A representação feminina em Chronos: Viajantes do Tempo

Este texto não contém spoilers do livro.

Aqui no Collant, nós já fizemos uma lista de garotas que tiveram que viajar no tempo, mas isso não significa que elas são a maioria nesse tipo de história. O papel heroico, ainda mais na ficção científica, muitas vezes acaba ficando com o personagem masculino. Em Chronos: Viajantes do Tempo, a pessoa destinada a salvar o mundo é Kate, uma garota adolescente.

Primeiro, é legal pensar na questão da mulher ser a escolhida para um papel importante. Nós já estamos cansados de ver histórias de escolhidos homens, de como o tal protagonista nasceu para realizar a função que salvará todos, mas quantas vezes esses espaços são ocupados por mulheres? O escolhido sempre é o cara que se encaixa dentro do padrão.

Kate tem um dom muito grande para usar a chave Chronos, que permite as viagens no tempo, deixando todos ao seu redor impressionados com a sua capacidade. Assim que ela se vê nessa situação, Kate começa a procurar todas as informações possíveis que possam ajudá-la a enfrentar esses novos problemas que estão aparecendo. Ela não é passiva ao que acontece ao seu redor, por mais que seja difícil entender todos os problemas de primeira.

Além disso, ela não é a única mulher no meio de vários homens. A sua avó, Katherine (sim, elas têm o mesmo nome), é a grande mentora da protagonista. É comum que, em histórias com algum fator de escolhido com uma aventura épica, exista aquela figura de mestre que vai guiar o caminho do herói. Esse também é um papel que geralmente fica com um personagem masculino mais velho e sábio, mas, nesse caso, a mentora de Kate é a sua própria avó, uma figura feminina. Ela é uma mulher que entende tudo sobre como as viagens no tempo funcionam, é inteligente e fez inúmeras coisas para se manter segura, por mais difíceis que elas fossem. Agora, ela sabe que não pode mais tomar a frente dessa luta, por isso passa o seu conhecimento para Kate.

A relação das duas é uma das partes mais interessantes da história. Ao invés de Kate apenas aceitar o que é passado para ela, a adolescente começa a ter dúvidas e até a discordar de algumas decisões que sua avó tomou, mostrando que ela não é uma personagem sem personalidade. Esse aspecto de “desafiar o mestre” é interessante nesse tipo de dinâmica. Kate não é obediente o tempo todo e usa o conhecimento que recebe de Katherine para resolver as coisas da sua maneira. O fato de estarmos sempre na cabeça de Kate, até por causa da narrativa em primeira pessoa, nos ajuda a entender o que ela está pensando e as suas motivações.

Porém, em alguns momentos, a história acaba fazendo sua protagonista cair em clichês. Kate é uma adolescente e, infelizmente, alguma parte do livro é dedicada a falar sobre interesses românticos e meninos que ela acha interessante. O fato dela se importar com isso não é um problema, mas o jeito que isso é tratado na história acaba ficando clichê. Em alguns momentos, Kate é salva por esses possíveis interesses românticos, até em situações que poderiam ser tratadas de outra forma, ou ela poderia ter ajuda de uma figura que não necessariamente fosse um possível romance ou até mesmo não fosse uma figura masculina. Também há momentos em que o clima romântico parece forçado e acelerado, como se a autora acreditasse que a protagonista precisasse muito desses elementos para ser interessante, mas é exatamente isso que, para mim, acaba sendo uma falha na construção da protagonista.

Por mais que essas relações sejam importantes para Kate, como provavelmente seriam para qualquer adolescente em seu lugar, a aventura de salvar seus pais e consertar a linha do tempo é mais importante do que alguns clichês secundários. Kate tem bastante espaço para mostrar sua personalidade e a história dá oportunidades para a protagonista ir crescendo nessa primeira parte da trilogia.

Chronos: Viajantes do Tempo já está à venda!

Resenha | A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil

Há algumas semanas, anunciamos que a Darkside lançaria A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers. A editora nos mandou uma cópia do livro e agora podemos contar um pouco do que achamos! Pode ler tranquilo, porque não vai ter spoilers.

