Segredo do Abismo, todos eles precisaram que algum tipo de tecnologia fosse desenvolvida para que eles pudessem acontecer. James Cameron também é conhecido por ser o diretor de Aliens (1989), a continuação do clássico de ficção científica e, para muitos, o melhor filme da franquia e pela criação da franquia d’O Exterminador do Futuro.

Em uma entrevista ao The Guardian, o diretor de True Lies (1991), achou que seria conveniente fazer uma crítica ao modo como Hollywood recebeu o filme da Mulher-Maravilha:

Todos esses tapinhas nas costas, esse auto-elogio, que Hollywood vem se dando por causa de Mulher-Maravilha é muito equivocado. Ela é um ícone objetificação, e é só a Hollywood masculina fazendo a mesma coisa de sempre! Eu não estou dizendo que não gostei do filme, mas é um retrocesso.

A diretora de Mulher-Maravilha, Patty Jenkins, respondeu com o que provavelmente é o melhor resumo de todos os problemas da fala do diretor:

A incapacidade de James Cameron de compreender o que a Mulher-Maravilha é, ou o que ela representa, para mulheres ao redor do mundo não é surpreendente já que ele, apesar de ser um grande diretor, não é uma mulher. Mulheres fortes são ótimas. O elogio dele ao meu filme, Monster, e à nossa representação de mulheres forte apesar de perturbadas é muito apreciado. Mas se mulheres precisarem sempre ser forte, duras e perturbadas, e nós não formos livres para sermos multidimensionais e celebrarmos um ícone de mulheres em todo lugar porque ela é bonita e amável, então nós não fomos tão longe assim. Eu acredito que mulheres podem e devem ser TUDO, assim como personagens masculinos deveriam ser. Não existem um tipo certo ou errado de mulher poderosa. E a massiva audiência feminina que fez do filme o sucesso que é pode com certeza julgar o seus próprios ícones de progresso.

Existem muitos pontos a serem debatidos na fala de Cameron e, por mais que a fala de Patty seja uma resposta mais do que à altura ao que o diretor disse, eu sei que muitas pessoas ainda tem dificuldade para entender a problemática de Cameron ter dito o que disse.

O “auto-elogio” de Hollywood.

É verdade que toda vez que alguém faz o mínimo para a representação feminina ou de qualquer outra minoria Hollywood, e os envolvidos na produção, costumam se tornar símbolo de inclusão e acreditar que são os panteões da justiça (apesar de eu não achar que Patty Jenkins fez isso). E é importante que nós não acreditemos que Mulher-Maravilha chegou e pronto, todos os problemas de representação feminina estão resolvidos – porque não estão. Mas é engraçado como o diretor reclama do auto-elogio mas se dá um tapinha nas costas por causa de Sarah Connor.

Sarah Connor não era um ícone de beleza. Ela era forte, ela era perturbada, ela era uma mãe terrível e ela ganhou o respeito da audiência através da força de sua personalidade. E, para mim, o benefício de uma personagem como a Sara é óbvio. Quer dizer, metade da audiência é feminina!

Ou seja, uma personagem que ele criou é muito mais completa e uma visão muito mais positiva de representação feminina do que aquela trabalhada por uma mulher. Se isso não é o auto-elogio masculino mais comum, eu não sei o que é.

O Tipo Certo de Mulher

Mas essa declaração de Cameron não é problemática só por se considerar capaz de fazer um trabalho superior ao escrever uma personagem feminina do que o que uma diretorA poderia fazer. Ela também indica que Cameron parece acreditar que há apenas um tipo de mulher que pode causar identificação através da força de sua personalidade – aquela que reune qualidades normalmente atribuídas à personalidades masculinas, ou que renunciam ao que é considerado “feminino demais”.

Veja bem, em toda a sua carreira, Cameron possui três protagonistas femininas solo: Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro, a Tenente Ripley, de Aliens, e Max, da série Dark Angel (que eu vou falar mais tarde).

Sarah e Ripley, por mais que eu as ame e acredite que sejam personagens femininas muito interessantes, apresentam traços de personalidade que são normalmente associados ao masculino: predisposição à violência, capacidade de combate e nenhuma das duas atrizes se encaixava no que seria o padrão de feminilidade da década de 80.

Em Dark Angel, Max é uma mulher que foi cobaia num laboratório para modificação genética de crianças. Ela é mais forte do que o normal, uma guerreira nata e a representação de tudo que um protagonista masculino de ação é – mas ela faz isso tudo de salto. Novamente nós temos uma heroína feminina que ganha valor por ter características normalmente atribuídas à personagens masculinos.

Além delas Cameron tem ainda Helen Tasker, de True Lies, uma dona de casa que precisa abandonar o seu instinto caseiro e materno para se juntar ao marido agente secreto num plano para parar uma ameaça terrorista e salvar a filha do casal. Aqui, Cameron coloca o papel de dona-de-casa e mãe como algo negativo e, apesar de ser o marido o principal responsável pela crise no casamento, mostra Helen como a culpada.

Veja bem, eu AMO uma personagem feminina que chutas bundas, atira granadas, luta contra aliens em um robô e sabe kung-fu, mas mulheres não são só isso. Essa visão de que se uma personagem feminina não se encaixa num núcleo preciso de qualidades masculinas consideradas positivas, então elas não são revolucionárias o suficiente, é uma visão retrógrada. Porque se para ser considerada uma personagem bem construída, com quem a platéia possa se identificar, a personagem feminina precise assumir características masculinas, então está se apagando aquilo que é considerado feminino, está se ligando essas características à algo negativo.

Essa visão de que maternidade e características femininas são algo negativo está presente dentro dos filmes do diretor. Em determinado momento da história de Dark Angel, o fato de Max ser mulher e poder gerar um filho é usado contra ela, Helen tem anseios por carinho e atenção que True Lies trata como algo negativo e a responsabiliza pela crise no casamento, Cameron disse que Sarah é uma péssima mãe – quando na verdade ela está tentando fazer de tudo para salvar o filho e o mundo. Ripley, na versão do diretor de Aliens, descobre que sua filha morreu de velhice antes que ela pudesse voltar à vê-la, o que faz com que ela se sinta culpada. Mesmo em Titanic nós temos o caso clássico do estereótipo da mãe malvada que quer usar a filha para continuar rica. Se é feminino, é negativo.

Mulher-Maravilha, ícone de objetificação.

Se você acompanha o Collant sabe que volta e meia eu falo sobre objetificação feminina e, mais de uma vez, falei sobre como me incomoda o modo como as super-heróicas são representadas – incluíndo a MM. Eu continuo achando a roupa da Mulher-Maravilha uma das coisas mais não-práticas e feitas apenas para agradar o olhar masculino – podia ser ótimo lutar de saia na época da Grécia Antiga mas, passando alguns milhares de anos, era de se esperar que roupas de batalha tivessem evoluído também.

Muitas das minhas críticas ao modo como super-heroínas são retratadas tem como causa o fato de que quem faz a maioria dessas representações são homens, porque o mercado criativo seja de cinema ou de quadrinhos, ainda é dominado pelo olhar masculino. E esse olhar tende a ser objetificante e desumanizador. Por isso o que se iniciou como um símbolo de liberdade sexual feminina, como o uniforme da Mulher-Maravilha, ao longo dos anos acabou se tornando uma maneira para que homens criadores pudessem explorar todos os ângulos ginecológicos possíveis.

É engraço ver Cameron falar sobre MM ser objetificada, quando a Helen de True Lies é forçada pelo próprio marido à fazer um strip-tease para alguém que ela acredita ser um estranho. Fica mais engraçado lembrar que, apesar de todos os outros membros da nave estarem vestidos com calças e shorts, Ripley continua usando o kit calcinha + blusinha para viajar. Eu rolo de rir ao lembrar que Max, por mais incrível que Dark Angel seja, era interpretada por Jessica Alba e tratada como símbolo sexual o tempo todo – chute bundas, mas seja sexy. E não podemos esquecer da raça alienígena de Avatar onde as fêmeas tem as mesmas características físicas das mulheres humanas – incluíndo seios.

