Sapacoco, novo quadrinho da Netuno Press, será lançado na CCXP!

Falamos de quadrinhos de ação, terror, mas agora vamos dar uma sugestão de… Quadrinho sobre amigos imaginários. Pois é, CCXP está chegando e a variedade de quadrinhos disponíveis do beco dos artistas é grande! Vamos falar um pouco de Sapacoco.

O que acontece com um amigo imaginário quando ele não tem mais um amigo? Ele vira um imaginário? Esse é o ponto de partida de Sapacoco novo quadrinho de Márcio Moreira e Débora Santos (Pombos!), do selo Netuno Press.

Mauro e Sapacoco eram amigos inseparáveis, mas, nove anos depois, o garoto decide que está velho demais para ter um amigo imaginário. Agora, Sapacoco precisa lidar com a separação e decidir o que fazer da vida. Afinal, o que é um amigo imaginário quando ele não tem mais um amigo? Mas claro que as coisas não são tão simples assim e Sapacoco descobre que Mauro guarda um segredo… kawai!

Sapacoco é uma história sobre amadurecimento, perseguição de carros e um bar onde fantasias vão encher a cara. E só uma dessas três coisas é mentira! São vinte páginas de quadrinhos (e pelo menos um poema) impressas em risografia, nas cores azul e rosa, em formato mangá.

O quadrinho estará disponível na mesa H29 durante a CCXP 2017!

Sapacoco
24 páginas
13,5 x 20,5 cm
Impresso em risografia, azul e rosa
R$ 15,00
Selo Netuno Press
Lançamento na CCXP, mesa H29.

Liberdade de Expressão ou Discurso de Ódio – Uma conversa sobre terror e cultura pop.

O termo “liberdade de expressão” é corriqueiramente jogado contra quem discute e critica o status quo excludente da cultura pop. Se criticarmos o status quo branco, masculino, heterossexual e cis, então estamos tentando censurar e por isso estaríamos rompendo com a liberdade de expressão dos produtores de cultura pop. 

Quando uma figura pública fala absurdos misóginos, racistas e etc, seus defensores correm para gritar “liberdade de expressão”. Mas o que talvez essas pessoas não saibam é que você ser livre para falar o que vem na sua cabeça, para jogar as suas idéias no mundo, não quer dizer que você é livre para clamar a morte de um grupo de pessoas. 

Durante o fim de semana do dia 12/08, nós assistimos em choque o que aconteceu na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia nos Estados Unidos. Enquanto muitos conseguiram ver o ataque pelo que ele foi, um ato de disseminação de ódio, preconceito e glorificação de uma ideologia segregada e assassina, algumas pessoas insistem que o que aconteceu foi, apenas, um grupo de pessoas expressando suas opiniões, o protesto contra a queda de uma estátua. 

Eu quero tentar tocar em todos os aspectos dessa discussão, mas antes de continuar, eu gostaria que você assistisse à este vídeo. São 20 minutos em que a equipe da Vice acompanha o grupo de nazistas que organizou a marcha de sexta e sábado. O vídeo possui imagens fortes do atropelamento, então se você não quiser assistir esta parte sugiro pular de 11:11 para 11:55 minutos. 

Liberdade de Expressão vs Consequências

Muitas pessoas entendem liberdade de expressão como um passe livre pra falar ou fazer qualquer tipo de coisa. Essas pessoas falam e agem da maneira que bem entenderem, mas quando a sociedade responde ao seu comportamento e à sua fala, elas ficam indignadas e confusas – como assim liberdade de expressão não as exime de responsabilidades? 

Alguns anos atrás, quando o caso da jovem que sofreu estupro coletivo no Rio veio à tona, um ilustrador brasileiro postou comentários misóginos e transfóbicos na sua página pessoal de facebook. A empresa que fazia o seu agenciamento para o mercado internacional decidiu desligar-se dele, cancelando o contrato dos dois. Muitos chamaram a decisão da empresa de censura, de submissão ao politicamente correto. A verdade é que a empresa não tirou lápis, papel e computador do ilustrador, ela apenas decidiu que não serviria mais de plataforma para o trabalho dele. 

Você pode falar o que você quiser, pode postar na sua página pessoal do facebook ou do twitter o que você quiser, mas isso não quer dizer que ninguém vai cobrar responsabilidade sobre o que você expressa. Liberdade de expressão não significa que o que você fala não será julgado, não significa que você não sofrerá consequências pelo que você diz, pelo que você coloca no mundo.

Um outro exemplo disso aconteceu alguns meses atrás, o youtuber PiewDiePie perdeu patrocinadores quando começou a chamar atenção para o conteúdo envolvendo nazismo que ele produzia para o seu canal. De novo gritaram censura e ditadura do politicamente correto, mas agora, em face do que aconteceu em Charlottesville, PiewDiePie soltou uma declaração dizendo que vai definitivamente excluir esse tipo de conteúdo de seu canal – ele não quer dar plataforma para uma ideologia na qual não acredita. Isso não é censura, não é ele se entregando para a suposta ditadura do politicamente correto, é um posicionamento importante em um momento de instabilidade como o atual. Espero, de verdade, que ele tenha entendido os problemas com o conteúdo que ele disponibilizava. 

Entender a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio é imprescindível para que nós continuemos a afastar e coibir movimentos nazistas como o de Charlottesville. A Lorelay Fox soltou um vídeo ontem que sintetiza muito bem a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio.

“Quando um discurso inferioriza o outro, quando um discurso tenta segregar religiões ou raças, quando um discurso inferioriza e ofende e pode gerar comportamentos agressivos contra outras pessoas. Um discurso que visa manter alguém no poder enquanto rebaixa uma parcela da sociedade.”

Lorelay destaca que no Brasil o discurso de ódio contra negros, mulheres e religiões está registrado como crime na nossa constituição, mas o mesmo não acontece com o preconceito contra LGBT – essa é uma luta que ainda está sendo travada.

Eu entendo que é difícil entender como falar de tolerância querendo cercear algum tipo de discurso – mas isso é um paradoxo. Não é possível falar em liberdade de expressão se parte do discurso que deveria ser liberado busca atacar uma parcela da sociedade. A Picoline fez um quadrinho que fala de maneira interessante dessa questão:

Além de entender a diferença entre Liberdade de Expressão e Discurso de Ódio é preciso lembrar de algo que nós sempre falamos por aqui: você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Nós falamos sobre isso com certa frequência por aqui: Você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Inclusão vs Segregação

Esse é um ponto que, ao meu ver, deveria ser muito mais fácil de entender do que parece ser. Ainda assim, muitas pessoas tem dificuldade de entender sobre o que são os movimentos sociais mais recentes, seja na discussão sobre representação dentro da cultura pop, seja em movimentos sociais que tomam as ruas como o Black Live Matters. 

Duas das frases que os manifestantes neonazistas e supremacistas gritavam em Charlottesville eram “White Lives Matter” e “You/Jews will not replace us”, respectivamente “Vidas Brancas Importam” e “Vocês não vão nos substituir”. Esses dois cânticos mostram um desconhecimento, muitas vezes opcional, sobre o que realmente são as discussões que ocupam as notícias dos últimos anos. 

Movimentos Sociais que buscam justiça social não são sobre colocar homens brancos em caravelas e mandar de volta para a Europa, eles são sobre tornar a nossa sociedade realmente justa e igualitária para TODOS. 

Black Live Matter não é sobre apenas a vida de uma pessoa negra importar, é sobre a vida de uma pessoa negra ter o mesmo valor da vida de uma pessoa branca. É sobre uma mulher negra e grávida ter as mesmas chances de não ser assassinada pela polícia que ela mesma chamou, chances que uma mulher branca nas mesmas condições teria. É sobre um garoto adolescente negro poder caminhar pela calçada da rua sem ser morto, assim como diversos outros garotos brancos fazem todos os dias. Não é sobre excluir brancos, não é sobre a vida branca não importar, é sobre não matar negros. Pedir para que a sociedade seja mais justa e não mate pessoas negras apenas por serem negras não me parece pedir por muito, parece ser pedir pelo mínimo. 

