Sapacoco, novo quadrinho da Netuno Press, será lançado na CCXP!

Falamos de quadrinhos de ação, terror, mas agora vamos dar uma sugestão de… Quadrinho sobre amigos imaginários. Pois é, CCXP está chegando e a variedade de quadrinhos disponíveis do beco dos artistas é grande! Vamos falar um pouco de Sapacoco.

O que acontece com um amigo imaginário quando ele não tem mais um amigo? Ele vira um imaginário? Esse é o ponto de partida de Sapacoco novo quadrinho de Márcio Moreira e Débora Santos (Pombos!), do selo Netuno Press.

Mauro e Sapacoco eram amigos inseparáveis, mas, nove anos depois, o garoto decide que está velho demais para ter um amigo imaginário. Agora, Sapacoco precisa lidar com a separação e decidir o que fazer da vida. Afinal, o que é um amigo imaginário quando ele não tem mais um amigo? Mas claro que as coisas não são tão simples assim e Sapacoco descobre que Mauro guarda um segredo… kawai!

Sapacoco é uma história sobre amadurecimento, perseguição de carros e um bar onde fantasias vão encher a cara. E só uma dessas três coisas é mentira! São vinte páginas de quadrinhos (e pelo menos um poema) impressas em risografia, nas cores azul e rosa, em formato mangá.

O quadrinho estará disponível na mesa H29 durante a CCXP 2017!

Sapacoco
24 páginas
13,5 x 20,5 cm
Impresso em risografia, azul e rosa
R$ 15,00
Selo Netuno Press
Lançamento na CCXP, mesa H29.

Bendita Cura – Quadrinho sobre homofobia e os efeitos da terapia de reversão.

Os últimos dias tem sido sombrios e controversos para a comunidade LGBT. Se você esteve na internet nos últimos dias provavelmente viu que no dia 18 de Outubro o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, do Distrito Federal, cedeu uma liminar autorizando psicólogos a fazer terapias de reversão sexual com pacientes homossexuais. Essa decisão vai contra a OMS (Organização Mundial da Saúde) e contra o Conselho Federal de Psicologia, que veta tal prática. Por isso Bendita Cura: É Para o Bem Dele (Pt1), de autor Mário César Oliveira, chega em uma hora tão propícia.

O quadrinho acompanha a história de Acácio, desde a infância na década de 60, até os dias de hoje. Crescendo num lar conservador e homofóbico, Acácio teve a vida marcada por preconceito e terapias de conversão.

Mário César teve a idéia ainda em 2013, quando o pastor Marcos Feliciano assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O quadrinho é resultado de muita pesquisa e não é baseado em apenas um caso, mas em diversos depoimentos e reportagens que o autor teve contato ao longo dos anos. O primeiro roteiro ficou pronto em 2014 e agora passa por um processo de refinamento.

Vi que tinha um mote bom pra uma história que abordasse questões de orientação sexual e de gênero, me deparei com muitos relatos absurdos e fui montando o roteiro em cima disso. Nesse meio tempo fiz outras quadrinhos como o Púrpura e o Não existem super-heróis na vida real. Agora tô desenhando esse.

A idéia inicial era lançar a publicação no final do ano, mas com o que aconteceu nos últimos anos Mário sentiu que era o momento certo para fazer o lançamento. Não podia estar mais correto. Se passamos por tempos sombrios, os últimos dias começam a sentir como a idade média, e ter um trabalho assim em livre acesso para ser compartilhado e lido é muito importante.

Por enquanto você pode ler a metade do primeiro capítulo AQUI, Mário quer soltar o restante do quadrinho ou mensalmente, ou quinzenalmente – depende do que o fluxo de trabalho permitir. Quando o primeiro capítulo for terminado Bendita Cura também deve ficar disponível através da Social Comics, uma plataforma nacional de leitura de quadrinhos.

Você pode acompanhar o Bendita Cura por AQUI, Não Existem Super-heroís Na Vida Real está disponível na Amazon e você pode encontrar os outros trabalhos do Mário no site dele. Se você ainda não entendeu o problema da liminar, sugiro a leitura deste texto da Vice.

 

Black Silence, de Mary Cagnin.

Ficção Científica ainda não é o gênero de escolha de muitos brasileiros, sejam leitores, escritores ou quadrinistas, mas é exatamente nesse último, nos quadrinhos, que venho observando uma insurgência de trabalhos interessantes no gênero. Um desses trabalhos é Black Silence, da quadrinista Mary Cagnin.

A história segue a tripulação de uma missão organizada pela FAE (Forças Armadas Espaciais) para procurar um planeta que possa funcionar como colônia, uma última tentativa desesperada de salvar a humanidade. Na liderança da missão está a Comandante Neesrin Ubuntu, uma oficial fria e determinada, com uma reputação que a precede e mistura admiração e medo em sua tripulação. Além dela e de sua equipe da FAE está Lucas Ferraro, Exobiólogo que recebe a missão sem opção de negá-la, ele está preso pela FAE aparentemente de maneira irregular. A viagem é altamente arriscada, e pode resultar na morte de todos os seus integrantes, e o que os espera no outro planeta além de desconhecido pode ser perigoso.

Black Silence sofre de um mal que é muito comum nos quadrinhos brasileiros, a narrativa expressa. O universo criado para a narrativa central é grande e interessante, mas a história parece presa nas 87 páginas que tem para se desenvolver. Você sabe quem são os personagens porque se fala muito sobre eles, mas sem páginas o suficiente para desenvolvê–los as informações parecem cair no nosso colo ao invés de ser um processo mais orgânico. Informações interessantes que revelariam detalhes relevantes sobre como é e como funciona a sociedade da qual essa missão faz parte são apresentadas rapidamente mas nunca desenvolvidas. Fica a sensação de que havia muito mais história para contar, mas faltaram páginas.

