Como as fanfics me ajudaram a escrever melhor

Eu sei o que você pode estar pensando. Quando pensamos nesse assunto, o automático é que nossa mente vá para Cinquenta Tons de Cinza, um livro que acho que todos nós podemos concordar que é bem ruim. Para quem não sabe, a história veio de uma fanfic de Crepúsculo.

Por esse e outros motivos, criou-se essa imagem de que fanfics são sempre ruins, mal escritas e de pouca qualidade. Não que não existam fanfics ruins, todo mundo aí que já gastou madrugadas no AO3, procurando histórias do seu ship preferido, já encontrou histórias que dá vontade de desver. Mas a coisa legal do mundo das fanfics é que é todo um espaço mágico, com espaço para histórias ruins e, veja só, outras que de fato são boas.

Se você é, assim como eu, uma pessoa que de vez em quando passa um tempo caçando fanfic, você provavelmente já se deparou com uma história boa de verdade. Não só os fatos são bem colocados, mas a própria escrita em si era bem feita. Sim, elas existem, dá uma chance para o seu fandom e eu garanto que você vai achar alguma que vale a pena.

Piadas na internet a parte, e eu gosto sim de brincadeiras com fanfics, essa parte do fandom e a prática de escrever essas histórias podem ajudar futuros escritores mais do que você pensa. Pelo menos para mim eu sei que ajudou. Hoje eu estou trabalhando em um projeto original meu e, quando tudo der certo, eu vou saber que parte disso é porque eu pratiquei por algum tempo com as tais das fanfics.

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Review: Guardiões da Galáxia (Nicole Pearlman)

Muitas vezes a equipe responsável pela publicidade de um filme faz um trabalho tão bem feito que a gente entra no cinema com a expectativa lá em Marte, mas acaba voltando para Terra longo nos primeiros minutos do filme. Guardiões da Galáxia nos prometeu o universo, e colega, ele cumpriu!

(Pra escutar enquanto lê: https://www.youtube.com/watch?v=Iux7hP8RBRs)

poster

Nicole Perlman.

O que é aquela “história de Origem”? Em questão de cinco minutos somos apresentados ao personagem principal, simpatizamos, choramos (se você é manteiga derretida como eu), estranhamos o dente CGI da mãe moribunda dele (sério. A única coisa de CGI que ficou estranho foi aquele dente), descobrimos que a mãe dele acha que o pai do menino é um “ser de luz”, a mãe morre e PA PUM. Peter Quill é abduzido por uma espaço-nave mucho loca. Em cinco minutos Guardiões da Galáxia faz o que os Espetaculares Homem-Aranha não conseguiram fazer em dois filmes – estabelecer uma história de origem de maneira coerente e interessante.

jutnos

Os Guardiões da Galáxia são cinco: Peter Quill (Chris “Andy Dwight” Pratt), Gamora (Zoey Saldana), Rocket (Bradley Cooper), Drax (Dave Bautista) e Groot (Vin Diesel). De todos os nomes, Bautista é o ator mais limitado, mas ainda sim consegue sustentar bem o fortão emotivo Drax – sua melhor cena é quando luta contra Roran para vingar sua família e perde. Eu realmente senti ao lado dele a sensação de derrota (leia-se emoção em forma de lágrimas). Fora das telas Dave declarou que adorou ver personagens femininas bem desenvolvidas. Tendo sido criado apenas pela mãe, ele consegue enxergar o quão fortes e determinadas as mulheres são. Vindo de um lutador de WWE, símbolo do que o “macho” deveria ser, escutar essa declaração talvez ajude os caras – e os executivos de Hollywood – a aceitarem de vez que nós não vamos desistir de sermos retratadas como humanas – ou alienígenas – complexas.  E Bautista, te amo. <3

Rocket, eu não sei quem te dublou, mas Bradley Cooper ou esqueceu de aparecer para o dia de gravação de voz, ou fez um trabalho fenomenal. Em momento algum eu escutei Rocket falar e fui puxada para fora por que aquela é claramente a voz de Cooper. Ele consegue dar flexibilidade, graça e emoção ao Racoon. É impossível não gostar de Rocket e de Groot. Eles são um par perfeito, e por mais que Rocket seja um cretino, Groot é muitas vezes seu coração e isso funciona de maneira incrível. Particularmente, tenho um soft spot pelo Vin Diesel (e pelo The Rock também). Achei fofíssimo ele como Groot, e a sua capacidade de expressar bastante pela sua única frase “I am Groot” recebe ajuda pelos olhos brilhantes da criatura-árvore. Ele dublou o “I am Groot” em diversas linguas, inclusive português!