“Vocês não vão nos substituir” é um cântico que conversa diretamente com o discurso de alguns ativistas racistas e misóginos da cultura pop. Essas pessoas acham que, porque nós queremos mais representação feminina e de outras minorias, nós estamos dizendo que personagens brancos e masculinos precisam ser substituídos, mas não é sobre isso. É sobre abrir a cultura pop para representações que abranjam mais do que o branco e masculino – porque a nossa sociedade é muito mais do que isso. Nós não queremos pegar autores, ilustradores e personagens brancos e esquecê-los, nós queremos incluir novos personagens, queremos ver novas e mais diversas histórias sendo contadas. O mesmo pode ser dito sobre incluir minorias de maneira mais justa dentro da nossa sociedade. 

Sobre  manter-se neutro/imparcial. 

Muitas vezes, quando discutimos questões sociais como racismo e machismo, muitas pessoas caem no discurso que procura colocá-los num lugar de neutralidade sobre os assuntos: “Não são machista nem feminista”, “os dois lados estão errados”. Além de demonstrar um desconhecimento sobre as lutas e o significado das palavras, esse tipo de discurso, por mais que tente não ser, é sim um discurso político, já que acaba caindo no silêncio. 

Quando estatísticas mostram os números da representação feminina e masculina, quando as estatísticas de mortes entre a população negra cruza com as estatísticas de acesso à formação e direitos humanos básicos, quando o número de mulheres assassinadas por seus companheiros explode bem na cara dessas pessoas e ainda assim eles decidem assumir uma postura “imparcial” ou neutra, isso é escolher um lado. Porque mesmo com todas as informações e dados entregues nos seus colos de mãos beijadas, eles decidem olhar para o outro lado e, ao ignorar esses dados, estão escolhendo manter o status quo assassino e excludente em detrimento daqueles que são oprimidos por ele. 

Alguns meses atrás eu escrevi sobre Nick Spenser e seu arco de histórias na Marvel em Capitão América: Sam Wilson. Neste arco um Capitão América negro chega à conclusão de que precisa ocupar um espaço de neutralidade frente às questões políticas dentro da sociedade. Essa necessidade vem da errônea visão de que Steve, o Capitão original, sempre foi neutro. Sobre isso eu escrevi: 

Assumir que alguém é neutro politicamente é ignorar os sistemas de poder em ação na nossa sociedade – todo mundo é político, mas essa narrativa de neutralidade é algo do qual Spencer e seus semelhantes se aproveitam e validam. Eles são tão privilegiados que são incapazes de reconhecer esses privilégios, acreditando que são a norma, aquilo que é o padrão. O inquestionável. Qualquer um que esteja fora dessa norma, facilmente qualquer grupo de minoria, se torna político e, por isso, tendencioso. Essa visão, além de ignorar que a própria escolha de se ocupar uma suposta neutralidade política é um ato político (já que você decide se esquivar de responsabilidades, por exemplo), também lança uma sombra negativa sobre as minorias, já que à elas não é dada a opção de ocupar o tal lugar neutro.

Não contente, Spencer ainda foi responsável pela alteração da origem do Capitão América, colocando ele como um agente da Hydra desde o começo. Eu sei que a ordem cronológica da Marvel é uma bagunça e nada é definitivo, mas em tempos como os nossos esse tipo de mudança tem um peso muito grande, ainda mais com um personagem que foi criado como símbolo de luta contra o nazismo. 

Naja Later, autora no site Woman Write About Comics, resumiu bem o problema com o modo como a cultura pop, em específico a Marvel e Nick Spenser, tratam esse assunto: 

Se nós concordamos em Capitão América: Sam Wilson que Steve é “neutro”, então toda a identidade política de Steve é esvaziada para dar lugar à história de origem nazista em Capitão América: Steve Rogers #1. Nazismo se torna parte do espetro aceitável, e isso acontece porque Spencer construiu essa lógica narrativa desde o começo.

Como Gail Simone lembrou muito bem durante o fim de semana, os quadrinhos odeiam o Nazismo. 

Charlottesville e Nazismo

Eu até consigo entender, ou tentar entender, quem possui resistência quando discutimos cultura pop e representação. Nós estamos há décadas consumindo só um tipo de cultura pop, com um tipo de representação, é fácil cair na falácia da representação branca como padrão e universal. Mas neste caso, no que aconteceu em Charlottesville, quando falam em “liberdade de expressão” eu realmente não consigo entender. Porque eu tenho poucas certezas na minha vida, mas se existe uma certeza que é tão certeira quanto a morte é que Nazismo é ruim. 

Se você acompanha meus textos e as nossas Lives no Facebook, você sabe que quando anunciaram que o filme da Mulher-Maravilha ia se passar durante a Primeira Guerra Mundial, eu fiquei receosa. Diferente da Segunda Guera Mundial, a Primeira foi uma guerra envolvendo muitos lados, muitas questões políticas e foi muito complexa. A Segunda Guerra não, nela é muito fácil indicar qual é o lado que estava errado, quem era o grande vilão da Guerra: O Nazismo. 

Nenhum governo totalitário, de esquerda ou de direita, é bom. Ditadura sempre vem acompanhada de opressão, perda de direitos e mortes. O mundo já viu diversas ditaduras em diferentes continentes, mas se há um exemplo definitivo de maldade absoluta que é reconhecido por todo o mundo, esse exemplo é o Nazismo. 

(Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre o Nazismo ser de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.)

Então, quando alguém grita que Charlottesville foi sobre “liberdade de expressão”, esta pessoa está errada. Não foi sobre uma estátua, foi sobre demonstração de poder, foi sobre discurso de ódio. Foi sobre um grupo de pessoas se unindo para gritar cânticos que clamavam por exclusão e morte. Pessoas que se consideram superiores por serem brancas carregavam bandeiras nazistas. Foi sobre ódio e sobre propagar uma ideologia assassina. 

Foi sobre assassinato, sobre James Alex Fields acelerar o carro contra manifestantes anti-nazistas e matar Heather Heyer, uma mulher que lutava contra tudo aquilo que aqueles manifestantes representam. 

“Socar nazis é agir da mesma maneira que eles”  

Não, não é. Eu não sou à favor de violência, e tento ao máximo abrir um diálogo sobre as questões que levanto aqui no blog, mas eu entendo quando alguém não consegue manter a calma e acaba explodindo frente à um ato preconceituoso.

Um monte de nazistas e supremacistas brancos, pessoas que não tem medo de se auto-identificarem assim, vão fazer uma passeata com tochas (símbolo da Ku Kux Klan) e armas, numa clara demonstração de poder, trazendo de volta uma ideologia que foi responsável pelo massacre de diferentes povos, que prevê o genocídio de tudo que não é igual à eles – eu consigo entender o sentimento de revolta e raiva que toma conta das pessoas que se opuseram à isso. Porque não existe essa coisa de “os dois lados se exaltaram e há culpa em todos os lados”. Porque está obviamente claro quem está errado – os Nazistas. 

Eu não estou dizendo que acho que violência só será resolvida com violência – não. Mas eu entendo e não consigo condenar quem soca um nazista, porque é possível que, se eu estivesse ao lado de um imbecil falando esse tipo de merda, um cara que abertamente se diz à favor de uma ideologia que prega morte à pessoas não-brancas, judeus, LGBT+ e outras minorias, se eu estivesse na manifestação que terminou com a morte de uma mulher, então é possível que eu terminasse socando um nazista também. 

Os Estados Unidos tem um histórico de lutar por igualdade de direitos, e mesmo depois de muitas conquistas, a situação continua longe do ideal. Por isso eu imagino o que deve significar para aquelas pessoas ver se repetir uma cena que a geração atual só escutou falar. Eu consigo entender a dor, a frustração e a raiva que isso pode causar. 

No conflito de Charlottesville só existe um lado errado: O que não só pregou ódio, mas que assassinou uma mulher – os nazistas. Você é responsável pelo ódio que você semeia. 

Mas o que isso tem a ver com a Cultura Pop? 

Absolutamente tudo. A nossa cultura reflete o momento histórico no qual nós estamos, literatura, filmes, séries, quadrinhos e games – tudo isso absorve e reproduz aquilo que acontece à nossa volta. Capitão América e Mulher-Maravilha foram criados exatamente como forças contra o nazismo, a ficção-científica continua até hoje discutindo as causas e os efeitos da Segunda Guerra Mundial – até Senhor dos Anéis faz isso. Mas mais do que isso, a cultura pop pode, infelizmente, reproduzir mentiras e estereótipos que ajudam a fomentar e fortalecer esses discursos de ódio. 