Apesar desse problema de narrativa, Black Silence consegue contar uma história que conversa diretamente com os nosso medos, aqueles que são quase primitivos. O que vai acontecer com a humanidade quando chegarmos no nosso limite? Ao invés de escolher um cenário pós-apocalíptico onde veríamos a destruição humana, Mary Cagnin opta por nos mostrar um cenário contido nessa última missão. O modo como essas questões afetam ou não cada um dos membros da comitiva, os sacrifícios que todos eles tiveram que fazer para chegar no ponto em que estão – mesmo aqueles que nunca optaram por esses sacrifícios.

O quadrinho flerta com Hard Sci-Fi, mas é exatamente por não se fixar em detalhes muito específicos que ele ganha narrativamente. É possível ver influências tanto do clássico Vampiros de Alma (e talvez só essa menção já seja um pequeno spoiler), quanto de Alien: O Oitavo Passageiro. Pode-se dizer inclusive que há também um aceno para o tradicional anime de sci-fi Evangelium. isso tudo com uma roupagem mais atual e bem mais diversa etnicamente.

Um dos pontos altos de Black Silence é que dos seus cinco personagens, apenas dois são brancos. É difícil ver uma protagonista de sci-fi negra e é interessante ver como a protagonista se desenvolve. Se primeiramente Neesrin periga cair no estereótipo da mulher negra como uma fortaleza, algo que inclusive está dito na Ficha de personagens, mais para o final da história a Comandante da FAE ganha espaço para se desenvolver e mostrar um faceta diferente.

É muito legal ver o quadrinho nacional aprendendo a contar histórias de sci-fi sem cair na mesmice da narrativa tradicional americana. Black Silence é um produto criado por uma autora Brasileira que, assim como Mayara & Annabele, consegue caminhar por um gênero relativamente novo para a narrativa nacional, com elementos tradicionais de sci-fi, mas que se permite ir além sem parecer uma cópia esquisita do que já foi feito antes. Definitivamente vale a leitura.

Black Silence foi financiado no Catarse, mas você consegue adquirir uma cópia AQUI.

Tracer tem uma namorada!

A Blizzard acabou de lançar a nova HQ de Overwatch: Reflections (Reflexões, em português). A história é um pequeno especial de natal em que Tracer está tentando chegar a tempo em uma loja para comprar um presente.

Em certo momento da HQ, Tracer chega em casa e começa a conversar com Emily. A história dá a entender que elas estão morando juntas e que Tracer estava tentando comprar o presente para Emily antes de chegar em casa. Logo em seguida, o quadrinho mostra as duas se beijando.

O quadrinho dá bastante a entender que Tracer é lésbica e que ela está namorando Emily. Enquanto muitos fãs ficaram felizes com a notícia, não demorou para algumas pessoas na internet expressarem seu desgosto e questionarem porque isso importa.

Tracer é a personagem com maior visibilidade no universo de Overwatch. Ela é uma das figuras centrais nas animações e nos trailers que foram publicados antes mesmo do lançamento do jogo. Poderíamos dizer que Tracer é uma das personagens principais do jogo e o fato dela ser representada dessa forma dá uma visibilidade LGBT+ legal para a indústria de jogos. Ainda mais considerando que Overwatch foi premiado como o jogo do ano de 2016 pelo Game Awards.

A Blizzard já tinha dito antes que alguns dos personagens de Overwatch eram LGBT+, mas essa é a primeira das confirmações. Considerando que uma das propostas de Overwatch era ter um leque de personagens diversos, faz muito sentido que eles não sejam todos héteros. Também pode ser um incentivo para mais empresas de jogos incluírem esse tipo de diversidade em seus jogos.

O quadrinho está disponível no site da Blizzard.

Ask me about my feminist agenda: Chelsea Cain, assédio e a verdadeira agenda do meio dos quadrinhos.

Eu não saberia te informar quantas mulheres foram expulsas do twitter porque homens ligados aos quadrinhos acham que tem o direito de assediar mulheres na rede social simplesmente porque elas escrevem sobre um tema que não lhes agrada. Eles também parecem não entender que assédio e crítica são duas coisas completamente diferentes. Eu uso o termo “expulsa” porque é bem isso que acontece, já que o assédio e as ameaças são tão grandes que a mulher não vê outra escolha senão abandonar o twitter.

A última mulher a passar por isso foi Chelsea Cain.

Após este twitte…

Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.
Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.

Ela recebeu twittes deste nível:

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Eu não vou traduzir, a imagem é horrível o suficiente.

Chelsea é uma escritora Best Seller de romances que fez sua estréia nos quadrinhos na revista especial em comemoração aos 50 anos da SHIELD, Mockingbird. Devido ao sucesso que a edição especial fez, a revista ganhou uma série, que chegou ao fim este mês, em sua oitava edição.

Mockingbird, que conta a história da personagem Harpia, tinha uma equipe criativa composta maioritariamente por mulheres, e isso transparecia muito bem no papel, com personagens femininos e masculinos bem escritos, desenhos que brincavam com a nossa percepção de sexualização e quebrava alguns estereótipos de gênero. Um ótimo exemplo de como uma equipe criativa com mulheres pode resultar em mais acertos do que erros.

O twitter no qual anunciava o cancelamento da revista, e pedia por mais espaço para títulos criados por mulheres e com personagens femininas acabou gerando um onda de ódio. Ela respondeu assim:

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Minha fala não foi um pedido de atenção. Mesmo. Eu já cansei daqui. Eu estou impressionada com a crueldade que os quadrinhos fazem aflorar nas pessoas.
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“Eu te amo” – mensagem que a minha filha de 11 anos me mandou, pq eu estou no escritório lidando com bullies misóginos no twitter ao invés de…

Depois disso sua conta explodiu e a autora acabou saindo do twitter.

