Filmes e Diversidade: uma reflexão sobre os anúncios da Marvel e da DC.

O dia ontem foi louco, heimFoi o dia de glória para o mundo nerd desavisado. O evento misterioso da Marvel jogou no colo da fangirl e do fanboy desavisado nada menos que NOVE filmes. Sim! Ainda nem nos recuperamos do levante de filmes que a DC/Warner anunciaram na semana passada e já estamos regorgizando na ressaca da avalanche Marvel. 

Eu posso ser chamada de chata por isso, mas neste momento de orgasmo nerd também é importante pararmos para analisar e refletir sobre o perfil dos filmes anunciados – e dos que vieram antes deles também.

O primeiro Blade foi lançado em 1998 e, de certa maneira, permitiu à Marvel começar a considerar se jogar no cinema de verdade. Foi ele que abriu as portas para os primeiros filmes do Homem-Aranha e dos X-Men. Protagonista negro e sucesso foram cartas que aconteceram na década de 90. O último Blade é de 2004 e nós vamos ver outro protagonista negro só em 2016, com Quarteto Fantástico. E em um filme solo só em 2017, treze anos depois de Blade: Trinity.

Para nós, mulheres, é momento de vitória. Semana passada tivemos a confirmação do filme da Mulher Maravilha, ontem recebemos a notícia linda de que Captain Marvel vai ser protagonizado por Carol Denvers. Finalmente recebemos os filmes de super-herói com protagonistas femininas que tanto sonhamos e merecemos. É lindo, é mágico e 2017 não vai chegar rápido o suficiente. Mas estamos em 2014 e o primeiro filme protagonizado por uma mulher vai sair só daqui três anos.

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Os primeiros filmes de super-heróis baseados em quadrinhos começaram a sair no começo dos anos 2000, final dos anos 90. Levando em consideração que o sucesso das adaptações realmente começou a disparar com o lançamento de X-Men, em 2000, foram catorze anos de filmes quase exclusivamente protagonizados por homens brancos para que filmes protagonizados por mulheres e por etnias não-caucasianas começassem a ser anunciados.

Não é que eu não esteja achando o máximo esses filmes, eu tô vibrando e passei o dia inquieta depois do anuncio. No entanto, tivessem sido anunciados dois, três anos atrás talvez eu não estivesse levantando essa reflexão. Dois anos atrás nós estávamos assistindo Vingadores (2012) no cinema, depois de termos passado por dois Homens de Ferro e um Thor. Esse teria sido o momento ideal para anunciar filmes protagonizados por mulheres e personagens não-caucasianos. Se tivesse acontecido antes, seria mais lindo ainda. Mas em 2012 a Marvel já tinha dado início ao seu caminho triunfal no estabelecimento do universo cinematográfico e, um ano depois estreou Agents of Shield, com Ming-Na como a única personagem não-branca do elenco.

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Qual incrível é esse uniforme? *_*

Eu entendo que uma empresa tem receio em sair do “padrão” de sucesso que homens brancos heterossexuais são – a garantia de rentabilidade é importante quando você está tentando criar um universo como a Marvel estava fazendo. Talvez até aquele momento o anuncio de Capitã Marvel e Pantera Negra tivesse sido recebidos como ato de “coragem” e “visão”. A verdade é que mesmo hoje a notícia talvez também seja recebida assim – mas não é coragem e não é ser visionária, é atender uma demanda e largar mão de ser racista e sexista.

A DC tem uma história diferente. A grande maioria dos filmes feitos até então eram versões do Batman e do Superman – o que em si só já mostra o medo da editora em apostar em outros personagens. Tivemos The Flash no começo dos anos 90 e a série da Mulher-Maravilha na década de 70 . E só.

O anuncio do levante de filmes no último dia 15 era algo aguardado, mas a editora vêm dando passos mais desavisados e, me parece, descontrolados. A idéia de um filme da Liga da Justiça e do estabelecimento de um universo cinematográfico próprio é mais recente, e começou a ser levada a sério mesmo quando do lançamento do polêmico Homem de Aço (2013). Para muitos, inclusive para mim, parece que a DC está tentando formular o universo sem ter pensado nisso com muita antecedência, quase uma reação ao sucesso da Marvel no cinema. Nos dias de hoje teria sido loucura anunciar nove filmes sem que pelo menos um deles fosse da Mulher Maravilha e de um personagem negro.