No vídeo da Vice que coloquei lá no começo do texto, é possível ver um dos líderes da manifestação, Christopher Cantwell, responder que ele começou a se envolver com o ativismo depois que questões raciais como Trayvon Martin, Michael Brown e Tamir Rice (todos jovens negros assassinados por serem negros) começaram a aparecer: 

“Em qualquer um desses casos é um imbecil negro se comportando como um selvagem, e ele se coloca em problema. Seja qual forem os problemas que eu tenho com os meus colegas brancos, eles geralmente não estão inclinados à esse tipo de comportamento. E você precisa levar isso em consideração quando você está pensando sobre como organizar a sociedade.”

Esse discurso, de que pessoas brancas são predominantemente pacíficas, e que pessoas negras são violentas, é profundamente disseminado na cultura pop. As histórias de heróis estão lotadas de protagonistas brancos bonzinhos, ou vilões brancos injustiçados. Essas mesmas histórias tem pessoas negras sendo responsáveis pela própria escravidão, ou sempre representadas como bandidos e vilões. Esses estereótipos são negativos porque ajudam a sustentar esse discurso de Christopher Cantwell, de que pessoas negras são mais propensas à violência do que pessoas brancas. 

É assustador ver a relutância da mídia em chamar o grupo de nazistas e supremacistas brancos de “nazistas e supremacistas brancos”, mesmo quando eles próprios se auto-denominam assim. Essa mesma relutância não chama o homem que assassinou Heather Heyer no protesto de terrorista, mas fosse ele um homem não-branco, esse adjetivo teria sido automaticamente adicionado ao seu nome. 

Porque a Cultura Pop é tão influente e importante na nossa sociedade, me assusta ver o comportamento da Marvel de, nos últimos meses, tentar afastar a Hydra do Nazismo, ideologia que não só foi inspiração, mas da qual foi representação desde sua primeira aparição nos quadrinhos. Isso me assusta porque Ike Perlmutter, CEO da Marvel, é apoiador do Trump, que por sua vez apoia movimentos supremacistas brancos. Isso me assusta porque a DC, antes da Mulher-Maravilha, tinha um discurso neo-facistinha no cinema, mesmo nos filmes do Nohlan, mesmo que essa não fosse a intenção deles (o que só deixa tudo pior, na verdade). 

Mas, acima de tudo isso, me assusta porque nenhuma cultura pop que a gente consome ou produz existe dentro de uma bolha. Ela existe dentro da nossa sociedade e, além de refletir o momento histórico em que é criada, também pode ajudar a sustentar o status quo que vilaniza e oprime minorias. 

Não é só nos Estados Unidos e Nós Não Podemos Nos Silenciar

A reflexão de hoje pode ser sobre o horror do que aconteceu em Charlottesville, mas engana-se quem acha que aqui no Brasil a situação é melhor, ela só é diferente. Porque enquanto nos EUA esses supremacistas e nazistas não tem medo de se auto-denominarem assim, aqui no Brasil nós temos esses grupos infiltrados na nossa política, só que de maneira mais silenciosa. Eles estão na produção de cultura pop, na televisão, no cinema e na política também. Eles são eleitos pela população e podem inclusive concorrer à presidência. 

A imensa maioria das fotos e vídeos de Charlottesville mostravam a grande maioria masculina nazista e supremacista branca – mas também haviam mulheres lá. E é importante que nós, mulheres brancas, entendamos nosso lugar na manutenção dessa ideologia e em como a nossa representação dentro da cultura pop pode também ajudar a manter esses mesmos conceitos errados sobre outras minorias. 

Racismo, misoginia e outras opressões existem no Brasil também, e nós usamos não só da nossa cultura pop, mas da que consumimos em massa dos EUA, para justificar comportamentos e tradições que são excludentes e assassinas. O mesmo discurso que permite à Christopher Cantwell dizer que Tamir Rice é responsável pela própria morte sustenta um sistema racista que mata Tamir Rices brasileiros todos os dias. 

Minha família precisou fugir da Espanha durante o governo franquista. Meus bisavós foram um porto seguro para os filhos das famílias espanholas que eram perseguidas pelo governo, meu avô lutou pela Resistência Francesa contra os invasores Nazistas. Pra mim, ver as cenas de Charlottesville me pesou pois me assusta como pode, depois de tão pouco tempo, nós ainda tolerarmos esse tipo de discurso de ódio. Não aprendemos nada? Será que a história vai se repetir? Durante a Segunda Guerra, o Nazismo como mau comum conseguiu unir todos os espectros políticos contra ele – EUA e URSS lutaram juntos para por fim a ofensiva Nazista pela Europa. Eu espero que nós possamos discutir com quem realmente quer discutir, não com quem ainda acredita que cantar “Os Judeus Não Vão Nos Substituir” é apenas liberdade de expressão.

Ao fundo, à esquerda, minha bisavó Emília e algumas das crianças que a escola dela e de meu bisavô acolheu durante o governo Franco.

Cultura Pop é o ambiente que nos permite ir além da nossa realidade, mas também nos permite refletir sobre os nossos tempos e impedir que nossas fraquezas como sociedade se repitam. Horizon Zero Dawn fala sobre isso, Capitão América fala sobre isso, Jogos VorazesHarry Potter e tantos outros livros, quadrinhos, jogos e filmes falam sobre isso. É nossa responsabilidade, como sociedade, não esquecer que o Holocausto aconteceu à menos de 80 anos, e que esse mesmo tipo de coisa continua acontecendo todos os dias em diferentes lugares do mundo. 

É nossa responsabilidade aprendermos com os erros de nossos antepassados e não nos calarmos quando algo tão horroroso como Charlottesville acontece. É nossa responsabilidade garantir que o que aconteceu no último fim de semana não seja um recomeço para esse grande mau, mas um marco de virada por um presente mais seguro e mais justo para TODAS as pessoas. E nós só vamos conseguir fazer isso quando começarmos à parar de achar que, porque a liberdade de expressão existe, você pode fazer o que quiser sem consequências, quando pararmos de equiparar nazistas e pessoas que são contra o nazismo. É nossa responsabilidade entender que liberdade de expressão não pode abraçar discurso de ódio. 

Até Mais.

Separei alguns links que talvez possam ajudar a entender e problematizar toda essa discussão. À medida que eu for encontrando novos links, vou adicionando aqui.

Em Inglês:

Como o Agressor de Charlottesville se Radicalizou.

Nem os descendentes dos Confederados querem que os monumentos continuem de pé.

O presidente de uma sinagoga em Charlottesville fala sobre o que aconteceu quando a manifestação passou em frente ao prédio.

Quem foi Heather Heyer, a mulher que morreu em Charlottesville.

A Vice perguntou para um especialista em ética se a gente pode socar nazistas.

Coisas importantes para se saber antes de socar um nazista – uma thread.

A longa história dos quadrinhos batendo em nazis.

Em Português:

A palavra é a nossa arma.

O Desabafo de uma idosa que confrontou os neo-nazistas em Charlottesville.

Como a resposta de Trump à Charlottesville afastou o presidente dos maiores empresários dos EUA.

Nazismo é de esquerda ou de direita? 

Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre se o Nazismo foi de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.

“Alguém está prestes a começar um incêndio!”- Gail Simone faz predições sobre a nova leva do mercado americano de quadrinhos.

Gail Simone é talvez a roteirista de quadrinhos de super-heróis mais conhecida no mundo. Com trabalhos tanto nas duas maiores editoras, como em editoras menores, Gail foi responsável recentemente pela reformulação de personagens como Vampirella e escreveu um dos arcos mais famosos da Batgirl. Gail também foi a criadora do termo Mulheres na Geladeira (Women in Refrigerators), um dos grandes responsáveis por aquecer a discussão da representação feminina nos quadrinhos de super-heróis.

No último dia 23 Gail soltou alguns twittes onde fazia uma predição sobre o que vai acontecer com o mercado americano de quadrinhos de super-heróis, principalmente sobre como uma nova leva de criadoras não-brancas vai revolucioná-lo. É importante lembrar que para a visão norte-americana toda brasileira é não-branca, então ela também fala sobre o trabalho de quadrinistas que aqui dentro nós consideramos brancas.

Ela disse:

Eu vou fazer uma predição. E isso não vem de um desejo liberal, mas da simples observação.