Jessica Alba, que interpretava Max, disse em uma entrevista alguns anos atrás:

Uma série minha (Dark Angel) premiou quando eu tinha 19 anos. E logo de cara todo mundo tinha uma opinião muito forte sobre mim por causa do jeito que o meu marketing foi feito. Eu deveria ser sexy, essa garota forte de sexy. Era o que as pessoas esperavam. Eu senti como se estivesse sendo objetificada, e isso me deixou desconfortável.

Apesar do uniforme da Mulher-Maravilha ser minúsculo e pouco favorável para um campo de batalha, Patty conseguiu fazer aquilo que, para muitos diretores, é impossível: ela não objetificou a personalidade. A sexualidade que Diana apresenta no filme é dela, não do olhar que é colocado sobre ela. Não existem sequências da câmera deslizando sobre o corpo da atriz para ser objetificada, quando a câmera mostra o corpo dela é para enfatizar o seu poder e sua força. Talvez esse seja o tipo de avanço que passe despercebido para o olhar masculino, já que ele tende a não entender onde começa o erro da objetificação feminina.

O Tipo Certo de Representação

Patty Jenkins está muito certa em dizer que Cameron não consegue entender a importância da MM por não ser mulher. Empatia pela história do outro é algo que todos nós podemos ter, eu cresci assistindo protagonistas masculinos e me identificando com eles, eu fui programada desde criança a ter empatia por aquilo que não me representava de verdade. Por isso é muito mais fácil para mim assistir Capitão América e me identificar com os valores e a história do personagem do que para um cara assistir Mulher-Maravilha e fazer o mesmo. E isso é, no mínimo, triste.

Não só porque esse cara vive dentro de uma bolha, mas porque ele cresceu escutando que só a história dele importa. Homens, especialmente brancos, hetero e cis,  possuem todo e qualquer tipo de representação possível em quantidades imensas. Talvez por isso seja tão difícil para eles entenderem porque Mulher-Maravilha foi tão importante para tantas mulheres, talvez por isso eles achem que tem o direito de dizer o que é certo ou errado na representação feminina.

Homens também crescem escutando do mundo que eles estão corretos, e mulheres crescem escutando que elas provavelmente estão erradas. Por isso Cameron se sente no direito de fazer esse tipo de comentário e apontar o que “está errado”. E por isso é tão importante que Patty tenha dado uma resposta tão firme sobre o assunto – porque Cameron está errado. Existe espaço para todo tipo de mulher, e todo tipo de mulher pode e deve ser um símbolo de resistência e força.

Conclusão

Parece que o problema de James Cameron com Mulher-Maravilha é que ela é uma personagem feminina que está diretamente ligada àquilo que é considerado feminino. Por mais que eu ache um retrocesso dividir sentimentos e características de personalidade binariamente entre masculino e feminino, é pior ainda ignorar e menosprezar sentimentos que foram considerados femininos e por isso menores durante tanto tempo. Eu adorei Mulher-Maravilha e, para mim, um dos pontos fortes do filme é o modo como ele não foge de falar de sentimentos e de amor – inclusive acredito que a força principal do filme e da mensagem dele para o mundo está aí. E não tem nada considerado mais feminino do que sentimentos e amor.

Essa visão de que para Cameron algo considerado feminino, como amor e sentimentos, é algo negativo fica ainda mais evidente quando pensarmos que tirando esses elementos a Mulher-Maravilha é uma guerreira. Ela pode não apontar uma metralhadora, jogar granadas ou dirigir motos futurísticas, mas ela empunha um escudo e uma espada. Então é sobre ela ser feminina demais, ou sobre não ser do jeito que ele acha deveria ser?

Não é sobre vilanizar James Cameron. Eu adoro muitas das personagens que ele criou ou com que trabalhou. Ripley tá na parede da minha sala, Dark Angel era uma das minhas séries favoritas na adolescência e apesar de saber das fraquezas do filme, Avatar não me incomodou como incomodou à muitas pessoas. Mas as declarações do diretor deixam bastante evidente um desconforto que produções como Mulher-Maravilha, e qualquer produção de sucesso que esteja ligada à alguma minoria, causam aos poderosos homens de Hollywood. Porque se a história que faz sucesso e está sendo contada não é a deles, ou se é uma história que não é contada através do olhar deles, então ela não está sendo feita da maneira correta.

Até mais! 😉

Alguns textos que talvez ajudem a entender melhor:

A HIPERSEXUALIZAÇÃO FEMININA NO ENQUADRAMENTO E NO MOVIMENTO DE CÂMERA.

MANARA, CHO E A TAL DA SUBVERSÃO DO TABU.

O AMOR EM MULHER-MARAVILHA.

ARLEQUINA E MULHER-MARAVILHA: A HIPER-SEXUALIZAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA. 

Liberdade de Expressão ou Discurso de Ódio – Uma conversa sobre terror e cultura pop.

O termo “liberdade de expressão” é corriqueiramente jogado contra quem discute e critica o status quo excludente da cultura pop. Se criticarmos o status quo branco, masculino, heterossexual e cis, então estamos tentando censurar e por isso estaríamos rompendo com a liberdade de expressão dos produtores de cultura pop. 

Quando uma figura pública fala absurdos misóginos, racistas e etc, seus defensores correm para gritar “liberdade de expressão”. Mas o que talvez essas pessoas não saibam é que você ser livre para falar o que vem na sua cabeça, para jogar as suas idéias no mundo, não quer dizer que você é livre para clamar a morte de um grupo de pessoas. 

Durante o fim de semana do dia 12/08, nós assistimos em choque o que aconteceu na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia nos Estados Unidos. Enquanto muitos conseguiram ver o ataque pelo que ele foi, um ato de disseminação de ódio, preconceito e glorificação de uma ideologia segregada e assassina, algumas pessoas insistem que o que aconteceu foi, apenas, um grupo de pessoas expressando suas opiniões, o protesto contra a queda de uma estátua. 

Eu quero tentar tocar em todos os aspectos dessa discussão, mas antes de continuar, eu gostaria que você assistisse à este vídeo. São 20 minutos em que a equipe da Vice acompanha o grupo de nazistas que organizou a marcha de sexta e sábado. O vídeo possui imagens fortes do atropelamento, então se você não quiser assistir esta parte sugiro pular de 11:11 para 11:55 minutos. 

Liberdade de Expressão vs Consequências

Muitas pessoas entendem liberdade de expressão como um passe livre pra falar ou fazer qualquer tipo de coisa. Essas pessoas falam e agem da maneira que bem entenderem, mas quando a sociedade responde ao seu comportamento e à sua fala, elas ficam indignadas e confusas – como assim liberdade de expressão não as exime de responsabilidades? 

Alguns anos atrás, quando o caso da jovem que sofreu estupro coletivo no Rio veio à tona, um ilustrador brasileiro postou comentários misóginos e transfóbicos na sua página pessoal de facebook. A empresa que fazia o seu agenciamento para o mercado internacional decidiu desligar-se dele, cancelando o contrato dos dois. Muitos chamaram a decisão da empresa de censura, de submissão ao politicamente correto. A verdade é que a empresa não tirou lápis, papel e computador do ilustrador, ela apenas decidiu que não serviria mais de plataforma para o trabalho dele. 

Você pode falar o que você quiser, pode postar na sua página pessoal do facebook ou do twitter o que você quiser, mas isso não quer dizer que ninguém vai cobrar responsabilidade sobre o que você expressa. Liberdade de expressão não significa que o que você fala não será julgado, não significa que você não sofrerá consequências pelo que você diz, pelo que você coloca no mundo.