Vale dar algum crédito a mais para a DC, já que o Ciborgue, por mais legal que ele seja, não tem a fama que os demais personagens da editora. Houve uma preocupação em tender a demanda, mesmo que tenha sido apenas por motivos de marketing. Ao meu ver, faria muito mais sentido lançar o Lanterna Verde com John Stewart como protagonista do que um filme do Ciborgue (ou que tal os dois?). Vale lembrar também que eles trocaram os cabelos loiros e nórdicos do Aquaman pelos traços nativo-americanos de Jason Mammoa – e eu falei em outro post sobre porque essas mudanças de etnia são legais e muito bem vindas.

captain marvel

A questão aqui é por que se levou tanto tempo para anunciar esses filmes? Foram necessários catorze anos para que realmente começasse a se escutar os apelos do público e a enxergar a sociedade com a pluralidade que ela tem – mas ainda não é o suficiente. Para os próximos seis anos temos 28 filmes de super-heróis marcados. Três deles serão protagonizados por mulheres (Mulher Maravilha, Capitã Marvel e um da parceira Sony/Marvel que ainda não foi anunciado quem é a personagem) e dois por homens negros, o que deixa um total de 23 filmes para equipes e protagonistas masculinos.

Eu gosto de ser positiva e acreditar que os filmes de equipe vão se preocupar em deixar de lado a mania de ter apenas uma mulher na equipe (Os Vingadores já aponta para isso, com Feiticeira Escarlate e talvez Capitã Marvel se juntando nos próximos filmes). Há também múltiplos personagens femininos e não-caucasianos que podem ser incluídos nos filmes de equipe, e as etnias podem ser invertidas. Mas mesmo assim falta, ao meu ver, coragem das produtoras de realmente tomar a dianteira e se mostrar aberta para as mudanças que a sociedade vêm exigindo.

Falei bastante sobre a falta de personagens femininos e não-caucasianos como protagonistas, mas um abismo muito maior se estabelece quando pensamos na representação LGBT. Eu sei que pra muita gente parece desnecessário, já que somos todos ou homens ou mulheres (há divergências nesse quesito, aliás), mas representação é o que faz todos nós nos sentirmos parte da sociedade, especialmente nma sociedade homofóbica, misógina, transfóbica e sexista como a nossa. Sei que a barreira LGBT ainda vai ser difícil de quebrar, mas o primeiro passo foi dado com a contratação de Ezra Miller como o novo Flash. Agora é aguardar, observar e exigir qual será o próximo passo.

Novamente, estou animadíssima com os novos filmes e a diversidade que vai aos poucos conseguindo se jogar no meio, e acho animal que as editoras e os estúdios finalmente tenham tido coragem de jogar esses filmes na roda – mas é importante também lembrar que ainda não é o suficiente, e que a gente quer e precisa de mais diversidade. Agora é sentar e esperar 2017 com o balde de pipoca e o laço da verdade na mão – talvez pra esse filme eu abra uma exceção e vá de cosplay para o pré-lançamento. 😉

Acho que a DC devia esquecer a Liga da Justiça e apostar num filme dos Superamigos.
Acho que a DC devia esquecer a Liga da Justiça e apostar num filme dos Superamigos.

 

Warner Bros./DC procuram diretorA para Mulher-Maravilha – e porque isso é animal.

Dia feliz, sexta-feira de alegria para o mundo dos quadrinhos. A DC está, aparentemente, procurando uma diretora mulher para o filme da Mulher-Maravilha.

No The Mary Sue. Melhor Gif para essa notícia.

Em tão pouco tempo, quão longe nós já viemos, heim? Se um filme solo da Mulher-Maravilha era coisa de realidade alternativa há alguns meses atrás, afinal, é necessário muito cuidado já que a personagem é complicada (¬¬), hoje nós temos data marcada e, quem sabe, uma mulher dirigindo essa maravilha. <3

O The Mary Sue fez uma listinha linda de possíveis diretoras para o filme. Eu devo dizer que dos nomes na lista, Lana Wachowsky foi o que mais me chamou atenção, mas também é o menos possível de acontecer. Jennifer Yuh, diretora de Kung Fu Panda, também pode ser uma possibilidade muito bem vinda. Vou ficar aqui matutando quais outras diretoras eu ia amar segurando o laço da verdade dentro do set. 😉

Mas porque uma mulher dirigir o filme da Mulher Maravilha é algo assim tão incrível?