Rosemary é uma guarda-livros humana que mora em Marte. Ela é enviada para trabalhar na Andarilha, uma nave especializada em abrir “túneis” de um ponto a outro no espaço. Lá, ela conhece o Capitão Ashby e sua tripulação, composta de várias pessoas diferentes, tanto por serem de várias raças alienígenas como também por terem costumes e opiniões variadas. Enquanto ela está se adaptando ao novo emprego, Ashby recebe uma proposta de trabalho para a Andarilha. Essa jornada os levará até Hedra Ka, o tal pequeno planeta hostil. É uma viagem perigosa, já que a raça que vive lá está em guerra, porém é um trabalho tão bem remunerado que Ashby não vê porque eles não devem tentar. Afinal, a Andarilha não é uma nave de guerra – essa conexão, inclusive, poderia fazer a paz entre as raças da Gallatic Commons (GC) e as que vivem nessa região.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil tem tudo o que os fãs de ficção científica mais amam: Longas viagens intergalácticas, alienígenas, alta tecnologia e até interação com IAs (inteligência artificial). Becky Chambers nos apresenta esse universo gigantesco, cheio de coisas novas e interessantes para o leitor mergulhar nelas. Uma das minhas maiores críticas à literatura de ficção científica é como as diferentes raças são apresentadas e explicadas. Quando estamos em um meio audiovisual, ou até num quadrinho ou videogame, o fator visual nos ajuda a entender essas novas raças, mas na literatura ficamos apenas com a descrição. Não é muito difícil que um autor apenas jogue informações no livro, deixando confuso para quem não conhece o universo criado e que vai ficar sem entender quem são esses alienígenas. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, a autora consegue nos apresentar sem problemas às raças que cruzam o caminho de Rosemary, falando sobre sua aparência, cultura e diferenças em relação aos humanos. Obviamente, no começo você fica um pouco perdido, mas Becky Chambers consegue encaixar esses momentos de exposição de forma divertida e interessante.

Talvez exatamente pela autora tomar esse tempo para explicar, os momentos “senta que lá vem história” acontecem com alguma frequência. Momentos de exposição muito longos podem ser um problema, mas em pouquíssimos deles me peguei ficando distraída da leitura, porque o conteúdo é tão interessante que queremos realmente sentar para ouvir a história. Por mais que os nomes sejam complicados, cada raça alienígena é tão distinta e com características tão marcantes que podemos até não saber direito pronunciá-los, mas lembramos os fatores importantes. Isso também vale para os momentos em que novas tecnologias são explicadas. Alguns deles são um pouco longos, mas a autora consegue explicar bem como esses aspectos funcionam nesse universo.

Os personagens são fantásticos. A Andarilha é composta por nove tripulantes, incluindo sua IA. Em um grupo grande de personagens, é esperado que alguns deles acabem ficando de lado. Becky Chambers de fato dá mais foco para uns do que para outros, mas ela consegue balancear tão bem o momento de cada um deles que acabamos conhecendo nove personagens densos, complexos e com arcos bem interessantes. Até personagens que eu considerava chatos se tornaram muito mais legais quando tiveram seu momento no holofote. Nenhum deles é uma cópia do outro, por mais que compartilhem o objetivo de terminar seu trabalho – cada um tem um conflito interno que aparece e recebe uma conclusão ao longo do livro.

 

Isso acaba resultando em um dos poucos pontos negativos do livro. Becky Chambers escolhe dar foco para os personagens, mas a história principal em si, a jornada até o planeta hostil, acaba ficando em segundo plano. Eventualmente, esse conflito “principal” tem sua conclusão, mas acaba sendo algo muito menor do que a história de cada um dos personagens. Por mais que eu encare isso como um defeito, essa escolha não afeta em nada a qualidade do livro, porque os personagens são tão ricos e seus conflitos tão interessantes, que o que importa de fato é ver como eles vão se virar e reagir diante das inúmeras coisas que vão acontecendo emseu redor, mesmo que as mais banais.

Muitas vezes vemos a ficção científica ser um lugar com muito mais espaço para personagens homens padrão do que qualquer outro tipo de personagem mais diverso. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, vemos todos os tipos de personagens. Boa parte da tripulação é composta por mulheres, todas elas bem diferentes e fugindo de qualquer estereótipo. Mesmo os homens da tripulação possuem representações interessantes, longe da masculinidade tóxica que conhecemos. Há também personagens negros, variedade de sexualidades, um personagem não binário e até a representação de relações poliamorosas.

