Facebook Live | Respondemos a pergunta “A Diversidade Destruiu as Vendas da Marvel?” (Spoiler: Não.)

Ontem eu fiz uma Live no Facebook pra falar sobre essa questão da Marvel ter perdido dinheiro por causa da diversidade. Acabou que fiz toda uma pesquisa antes, então o vídeo está meio-que delineado/roteirizado em texto também.

Se não quiser assistir, pode ler o roteirinho – mas tá meio bagunçado!

——

A pergunta que não quer calar: O Excesso de Diversidade Fez as Vendas da Marvel Cair?

A resposta:

Não. 😀

Esse fim de semana o rolê dos quadrinhos veio a baixo com a notícia FALSA de que a Marvel estava perdendo dinheiro por causa da diversidade. A primeira coisa que eu pensei quando li isso foi que a Miss Marvel esteve diversas semanas consecutivas na lista de livros mais vendidos do New York Times.

Retrospectiva do que aconteceu:

– Em entrevista ao site ICv2 (se existe um jeito correto de falar esse nome eu não sei e não me importo) o Vice Presidente de Vendas da Marvel Comics disse o seguinte:

“O que nós escutamos foi que as pessoas não queriam mais diversidade. Eles não queriam mais personagens femininas. Isso foi o que nós escutamos, acreditemos ou não. Eu não sei se isso é a verdade, mas foi isso que nós vimos nas vendas.

Nós vimos a venda de qualquer personagem que era diverso, qualquer personagem que era novo, nossas personagens femininas, qualquer coisa que não era um personagem de origem da Marvel, as pessoas estavam virando o nariz para eles. Isso foi difícil porque nós tivemos muitas idéias novas e animadoras que estávamos tentando colocar no mundo e nada realmente funcionou.”

Isso bateu diretamente de frente com o que o que Editor Chefe, Alex Alonso, falou em uma entrevista liberada dois dias antes. Lá Alonso disse que a busca por diversidade tem mais a ver com negócios/dinheiro do que com política. Ele ainda falou sobre como o backlash que possa existir à diversidade tende a sumir assim que as revistas chegam às prateleiras. Para completar, o moço até contou sobre a história de como o seu sobrinho, que é americano de origem coreana, se identificou com a nova versão do Hulk, Amadeus Cho. De acordo com ele, mais audiências estão se conectando com a Marvel – visceralmente.

Depois que a polêmica se instaurou, Gabriel soltou uma nota diferente. Nela, ele disse que jolistas e fãs continuam felizes com os novos personagens e que Squirrel Girl, Ms Marvel, The Mighty Thor, Spider-Gwen, Miles Morales e Moon Girl continuam a provar isso. Disse que a Marvel tem orgulho em continuar introduzindo personagens que conversem com novas vozes e experiências, que se conectem com os seus heróis icônicos. Eles também escutaram o outro lado, pros lojistas que querem que a Marvel volte a dar mais espaço para os seus personagens de base, e eles estão trabalhando nisso também.

Antes da gente voltar nos problemas da fala do Gabriel, eu quero falar um pouco sobre polêmica.

POLEMICA

– Não é a primeira e não será a última vez que tiram uma informação e aumentam ela pra gerar click bati. Aconteceu lá fora, aconteceu aqui dentro.

– Eu tento ficar longe dessas polêmicas pq elas acabam gerando mais publicidade negativa do que positiva para a “causa da diversidade”, mas quando sites grandes começam a falar sobre isso eu me sinto obrigada a também discutir.

– Nunca imaginei que ia ter que escrever sobre o suvaco da Mulher Maravilha, mas né. Está aí, tive que fazer isso

– Quem é contra diversidade nunca vai perder a oportunidade de tentar criar intriga.  é um atraso pro mercado de maneira geral, porque ao invés de nós estarmos conversando e discutindo a qualidade das histórias nós precisamos perder tempo explicando pq diversidade é importante.

Mas vamos tentar destrinchar quais são os problemas da fala do Gabriel, VP de Vendas da Marvel.

SOBRE SAGAS, EVENTOS E TODAS ESSAS MIL REVISTAS

A Marvel teve 90 eventos, 350 cross-overs e mil revistas lançadas em dois anos. Aí você tá lá acompanhando o seu personagem favorito e do nada entra uma outra história no meio, dele POR ALGUMA RAZAO brigando contra o amiguinho, e a história do personagem mesmo fica em hold, esperando o evento acabar. Aí quando o evento acaba o personagem tá de outra maneira, descaracterizado e jesus sabe o que mais.

É difícil. É preciso resistência pra aguentar 20 eventos acontecendo ao mesmo tempo. É preciso dinheiro pra comprar todas essas revistas.

E mesmo que você compre todas essas revistas, você vai cair em histórias escritas por roteiristas que não conhecem o personagem e que vão descaracterizá-lo totalmente. Seja ele um personagem classificado como “diverso” seja ele o Capitão América – Olá Nick Spencer 😉

Se para os fãs mais antigos já é difícil acompanhar, pros novos fãs, que a Marvel tanto se esforçou pra trazer é mais ainda.

Essa quantidade de sagas, eventos e cross over também não atesta par aa qualidade das histórias. Sim, existem pérolas no meio disso tudo “Infinite Gautlet, por exemplo”, mas a grande maioria é uma sopa de letrinhas pasteurizada e confusa.

Digamos que você tenha a grana para as 27 revistas que o evento tá juntando. Beleza. Nem a pau que metade dessas 27 revistas vão ter histórias realmente boas. Você pode amar Guerra Civil, mas nem todas as revistas que aquele evento englobou foram boas.

Isso tudo assumindo que você deu sorte de estar acompanhando um dos protagonistas do evento. Pq se você tá acompanhando Justiceiro ou Amadeus Cho, tanto faz, e o Drax caiu na Terra e por alguma razão ele é o centro do rolê – ferrou. Seu personagem não tá no centro da história, mas pra entender a história do personagem que você tá acompanhando, você precisa ler sobre o Drax ou sobre o Dr. Estranho plantando flor na Austrália pq essa flor vai ser vital para o Drax no futuro.

É inviável.

SOBRE PESSOAS NAO QUEREREM MAIS DIVERSIDADE

-“Nós escutamos que pessoas não querem mais diversidade” – Eu escuto isso TODO SANTO DIA. E todo santo dia eu escuto o exato oposto também.

– Se tem uma coisa que o público de quadrinhos consegue ser é conservador. É um público que fica preso à forma original de personagens que foram criados há mais de 40, 50 ou 60 anos e que, muitas vezes, quer que os personagens inclusive regridam à algo que eles nunca foram.

X-Men – foram criados como representantes de minorias, era um monte de personagem para discutir o modo como a sociedade tratava minorias. Tem todo o rolê Professor X – Martin Luther King e Magneto – MAlcom X (que em si já é um absurdo). Os personagens de origem, no entanto, eram todos brancos e belos. Lá em 1950 talvez essa fosse a melhor maneira de apelar para um consumidor branco e botar um pouco de senso dentro das cabeças racistas, mas hoje os X-Men precisam melhorar muito no que tange diversidade étnica e de sexualidade se quiserem continuar fiéis à sua origem. Ainda assim tem fã de X-Men que fica irritado quando os personagens discutem diversidade, racismo, homofobia ou machismo.

– Gente sem noção sempre vai ter. Próximo.

SOBRE A VENDA DE PERSONAGENS DIVERSOS ESTAR RUIM

As vendas não estão lá essas coisas e ponto. Pra personagem nenhum da Marvel. Ano passado ela deixou de ser editora com maiores vendas, perdeu pra DC, algo que não acontecia fazia alguns anos já. E existem muitas razões pra isso.

– O número de lançamentos que ela jogou no mercado nos últimos dois anos. Foram muitos títulos novos, muitos que acabaram cancelados no meio do caminho, e muitos deles com narrativas que simplesmente não convenceram.

– All-New All-Different Marvel Now foi lançado em 2015 com todo um rolê de “Olha só toda essa mudança que a gente tá fazendo, olha só toda essa diversidade”. E eu não quero tirar o mérito da Marvel, pq ela realmente vem fazendo um trabalho de inclusão que talvez não tenha precedentes, com autores e personagens que a gente não tinha visto antes, mexendo com personagens clássicos e tudo mais. Mas All-New All-Different também manteve MUITAS das equipes criativas, e muitas delas eram formadas principalmente por caras brancos que, inevitavelmente, vão colocar a visão deles dentro do que eles escrevem. Ou seja, o all new não foi todo tão diferente assim.

– Ontem eu soltei um texto discutindo exatamente isso, como Nick Spencer, responsável por Capitão América: Sam Wilson conta a história do ponto de vista dele, e como isso acaba enfraquecendo o personagem e a narrativa, pq Sam não é Steve, e eu honestamente acho que Spencer não sabe que Steve é de verdade também.

O Comic Book Ressaouses fez um texto muito bom mostrando os dados dessa queda de vendas – e esses dados estão abertos na internet pra todo mundo que quiser comprovar. O que eles acharam foi que o problema não está só nos quadrinhos com diversidade, mas na Marvel inteira.