Um outro exemplo disso aconteceu alguns meses atrás, o youtuber PiewDiePie perdeu patrocinadores quando começou a chamar atenção para o conteúdo envolvendo nazismo que ele produzia para o seu canal. De novo gritaram censura e ditadura do politicamente correto, mas agora, em face do que aconteceu em Charlottesville, PiewDiePie soltou uma declaração dizendo que vai definitivamente excluir esse tipo de conteúdo de seu canal – ele não quer dar plataforma para uma ideologia na qual não acredita. Isso não é censura, não é ele se entregando para a suposta ditadura do politicamente correto, é um posicionamento importante em um momento de instabilidade como o atual. Espero, de verdade, que ele tenha entendido os problemas com o conteúdo que ele disponibilizava. 

Entender a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio é imprescindível para que nós continuemos a afastar e coibir movimentos nazistas como o de Charlottesville. A Lorelay Fox soltou um vídeo ontem que sintetiza muito bem a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio.

“Quando um discurso inferioriza o outro, quando um discurso tenta segregar religiões ou raças, quando um discurso inferioriza e ofende e pode gerar comportamentos agressivos contra outras pessoas. Um discurso que visa manter alguém no poder enquanto rebaixa uma parcela da sociedade.”

Lorelay destaca que no Brasil o discurso de ódio contra negros, mulheres e religiões está registrado como crime na nossa constituição, mas o mesmo não acontece com o preconceito contra LGBT – essa é uma luta que ainda está sendo travada.

Eu entendo que é difícil entender como falar de tolerância querendo cercear algum tipo de discurso – mas isso é um paradoxo. Não é possível falar em liberdade de expressão se parte do discurso que deveria ser liberado busca atacar uma parcela da sociedade. A Picoline fez um quadrinho que fala de maneira interessante dessa questão:

Além de entender a diferença entre Liberdade de Expressão e Discurso de Ódio é preciso lembrar de algo que nós sempre falamos por aqui: você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Nós falamos sobre isso com certa frequência por aqui: Você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Inclusão vs Segregação

Esse é um ponto que, ao meu ver, deveria ser muito mais fácil de entender do que parece ser. Ainda assim, muitas pessoas tem dificuldade de entender sobre o que são os movimentos sociais mais recentes, seja na discussão sobre representação dentro da cultura pop, seja em movimentos sociais que tomam as ruas como o Black Live Matters. 

Duas das frases que os manifestantes neonazistas e supremacistas gritavam em Charlottesville eram “White Lives Matter” e “You/Jews will not replace us”, respectivamente “Vidas Brancas Importam” e “Vocês não vão nos substituir”. Esses dois cânticos mostram um desconhecimento, muitas vezes opcional, sobre o que realmente são as discussões que ocupam as notícias dos últimos anos. 

Movimentos Sociais que buscam justiça social não são sobre colocar homens brancos em caravelas e mandar de volta para a Europa, eles são sobre tornar a nossa sociedade realmente justa e igualitária para TODOS. 

Black Live Matter não é sobre apenas a vida de uma pessoa negra importar, é sobre a vida de uma pessoa negra ter o mesmo valor da vida de uma pessoa branca. É sobre uma mulher negra e grávida ter as mesmas chances de não ser assassinada pela polícia que ela mesma chamou, chances que uma mulher branca nas mesmas condições teria. É sobre um garoto adolescente negro poder caminhar pela calçada da rua sem ser morto, assim como diversos outros garotos brancos fazem todos os dias. Não é sobre excluir brancos, não é sobre a vida branca não importar, é sobre não matar negros. Pedir para que a sociedade seja mais justa e não mate pessoas negras apenas por serem negras não me parece pedir por muito, parece ser pedir pelo mínimo. 

“Vocês não vão nos substituir” é um cântico que conversa diretamente com o discurso de alguns ativistas racistas e misóginos da cultura pop. Essas pessoas acham que, porque nós queremos mais representação feminina e de outras minorias, nós estamos dizendo que personagens brancos e masculinos precisam ser substituídos, mas não é sobre isso. É sobre abrir a cultura pop para representações que abranjam mais do que o branco e masculino – porque a nossa sociedade é muito mais do que isso. Nós não queremos pegar autores, ilustradores e personagens brancos e esquecê-los, nós queremos incluir novos personagens, queremos ver novas e mais diversas histórias sendo contadas. O mesmo pode ser dito sobre incluir minorias de maneira mais justa dentro da nossa sociedade. 

Sobre  manter-se neutro/imparcial. 

Muitas vezes, quando discutimos questões sociais como racismo e machismo, muitas pessoas caem no discurso que procura colocá-los num lugar de neutralidade sobre os assuntos: “Não são machista nem feminista”, “os dois lados estão errados”. Além de demonstrar um desconhecimento sobre as lutas e o significado das palavras, esse tipo de discurso, por mais que tente não ser, é sim um discurso político, já que acaba caindo no silêncio. 

Quando estatísticas mostram os números da representação feminina e masculina, quando as estatísticas de mortes entre a população negra cruza com as estatísticas de acesso à formação e direitos humanos básicos, quando o número de mulheres assassinadas por seus companheiros explode bem na cara dessas pessoas e ainda assim eles decidem assumir uma postura “imparcial” ou neutra, isso é escolher um lado. Porque mesmo com todas as informações e dados entregues nos seus colos de mãos beijadas, eles decidem olhar para o outro lado e, ao ignorar esses dados, estão escolhendo manter o status quo assassino e excludente em detrimento daqueles que são oprimidos por ele. 

Alguns meses atrás eu escrevi sobre Nick Spenser e seu arco de histórias na Marvel em Capitão América: Sam Wilson. Neste arco um Capitão América negro chega à conclusão de que precisa ocupar um espaço de neutralidade frente às questões políticas dentro da sociedade. Essa necessidade vem da errônea visão de que Steve, o Capitão original, sempre foi neutro. Sobre isso eu escrevi: 

Assumir que alguém é neutro politicamente é ignorar os sistemas de poder em ação na nossa sociedade – todo mundo é político, mas essa narrativa de neutralidade é algo do qual Spencer e seus semelhantes se aproveitam e validam. Eles são tão privilegiados que são incapazes de reconhecer esses privilégios, acreditando que são a norma, aquilo que é o padrão. O inquestionável. Qualquer um que esteja fora dessa norma, facilmente qualquer grupo de minoria, se torna político e, por isso, tendencioso. Essa visão, além de ignorar que a própria escolha de se ocupar uma suposta neutralidade política é um ato político (já que você decide se esquivar de responsabilidades, por exemplo), também lança uma sombra negativa sobre as minorias, já que à elas não é dada a opção de ocupar o tal lugar neutro.

Não contente, Spencer ainda foi responsável pela alteração da origem do Capitão América, colocando ele como um agente da Hydra desde o começo. Eu sei que a ordem cronológica da Marvel é uma bagunça e nada é definitivo, mas em tempos como os nossos esse tipo de mudança tem um peso muito grande, ainda mais com um personagem que foi criado como símbolo de luta contra o nazismo. 

Naja Later, autora no site Woman Write About Comics, resumiu bem o problema com o modo como a cultura pop, em específico a Marvel e Nick Spenser, tratam esse assunto: 

Se nós concordamos em Capitão América: Sam Wilson que Steve é “neutro”, então toda a identidade política de Steve é esvaziada para dar lugar à história de origem nazista em Capitão América: Steve Rogers #1. Nazismo se torna parte do espetro aceitável, e isso acontece porque Spencer construiu essa lógica narrativa desde o começo.