Chelsea não disse absolutamente nada demais, apenas pediu para que os fãs continuem cobrando da Marvel uma postura mais inclusiva, postura essa essa que permitiu que Mockingbird fosse criada.

O que também despertou a fúria dos trolls e dos fãs machistinhas de quadrinhos foi a capa da última edição. Essa maravilhosidade aqui:

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Eu acho engraçado como nós não podemos falar sobre temas como representação feminina, e feminismo nem mesmo com humor, mas devemos achar ok a capa de uma revista que hipersexualiza uma personagem negra e adolescente. Diferente da capa de J Scott Campbell, e eu uso esse exemplo porque ele é o mais recente, a capa de Mockingbird #8 dialoga perfeitamente com o conteúdo e com a personagem título da revista.

Não é uma capa ofensiva, é uma capa que lida de maneira bem-humorada com um tópico tão ~polêmico~ dentro dos quadrinhos: o machismo. Não se enganem, nós tivemos muitos avanços nos últimos anos, mas ainda são as autoras, ilustradas e executivas do meio que são expulsas do twitter, não os homens.

Muitos vão comparar as críticas que J. Scott Campbell recebeu com o assédio moral que Chelsea Cain recebeu, mas nem de perto é a mesma coisa. Enquanto Campbell foi criticado e questionado sobre seu trabalho, as ofensas direcionadas à Cain foram de nível pessoal e ofensivo. Crítica não é censura e assédio não é crítica, é violência.

Brian Michael Bends respondeu ao twitte de Chelsea imediatamente, mas digamos que não foi a melhor resposta que ele poderia ter dado.

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Bendis explicou, em outro twitte, que a intenção era dizer que não era um problema unicamente de quadrinhos. Mas aqui nós temos uma mulher que nunca precisou bloquear ninguém no twitter até começar a trabalhar com HQs, isso por si só já é justificativa o suficiente para ela acreditar que o meio dos quadrinhos é o problema. E ela não está completamente errada. Apesar de machismo e misoginia ser uma constante em todas as outras frentes da cultura pop, como games, RPG e mesmo literatura, os quadrinhos tem sim um problema gigante, um problema que editoras e grandes autores se recusam a reconhecer.

Em um post no seu site, Chelsea explicou porque deixou o twitter e como as coisas se sucederam. Ela não chegou a ler toda onda de ódio contra ela, porque cansou muito antes disso de acompanhar todos os twittes que recebia, ela não saiu do twitter por causa dos piores twittes, aqueles que vieram durante a noite e depois que começou-se a falar sobre eles, mas por causa dos que representam o machismo velado.

Mas saibam que eu não sai do twitter por causa de ameaças de estupro ou porque alguém postou meu endereço, ou alguma das coisas realmente vis que você lê sobre. Eu sai do twitter por causa do abuso diário, com o qual eu decidi que não quero mais conviver. O nível básico de grosseria e machismo. Claro, quando eu desativei minha conta na quinta pela manhã, tudo tinha explodido. E eu aposto que uma parte dos milhares de posts no meu feed foram realmente vis. Mas eu não sei.

E essa é a questão. Não é só quando trolls e fãs misóginos resolvem atacar em massa que essas mulheres são perseguidas no twitter, é sempre. É diário e é sintomático da indústria.

Leth Merenghi, roteirista de Vampirella, fez uma série de twittes comentando como o meio dos quadrinhos continua a fomentar esse tipo de comportamento agressivo. leth-merenghi

Mulheres nessa (e em muitas outras) indústrias sabem que nós precisamos ficar juntas e ajudar umas as outras porque, quem mais vai nos apoiar? Homens que são publicamente conhecidos por assédio, por agarrar, por MORDER, ainda estão empregados. Não existe consequência para eles. Se a gente fala, se dizemos não, a culpa é nossa. Criadoras de confusão. Não sabemos jogar em equipe. Ela é difícil de trabalhar… etc. Então além de ter que viver com o conhecimento que a sua segurança, e a segurança de outras mulheres ao seu redor, não é da preocupação dos poderosos, você também precisa lidar com o assédio dos “fãs”, num nível muito pior do que a maioria dos homens vai um dia saber. E precisa fazer isso com um sorriso. Então imagine o quanto nós amamos o nosso trabalho, para aguentarmos TANTO só para trabalhar. Você não pode ficar surpreso quando alguém desiste. Eu sei que eu falei muito, desculpe. Eu só estou cansada do status quo dos quadrinhos, e ter que lutar tanto por tão pouco.

Nós já falamos diversas vezes sobre como o mercado de quadrinhos, nacional ou americano, trabalha para excluir as mulheres do seu mercado, seja através da broderagem, seja quando não se fala ou não se faz nada contra os homens assediadores da indústria. Tudo isso colabora para criar ao redor dos quadrinhos um ambiente de permissividade quando o assunto é agressividade masculina direcionada à mulher.

Desde o começo da polêmica Mockingbird se tornou #1 em vendas online, o que é ótimo. E, claro, muitos homens sentiram a necessidade de desmerecer o movimento de apoio falando que a melhor maneira de apoiar uma autora é comprando as suas revistas, não através de “posts de tumblr”. E sim, nós precisamos comprar revistas feitas por mulheres, mas ainda é difícil saber quais são tais revistas, já que títulos como Mockingbird não possuem, nem de perto, o mesmo tipo de publicidade que os grandes títulos das editoras possuem. Grandes títulos esses que são majoritariamente escritos e ilustrados por homens. Além disso, com tantas autoras e ilustradoras sendo expulsas das redes sociais fica difícil para elas entrarem em contato com o seu público, uma outra maneira de fazer os seus títulos ficarem mais conhecidos. As coisas realmente não são tão transparentes como alguns editores da marvel parecem achar.