– Em fevereiro de 2017 só duas séries de super-heróis venderam mais do que 40.000 edições. The Amazing Spider-Man e  The Mighty Thor, e ainda assim é quase a metade do que na época pré-Secret Wars, em 2015. Só pra fazer o note: nessa época já era A Thor, beleza?

Dos TOP 10 livros mais vendidos da Marvel apenas três são estrelados por minorias – The Mighty Thor, que vem sendo carro chefe de vendas da Marvel há anos, Invincible Iron Man, e Black Panther. Todos os outros, que também tiveram a queda brusca na venda, são estrelados por homens ou equipes primordialmente masculinas. Eles também estão sendo desenhados e escritos por equipes massivamente brancas e masculinas.

É aqui que entra aquela questão: Se nós formos olhar os números como um todo, homem branco perde muito dinheiro. Dos 20 filmes que mais tiveram prejuízo em Hollywood 20 foram dirigidos por homens e 19 tiveram como público alvo principal, o masculino.

Porque só se leva em consideração 3 dessas 10 revistas? Pq são essas três revistas que vão dar força pra falácia que é narrativa de que diversidade fez as vendas caírem. Enquanto as outras 7 não, elas são pequenos milagres de jesus. Um escorregãozinho.

A história do mercado de quadrinhos conta outra coisa.

SOBRE O MERCADO E O PUBLICO DE QUADRINHOS

Nos EUA você não encontra edições únicas em nenhum lugar senão em Comic Book Shops, lojas especializadas. Você não entra numa livraria e sai com Homem-Aranha #20. Lá também só há um distribuidor, a Diamond, que é responsável pelo mercado americano, canadense e inglês. Ou seja, ou você está dentro da área de alcance dessas comic books, ou não está.

Quem já foi em uma Comic Book sabe o quão incríveis esses lugares podem ser, mas eles também são ambientes que ainda são extremamente excludentes. O que não faltam são histórias de garotas e outras minorias se sentindo excluídas e mal tratadas dentro desses espaços. Se aqui no brasil, que eu posso comprar meu gibi na banca, a comic shop ou na livraria, eu já tive que aguentar vendedor homem querendo me explicar sobre quadrinhos, imagina dentro de uma comic book americana? Quando a gente fala sobre homenxplicaação e o pedido de carteirinha nerd, muitas dessas histórias tem origens dentro desses ambientes.

Aí você tem livros que são destinados à essas minorias, que ou antes não habitavam esses ambientes, ou que ainda são excluídos dentro desses ambientes, e quer que elas vão até lá para comprar.

O mercado de quadrinhos nunca foi a coisa mais consistente do mundo – assim como nenhum mercado é.

Em 1993, quando o mercado de quadrinhos americano estava num momento de ascensão, Neil Gaiman foi convidado para falar num evento para lojistas, senão o mesmo, um muito similar ao que o VP da Marvel estava quando soltou a polêmica. Era um momento em que as Comic Shops explodiam, tudo estava aquecido e se viam as HQs como fonte infinita de dinheiro. Nesse discurso o Gaiman contou sobre a história da Holanda e as Tulipas, no século 17. Sobre como o país inteiro investiu loucamente em Tulipas, que pra eles era uma coisa muito importante, com o custo do kilo da Tulipa custando mais do que uma carruagem e, quando o resto do mundo não demonstrou o mesmo interesse, o país quebrou. Porque eles não se preocuparam em trabalhar a Tulipa, eles se preocuparam em fazer dinheiro.

Ninguém entende porra nenhuma. Alguns lojistas ficaram ofendidos com o que Gaiman disse mas, um ano depois, o mercado quebrou e com ele foram-se o sustendo e as lojas de diversas pessoas. O mercado levou quase dez anos pra se recuperar novamente.

Isso tudo pra dizer que não existe um tipo de quadrinho que vá vender bem 100% do tempo, ainda mais se você tiver expectativas irreais com o mercado.

O que Gaiman quis dizer ao contar essa história qfoi que não pode ser só sobre o valor do quilo da Tulipa, precisa ser sobre a qualidade dela. Ainda mais se você precisa concentrar as suas vendas em comic book shops.

No caso Tulipas são Quadrinhos. E quadrinhos com boas histórias, vendem. Porque as pessoas falam sobre elas, porque o vendedor vai ler e colocá-la no display em destaque. Mighty Thor taí pra provar. Muitas pessoas criticaram muito a revista por trazer uma mulher como Thor, mas a qualidade da história fez os leitores ficarem. O mesmo com Kampala Khan, Squirell Girl e Moon Girl.

PUBLICO NOVO FUNCIONA DE MANEIRA NOVA

O que a Marvel fez em todos esses últimos anos foi trazer um público diferente pra dentro da marca, mas ela ainda precisa aprender a entender os hábitos de consumo desse público. O que está acontecendo agora, como a autora da Kampala disse no post que ela fez durante o fim de semana, é o aumento dos quadrinhos para Jovens Adultos.

E esse é um público que vem dos livros, que segue os autores para onde eles vão – e alguns deles chegaram aos quadrinhos. Roxane Gay, que está escrevendo Wakanda, não é roteirista de quadrinhos originalmente. O Mesmo para o roteirista de Pantera Negra, que fez sucesso escrevendo sobre questões da comunidade negra, e a roteirista de América, que também é autora de livros YA com temática LGBT. A Marvel foi atrás de um público maior, e os alcançou.

Mas esse público ou não tem o costume de ir até uma comic book shop, ou não se sente confotável nesses espaços ou simplesmente acha melhor comprar os colecionáveis, as edições que compactam várias single issues.

Como eu disse lá no começo da Live a Miss Marvel ficou diversas semanas consecutivas no topo da lista de livros mais vendidos do New York Times – até que em novembro o jornal tirou os quadrinhos da contagem.

Mas esses colecionáveis não entram nesses números de queda ou aumento de venda – pq a Marvel ainda não aprendeu a lidar direito com eles, e nem com as vendas online se nós formos ser completamente sinceros aqui.

Manara, Cho e a Tal da Subversão do Tabu

E quem já não cansou do choro do Frank Cho? Se você acompanha o Collant então você sabe que Frank Cho já virou piada interna. E se você esteve pela “internet dos quadrinhos” de super-heróis ontem então você muito provavelmente, e infelizmente, deve ter se deparado com esta atrocidade:

manara-cho

Eu continuo achando que Cho é o maior palhaço vitimista carente do mercado de quadrinhos americano, mas tem algumas coisas que a existência dessa foto, e o contexto no qual ela foi anunciada, faz com que sejam muito importantes de discutir.

Sobre censura.

Caso você ainda não saiba: Crítica não é censura. E como eu já escrevi um texto inteiro dedicado a mostrar a diferença entre uma e outra, então vou deixar aqui um trecho:

Se uma pessoa retira o livro da prateleira, se ele toma a caneta da mão do autor, se ele impede de alguma maneira que o autor publico sua arte, e que a população tenha acesso à ela, isso é censura. Mas se a pessoa apenas tece críticas sobre o trabalho que o autor criou, então isso é uma crítica. Censura precisa vir de alguém com poder para censurar, e isso normalmente vem do Estado ou das Instituições. Pessoas e movimentos sociais raramente tem esse tipo de poder.

Ninguém tirou a caneta da mão de Frank Cho ou Milo Manara, e nem vão tirar. A decisão da Marvel e da DC de não comercializar as capas variantes, ou de editar o trabalho de Cho, são decisões editoriais, baseadas na resposta do público aos seus produtos. E não é isso que sempre dizem? Que é o público que decide se vende ou não, pois é.

É interessante notar que enquanto Cho chora pelas redes sociais pagando de vítima de censura ele foi convidado por uma Con internacional para falar sobre representação feminina. Ele ganhou uma painel só para ele poder discorrer lágrimas de injustiçado sobre como é um transgressor de tabus, um subversivo que nada contra o politicamente correto.

O cara que se diz censurado ganhou um painel só para ele. Para falar sobre mulheres. Numa Con. Em outro país. Como isso configura como censura, eu nunca saberei. Se isso representa alguma coisa é como ainda há muito espaço para um cara como Cho, que se recusa a crescer e deixar a sua adolescência punheteira para trás.

Cho desistiu de continuar a desenhar as capas alternativas de Mulher Maravilha porque sentiu que estava sendo censurado. Ele pode fazer o que quiser, isso já está bem claro, mas quando você desenha capas alternativas, e quando a editora já passou por problemas semelhantes, então mesmo você ó-senhor-bonzão precisa se submeter a editoração da equipe criativa da revista. Foi isso que aconteceu, o conteúdo de Cho não cabia dentro da proposta da revista. Todo artista passa por um processo de edição.

Sobre a tal quebra de tabu.

Milo Manara tem um trabalho muito importante para o cenário de quadrinhos eróticos, e eu realmente acredito que para alcançar mais público e evoluir como forma de arte os quadrinhos precisam ocupar todos os espaços de criação. O que eu não compro é esse papo de que Manara e Cho estão subvertendo tabus.

Talvez lá nas décadas de 70/80 o trabalho de Manara realmente tenha ajudado a quebrar tabus sobre o corpo e sobre a sexualidade feminina. Mas hoje? Não. Porque os tabus que precisam ser quebrados vão ser destruídos por mulheres, não por homens desenhando mulheres. 