Como Gail Simone lembrou muito bem durante o fim de semana, os quadrinhos odeiam o Nazismo. 

Charlottesville e Nazismo

Eu até consigo entender, ou tentar entender, quem possui resistência quando discutimos cultura pop e representação. Nós estamos há décadas consumindo só um tipo de cultura pop, com um tipo de representação, é fácil cair na falácia da representação branca como padrão e universal. Mas neste caso, no que aconteceu em Charlottesville, quando falam em “liberdade de expressão” eu realmente não consigo entender. Porque eu tenho poucas certezas na minha vida, mas se existe uma certeza que é tão certeira quanto a morte é que Nazismo é ruim. 

Se você acompanha meus textos e as nossas Lives no Facebook, você sabe que quando anunciaram que o filme da Mulher-Maravilha ia se passar durante a Primeira Guerra Mundial, eu fiquei receosa. Diferente da Segunda Guera Mundial, a Primeira foi uma guerra envolvendo muitos lados, muitas questões políticas e foi muito complexa. A Segunda Guerra não, nela é muito fácil indicar qual é o lado que estava errado, quem era o grande vilão da Guerra: O Nazismo. 

Nenhum governo totalitário, de esquerda ou de direita, é bom. Ditadura sempre vem acompanhada de opressão, perda de direitos e mortes. O mundo já viu diversas ditaduras em diferentes continentes, mas se há um exemplo definitivo de maldade absoluta que é reconhecido por todo o mundo, esse exemplo é o Nazismo. 

(Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre o Nazismo ser de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.)

Então, quando alguém grita que Charlottesville foi sobre “liberdade de expressão”, esta pessoa está errada. Não foi sobre uma estátua, foi sobre demonstração de poder, foi sobre discurso de ódio. Foi sobre um grupo de pessoas se unindo para gritar cânticos que clamavam por exclusão e morte. Pessoas que se consideram superiores por serem brancas carregavam bandeiras nazistas. Foi sobre ódio e sobre propagar uma ideologia assassina. 

Foi sobre assassinato, sobre James Alex Fields acelerar o carro contra manifestantes anti-nazistas e matar Heather Heyer, uma mulher que lutava contra tudo aquilo que aqueles manifestantes representam. 

“Socar nazis é agir da mesma maneira que eles”  

Não, não é. Eu não sou à favor de violência, e tento ao máximo abrir um diálogo sobre as questões que levanto aqui no blog, mas eu entendo quando alguém não consegue manter a calma e acaba explodindo frente à um ato preconceituoso.

Um monte de nazistas e supremacistas brancos, pessoas que não tem medo de se auto-identificarem assim, vão fazer uma passeata com tochas (símbolo da Ku Kux Klan) e armas, numa clara demonstração de poder, trazendo de volta uma ideologia que foi responsável pelo massacre de diferentes povos, que prevê o genocídio de tudo que não é igual à eles – eu consigo entender o sentimento de revolta e raiva que toma conta das pessoas que se opuseram à isso. Porque não existe essa coisa de “os dois lados se exaltaram e há culpa em todos os lados”. Porque está obviamente claro quem está errado – os Nazistas. 

Eu não estou dizendo que acho que violência só será resolvida com violência – não. Mas eu entendo e não consigo condenar quem soca um nazista, porque é possível que, se eu estivesse ao lado de um imbecil falando esse tipo de merda, um cara que abertamente se diz à favor de uma ideologia que prega morte à pessoas não-brancas, judeus, LGBT+ e outras minorias, se eu estivesse na manifestação que terminou com a morte de uma mulher, então é possível que eu terminasse socando um nazista também. 

Os Estados Unidos tem um histórico de lutar por igualdade de direitos, e mesmo depois de muitas conquistas, a situação continua longe do ideal. Por isso eu imagino o que deve significar para aquelas pessoas ver se repetir uma cena que a geração atual só escutou falar. Eu consigo entender a dor, a frustração e a raiva que isso pode causar. 

No conflito de Charlottesville só existe um lado errado: O que não só pregou ódio, mas que assassinou uma mulher – os nazistas. Você é responsável pelo ódio que você semeia. 

Mas o que isso tem a ver com a Cultura Pop? 

Absolutamente tudo. A nossa cultura reflete o momento histórico no qual nós estamos, literatura, filmes, séries, quadrinhos e games – tudo isso absorve e reproduz aquilo que acontece à nossa volta. Capitão América e Mulher-Maravilha foram criados exatamente como forças contra o nazismo, a ficção-científica continua até hoje discutindo as causas e os efeitos da Segunda Guerra Mundial – até Senhor dos Anéis faz isso. Mas mais do que isso, a cultura pop pode, infelizmente, reproduzir mentiras e estereótipos que ajudam a fomentar e fortalecer esses discursos de ódio. 

No vídeo da Vice que coloquei lá no começo do texto, é possível ver um dos líderes da manifestação, Christopher Cantwell, responder que ele começou a se envolver com o ativismo depois que questões raciais como Trayvon Martin, Michael Brown e Tamir Rice (todos jovens negros assassinados por serem negros) começaram a aparecer: 

“Em qualquer um desses casos é um imbecil negro se comportando como um selvagem, e ele se coloca em problema. Seja qual forem os problemas que eu tenho com os meus colegas brancos, eles geralmente não estão inclinados à esse tipo de comportamento. E você precisa levar isso em consideração quando você está pensando sobre como organizar a sociedade.”

Esse discurso, de que pessoas brancas são predominantemente pacíficas, e que pessoas negras são violentas, é profundamente disseminado na cultura pop. As histórias de heróis estão lotadas de protagonistas brancos bonzinhos, ou vilões brancos injustiçados. Essas mesmas histórias tem pessoas negras sendo responsáveis pela própria escravidão, ou sempre representadas como bandidos e vilões. Esses estereótipos são negativos porque ajudam a sustentar esse discurso de Christopher Cantwell, de que pessoas negras são mais propensas à violência do que pessoas brancas. 

É assustador ver a relutância da mídia em chamar o grupo de nazistas e supremacistas brancos de “nazistas e supremacistas brancos”, mesmo quando eles próprios se auto-denominam assim. Essa mesma relutância não chama o homem que assassinou Heather Heyer no protesto de terrorista, mas fosse ele um homem não-branco, esse adjetivo teria sido automaticamente adicionado ao seu nome. 

Porque a Cultura Pop é tão influente e importante na nossa sociedade, me assusta ver o comportamento da Marvel de, nos últimos meses, tentar afastar a Hydra do Nazismo, ideologia que não só foi inspiração, mas da qual foi representação desde sua primeira aparição nos quadrinhos. Isso me assusta porque Ike Perlmutter, CEO da Marvel, é apoiador do Trump, que por sua vez apoia movimentos supremacistas brancos. Isso me assusta porque a DC, antes da Mulher-Maravilha, tinha um discurso neo-facistinha no cinema, mesmo nos filmes do Nohlan, mesmo que essa não fosse a intenção deles (o que só deixa tudo pior, na verdade). 

Mas, acima de tudo isso, me assusta porque nenhuma cultura pop que a gente consome ou produz existe dentro de uma bolha. Ela existe dentro da nossa sociedade e, além de refletir o momento histórico em que é criada, também pode ajudar a sustentar o status quo que vilaniza e oprime minorias. 

Não é só nos Estados Unidos e Nós Não Podemos Nos Silenciar

A reflexão de hoje pode ser sobre o horror do que aconteceu em Charlottesville, mas engana-se quem acha que aqui no Brasil a situação é melhor, ela só é diferente. Porque enquanto nos EUA esses supremacistas e nazistas não tem medo de se auto-denominarem assim, aqui no Brasil nós temos esses grupos infiltrados na nossa política, só que de maneira mais silenciosa. Eles estão na produção de cultura pop, na televisão, no cinema e na política também. Eles são eleitos pela população e podem inclusive concorrer à presidência. 