Okay. Eu disse por anos que mulheres iam começar a escrever quadrinhos mainstream de novo e finalmente aconteceu, certo?

Quase todo título que gerou buzz nos últimos dois anos tinha uma mulher escrevendo, editando, ilustrando ou como protagonista, exceto pelos títulos tradicionais.

Então a maioria das coisas novas e interessantes tinha pelo menos uma mulher profundamente envolvida, nas duas maiores empresas e nos indies. Bom. Mas…

Minha predição é que a próxima grande onda vai começar em 2017, e vão ser mulheres não-brancas.

Isso não é querer demais. Eu estou viajando o mundo visitando CONS por anos, e o número de mulheres não-brancas criadoras está explodindo.

E a paixão por quadrinhos de leitoras em lugares como Shangai, Cidade do México e Belo Horizonte foi palpavelmente intenso.

Alguém está prestes a começar um incêndio.

Elas podem não estar recebendo apoio e encorajamento dos que já estão estabelecidos. Mas essa é a questão, elas não precisam mais.

Elas tem umas às outras, elas tem a internet, elas podem construir os seus próprios sistemas de apoio e bases de fãs antes da sua primeira publicação.

Imagine a maior parte da música, arte ou cinema americano sem pessoas não-brancas. É muito chato para se considerar.

Mas imagine o que um grande fluxo de talentosas mulheres não-brancas vai fazer para deixar os quadrinhos (de super-heróis) incríveis.

As pessoas não vão mais reclamar que os quadrinhos são todos iguais e repetitivos. Eu prometo.

Nós vamos ter uma infusão de criadoras dedicadas e incríveis, de países onde eles estão apenas descobrindo o amor pelos quadrinhos americanos.

Eu sei que muitas pessoas pensam que eu estou sendo sonhadora. Eu não estou. Essa é a realidade.

Ninguém acreditou no que eu disse durante que estava voltando na época do Mulheres na Geladeira e, se muito, eu mesma subestimei.

Assista e veja. Vai acontecer, e os quadrinhos vão ser mil vezes melhores por isso.

Em Shangai, a fila de mulheres e garotas que queriam fazer quadrinhos no estilo americano não tinha fim. Não tinha fim.

E na arte delas elas misturavam estilos asiáticos e ocidentais, e o resultado era maravilhoso. Crianças americanas comprariam em peso.

No Brasil, o número de criadoras de quadrinhos passa com uma boa margem o número de criadores. E eu nunca, nunca vi tanta diversidade de material.

Tudo desde mini-quadrinhos com fotos até épicos imensos e pintados. Só um esmagador dilúvio de talento.

Adicione à isso as destemidas mulheres dos EUA que querem fazer quadrinhos… Vai ser incrível.

Na Cidade do México, as criadoras já tem a sua própria cultura. Eu vi u monte de artistas que poderiam trabalhar para a Marvel ou Image amanhã.

E isso é só fora dos EUA. Tem um monte de mulheres que eu conheci em CONS que já estão no caminho, e serão imparáveis.

Você pode ler o thread original AQUI.

Para mim faz sentido que Gail veja o mercado internacional de quadrinistas como potencial bolsão de talentos para o mercado americano, o Brasil exporta talentos já há mais de 20 anos. O número de mulheres brasileiras que trabalham para o mercado americano é bem menor do que o o número de homens que fazem isso.

Não sei confirmar se as criadoras são realmente a maioria do mercado nacional, mas é certo que nos últimos anos elas vieram com muita força e com trabalhos de qualidade tanto narrativa quanto artística. Vendo os títulos de maior sucesso nos EUA tanto no mercado de super-heróis quanto no indie, é possível entender que as predições de Gail não estão assim tão longe da verdade. Seria incrível ver ainda mais nomes femininos brasileiros trabalhando no mercado americano.

Fica o desejo que a profecia de Gail realmente aconteça, e que nós acompanhemos essa mudança editorial dentro dos Super-heróis nos próximos anos! <3

Manara, Cho e a Tal da Subversão do Tabu

E quem já não cansou do choro do Frank Cho? Se você acompanha o Collant então você sabe que Frank Cho já virou piada interna. E se você esteve pela “internet dos quadrinhos” de super-heróis ontem então você muito provavelmente, e infelizmente, deve ter se deparado com esta atrocidade:

manara-cho

Eu continuo achando que Cho é o maior palhaço vitimista carente do mercado de quadrinhos americano, mas tem algumas coisas que a existência dessa foto, e o contexto no qual ela foi anunciada, faz com que sejam muito importantes de discutir.

Sobre censura.

Caso você ainda não saiba: Crítica não é censura. E como eu já escrevi um texto inteiro dedicado a mostrar a diferença entre uma e outra, então vou deixar aqui um trecho:

Se uma pessoa retira o livro da prateleira, se ele toma a caneta da mão do autor, se ele impede de alguma maneira que o autor publico sua arte, e que a população tenha acesso à ela, isso é censura. Mas se a pessoa apenas tece críticas sobre o trabalho que o autor criou, então isso é uma crítica. Censura precisa vir de alguém com poder para censurar, e isso normalmente vem do Estado ou das Instituições. Pessoas e movimentos sociais raramente tem esse tipo de poder.

Ninguém tirou a caneta da mão de Frank Cho ou Milo Manara, e nem vão tirar. A decisão da Marvel e da DC de não comercializar as capas variantes, ou de editar o trabalho de Cho, são decisões editoriais, baseadas na resposta do público aos seus produtos. E não é isso que sempre dizem? Que é o público que decide se vende ou não, pois é.

É interessante notar que enquanto Cho chora pelas redes sociais pagando de vítima de censura ele foi convidado por uma Con internacional para falar sobre representação feminina. Ele ganhou uma painel só para ele poder discorrer lágrimas de injustiçado sobre como é um transgressor de tabus, um subversivo que nada contra o politicamente correto.

O cara que se diz censurado ganhou um painel só para ele. Para falar sobre mulheres. Numa Con. Em outro país. Como isso configura como censura, eu nunca saberei. Se isso representa alguma coisa é como ainda há muito espaço para um cara como Cho, que se recusa a crescer e deixar a sua adolescência punheteira para trás.

Cho desistiu de continuar a desenhar as capas alternativas de Mulher Maravilha porque sentiu que estava sendo censurado. Ele pode fazer o que quiser, isso já está bem claro, mas quando você desenha capas alternativas, e quando a editora já passou por problemas semelhantes, então mesmo você ó-senhor-bonzão precisa se submeter a editoração da equipe criativa da revista. Foi isso que aconteceu, o conteúdo de Cho não cabia dentro da proposta da revista. Todo artista passa por um processo de edição.

Sobre a tal quebra de tabu.

Milo Manara tem um trabalho muito importante para o cenário de quadrinhos eróticos, e eu realmente acredito que para alcançar mais público e evoluir como forma de arte os quadrinhos precisam ocupar todos os espaços de criação. O que eu não compro é esse papo de que Manara e Cho estão subvertendo tabus.

Talvez lá nas décadas de 70/80 o trabalho de Manara realmente tenha ajudado a quebrar tabus sobre o corpo e sobre a sexualidade feminina. Mas hoje? Não. Porque os tabus que precisam ser quebrados vão ser destruídos por mulheres, não por homens desenhando mulheres. 

Não tem nada de transgressor e subversivo no Manara desenhar até os detalhes da vagina da Mulher Aranha, isso é só machismo. Esse desenho é criatura como a de Frankstein, o resultado de homens com liberdade e sensação de poder. É a criatura que resulta do machismo e da misoginia que permite que desenhistas homens hipersexualizem personagens femininas ao extremo sem nenhum tipo de consequência ou consciência, mas que permite que mulheres criadoras sejam perseguidas por criar personagens femininas decentes. É fruto da indústria.

E sim, eu usei a palavra misoginia, porque só o ódio à figura feminina permite que esse tipo de imagem, nesse tipo de contexto, aconteça. Um ódio à mulher que insiste em tomar de volta para si a sua representação, a mulher que questiona a objetificação do seu corpo. A verdadeira liberdade de expressão sexual feminina vem das mãos das mulheres, e não tem nada que homens como esses caras odeiem mais do que um grupo de mulheres que quere assumir o controle sobre a sua sexualidade e sobre o modo como ela é representada. Não tem nada mais ameaçador e amedrontador para um homem do que uma mulher que sabe quem é e o que quer – principalmente se for sobre a sua sexualidade.