Em resposta à onda de ataques contra Chelsea, muitos fãs e profissionais dos quadrinhos passaram a utilizar a hashtag @IStandWithChelseaCain, e a twitter a capa de Mockingbird #8.


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Gail Simone, inclusive, fez uma thread inteira sobre o assunto, e vale muito a pena ler e acompanhar o pensamento da roteirista.

É ótimo ver que tantos fãs e autores de quadrinhos saíram em apoio à Chelsea, mas o que ainda falta toda vez que noticiamos esse tipo de acontecimento é a posição oficial das editoras. Apoiar os seus artistas é parte de mostrar-se realmente comprometida com o desenvolvimento de um ambiente mais seguro e saudável, mais inclusivo também. Porque se uma autora é atacada e a empresa não se posiciona, qual a mensagem que ela está passando tanto para seu empregados quanto para seus fãs?

A gente pode brincar com a frase “Ask me about my feminist agenda”, e eu já aviso que ela acabou se tornando símbolo de empoderamento e força pra as mulheres do meio dos quadrinhos, mas a verdade é que enquanto as grandes editoras e os grandes nomes dos quadrinhos fizerem vista grossa para todo o assédio moral e sexual que as suas funcionárias e colegas sofrem, tanto por fãs quanto por outros funcionários e colegas, a única agenda do mercado de quadrinho é a exclusão de mulheres através do machismo. Nós precisamos melhorar.

Resenha: Estranhos, de Fefê Torquato

Estranhos foi lançada em março de 2016, após ser financiada coletivamente no Catarse. A história do quadrinho de Fefê Torquato é contada do ponto de vista de um narrador que observa moradores de um prédio. Não sabemos quem é esse personagem, mas podemos acompanhar enquanto ele vai inventando histórias para pessoas que ele vê pela janela.

O quadrinho é dividido em partes, cada uma delas mostra um dos apartamentos. Acompanhamos aqueles moradores com a mesma curiosidade do narrador, enquanto ele nos apresenta o que acredita ser real, podemos tirar nossas próprias conclusões a partir do que vemos. Temos pessoas de todos os tipos, desde o ator frustrado até a família aparentemente perfeita.

Uma das coisas mais interessantes é como o leitor se relaciona com o narrador. Afinal, não estão os dois acompanhando a vida de pessoas que não conhecem? Óbvio que para o leitor, são personagens de uma história, mas tanto quem lê como o narrador não sabem o que realmente acontece com aqueles moradores, só podemos adivinhar e observar sem sermos convidados.

Morei em prédios boa parte da minha vida, já tive essa sensação de olhar para janela e imaginar o que acontece dentro de outro apartamento. Às vezes pode ser até no mesmo prédio, alguém que você vê no elevador ou uma briga que escuta do andar de cima. Pessoas são curiosas e não é incomum imaginarmos o que está acontecendo na vida do outro. Lendo Estranhos, também imaginei que conclusão as pessoas tirariam se vissem a minha rotina pela janela.

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Autografado 😀

Cada história nos faz refletir um pouco sobre certas coisas, é provável que os leitores se identifiquem mais com alguns moradores do que outros, mas todos os personagens podem trazer algum tipo de reflexão. Ajuda muito o fato deles serem tão diferentes, a maior semelhança mesmo que encontramos é que todos seguem uma rotina e moram no mesmo prédio.

O personagem do narrador também é interessante. Comentei como é normal imaginarmos o que acontece com o vizinho, mas esse narrador realmente gasta um bom tempo do seu dia olhando o que acontece com os outros. Fiquei me perguntando quem seria esse personagem. Como tem tanto tempo para ficar olhando pela janela? Por que faz isso todos os dias? Será que mora sozinho? Trabalha com o que? Mas acho que foi uma escolha boa o quadrinho não nos revelar nada sobre esse personagem além de seus pensamentos sobre os outros, o que pode dizer muita coisa.

Gostei muito também dos traços geométricos e da arte de Fefê Torquato, encaixou bem com o ambiente urbano em que o quadrinho se passa. A escolha dos desenhos estarem apenas em branco, preto e cinza também chama a atenção. As cores precisam ser muito bem pensadas para combinar com a história que está sendo contada. Um dos temas do quadrinho é a rotina com um tom melancólico, fazendo a escolha das cores encaixar bastante com a mensagem do texto.

A edição é muito bonita e a história deixa o leitor curioso para ler mais. Já tinha ficado contente quando descobri que o projeto tinha conseguido o financiamento necessário no Catarse, fiquei ainda mais feliz ao ver o resultado final. Recomendo a leitura, acredito que é um quadrinho bem legal e faz o leitor pensar em certos assuntos.

Estranhos tem 122 páginas e pode ser adquirido aqui.

Originalmente postado em Ideias em Roxo

Persépolis e a construção da mulher

 

Persépolis é uma HQ autobiográfica escrita por Marjane Satrapi. A história choca e emociona muitos leitores, principalmente pela sua complexidade. Muitos conhecem Persépolis pela animação que concorreu ao Oscar em 2008. Até mesmo para quem assistiu ao filme, a leitura do livro é recomendada, não apenas pela HQ ser uma obra incrível, mas também pela reflexão levantada por ele sobre a construção social da mulher e seu papel em diferentes sociedades.

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A história trata das diversas fases da vida de Marjane, que foi criada numa família permeada por ideais liberais e muito crítica quanto à situação de seu país, o Irã. Por influência dos pais, ela aprende muito cedo o que é militância.