Bom, não são só as personagens femininas que sofrem com a falta de papéis no mundo do cinema/televisão/quadrinhos/games. As profissionais dessas áreas ainda estão em número muito reduzido, e se você comparar o número de diretoras/roteiristas de hollywood que possuem filmes lançado no mercado mainstream com os números masculinos. Fiu! Nós ainda somos uma parcela muito pequena. Num estudo recente, descobriu-se que nós somos, no mercado americano, apenas 27% da equipe criativa, distribuídas entre produtoras, diretoras, criadoras, editoras, diretoras de fotografia, etc. Esse é um número muito baixo, e quando se espalha ele por cada categoria a tendência é diminuir ainda mais.

via Indie Wire.
via Indie Wire.

Claro, sempre escutamos que se a parcela é pequena é porque as pessoas competentes já estão tomando a dianteira do trabalho – mas a gente sabe que isso não é verdade. Não são criadas oportunidades para que mulheres entrem nesse mercado, e oportunidades são sempre fechadas dentro do clube do bolinha pré-existente. Quebrar paradigmas é muito importante para alcançarmos um ideal igualitário em qualquer aspecto da nossa vida em sociedade.

Seja lá quem for a escolhida para a direção, ela não será a expoente, Lexi Alexander dirigiu o reboot de baixo orçamento Justiceiro: Zona de Guerra. Apesar do filme não ter alcançado grandes vôos, o trabalho dela é importante principalmente pelo tipo de personagem que assumiu. Justiceiro é um dos mais sangrentos e controversos da Marvel. Além dela, Petty Jenkins, diretora de Monster, esteve envolvida com Thor: O Mundo Sombrio, mas acabou saindo por “diferenças criativas”.

A DC já está fazendo lindeza com Ezra Miller, o primeiro ator abertamente gay a assumir o manto de super-herói – ele vai ser o Flash nos cinemas e vai ser lindo. Se esse rumor sobre a contratação de uma diretora para o filme da Mulher-Maravilha se confirmar, então a DC está dando mais um passo importante para alcançar mais público – e os nosso corações.

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Este uniforme ainda não me convenceu.

Kill it With Fire! – As camisetas misóginas da DC!

Ah! Os quadrinhos! Esse mundo legal cheio de coisas fantásticas e editoras sem noção! 🙂

Honestamente, a essa altura do campeonato eu não consigo achar que não é burrice. Juro. DC, como é que você me libera esse tipo de camiseta depois de assistir a Marvel se queimar com a falta de Gamora nos brinquedos e nas linhas de roupa, levar chumbo grosso por ter escolhido o Manara para desenhar aquela merda de capa e, principalmente,  assitir a PELA MESMA COISA no ano passado?

Via Comic Book Resources e The Mary Sue

Mas porque isso é um problema?

Score, para quem não sabe, quer dizer que o Supermam marcou mais um ponto ao pegar a Mulher-Maravilha. Eu nem sei por onde começar direito. Será o fato de que, mais uma vez, vemos uma personagem de alto calibre ser diminuída ao nível de objeto sexual de um personagem masculino? Será porque esse primeiro ponto só torna mais incrivelmente claro que as nossas personagens só existem, aos olhos das editoras, como caça-níqueis de leitores punheteiros?

Ah! Achou esquisito o braço da Mulher-Maravilha? É porque a imagem foi tirada da capa de uma revista com uma história romântica, focada no público feminino, já que a gente não quer ler histórias que não tenham amor. O laço, eles devem ter tirado porque se pá não ia pegar bem o Superman amarrado pela Mulher-Maravilha.

A segunda camiseta, é um outro tipo de problema. Existem namoradas de caras que gostam de quadrinhos que usariam essa camiseta? Sim, e elas tem todo direito de querer usar. Mas essas camisetas fazem parte de uma coleção junior, ou seja, estamos vendendo roupas que vão ensinar às nossas meninas que elas podem almejar ser a esposa do protagonista. Nada mais. Estamos colocando na cabeça dessas crianças um senso de inferioridade desde pequenas. E DC, caso você não saiba, O BATMAN NÃO É CASADO!

Porra. Acorda pra vida.