Se você quer ver, descobrir e quem sabe aprender um pouco sobre a sexualidade feminina então você pode acompanhar o trabalho de inúmeras quadrinistas mulheres que falam e desenham sobre isso. Aqui no Brasil tem a LoveLove6 com a Garota Siririca, a Sirlanney do Magra de Ruim, tem a Beliza Buzolo no Na Ponta da Língua.  Lá fora tem Filthy Figments, Alison Betchel e Oh Joy Sex Toy, da Erica Tomen. Tem muito mais também, a quadrinista Aline Cruz fez até uma listinha sobre isso na TRIP.

Não é que homens não possam desenhar ou discutir sobre a sexualidade feminina, é que não vão ser eles que vão quebrar tabus ou subverter o tema. Principalmente enquanto eles continuarem a ver a sexualidade e o corpo feminino com um olhar objetificante e desumanizador, como essa ilustração.

Não é subversão, é status quo. 

A representação feminina nos quadrinhos de super-heróis já melhorou bastante, mas isso não quer dizer que já estamos no ideal – bem longe disso. E é exatamente por ainda termos um longo caminho pela frente que esse papo de subversão cai por terra. Personagens femininas são hipersexualizadas constantemente. Esse é o status quo dos quadrinhos. Quadrinistas e jornalistas são perseguidas e ameaçadas por simplesmente produzir ou por criticar a indústria. Esse é o status quo dos quadrinhos.

Hoje, se você quer subverter a representação feminina, se você quer ser o transgressor de padrões, então você desenha e escreve mulheres como elas são: humanas complexas. Você não as expreme dentro de mini-uniformes, não as coloca em posições ginecológicas e não desenha mamilos, bundas e até os lábios da vagina como se o uniforme fosse pintura corporal – você faz o seu trabalho direito.

O cenário de quadrinhos independente americano vem trazendo aos holofotes nomes de quadrinistas, mulheres e homens, que criam personagens femininas interessantes e humanizadas. Os maiores nomes, aqueles sobre os quais mais se fala, hoje são nomes femininos ou atrelados à personagens femininas e de outras minorias. Ghosts e Drama, livros da quadrinista Raina Telgemaire, estão respectivamente à 6 e 167 semanas seguidas na lista de graphic novels best sellers do The New York Times. Ela possui outros dois livros na lista.

Muitos desses nomes indies estão migrando para o mercado tradicional, como Noelle Stevenson, de Nimona e Lumberjanes, que assumiu a responsabilidade de trazer de volta o título The Runaways da Marvel. São quadrinistas que criam personagens incríveis como a adolescente Miss Marvel/Kamala Khan, que fazem re-designs épicos de uniformes o da Batgirl, que aprende com seus erros, que desenvolvem personagens fortes, complexas e seguras da sua sexualidade como a Harpia (Mockingbird) e a Capitã Marvel. São essas pessoas que vão conseguir conversar com a sexualidade feminina.

No meu mundo ideal a Marvel vai entender o desenho com quem Manara presenteou Frank Cho, e o ato de fazer um grande caso sobre isso como o que ele realmente representa: uma afronta a sua política de inclusão, a transformação pela qual a editora vem passando. Uma violência contra os seus criadores e contra o seu público que há anos vem construindo e lutando por uma representação feminina decente. Uma violência contra a personagem, porque esse não é um desenho fanmade perdido nos submundos da internet, é uma ilustração feita para chocar e ofender o público que a editora tanto quer alcançar.

Não tem nada de transgressor em desenhar os lábios da vagina e o ânus de uma super-heroína. Isso é só mais um exemplo desesperado de como esses caras, que um dia foram considerados peixes grandes da indústria, agora começam a se debater na areia a procura de atenção.

Para alguns é mais fácil morrer na praia do que continuar a nadar.

Ask me about my feminist agenda: Chelsea Cain, assédio e a verdadeira agenda do meio dos quadrinhos.

Eu não saberia te informar quantas mulheres foram expulsas do twitter porque homens ligados aos quadrinhos acham que tem o direito de assediar mulheres na rede social simplesmente porque elas escrevem sobre um tema que não lhes agrada. Eles também parecem não entender que assédio e crítica são duas coisas completamente diferentes. Eu uso o termo “expulsa” porque é bem isso que acontece, já que o assédio e as ameaças são tão grandes que a mulher não vê outra escolha senão abandonar o twitter.

A última mulher a passar por isso foi Chelsea Cain.

Após este twitte…

Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.
Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.

Ela recebeu twittes deste nível:

ataque-mockinbird
Eu não vou traduzir, a imagem é horrível o suficiente.

Chelsea é uma escritora Best Seller de romances que fez sua estréia nos quadrinhos na revista especial em comemoração aos 50 anos da SHIELD, Mockingbird. Devido ao sucesso que a edição especial fez, a revista ganhou uma série, que chegou ao fim este mês, em sua oitava edição.

Mockingbird, que conta a história da personagem Harpia, tinha uma equipe criativa composta maioritariamente por mulheres, e isso transparecia muito bem no papel, com personagens femininos e masculinos bem escritos, desenhos que brincavam com a nossa percepção de sexualização e quebrava alguns estereótipos de gênero. Um ótimo exemplo de como uma equipe criativa com mulheres pode resultar em mais acertos do que erros.

O twitter no qual anunciava o cancelamento da revista, e pedia por mais espaço para títulos criados por mulheres e com personagens femininas acabou gerando um onda de ódio. Ela respondeu assim:

chelsea-2
Minha fala não foi um pedido de atenção. Mesmo. Eu já cansei daqui. Eu estou impressionada com a crueldade que os quadrinhos fazem aflorar nas pessoas.
chelsea-3
“Eu te amo” – mensagem que a minha filha de 11 anos me mandou, pq eu estou no escritório lidando com bullies misóginos no twitter ao invés de…

Depois disso sua conta explodiu e a autora acabou saindo do twitter.

Chelsea não disse absolutamente nada demais, apenas pediu para que os fãs continuem cobrando da Marvel uma postura mais inclusiva, postura essa essa que permitiu que Mockingbird fosse criada.

O que também despertou a fúria dos trolls e dos fãs machistinhas de quadrinhos foi a capa da última edição. Essa maravilhosidade aqui:

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Eu acho engraçado como nós não podemos falar sobre temas como representação feminina, e feminismo nem mesmo com humor, mas devemos achar ok a capa de uma revista que hipersexualiza uma personagem negra e adolescente. Diferente da capa de J Scott Campbell, e eu uso esse exemplo porque ele é o mais recente, a capa de Mockingbird #8 dialoga perfeitamente com o conteúdo e com a personagem título da revista.

Não é uma capa ofensiva, é uma capa que lida de maneira bem-humorada com um tópico tão ~polêmico~ dentro dos quadrinhos: o machismo. Não se enganem, nós tivemos muitos avanços nos últimos anos, mas ainda são as autoras, ilustradas e executivas do meio que são expulsas do twitter, não os homens.

Muitos vão comparar as críticas que J. Scott Campbell recebeu com o assédio moral que Chelsea Cain recebeu, mas nem de perto é a mesma coisa. Enquanto Campbell foi criticado e questionado sobre seu trabalho, as ofensas direcionadas à Cain foram de nível pessoal e ofensivo. Crítica não é censura e assédio não é crítica, é violência.

Brian Michael Bends respondeu ao twitte de Chelsea imediatamente, mas digamos que não foi a melhor resposta que ele poderia ter dado.

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Bendis explicou, em outro twitte, que a intenção era dizer que não era um problema unicamente de quadrinhos. Mas aqui nós temos uma mulher que nunca precisou bloquear ninguém no twitter até começar a trabalhar com HQs, isso por si só já é justificativa o suficiente para ela acreditar que o meio dos quadrinhos é o problema. E ela não está completamente errada. Apesar de machismo e misoginia ser uma constante em todas as outras frentes da cultura pop, como games, RPG e mesmo literatura, os quadrinhos tem sim um problema gigante, um problema que editoras e grandes autores se recusam a reconhecer.

