Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Death Note | Crítica

Quem acompanha o Guardiãs da Pipoca provavelmente já sabia que eu achava essa adaptação uma ideia péssima. Eu não sou contra adaptações em geral, eu acho que elas podem ser ideias legais, expandindo a história da mídia original para outras pessoas conhecerem também, isso sempre tem potencial de ser bom. Mas desde o primeiro momento, quando apareceu o whitewashing, minha boa vontade com o filme já não existia.

O Yo Ban Boo tem um vídeo ótimo sobre o whitewashing em Death Note, eu recomendo que vocês assistam. Basicamente, não há nenhuma justificativa boa para o ator ser branco e, como eu falei em um programa da rádio, Death Note é uma história com traços orientais bem marcantes, a começar pelo Ryuk ser um shinigami, então o mínimo era que Light fosse interpretado por um ator descendente de orientais. “Ah, mas se passa nos EUA” e desde quando não tem descendente de oriental nos Estados Unidos? E não me venha com “Ah, vai ver esse Light fez o melhor teste no casting” porque cara, se esse era o melhor que eles tinham, a coisa estava bem difícil.

Death Note é um manga de 2003, a adaptação para anime chegou em 2006. Nele, o estudante Light Yagami, um dos mais inteligentes do Japão, encontra um Death Note (Caderno da Morte). Esse caderno pertence a Ryuk, um shinigami entediado que resolve largar seu caderno no mundo dos humanos. Quando Light se dá conta de que ele de fato pode matar pessoas, ele decide aceitar aquilo como uma missão para eliminar do mundo todas as “pessoas ruins”. No começo são criminosos, mas depois elas viram qualquer um que entre em seu caminho.

Esse começo da crítica do filme será sem spoilers e depois eu entro em detalhes.

A minha vontade era de fazer o título da crítica, colocar “é ruim” e terminar o texto. “Ah, mas você acha isso porque não é fiel, adaptação não precisa ser fiel” sim, eu sei, eu tenho um texto falando exatamente sobre isso. O erro das pessoas é acharem que as adaptações precisam ser iguais ao original. Elas não precisam, cada mídia tem sua particularidade e, se é pra ver a mesma história, não tem porque fazer um produto novo.

E quer saber? Death Note da Netflix acerta em algumas mudanças. Eliminar a segunda metade do arco original, por exemplo, é a melhor coisa que eles poderiam ter feito. Os fatos principais do manga/anime que eles escolheram manter foram também boas escolhas, considerando que eles iam resumir toda a história da primeira metade do original para uma hora e meia. O problema é: Há um ponto extremamente básico para uma adaptação que eu falo no meu outro texto sobre o assunto: O filme precisa ser bom e Death Note da Netflix não é.

Ele tem momentos divertidos. Imagino que, para quem não conhece, certas demonstrações do poder de Kira são impressionantes. Mas não importa quantas cenas de tensão eles coloquem, não é tão simples esconder furos de roteiro, ainda mais quando eles estão em praticamente o filme todo. Os personagens tomam certas decisões apenas pelo fato de que a história precisa disso naquele momento. Coisas que qualquer pessoa com senso comum saberia que é uma má ideia, como por exemplo contar para uma pessoa que você mal conhece que você é um assassino. Há alguns diálogos de exposição bons, outros são bem forçados.

Os personagens me dão uma impressão mista. Eu consigo entender porque Light decide usar o caderno pela primeira vez, mas a construção dele não me convence, além do ator deixar a desejar em vários momentos. A história me diz que ele é um aluno brilhante, mas a única ação que eu vejo disso, tirando uma das viradas do final, é ele fazendo a lição de casa de todos os alunos. A partir disso, Death Note quer muito me convencer de que esse moleque é inteligente, mesmo que dez minutos depois ele conte para alguém que mal conhece que é um assassino (eu não vou superar isso). Ele toma várias atitudes burras, sendo inteligente só quando é conveniente para o roteiro.

Ryuk é divertido em alguns momentos, e até funciona em certas horas, mas o filme nunca se dá ao trabalho de me explicar porque Ryuk largou seu caderno no mundo dos humanos. Aliás, no começo há uma grande pista de que o shinigami bem terrível, uma ponta solta que nunca vai ser tratada de novo no filme. L começa bem, a atuação dele é melhor que a dos outros, o personagem está excêntrico e certas conclusões dele fazem sentido, mas tem outras que não, desculpa, não me interessa o quão inteligente o cara é, simplesmente não dá para assumir certas coisas, e o desenvolvimento dele no longa é bem descuidado.

Mia teve algumas mudanças até que interessantes. Ela não é a garota bobinha do original, completamente manipulada por Light. Eu gostei que Mia é mais inteligente no filme, muitas vezes ela mesma manipulando o Light. Isso é bem longe do original, e eu entendo que muitas pessoas sentiram falta de, nessa relação dos dois, não vermos o quão malvado Light pode ser, mas eu já vi inúmeras vezes a personagem mulher considerada burra sendo manipulada, então isso não foi de todo ruim. O que é má construção de personagem é eu ainda não ter ideia do motivo que fez Mia concordar em trabalhar com um assassino.

