A nova política do Twitch e porque decotes não devem ser proibidos.

Nas últimas semanas uma onda de notícias sobre o Twitch e sua nova regra para exposição do corpo levantou diversas discussões entre os gamers – me pediram para escrever um pouco sobre isso e, apesar de não acompanhar o twitch, é possível identificar alguns pontos em comum com o modo como o machismo se estabelece dentro do meio nerd de maneira geral.

O texto das novas regras diz”

“Não vestir roupas ou vestir roupas sexualmente sugestivas – incluindo lingerie, roupas de banho, tapa sexo, ou peças intimas – é proibido, assim como troncos totalmente expostos, o que se aplica tanto aos streamers masculinos e femininos. Você pode ter belos abdominais, mas é melhor exibi-lós em uma praia numa partida de volei ouvindo Playing with the Boys”. tradução via JN

Essa discussão toda levantou muito machismo disfarçado de “justiça” e ética (¬¬). Muitas das moças streamers são acusadas de usar decote/seus corpos para chamar público e com isso ganhar muitos views. De acordo com os acusadores essas garotas usam de táticas que os homens não podem usar e por isso seria injusto.

again?

O nome do blog é Colant Sem Decote por causa da mania que o mundo dos super-heróis tem de colocar decotes gigantes em personagens femininas que vão encarar hordas alienígenas com tomaras que caias, calcinhas de metal e saltos altos. Esse design não é baseado na sexualidade da personagem, é baseado na sexualização da figura feminina da personagem como maneira de satisfazer um público masculino. Particularmente, eu não tenho nada contra personagem nenhuma usar decote – contanto que as razões para a sexualização da personagem venham da discussão da sexualidade dela, não como modo de satisfazer a punhetagem dos fanboys.

Muitas dessas pessoas que olham para o anuncio do Twitch e batem palmas, dizendo que por ser para ambos os sexos não é machismo, esquecem de alguns pequenos detalhes. Os seios femininos (porque sim, homens também tem peitos, eles só não são desenvolvidos como os nossos – ou você achava que o mamilo masculino era só um erro de design?) são sexualizados desde antes deles se quer aparecerem. Na praia, meninas de um ou dois anos são muitas vezes vistas usando biquínis de duas peças para esconder sabe-se lá o que. Ao crescerem, antes mesmo de atingirem a puberdade, são presenteadas com sutiãs bonitinhos e com rendinhas. Ao chegarem na adolescência a falta ou o excesso de seios são julgados constantemente – se não tem é tábua, se tem é puta.

Homens podem tirar a camisa e caminhar tranquilamente no calçadão, enquanto mulheres precisam esconder o peito para dar de mamar aos seus filhos porque os mesmos seios que estão alimentando o bebê são considerados órgãos sexuais. Essa próxima notícia pode ser forte – se preparem.

NEWSFLASH: Peito não é órgão sexual e reprodutivo! 

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Mas e essas meninas que usam o decote para chamar atenção do público e conseguir mais views? Por mais que eu acredite que nós, mulheres, somos levadas a sexualizar os nossos corpos desde muito novas por uma sociedade que visa sempre a satisfação do olhar masculino, e que utilizar a sua sexualidade para conseguir views não é exatamente positivo, se uma garota quer utilizar o seu decote e seu corpo para chamar atenção – o problema é inteiramente dela. Num mundo em que por uma menina está online em um jogo dá ao homem o direito de a assediar e ameaçar, essa garota usar essa mesma sexualização para seu próprio ganho me parece mais do que justo.

make yourself cry

“Mas e a ética de jogo??”Perguntam os indignados! Olha, essa ética toda deve estar no mesmo lugar em que está a ética que questiona porque personagens femininas não precisam usar roupas que cobrem o corpo inteiro mesmo o biquíni de luta delas sendo mágico, no mesmo lugar da que questiona que por ser mulher a jogadora tem que ser unicamente healer, e talvez seja vizinha da ética que não permite aos caras pedirem para ver os peitos da jogadora por razões de: eles querem.

Aliás, conversando com uma das leitoras do blog, ela levantou um ponto que conversa bastante com o que levantei até aqui: homem nenhum tem que dizer pra uma mulher o que ela deve ou não usar. Muita garota tem peito grande e isso não quer dizer que ela deve andar de camisa abotoada até o pescoço 24 horas por dia, e também não quer dizer que se ela resolver usar decote ela está fazendo isso para chamar atenção de homem.

 NEWSFLASH: Nem tudo é sobre vocês, homens. Mal aê. 

giphy

Muito desse chororô que tá rolando vem do fato de que são garotas tomando posse dos seus próprios corpos e utilizando eles como bem quiserem, tirando o poder dos homens sobre eles. Me lembra bastante quando meninas fazem cosplays de personagens hiper-sexualizadas como a Poderosa ou muitas personagens de animes, por exemplo. Nesse caso chovem críticas dizendo que elas estão dando continuidade à sexualização feminina, caras indignados por não terem acesso à essas cosplayers a chamam de putas – pra mim é só um monte de minas pegando o que a sociedade faz de ruim, dando um 180º e se empoderando.