Além de personagens incríveis, outro ponto muito bom do livro é a mensagem geral que ele passa. Por existirem inúmeras raças vivendo juntas, há toda uma discussão sobre aceitar o outro, buscar entender o que é diferente, respeitar a pessoa que está a seu lado e sobre como preconceito é algo que não deve ter espaço na sociedade. Quando algum personagem é preconceituoso, os outros em seu redor não perdem tempo em repreendê-lo. Em tempos como os atuais, em que uma onda conservadora ganha força em vários pontos do mundo, em que discursos perigosos e preconceituosos ganham cada vez mais espaço, é importante que a cultura pop esteja disposta a mostrar que a intolerância não é o caminho. A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil mostra que, para vivermos em sociedade com pessoas diferentes, devemos ser tolerantes, respeitar e ter empatia.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil é um livro muito bom. Recomendo bastante que todos leiam, e mesmo quem não é muito fã de ficção científica deveria dar uma chance. Além de ter um universo muito rico e interessante, é muito divertido acompanhar o desenvolvimento dos personagens. Sem contar que, nesses tempos atuais, precisamos de mais obras que falem sobre pessoas tendo empatia e conseguindo criar sociedades melhores.

O livro já está a venda pela Darkside.

Collant Entrevista | Jarid Arraes, Escritora Nacional

Muitas vezes, quando nós começamos essa jornada de escrever e criar nosso próprio conteúdo, acabamos procurando apenas referências internacionais. Óbvio que todo tipo de referência pode ser importante, não há nenhum problema se o seu gosto por histórias nasceu por consumir conteúdos de fora (inclusive é comum), mas às vezes esquecemos de olhar para os autores nacionais.
Jarid Arraes é escritora, cordelista e autora dos livros As Lendas de Dandara e Heroínas Negras Brasileiras. Ela criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel.
Seu trabalho conquistou inúmeras pessoas e é importante para a literatura nacional. Em seu primeiro livro, resgatou a história de Dandara dos Palmares, misturando fatos históricos com lendas e fantasia. Em seu livro mais recente, ela fala sobre mulheres negras que marcaram a história brasileira, figuras que muitas vezes são esquecidas, mas de muita importância e que precisam ser lembradas. Alguns de seus cordéis infantis são A Menina que Não Queria Ser Princesa e A Bailarina Gorda.
Nós entrevistamos Jarid Arraes, que falou um pouco sobre sua carreira e o seu processo criativo.

Collant: Você tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel. Como que você começou a escrever e da onde veio o seu interesse por esse tipo de literatura?

Jarid Arraes: Comecei a escrever cordel com o a intenção de preservar essa tradição literária e provocar outros públicos para que o cordel entrasse em seus interesses literários. Meu avô e meu pai são cordelistas, cresci lendo cordel e admirando muito toda a técnica, a melodia, então me pareceu muito importante dar continuidade ao cordel na minha família. Quando comecei a escrever, de cara já quis publicar cordéis com temáticas diferentes do mais tradicional, que é tão cheio de machismo, de racismo e outras formas de discriminação. Então meus cordéis são repletos de personagens diversos, de histórias que nos ajudam a pensar sobre questões sociais. Acho que essa é uma forma interessante de juntar a tradição com o novo.

C: Quais referências você diria que mais influenciaram o seu trabalho como escritora?

JA: Eu cresci lendo muita poesia. Até hoje leio muitos, muitos livros de poesia. Então acho que esses poetas que li quando adolescente, como Drummond, Gullar, Leminski, Manuel Bandeira, Neruda, Sylvia Plath, Anne Sexton, etc., são muito marcantes na minha escrita, mesmo quando não estou escrevendo poesia. Outro lado muito importante é que sou muito nerd, sempre gostei de fantasia, especialmente. E por influência da Aline Valek – escritora e ilustradora que é minha amiga e já trabalhou comigo no  meu primeiro livro – eu também descobri a ficção científica muito mais a fundo e de forma muito mais plural. De modo geral, acho que minhas influências partem daquilo que eu curto ler, assistir e escutar. Séries, livros de autores africanos, livros escritos por mulheres, poesia independente, cultural pop e, claro, minhas raízes no Cariri. Acho que junto tudo isso e trago tudo como uma receita.