A imensa maioria das fotos e vídeos de Charlottesville mostravam a grande maioria masculina nazista e supremacista branca – mas também haviam mulheres lá. E é importante que nós, mulheres brancas, entendamos nosso lugar na manutenção dessa ideologia e em como a nossa representação dentro da cultura pop pode também ajudar a manter esses mesmos conceitos errados sobre outras minorias. 

Racismo, misoginia e outras opressões existem no Brasil também, e nós usamos não só da nossa cultura pop, mas da que consumimos em massa dos EUA, para justificar comportamentos e tradições que são excludentes e assassinas. O mesmo discurso que permite à Christopher Cantwell dizer que Tamir Rice é responsável pela própria morte sustenta um sistema racista que mata Tamir Rices brasileiros todos os dias. 

Minha família precisou fugir da Espanha durante o governo franquista. Meus bisavós foram um porto seguro para os filhos das famílias espanholas que eram perseguidas pelo governo, meu avô lutou pela Resistência Francesa contra os invasores Nazistas. Pra mim, ver as cenas de Charlottesville me pesou pois me assusta como pode, depois de tão pouco tempo, nós ainda tolerarmos esse tipo de discurso de ódio. Não aprendemos nada? Será que a história vai se repetir? Durante a Segunda Guerra, o Nazismo como mau comum conseguiu unir todos os espectros políticos contra ele – EUA e URSS lutaram juntos para por fim a ofensiva Nazista pela Europa. Eu espero que nós possamos discutir com quem realmente quer discutir, não com quem ainda acredita que cantar “Os Judeus Não Vão Nos Substituir” é apenas liberdade de expressão.

Ao fundo, à esquerda, minha bisavó Emília e algumas das crianças que a escola dela e de meu bisavô acolheu durante o governo Franco.

Cultura Pop é o ambiente que nos permite ir além da nossa realidade, mas também nos permite refletir sobre os nossos tempos e impedir que nossas fraquezas como sociedade se repitam. Horizon Zero Dawn fala sobre isso, Capitão América fala sobre isso, Jogos VorazesHarry Potter e tantos outros livros, quadrinhos, jogos e filmes falam sobre isso. É nossa responsabilidade, como sociedade, não esquecer que o Holocausto aconteceu à menos de 80 anos, e que esse mesmo tipo de coisa continua acontecendo todos os dias em diferentes lugares do mundo. 

É nossa responsabilidade aprendermos com os erros de nossos antepassados e não nos calarmos quando algo tão horroroso como Charlottesville acontece. É nossa responsabilidade garantir que o que aconteceu no último fim de semana não seja um recomeço para esse grande mau, mas um marco de virada por um presente mais seguro e mais justo para TODAS as pessoas. E nós só vamos conseguir fazer isso quando começarmos à parar de achar que, porque a liberdade de expressão existe, você pode fazer o que quiser sem consequências, quando pararmos de equiparar nazistas e pessoas que são contra o nazismo. É nossa responsabilidade entender que liberdade de expressão não pode abraçar discurso de ódio. 

Até Mais.

Separei alguns links que talvez possam ajudar a entender e problematizar toda essa discussão. À medida que eu for encontrando novos links, vou adicionando aqui.

Em Inglês:

Como o Agressor de Charlottesville se Radicalizou.

Nem os descendentes dos Confederados querem que os monumentos continuem de pé.

O presidente de uma sinagoga em Charlottesville fala sobre o que aconteceu quando a manifestação passou em frente ao prédio.

Quem foi Heather Heyer, a mulher que morreu em Charlottesville.

A Vice perguntou para um especialista em ética se a gente pode socar nazistas.

Coisas importantes para se saber antes de socar um nazista – uma thread.

A longa história dos quadrinhos batendo em nazis.

Em Português:

A palavra é a nossa arma.

O Desabafo de uma idosa que confrontou os neo-nazistas em Charlottesville.

Como a resposta de Trump à Charlottesville afastou o presidente dos maiores empresários dos EUA.

Nazismo é de esquerda ou de direita? 

Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre se o Nazismo foi de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.

Mulheres da DC Comics apoiam editora da Marvel, homens choram e girlpower ganha o dia.

Ontem a gente falou sobre como Heather Anton sofreu ataques no twitter apenas por ser mulher, feliz, trabalhar com quadrinhas e tomar um milkshake. Desde o dia dos ataques o twitter se encheu de leitores e profissionais dos quadrinhos mandando apoio à editora da Marvel.

Hoje a conta da DC Comics no Twitter postou a foto mais amor de todas:

Lembra aquele moço que tava tentando levantar a guerrinha Marvel vs DC? Deve estar chorando em posição fetal em casa – a DC também tem mulheres! O horror!

Garotas são demais. Fim.

😉

Edgar Wright, Twin Peaks e Mulher-Maravilha: A Frustração Que Vem de Esperar Mais.

Com o lançamento de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright, se aproximando eu tenho cada vez mais pensado sobre o sentimento de frustração que cresce toda vez que um diretor que eu gosto lança algo novo. É muito difícil que o anúncio de algo novo não venha carregado com um mix de felicidade, esperança e a certeza de que minhas expectativas não serão alcançadas. 

Edgar Wright é um dos poucos diretores dos quais eu realmente acompanho a carreira. Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim Contra o Mundo são alguns dos meus filmes favoritos – Hot Fuzz, o segundo na trilogia, figurando facilmente dentro de um TOP 10. Eu adoro o ritmo da narrativa, os roteiros, a direção e os personagens… O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analizar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de “musa-com-algo-a-mais”. 

Baby Driver parece tudo aquilo que eu amo no cinema: um filme de ação, com personalidade, cenas de perseguição, humor, a edição divertida e inteligente dos filmes de Wight mas, infelizmente, também vem novamente com o protagonista masculino e branco. E a sensação de frustração vem exatamente disso, porque por mais que eu ame o trabalho dele como diretor, por mais que eu vá assistir ao filme provavelmente na primeira semana de lançamento, eu vou sair do cinema invariavelmente frustrada.

Frustrada porque é exatamente por saber o quão incrível Edgar Wright é como diretor que me dói vê-lo contar sempre a mesma história, sempre com o mesmo protagonista. 

Há argumentos para dizer que Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim tem protagonistas com personalidades diferentes, mas no fundo ele conta apenas a narrativa predominante porque seja o protagonista um nerd, um policial ou um desempregado, no fim a narrativa é aquela que a gente vê se repetir ad infinitum na mídia. E eu quero mais, quero vê-lo contar histórias que saiam do seu lugar de conforto, histórias de personagens que não sejam de certa maneira um espelho dele e de suas experiências. Eu vejo todo o potencial narrativo e criativo de Wright e me pergunto porque Baby Driver não tem uma protagonista feminina, ou porque baby não é um rapaz negro, ou asiático ou porque os seus filmes são sempre tão heteronormativos. 

Essa é uma sensação que se repete com quase todos os diretores que gosto e acompanho, como Adam MaKay por exemplo, e é a mesma frustração que me faz assistir Mulher-Maravilha e querer que tivéssemos mais mulheres e mais diversidade na tela. Criar algo novo, ou quando se trás de volta algo já conhecido, deveria sempre significar ir em frente. Star Wars trouxe o Rey e Finn, e por mais que ainda seja uma abordagem tímida, deixa a sensação de que mesmo que lentamente nós estamos caminhando para frente, ao invés de regredir. A Marvel finalmente me passou a sensação de ir além do seu passado com o trailer de Pantera Negra, mas ainda é pouco e ainda é tímido. Voltar ao mundo torto e bizarro de Twin Peaks tem sido uma batalha constante, como pode depois de 25 anos os mesmos padrões e clichês de personagens femininas se repetirem, e por que eles parecem estar ainda piores do que antes?