A verdade é que a comunidade é do Twitch, e eles podem implantar a regra que quiserem, mas acho que há aqui uma discussão sobre as razões pelas quais a proibição está acontecendo. Se é para manter um ambiente “saudável”, ou se é motivada pelo machismo nosso de todos os dias. Essa nova política do Twitch pode ser até bem intencionada, mas esconde por trás um machismo que me cheira muito a tal “ética no jornalismo de games”.

anya

Garotas, nerdices e o ódio da internet.

Videogames nasceram dentro de uma sala de computadores na década de setenta. É uma coisa muito louca, em que pessoas inserem números no computador e aparecem mundos lindos e divertidos pra gente apertar botões físicos e fazer o personagem digital pular. É lindo, é violento, é aventureiro, é inovador, é divertido, é sangrento, é mágico, pode até ser feio e também pode ser considerado arte. A única coisa que as pessoas não querem é que mulheres façam parte da parada.

Existem muitas – muitas mesmojogadoras de games online e offline. Existem muitas mulheres que trabalham na indústria, seja indie ou mainstream, como programadoras, roteiristas, designers, criadoras e afins. Existem inclusive várias personagens femininas nos mais diversos games. Mas, por alguma razão, toda vez que uma de nós dá uma opinião, ou mesmo produz alguma coisa, a comunidade online se agita e parte para uma onda de ódio que vai do mais puro e simples machismo nosso de todo dia até ameaças com perigo real à vida de quem ousou falar alguma coisa. Tá difícil ser mulher no mundo dos games hoje em dia.

Anita Sarkeesian, criadora da série de vídeos-maravilha Feminist Frequency, foi escrutinada e ameaçada depois que seu último vídeo, Women as Background Decoration (Part 2), foi lançado. A moça já estava acostumada a esse tipo de ódio, mas desta vez a divulgação de dados pessoais tornou tudo muito pior e o perigo se tornou real. Zoe Quinn, criadora do game ganhador de vários prêmios, Depression Quest, vem sofrendo com cyberbullying desde o lançamento do jogo no Steam. Mais recentemente, criou-se um hashtag chamado #GamersGate (uma alusão a Watergate), que tem a intenção de denunciar o jornalismo de games que é comprado. É claro que essa não é a real razão para a criação desse hashtag. Ele foi criado para ridicularizar, humilhar e expor Zoe depois que um ex-namorado resolveu slutshame a ex na internet, dizendo que ela dormiu com os jornalistas que falaram bem do seu game. De praxe, né, gente? A mina faz um game sobre como é viver com a depressão e o ex babaca resolve insultá-la e espalhar mentiras pela internet – mesmo sabendo o que as suas ações poderiam ocasionar.

CoL5

Zoe é guerreira e acabou dando a volta por cima. As acusações, ameaças e o ódio ainda a perseguem, mas ela criou um outro hashtag, #GameOverGate. Depois de três semanas recolhendo informações em fóruns online, ela expôs o mirabolante esquema de difamação que foi criado para humilhá-la. É difícil acreditar que esse tipo de coisa/gente exista, parece coisa saída de filmes sobre hackers, mas a ficção se espelha na realidade. Agora o caso está nas mãos do FBI e a gente torce para que os babacas que fazem essa merda toda sejam condenados.

Há uma coisa que me chama em especial a atenção quando falamos sobre esse tipo de ataque online. Sempre que alguém na internet faz uma merda dessas dizemos que são adolescentes e moleques. E por mais que eu acredite que adolescentes são muito bons com computadores, e que eles sejam capazes de fazer esse tipo de coisa, acho também que tá na hora de parar de assoprar no cartucho e dizer que tá limpo. Eles, os adolescentes, não estão sozinhos. Há caras adultos fazendo merda na internet, há membros do MRA (Men’s Right Ativism), há adultos babacas misturados nesses sites. Chamar de moleques as pessoas por trás de ameaças de morte e divulgação de dados pessoas, para que fique mais fácil estuprar, matar e abrir a vagina de uma mulher até ela rasgar, é fazer pouco caso. Há adolescentes? Sim. Mas eles não estão sozinhos, e não devemos passar a mão na cabeça deles.

Zoey Quinn fala um pouco sobre como é ser a pessoa mais odiada da internet.

Esses mesmos caras que se recusam a aceitar mulheres na comunidade gamer/nerd são os caras que se matam de rir quando acertam socos na mulher raptada do GTA, quando atiram no corpo morto de uma NPC, que não se importam – e talvez até se masturbem com a imagem – que o corpo feminino sem vida seja constantemente abusado e sexualizado nos games mais violentos. É por causa desses caras, e porque mulheres também são seres humanos, que precisa haver uma mudança no modo como os games veem e utilizam as personagens femininas – jogáveis ou não.