Os pontos negativos são maioria, mesmo tendo alguns pontos que poderiam ser promissores, ou até que funcionem em certos momentos. Há boas ideias nessa adaptação, mas Death Note deixa muito a desejar.

Agora eu quero fazer algumas pontuações com spoilers, tanto do filme quanto da obra original, então se você ainda quer fazer esse teste de resistência na Netflix, ou tem interesse em ver/ler o original e não teve a chance ainda (esse sim eu recomendo), então feche o texto agora.

No meu texto sobre adaptações, eu pontuo três coisas que precisamos ter em mente: O filme precisa ser bom, mudanças são necessárias e a essência precisa ser mantida. Há certas mudanças legais, mas Death Note da Netflix, além de falhar em ser um filme bom, também tem sérios problemas em entender a essência da obra original.

Eu não consigo desligar a parte do meu cérebro que conhece o anime/manga, em vários momentos do filme eu me peguei pensando “Mas e os olhos de shinigami?” antes de lembrar que isso nem foi um aspecto apresentado no filme. E quer saber? Ótimo. Considerando o tempo de filme, acrescentar mais essa possibilidade poderia ter deixado as coisas ainda mais complicadas. Mas a “essência” de uma história é algo muito mais simples e que pode ser colocado em uma adaptação de inúmeras formas.

Mudanças em personagens podem acontecer, mas é preciso tomar cuidado. Light é um protagonista tão interessante porque ele parece ser a última pessoa que poderia usar o caderno. O Light do original é inteligente, bonito, um dos melhores alunos do país, tem um futuro promissor, é charmoso quando quer, sabe falar bem… Por que esse cara acabaria entrando nessa espiral de auto destruição? Ninguém que conhece ele acredita quando as pistas passam a apontar Light como culpado. Ele detesta as pessoas “podres” do mundo, mas nessa aventura toda, ele se torna uma delas. Sim, ele mata pessoas terríveis, mas quem Light, ou qualquer pessoa, é para ditar quem vive ou morre? A solução para o mundo é eliminar quem comete crimes, sem segundas chances? Essas são questões importantes do original. Nós vemos parte disso em certas cenas, mas que fica no meio do mar de incoerências.

Um personagem não é o que ele diz, é o que ele faz. Não adianta você me dizer em alguns diálogos que Light é inteligente quando ele toma decisões burras. Ele não conhece Mia, mas confia nela o segredo do Death Note… Por algum motivo? O Light do original só confia em Misa porque ela tem provas da existência do caderno. Apesar de Misa ser muito manipulável, ela consegue armar planos em vários momentos e descobre quem Light é. Novamente, eu sei que a história não é para ser igual, mas é óbvio que você não vai admitir assassinato assim para um desconhecido a menos que essa seja a sua única escolha, ou sei lá, você acha que pode ser bom no futuro, mas o Light do filme não tinha nenhuma dessas motivações. E por que Mia não saiu correndo naquele momento? O filme não me deu nada para acreditar que essa moça tenha achado isso tudo aceitável.

Mais tarde, nós percebemos que Mia está disposta a matar pessoas inocentes. Isso não me incomoda, o que não me desce é, novamente, o que aconteceu na vida dessa moça para achar que matar o pai do namorado é algo aceitável? Isso não é uma decisão fácil de se tomar, ainda mais porque é muito provável que o namorado em questão não vá gostar dessa ideia. É uma boa sim mostrar como eles, que se dizem apaixonados, podem se virar um contra o outro para tentar ter o poder, isso seria um foco legal, mas essa construção não pode ser tão furada como uma peneira.

Uma das viradas do filme é interessante. Quando achamos que Ryuk matou os policiais, mas na verdade foi Mia. Mas a virada da roda gigante é fraca. Vamos lembrar que Light e Mia juraram amor um pelo outro e de repente eles estão colocando o nome um do outro no caderno. Novamente, uma ideia boa, se fizesse algum sentido. Quanto ao jeito que Light sobreviveu, o meu problema com isso nem é a virada toda, de que o Light sabia desde o começo que poderia dar errado, mas eu espero isso do Light original, que de fato é apresentado como alguém inteligente. Esse da Netflix só foi inteligente nesse nível quando o roteiro exigiu que ele fosse, por isso a resolução parece tão inacreditável.

O L, como já falei, começa bem, mas depois desanda bastante. No começo, quando ele confronta Light, na televisão, é uma grande referência ao original, só faltou a mesma inteligência. No manga/anime, L faz um teste com um prisioneiro, para ver com 100% de certeza uma pessoa ser morta por Light. Quando ele percebe que Kira está assistindo ao programa, o L original aparece, sem mostrar rosto ou nome, e desafia Light a matá-lo, mas obviamente nada acontece porque ele precisa de nome e rosto. É assim que L descobre como Kira mata. No filme, essa cena toda não faz sentido. Alguém com uma sniper poderia ter matado L, não precisava nem de caderno nenhum. E até onde L sabia, Kira poderia nem estar assistindo a televisão naquele momento. Até ele conseguir deduzir que Light estava nos Estados Unidos eu achei convincente, mas depois fica difícil. E como que, baseado nessa aparição, que nem mostra nenhuma demonstração de poder, L assume que Kira precisa de nome e rosto?