Em um post no seu site, Chelsea explicou porque deixou o twitter e como as coisas se sucederam. Ela não chegou a ler toda onda de ódio contra ela, porque cansou muito antes disso de acompanhar todos os twittes que recebia, ela não saiu do twitter por causa dos piores twittes, aqueles que vieram durante a noite e depois que começou-se a falar sobre eles, mas por causa dos que representam o machismo velado.

Mas saibam que eu não sai do twitter por causa de ameaças de estupro ou porque alguém postou meu endereço, ou alguma das coisas realmente vis que você lê sobre. Eu sai do twitter por causa do abuso diário, com o qual eu decidi que não quero mais conviver. O nível básico de grosseria e machismo. Claro, quando eu desativei minha conta na quinta pela manhã, tudo tinha explodido. E eu aposto que uma parte dos milhares de posts no meu feed foram realmente vis. Mas eu não sei.

E essa é a questão. Não é só quando trolls e fãs misóginos resolvem atacar em massa que essas mulheres são perseguidas no twitter, é sempre. É diário e é sintomático da indústria.

Leth Merenghi, roteirista de Vampirella, fez uma série de twittes comentando como o meio dos quadrinhos continua a fomentar esse tipo de comportamento agressivo. leth-merenghi

Mulheres nessa (e em muitas outras) indústrias sabem que nós precisamos ficar juntas e ajudar umas as outras porque, quem mais vai nos apoiar? Homens que são publicamente conhecidos por assédio, por agarrar, por MORDER, ainda estão empregados. Não existe consequência para eles. Se a gente fala, se dizemos não, a culpa é nossa. Criadoras de confusão. Não sabemos jogar em equipe. Ela é difícil de trabalhar… etc. Então além de ter que viver com o conhecimento que a sua segurança, e a segurança de outras mulheres ao seu redor, não é da preocupação dos poderosos, você também precisa lidar com o assédio dos “fãs”, num nível muito pior do que a maioria dos homens vai um dia saber. E precisa fazer isso com um sorriso. Então imagine o quanto nós amamos o nosso trabalho, para aguentarmos TANTO só para trabalhar. Você não pode ficar surpreso quando alguém desiste. Eu sei que eu falei muito, desculpe. Eu só estou cansada do status quo dos quadrinhos, e ter que lutar tanto por tão pouco.

Nós já falamos diversas vezes sobre como o mercado de quadrinhos, nacional ou americano, trabalha para excluir as mulheres do seu mercado, seja através da broderagem, seja quando não se fala ou não se faz nada contra os homens assediadores da indústria. Tudo isso colabora para criar ao redor dos quadrinhos um ambiente de permissividade quando o assunto é agressividade masculina direcionada à mulher.

Desde o começo da polêmica Mockingbird se tornou #1 em vendas online, o que é ótimo. E, claro, muitos homens sentiram a necessidade de desmerecer o movimento de apoio falando que a melhor maneira de apoiar uma autora é comprando as suas revistas, não através de “posts de tumblr”. E sim, nós precisamos comprar revistas feitas por mulheres, mas ainda é difícil saber quais são tais revistas, já que títulos como Mockingbird não possuem, nem de perto, o mesmo tipo de publicidade que os grandes títulos das editoras possuem. Grandes títulos esses que são majoritariamente escritos e ilustrados por homens. Além disso, com tantas autoras e ilustradoras sendo expulsas das redes sociais fica difícil para elas entrarem em contato com o seu público, uma outra maneira de fazer os seus títulos ficarem mais conhecidos. As coisas realmente não são tão transparentes como alguns editores da marvel parecem achar.

Em resposta à onda de ataques contra Chelsea, muitos fãs e profissionais dos quadrinhos passaram a utilizar a hashtag @IStandWithChelseaCain, e a twitter a capa de Mockingbird #8.


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Gail Simone, inclusive, fez uma thread inteira sobre o assunto, e vale muito a pena ler e acompanhar o pensamento da roteirista.

É ótimo ver que tantos fãs e autores de quadrinhos saíram em apoio à Chelsea, mas o que ainda falta toda vez que noticiamos esse tipo de acontecimento é a posição oficial das editoras. Apoiar os seus artistas é parte de mostrar-se realmente comprometida com o desenvolvimento de um ambiente mais seguro e saudável, mais inclusivo também. Porque se uma autora é atacada e a empresa não se posiciona, qual a mensagem que ela está passando tanto para seu empregados quanto para seus fãs?

A gente pode brincar com a frase “Ask me about my feminist agenda”, e eu já aviso que ela acabou se tornando símbolo de empoderamento e força pra as mulheres do meio dos quadrinhos, mas a verdade é que enquanto as grandes editoras e os grandes nomes dos quadrinhos fizerem vista grossa para todo o assédio moral e sexual que as suas funcionárias e colegas sofrem, tanto por fãs quanto por outros funcionários e colegas, a única agenda do mercado de quadrinho é a exclusão de mulheres através do machismo. Nós precisamos melhorar.

Como você, homem, pode ajudar a acabar com o assédio e o machismo no meio dos quadrinhos.

Escrito por Rebeca Puig e Brendda Lima 

Alguns meses atrás nós publicamos um texto sobre a Broderagem, esse esquema invisível que acaba sempre beneficiando homens e deixando mulheres tão ou mais talentosas de fora do meio dos quadrinhos. Hoje nós voltamos para falar sobre uma questão mais prática: como você, homem, pode ajudar a acabar com o assédio e o machismo no meio dos quadrinhos (ou em qualquer meio de que você faça parte).

Nos últimos anos, com o aumento da discussão sobre representação, feminismo e sobre a presença da mulher no mercado, muitos homens começaram a passar por um processo de desconstrução. Essa mudança é muito importante para que a gente alcance um ambiente mais igualitário. No entanto, esse processo de desconstrução não pode ser algo que acontece unicamente no íntimo desse cara. É algo que precisa ir além.

A gente costuma ver muitos caras dispostos a desconstruir conceitos machistas no âmbito pessoal, mas infelizmente, quando esses caras se deparam com problemas no circulo de amigos, no trabalho ou na rua, as reações não são as mesmas.

É por isso que nós estamos aqui. Pra explicar pra vocês, caras, como vocês podem de fato se tornar um agente de mudança no meio da ilustração\quadrinhos.

Se você é um leitor:

  • Trate artistas homens e mulheres com o mesmo respeito;
  • Procure conhecer quadrinhos e ilustrações feitos por mulheres;
  • Leia\compre trabalhos feitos por mulheres;
  • Não descarte um quadrinho ou uma banca em evento só porque ele é composto por mulheres. Tem muita quadrinista fazendo coisa legal, em gêneros muitos distintos.
  • Nem todo quadrinho feito por uma mulher é fofo, e quadrinho fofo feito por mulheres não merece ser diminuído.
  • Se você ficar sabendo que editores, quadrinistas, roteiristas, jornalistas, blogs ou sites atacam, excluem ou assediam mulheres, não compre os produtos deles. Não dê views. Não compartilhe materiais dessas pessoas. São caras e situações como essas que ajudam a manter as minas longe dos quadrinhos\ilustração.  

Se você é um profissional (ilustrador, quadrinista, jornalista, editor ou organizador de evento):

  • Procure conhecer as pessoas do meio em que você está inserido;
  • Faça parcerias com roteiristas, quadrinistas, coloristas. Convide o mesmo número de mulheres e homens para coletâneas e eventos.
  • Publique Mulheres. Ninguém está dizendo para você nunca mais trabalhar com o seu brother, só para você abrir mais espaço para quadrinistas mulheres.
  • Não evite stands e bancas compostos por mulheres. Se você não conhece o trabalho de uma artista, entre, folheie o material, converse e conheça. O mercado não vai mudar se você não se predispor a conhecer as artistas. Já bastam os diversos relatos de editores que pulam mesas de quadrinistas mulheres em eventos e que adoram cantar de desconstruídos.
  • Se você vir um homem assediando mulheres em um evento, denuncie o cara para a organização.
  • Não diminua denúncias de assédio ou agressão;
  • Se o acusado é seu amigo e você tem certeza absoluta de que ele nunca faria isso, procure provas – mas sem vitimar novamente a mulher. É compreensível que você se sinta desconfortável quando a acusação é de um colega próximo, mas não chame a moça de louca, não a desqualifique só porque você conhece o acusado. Tem muito homem que é lobo em pele de cordeiro, estar aberto para entender o lado da vítima antes de acusar é sempre importante.
  • Não divulgue caras com histórico de assédio ou agressão.
  • Se um dos convidados do seu evento/coletânea já foi acusado de assédio ou agressão, ofereça o espaço que seria dele para outra pessoa.