Editoras, se vocês querem mesmo que o público feminino continue apoiando, lendo e comprando os seus produtos, tá na hora de revisar a política de licenciamento da casa. Fica a dica.

(Caso você queira saber há quantos dias a DC não faz alguma merda, esse contador é incrível: Has DC done something stupid today?)

Super-Heróis que mudam: porque Thor mulher e Capitão América negro são importantes e necessários.

Polêmica tem sido um ponto muito forte nos últimos tempos para a indústria da cultura Pop, e o feminismo parece estar sempre envolvido. Seja por gritarmos por um filme solo da Mulher-Maravilha (e fomos escutadas), seja por reclamarmos de uma capa sexista ou por sermos atacadas por criticarmos uma cultura misógina num meio que amamos. Mais espaço e melhor representatividade para as personagens femininas é uma luta que vem muito antes de mim e talvez de você, e é muito bom ver nossas vozes sendo escutadas.

a thor

O mesmo acontece com o aumento da diversidade racial nos quadrinhos. Capitão América agora é negro e Miss Marvel é uma adolescente americana de origem afegã, como não amar essa onda recente de empoderamento de minorias? E o primeiro ator abertamente gay a assumir um papel de super-herói? Está longe de ser o ideal, mas o começo de uma mudança pode ser vista e isso é algo muito positivo.

Alguns dizem que é uma fase e que vai passar, em pouco tempo tudo vai voltar à mesma normalidade padrão de sempre, que a indústria está fazendo isso tudo por dinheiro, pra satisfazer uma parte do público. Para essas pessoas eu digo: e você acha que Psylock usava uma maiô cavado daquele jeito porque? Praticidade não era. Não, era pra seduzir o então público, garotos/homens heterossexuais, a comprar as revistas. E nós, mulheres e minorias, somos mercado, e queremos sim ser vistos como mercado e queremos nos ver representados nos quadrinhos, filmes e séries de televisão.

Particularmente, acho que essa onda de empoderamento que anda rondando a cultura pop de maneria geral é algo que veio para ficar e que representa uma mudança positiva do cenário social de maneira geral. Não dá mais para negar a diversidade da sociedade em que nós vivemos, não dá mais para achar que tudo é branco, cis, hetero e masculino. Tudo é misturado e tudo é lindo. É quase o começo de uma filme de ficção científica em que a sociedade é uma grande loucura de diversidade de sexualidade, gênero, cor e tudo mais.

Mas o quê da questão aqui é: Porque é importante mudar a etnia e o gênero de personagens famosos? Por que não criar novos personagens?

Sam Wilson

Vamos pensar em todos os super-heróis mais famosos, aqueles que tiveram filmes, séries de televisão, quadrinhos e merchandisings de sucesso, e há quantos anos eles foram criados. Superman, Batman, Mulher-Maravilha, X-men, Homem-Aranha, Capitão América, Hulk e Thor. Todos criados em uma época de segregação racial muito forte, em que o papel da mulher era o de dona de casa ou parte da decoração, em que minorias não era um assunto tão abertamento discutido como hoje em dia.

X-men possui uma diversidade bem interessante que foi incorporada através dos anos, mas dos seus principais personagens, aqueles que são mais presentes nos filmes, merchandisings, desenhos e etc, só Tempestade é realmente parte de uma minoria – e o número de mulheres é sempre inferior a de homens, assim como na Liga da Justiça. Nota-se também que, com exceção de liberdade, todos são brancos. Todos são, serão ou foram protagonistas de pelo menos um filme solo – se não ganharam três franquias nos últimos vinte e cinco anos! Batman, eu estou olhando pra você.

São esses personagens icônicos que vão morrer, voltar a vida, morrer de novo e mais uma vez serão ressuscitados para mais uma vez morrerem. E em todas essas vezes eles serão lembrados mesmo quando estiverem “mortos de verdade” (vide, Jean Grey). Eles são os personagens que antes mesmo de sabermos falar sabemos que existem, eles nos acompanharam desde a infância, e continuam fazendo isso com as crianças de hoje.

Esses ícones do mundo pop precisam ser o parâmetro para uma mudança.