Não tem nada de transgressor e subversivo no Manara desenhar até os detalhes da vagina da Mulher Aranha, isso é só machismo. Esse desenho é criatura como a de Frankstein, o resultado de homens com liberdade e sensação de poder. É a criatura que resulta do machismo e da misoginia que permite que desenhistas homens hipersexualizem personagens femininas ao extremo sem nenhum tipo de consequência ou consciência, mas que permite que mulheres criadoras sejam perseguidas por criar personagens femininas decentes. É fruto da indústria.

E sim, eu usei a palavra misoginia, porque só o ódio à figura feminina permite que esse tipo de imagem, nesse tipo de contexto, aconteça. Um ódio à mulher que insiste em tomar de volta para si a sua representação, a mulher que questiona a objetificação do seu corpo. A verdadeira liberdade de expressão sexual feminina vem das mãos das mulheres, e não tem nada que homens como esses caras odeiem mais do que um grupo de mulheres que quere assumir o controle sobre a sua sexualidade e sobre o modo como ela é representada. Não tem nada mais ameaçador e amedrontador para um homem do que uma mulher que sabe quem é e o que quer – principalmente se for sobre a sua sexualidade.

Se você quer ver, descobrir e quem sabe aprender um pouco sobre a sexualidade feminina então você pode acompanhar o trabalho de inúmeras quadrinistas mulheres que falam e desenham sobre isso. Aqui no Brasil tem a LoveLove6 com a Garota Siririca, a Sirlanney do Magra de Ruim, tem a Beliza Buzolo no Na Ponta da Língua.  Lá fora tem Filthy Figments, Alison Betchel e Oh Joy Sex Toy, da Erica Tomen. Tem muito mais também, a quadrinista Aline Cruz fez até uma listinha sobre isso na TRIP.

Não é que homens não possam desenhar ou discutir sobre a sexualidade feminina, é que não vão ser eles que vão quebrar tabus ou subverter o tema. Principalmente enquanto eles continuarem a ver a sexualidade e o corpo feminino com um olhar objetificante e desumanizador, como essa ilustração.

Não é subversão, é status quo. 

A representação feminina nos quadrinhos de super-heróis já melhorou bastante, mas isso não quer dizer que já estamos no ideal – bem longe disso. E é exatamente por ainda termos um longo caminho pela frente que esse papo de subversão cai por terra. Personagens femininas são hipersexualizadas constantemente. Esse é o status quo dos quadrinhos. Quadrinistas e jornalistas são perseguidas e ameaçadas por simplesmente produzir ou por criticar a indústria. Esse é o status quo dos quadrinhos.

Hoje, se você quer subverter a representação feminina, se você quer ser o transgressor de padrões, então você desenha e escreve mulheres como elas são: humanas complexas. Você não as expreme dentro de mini-uniformes, não as coloca em posições ginecológicas e não desenha mamilos, bundas e até os lábios da vagina como se o uniforme fosse pintura corporal – você faz o seu trabalho direito.

O cenário de quadrinhos independente americano vem trazendo aos holofotes nomes de quadrinistas, mulheres e homens, que criam personagens femininas interessantes e humanizadas. Os maiores nomes, aqueles sobre os quais mais se fala, hoje são nomes femininos ou atrelados à personagens femininas e de outras minorias. Ghosts e Drama, livros da quadrinista Raina Telgemaire, estão respectivamente à 6 e 167 semanas seguidas na lista de graphic novels best sellers do The New York Times. Ela possui outros dois livros na lista.

Muitos desses nomes indies estão migrando para o mercado tradicional, como Noelle Stevenson, de Nimona e Lumberjanes, que assumiu a responsabilidade de trazer de volta o título The Runaways da Marvel. São quadrinistas que criam personagens incríveis como a adolescente Miss Marvel/Kamala Khan, que fazem re-designs épicos de uniformes o da Batgirl, que aprende com seus erros, que desenvolvem personagens fortes, complexas e seguras da sua sexualidade como a Harpia (Mockingbird) e a Capitã Marvel. São essas pessoas que vão conseguir conversar com a sexualidade feminina.

No meu mundo ideal a Marvel vai entender o desenho com quem Manara presenteou Frank Cho, e o ato de fazer um grande caso sobre isso como o que ele realmente representa: uma afronta a sua política de inclusão, a transformação pela qual a editora vem passando. Uma violência contra os seus criadores e contra o seu público que há anos vem construindo e lutando por uma representação feminina decente. Uma violência contra a personagem, porque esse não é um desenho fanmade perdido nos submundos da internet, é uma ilustração feita para chocar e ofender o público que a editora tanto quer alcançar.

Não tem nada de transgressor em desenhar os lábios da vagina e o ânus de uma super-heroína. Isso é só mais um exemplo desesperado de como esses caras, que um dia foram considerados peixes grandes da indústria, agora começam a se debater na areia a procura de atenção.

Para alguns é mais fácil morrer na praia do que continuar a nadar.

Ask me about my feminist agenda: Chelsea Cain, assédio e a verdadeira agenda do meio dos quadrinhos.

Eu não saberia te informar quantas mulheres foram expulsas do twitter porque homens ligados aos quadrinhos acham que tem o direito de assediar mulheres na rede social simplesmente porque elas escrevem sobre um tema que não lhes agrada. Eles também parecem não entender que assédio e crítica são duas coisas completamente diferentes. Eu uso o termo “expulsa” porque é bem isso que acontece, já que o assédio e as ameaças são tão grandes que a mulher não vê outra escolha senão abandonar o twitter.

A última mulher a passar por isso foi Chelsea Cain.

Após este twitte…

Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.
Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.

Ela recebeu twittes deste nível:

ataque-mockinbird
Eu não vou traduzir, a imagem é horrível o suficiente.

Chelsea é uma escritora Best Seller de romances que fez sua estréia nos quadrinhos na revista especial em comemoração aos 50 anos da SHIELD, Mockingbird. Devido ao sucesso que a edição especial fez, a revista ganhou uma série, que chegou ao fim este mês, em sua oitava edição.

Mockingbird, que conta a história da personagem Harpia, tinha uma equipe criativa composta maioritariamente por mulheres, e isso transparecia muito bem no papel, com personagens femininos e masculinos bem escritos, desenhos que brincavam com a nossa percepção de sexualização e quebrava alguns estereótipos de gênero. Um ótimo exemplo de como uma equipe criativa com mulheres pode resultar em mais acertos do que erros.

O twitter no qual anunciava o cancelamento da revista, e pedia por mais espaço para títulos criados por mulheres e com personagens femininas acabou gerando um onda de ódio. Ela respondeu assim:

chelsea-2
Minha fala não foi um pedido de atenção. Mesmo. Eu já cansei daqui. Eu estou impressionada com a crueldade que os quadrinhos fazem aflorar nas pessoas.
chelsea-3
“Eu te amo” – mensagem que a minha filha de 11 anos me mandou, pq eu estou no escritório lidando com bullies misóginos no twitter ao invés de…

Depois disso sua conta explodiu e a autora acabou saindo do twitter.

Chelsea não disse absolutamente nada demais, apenas pediu para que os fãs continuem cobrando da Marvel uma postura mais inclusiva, postura essa essa que permitiu que Mockingbird fosse criada.

O que também despertou a fúria dos trolls e dos fãs machistinhas de quadrinhos foi a capa da última edição. Essa maravilhosidade aqui:

mocking

Eu acho engraçado como nós não podemos falar sobre temas como representação feminina, e feminismo nem mesmo com humor, mas devemos achar ok a capa de uma revista que hipersexualiza uma personagem negra e adolescente. Diferente da capa de J Scott Campbell, e eu uso esse exemplo porque ele é o mais recente, a capa de Mockingbird #8 dialoga perfeitamente com o conteúdo e com a personagem título da revista.

Não é uma capa ofensiva, é uma capa que lida de maneira bem-humorada com um tópico tão ~polêmico~ dentro dos quadrinhos: o machismo. Não se enganem, nós tivemos muitos avanços nos últimos anos, mas ainda são as autoras, ilustradas e executivas do meio que são expulsas do twitter, não os homens.

Muitos vão comparar as críticas que J. Scott Campbell recebeu com o assédio moral que Chelsea Cain recebeu, mas nem de perto é a mesma coisa. Enquanto Campbell foi criticado e questionado sobre seu trabalho, as ofensas direcionadas à Cain foram de nível pessoal e ofensivo. Crítica não é censura e assédio não é crítica, é violência.

Brian Michael Bends respondeu ao twitte de Chelsea imediatamente, mas digamos que não foi a melhor resposta que ele poderia ter dado.

bendis-1

Bendis explicou, em outro twitte, que a intenção era dizer que não era um problema unicamente de quadrinhos. Mas aqui nós temos uma mulher que nunca precisou bloquear ninguém no twitter até começar a trabalhar com HQs, isso por si só já é justificativa o suficiente para ela acreditar que o meio dos quadrinhos é o problema. E ela não está completamente errada. Apesar de machismo e misoginia ser uma constante em todas as outras frentes da cultura pop, como games, RPG e mesmo literatura, os quadrinhos tem sim um problema gigante, um problema que editoras e grandes autores se recusam a reconhecer.