C: Dandara dos Palmares foi uma figura importante no período colonial do Brasil. Você escreveu As Lendas de Dandara, que conta vários momentos da vida dela. Como é escrever sobre alguém tão importante como Dandara?

JA: Acho que Dandara tem uma aura lendária e mítica que é muito estimulante e inspiradora. Principalmente porque nos falta referências de heroínas negras, sobretudo com um diálogo tão próximo de nós. Então é impactante conhecer a história de uma mulher que liderou guerras contra a escravidão e deixou um legado heróico para a nossa História, mesmo com todas as tentativas de anulação e esquecimento.

Quando eu decidi contar a história de Dandara e preencher as lacunas com uma pegada fantástica, pensei no que eu gostaria de ter lido quando estava descobrindo a literatura e a fantasia como gênero literário. É aquela coisa do “escreva o que você gostaria de ler”. Não existe nada daquele jeito? Então crie. Foi isso que eu fiz. Nesse processo, curei muitas coisas em mim que estavam machucadas pelo racismo, pela ausência de referências de mulheres negras em quem eu pudesse me inspirar. E o fato de tanto adultos quanto crianças se envolverem tanto com As Lendas de Dandara nos mostra que esse processo de cura e descoberta tem se repetido com todas essas pessoas também. É muito lindo.

C: Recentemente, você lançou Heroínas Negras Brasileiras. Como foi o processo de seleção para escolher sobre quais mulheres você escreveria no seu livro?

JA: Eu já tinha publicado 20 cordéis com biografias de mulheres negras que marcaram nossa História. Como os cordéis eram um sucesso enorme, estava na hora de transformá-los em livro, até para oferecer um material físico mais resistente e também pensar num projeto gráfico bonito, ilustrado e bem especial.

Quando falei com a editora sobre a escolha das heroínas, que seriam 15, demos prioridade a diversidade de mulheres negras para que ficasse evidente o quanto o heroísmo das mulheres negras está presente em todos os períodos da nossa história. São heroínas negras de estados diferentes, épocas diferentes, que lutaram em várias frentes distintas. Escritoras, jornalistas, guerreiras, líderes quilombolas… Isso torna o livro mais rico, abre as portas para que todo mundo encontre um ponto de identificação e inspiração.

C: Ao contrário de As Lendas de Dandara, Heroínas Negras Brasileiras foca em várias personagens diferentes. Como foi o processo criativo para escrever esses cordéis? Foi muito diferente dos seus outros trabalhos?

JA: O maior desafio de escrever cordéis biográficos é encaixar fatos reais – como datas, nomes de lugares – na poesia. Porque o cordel exige uma técnica muito precisa com a métrica, as rimas e o ritmo da leitura. Foi um processo que me fez crescer como poeta e cordelista. Agora, quando ensino outras pessoas a escreverem cordel, sei transmitir com muito mais sucesso as dicas que facilitam a escrita, porque eu tive que ralar bastante, hahaha.

Mas é curioso que eu tenha mais dificuldade com a prosa do que com a poesia. Claro que isso deve ao fato de que minha formação literária é toda marcada pela poesia, pelo cordel, então é lógico que eu tenha mais facilidade com esse estilo.

Outra característica interessante é o quanto você precisa aprofundar as personagens. Na prosa, você tem muito mais tempo e espaço pra mostrar as diversas faces de uma personagem. Já o cordel tem outra pegada, você conta a história de um jeito diferente. No fim das contas, os dois me estimulam demais.

C: Um cordel é muito menor do que um romance, mas pode contar uma história tão grande quanto. Qual é a diferença entre escrever os cordéis e um romance? Qual deles acaba sendo um desafio maior pra você, como escritora?

JA: O desafio maior é o romance, com certeza. Até porque eu escrevo muito cordel e muita poesia, então é como se eu já estivesse habituada, meio que no automático, para contar as coisas de uma determinada forma. Aí a prosa vem e bagunça isso tudo.