Contudo, em 1979, a Revolução Islâmica mudou para sempre a vida de Marjane, que tinha dez anos. Os xiitas subiram ao poder e a menina, que sempre se viu como uma defensora das liberdades individuais e sociais, se viu numa condição degradante: o Estado demandava que as mulheres usassem véus, já que seus cabelos seriam objetos de excitação para os homens. Além disso, valores ocidentais começaram a ser completamente rejeitados. Ela não pôde mais estudar francês e até sua escola se dividiu. Garotas numa sala, meninos em outra.

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Essa situação se parece com o que muitas alunas enfrentam aqui no Brasil,  onde não é incomum que professores “peçam” que as meninas usem calças para que os meninos não se distraiam com suas pernas. Em países islâmicos, onde se impõe vestimentas e comportamentos femininos, há muito mais opressão para as meninas. Em nível menor, apesar de o Brasil ter um Estado laico, a fonte de repressão é a mesma – o patriarcado.

Mesmo assim, os valores liberais que sua família tinha fez de Marjane uma aluna rebelde, que criticava as novas normas impostas às mulheres e reivindicava seus direitos.

 

Mudança

Enquanto ainda morava no Irã, Marjane era a imagem da menina liberal, independente, que não tinha papas na língua ao criticar o Estado. Mas, à medida que a guerra foi piorando no país, os pais dela a mandaram para a Europa sozinha, ainda criança, para concluir seus estudos.

A imagem da mulher ocidental era estranha para Marjane, que desde os dez anos teve de lidar com as limitações impostas pelo Estado. As meninas da Áustria, país para onde foi mandada, tomavam pílulas contraceptivas, tinham relações sexuais com homens que nem sempre eram seus namorados, e costumavam fumar maconha quando se reuniam com amigos.

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A adaptação foi difícil para a protagonista, que começa a passar por um conflito interno. Marjane, quando ainda no Irã, se via como liberal. Mas no meio de outras mulheres liberais, ela passava a ser uma conservadora, que estranhava os costumes das europeias. Marjane teve de passar por situações que iam contra aquilo que foi criada para ser num grupo social que tinha leituras, vivências, costumes e hábitos completamente diferentes de tudo que ela havia visto até então e se tornar, de fato, uma menina europeia.

À medida que ela vai incorporando este estilo de vida ocidental, sua situação, que já estava delicada com a adaptação a um novo país, piorou. A fase da puberdade chegou, a aparência dela mudou e suas inseguranças e baixa autoestima tornaram sua vida ainda mais difícil.

Ela era diferente das europeias. Tinha traços persas, árabes, diferentes daquilo que os europeus estavam acostumados. Mas ela não queria ser diferente. Marjane queria pertencer a algum lugar. Deste modo, mesmo com seus esforços corajosos para se parecer com uma menina ocidental, ela ia cada vez mais perdendo sua identidade.

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Marjane não se sentia bem e não conseguia se adaptar integralmente. Era reconhecida como a mulher oriental submissa, atrasada, conservadora, que não  sabia viver como as europeias de cabelos louros e olhos azuis, que, por sua vez, tinham grande liberdade social, pessoal e sexual e que, durante as férias escolares, iam esquiar com a família. Sem mencionar, é claro, que as europeias com quem Marjane convivia tinham leituras aprofundadas de intelectuais como Mikhail Bakunin, Simone de Beauvoire e Jean-Paul Sartre, autores cujo quais ela nunca havia ouvido falar. Ela, que se reconhecia como uma menina liberal em seu país natal, se sentiu inferior ao notar que não tinha leituras de autores cujas ideologias eram liberais.

Portanto, sua situação – e sua visão de si, principalmente – vai se degradando até que ela se vê distanciada de seus conhecidos, passando suas noites acordada na rua e dormindo durante a manhã em trens. Mesmo com seus esforços para se adaptar, se encaixar e ser uma mulher ocidental, Marjane se frustra. Não consegue ser aquilo que deseja.

 

Volta para o Irã

A guerra no Irã vai diminuindo de intensidade e as condições de vida em seu país de origem vão lentamente melhorando até que Marjane decide voltar e encarar sua condição de mulher oriental. Ela sente falta do calor familiar – e talvez tenha se cansado de ignorar sua identidade e frustrar-se por isso.

Deprimida, a protagonista passa o fim de sua adolescência e início da vida adulta no Irã, mesmo tolerando suas restrições pessoais e sociais como mulher. Contudo, apesar das condições sociais limitantes, lá ela se descobre mais forte que imagina e passa a superar as dificuldades que passou durante seu tempo na Europa. Ela se fortalece não somente com seus esforços, mas pelo apoio imprescindível de seus amigos e familiares que a aceitam como a mulher que se tornou.

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No Irã, ela é aceita numa universidade onde, como artista, tem um pouco mais de liberdade expressão e pode exercer sua militância, mesmo que de maneira sutil. Deste modo, aos poucos ela vai assumindo sua identidade como mulher persa que sempre lutará por seus direitos. É neste ponto que Marjane torna-se uma feminista íntegra e independente, apesar de não se assumir oficialmente como uma.

 

Identidade

Se construindo aos poucos como mulher e artista, ela volta à Europa, onde passa boa parte de sua vida adulta. É lá que escreve esta obra de arte que merece ser lida por todos chamada “Persépolis”. É um livro que me fez refletir sobre a imagem que eu tinha construída sobre a mulher oriental, especialmente aquela que vive num país árabe sob um governo conservador xiita, como o Irã.

O Irã realmente se fechou do mundo com a Revolução Iraniana e se mantém desta maneira até hoje, indiscutivelmente. Os direitos sociais das mulheres são restringidos. Elas são objetificadas e obrigadas a seguir inúmeras normas sociais. Mas a reflexão sobre quem é a mulher oriental continua batendo na minha cabeça.