Eu não estou dizendo que um dia você vai acordar e descobrir que o Homem-Aranha é um moleque latino, e que a série dele tá fazendo o maior suces- oh! Pois é. E ela faz tanto sucesso não só porque as histórias são divertidas e atraentes, mas também porque ao ir na banca e ver que o super-herói que ele tanto ama é latino como ele, o menino vai se sentir mais próximo e mais inclinado a comprar. As experiências dele vão ser mais próximas da dele, a visão do personagem vai ser mais próxima das nossas.

morales

A internet foi a loucura quando quando Michal B. Jordan foi anunciado como o novo Tocha Humana no reboot de Quarteto Fantástico. Eu achei incrível, especialmente porque os escritores parecem não ter sentido a necessidade de explicar como pode Johnny ser negro e Susan branca. Essa é a realidade da nossa sociedade, galerinha. Ela é plural. E qual o real problema de um personagem branco no quadrinho ser negro no cinema? E se o personagem branco, depois de mais uma nova reestruturação da linha temporal da DC ou da Marvel, passasse a ser negro/latino/asiático ou de qualquer outra etnia? O personagem continua o mesmo. A verdade é que esse foi um passo bastante ousado, mais do que passar o manto, os envolvidos em Quarteto Fantástico decidiram tomar uma atitude em favor da diversidade.

Personagens como Superman nunca vão deixar de ser o cara branco de cabelos castanhos e olhos azuis – eu pelo menos acho que não. Passar esse manto a diante não é simples e ele não possui uma história que pode ser trabalhada ao redor como a do Capitão América ou do Thor. Mas Bruce Wayne já passou as orelhas pontiagudas pelo menos sete vezes – todas para personagens masculinos. Claro, nós temos a Batwoman com uma série própria que rendeu vários elogios, mas ela não é o Batman, e muita gente nem sabe que a Batwoman existe. Mas John é um dos Lanternas Verdes mais queridos, e fez um sucesso estrondoso nas séries de animação para a televisão da Liga da Justiça!

Passei alguns bons anos afastada dos quadrinhos por cansar da misoginia, da falta de representação e da redundância das histórias. Foi gradual, mas eu acabei perdendo o interesse aos poucos. Me chamem de fraca, mas é a real. Acompanhava de longe, pela internet, mas sem nunca realmente adentrar, já que era algo que me incomodava. Até recentemente, quando essa nova onda de quadrinhos me fez voltar – hoje corro atrás do prejuízo, mas não me arrependo de ter me afastado de algo que me fazia mal.

Quando discuto essas mudanças nos personagens de super-heróis dois argumentos sempre aparecem: “as histórias são universais, todo mundo pode se identificar com elas” e “não faz sentido mudar o gênero/etnia/sexo de personagens clássicos já estabelecidos, criem outros personagens”.

Histórias são universais até um certo limite. Sim, todos nós dividimos a dúvida do que acontece após a morte, temos inseguranças inúmeras, sofremos agressões, nos apaixonamos, levamos e damos pés na bunda, sofremos com a nossa condição humana. Mas nós não somos iguais, não temos o mesmo background, não temos a mesma cor, não dividimos o mesmo gênero, não sabemos o que se passa por baixo da pele da outra pessoa.

miss marvel

Eu sou branca, classe média, hetero e cis, eu sei que quem não se encaixa nesses padrões passa por opressões que vão além do machismo de todo o dia, eu sei que uma mulher negra, classe média, hetero e cis cresceu com experiências diferentes que a minha, mesmo muitas vezes dividindo os mesmos espaços. Assim como eu me canso de ver sempre as mesmas histórias sobre homens, ela deve se cansar de ver sempre as mesmas histórias sobre homens e mulheres brancas. Entende? A universalidade das histórias possui um limite, ela pode falar com todos num nível “espiritual”, mas quando todas as histórias são sobre pessoas diferentes de você, meio que fode o rolê.

Criar outros personagens não supre as vantagens que os personagens como Thor e Capitão América, assim como os outros já citados antes, dão para a representação do padrão cis, hetero e branco. São personagens que estão inseridos na nossa cultura tão a fundo que mesmo se você não lê quadrinhos você sabe que eles existem. São ícones dos quadrinhos de super-heróis e por mais que um outro personagem seja criado, por mais que um novo super-herói que não se enquadre neste padrão inventado há tantos anos, faça um sucesso estrondoso, eles nunca serão substituídos. Eles possuem um lugar cativo no imaginário cultural e, apesar disso, representam uma parcela muito pequena de uma sociedade incrivelmente plural. Por isso, quando um deles muda de gênero, orientação sexual ou etnia é tão importante e tão forte.