Eu acho interessante a ideia de mostrar que L, a pessoa que acredita em justiça e não em vingança, acaba perdendo o rumo quando Watari morre. O grande problema é que, como eu já falei, personagem não é o que fala, é o que faz. Nós vemos L falando sobre acreditar em justiça, mas eu não vejo nenhuma cena em que ele precise escolher entre justiça e vingança e decida pela primeira. E o final, onde ele pode ter matado Kira, deixa tudo ainda pior. Talvez a produção queria passar a ideia de que qualquer um pode ser terrível como Light, que de fato o poder passa adiante, assim como a obsessão por ser um deus, mas falta construção para chegar nesse ponto. Por que L acreditaria na história do caderno? Por que um suspeito falou para ele em um momento de pressão? L é um detetive da polícia, o que ele mais deve ter visto na vida é criminoso que mente sobre suas ações.

Uma coisa boa que o filme faz é mostrar como a sociedade se divide. Alguns acreditam que Kira é um criminoso, mas outros acham que ele é um deus. Também faz sentido L saber que Light é Kira quando ele se recusa a matar o próprio pai, é uma conclusão lógica, considerando tudo que ele já tinha descoberto até o momento. Mas a polícia nesse filme também só é inteligente quando é conveniente, porque no momento em que L acredita que Light é o assassino, ele deveria ter feito toda uma busca na casa dele, interrogado e coisa do tipo, mas ele convenientemente esperou até Watari sumir para fazer isso.

Death Note é uma obra tão legal porque ela brinca com a ideia de bem e mal. Nós torcemos por Kira, mesmo que ele seja um assassino. Também gostamos e torcemos por L, porque afinal de contas, Kira não pode matar quem quiser. A brincadeira de bem e mal não se dá só na narrativa, mas na ideia geral de sociedade, sobre ter o poder de decidir quem vive e morre. E o fato de alguém como Light, que é visto como uma pessoa que tem tudo, se afundar tanto nessa obsessão, é o que faz o final do original ser tão marcante e triste ao mesmo tempo. Ele tenta todas as últimas cartas, mas na sua obsessão ele se destrói e fica sozinho, mas ao mesmo tempo é bem feito, porque ele manipulou todos ao seu redor.

Eu não espero que um filme de menos de duas horas me passe a mesma profundidade, não tem como, mas ao menos uma dessas “essências” do original eu esperava ver. Eles podiam se focar na questão do bem e do mal, mas isso se perde no drama entre Mia e Light. Tudo bem, dava para focar em como um poder tão grande corrompe as pessoas, e eu acho que essa era a ideia final do filme, já que aparentemente L “segue” o mesmo caminho, mas foram tantos furos que levaram até a cena do hospital que essa mensagem perde a força.

No quesito de se destruir e de “todos podem ser Kira”, eu vejo algum potencial, mas como diria uma professora de roteiro minha: “Uma ideia é igual à p**** nenhuma”. Sem uma construção bem feita e plausível, o final se perde, o que é uma pena numa obra com tanto significado, numa história que fala sobre temas tão pesados. Muitos filmes tem um furo ou outro, eu não exijo perfeição, queria apenas algo convincente de que as coisas teriam acontecido da forma que foram, mas não é o caso.

O filme podia ter feito um personagem completamente diferente no lugar do Light, criar outra perseguição policial, o interesse romântico podia ser a grande mente do mal por trás de tudo, Ryuk podia ter sido apenas um expectador… Qualquer uma dessas mudanças poderia ser feita, o problema não é a fidelidade em si. A grande questão é que, no final do dia, Death Note falha tanto em ser um filme bom, quanto em ser uma adaptação que apresenta a essência da história.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 | Crítica

A franquia Guardiões da Galáxia começou sem muitas pessoas acharem que realmente os filmes iam para frente. Os heróis não eram muito conhecidos, mesmo sendo da Marvel, e nós achamos que não seria nada demais. Mas a Marvel já provou que pode dar destaque para seus super-heróis no cinema. Guardiões da Galáxia é um exemplo de que, quando o filme é bem feito, os protagonistas não precisam fazer parte da tríade dos quadrinhos para atrair público.

Guardiões da Galáxia foi uma surpresa, mas agora já existia expectativa para o Volume 2. Nós confiávamos em James Gunn e queríamos ver um filme bom e divertido, então foi ótimo ir ao cinema e ver que essa segunda parte não decepcionou.

Depois dos eventos do primeiro filme, os guardiões da galáxia, agora como um grupo, estão caçando uma fera em troca de dinheiro, mas as coisas dão muito errado quando Rocket (Bradley Cooper) acha que é uma boa ideia roubar baterias da raça para quem estavam trabalhando. Os guardiões precisam fugir e são salvos por ninguém menos que Ego (Kurt Russell), o pai de Peter (Chris Pratt).