Temos uma visão completamente unilateral e eurocêntrica de liberdade. Na França, proibimos mulheres que usem o véu islâmico, apesar de ser uma escolha pessoal. Vemos a burca como um ato de submissão. Mas por vivemos em “liberdade”, a tendência é vermos povos orientais como pessoas que não possuem nosso grau de intelectualidade – nossas leituras aprofundadas, experiências e mentalidade – e que, portanto, não são tão livres quanto nós. O resultado disso é que achamos que exercemos nossa liberdade ao restringir a do outro.

A HQ me fez refletir sobre meu próprio eurocentrismo. A identidade da mulher ocidental é realmente tão livre quanto imaginamos? Afinal, todas sofremos os efeitos de sociedades patriarcais, apesar de em diferentes graus. O que constitui nossa própria identidade como mulheres de diferentes nacionalidades? Na maior parte do tempo, nos mantemos fixos num padrão de beleza que ignora a beleza oriental. Ficamos presos a uma construção social latente, à nossa própria ocidentalidade eurocêntrica. Com certeza Persépolis é uma porta aberta para desconstrução.

Broderagem, mercado e exclusão.

Aqui no Collant o nosso público principal são as mulheres, isso não quer dizer que você, cara, não é bem vindo. Muito pelo contrário, está super convidado à ler, assistir e comentar nos nossos textos/vídeos/podcasts, mas saiba que esse espaço não gira em torno de você.

Hoje, no entanto, eu quero falar com vocês, porque eu vou discutir um tema que muitos caras parecem não identificar nem entender como funciona: a broderagem.

A broderagem acontece quando um homem ajuda um brother. Há muito valor em uma pessoa ajudar outra pessoa, nós vivemos tempos complicados e um gesto de auxílio ao próximo é sempre muito bem vindo. Mas hoje a broderagem que parece tão inocente, positiva e natural, pode ser algo bastante negativo para qualquer pessoa que não seja um homem, branco, hetero e cis.

Vou usar a lógica do meio dos quadrinhos, mas você pode aplicá-la em qualquer outra área.

A maioria dos produtores de conteúdo, em posições de poder ou não, são homens. Isso é um reflexo do histórico e reconhecido apagamento das mulheres das produções culturais. Durante centenas de anos fomos proibidas e excluídas de participar dos cenários culturais a não ser como musas ou ouvintes. Muitas vezes nos proibiram inclusive de sermos leitoras. Parece que eu estou indo longe no tempo, mas a verdade é que esse conjunto de verdades históricas traçaram o caminho para que hoje, em pleno 2016, homens ainda sejam a maioria dos gate keepers para se entrar no mercado de quadrinhos. Gate Keepers são os responsáveis pela seleção de artistas, curadores de coletâneas, editores e donos de editoras, sites e distribuidoras.

As mulheres e outras minorias estão cada vez mais interessadas no meio dos quadrinhos, comentando, lendo, criticando, escrevendo, ilustrando. À medida que vamos discutindo representatividade vamos percebendo que sempre estivemos aqui, mas que antes ou não participávamos ativamente desse mundo, ou éramos ignoradas. Mulheres estão criando conteúdo de qualidade que atrai seguidores e críticas positivas, mas ainda precisam passar por essa barreira que parece invisível e tem pouco a ver com a qualidade do seu trabalho, a broderagem.

Ela se estabelece assim: Um editor/curador/pessoa em posição de poder vai criar uma coletânea/contratar um ilustrador ou escritor. Esse editor conhece um cara de quem ele é próximo/viu uma vez na vida/nunca viu e gosta do trabalho dele. Esse editor/curador/pessoa em posição de poder vai contratar esse brother. Contratado o escritor/ilustrador, eles vão dar a exclusiva do lançamento do produto/quadrinho para o site de um outro brother. Esse outro brother vai falar sobre o trabalho desses outros dois brothers e eles vão ganhar espaço, público e, quando forem para o próximo projeto, contratarão ainda outro brother. E assim a broderagem continua ad infinitum.

Isso não quer dizer que você editor/curador/pessoa em posição de poder é uma pessoa ruim, apenas que ao invés de fazer uma pesquisa e abrir seu olhar para outras possibilidades resolveu ajudar um brother. Ao fazer isso, no entanto, você está mantendo o fechado círculo de homens-que-já-estão-na-cena funcionando, abrindo vez ou outra, para uma mina que se torna A UNICA MINA e, muitas vezes, é usada como justificativa quando cobram de você um posicionamento mais inclusivo.

Isso acontece porque o ambiente é majoritariamente masculino, de homens que vão ajudar outros homens em detrimento de outras pessoas (que são, em sua imensa maioria, mulheres e outras minorias). Esses homens tem internalizado que mulheres são menos capazes, que suas opiniões são menos importantes e que são menos interessadas em quadrinhos. Muitas vezes eles também acreditam que mulheres sempre preferem coisas fofas e delicadas e, por isso, não saberiam fazer quadrinhos mais sérios e políticos, de terror ou horror. De novo, isso não quer dizer necessariamente que você é um cara ruim, apenas que ainda não tinha se dado conta de como esse sistema funciona e nem tinha se ligado que esses conceitos estão internalizados.

Agora você sabe. 

E sabendo disso vão se levantar outras tantas questões.

Mas então eu não posso mais ajudar um brother?

Claro que pode. Mas quando você for fazer isso lembre-se que se oportunidades não forem dadas mulheres e outras minorias nunca vão fazer parte do universo dentro do qual você existe. Enquanto você continuar chamando só os caras para aquela coletânea de quadrinhos, enquanto você limitar a participação feminina à um número mínimo, e enquanto você não parar de encarar a produção feminina dentro de quadradinhos estereotipados você também é responsável pela manutenção do sistema que vai favorecer apenas à você e à outros homens.

Mas isso quer dizer que os homens vão perder espaço.