Em um post no seu site, Chelsea explicou porque deixou o twitter e como as coisas se sucederam. Ela não chegou a ler toda onda de ódio contra ela, porque cansou muito antes disso de acompanhar todos os twittes que recebia, ela não saiu do twitter por causa dos piores twittes, aqueles que vieram durante a noite e depois que começou-se a falar sobre eles, mas por causa dos que representam o machismo velado.

Mas saibam que eu não sai do twitter por causa de ameaças de estupro ou porque alguém postou meu endereço, ou alguma das coisas realmente vis que você lê sobre. Eu sai do twitter por causa do abuso diário, com o qual eu decidi que não quero mais conviver. O nível básico de grosseria e machismo. Claro, quando eu desativei minha conta na quinta pela manhã, tudo tinha explodido. E eu aposto que uma parte dos milhares de posts no meu feed foram realmente vis. Mas eu não sei.

E essa é a questão. Não é só quando trolls e fãs misóginos resolvem atacar em massa que essas mulheres são perseguidas no twitter, é sempre. É diário e é sintomático da indústria.

Leth Merenghi, roteirista de Vampirella, fez uma série de twittes comentando como o meio dos quadrinhos continua a fomentar esse tipo de comportamento agressivo. leth-merenghi

Mulheres nessa (e em muitas outras) indústrias sabem que nós precisamos ficar juntas e ajudar umas as outras porque, quem mais vai nos apoiar? Homens que são publicamente conhecidos por assédio, por agarrar, por MORDER, ainda estão empregados. Não existe consequência para eles. Se a gente fala, se dizemos não, a culpa é nossa. Criadoras de confusão. Não sabemos jogar em equipe. Ela é difícil de trabalhar… etc. Então além de ter que viver com o conhecimento que a sua segurança, e a segurança de outras mulheres ao seu redor, não é da preocupação dos poderosos, você também precisa lidar com o assédio dos “fãs”, num nível muito pior do que a maioria dos homens vai um dia saber. E precisa fazer isso com um sorriso. Então imagine o quanto nós amamos o nosso trabalho, para aguentarmos TANTO só para trabalhar. Você não pode ficar surpreso quando alguém desiste. Eu sei que eu falei muito, desculpe. Eu só estou cansada do status quo dos quadrinhos, e ter que lutar tanto por tão pouco.

Nós já falamos diversas vezes sobre como o mercado de quadrinhos, nacional ou americano, trabalha para excluir as mulheres do seu mercado, seja através da broderagem, seja quando não se fala ou não se faz nada contra os homens assediadores da indústria. Tudo isso colabora para criar ao redor dos quadrinhos um ambiente de permissividade quando o assunto é agressividade masculina direcionada à mulher.

Desde o começo da polêmica Mockingbird se tornou #1 em vendas online, o que é ótimo. E, claro, muitos homens sentiram a necessidade de desmerecer o movimento de apoio falando que a melhor maneira de apoiar uma autora é comprando as suas revistas, não através de “posts de tumblr”. E sim, nós precisamos comprar revistas feitas por mulheres, mas ainda é difícil saber quais são tais revistas, já que títulos como Mockingbird não possuem, nem de perto, o mesmo tipo de publicidade que os grandes títulos das editoras possuem. Grandes títulos esses que são majoritariamente escritos e ilustrados por homens. Além disso, com tantas autoras e ilustradoras sendo expulsas das redes sociais fica difícil para elas entrarem em contato com o seu público, uma outra maneira de fazer os seus títulos ficarem mais conhecidos. As coisas realmente não são tão transparentes como alguns editores da marvel parecem achar.

Em resposta à onda de ataques contra Chelsea, muitos fãs e profissionais dos quadrinhos passaram a utilizar a hashtag @IStandWithChelseaCain, e a twitter a capa de Mockingbird #8.


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Gail Simone, inclusive, fez uma thread inteira sobre o assunto, e vale muito a pena ler e acompanhar o pensamento da roteirista.

É ótimo ver que tantos fãs e autores de quadrinhos saíram em apoio à Chelsea, mas o que ainda falta toda vez que noticiamos esse tipo de acontecimento é a posição oficial das editoras. Apoiar os seus artistas é parte de mostrar-se realmente comprometida com o desenvolvimento de um ambiente mais seguro e saudável, mais inclusivo também. Porque se uma autora é atacada e a empresa não se posiciona, qual a mensagem que ela está passando tanto para seu empregados quanto para seus fãs?

A gente pode brincar com a frase “Ask me about my feminist agenda”, e eu já aviso que ela acabou se tornando símbolo de empoderamento e força pra as mulheres do meio dos quadrinhos, mas a verdade é que enquanto as grandes editoras e os grandes nomes dos quadrinhos fizerem vista grossa para todo o assédio moral e sexual que as suas funcionárias e colegas sofrem, tanto por fãs quanto por outros funcionários e colegas, a única agenda do mercado de quadrinho é a exclusão de mulheres através do machismo. Nós precisamos melhorar.

Os Vários Problemas da Capa Alternativa de J. Scott Campbell para Iron Man #1

Não passa ano sem que a Marvel ou a DC tenham problemas com suas capas de revistas e, para surpresa de ninguém, a polêmica acontece sempre com capas que possuem personagens femininas. Aconteceu com a Mulher Aranha do Manara, aconteceu com a Batgirl, aconteceu com a Mulher Maravilha e agora acontece com Riri Williams.

Iron Man #1 é a revista que vai apresentar Riri Williams para o universo da Marvel sob o codinome Ironheart, a revista na qual ela assume de vez o manto de heroína. É muito comum que em ocasiões especiais, como o lançamento de uma nova personagem ou de uma nova revista, as comic shops americanas contratem artistas para fazer capas alternativas, edições de colecionador. E tá tudo bem, eu também adoro capas alternativas e tenho algumas em casa. O problema acontece quando a comic shop não escolhe artistas que estejam aliados com o tom, com a temática da revista, com a personagem ou mesmo, sei lá, com os tempos atuais.

Tem muitas coisas erradas com as capas desenhadas por J. Scott Campbell, então vamos passar por cada um dos problemas.

capas-variantes

– As duas capas variantes tem preços diferentes –

Poucas pessoas estão falando sobre isso, mas não foi uma capa que o quadrinista desenhou, foram duas. Numa delas Riri aparece usando um crop topped, na outra ela usa a sua armadura. Se o colecionador/leitor quisesse levar para casa a edição em que a personagem usa a armadura ele teria que desembolsar $10, mas se quisesse levar para casa a edição em que Riri está de barriga de fora… 15$.

Ou seja, a versão em que a personagem está usando menos roupa custa mais caro do que a versão em que ela está completamente vestida, usando a armadura que lhe concede os poderes que a tornam uma super-heroína. Se essa diferença de preço nos diz alguma coisa é que a intenção aqui é vender o corpo objetificado da personagem. Seja lá de quem tenha sido essa decisão, do artista ou só da comic shop, transformar o corpo feminino em objeto teria sido ruim em qualquer situação, mas fica pior porque…

– Riri é uma adolescente –

J. Scott Campbell começou a trabalhar com quadrinhos na década de noventa, talvez a pior época para personagens femininas no que tange uniformes minúsculos e posições ginecológicas. Campbell ajudou a criar Gen 13, uma equipe de super-heróis adolescentes em que todas as personagens femininas eram extremamente sexualizadas, e talvez naquela época isso passasse batido, mas nós não estamos na década de 90. Ela acabou faz 16 anos.

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Acreditem ou não, essas pessoas são adolescentes.

A indústria norte-americana de quadrinhos tem um problema com a hipersexualização de persongens femininas adolescentes que não é de hoje, e o próprio Campbell pode ser visto como o resultado desse tipo representação. Quando ele começou a trabalhar na indústria, Campbell tinha recém se formado no colegial, ou seja, ele próprio era um adolescente, faz sentido que depois de ano consumindo material que hipersexualiza personagens femininas, adolescentes ou não, ele tenha criado Gen13. Só que hoje ele não é mais um adolescente, ele é um homem adulto de 43 anos de quem se espera não só profissionalismo, mas também o discernimento de não hipersexualizar uma personagem adolescente.

Podia ser pior? Sempre pode. Gen13 é um exemplo clássico de como podia ser muito pior, mas também temos Kate Bishop (desenhada pelo próprio Campbell), Wonder Girl quando foi apresentada em Novos 52 ou Supergirl semi-nua no traço de Michael Turner. Até Dust, uma X-Men adolescente que tem a modéstia como parte dos seus princípios e tem seu corpo coberto por um niqab não escapou. Todas elas são garotas adolescentes desenhadas em corpos adultos, um fenômeno muito comum de ver meninas como mulheres, que ajuda não só a bagunçar o emocional das adolescente, mas também as vitima já que essa representação sustenta que elas são mais experientes e mais fortes que os pobres garotos adolescentes. É só olhar o modo como o Mutano está desenhado ao lado da Wonder Girl e perceber como personagens masculinos podem ter traços adolescentes, mas femininos não.