FBI Agent Tammy Preston: Em Twin Peaks não dá para ser agente do FBI e não ser super sexy.

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterosexual e cis? Por que me limitar criativamente?

Edgar Wright não é um diretor ao pé de igualdade de Scorcese, não no que diz respeito ao que ele tem liberdade para colocar na tela (já que em questão de qualidade, polêmica: eu prefiro Wright), então é entendível que para ele existam limites maiores de produção. Mas a sensação que fica é a que existe todo um potencial, uma inovação narrativa que podia ser expandida para além de uma montagem rápida e divertida, além de diálogos bem escritos e cenas de ação engraçadas e bem dirigidas, uma inovação que podia trazer mais diversidade. E se ele não se limitar à narrativa branca e masculina, imaginem as histórias incríveis e ainda mais inovadoras que ele poderia trazer para a tela. 

Crítica | Mulher-Maravilha: Dentre Todos os Super-heróis, a Melhor.

Histórias de super-heróis caminham numa linha tênue entre o autoritarismo e o altruísmo. Os últimos filmes da DC nos cinemas por diversas vezes cruzam a linha para o lado do autoritarismo, sem prover, em profundidade, uma discussão sobre esse aspecto dos Super-heróis. Mas esses super-seres não foram criados para representarem um poder extremo e inalcançável, eles foram criados para serem símbolos de esperança, liberdade e empatia. E é exatamente por conseguir equilibrar esses três elementos, e também a discussão sobre autoritarismo, que Mulher-Maravilha sopra um fôlego novo nos filmes de super-heróis.

Uma das minhas maiores preocupações ao entrar na sala de cinema era como o filme retrataria a guerra. Diferente da Segunda, a Primeira Guerra Mundial tinha lados muito mais embaçados, sem um dos lados representar o mau absoluto, como o nazismo. Ela aconteceu por diversas razões, em diferentes territórios e por diferentes interesses políticos também. O filme consegue manter um certo equilíbrio nessa questão na maneira como questiona – e representa – os oficiais ingleses à quem Steve Trevor serve. Diana bate de frente com eles, demonstrando como o poder e a guerra estão diretamente ligados ao poder burocrático, que joga com a vida de soldados e civis de acordo com os seus interesses.

Diana representa o que há de melhor entre nós, ela tem empatia, inocência, garra, senso de justiça e, principalmente, ela é uma mensagem de esperança. Não só para o mundo dos homens, como para Temisciria. Se as amazonas já estão cansadas e marcadas pela guerra que as levou à ilha paraíso, Diana possui um senso de aventura e determinação que a torna não só a emissária perfeita, como também a heroína amazona que o mundo precisa. Diana não é um poço de niilismo e tragédia como o Batman e o Superman do universo cinematográfico da DC, ela é capaz de ver a tragédia, de empatizar de verdade com aqueles que sofrem, de querer ajudá-los e de se preocupar com o que vem depois de seus atos. Não é sobre o umbigo de Diana, não é sobre revanche, é sobre a humanidade.

E é exatamente por conseguir definir isso que o filme tem tanto sucesso na personagem. Aqui, Diana não sabe exatamente quem  ela é, nem qual é o seu destino no mundo dos homens e dos Deuses Ela segue seu coração, tenta fazer aquilo que lhe parece certo dentro dos preceitos e da moral que aprendeu com as Amazonas. E Diana tem muito coração, tanto quanto tem garra e coragem. Diana enfrenta seus desafios e, mesmo quando duvida de si e da humanidade, faz isso dentro de sua personalidade. Ela não é inconsistente, no fundo ela é humana.

Gal Gadot consegue passar todas essas camadas de Diana de maneira incrível, a atriz consegue acertar não só a postura de princesa guerreira, mas também o de uma garota que apesar de curiosa com um mundo novo, não compreende suas regras machistas e por vezes repugna muitos de seus aspectos. Fisicamente ela se impõe como guerreira sem que nos faça duvidar de todo o seu poder. Gadot consegue caminhar muito bem também no timing de comédia, nos momentos em que ela aparece. Uma das melhores piadas do filme acontece enquanto Diana e Steve vão embora de Temisciria e me fez gargalhar alto no cinema.

Para os que estavam preocupados com Steve tomar muito tempo de tela, podem relaxar. O papel do espião é muito semelhante ao de um guia, ajudando Diana a transitar pelo universo desconhecido que é a sociedade moderna da época. Ele também não tem oposição nenhuma em ser liderado ou mesmo protegido por Diana, entendendo muito rápido que é ela quem possui as habilidades e o poder para liderar. Ainda assim, para aqueles que estavam preocupados com uma possível emasculação do personagem – ele vai muito bem, obrigada.

Existem alguns fatores que eu gostaria de ter visto de maneira diferente no filme. Apesar de haver Amazonas não-brancas em Temiscira, e de algumas delas possuírem lugares de destaque, ainda assim não é o suficiente. Os companheiros de Diana no mundo dos homens não são todos brancos, e levanta-se a questão de como isso influencia ou influenciou a vida deles mas, de novo, fica a sensação de que podíamos ter tido mais. Eu espero que nos próximos filmes da MM nós vejamos mais sobre Temisciria, já que passamos a maior parte do tempo entre as guerreiras. Seria incrível descobrir uma variedade de mulheres que existem dentro da ilha – eu aposto que elas não são todas atléticas e muito menos brancas. Seria também interessante que os próximos filmes abordassem a questão da sexualidade das amazonas, algo que não é nem de leve tocado no filme.

Etta James (Lucy Davis), amiga da Mulher-Maravilha, apesar de assumir um papel de liderança na missão, também merecia mais espaço do que lhe foi dado – ela por pouco não cai no estereótipo da mulher gordinha e alívio cômico (o fato dela ser gorda nunca é utilizado como punchline). Eu entendo, do ponto de vista histórico, que os companheiros de Diana tenham sido homens. Mas acredito que o filme, que é sobre uma princesa amazona com super-poderes vinda de uma ilha paraíso, podia ter tomado mais liberdade história e ter substituído pelo menos um dos companheiros de Diana, por uma mulher.

Connie Nielson (Rainha Hipólita) e Robin Wright (General Antiope) estão maravilhosas em seus papéis. Connie consegue mostrar Hipólita como uma mãe, uma guerreira, uma rainha e uma mulher marcada e cansada de guerras. Wright foi um acerto em cheio na escalação para Antíope, tanto fisicamente como com sua atuação. O filme abraça a idade das duas mulheres, usando isso para criar personagens ainda mais complexas do que se esperaria com o tempo de tela que elas tem. De maneira geral as mulheres de Mulher-Maravilha são fabulosas, não só porque são amazonas, mas porque o filme as permite expressar sentimentos sem que a natureza guerreira delas tente, de alguma maneira, envergonhar esse lado humano que, muitas vezes, seria considerado um sinal de fragilidade. Sentir e empatizar são as palavras chaves de Mulher-Maravilha, e isso é maravilhoso.

Patty Jenkins, diretora do filme, mostra um controle incrível sobre as cenas de ação. Mesmo quando usa um recurso tão batido quanto slow-motion, ela o faz com um sentido narrativo. Na cena em que Diana invade uma sala com inimigos, e que aparece já no trailer, cada slow-motion serve para mostrar um aspecto das habilidades de Diana – seja sua força, sua destreza ou a avalanche de poder que ela carrega em seu corpo. Tanto as cenas nas trincheiras, quanto a grande cena de ação final, caminham junto com a temática de liberdade e poder do filme, e são momentos em que a diretora se permite também discutir um pouco mais sobre esperança e autoritarismo.