Para todo mundo:

  • Denuncie assediadores e agressores.
  • Não comece uma conversa com uma artista falando que ela é bonita.
  • Não reduza o trabalho de uma artista à beleza ou a fofura dele. Você não faria isso com o trabalho de um homem.
  • Compre, divulgue, apoie trabalhos feitos por mulheres.
  • Não faça pouco caso das acusações de assédio feitas por mulheres. Muitas mulheres não vão nunca falar sobre o que lhes aconteceu, algumas não vão querer expor o acusado, outras não vão querer lhes mostrar os prints – e isso não tem nada a ver com ser verdade ou não. Leve algumas coisas em consideração:

             – O mercado é machista. Se elas falarem, e se o nome delas for descoberto, é possível que seja ela a sofrer com as consequências. Não seria novidade ver uma mulher perder oportunidades de trabalho, ser taxada de louca e mentirosa, mesmo depois de apresentar as provas. O que nós mais vemos são casos em que o cara é acusado de assédio (ou coisas piores) e continua caminhando e produzindo material sem nenhuma consequência.
             – Muitas mulheres não lidam bem com assédio, elas podem não querer falar sobre isso. Podem ter medo exatamente de serem taxadas como loucas.  Tenha empatia.
             – Elas podem ser processadas. O medo do processo por difamação é real, e é uma das fontes mais pesadas na hora de decidir fazer ou não a denúncia pública. Muitas dessas acusações não vão poder ser feitas judicialmente, o que não quer dizer que elas não são verdadeiras e que não são causa de sofrimento para a vítima.
             – Artistas famosos possuem uma base de fãs que pode atacar essas mulheres. Não é de hoje que homens famosos, mesmo que em meios menores, se fazem de desentendidos quando dizem alguma besteira e uma mulher é atacada pela horda de fãs raivosos. Isso tudo é fonte de stress, ansiedade e muitas vezes trigger para depressão.


Para que nós consigamos criar um ambiente onde mais mulheres se sintam à vontade, tanto para permanecer trabalhando quanto para começar a trabalhar, todos nós precisamos fazer alguma coisa para melhorar o status atual. Ao homem, leitor ou profissional, cabe garantir e exigir um espaço não só maior, mas também mais seguro para as mulheres. Dizer que acredita no feminismo, que acha a discussão sobre representação feminina importante, que ama a Kelly Sue, que quer muito o filme da Capitã Marvel e que não vê a hora de ver mais mulheres nas editoras ou produzindo quadrinhos de nada adianta se você não colocar a mão na massa. Faça sua parte, nós estamos fazendo a nossa.

Até mais.

Para ler mais: Broderagem, Mercado e Exclusão. 

Você conhece as Rat Queens?

A primeira vez que escutei falar sobre Rat Queens não foi pelo melhor dos motivos. Logo no começo da elogiada revista um dos seus desenhistas, Roc Upchurch, foi preso por agressão contra a esposa. Diferente do que normalmente acontece, Upchurch foi desligado do título e o criador do título, Kurtz Wibie, reiterou o seu desejo de “escrever histórias sobre mulheres que eu vejo no meu dia-a-dia. Sobre amizade e fazer quadrinhos que incluam e abracem diversidade”. Em um universo como os quadrinhos norte-americanos, onde colocar panos quentes em acusações de assédio são tão comuns, eu fiquei contente em ver que pelo menos dessa vez os atos desse babaca lhe custaram alguma coisa. E fiquei contente também em saber que Rat Queens continuaria.

Rat Queens acompanha uma equipe de mercenárias que gosta de: violência, sexo, drogas e álcool – não necessariamente nessa ordem. Cada uma das personagens tem uma personalidade diferente, armas diferentes e personalidades complexas e distintas. É difícil ver uma revista em quadrinhos em que a sexualidade das personagens seja tão bem trabalhada, sem cair constantemente para o fetichismo e para a objetificação. O único elemento que me incomodou de verdade foram as poses em que algumas das personagens estão ao longo da história. Bundas empinadas e pernas abertas que são claramente resquício do modo machista com que os quadrinistas estão acostumados à retratar personagens femininas.

Pelo que pude notar das edições que li, cada uma das personagens parece estar em busca de alguma coisa, respostas para dúvidas sobre si mesmas e sobre o mundo, então me parece que ao mesmo tempo que nós vamos ter muito humor e lutas, vamos ter também uma jornada de descoberta e talvez auto-conhecimento para cada uma delas.

É difícil ver personagens femininas serem retratadas da maneira cm que Rat Queens faz, elas não são só diversas em personalidade, elas são autênticas e diversas em sexualidade e etnia. Nenhuma das Rats parecem ou soam como esteriótipos ou variações de uma cool girl. A sensação de ler essas personagens é um tipo de liberdade narrativa que pouco se vê quando vemos a representação feminina nos quadrinhos (ou em qualquer outro meio), aqui elas podem ser violentas, apaixonadas, loucas por sexo, aventureiras, feiticeiras, guerreiras e, acima de tudo, pessoas. E nenhum desses traços é definido pelo homem com quem elas talvez se relacionem.

A série foi indicada em 2014 ao prêmio Eisner como Melhor Série Nova e ganhou o GLAAD Award (premiação da Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, que homenageia representações justas da comunidade LGBT) de “Outstanding Comic Book” (Álbum de Quadrinhos de Destaque) em 2015.

A boa notícia é que a Jambô Editora  anunciou o lançamento do encadernado de Rat Queens para o Brasil, em edição capa dura que vai reunir os cinco primeiros volume do quadrinho! Você pode conferir aqui na galeria um preview de onze páginas da revista e conhecer um pouco mais das personagens. Ficamos na espera! \o/

Onde estão as mulheres do quadrinho nacional?

No começo do ano, o site Toró de Ideia divulgou o resultado de uma pesquisa sobre o Quadrinho Nacional e o seguinte depoimento de uma leitora me chamou bastante atenção:

Eu gosto dos artistas nacionais, principalmente o Laerte, os irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá, o Willian Leite, Mário Cau e Carlos Ruas, quase sempre leio eles online, mas já comprei livros. Eu me pergunto onde estão as mulheres dos HQs nacionais? Eu acompanho muito as latinoamericanas e espanholas autoras de P8ladas, Ana Bélen Rivero, Monstruo Espagueti, “Diário de una volátil by Augustina Guerro, Let´s Pacheco e Moderna de Pueblo. Eu preferia importar o trabalho dessas artistas (livros e produtos) do que comprar os nacionais pela qualidade e pelos temas das histórias

Agora responde pra mim, rapidinho, quantas destas meninas do quadrinho nacional você conhece?

Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3
Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3

Pois bem. De 2012 pra cá, nós tivemos um aumento significativo de mulheres cis e trans produzindo tiras, web comics, zines e quadrinhos impressos com os mais variados temas. Assim como na gringa, aqui no Brasil mulheres estão desenhando, escrevendo, colorindo, letrando, organizando eventos de quadrinhos e ocupando cargos de direção em editoras.

Garotas incríveis como Beatriz Lopes, Gabi LoveLove6, Sirlanney, Laura Athayde, Débora Santos, Dharilya Sales, Luiza de Souza, Renata Nolasco, Lila Cruz, Thays Koshino e Mariana Paraizo, são apenas alguns das muitas brasileiras que encontram nas publicações independentes uma forma de contar suas histórias. Coletivos como Mandíbula, Zinas, Whatever 21, Foca no Rolê, Studio Seasons e Selo Pequi são exemplos de como o apoio mútuo entre mulheres fortalece o surgimento de novas publicações impressas e digitais.

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Alguns dos quadrinhos e zines feitos pelas mulheres citadas acima

Mesmo com produções de qualidade, poucas autoras figuram nas listas de melhores do mês-ano de sites especializados em HQ´s. Um número menor ainda aparece em coletâneas de quadrinhos, e só 13% dos indicados ao HQ Mix (uma das maiores premiações nacionais de quadrinhos) do ano passado eram mulheres, como vocês podem ler aqui e aqui. Mas por que isso acontece?