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Não é difícil notar que o corpo adolescente é diferente do corpo adulto, tudo que você precisa fazer é olhar as suas próprias fotos aos quinze anos, e agora. Ou as fotos de seus pais ou seus irmãos. Há um diferença muito grande, já que aos quinze anos de idade seu corpo ainda está se desenvolvendo, você está se adaptando ao seu novo corpo, você caminha diferente, você se posiciona diferente – tudo é diferente. E sim, algumas meninas tem seios grandes, e muitas adolescentes usam top cropped. Mas simplesmente ter seios grandes e usar top cropped não é hipersexualizá-las é o modo como você as desenha que faz isso. Adolescentes são adolescentes, e deveriam ser desenhadas como adolescentes.

Existem ótimos exemplos de adolescentes nos quadrinhos de super-heróis, Kamalah Khan, Moon Girl, a nova Power Girl, Gotham Academy inteira, Silk e Spider Gwen. E elas são representações tão legais porque em momento nenhum se esquece que elas são adolescentes, desde a narrativa até o design de seus uniformes, passando pelo modo como são apresentadas, tudo nelas mostra a fase da vida na qual elas estão. A identificação dos leitores adultos vem da qualidade da história contada e da personagem desenvolvida. É uma identificação saudável e positiva.

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O modo como garotas adolescentes são representadas afeta principalmente…. Garotas adolescentes, que já estão passando por um dos momentos mais desafiadores quando falamos sobre formação de auto-estima e auto-apreciação. Se ver representada dessa maneira mostra uma ideal de imagem que nunca vai ser alcançado – e que não deveria ser desejado, já que elas são adolescentes, não mulheres adultas. Peter Parker foi representado como o adolescente que ele era por anos, Riri não conseguiu nem bater a primeira revista antes de ser adultizada e hipersexualizada.

Oh, tem mais essa. A personagem foi baseada numa adolescente real, mas nem assim eles conseguiram representá-la como tal.
Oh, tem mais essa. A personagem foi baseada numa adolescente real, mas nem assim
eles conseguiram representá-la como tal.

– O Modo como Mulheres Negras São Representadas na Mídia –

Uma das coisas que chamou atenção na personagem quando ela foi lançada é que Riri não era só uma garota negra, ela era uma garota negra de pele escura. Quando falamos sobre representação da mulher negra não é muito difícil notar que a maioria das personagens negras não possuem o tom de pele escuro. Isso importa porque pessoas negras de tom de pele mais claras tendem a ser mais “aceitas” dentro da sociedade, enquanto pessoas de tons de pele mais escuras, não. Para garotas, e mulheres, negras e de tom de pele escura Riri é muito importante, e o tom de pele dela também.

Além disso mulheres adultas e adolescentes negras são hipersexualizada com mais frequência, e de maneiras piores, do que mulheres brancas. Há todo um peso histórico de como as mulheres negras foram tratadas pela sociedade branca ocidental, sobre como elas foram representadas na arte branca ocidental e isso pesa também nas HQs. Ver uma super-heroína que carrega o peso que Riri hipersexualizada traz junto todo um peso de opressão histórica não só de gênero, mas também de etnia. O fato dela ser uma garota adolescente só pior tudo.

A capa variante, e a capa que apresentou Riri, desenhada pelo brasileiro Mike Deodato.
A capa variante, e a capa que apresentou Riri, desenhada pelo brasileiro Mike Deodato.

Eu sugiro a leitura dos textos:

 Black Childhood Deferred: The Sexualization and Decolorization of Riri Williams para uma visão mais aprofundada sobre como mulheres negras são hipersexualizada e embranquecidas pela cultura racista e patriarcal.

Moon Girl, Representatividade e a Quebra de uma História Única, para entender melhor o porque personagens como Riri são tão importantes.

Assim que mais textos sobre este assunto forem surgindo eu vou colocando os links por aqui.

– A armadura –

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Desde que Riri foi anunciada se fala sobre como seria a armadura dela, e tanto os primeiros desenhos, como os liberados após a polêmica, mostram que a armadura não possui os tão odiados booby plates. Mas a versão de Campbell, tem. Enquanto a versão original mostra um peitoral mais preocupado em manter a personagem protegida, a capa alternativa possui um design mais angulado, evidenciando o booby plate.

Caso você ainda não saiba, booby plates são desconfortáveis e ao invés de ajudar a proteger, apenas aumentam a chance de um ataque corporal causar maior dano à região do coração da mulher, já que a angulação do metal proporciona à lâmina uma angulação que a direciona direto ao centro do seu peito. Onde fica o coração. E as pessoas morrem se seu coração é atingido. Caso você não saiba.

– Mas esse é o estilo do artista –

Sim, J. Scott Campbell é conhecido por desenhar mulheres extremamente objetificadas, com o mesmo rosto, em posições bizarras e com uniformes que na verdade são pinturas corporais. Nada disso, no entanto, advoga a favor do artista, só mostra o quão problemático o trabalho dele é. Como eu já disse antes, para um adulto desenhando uma adolescente de quinze anos, o mínimo que podia-se esperar era bom senso. Se o seu estilo não condiz com a idade da personagem… Talvez recusar o trabalho? Mudar um pouco o modo como você desenha, já que ela não é uma mulher adulta?

Mesmo rosto. Posições semelhantes. Tecidos que não fazem sentido. O ~estilo~ do artista.
Mesmo rosto. Posições semelhantes. Tecidos que não fazem sentido. O ~estilo~ do artista.

A decisão da loja de escolher um artista como J. Scott Campbell, com o “estilo” que ele tem, também é ou ingênua ou proposital. Levando em consideração a diferença de preço entre as capas da revistas, me parece mais proposital do que um “erro honesto”. Ninguém acertou na produção dessa capa, nem a Marvel, que ao invés de se preocupar em manter as capas alternativas em tom semelhantes ao da sua revista, também não se preocupou em avisar a equipe criativa da HQ. O mesmo erro que a DC cometeu quando da capa de Rafael Albuquerque para Batgirl. As editoras precisam começar a assumir responsabilidade também pelo material que deriva de seu trabalho, não dá para ignorar o que artistas contratados por terceiros fazem com o seu material. É preciso haver uma preocupação em aproximar esses trabalhos do tom das revista, caso contrário esses erros vão continuar acontecendo.

A hipersexualização não é um estilo, é uma constante no trabalho de artistas que se recusam a sair da sua zona de conforto, uma zona construída por anos às custas de personagens femininas que ate podiam ter uma história legal, mas que eram representadas como pouco mais do que objetos sexuais. Esse status quo, no entanto, está mudando, e se eles não se adaptarem vão acabar ficando para trás, como já é o caso de alguns ilustradores nacionais.

– Para fechar – 

Duas capas variantes, a de J Scott Campbel, e a de Mike McKone, que mostra Riri de cropped top e, apesar do tom de pele mais claro, consegue não hipersexualizá-la. Ela possui o corpo de uma adolescente.
Duas capas variantes, a de J. Scott Campbel, e a de Mike McKone, que mostra Riri de cropped top e, apesar do tom de pele mais claro, consegue não hipersexualizá-la. Ela possui o corpo de uma adolescente.

Não tem nada de errado em um adulto acompanhar as aventuras de uma personagem adolescente, mas é preciso lembrar que o adulto pode até ser o leitor, mas isso não deve interferir em como essa personagem é representada. Querer que uma personagem adolescente represente o desejo masculino adulto por uma mulher adulta é perturbador, e eu nunca vi o Peter Parker adolescente sendo representado de quadril quebrado para o lado e peitoral de fora. Deixemos adolescentes serem retratados como adolescentes, e se nós, adultos, vamos nos identificar com os personagens, então que seja porque eles são bem escritos e desenhados, não porque eles representam um ideal hipersexualizado do que a sociedade quer que uma garota adolescente seja.

Brian Michael Bendiz, criador da personagem, não sabia da existência da capa até que a polêmica se instaurou. A Marvel retirou a capa de circulação. Já Campbell disse que as críticas não o afetavam, o que é uma pena. Mais uma vez um artista homem deixou de ouvir, aprender e evoluir com as críticas, optando por permanecer no seu mundinho fechado de auto-apreciação, um mundinho que vai sim sendo desmontado aos poucos. É uma pena que ele não tenha tido a postura de Rafael Albuquerque, de ao menos entender que o tom do seu desenho não corresponde com o da personagem/revista.

O mercado de quadrinhos está mudando, eu diria até que já mudou bastante, e ele vai cobrar cada vez mais uma representação mais igualitária e de qualidade. Isso quer dizer que o público vai cobrar quando as editoras e os artistas pisarem na bola, quer dizer que quando uma personagem adolescente for criada e desenhada, nós vamos exigir que ela seja retratada dessa maneira.

Em tempo, os sketches de Riri que a Marvel liberou após a polêmica. Não tá uma adolescente puro amorzinho? ;)
Em tempo, os sketches de Riri que a Marvel liberou após a polêmica. Não tá uma adolescente puro amorzinho? 😉

Crédito das Imagens: Marvel Entertainment, DC Comics.

[Atualização 27/10: O texto foi alterado para informar corretamente o tipo de roupa que a personagem Dusk usa.]

Comparar a Marvel e a DC no Cinema é Inevitável.