 groot e racoon

Rocket, Groot e Drax compartilham de um dos momentos mais tocantes do filme, o sacrifício de Groot. O humanoide árvore é apresentado como algo muito maior do que ser humano, alienígena ou estar vivo – ele é a redenção e o amor e no fim, significa a amizade entre todos os cinco. Rocket chora compulsivamente o sacrifício do amigo e Drax o conforta, da mesma maneira com que Groot o confortou após ter perdido a luta para Ronan. Essas cenas, junto com os momentos particularmente dramáticos de Peter Quill mostram homens (ou guaxinins) adultos se permitindo realmente sentir a dor e a emoção que estão sentido. Não me lembro de uma só vez em que um deles foi repreendido ou não se deixou sentir. E quando Rocket explode, bêbado, sobre o seu drama pessoal, Quill está lá para aceitá-lo. É sutil? Sim. Mas é a mensagem que devemos passar aos nossos meninos: sentir é ser humano. E não há nada de errado com isso.

 quill

Peter Quill é uma mistura divertida de comédia, ação e um toque de drama pessoal. Eu acompanho a carreira de Chris Pratt desde a findada “Everwood”, e vê-lo chegar ao nível de herói de ação da Marvel é estranhamente reconfortante. Em Parks and Recreations eleconquistou o público com o burrinho de bom coração Andy, mas Guardians of the Galaxy leva Pratt além. A cena em que ele briga com o guarda por causa de seu walkman é, além de divertida, incrivelmente tocante. Ele sabe que vai se ferrar, mas o walkman é seu principal contato com a Terra e com a mãe. Pratt brilha incrivelmente nas cenas de ação e de comédia, mas nesses momentos que misturam humor e drama a atuação de Pratt é realmente impressionante. Peter Quill é o Han Solo da nova geração.

gamora

Do cast principal Zoe Saldana é, de longe, a atriz com mais estrada, uma carreira já bem sólida e diversificada. O que eu gosto bastante nela é que Zoe não parece presa a nenhum tipo de gênero, fazendo de TV à Cinema, sempre procurando por papéis que sejam interessantes para ela como atriz e como mulher. Em uma entrevista recente ela disse que a medida que foi amadurecendo foi sentindo a necessidade e a responsabilidade de exigir dos papeis que lhe são oferecidos personagens bem desenvolvidos e que passem a mensagem certa para o seu público. Tem como não amar?

Nicole Perlman.

Gamora, uma das filhas adotivas de Thanos, é a personagem com mais desenvolvimento depois de Peter Quill. O roteiro de Guardiões acerta muito em dar a todos os personagens o seus bits de desenvolvimento (me arrepiei com os pedaços de metal nas costas de Rocket, e como a gente conseguiu sentir essa dor pelos olhos de Quill é writing masterpiece), mas Gamora tem mais tempo e mais camadas do que os demais. Ela se abre numa cena um tanto explicativa junto à Quill, mas na mesma cena em que descobrimos mais sobre a sua origem e sua motivação, ela também deixa claro que não é a protagonista feminina que vai se deixar levar pelo chame cafajeste do companheiro. De todos alí Gamora é a que mais fácil procura e aceita o manto de herói. Ela é uma destruidora de mundos em busca de redenção.

sister love

A relação dela com a irmã, Nebula, também e tocada de leve. Todo mundo já quis chutar a bunda do irmão/irmã (ou já o fez XD), mas as duas levam esse embate familiar a outro nível, não só por que são guerreiras, mas por que o que as une não é o sangue, mas o medo de Thanos e a raiva e rancor que sentem por ele. Gamora vê em Nebula a mesma raiva e determinação que vê em si mesma, mas concentrada para fins menos nobres. Nebula, por mais que seja só a sidequick do vilão, possui um desenvolvimento muito interessante para uma personagem tão pequena. E é sempre legal ver os atores de Doctor Who alcançarem outros vôos.

Nicole Perlman.

Mesmo amando o filme, e o considerando o melhor da Marvel até agora, Guardiões da Galáxia ainda sofre com o toque do “machismo nosso de todo filme”. Gamora têm butt scenes que são absolutamente desnecessárias (mas qual não é? Até George Clooney já sofreu com elas). E a mulher que Peter Quill esqueceu que estava na nave é um tanto revoltante. Ser garanhão pode ser um traço do seu personagem, mas ele precisava ter esquecido que ela estava lá? Mulheres descartáveis não são legais não interessa o quão fantástico o seu personagem ou filme sejam. Me falaram sobre a Gamora está de saia na cena final. Eu realmente não notei, talvez por que eu estivesse tão ligada em como o filme é legal e em como a personagem é construída que não me saltou aos olhos. Mas por que a Gamora, chutadora de bundas defensora da galáxia, estaria de saia logo quando eles estão saindo para uma próxima aventura? Não faz sentido mesmo.