Essa crítica não tem spoilers do filme.

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Estação Primeira do Sofá – Pra quem quer passar o carnaval no Netflix, na leitura ou no Joguinho!

Vem carnaval, vai carnaval e todo ano sempre tem aquelas pessoas que preferem passar o feriado longe dos bloquinhos/folia/multidão, aqueles foliões do sofá que vão colocar as séries em dia, jogar todos os joguinhos que ainda não tiveram tempo. Que vão se divertir no conforto e aconchego do sofá.

Para estes algumas colaboradoras do Collant reuniram uma listinha rápida de dicas pra curtir o feriado rodeada de almofadas, controle remoto e comida. 😀

Para Assistir

Chewing Gum

Série de comédia meio com humor daquele “vergonha alheia” de uma garota que vem de uma família matriarca super cristã que, no auge dos seus 20 e poucos anos, ainda é virgem e nunca teve lá muito contato com a vida além da religiosidade de sua mãe

Easy

Uma antologia eclética acompanha grandes atores interpretando histórias complicadas de amor, relacionamento com eletrônicos e sexo.

The Runaways – Garotas do Rock

The Runaways movie image

Uma antologia eclética acompanha grandes atores interpretando histórias complicadas de amor, relacionamento com eletrônicos e sexo.

Hot To Get Away With Murder

A melhor série pra quem quer o combo maratona + coisas que eu já devia ter visto + personagens maravilhosas! Aproveita e tira o atraso nesses dias (com a vantagem de poder ver tudo de uma vez e não ficar na ansiedade).

Crazyheads

Duas moças conseguem enxergar demônios e se juntam para caçá-los. É uma série de comédia/fantasia que, além de ter personagens e uma história bem feitas, também é super divertida e você vai ver tudo muito rápido.

Shannara Chronicles

Pra quem quer passar o feriado com a cabeça em uma fantasia medieval-mas-não-tão-medieval-assim, num futuro com elfos, demônios e magia.

Buffy – A Caça-Vampiros

A razão pela qual você ainda não assistiu Buffy permanece um mistério, mas se você ainda não assistiu aproveita e resolve essa falha de caráter. Brincadeiras à parte, pode ser difícil superar o clima década de 90, mas vale a pena.

Para Ler

Pagu Comics

Selo da Editora Cândido que centra em produções de quadrinistas brasileiras, são quatro revistas lançadas até agora e uma mais maravilhosa que a outra. Aproveitar o feriadão pra colocar a leitura em dia e ainda se divertir com um monte de personagens femininas maravilhosas criadas pelas mãos de mulheres incríveis. <3

Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país.
Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.

A Odisséia de Penélope – Margareth Atwood

O livro conta a história da Odisseia pelo olhar da personagem feminina de maior destaque na obra original. Se você amou O Conto da Aia, essa é uma outra obra da autora que vale a pena conhecer.

Para Jogar

Dragon Age – Inquisition

“Ah vá Clarice, sério que você vai recomendar Dragon Age” Calma lá! Além de ser a franquia de jogos que eu mais gosto, até dia 28 de fevereiro o jogo tá em promoção na PSN! Tipo sério, vai lá comprar e aproveitar o carnaval fechando a brecha no céu. Pra quem ainda não conhece, é um RPG de fantasia medieval maravilhoso

Little Big Planet

Um mix de plataforma e criação, você precisa se aventurar pelo mundo fofo de Sketch Boy, explorar o universo, resolver problemas de lógica, quebra-cabeças e até colecionar adesivos. É a epítome do fofo.

Undertale

Undertale – Se você não tem PlayStation tá tudo bem também, na Steam dá pra comprar um jogo só amor chamado Undertale, um RPG que é diferente de muita coisa que você viu na vida. Teu personagem cai no subterrâneo, no mundo dos monstros, e precisa escapar. Agora como ele vai escapar você que decide.

Bom feriadão pra vocês! 😀

Participaram dessa lista: Clarice França, Miguel Soares, Renata Geraldo, Maria Celina Gil e Rebeca Puig.

O número de protagonistas mulheres aumentou no cinema. E aí?

Já faz alguns anos que a discussão sobre a representatividade de mulheres na cultura pop tem ganhado força. Cada vez mais, o público pede por mulheres como protagonistas ou com papéis importantes. E parece que algumas produções de fato ouviram esses pedidos. Nos últimos tempos, tivemos alguns casos de representações femininas interessantes em certas franquias: Star Wars, Mad Max, Caça-Fantasmas, etc.

Não só parece que a situação melhorou um pouco, os números mostram que de fato há certas mudanças acontecendo. De acordo com um estudo realizado pelo Centro para Estudo de Mulheres na Televisão e Cinema da Universidade de San Diego, 29% dos protagonistas das maiores bilheterias de 2016 são mulheres. Foi um aumento de 7% se comparado com os números de 2015, além de ser uma marca histórica.