Batman, Batman: O Retorno, Batman Eternamente, Batman e Robin, The Flash, As Aventuras de Lois e Clark, Batman: A Série Animada, Batman Beyond, Liga da Justiça, Liga da Justiça Sem Limites, Super Choque, os filmes animadas da Liga da Justiça e do Batman, Teen Titans, Batman Begins, Batman: O Cavaleiro das Trevas, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Arrow, The Flash, Supergirl, Legends of Tomorrow, O Homem de Aço, Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Esquadrão Suicida.

Eu não listei tudo isso para levantar algum tipo de carteirinha, mas para ilustrar que dos meus 30 anos de vida, 27 foram consumindo produtos da DC. Mesmo quando os filmes foram ruins, mesmo quando as temporadas não conseguem me deixar feliz, eu sempre sou a otária que paga o ingresso do cinema, que assiste todos os episódios fillers, que sofre porque matam as minhas personagens favoritas. Mas eu sempre volto. E assim como eu, milhares de outros fãs passam pelas mesmas questões e sempre voltam. Eu quero e vou ver o universo da DC se desenvolver no cinema, mas eu também queria que ele fosse melhor.

Quando a Marvel iniciou o seu caminho para construir o MCU, eles não sabiam exatamente o que o MCU se tornaria. Hulk e O Incrível Hulk não foram pensados para fazer parte de uma história maior, por mais easter eggs que o segundo tenha. Homem de Ferro foi como um teste para sentir o público e, ao mesmo tempo, uma grande aposta, já que o herói não estava em pé de igualdade com os monstros clássicos da DC como Batman ou Superman. Mas eles foram tateando, sentindo o público e, a partir daí, delineando a história maior em fases, agregando histórias que antes não estavam programadas (como Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga), e juntando as pessoas. Filme por filme. Personagem por personagem. E como a fã de quadrinhos e de cinema que eu sou, eu sempre estive lá.

O que eu queria para a DC era exatamente isso. Mas ao invés de construir uma narrativa do zero, ao invés de planejar Homem de Aço como um ponto inicial para seu universo cinematográfico, a DC criou um filme que, além de ser uma pequena bagunça, também não deixava espaço para fundamentar a pedra de sustentação de um universo inteiro com heróis e mitologias tão distintas umas das outras. E isso foi coisa de mirim, coisa de garoto que entra em partida de Overwatch contra um time de D.Vas sozinho e com um Reaper.

Com o sucesso de Homem de Aço, a DC resolveu correr atrás da Marvel. Mas fez isso com pressa de chegar primeiro, de ser maior e de ser a diferentona, ignorando todos os anos que Marvel levou para ter o MCU de hoje. Nas mãos de Zack Snyder, o universo cinematográfico da DC nasceu uma bagunça de referências, de personagens, de narrativas que não fazem sentido dentro de si mesmas. O diretor optou pelo seu estilo pessoal ao invés de se manter minimamente fiel à personalidade e aos valores que tanto Superman quanto Batman carregam em mais de meio século de existência. A pressa de soltar um “filme de equipe”, de correr atrás de Guardiões da Galáxia e de se mostrar “mais adulta” fez com que Esquadrão Suicida chegasse à mesa de produção antes mesmo de Liga da Justiça.

Parte do problema da DC nos cinemas é não olhar para os seus outros sucessos. Se hoje nós temos filmes com roteiros fracos, confusos e que parecem ter sido feitos na pressa, a DC tem décadas de experiência com animações e séries de televisão de sucesso. Por que não olhar para as pessoas que realizavam esse trabalho de qualidade e não buscar ali não só uma fonte de inspiração, mas também o conhecimento de como estruturar esse novo universo?

Batman vs Superman: A Origem da Justiça deveria ter sido o filme sobre a origem da Liga da Justiça, sobre a tríade se encontrando pela primeira vez e unindo forças. Mas, ao invés disso, a DC e Snyder decidiram colocar Bruce contra Clark, um confronto que demorou anos para acontecer nos quadrinhos, tudo isso num desespero em parecer “cool” e diferentão. Nas animações da DC, mesmo naquelas que são mais problemáticas, a Mulher Maravilha sempre está presente na construção da equipe, eles são A Tríade dos quadrinhos. Não tem nenhum herói da Marvel que seja tão conhecido quanto eles. Por que diabos iniciar um universo inteiro sem de fato termos um filme com os três? Por que não olhar para as animações e perceber um padrão que funciona e que poderia ser adaptado para o universo mais sombrio do cinema?

Com o aumento da discussão e da exigência por mais representação feminina, a DC se deu conta de que ela tinha uma mina de ouro nas mãos. O anúncio do filme solo da Mulher Maravilha fez com que os fãs ficassem alertas e ainda mais interessados, o que parece ter levado o estúdio a incluir uma participação maior da amazona em BvS. Só que, ao invés de ser algo orgânico, MM fez apenas uma participação digna de Deus Ex-Machina; sua presença, apesar de ser a coisa mais legal do filme, também está mal costurada à história de retalhos que é o roteiro de BvS. Esse devia ter sido o filme da Liga da Justiça, não da briga de dois garotões mimados com mães de mesmo nome.

O que eu esperava para a DC é que ela não tivesse saído correndo e queimando a largada. Queria que ela tivesse criado o seu próprio universo cinematográfico na sua própria velocidade, se dando conta de que não é uma competição. Não de verdade. Contanto que os filmes sejam lançados em datas diferentes, os fãs iriam fazer fila para qualquer um deles. Eu iria/irei ver Homem de Aço, Mulher Maravilha, Origem da Justiça, Flash, Esquadrão Suicida, Aquaman, Ciborgue, Liga da Justiça e todos aqueles que viessem/vierem depois deles. Mas seria melhor se os filmes tivessem sido pensados de maneira orgânica e organizada, dando o tempo que um universo desse tamanho precisa para realmente crescer, se sedimentar e funcionar dentro de si mesmo. Eu queria que a DC, ao invés de correr atrás da Marvel, tivesse aprendido com ela.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Capitão América: Guerra Civil possuem uma premissa muito similar: dois heróis indo um contra o outro. A diferença entre os dois filmes, além da qualidade do roteiro, está no modo como cada um deles foi construído. A Marvel passou anos desenvolvendo esses dois personagens, construiu a empatia do público para cada um dos personagens, para o relacionamento entre os dois e, só aí, ela criou a marca “Guerra Civil”. Em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, a DC usou a marca para atrair o público, não os heróis. São dois personagens que nunca haviam se encontrado, um deles nem sequer teve um filme para ser apresentado, brigando um contra o outro num universo que ainda nem está construído, dentro de uma história cheia de buracos e que faz muito pouco sentido. Eu não acho Guerra Civil perfeito, mas olhar esses dois filmes, entender quais são as similaridades e ver onde os dois se distanciam é importante para entender o que a DC podia estar fazendo.

Com o público cada vez mais exigente, e com o espaço que os filmes de super-heróis tomam nos cinemas, é óbvio que a crítica especializada vai começar a analisar essa produção com um olhar mais atento. Antigamente, os estúdios precisavam ir atrás de diretores de renome, hoje são os diretores que correm atrás dessas franquias. São filmes estrelados por atores bons, dirigidos por diretores renomados ou em vias de se tornarem consagrados, que ocupam a imensa maioria das salas de cinema. A franquia Bourne, que já ocupou a maioria das salas de cinema do país, perdeu um espaço imenso com o lançamento de Esquadrão Suicida. É muito dinheiro, espaço e esforço direcionado aos filmes de super-heróis. Espera-se que eles tenham roteiros bem escritos, com uma direção interessante, personagens bem construídos. Que sejam mais do que fan service, que alcancem o público que lê quadrinhos, mas também o que não conhece os personagens e gosta desse tipo de filme de ação. A comparação entre as franquias Marvel e DC é inevitável e, quando qualquer uma das duas entrega um filme abaixo das expectativas, eles vão receber críticas negativas.

A DC já saiu na frente com o primeiro longa metragem de protagonismo feminino.; Esquadrão Suicida tem a equipe mais etnicamente diversa dos filmes de super-heróis; ela mudou a etnia do Aquaman, incluiu o Ciborgue na LJ e trouxe um pouco mais diversidade para uma equipe tradicionalmente tão branca. A DC tem todos esses pontos legais, não precisa correr atrás da Marvel. A Marvel, apesar de estar na frente no número de produções e na qualidade técnica dos filmes, ainda vai me fazer esperar três anos para o primeiro longa protagonizado por uma mulher e apenas agora, no final da Fase 3, nós fomos apresentados a um herói negro.

Nenhuma das duas editoras é perfeita, nem nos quadrinhos, nem nos cinemas. E não tem nada de errado em uma ter um clima mais leve enquanto a outra procura um mais sombrio. Mas é difícil não comparar Marvel e DC no que diz respeito à construção e à qualidade de seus universos. Desde a escolha de diretores que irão trazer algo positivo e diferente para os personagens e o universo, mas sem fugirem completamente do material original (James Gunn X David Ayer), passando pelo modo como ambas deram o pontapé inicial em suas franquias de equipe (Vingadores X Batman vs Superman: A Origem da Justiça/Esquadrão Suicida). Na verdade, com a recente contratação de Geoff Johns para supervisionar todos os seus filmes, eu acredito que é exatamente por causa dessa comparação inevitável que a DC parece estar (finalmente!) se dando conta de que quantidade e velocidade não querem necessariamente dizer qualidade.