Vi algumas críticas que definiam Gamora apenas como “that sexy green lady” o que, ao meu ver, resume bastante o modo como as personagens femininas são vistas pelo público homem especializado. Rocket e Groot não são humanos, mas por serem divertidos, são vistos como personagens com mais personalidade do que a filha de Thanos, ex-assassina, orfã de um mundo inteiro, geneticamente modificada e com muitos sister-issues. Para essas pessoas eu apresento Nicole Pearlman.

Nicole

Nicole Perlman é a primeira mulher a escrever um filme de super-heróis da Marvel – e provavelmente da história recente dos filmes do gênero. E é tão claro o seu toque pelo filme que fico me perguntando por que diabos ninguém fez isso antes. Mesmo com os problemas que pontuei no parágrafo anterior, as personagens femininas são muito consistentes, e a grande maioria delas não é mal utilizada. Em todo o filme há uma, UMA, mulher utilizada como objeto. Você consegue imaginar isso? É lindo. E mesmo que James Gunn, que co-roteirisou, seja um cara muito legal e tudo mais, com certeza foi o trabalho de Pearlman que fez essa diferença. Ao que tudo indica, antes mesmo de Gunn e Pratt terem assinado os seus contratos, era Pearlman quem lutava para encaixar a equipe no cânone cinematográfico da Marvel.

Ser mulher e escrever ficção-científica é uma combinação um tanto problemática. Ao longo da história da literatura e da tele-dramaturgia podemos contar nos dedos os nomes das autoras das quais nos lembramos de cabeça, ou das obras escritas por mulheres. Este cenário vêm mudando com a maior apreciação da literatura para jovens adultos, mas mesmo assim ainda há muito preconceito tanto em relação ao gênero quanto ao fato dele ser dominado pelas mulheres. Quando digo que não nos lembramos de cabeça quero dizer que a maioria das escritoras do gênero não recebem o mesmo tipo de atenção que os escritores homens. Por que elas estão lá, e são muitas e incríveis.

No caso de Perlman ela ainda transita por um lugar especialmente machista: Hollywood. Já senti na pele alguns dos problemas de ser mulher e roteirista (além de brasileira) e tentar conseguir um pequeno espaço no mundo do cinema lá de fora. Pearlman é, para mim, um ícone de mudança. Talvez seja realmente este momento em que estamos, o momento em que as coisas vão começar a mudar, em que a grande mídia vai passar a nos reconhecer não só como namoradas, objetos e o público colateral, mas como consumidoras, criadoras e personagens. Pearlman está linkada a um possível filme solo da Viúva Negra. Katee Sackhoff (Starbuck – Battlestar Gallactica) postou tweets que levam a crer que ela pode viver a Capitã Marvel nos cinemas. Lucy bateu Hercules no outro final de semana. E Katniss está voltando para chutar mais bundas e atirar mais flechas nos machistas.

poster retro

Dizer que eu adorei Guardiões da Galáxia é eufemismo. Gostei tanto que estou indo ao cinema novamente daqui há duas horas. Este foi o review mais demorado que escrevi pro Colant, uma tentativa de me afastar e ver mais de perto os problemas que o filme tem. Eles estão lá? Sim. Mas há tanta coisa positiva que envolve o lançamento, a produção e as personagens que como um todo o filme me parece um avanço em relação a todos os outros do gênero.

Pra terminar, fiquem com o Groot dançante. Eu realmente espero que ele vire um toy art e que eu possa utilizá-lo como centro de mesa.

dancing-groot

PS: Nunca acaba, eu sei. Mas precisava dizer que Guardiões faz com o dano colateral algo que muito poucos filmes como ele conseguem fazer – nós e os personagens o sentimos. Quando o piloto de uma das naves de Nova Prime, Saal (Peter Serafinowics – Shawn of The Dead) morre prensado ao lado de todos os seus companheiros, sentimos a perda de um personagem de terceiro escalão pelos olhos de Rocket. É triste, bonito e incrivelmente eficaz. Além disso é deixado bem claro que a cidade foi evacuada, numa tentativa de minimizar as perdas. Espero que mais filmes aprendam com Guardiões que toda destruição tem seu dano colateral.