Talvez um diretor homem não teria permitido que suas personagens femininas tivesse o nível de complexidade que as amazonas ganham no filme. Talvez elas tivessem sido apenas vasos vazios de significados, mas cheios de força e sensualidade. Diana não é hipersexualizada em momento nenhum durante o filme, e é muito óbvio, através do trabalho de câmera e enquadramento, que fez toda diferença ter uma mulher como diretora do longa.

Mulher-Maravilha é, hoje e na minha opinião, a melhor representação do que um super-herói deveria ser. Capitão América talvez divida essa posição com ela, mas Diana é algo novo e de um ponto de vista diferente, um ponto de vista que ao mesmo tempo que promove uma ação épica também se preocupa em manter um super-herói como um símbolo de esperança, de empatia.

Depois de anos escondida dentro do mito da “personagem difícil de ser adaptada”, Mulher-Maravilha chega finalmente aos cinemas como uma história de origem, uma história que precisava e merecia ser contada. Ao final do filme eu me peguei querendo saber como Diana iria reagir e superar os acontecimentos finais do longa, qual será o arco maior da personagem, espero que Liga da Justiça consiga continuar desenvolvendo um pouco isso. Depois de anos de espera, a experiência de ver a MM chegar às telonas é catártica, mas é também um sinal de esperança. Um ponto de força, empatia e luz em nossos tempos tão sombrios.

Mulher-Maravilha chega nesta quinta, 1º de Junho, aos cinemas.

Gal Gadot Responde: “Mulher Maravilha é feminista, claro.”

Durante uma entrevista à Entertainment Weekly sobre o Mulher Maravilha, Gal Gadot se deparou com uma pergunta que virou moda entre os repórteres que cobrem entretenimento: Mulher Maravilha é feminista? A resposta de Gadot não podia ser melhor.

Mulher Maravilha é feminista, claro. Eu acho que as pessoas são equivocadas sobre o que o feminismo é. As pessoas acham que feminismo é sobre axilas cabeludas e mulheres que queimam sutiãs. Não é isso. Para mim, feminismo é sobre igualdade e liberdade, e mulheres escolhendo o que a gente quer fazer. Se é por salários, então somos pagas o mesmo que os homens. Não é sobre Homens vs Mulheres, ou sobre Mulheres vs Homens.

Gadot foi além e falou sobre como ela queria que isso aparecesse na tela.

Era importante para mim que a minha personagem nunca fizesse sermões sobre como homens devem tratar mulheres. Ou sobre como mulheres devem se perceber. Era mais sobre brincar com o fato dela não saber como a sociedade funciona.”Como assim  mulheres não podem ir ao Parlamento? Por que?”

É só lembrar todo mundo sobre como as coisas deveriam ser. Eu queria interpretar o “peixe fora d’água”, mas eu não queria fazê-la muito boba.

Passar uma mensagem positiva usando a falta de conhecimento da Mulher Maravilha sobre como a nossa sociedade funciona não é novidade. Esse é um dos meus aspectos favoritos sobre o filme animado de 2009, e da série da Liga da Justiça, é que os dois estão cheios de momentos incríveis em que Diana mostra como muitos dos valores da nossa sociedade, valores ligados à mulher, são absurdos. 

Em tempos de Meryl Streep, interprete de uma feminista, tentando ao máximo se distanciar da palavra feminismo, ver Gadot falar tão diretamente que a Mulher Maravilha é feminista é ótimo. Eu diria que se você quer queimar sutiãs, você pode. E se você não quer depilar as axilas, também está ótimo, porque feminismo é exatamente sobre dar liberdade para as mulheres fazerem o que elas quiserem. Seja lutar por salários iguais, seja pagar menos numa lâmina de gillette.

Eu sempre achei muito doida essa coisa de perguntar para celebridades se elas são feministas ou não. Mais do que ajudar, esse tipo de pergunta acaba inibindo e colocando essas mulheres em cantos dos quais, muitas vezes, é difícil sair. Mas não dá pra negar que a cultura pop ajudou muito à colocar o feminismo como um tema nas nossas conversas do dia-a-dia, e é ótimo ver a equipe por trás de um dos maiores ícones feministas dos quadrinhos não se esquivar da melhor resposta.

(via The Mary Sue)

Mulher Maravilha: Eu quero que Steve Trevor seja Peggy Carter.

Recentemente me perguntaram o que eu esperava de Steve Trevor no filme da Mulher Maravilha. Para quem não conhece o personagem, ele é o interesse amoroso mais clássico da MM e, no longa que estréia no próximo mês, ele é interpretado por Cris Pine (Star Trek). O medo era que Steve tivesse tanto ou mais tempo de tela que a heroína-título do filme, diminuindo a personagem e passando Steve para um patamar além do que ele realmente é nos quadrinhos.

Eu não acho que a Warner/DC seria burra de dar a um personagem masculino pouco conhecido mais espaço do que a protagonista do filme. Diferente de Lois Lane, Steve não é um interesse amoroso que está sempre associado à Mulher Maravilha, ele nunca ganhou muito destaque e, posto que o filme se passa durante a Primeira Guerra Mundial, não acho que ele vá ganhar mais. Dar mais tempo de tela à Steve do que a Diana seria um tiro no pé em diversas frontes, tanto com o público como com os críticos, que com certeza notariam, e a gente sabe que a relação da Warner/DC com os críticos não anda nada incrível.

A verdade é que eu nunca pensei sobre o que eu esperava para Steve Trevor, e até achei que seria legal vê-lo como Donzela em Perigo mas, ao ser questionada, eu me dei conta de algumas coisas. Eu não quero que Steve seja só um interesse romântico descartável, como aconteceu em todos os filmes solo do Batman até aqui (os do Nolan inclusos). Eu não quero que ele seja o interesse romântico que existe só para garantir que o personagem é hetero, como Christine em Doutor Estranho. Não quero que ele seja só um objeto de cena com  qualidades, como a Pepper nos primeiros Homem de Ferro. Não quero que ele seja o interesse romântico que tenta muito ser relevante, mas que acaba sempre no papel de donzela em perigo, como a Jane em Thor.

Eu espero que Steve Trevor seja a Peggy Carter da Mulher Maravilha.

Peggy, a melhor agente. #Saudades

Assim como Peggy com o Capitão, Steve está fadado a ser o amor não realizado da Mulher Maravilha. Não porque ele vá morrer durante o filme, mas porque ele é passageiro e Diana é eterna. Ao contrário do Capitão e da Peggy, cujo romance nunca se completou por um acaso do destino, Steve e Diana tem a eternidade de Diana como algo que invariavelmente os separará. Não acho que o amor dos dois precisa ser um amor trágico como foi o de Peggy e do Capitão, mas acho que há, nesse relacionamento, a possibilidade de tocar em questões e emoções da MM que pouco foram abordadas nas animações, por exemplo, como o fato dela ser uma semi-deusa caminhando entre amigos mortais.

Eu quero que eles sejam “Camaradas de Armas”, quero que Steve lute ao lado da Mulher Maravilha da mesma forma que Peggy lutou ao lado do Capitão. Eu acharia absolutamente ok se num primeiro momento ele tente proteger Diana, já que esse era o pensamento da sociedade na época. Mas quero que ele entenda, ao conhecer Diana, que mulheres, super-poderosas ou não, não deixam nada a desejar no campo de batalha. Essa transformação pode ser importante para registrar que homens podem aprender com mulheres, e que homens podem ser protegidos por mulheres, caso ele realmente caia no tropo da Donzela em Perigo. Quero que os dois enfrentem juntos os perigos da guerra, não só como amantes, mas como companheiros de batalha.

Tá tudo bem olhar para uma mulher em busca de direção. Especialmente se ela for uma princesa guerreira amazona.