Gal Gadot acredita que só uma mulher pode dirigir o filme da Mulher-Maravilha

Depois da aparição de Gal Gadot em Batman vs Superman, os fãs andam muito empolgados com o filme da Mulher-Maravilha. Apesar de Batman vs Superman ter recebido muitas críticas negativas, o que a maioria das pessoas concordaram é que Gal Gadot tinha se saído bem como Mulher-Maravilha. Recentemente a atriz deu uma entrevista dizendo que apenas uma diretora poderia contar a história da heroína. O filme será dirigido por Patty Jenkins e Gal Gadot parece estar se dando muito bem com a diretora.

“É uma história sobre uma garota virando mulher. Eu acredito que só uma mulher pode contar essa história da forma certa.”

“Toda minha vida eu trabalhei com diretores homens que gostei bastante. Tive sorte de trabalhar com homens que respeitam mulheres, mas trabalhar com uma mulher é uma experiência diferente. Parece que a comunicação é diferente. Nós falamos sobre emoções. Com a Patty, nós nos comunicamos com o olhar. Ela não precisa dizer nada. Se eu estou machucada, ela sente minha dor. É uma conexão completamente diferente. Ela é brilhante.”

“Por um longo tempo, as pessoas não sabiam como lidar com essa história. Quando eu e Patty conversamos sobre a personagem, nós percebemos que Diana ainda pode ser uma mulher comum, com valores bem altos, mas ainda uma mulher. Ela é sensível, esperta, independente e emocional. Ela pode ficar confusa e perder a confiança. Ela pode ser confiante. Ela tem um coração humano.”

Essa questão tem entrado muito em pauta ultimamente, não só em Hollywood, mas no cinema em geral. É importante contar histórias sobre mulheres, principalmente no meio nerd que ainda não aceita mulheres protagonistas. Mas é igualmente importante que a equipe por trás das câmeras seja composta por mulheres.

O olhar de um diretor pode ser muito diferente que o de uma diretora, o que afetará no resultado do filme. A Mulher-Maravilha é uma das maiores heroínas dos quadrinhos, uma inspiração para meninas nerds de várias gerações, então como a própria Gal Gadot diz, é muito importante que seja uma mulher dirigindo, as chances de meninas e mulheres se sentirem representadas aumenta. Sem contar que a indústria de cinema ainda é um espaço muito machista, diretoras mulheres não tem as mesmas chances de trabalho, principalmente em filmes para o público nerd, então ter um dos filmes sobre uma das maiores figuras da DC dirigido por uma mulher também é em si uma representatividade importante.

Por mais que isso possa nos deixar aliviadas com a possibilidade de uma representação legal, há algum tempo atrás tivemos a notícia que Zack Snyder ajudou a escrever o filme, o que é um pouco preocupante já que ultimamente o trabalho dele não tem agradado muito os fãs (principalmente quando falamos de personagens mulheres).

O filme da Mulher-Maravilha será lançado no meio de 2017.

(Via Comic Book Resources)

A Warner está produzindo filme de heroínas e vilãs da DC!

Parece que a Warner ficou realmente animada com todo o fuzz que o filme da Mulher-Maravilha vem causando em resolveu apostar em mais um filme solo de personagens femininas. De acordo com o The Hollywood Reporter, o projeto, que ainda não tem nome, terá Margot Robbie não apenas como Harley Queen, mas também como uma das produtoras do longa.

Aparentemente Robbie foi o ímpeto para começar o projeto. Depois de se aprofundar nos quadrinhos e na personagem Harley, Robbie se apaixonou pelas personagens femininas da DC. Ela teria trazido a roteirista para desenvolver o projeto e depois o apresentou à Warner, e eles teriam topado.

Pouco se sabe sobre o projeto, apenas que o roteiro está sendo escrito por uma mulher e que o filme provavelmente trará Batgirl e as Aves de Rapina, mas não se sabe qual formação ou quais vilãs aparecerão. A Warner se recusou a comentar quando questionada pelo Hollywood Reporter.

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Aves de Rapina na série do começo dos anos 2000. Era ruim mas era <3

Aqui no Collant nós somos muito vocais sobre as nossas ressalvas com o modo como a Arlequina está sendo mostrada nos trailers de Suicide Squad, dito isso, vê-la ao lado de outras personagens femininas parece ser uma oportunidade muito positiva – principalmente se isso significar ver Barbara Gordon também na jogada. Com o sucesso estrondoso de DC Super-hero Girls, não é de se surpreender que a empresa tenha decidido explorar esse mercado crescente de leitoras e fãs femininas.

Fazer um longa unicamente com super-heroínas pode ser uma faca de dois gumes. Eu confesso que tenho pouca ou nenhuma confiança no trio Warner/DC/Snyder no que diz respeito às suas adaptações live-actions, e só estou verdadeiramente animada com Mulher-Maravilha porque além de ser o primeiro longa da personagem, possui uma diretora fodona no comando. Tenho medo de, caso esse longa de personagens femininas, também esteja sob a tutela de Snyder, nós acabemos caindo nos clichês de representação feminina forte que ele tanto adora: mulheres traumatizadas em busca de vingança usando langerie.

Apesar dessa minha ressalva fiquei muito animada com a possibilidade de ver tantas mulheres chutadoras de bundas reunidas num só filme – e com Margot como uma das produtoras. Agora é esperar, torcer para que o filme seja tão legal quanto as personagens femininas da DC merecem! <3

DC/Vertigo demite Shelly Bond, mantém um assediador e reacende a discussão sobre o assédio dentro do mundo dos quadrinhos.

Essa semana o mundo dos quadrinhos foi pego de surpresa pelo anúncio do desligamento de Shelly Bond do selo Vertido, da DC Comics. Shelly, que era Vice presidente e Editora Executiva do selo, tinha um longo histórico  de trabalho dentro da casa e é muito respeitada por seu trabalho pelo mundo dos quadrinhos de maneira geral. De acordo com a DC, a demissão de Shelly tem a ver com a reestruturação dentro da empresa que eliminou o cargo antes ocupado por Shelly.

A comunidade de quadrinhos americana não recebeu bem a notícia, já que a demissão pode indicar uma descaracterização ainda maior do selo que já foi o ponto alto da DC. Logo após a demissão da criadora do selo Vertigo Karen Berger, Constantine, personagem que por muitos anos foi a base do selo direcionado à um público mais maduro, foi usado como peça central no evento Novos 52. Enquanto algumas pessoas viram isso como algo positivo, os fãs mais fervorosos da Vertido sentiram-se traídos.

O quadrinista Ryan Kelly comentou:

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Não estou feliz. Nem um pouco. Alguém sabe o porque.
Fatores sobre a indústria dos quadrinhos que me deixavam triste , só me deixam com raiva agora. Eu vou direto para a raiva.
Fatores sobre a indústria dos quadrinhos que me deixavam triste , só me deixam com raiva agora. Eu vou direto para a raiva.
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Shelly me ligou hoje. Porque? Porque ela é a melhor. O que eu digo sobre a melhor editora que eu já tive? Ela é a melhor.

Mas em meio à discussão sobre a saída de Shelly Bond, uma das poucas mulheres à ocupar lugares de destaque dentro das maiores empresas de quadrinhos norte-americanas, veio a tona uma discussão que há tempos habita o universo editorial da DC e que é abafada pelo mesmo. Enquanto a DC se reestrutura e demite uma mulher como Shelly, a mesma reestruturação parece manter novamente um nome, em especial, que tem histórico de assédio e abuso.

Jennifer de Guzman, do Comics Aliance. 

Enquanto isso, se você tem múltiplas reclamações de assédio sexual contra você na DC e é um homem, sem problemas!
Enquanto isso, se você tem múltiplas reclamações de assédio sexual contra você na DC e é um homem, sem problemas!

A primeira vez que li sobre essa história foi ano passado, num post no tumblr da roteirista de quadrinhos Alex de Campi. Alex, que escreveu dentro outros títulos uma história em duas partes da Mulher Maravilha, relatou que diversas fontes haviam lhe dito que a razão para o escritório do Superman, dentro da DC, ter apenas homens trabalhando era porque um dos Editores Sêniors tem um histórico de assédio.

Alex escreveu:

“A revista principal da Mulher-Maravilha é parte do escritório de Superman. Aparentemente esse escritório não emprega nenhuma mulher, e os nomes nos diversos títulos de Superman e Mulher-Maravilha parecem confirmar isso. A razão, pelo que me disseram diversas pessoas que trabalham ou trabalharam na DC, é que um dos Editores Sêniors do escritório é um assediador com múltiplos incidentes reportados ao RH. Eu não digo “supostamente” nesse caso porque pelo menos um incidente (agarrar os seios de uma mulher) aconteceu em público durante um encontro de trabalho com múltiplas testemunhas presentes. (…) Eu não sei dizer se a regra nenhuma-garota-no-superman é uma preferência do assediador, ou se é o RH cruzando os dedos e pedindo à Jesus que eles não recebam um processo tão grande que poderia ser visto do espaço.”