No momento estou escrevendo alguns contos e é muito perceptível o quanto preciso prestar atenção nos vícios que tenho e são causados pela prática do cordel e da poesia. Ao mesmo tempo, estou sempre conversando com outras amigas escritoras e elas dizem que sentem muito mais dificuldade com a poesia e o cordel do que com a prosa. No fim das contas, sempre digo, sem sombra de dúvidas, que é questão de familiaridade e prática.

Para quem deseja escrever cordel, a dica é praticar bastante a métrica, até mais do que as rimas. Porque a rima você pode fazer com verbos, com terminações mais simples, mas a métrica exige uma espécie de “feeling” que é prática pura. Intimidade.

Também vale ter em mente que o cordel pede mais objetividade, na minha perspectiva. Ele tem uma identidade muito própria, é preciso desenvolver esse relacionamento com o cordel.

C: Para terminar, você poderia indicar um livro que tenha te inspirado de alguma maneira para as nossas leitoras?

JA: Um livro muito inspirador para mim é o Beijos no Chão, da Dani Costa Russo. É um romance que tem vários saltos na narrativa, que muda o tempo e que muda a forma de contar a história. Tem poesia, tem prosa. Acho ainda mais incrível por ser uma publicação independente, um romance de estréia. Tem uma coisa que é meio fantasia também. Acho que une muitas características inspiradoras e atemporais. E de quebra, você ainda apoia o trabalho de uma escritora independente! No site da Dani dá pra comprar facinho www.danicosta.com.br

Sobre “Leitor Sensível” e motivos pra não dizer que é censura

Recentemente, nossas linhas do tempo no Facebook foram invadidas com a expressão “leitor sensível”. A expressão era até então desconhecida de grande parte da população – até mesmo para algumas pessoas envolvidas com literatura e escrita em geral. Após a publicação da reportagem “Editoras contratam ‘leitor sensível’ para evitar ofender as minorias”, surgiram muitos comentários muito equivocados sobre o assunto. Pularam na nossa frente falas que variavam entre comparações com inquisição e ditadura até acusações de que a presença do leitor sensível estava acabando com a literatura.

Basicamente, um leitor sensível é alguém que lerá uma obra a ser publicada e opinará sobre a construção de determinadas personagens e conflitos. Seu trabalho é dar uma consultoria que possibilite uma criação mais verossímil e menos pautada em estereótipos. Normalmente, um leitor sensível analisa personagens e conflitos que tenham a ver com suas vivências pessoais – ligadas a gênero, classe, etnia, situações delicadas, etc. É um serviço adicional no processo editorial. No Brasil ele ainda não é tão comum quanto em outros lugares do mundo. A ideia é que, passando pelo olhar de uma pessoa que conhece melhor o assunto, a obra tenda a ser construída com mais verdade. É possível ler mais sobre o assunto no blog de Alliah e em inglês nessa matéria do Slate.

Basicamente uma pessoa lendo sobre aquilo que ela entende melhor: ela própria.
(Arte: Richardd Curtner)

As editoras têm se interessado mais por esse tipo de serviço, mas não necessariamente por alguma consciência social, e sim por uma questão de mercado. É evidente que cada vez mais as pessoas não aceitam certos tipos de comentários ou representações midiáticas. A propaganda vem se adaptando para atender a esse consumidor e dramaturgia – tanto no cinema quanto na TV – tem colocado conflitos com maior representatividade. Quando se precisa vender, não se quer desagradar o público alvo e se o público alvo não quer mais ver os velhos clichês, vai se tentar outros caminhos para atendê-lo. Na reportagem que deu origem à discussão se falava sobre o leitor sensível ser uma estratégia para evitar boicotes.

Esse assunto tinha sumido, até que Washington Olivetto deu uma entrevista falando justamente aquelas opiniões do primeiro parágrafo: que o leitor sensível seria uma espécie de censor que tolheria a criatividade dos autores. E o assunto voltou a rodar pelas nossas linhas do tempo.

Já está autorizado reagir como a Mulan pra tudo na vida?