Cada vez mais me fica claro que a grande dificuldade do mundo é o branco perder o privilégio. Na verdade, não é perder, é dividir. É aceitar que se você pode esperar que o seu amigo de etnia/sexo/gênero/orientação sexual diferente se identifique com um personagem que é diferente dele, você também deveria ser capaz de se conectar com o mesmo personagem, apesar dele não ser mais uma cópia melhorada sua.

Particularmente eu tenho uma queda por mulheres chutando bundas, independente da etnia, se é hetero ou homo, se é cis ou trans. Eu ainda adoro o Super-Homem e suspiro pelo Gambit, mas quanto mais personagens femininas ganham espaço, mais eu me sinto novamente atraída aos quadrinhos de super-heróis. Thor agora ser mulher me fez pegar uma revista pela qual eu nunca tive interesse, apesar de ter assistido aos dois filmes e – não me julguem por isso – ter adorado os dois.

Fofura extrema via The Roarbots

Então, sei lá. Se pá é legal a gente olhar ao redor, notar quais são os nosso privilégios e ao invés de tentar achar desculpas para se prender a eles, abraçar os outros fanboys e fangirls que estão a nossa volta e curtir a vibe nerd da diversidade juntos. <3

Nova Batgirl: Preview (errado) das dez primeiras páginas!

O que você fez essa madrugada? Eu li as dez primeiras páginas da nova revista da Batgirl! Dormir é para os fracos. (Minhas olheiras não vão concordar com isso amanhã…)

Essa reedição de uma heroína clássica causou um certo alvoroço no mundo dos quadrinhos alguns meses atrás quando saíram as primeiras imagens do novo uniforme. Enquanto alguns gritaram de ódio porque a capa da revista via uma das personagens mais inteligentes da DC tirando uma selfie no banheiro e outros só conseguiram notar o quão incrível é o uniforme novo.

Eu fiz parte dessa última leva.

Pra encurtar a história: O uniforme é prático, possui bolsos de apoio, uma aparente mobilidade que também leva em consideração a necessidade de proteção, é fofo :3, botinas amarelas, remete às cores clássicas do universo Batman e… Não é sexualizado! Viu, Manara/Marvel? Tem como não amar? <3 O próprio desenho lançado pela desenhista Babs Tars já deixa bem claro o que ela queria dizer com o re-design. Ele fez tanto sucesso que assim que foi lançado a internet se encheu de fanarts!

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Ontem foi o último dia para as lojas especializadas fazerem o pedido da revista, e por isso eles mesmo liberaram um preview de dez páginas da revista! No entanto, o Cameron Stewart (escritor da revista) já avisou que esse preview é bem diferente do que vai ser lançado no mês que vem.

Caso você, como eu, ainda queira matar a curiosidade, corre matéria do Bleeding Cool sobre o preview dá uma lida. Mas depois volta!

Voltou?

Eu não sei o que eles acham que há de tão errado nesses quadrinhos que eles sintam que não está correto. Logo nas dez primeiras páginas já é possível ver temas que são muito importantes e atuais no que diz respeito a ser mulher. Olhem essa primeira página:

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Wow. Oito quadrinhos e nós já temos pelo menos três temas animais:

  1. Alysia, ex-roomate de Bárbara, que além de ser uma mulher trans, é ativista e não pode comparecer a festa naquela noite porque vai protestar contra um cara babaca que—
  2. Descobriu o telefone celular dela após um outro protesto apenas para mandar uma mensagem que muito provavelmente é um dick photo.
  3. Esse mesmo cara possui um site chamado Black Book, que já soa como um antro de machismo (e slut-shaming) e, pelas pistas que a gente vê na capa, vai fazer parte de pelo menos o primeiro arco de histórias.

Depois, nós vemos Bárbara aparentemente muito confortável com a sua sexualidade. Ela conhece o cara com quem estava se amassando na noite passada e por mais que fique sem graça por não lembrar o nome dele (Troy), não aparenta se arrepender ou se culpar. O fato dela não se lembrar – e o vômito já ná página 8 – nos leva a crer que Barbara sabe festejar e ela não quer saber a sua opinião sobre isso. <3 Quem nunca acordou de ressaca e depois teve que lutar contra o crime, minha gente?