Isso é, de certa forma, um reflexo de tudo que tem sido debatido ultimamente, mas há outros aspectos que podem ter influenciado esse aumento. Na indústria do cinema, nomes grandes como Jennifer Lawrence e Jessica Chastain já falaram sobre a diferença salarial entre homens e mulheres em Hollywood. Isso sem contar todas as reclamações que o público tem feito sobre como a mídia trata atrizes de forma machista, principalmente durante premiações. É aquela velha história: Enquanto para o cara perguntam sobre a atuação, para a mulher perguntam sobre a roupa.

Em época de Oscar, podemos também ver as mudanças entre alguns dos indicados. Em A Chegada, temos uma mulher protagonista dentro da ficção científica, um gênero ainda encarado por muitos como “para homens”. Estrelas Além do Tempo, um dos melhores filmes do ano, é focado na história de três mulheres negras que trouxeram grandes avanços para a NASA. A protagonista que lidera o grupo rebelde em Rogue One é uma mulher e obviamente não podemos esquecer de Moana, a nova adaptação da Disney.

Essas personagens mulheres não estão focadas em apenas um gênero do cinema. Elas estão em sua maioria nos filmes de comédia e de drama, aparecendo com menor frequência em filmes de ação, onde compõe apenas 3% dos papéis principais do gênero.

Então parece que é isso, né? Pedimos mudanças e conseguimos. Problema resolvido. Ou não.

O número de mulheres atrás das câmeras ainda é muito pequeno. Nos grandes estúdios, apenas 7% dos filmes foram dirigidos por mulheres em 2016, um número inferior ao do ano anterior. Isso sem contar que, na maioria dos grandes filmes, a equipe criativa ainda é majoritariamente masculina.

Há outro dado interessante no estudo. Em filmes dirigidos por mulheres, 57% dos papéis principais eram de personagens femininas, enquanto em filmes dirigidos por homens esse número cai para 18%. As porcentagens ficam ainda menores quando procuramos por mulheres negras nesses papéis.

É possível tirar algumas conclusões desses números. Primeiro que, por mais que o número de mulheres protagonistas tenha aumentado, e isso é ótimo, 29% ainda não é um número bom, principalmente quando a maioria dessas personagens são mulheres consideradas dentro do padrão. Não adianta nada mudar um pouco as coisas na frente da câmera, quando nos estúdios as mulheres não possuem as mesmas chances de emprego que os homens.

Aumentar a representatividade é bom, mas não é o suficiente. As mudanças precisam acontecer na indústria toda, até porque, como os números apontam, quanto mais mulheres trabalhando nas equipes criativas dos filmes, maiores as chances delas serem representadas diante das telas. E bem representadas, o que também é importante, não adianta ter uma mulher protagonista que é um estereótipo ambulante. Esquadrão Suicida tinha mulheres no elenco, mas todas elas tinham problemas bem sérios de construções estereotipadas.

Então é bom que essas discussões continuem acontecendo, até porque ainda tem uma parte do público que continua achando que não tem nenhum problema em só ter homens padrões como protagonistas. E também para que mais mulheres entrem na indústria, eu quero ver personagens mulheres nas telas, mas eu também quero mulheres reais trabalhando nessa área que ainda é muito dominada por homens. Essa pesquisa é um bom exemplo para mostrar que sim, algumas coisas melhoraram, mas ainda há muita coisa para mudar na indústria cinematográfica.

Via Variety

Adaptações e os acertos de A Chegada

É possível fazer um texto apenas com os acertos de A Chegada no geral. O filme é uma adaptação do conto de Ted Chiang “História da sua Vida”, lançado em 2016 e também indicado para algumas premiações, incluindo o Oscar de melhor filme. Mesmo o Oscar tendo um histórico de não necessariamente premiar ou indicar os melhores filmes sempre, A Chegada é realmente um longa muito bom. Para mim, junto com Estrelas Além do Tempo, é o melhor filme do ano.

A Chegada é dirigido por Denis Villeneuve. A protagonista é Louise Banks (Amy Adams), uma linguista que é chamada pelo governo para ajudar com os primeiros contatos com a raça dos heptapodes, que são alienígenas que pousaram em vários lugares da terra. Os humanos não sabem o que eles querem e descobrir isso é o grande desafio da história.

Há várias análises que podem ser feitas a partir desse filme. Em tempos de intolerância e conflitos, um filme sobre alienígenas que mostra os humanos tentando conversar antes de atirar é muito oportuno. A Chegada vai falar sobre dificuldades de comunicação, sobre como é  mais fácil assumir o pior do “outro” e também sobre outros aspectos mais filosóficos do ser humano. Mas o foco neste texto é falar como um conto de algumas páginas conseguiu virar um filme tão bom, a partir daí podemos pensar um pouco sobre os aspectos que fazem uma adaptação agradar o público.

O texto contém spoilers do filme A Chegada e do conto História da sua Vida.