Sim, mas isso não é uma coisa ruim. Ao invés de encarar isso como uma perda, pense em tudo que se pode ganhar ao transformar o mercado em um lugar com mais idéias e outros olhares além do masculino padrão. A democratização do espaço vai nascer daí, com oportunidades iguais para todos nós vamos realmente ter um universo em que a única coisa que vai importar é a qualidade do seu trabalho, se ele se alinha ao projeto ou não, se você entrega dentro do prazo ou não. Enquanto o mercado trabalhar dentro da lógica da broderagem o que nós vamos ter é um espaço majoritariamente masculino, excludente e que insiste no discurso de que “é uma questão de qualidade”, quando na verdade não é.

Mas é uma questão de qualidade.

Você já se perguntou por que existem menos mulheres do que homens produzindo quadrinhos? Hoje, no Brasil, são 420 mulheres confirmadas produzindo. A lista, feita pela quadrinista Aline Lemos, juntou tanto nomes conhecidos quanto quadrinistas que ainda estão ralando por algum reconhecimento. Uma das principais dificuldades quando falamos sobre fazer quadrinhos é convencer mulheres de que a opinião delas importa. Assim como vocês, nós, mulheres, crescemos escutando que a opinião feminina não importa ou não é tão importante quanto à do homem. Tomar coragem para colocar no papel o que a gente pensa exige muito de muitas mulheres, e enquanto nós não nos vermos produzindo vai ficar ainda mais difícil. Então enquanto vocês rabiscam três riscos e se consideram quadrinistas, as mulheres precisam primeiro aprimorar a técnica, a narrativa e a linguagem para depois ter coragem de publicar qualquer coisa. Enquanto vocês se ajudam um aos outros, nós precisamos nos provar para nós mesmas e para vocês. E mesmo quando atingimos uma qualidade considerada profissional ainda sim somos excluídas. Não é uma questão de meritocracia, é uma questão de oportunidade.

Mas por que mulheres podem se ajudar umas às outras e homens não?

De novo, não é uma questão de que vocês não podem ajudar uns aos outros – é que você só fazem isso. E esse comportamento é sim responsável pela manutenção de um ambiente excludente e hostil para a produção feminina e de outras minorias. Quando mulheres ajudam mulheres em espaços que são majoritariamente masculinos nós estamos carvando participação, apoiando e transformando esse mesmo espaço num lugar mais inclusivo e iqualitário. Assim como nós precisamos sempre pensar de maneira interseccional, para não excluir nenhuma mulher, vocês precisam pensar de maneira a não se fechar apenas em homens.

Então esse ano, quando você for criar aquela coletânea de entrevistas com quadrinistas, aquela coletânea de maiores quadrinhos brasileiros, quando for convidar os quadrinistas internacionais e nacionais para o seu evento, quando for formar mesas de discussão sobre qualquer assunto e não unicamente sobre ser mulher nos quadrinhos, quando você for contratar um ilustrador/desenhista/jornalista, lembre-se que se você nunca olhar além do seu clube masculino fechadinho, você está sendo conivente com um sistema excludente. Lembre-se dessa lista de mulheres quadrinistas (e se precisar me procura que eu te re-envio ela), lembre-se de fazer uma pesquisa e levantar nomes de quadrinistas que saiam do padrão homem-branco-hetero-cis. Lembre-se de olhar além da broderagem e ajudar as manas.

Onde estão as mulheres do quadrinho nacional?

No começo do ano, o site Toró de Ideia divulgou o resultado de uma pesquisa sobre o Quadrinho Nacional e o seguinte depoimento de uma leitora me chamou bastante atenção:

Eu gosto dos artistas nacionais, principalmente o Laerte, os irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá, o Willian Leite, Mário Cau e Carlos Ruas, quase sempre leio eles online, mas já comprei livros. Eu me pergunto onde estão as mulheres dos HQs nacionais? Eu acompanho muito as latinoamericanas e espanholas autoras de P8ladas, Ana Bélen Rivero, Monstruo Espagueti, “Diário de una volátil by Augustina Guerro, Let´s Pacheco e Moderna de Pueblo. Eu preferia importar o trabalho dessas artistas (livros e produtos) do que comprar os nacionais pela qualidade e pelos temas das histórias

Agora responde pra mim, rapidinho, quantas destas meninas do quadrinho nacional você conhece?

Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3
Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3

Pois bem. De 2012 pra cá, nós tivemos um aumento significativo de mulheres cis e trans produzindo tiras, web comics, zines e quadrinhos impressos com os mais variados temas. Assim como na gringa, aqui no Brasil mulheres estão desenhando, escrevendo, colorindo, letrando, organizando eventos de quadrinhos e ocupando cargos de direção em editoras.

Garotas incríveis como Beatriz Lopes, Gabi LoveLove6, Sirlanney, Laura Athayde, Débora Santos, Dharilya Sales, Luiza de Souza, Renata Nolasco, Lila Cruz, Thays Koshino e Mariana Paraizo, são apenas alguns das muitas brasileiras que encontram nas publicações independentes uma forma de contar suas histórias. Coletivos como Mandíbula, Zinas, Whatever 21, Foca no Rolê, Studio Seasons e Selo Pequi são exemplos de como o apoio mútuo entre mulheres fortalece o surgimento de novas publicações impressas e digitais.

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Alguns dos quadrinhos e zines feitos pelas mulheres citadas acima

Mesmo com produções de qualidade, poucas autoras figuram nas listas de melhores do mês-ano de sites especializados em HQ´s. Um número menor ainda aparece em coletâneas de quadrinhos, e só 13% dos indicados ao HQ Mix (uma das maiores premiações nacionais de quadrinhos) do ano passado eram mulheres, como vocês podem ler aqui e aqui. Mas por que isso acontece?