Se a gente voltar um pouquinho no tempo, vamos perceber que a história da arte (e da humanidade) enaltece os feitos dos homens enquanto criadores e delega à mulher o papel de musa, de companheira, de amante e de mãe. As que fogem a esse padrão são pouco conhecidas e precisam desafiar as imposições de suas épocas, além dos ambientes predominantemente masculino, para se tornar conhecidas pelo público. 

Nos quadrinhos não é diferente. Durante muitos anos Nair de Teffe, uma caricaturistas do início do século XX considerada importante para a narrativa gráfica brasileira, assinou seus trabalhos como Rian. Emy Acosta, desenhista da Mauricio de Souza Produções desde a década de 70 é responsável pelo formato arredondado da Turma da Mônica, mas só em 2015 os autores passaram a ser creditados.

Estranho né?

Antes de escrever este post, eu estava lendo  “As Mulheres nas Histórias em Quadrinhos” da Karina Goto, o que me permitiu voltar a refletir sobre o lugar comum permissível às quadrinistas. Explico. Ainda existe um pensamento dominante de que quadrinhos são produzidos apenas por homens e para homens e isso fica claro quando observamos a quantidade de quadrinhos feitos por homens presentes em editoras, em coletâneas, nas livrarias, na sua prateleira, no vlog que você assiste, nos sites que você lê e nas reações do público nas feiras de impresso. Já vi pessoas ficar empolgadas ao conhecer autoras, mas também já vi caras ignorando meninas em mesas mistas de artists alley. Isso só reforça a teoria de que mesmo que mulheres façam Hq´s de terror, de comédia, espaciais, eróticas, autobiográficas… estas produções serão consideradas fofas. Como afirma Fernanda Nia, na monografia da Karina: “Por mais que você trate de um tema profundo ou faça um material de qualidade, se suas cores forem claras e a personagem for feminina, o quadrinho já é tachado como “de mulher” e vai pro submundo onde a crítica nem chega perto.”

Enquanto permanecem invisíveis à mídia brasileira especializada em quadrinhos, muitas autoras são ridicularizadas por “caras engraçados” que decidem fazer piada com o traço, a mensagem, ou com a imagem das quadrinistas. Mesmo assim elas seguem publicando seus trabalhos na internet; Montando suas banquinhas em feiras de impressos por todo o Brasil; Sendo convidados de grandes eventos como FIQ, Comic Con e etc. inspirando outras mulheres a ler e fazer quadrinhos.

Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.
Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.

Nos próximos posts aqui no Collant sem Decote vamos continuar nossa conversa e tentar entender qual o lugar da mulher no quadrinho nacional, assim como espero apresentar pra vocês, trabalhos de autoras tão incríveis como estes da foto, permitindo que elas sejam reconhecidas pela qualidade do seu material, independente do gênero que elas escolheram pra contar suas histórias.

E se você gosta de artistas nacionais, mas não reconheceu as garotas da ilustração que abriu esse post, dá uma pesquisada nesses nomes:

1 ) Garota Siririca – Lovelove6

2 ) IlustraLu – Luiza de Souza

3 ) Vannila Tree – Brendda Costa Lima

4 ) DesalineadaAline Lemos

5 ) Gata Garota – Fefê Torquato

6 ) ManzannaAnna Mancini

7 ) Laços – Lu Cafaggi

8 ) Glitter Galaxia – Bárbara Malagoli

9 ) BlearghTombo Bê

10 ) Bear – Bianca Pinheiro

11 ) MarioneteMariana Sales de Clementino

12 ) Chiqsland – Fabiane BL Chiq

13 ) Cynthia B. – Cyn Neves

Eu li (E acho que você deveria ler também): Quando Tudo Começou, de Bruna Vieira e Lu Caffagi.

Ontem de noite eu li Quando Tudo Começou, da Bruna Vieira e da Lu Caffagi e, como bem disse o moço na Livraria Cultura “os desenhos parecem feitos de algodão doce”. Fofo é pouco para descrever o quão perfeito é o traço da Lu.

Não sei dizer se é bem um quadrinho ou alguma outra forma de contar histórias que fica entre literatura, livros interativos e a nona arte, mas Quando Tudo Começou me lembrou um pouco animes Shoujo Slice of Life. Em parte por causa do desenho do quarto de Bruna (um quesito bastante abstrato, eu sei), em parte porque o livro não chega a ser uma história fechada, é mais um relato desse primeiro pedaço da vida de uma garota do interior.

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Eu cresci numa cidade pequena (5000 habitantes não é muito, né?), troquei de escolar aos quinze, mas, diferentemente da Bruna, eu mudei de escolar com alguns amigos – além disso, minha irmã tinha acabado de sair dessa nova escolar para a faculdade. E digamos que a minha irmã sabe deixar a presença dela na memória das pessoas (de uma maneira positiva, sempre.) Mas fica aquela pressãozinha de “o que as pessoas vão pensar de mim”- o tipo de sensação que acompanha a gente mesmo quando já somos adultas.

Quando Tudo Começou é um retrato honesto e delicado sobre como a gente deixa a nossa insegurança bater mesmo quando estamos fazendo algo que queremos muito, algo que temos certeza ser o melhor para nós mesmas. Mudar nunca é fácil, e quando isso vem numa época como a adolescência tudo parece ainda mais difícil e assustador (alô todos aqueles sonhos em que você chega na escola e alguém te avisa que você está nua na frente de todos os seus colegas o/ – no meu caso quem me avisou foi o Pernalonga, o sonho aconteceu logo depois de assistir Space Jam no cinema. Longa história…).

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Se você gosta de histórias sobre momentos da nossa vida, daquele tipo que na hora é a maior coisa do mundo e você sente como se fosse se desmanchar, mas que depois entende que é parte de crescer, eu te aconselho a ler Quando Tudo Começou. O livro conta a história do momento em que Bruna começou a escrever, mas podia ter sido tantos outros momentos de tantas outras adolescências. Fofo, delicado, honesto e acolhedor.

PS: Para as meninas que gostam de desenhar quadrinhos, no finalzinho do livro tem uma parte em que a Lu Caffagi mostra um pouco dos desenhos iniciais para o projeto.

Eu li: Anderson Lauro – Meninos não choram, mas… Ficam passados!

Algumas semanas atrás eu recebi a coletânea das tirinhas Anderson Lauro: Meninos nåo choram, mas… Ficam passados! Criado pelo cartunista Denilson Albano, as tirinhas do garotinho de sete anos que tenta transitar sua infância numa sociedade dividida entre certo e errado, de menino e de menina tem uma abordagem de humor aos momentos de incertezas e rebeldia do garoto.

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Anderson não entende porque não pode dizer que ama o coleguinha Felipe, com quem chega a planejar uma fuga. Ele também não entende porque não pode usar roupas que são consideradas “de menina”, e nem porque o pai dele fica irritado com seu desejo de aprender a cozinhar.

O mais legal da antologia é exatamente essa dúvida do garoto, o modo como os adultos impõe comportamentos padronizados na criança que tenta crescer e ser ela mesma – seja lá quem ela for. É interessante que, apesar de toda a violência que ele enfrenta Anderson continua tentando ser quem ele quiser. A violência que eu digo aqui não é a física, mas a psicológica mesmo, já que os adultos a sua volta insistem em “coloca-lo no seu lugar de homem”, Anderson não desiste e tirinha após tirinha volta a questionar esse padrão de masculino que a gente enfia na cabeças das crianças desde muito novo.

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Em temos de #MasculinitySoFragil, a masculinidade é vista como algo tão ~frágil~ na nossa sociedade que a gente ainda reprime meninos que querem aprender a fazer bolo. =\

A coletânea, no entanto, é também um pouco confusa. Fiquei por horas me perguntando se esse é um menino gay, trans, crossdresser ou se ele realmente é só um garoto que se recusa a se enquadrar dentro dos estereótipos de gênero. Esse questionamento veio, talvez, porque os quadrinhos abordam muitos estereótipos sobre sexualidade e gênero que são considerados clichês. Pode ser uma opção do criador não rotular uma criança tão nova, e é uma preocupação muito válida, mas parte de mim gostaria que isso tivesse ficado mais evidente no quadrinho

De maneira geral o quadrinho é divertido e levanta questionamentos interessantes sempre de maneira bem humorada sobre o modo como a sociedade nos educa para vivermos dentro desse espectro bizarro do que é “de menina” e o que é “de menino”.

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