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La La Land – Cantando Estações | Crítica

O queridinho dos críticos finalmente está em cartaz nos cinemas brasileiros. La La Land já ganhou sete prêmios no Globo de Ouro, incluindo a categoria Melhor Filme de Comédia/Musical. Obviamente todas essas premiações criam uma hype ao redor do longa, o que já o tornou um dos preferidos de muitos.

La La Land, dirigido por Damien Chazelle, é um musical que faz uma homenagem ao jazz e também à Hollywood. O filme conta a história de Mia (Emma Stone), uma moça que está tentando seguir a carreira de atriz, e Sebastian (Ryan Gosling), um cara completamente apaixonado por jazz.

Marcando o tempo com as estações do ano, La La Land mostra como Mia e Sebastian se conhecem. Inicialmente eles não se gostam, mas a história vai caminhando e mostrando como os sentimentos deles vão mudando. Emma Stone e Ryan Gosling entregam atuações divertidas e interpretam seus papéis muito bem. Ambos os personagens são bem construídos, sabemos seus conflitos e o que eles querem da vida, portanto é divertido e até tenso ver esses dois personagens tentando conquistar seus sonhos. O roteiro também sabe balancear as cenas que trabalham a relação entre os dois protagonistas com as cenas focadas nos objetivos pessoais de cada um.

A história em geral funciona bem e tem um ritmo bom. Não há momentos excessivamente arrastados, há uma variação boa de problemas e conquistas que mantém o roteiro bem dinâmico. Eu consigo pensar em apenas uma cena que me pareceu escapar do clima que estava sendo criado. O longa também sabe colocar as cenas de música e dança nas horas certas, apesar de que particularmente achei que poderia ter mais cenas com os atores cantando.

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Rainha de Katwe | Crítica

Rainha de Katwe estreia nos cinemas brasileiros dia 24 de novembro. Dirigido por Mira Nair e produzido pela Disney e a ESPN, o filme é inspirado no livro Rainha de Katwe – A Emocionante História da Garota que Conquistou o Mundo do Xadrez. Escrito por Tim Crothers, o livro conta a história real de Phiona Mutesi, uma jovem de Uganda que vira uma mestre no xadrez.

O filme começa apresentando ao público a vida de Phiona (Madina Nalwanga). Ela mora com sua família em Katwe, uma região pobre de Kampala, a capital de Uganda. Junto com sua mãe, Nakku Harriet (Lupita Nyong’o), e seus irmãos, Phiona enfrenta muitas dificuldades desde cedo. As coisas começam a mudar em sua vida quando ela conhece Robert Katende (David Oyelowo). Ele ensina crianças a jogarem xadrez e logo Phiona percebe que gosta muito daquele jogo.

Com um elenco tão bom e esse tipo de história, Rainha de Katwe prometia antes mesmo de ser lançado. Fui assistir com boas expectativas que foram correspondidas. É um enredo que vai te conquistando aos poucos, personagens que vão criando empatia no público com cada nova cena. Mira Nair consegue contar uma história que inspira e emociona, é um dos filmes que mais gostei de assistir esse ano.

Queen of Katwe

Mira Nair dirige o filme com calma, em alguns momentos até demais. Um dos defeitos de Rainha de Katwe é que, às vezes, o passo fica mais lento do que devia e talvez algumas cenas pudessem ter sido deixadas de lado. Por outro lado, a trajetória de Phiona é muito interessante, nós queremos saber não só o que vai acontecer com a protagonista, mas também o que Robert vai escolher para a vida dele ou como as pessoas vão reagir com a repercussão do talento de Phiona.

O enredo sabe variar entre os momentos tensos e os engraçados. É inevitável não ficar agitado na cadeira enquanto Phiona começa a enfrentar seus primeiros campeonatos. Queremos que ela ganhe tanto quando Robert, torcemos para que ela mostre que não é menor que nenhum dos outros competidores. Depois de toda essa tensão, o filme nos entrega momentos tranquilos em que podemos relaxar e até rir.

Os personagens sustentam o filme quando o roteiro desacelera demais. Desde o começo vamos conhecendo aquelas pessoas e nos importando com elas. Phiona é o centro das atenções, ela brilha mais do que ninguém e Madina Nalwanga dá um show, mas ela não faz isso sozinha. David Oyelowo e Lupita Nyong’o são atores incríveis e mostram todo o seu talento em Rainha de Katwe, com personagens bem diferentes, mas que cumprem seus papéis dentro da história.

Infelizmente, não estamos acostumados a assistirmos filmes com um elenco composto majoritariamente por atores negros. Os poucos brancos aparecem durante as competições e mal possuem falas. Muitos dos filmes que colocam atores negros acabam reproduzindo estereótipos ou dando a ideia do “salvador branco”. Rainha de Katwe não tem nada disso, não há nenhum branco que vai salvar o dia e os personagens não são reduzidos à estereótipos. São pessoas complexas, com arcos de personagens bem desenvolvidos e que o filme sabe explorar.