Para pensar um pouco mais sobre o assunto, falamos com a Carolina Gomes. Carolina é mulher, negra, roteirista, revisora e uma “leitora sensível informal”. Por conta de seu olhar sobre o mundo, suas leituras de obras literárias e cinematográficas sempre pontum questões tocantes à sua vivência e à construção e elaboração de personagens e situações que conhece bem. Carolina Gomes também é criadora do site Pretas Dramas junto com a cineasta Renata Martins e a psicóloga Viviane Angélica.

– Qual a sua experiência – profissional ou não – como leitora sensível?

Então, não é minha profissão. Pessoas próximas e amigos me mandam alguns textos e eu leio. Eu faço uma leitura ativa, é basicamente parte do meu processo de ler (e acabo fazendo isso também no meu trabalho como revisora).

– Você lembra quando foi a primeira vez que te pediram pra ler uma obra com esse propósito?

Nunca me pediram especificamente uma leitura sensível mas eu sempre levanto os pontos e abordo com a pessoa. É por isso que eu chamo de leitura ativa: Eu leio, destaco os trechos e devolvo para o escritor. Acho o processo interessante porque a troca é bastante intensa: o escritor, ao passar sua obra para uma leitura de outra pessoa, também está minimamente disposto a ouvir e refletir sobre isso. Pensando agora, eu leio desta forma quase sempre no dia a dia

– Pelo que você fala parece uma troca comum entre pessoas que trabalham com escrita pedir que outra pessoa leia para opinar.

Eu acho que sim. Tenho amigos que fazem isso com certa freqüência. Acho que isso acontece também porque ficamos tão imersos nas nossas escritas e por vezes não percebemos algumas questões, mesmo que não sejam sutis. Às vezes são gritantes e mesmo assim passam, acontece… E às vezes o escritor está falando de algo que domina pouco também. Há muito equívoco neste processo de escritura e lapidação das narrativas, mas isso só vai acontecer se o escritor estiver aberto ao diálogo e disposto a escutar a crítica

– Você acha que às vezes as pessoas têm uma superproteção com a própria obra, que deixa mais difícil ouvir críticas ou sugestões?

Exatamente, isso acontece. Eu leio obras de amigos homens e a coisa às vezes fica estranha quando falo da representação de mulheres. Sempre dá pano pra manga…

– Eu vi muita gente dizendo que submeter sua obra a um leitor sensível é uma espécie de censura.

Também vi este tipo de comentário mas acho estranho. A obra vai ser filmada ou publicada, então o que se espera? Que tenha público. E tendo um público, teremos críticas, positivas ou não. Não conheço obras isentas deste processo. E também tem uma outra coisa que acho complicado no processo é o limite entre leitor sensível e coautor. Porque às vezes o problema é tão estrutural que não é um acerto puro e simples, é uma mudança de rota, praticamente. E eu também falo: não acredito em leitura isenta. Porque eu sou uma mulher e, se leio sobre mulheres, tenho uma visão sobre isso. O mesmo sobre questões de raça, classe social; então sempre falo: não será uma leitura isenta e nem é essa a minha pegada.

– Foi até bom você falar sobre filmes, porque nessas discussões eu não ouvi falarem sobre essa análise em roteiros. Você vê isso rolando em cinema também?

Eu leio roteiros e acho que tem rolado uma preocupação com isso também e sei de amigos do meio que passam os roteiros para serem lidos com este intuito.

– Você acha que existe limite para a liberdade de expressão na literatura?

Não tenho uma resposta pronta pra esta questão de limites. O que eu acho é que estamos passando por um momento em que mais e mais pessoas consomem as obras com um viés mais crítico. Se o autor não é sensível ao momento em que vive e à sociedade em que está inserido, bem… Ele continuará fazendo o trabalho como sempre fez.

– Você acha que tende a se tornar uma prática mais comum no Brasil, assim como é no exterior?

Acho que sim, espero que cresça ainda mais. Isso mostra maturidade no mercado e até mais profissionalismo. Quem se preocupa em construir narrativas mais plurais e diversas vai fazer isso. Quem não liga vai tocar a vida e as narrativas como sempre.