Mas mais do que o interesse romântico da MM, eu espero que Steve tenha um arco de personagem, um que não gire exclusivamente em torno dela. Um arco que dê ao espectador razões para acreditar que uma semi-deusa como Diana se apaixonaria por um mortal como Steve. Ele precisa ser merecedor de Diana, e precisa ser merecedor do espectador. Porque quando a gente vai no cinema, e quando vamos ver qualquer filme que seja, só um personagem bem desenvolvido não é o suficiente. E diferente do que algumas pessoas acreditam, só porque um homem está ligado à uma mulher de poder isso não faz dele menos importante, menos interessante.

Recentemente, em uma entrevista ao EW, Gal Gadot disse o seguinte sobre Steve:

Nós não queríamos fazer de Steve a Dama em Perigo. E queríamos que os dois tivessem uma relação em pé de igualdade. Se ela se apaixona por ele, então ele deve ser alguém por quem toda mulher se apaixonaria.

Acho que eu e Gadot estamos de acordo sobre o que Steve deve ser. Patty Jenkins, diretora do longa, completou:

Steve Trevor é a fantasia perfeita para qualquer mulher moderna. “Eu quero ter o trabalho que eu sempre quis. Eu quero ser forte, poderosa e todas essas coisas, mas eu quero muito um namorado gato que pense que tudo isso é ótimo e tenha um senso de humor sobre essas coisas.”

Eu adicionaria à fala de Jenkins a característica “heterosexual ou bi”, mas é ótimo ver que a fantasia feminina foi levada em consideração na hora de criar Steve, e que foi uma fantasia que não parte do que um cara acha que uma mulher quer.

Peggy foi um marco na representação feminina no cinema de super-heróis porque conseguiu ir além da namoradinha. Ela, ainda no primeiro filme, teve um arco de personagem, chutou bundas, comoveu e entrou pra história como talvez o melhor interesse romântico desses filmes. Peggy foi tão grande que acabou ganhando uma série própria e se tornou parte importante na construção da mitologia do MCU. Eu espero que Steve tenha o mesmo tratamento que Peggy, porque quando nós temos personagens de apoio bem construídos, nós temos super-heróis mais interessantes.

Além de Peggy Carter, Steve Trevor poderia ser Max.

Max, o melhor apoio que você respeita.

Em Mad Max – Estrada Furiosa, por mais que o nome de Max esteja no título, fica claro desde o começo que a verdadeira heroína da história, a protagonista daquele conto, é Furiosa. Max é crucial para apoiar Furiosa, ele reconhece que ela é melhor do que ele em situações diferentes, ele dá o ombro para que Furiosa apoie o rifle – Max sabe que naquele momento ele não é o protagonista da história. Isso não quer dizer que ele não é importante.

Se falta protagonistas femininas nos filmes, faltam personagens masculinos de apoio. E quando eu digo de apoio eu não digo só secundários – porque isso está cheio, mas personagens que mostrem homens ajudando e apoiando mulheres em suas próprias batalhas, sem tentar tirar delas o poder, sem tentar roubar para ele o protagonismo. Porque ensinar aos garotos (e aos homens crescidos) que está tudo bem ceder lugar à uma mulher é importante, ensinar que não há nada de errado em não ser o centro das atenções, à perceber quando uma mulher pode resolver algo melhor do que ele, ensinar que é ok confiar e/ou pedir ajuda à uma mulher.

Rapazes, tá tudo bem. Todo mundo precisa de colo de vez em quando. <3

O cinema (e a televisão) que possui protagonismo feminino e/ou de outras minorias, tende a ser mais gentil com homens brancos do que o contrário. Cara Gente Branca dedicou um episódio inteiro ao personagem branco, Estrelas Além do Tempo foi super legal com Kevin Costner e assim por diante. Eu já espero que Steve seja mais do que só um interesse romântico, mas eu também gostaria que ele fosse completo como personagem e que ajudasse a passar a imagem de que homens, mesmo os mais dentro dos padrões, mesmo os que lutam em guerras, podem ter sentimentos e que não tem problema nenhum em apoiar uma mulher quando ela é mais forte que você. Eu espero que Steve seja um mix de Peggy e Max. Espero que ele seja, talvez, a primeira representação masculina positiva dentro do universo cinematográfico da DC. Que Mulher Maravilha venha chutando todas as bundas, e abrindo mais essa porta.

MM estréia dia 1º de Junho nos cinemas. Já garantiu a sua pré-estréia?

As Primeiras Reações ao Filme da Mulher Maravilha são Fantásticas!

Segura coração, estamos a exatos 14 dias do lançamento de Mulher Maravilha! São duas semaninhas para vermos a amazona mais maravilhosa dos quadrinhos arrebentando as telas e as primeiras reações, de críticos americanos, já começaram a chegar à internet.

Eu, que depois de Batman v Superman e Esquadrão Suicida, me mantinha um tanto cética ao filme – mais uma maneira de auto-proteção do que qualquer outra coisa – estou cada dia mais na loucura pra esse lançamento. Mulher Maravilha é o primeiro longa de super-herói em que a protagonista solo é uma mulher, o que por si só já faz o filme carregar uma carga pesada de todos os sentimentos do mundo, mas ele é também visto como o possível ponto de virada para o Universo Cinematográfico da DC, o que também acumula muitas expectativas.

Muitos dos críticos destacam o quão corajoso e emocionante o filme é, eu espero de coração que isso queira dizer que eles fizeram um filme de guerra fantástico, e que a Diana esteja tão maravilhosa como nós sabemos que ela é. Eles também não cansam de elogiar Gal Gadot no papel – a gente já sabia que ela tava maravilhosa desde que roubou a cena em BvS, mas é sempre bom ler isso.

Caso você ainda não tá no trem do hype, estamos fazendo uma parada especial para você entrar.

Minha reação ao filme da Mulher Maravilha: emocionante, poderoso, corajoso, épico, simplesmente maravilhoso e – o melhor de tudo – absolutamente empoderador. -ReelVixen
Eu amei Mulher Maravilha. O primeiro ato é um pouco devagar, mas é otimista, emocional e engraçado. Melhor filme da DC até agora. – Bleacher Report
Feliz em reportar que Mulher Maravilha é incrível e Gal Gadot é fantástica. A queimica dela com Chris Pine é magnética. Absolutametne recomendado. – Collider
Estou finalmente liberada para dizer: Eu amei #MulherMaravilha! Eu chorei a vendo lutar. As Amazonas chutam bundas! #ElaéMulherMaravilha – Coming Soon
Mulher Maravilha é o filme da DC que eu vinha esperando. É emocionante, inspirador, engraçado e tem algumas verdadeiramente incríveis cenas de ação. – io9 e Gizmodo
Amei Mulher Maravilha. Ela me lembra do Superman de Christopher Reeve’s: verdadeiro super-herói, sem angústia ou cinismo, que é o que precisamos agora. – Uproxx
Estou muito feliz em reportar que #MulherMaravilha é o melhor filme da DC desde O Cavaleiro das Trevas. Já estou esperando para ver de novo. – Coming Soon
#MulherMaravilha é o melhor filme do DCEU até agora. O coração da Diana de Gal Gadot empodera ele, e a mudança de mítico para uma história da Primeira Guerra funciona muito bem. – Cinema Blend
Mulher Maravilha é ótimo. Meu favorito dos filmes recentes da DC. É destemido, engraçado, bem escrito e fodão. Gal Gadot arrasa. O seu laço é incrível. – Fandango
#WonderWoman é com certeza o melhor filme do DCU até hoje! O filme é TAO BOM. Eu absolutamente amei! Bravo! – The Wrap

De quebra, fiquem com esses dois pôsters do filme, um liberado ontem, o outro um pôster chinês que reune os principais personagens do filme.

Mulher Maravilha estréia, no Brasil, dia 1º de Junho.

(via io9)