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As mensagens que o longa passa são muito inspiradoras. Não é uma fórmula nova, mas é bem feita. Phiona era muito boa, mas ela precisa sim encontrar dificuldades e cair antes de chegar no ponto alto de sua história. Toda a jornada da protagonista conversa muito com vários aspectos do próprio jogo de xadrez. Não é só a questão de ser a paixão dela ou de Phiona ter um dom com o jogo. Ela consegue prever jogadas no mesmo nível de um mestre, mas o xadrez pode ser interpretado de várias formas. É um jogo de estratégia, cada peça tem sua própria importância para a vitória. Xadrez não possui partidas rápidas em geral, é preciso sentar e ir estruturando cada uma de suas jogadas até conseguir vencer.

Phiona passou anos treinando e se especializando. Ela precisa criar estratégias em sua vida, não só para o xadrez em si, mas para enfrentar os problemas em que ela passa no dia a dia. Assim como no tabuleiro de xadrez, cada personagem no filme é como uma peça, cada um tem seu papel para a vida de Phiona, que a faz caminhar pelo tabuleiro todo. Outra metáfora que aparece, inclusive bem explícita no filme, é sobre o peão e a rainha. Apesar de ser uma jogada bem difícil, se um jogador consegue levar seu peão até o outro lado do tabuleiro, ele pode trocar a peça por uma rainha. Phiona era o peão, uma menina que muita gente desacreditou, que veio de uma origem muito mais humilde do que os mestres europeus ou canadenses. Porém, andando uma casa de cada vez, ela virou rainha de Katwe.

Recomento bastante o filme, apesar de alguns momentos monótonos e de  que poderia ser mais curto, Rainha de Katwe é uma história linda, inspiradora e muito bem feita. Além de ser um filme de produtoras grandes que mostra que sim, é possível fazer filmes com um elenco em que a maioria dos atores são negros e sem virarem estereótipos. Meninas negras também podem ser as protagonistas. Espero que Rainha de Katwe tenha bastante visibilidade e que seu modelo influencie outras produções no futuro. Ah sim! Fique para ver os créditos.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

Rádio Geek estreia hoje, dia 1 de novembro!

Nós provocamos um pouco nas redes sociais, mas agora finalmente vamos falar do novo projeto que o Collant sem Decote está participando: A Rádio Geek!

A emissora é 100% online e tem uma grade toda voltada para o público nerd. Há programas sobre quadrinhos, literatura, jogos, cinemas, séries, música e muito mais! A Rádio Geek conta com um grupo de sites produzindo conteúdo e o Collant é um deles!

O nosso programa é o Guardiãs da Pipoca, as editoras Rebeca Puig e Clarice França vão falar sobre o que anda acontecendo no mundo do cinema e da televisão. As críticas serão feitas de modo geral, analisando vários aspectos dos filmes e das séries, como a narrativa, construção, personagens, etc. Assim como fazemos aqui no blog, o nosso ponto de vista feminista sobre essas obras também estarão em pauta. O programa vai ao ar toda a quarta-feira às 15h.

Para comemorar a estreia, a emissora montou uma programação com vários programas ao vivo, que você pode conferir na página oficial da Rádio Geek no facebook. Nós faremos parte dessa grade,  dia 01 de novembro, também às 15h!

Ficou interessado? Então aproveita e visita o site da rádio! Para quem quiser ouvir no celular, é só baixar o aplicativo para Android, o de IOS será lançado em breve.

 

Crítica não é Censura

Volta e meia, ou pelo menos uma vez por semana, eu vejo alguém dizer que criticar produção cultura é censura.

E eu acho isso muito louco.

Porque crítica e censura são duas coisas completamente diferentes, mas que são comumente consideradas iguais numa tentativa de desvalidar críticas contundentes ao trabalho de artistas reconhecidos. Se a crítica for de cunho feminista ou de algum movimento social, então ela com certeza será considerada censura.

A definição dos termos:

crítica

substantivo feminino

1.
arte, capacidade e habilidade de julgar, de criticar; juízo crítico.

2.
p.ext. atividade de examinar e avaliar minuciosamente uma produção artística, literária ou científica, bem como costumes e comportamentos.
“c. literária, musical”

censura

substantivo feminino

1. ação ou efeito de censurar.

2. análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., ger. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.

Ou seja: Se uma pessoa retira o livro da prateleira, se ele toma a caneta da mão do autor, se ele impede de alguma maneira que o autor publico sua arte, e que a população tenha acesso à ela, isso é censura. Mas se a pessoa apenas tece críticas sobre o trabalho que o autor criou, então isso é uma crítica. Censura precisa vir de alguém com poder para censurar, e isso normalmente vem do Estado ou das Instituições. Pessoas e movimentos sociais raramente tem esse tipo de poder.

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Aqui no Collant nós criticamos diversos autores, de diversos meios artísticos. Suas obras são analisadas de um ponto de vista feminista, procurando compreender e pontuar quais são os problemas e os acertos dentro da representação feminina naquela obra. Procuramos também, muitas vezes, refletir sobre possíveis soluções para tais problemas, tentando mostrar que a obra talvez fosse muito mais interessante se tivesse uma representação feminina bem construída e fora dos padrões machistas e estereotipados. Isso não é censura, isso é uma crítica.