Além disso temos uma breve apresentação da atual situação acadêmica/financeira de Bárbara através da leitura de e-mails, o que ajuda a dar um pouco mais de profundidade a história da personagem nas páginas iniciais. Prepara para o que vão ser os problemas pessoais dela, enquanto o encontro com a Canário Negro não só retoma assuntos mal-resolvidos, como também inicia o primeiro conflito da Batgirl na revista.

Aqui tem uma entrevista bem legal com a desenhista.

E o Tumblr dela  e do roteirista!

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Por mais que sejam dez páginas cheias de vitória, ainda é cedo para saber se esse tom vai realmente se manter ao longo das deus-sabe-quantas edições a equipe criativa vai durar. E vale ressaltar que alguns dos questionamentos inciais são muito válidos: Alycia é uma personagem muito querida pelos fãs, e o afastamento dela tem causado desconforto, já que ela foi a primeira personagem trans de destaque criada de maneira proposital nos quadrinhos contemporâneos. A equipe por trás da revista reiterou algumas vezes que manter a diversidade é uma das principais preocupações deles. Agora é esperar e ver como Barbara Gordon vai se sair!

Particularmente,eu não sei o que pode estar errada nessas dez primeiras páginas, mas essa revista me deixou com vontade de voltar a passar na banca toda semana. 😉

Superman e Eu.

Acho que o meu primeiro contato com os super-heróis foi com Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman, Batman: A série animada e The Flash. Eu adorava as duas séries, mas tinha uma preferência pelo Homem de Aço e pela Lois. A série era tosca, eu sei, mas era inocente e como criança eu aprendi muitos valores importantes admirando o casal. E o filme da década de 80 só ajudou a sacramentar esse meu apreço.

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Muitas pessoas julgam o Superman bobo, inocente, chato, indestrutível demais, corretinho de mais, bom moço demais, um tédio. Eu acho que o Superman é o ícone de super-heróis que ele é por uma simples razão: Ele é tudo que a humanidade precisa.

Você pode vir com o papo de “he’s the hero Gotham diserve, but not the one it needs” pra cima de mim. Eu gosto do Batman também, a série animada também foi definitivamente muito importante na formação da pessoa e da autora que eu sou hoje. E o Batman também é um personagem muito interessante, e com muitas camadas e muito aprofundamento e, minha nossa, muita, muita dor.

Mas o Superman perdeu os pais, perdeu o planeta, perdeu tudo aquilo que hoje nos torna humanos, ele perdeu toda a sua civilização. Ele é sim uma parea, talvez não pelos humanos que ele salva, mas por si mesmo. Quem nunca se sentiu desconfortável mesmo quando todos a sua volta estavam te recebendo bem? E mesmo conhecendo tudo que há de ruim no mundo, no homem, em Zod, no fucking espaço, ainda sim ele acha bondade. Ainda sim ele transforma dor e destruição em esperança e reconstrução.

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Eu não sou uma leitora assídua de Superman (DC, nos quadrinhos, nunca foi meu forte), e talvez não saiba de tudo pelo qual ele passou, mas acho que o Superman é sim o herói que o planeta inteiro precisa. Por que mesmo depois de tanta merda, mesmo depois de tanta destruição e perda, ele aceita a humanidade pelo que ela é. Ele é sempre um ícone de esperança. E em tempos de guerra constante, de ataques pessoais pela internet, de estrupos coletivos e dessa merda toda que envolve o mundo a tantos séculos o Superman é sim o herói que a gente precisa.

Pra lembrar que mesmo sem ser humano ele é o melhor de nós. Mesmo nem sendo real.

Pra lembrar que mesmo quando o mundo te joga contra a parede e faz questão de pegar o pedaço de tijolo que caiu e te acertar mais um pouco, sempre tem alguma coisa que vai fazer valer a pena a luta e cada passo.

Então vai a merda, Zack Snyder, por fazer o Superman matar o Zod e depois ganhar abraço.

Te vejo na zona fantasma, seu filho da puta.

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 Por que isso agora? Por que eu assisti ao filme de novo, e apesar de gostar da primeira hora, não gosto do final. E porque o Snyder não é o “Visionário Diretor de 300”. 300 nem é visionário. Fuck this shit.

🙂