Para conhecer e ler literaturas africanas – PARTE I

Erroneamente, é possível encontrar em festivais literários ou até mesmo em artigos de jornais a colocação de literatura africana como literatura marginal ou periférica. Isso ocorreu esse ano, na 12ª Feira Nacional do Livros de Poços de Caldas, que teve uma mesa-redonda nomeada por “Mulheres na Literatura Marginal/Periférica”, tendo como debatedoras Luz Ribeiro, Mel Duarte, Roberta Estrela D’alva – escritoras brasileiras que fazem parte da chamada literatura marginal ou periférica –, e Paulina Chiziane, escritora moçambicana que é considerada cânone tanto nos países de literaturas africanas em língua portuguesa quanto na tradição de escrita de autoria feminina africana.

O que leva um evento de tão grande porte colocar uma escritora como Paulina em uma mesa que pouco – ou nada – tem a ver com sua história literária? Talvez o motivo, de modo bastante preconceituoso, deva ser o fato de todas essas escritoras serem negras e, dessa forma, serem vistas e lidas com uma trajetória parecida.

É assim que retornamos à afirmação feita no começo do texto: é errôneo colocar literaturas africanas na mesma caixa da literatura marginal. Se isso é feito é porque, infelizmente, apesar de ser fácil encontrar livros de escritores africanos nas livrarias, ainda é difícil, mesmo com a lei 10.639/03, que fala sobre a obrigatoriedade do ensino de cultura e história africana e indígena nas escolas e universidades brasileiras, ver pessoas que se interessam por literaturas africanas. E literaturas africanas está no plural porque, afinal de contas, há 54 países no continente africano, cada um com inúmeras peculiaridades que os fazem diferentes entre e em si.

Além disso, não podemos nos esquecer de que o Nobel de Literatura já foi entregue para quatro escritores africanos, tanto da chamada África setentrional, a parte norte do continente, quanto da África subsaariana, que é toda a parte que se encontra abaixo do Deserto do Saara.

 

Os países com um livrinho foram os que receberam o Prêmio Nobel de Literatura: o nigeriano Wole Soyinka foi o primeiro, em 1986; o egípcio Naguib Mahfouz o segundo, em 1988; e os sul-africanos Nadine Gordimer e J. M. Coetzee foram, respectivamente, o terceiro, em 1991, e quarto, em 2003, a ganharem o Prêmio.

Sendo assim, para sair dessa nomenclatura um tanto preguiçosa que andam dando às literaturas africanas é que essa lista foi feita. Todos os livros aqui sugeridos podem ser encontrados em sebos ou livrarias:

 

1. Niketche, uma história de poligamia – Paulina Chiziane

Paulina foi a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique. Enfrentou o preconceito da sociedade que não aceitava que uma mulher pudesse escrever. Ainda mais escrever sobre amor, sexo e desejo, algumas premissas que são encontradas em seus livros.

Infelizmente, só temos um livro publicado dela no Brasil, Niketche, uma história de poligamia, que mostra a protagonista Rami tentando reconquistar seu marido, o comandante de polícia Tony. Cansada de ser humilhada pelo marido, Rami decide ir atrás do que ela pensa ser o problema de seu casamento: Julieta, amante de Tony. Todavia, ao chegar na casa de Ju, Rami descobre que Tony possui outra amante e, indo de casa em casa, o que antes era uma monogamia, torna-se uma poligamia representada por um pentágono.

 

2. Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda é nigeriana e tem inúmeros livros publicados no Brasil, então não vai ser difícil encontrá-la! Aqui indicarei o primeiro que eu li e que me conquistou.

Americanah conta a história da nigeriana Ifemelu que se muda para os Estados Unidos para terminar os estudos. E é nesse país estrangeiro que Ifemelu se descobre como mulher negra e o que isso implica na sua vivência.

 

3. Amargos como os frutos: poesia reunida – Ana Paula Tavares

Como o próprio nome diz, Amargos como os frutos é uma antologia de toda produção poética da escritora angolana Paula Tavares, que também escreve crônicas. Sua poesia é marcada por um forte apelo erótico e por tratar da mulher mumuíla, da comunidade Mumuíla, na província de Huíla.