Nós também já falamos sobre a escolha pessoal de consumir ou não produtos que venham de autores de índole duvidosa ou comprovadamente criminosa. Eu mesma não assisto Polanski nem Woody Allen, assim como não leio Arthur C. Clark ou Marion  Zimmer Bradley. Essa é uma opção minha, pautada em escolhas pessoas, que busca não apoiar pessoas que tenham de alguma maneira causado dano à pessoas, principalmente mulheres e/ou crianças.

Como roteirista eu sei que críticas podem ser pesadas. Uma das primeiras coisas que precisamos aprender como criadores de arte é que críticas existem e que inflar o seu ego artístico não vai fazer nada além de prejudicar o seu crescimento como profissional. Escutar críticas e saber filtrá-las é parte importante do processo de criação artístico de todo autor, ilustrador, diretor e etc.

Como criadora de conteúdo online, assim como roteirista, eu também sei que sou responsável por tudo que eu coloco no papel. Tudo que eu escrevo vai alcançar alguém de alguma maneira, seja diretamente como aqui no blog, seja de maneira mais indireta na tela do cinema. Por isso uma das minhas maiores preocupações é qual a mensagem que eu estou passando, e como ela vai ser interpretada. Nós vivemos numa sociedade que absolve muito facilmente os que são considerados gênios em suas áreas, principalmente se eles forem homens, então cabe à esses criadores de conteúdo artístico ou não, escutarem as críticas e se preocuparem com a mensagem que o seu trabalho vai disseminar.

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Como consumidora de conteúdo artístico eu sou a rainha da problematização. Eu consumo quadrinhos, filmes, séries, livros, jogos e acabo olhando para todos eles com um viés crítico. Não porque eu quero destruir esses produtos, mas porque eu gosto deles e quero que eles evoluam cada vez mais. Parte dessa evolução é abranger de maneira mais igualitária todos os grupos de possíveis consumidores, incluindo os que estão fora do padrão masculino-branco-hetero-cis. Se a gente gosta de uma coisa, se a gente ama aquela história, a gente deve querer que ela seja melhor, não que ela seja intocável. Não é porque eu problematizo que eu não me divirto, que eu não curto aquilo que estou consumindo, muito pelo contrário. Isso só quer dizer que eu consigo olhar além do que eu gosto e perceber o caminho que falta para um produto verdadeiramente completo.

Quando uma editora decide tirar de circulação uma revista por causa das críticas dos fãs ou de movimentos sociais, como aconteceu na semana passada com a capa alternativa de Invincible Iron Man, o poder de decisão está na mão da editora. Muitas pessoas tendem a culpar os movimentos sociais e/ou os fãs que reclamaram, mas a verdade é que o que eles fizeram foram críticas, seja à escolha do artista, ao modo como a personagem foi apresentada ou à decisão da editora de autorizar a publicação do material. Nenhum desses críticos tem o poder de parar as máquinas de impressão, o poder de decidir o que irá ou não às bancas é da editora. (Nós vamos falar mais sobre esse caso em outro texto).

Com o revival de Gilmore Girls chegando ao Netflix em Novembro, o serviço de streaming adicionou na sua biblioteca a série original em todas as suas temporadas. O que eu mais vi na minha timeline do facebook e do twitter foram mulheres dizendo o quão felizes estavam por poder assistir a série que representou tanto para elas, mas apontando também os erros e os problemas de representação que a série tinha. Isso é maravilhoso. Gilmore’s foi escrito e filmado numa época em que nem de perto nós tínhamos uma discussão tão ampla sobre representação feminina, então é uma série que apesar de criada por uma mulher, carrega em si diversos estereótipos e conceitos negativos. É normal que os nossos olhos mais abertos de hoje vejam problemas que na época nós não vínhamos, eu espero que a criador também veja esses problemas hoje e tenha trabalhado para criar algo melhor e maior nesses novos episódios. Não é só porque eu gosto de uma coisa que eu não possa critíca-la.

Ao invés de se ofender quando alguém critica o seu trabalho, ou o trabalho de algum autor que você gosta, procure entender a crítica. Procure ver além do coração de fanboy. E tá tudo bem em ser fanboy ou fangirl, mesmo. Mas é preciso entender que não é só porque você não vê problema nenhum que ele não existe. E tá tudo bem se você gosta de alguma coisa que outras pessoas criticam, mas não dá pra dizer que crítica é censura, isso é descabido e errado. Críticar algo não é censurar o autor ou o produto, é apenas apontar onde estão os erros percebidos, onde aquilo poderia melhorar, onde aquilo é muito bom ou não. Ninguém está tirando a caneta da mão do autor nem tirando o quadrinho da prateleira, nós estamos apenas criticando o trabalho do autor, questionando porque ele repete erros do passado, porque um autor carregado de tantos estereótipos e temáticas negativas e ofensivas ainda continua ganhando espaço, etc. Nada disso é censura, mas tudo isso é crítica.

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