Claro, eu sei que muitos de vocês, gamers e desenvolvedores, não são assim. Mas o que esperar de uma comunidade que a cada semana parece lutar para excluir e destruir qualquer um que tenha opiniões diferentes? Phil Fisher, criador da fofura extrema FEZ, abandonou os games porque cansou da internet e dos gamers. Não estou dizendo que ele era o santo do cartucho maluco, apenas que um cara que dedicou muito tempo na construção de um dos games de maior sucesso dos últimos anos foi embora porque a comunidade gamer de ódio venceu. Mas esse ódio não é algo que acontece apenas nos games.

Mulheres sofrem com a misoginia em praticamente qualquer ambiente nerd. Nos últimos meses vimos uma enxurrada de casos em que criadoras sofreram com o assédio de seus colegas e superiores. O padrão quando elas resolvem falar sobre o assunto é sofrerem como Zoey e Anita. Desenvolvedoras de games, desenhistas e escritoras foram assediadas e, depois de reportarem os seus casos, sofreram bully online. Suas vidas são expostas, julgadas e ameaçadas por fãs. Elas temem pela sua posição profissional, elas temem a exposição que o caso terá. Quando reclamamos das capas sexualizadas do Manara, somos chamadas de feminazi para baixo. Quando reclamamos do assédio e da misoginia, somos vadias.

ww 1Cresci amando ficção científica, quadrinhos, livros, filmes, séries e videogame, mas mesmo assim sempre há uma barreira entre eu e o universo nerd porque eu sou mulher. É um porre, irritante, machista e arrogante. Quando eu era mais nova, achava que esse universo era acolhedor e divertido. Não tinha muitos amigos no colégio que dividissem esses interesses comigo, talvez um ou dois. Mas um grupo de alunos mais velhos, que eram aficionados por animes e mangas, me fazia achar que todo mundo era que nem eles: legais, de boa, amigáveis. Eu estava errada.

Ao contrário do que a minha ingenuidade queria acreditar, eu me deparei com uma comunidade que me odeia porque eu sou mulher e tenho uma opinião. Algumas semanas atrás, durante a crise Manara/Marvel/Mulher-Aranha, eu escrevi um texto sobre o absurdo que era aquele desenho existir. Os comentários nos lugares onde o texto foi compartilhado foram tão bonitos quanto você pode imaginar. O texto um rant que saiu de um lugar de raiva. Quando eu era mais nova, eu curtia muito quadrinhos americanos de super-heróis. Eu gastava boa parte do meu dinheiro na banca e nos sebos, montando uma biblioteca particular da qual eu tinha muito orgulho, até eu me desencantar e cansar dos estereótipos das histórias e dos desenhos.

Peitos maiores que cabeças, cinturas onde não caberia nem o menor dos rins, bundas que provavelmente causariam um problema de coluna. As editoras estavam pouco se fudendo para o que eu achava sobre como as mulheres eram retratadas – por que eu me importaria com eles? Eu cansei e parei de comprar. Tudo à minha volta me dizia que nesse meio as mulheres serviam apenas para serem mortas, serem escada para personagens masculinos, sexualizadas, idealizadas, tudo para que o verdadeiro público das editoras gastasse os quilos de  kleenex no escuro do seu quarto. Hoje o cenário mudou e, ao que tudo indica, as editoras se deram conta de que nós somos público. Ainda está longe do ideal, mas é importante lembrar desses passos que estão sendo dados agora, para que eles se estabeleçam e cresçam.

MirrorsEdge

De novo, eu sei que nem todos os garotos nerds são nerds imbecis e punheteiros, e que alguns de vocês vêm tentando mudar. Ei! Eu adoro nerds. Eu sou uma e nunca tive problema nenhum em dizer que gosto das coisas que gosto. E também não tenho nada particularmente contra você utilizar a sua mão para – você entendeu. Eu só estou cansada de escutar essa ladainha de que a gente faz tempestade em copo d’água. Que ameaça na internet não é realidade. Fala isso pra todas as pessoas que já sofreram, foram mortas ou se suicidaram depois de cyberbully.

A internet nerd quer me dizer que os games e os quadrinhos eram antes um lugar em que os caras iam para se sentir seguros, onde não tinha meninas, onde eles podiam agir como quisessem. Ninguém tá te colocando contra a parede. E francamente, esse papo de que games e quadrinhos sempre foram clube do bolinha é a maior merda que eu já escutei. A minha mãe, antes de eu nascer – e talvez antes de muitos de vocês nascerem também –, jogava videogame. Ela deu para minha irmã, no aniversário de um ano dela, um Intellivision. Eu disputava o controle com a minha mãe durante os horários de almoço e no começo da noite. Ela lia quadrinhos quando criança, eu lia quadrinhos quando criança. Meu nome não é Rebeca por causa da bíblia, é Rebeca por causa de um quadrinho.

Então, por mais que você queira que a gente junte as nossas trouxas e vá embora; por mais que você ameace e humilhe aquelas que fazem parte tão ativamente da criação nerd e a quem olhamos com tanta admiração, se acostuma, colega. A gente já tava aqui desde o começo – você que nunca tinha notado. 😉