Se a gente voltar um pouquinho no tempo, vamos perceber que a história da arte (e da humanidade) enaltece os feitos dos homens enquanto criadores e delega à mulher o papel de musa, de companheira, de amante e de mãe. As que fogem a esse padrão são pouco conhecidas e precisam desafiar as imposições de suas épocas, além dos ambientes predominantemente masculino, para se tornar conhecidas pelo público. 

Nos quadrinhos não é diferente. Durante muitos anos Nair de Teffe, uma caricaturistas do início do século XX considerada importante para a narrativa gráfica brasileira, assinou seus trabalhos como Rian. Emy Acosta, desenhista da Mauricio de Souza Produções desde a década de 70 é responsável pelo formato arredondado da Turma da Mônica, mas só em 2015 os autores passaram a ser creditados.

Estranho né?

Antes de escrever este post, eu estava lendo  “As Mulheres nas Histórias em Quadrinhos” da Karina Goto, o que me permitiu voltar a refletir sobre o lugar comum permissível às quadrinistas. Explico. Ainda existe um pensamento dominante de que quadrinhos são produzidos apenas por homens e para homens e isso fica claro quando observamos a quantidade de quadrinhos feitos por homens presentes em editoras, em coletâneas, nas livrarias, na sua prateleira, no vlog que você assiste, nos sites que você lê e nas reações do público nas feiras de impresso. Já vi pessoas ficar empolgadas ao conhecer autoras, mas também já vi caras ignorando meninas em mesas mistas de artists alley. Isso só reforça a teoria de que mesmo que mulheres façam Hq´s de terror, de comédia, espaciais, eróticas, autobiográficas… estas produções serão consideradas fofas. Como afirma Fernanda Nia, na monografia da Karina: “Por mais que você trate de um tema profundo ou faça um material de qualidade, se suas cores forem claras e a personagem for feminina, o quadrinho já é tachado como “de mulher” e vai pro submundo onde a crítica nem chega perto.”

Enquanto permanecem invisíveis à mídia brasileira especializada em quadrinhos, muitas autoras são ridicularizadas por “caras engraçados” que decidem fazer piada com o traço, a mensagem, ou com a imagem das quadrinistas. Mesmo assim elas seguem publicando seus trabalhos na internet; Montando suas banquinhas em feiras de impressos por todo o Brasil; Sendo convidados de grandes eventos como FIQ, Comic Con e etc. inspirando outras mulheres a ler e fazer quadrinhos.

Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.
Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.

Nos próximos posts aqui no Collant sem Decote vamos continuar nossa conversa e tentar entender qual o lugar da mulher no quadrinho nacional, assim como espero apresentar pra vocês, trabalhos de autoras tão incríveis como estes da foto, permitindo que elas sejam reconhecidas pela qualidade do seu material, independente do gênero que elas escolheram pra contar suas histórias.

E se você gosta de artistas nacionais, mas não reconheceu as garotas da ilustração que abriu esse post, dá uma pesquisada nesses nomes:

1 ) Garota Siririca – Lovelove6

2 ) IlustraLu – Luiza de Souza

3 ) Vannila Tree – Brendda Costa Lima

4 ) DesalineadaAline Lemos

5 ) Gata Garota – Fefê Torquato

6 ) ManzannaAnna Mancini

7 ) Laços – Lu Cafaggi

8 ) Glitter Galaxia – Bárbara Malagoli

9 ) BlearghTombo Bê

10 ) Bear – Bianca Pinheiro

11 ) MarioneteMariana Sales de Clementino

12 ) Chiqsland – Fabiane BL Chiq

13 ) Cynthia B. – Cyn Neves

Arlequina não quer mais saber do Coringa

Aviso: Essa postagem contém spoilers das HQ da Arlequina, incluindo o volume 25.

Já comentei em alguns textos que não sou a maior leitora de quadrinhos. Tenho aumentado meu repertório de uns tempos pra cá, mas ainda é pequeno e são principalmente as publicações da Image Comics. Porém, como tem se falado muito dos personagens do Esquadrão Suicida, principalmente da Arlequina, resolvi ler os quadrinhos novos dela por curiosidade.

Essa semana saiu o volume 25 da HQ da Arlequina e em pouco tempo várias imagens surgiram na internet. Na hora que eu vi do que elas se tratavam eu senti algo que mal consigo descrever. Era um misto de alívio, satisfação e felicidade, o que me pareceu estranho depois que parei pra pensar porque eu nunca me considerei uma fã da Arlequina, não por nada, mas porque comecei a conhecer mais da personagem agora.

Pra quem não acompanha a HQ, mas quer ler a postagem mesmo assim, o que acontece é: Arlequina decide mudar de vida e vai para o Brooklyn, onde mora em um novo apartamento, com novos amigos, uma gangue e visitas periódicas da Hera Venenosa. Apesar de possuir métodos nada éticos, dá pra perceber que ela se preocupa com os outros e quer, do seu jeito, fazer o bem, continuando sempre bem-humorada.

Arlequina começa a sair com um cara chamado Mason, que algum tempo depois é preso e mandado para o Asilo Arkham. Sabemos que Arlequina já trabalhou lá e invadiu o lugar, então ela decide voltar para salvar Mason. Acontece que no meio disso, ela encontra o Coringa, que também está preso. Depois de uma briga entre os dois, Arlequina finalmente dá um ponto final no relacionamento abusivo que tinha com ele.

Pois é, isso mesmo que você está lendo, por mais que a HQ tivesse andando para esse lado, eu não achei realmente que algum dia veria, de forma tão gráfica e óbvia, a Arlequina terminando com o Coringa, mas foi isso que aconteceu, e é óbvio que o assunto principal do texto é esse, mas eu queria também falar de outras coisas que acontecem no quadrinho que levaram a isso.

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