 

4. Mayombe – Pepetela

Assim como Paula Tavares, Pepetela é angolano. Mayombe foi escrito em 1971, ainda durante a guerra de independência de Angola contra a ocupação portuguesa. Apesar do momento eufórico de celebração para um futuro possivelmente melhor, o livro é marcado por uma espécie de disforia, o que dá o tom um pouco adivinhatório da desesperança que assolaria o país alguns anos após a independência. Além disso, ele foi publicado apenas em 1980.

A história narra o cotidiano de um grupo de guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), mostrando os conflitos internos de cada personagem.

 

5. Aya de Yopougon – Marguerite Abouet

HQ que ganhou o Prêmio de Melhor álbum de estreia no Festival Internacional de HQ de Angoulemê, em 2006, Aya de Yopougon conta a história de três amigas que vivem em Yop City, subúrbio de Abidjan, capital da Costa do Marfim. Assim, saindo do clichê do continente africano marcado pela fome e guerra, vemos que a vida dessas três amigas, assim como de qualquer adolescente, é marcada por dilemas como amor e dúvidas sobre o futuro.

Infelizmente só duas edições foram publicadas no Brasil, mas mesmo assim vale muito a pena ler!

 

Aguardem a segunda parte da lista!

Eu li: Confissões de uma Adolescente Grávida

E aí gente, como é que vocês estão?

Hoje tem resenha de livro no canal! Faz tempo, né?

O livro que falei hoje é Confissões de uma Adolescente Grávida, da Graciela Paciência, que como o nome indica, fala sobre Mirella, uma adolescente que fica grávida durante o ensino médio.

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Eu li: O Conto da Aia

E aí gente, como é que vocês estão?

Hoje no canal tem resenha de livro! Vou falar um pouco do que achei de O Conto da Aia, um livro de ficção científica da Margaret Atwood. A história acompanha Offred no seu cotidiano em uma sociedade opressora.

O livro será adaptado para a televisão e a série será lançada em abril desse ano pela Hulu!

Originalmente postado em Ideias em Roxo

Adaptações e os acertos de A Chegada

É possível fazer um texto apenas com os acertos de A Chegada no geral. O filme é uma adaptação do conto de Ted Chiang “História da sua Vida”, lançado em 2016 e também indicado para algumas premiações, incluindo o Oscar de melhor filme. Mesmo o Oscar tendo um histórico de não necessariamente premiar ou indicar os melhores filmes sempre, A Chegada é realmente um longa muito bom. Para mim, junto com Estrelas Além do Tempo, é o melhor filme do ano.

A Chegada é dirigido por Denis Villeneuve. A protagonista é Louise Banks (Amy Adams), uma linguista que é chamada pelo governo para ajudar com os primeiros contatos com a raça dos heptapodes, que são alienígenas que pousaram em vários lugares da terra. Os humanos não sabem o que eles querem e descobrir isso é o grande desafio da história.

Há várias análises que podem ser feitas a partir desse filme. Em tempos de intolerância e conflitos, um filme sobre alienígenas que mostra os humanos tentando conversar antes de atirar é muito oportuno. A Chegada vai falar sobre dificuldades de comunicação, sobre como é  mais fácil assumir o pior do “outro” e também sobre outros aspectos mais filosóficos do ser humano. Mas o foco neste texto é falar como um conto de algumas páginas conseguiu virar um filme tão bom, a partir daí podemos pensar um pouco sobre os aspectos que fazem uma adaptação agradar o público.

O texto contém spoilers do filme A Chegada e do conto História da sua Vida.

Continue lendo “Adaptações e os acertos de A Chegada”

Eu li: As Lendas de Dandara

E aí gente, como é que vocês estão?

Hoje temos mais uma resenha de livro! As Lendas de Dandara é o livro da Jarid Arraes, que em dez capítulos conta momentos da vida de Dandara, uma guerreira no quilombo de Palmares.

Como vocês vão perceber, é um livro que gostei bastante e recomendo para todo mundo!

Originalmente postado em Ideias em Roxo

Eu li: Os Cavaleiros do Inverno

E aí gente, como é que vocês estão?

Vamos começar o ano falando sobre livros no canal! Os Cavaleiros do Inverno, da Cecília Reis, ganhou versão física no final do ano passado pela editora Wish e eu vou falar um pouco sobre o que achei do livro.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.