De acordo com Alex, esse Editor Sênior sobreviveu à mudança da DC pra a Califórnia e, ao que tudo indica, sobreviveu novamente à reestruturação que demitiu Shelly Bond. Quando a DC soltou o release contando sobre a demissão de Shelly, alguns jornalistas e quadrinistas foram ao twitter comentar o ocorrido e o nome do editor foi revelado pelo jornalista Nick Hanover.

Eddie Berganza continua sobrevivendo às reestruturações da DC (exceto reestruturação que o mantém dentro de uma quarentena apenas masculina)
Eddie Berganza continua sobrevivendo às reestruturações da DC (exceto reestruturação que o mantém dentro de uma quarentena apenas masculina)
Eu vejo muitas pessoas falando sobre o assediador serial da DC e eu acho que, coletivamente, a gente precisa começar a falar Eddie Berganza. Se o suficiente de nós que sabemos desse segredo em aberto falar em público que Eddie Berganza é um assediador seria, vai ser mais difícil silenciar. Não é nem algo que a equipe da DC mantém muito silêncio. Editores lá dentro vão lhe dizer abertamente sobre Eddie Berganza quando perguntados.
Eu vejo muitas pessoas falando sobre o assediador serial da DC e eu acho que, coletivamente, a gente precisa começar a falar Eddie Berganza. Se o suficiente de nós que sabemos desse segredo em aberto falar em público que Eddie Berganza é um assediador seria, vai ser mais difícil silenciar. Não é nem algo que a equipe da DC mantém muito silêncio. Editores lá dentro vão lhe dizer abertamente sobre Eddie Berganza quando perguntados.

Eddie Berganza, que hoje é editor sênior dos títulos do Superman, foi destituído do cargo de Diretor Executivo alguns anos atrás mas foi mantido dentro da DC, em um cargo de menor alcance. Na época o Bleeding Cool news reportou que talvez esse rebaixamento poderia estar ligado à um caso de assédio em público que teria ocorrido durante a convenção WonderCon, ainda em 2012. Eles inclusive mandaram uma indireta. Oito meses depois, o mesmo site anunciou que Berganza estaria assumindo o posto de editor sênior de Superman. Ou seja, o rebaixamento aconteceu apenas para deixar a poeira baixar.

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Imagem via Bleeding Cool News

Fazendo volume às acusações públicas contra Eddie Berganza, a editora de quadrinhos indicada ao Eisner, Janelle Asselin, fez umas séries de twittes.

É tarde e não me importo, então sim, o fato da DC conseguir razões para demitir Shelly Bond e razões para manter Berganza empregado é lixo.
É tarde e não me importo, então sim, o fato da DC conseguir razões para demitir Shelly Bond e razões para manter Berganza empregado é lixo.
Eu fui uma das muitas que reportaram Eddie Barganza em 2011. Eu saí da DC porque eles o promoveram mesmo assim.
Eu fui uma das muitas que reportaram Eddie Barganza em 2011. Eu saí da DC porque eles o promoveram mesmo assim.
Eu tenho amigas com stress pós-traumático por causa de Berganza e pessoas como ele. Mas sim, vamos demitir as Shellys do mundo.
Eu tenho amigas com stress pós-traumático por causa de Berganza e pessoas como ele. Mas sim, vamos demitir as Shellys do mundo.
Mas além da DC demitir Shelly, eles afastaram tantas mulheres que teriam ficado se Eddie não estivesse al. Então. Eles fizeram a própria cama.
Mas além da DC demitir Shelly, eles afastaram tantas mulheres que teriam ficado se Eddie não estivesse al. Então. Eles fizeram a própria cama.
Adendo: Se outras pessoas tivessem falando sobre isso, eu teria reportado à muito tempo. Suas vitimas querem paz, não uma caça às bruxas.
Adendo: Se outras pessoas tivessem falando sobre isso, eu teria reportado há muito tempo. Suas vitimas querem paz, não uma caça às bruxas.

Além de ser extremamente frustrante ver esse tipo de comportamento vindo de uma editora tão grande quanto a DC, é interessante ver como grandes sites e nomes dos quadrinhos parecem se calar frente às acusações. Em seu post, Alex de Campi diz que aparentemente Berganza consegue se manter na DC através de chantagens, o que só deixa toda essa história ainda mais deprimente.

É importante lembrar que as mulheres que, de acordo com Janelle, não querem vir à frente e falar sobre o assunto estão absolutamente dentro do direito delas. Lidar com assédio sexual já é difícil o suficiente, ainda mais quando se está tentando abrir espaço para o seu trabalho e um dos gate keepers é um assediador intocável. aSsim como em qualquer empresa, e assim como dentro da nossa sociedade, a voz da mulher ainda é questionada em cada passo dentro do mundo dos quadrinhos. Não são poucos os casos de editores, autores e desenhistas acusados de assédio tanto por fãs quanto por colegas de trabalho, mas é incrível como poucos deles parecem de fato sofrer alguma consequência.

Enquanto mulheres precisam lidar com stress pós-traumático, e enquanto a editora fecha as portas para mulheres em um escritório que poderia ganhar muito com a participação feminina, um homem conhecido não por seu trabalho mas por seu histórico de assédio continua a ocupar um espaço importante dentro do mundo dos quadrinhos. Aos meus olhos, enquanto a DC continuar empregando Eddie Berganza, o contador “A DC fez algo estúpido hoje?” pode permanecer no zero indefinidamente.

via The Outhouser

Heróis, vilões e como encaramos a política

Acredito que você que está lendo sabe que estamos passando por tempos complicados na política brasileira. Eu evito trazer esses assuntos para cá porque, apesar de serem importantes, aqui é um espaço de nerdice. Mas eu também tenho essa mania de relacionar coisas da vida real com as da ficção e dessa vez não foi diferente.

Esse texto vai além de “a vida imita a arte e a arte imita a vida”, eu não vou sentar e falar sobre as semelhanças entre a segunda trilogia de Star Wars e o que vimos acontecendo no último domingo, até porque as imagens da Padmé dizendo “É assim que a democracia morre, com muitos aplausos” passou por várias páginas. Na verdade eu queria falar sobre outra coisa que tem acontecido muito e que, além de me irritar, eu acredito que afeta muito o debate e o entendimento político do brasileiro.

Não é só na política que insistimos numa espécie de pensamento binário. As coisas são encaradas como 8 ou 80, “se não está comigo está contra mim”, isso ou aquilo, sem nada no meio ou além. Por exemplo: Sou contra o impeachment e o circo que foi feito pela mídia e políticos sobre o assunto, mas no momento em que eu digo isso eu já sou classificada como “petista” seguido de xingamentos. As pessoas não querem nem saber se eu realmente apoio o PT ou qualquer outro partido e minhas posições políticas, é muito mais fácil me jogar no saco dos “outros” ou até “inimigos”. Você pode achar que ouvi isso na rua pela cor da minha blusa, mas não, na rua não sofri nada, os xingamentos vieram de familiares e “amigos”.

Eu entendo que há momentos na vida em que a gente é forçado a se posicionar, mas isso está muito além do Corinthians x Palmeiras que as pessoas têm feito. O caso mais gritante atualmente é o caso da presidenta, mas quando olho outros aspectos da vida em geral e até dentro de militâncias, vejo uma necessidade de colocar dois lados e a pessoa precisa ir para um grupo do jogo de queimada.

O que eu vejo é uma sociedade que se recusa a enxergar os tons de cinza nas coisas, que não aceita que certas situações não são tão simples e que classifica uma pessoa como petista só pelo fato de não ser a favor do impeachment. Não foram poucas pessoas que vi que votaram no Aécio, por exemplo, e acham um absurdo o que está acontecendo. E aí?

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Cosplay da Arlequina contra a Violência Doméstica.

Aqui no Collant a gente já falou diversas vezes sobre como o relacionamento da Arlequina e do Coringa é abusivo e sobre o nosso incomodo com a romantização desse casal. O problema desse tipo de representação idealizada de um relacionamento abusivo é que normaliza uma prática violenta e compactua com um status quo que mantém esse tipo de relacionamento como aceitável.

Arlequina é uma personagem ficcional, mas o que ela representa é um espelho assustador da realidade de muitas mulheres – inclusive no que diz respeito à culpabilização da vítima. Se Arlequina está com ele, ela deve ser feliz. Se ela não quisesse, ela já teria ido embora.

É importante dizer que nos quadrinhos Arlequina conseguiu ir além do Coringa e se firmar como uma personagem irreverente, auto-suficiente e, em fases mais recentes, finalmente livre e consciente do relacionamento abusivo que tinha com o vilão. Tornando-se não só a já tradicionalmente amada personagem, mas também uma representação positiva.

Essa iniciativa do Cosplay Amino é muito legal exatamente por questionar o modo como uma personagem é retratada ao mesmo tempo que expõe dados e discussões sobre relacionamentos abusivos. É uma maneira da Arlequina, assim como aconteceu com ela nos quadrinhos, ajudar outras mulheres à se libertarem.

isoladas índices homicídios garotas ciclo de abuso não reportados1 em cada 4 encobrí-los

 

 

 

Para não levantar nenhuma dúvida: nós somos super a favor de cosplays de Arlequina. Elas são um número incrível nas Cons e sempre são divertidas e irreverentes! <3

#‎JuntasSomosMaisFortes‬

Para denunciar violência doméstica: Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180)