A representação feminina em Chronos: Viajantes do Tempo

Este texto não contém spoilers do livro.

Aqui no Collant, nós já fizemos uma lista de garotas que tiveram que viajar no tempo, mas isso não significa que elas são a maioria nesse tipo de história. O papel heroico, ainda mais na ficção científica, muitas vezes acaba ficando com o personagem masculino. Em Chronos: Viajantes do Tempo, a pessoa destinada a salvar o mundo é Kate, uma garota adolescente.

Primeiro, é legal pensar na questão da mulher ser a escolhida para um papel importante. Nós já estamos cansados de ver histórias de escolhidos homens, de como o tal protagonista nasceu para realizar a função que salvará todos, mas quantas vezes esses espaços são ocupados por mulheres? O escolhido sempre é o cara que se encaixa dentro do padrão.

Kate tem um dom muito grande para usar a chave Chronos, que permite as viagens no tempo, deixando todos ao seu redor impressionados com a sua capacidade. Assim que ela se vê nessa situação, Kate começa a procurar todas as informações possíveis que possam ajudá-la a enfrentar esses novos problemas que estão aparecendo. Ela não é passiva ao que acontece ao seu redor, por mais que seja difícil entender todos os problemas de primeira.

Além disso, ela não é a única mulher no meio de vários homens. A sua avó, Katherine (sim, elas têm o mesmo nome), é a grande mentora da protagonista. É comum que, em histórias com algum fator de escolhido com uma aventura épica, exista aquela figura de mestre que vai guiar o caminho do herói. Esse também é um papel que geralmente fica com um personagem masculino mais velho e sábio, mas, nesse caso, a mentora de Kate é a sua própria avó, uma figura feminina. Ela é uma mulher que entende tudo sobre como as viagens no tempo funcionam, é inteligente e fez inúmeras coisas para se manter segura, por mais difíceis que elas fossem. Agora, ela sabe que não pode mais tomar a frente dessa luta, por isso passa o seu conhecimento para Kate.

A relação das duas é uma das partes mais interessantes da história. Ao invés de Kate apenas aceitar o que é passado para ela, a adolescente começa a ter dúvidas e até a discordar de algumas decisões que sua avó tomou, mostrando que ela não é uma personagem sem personalidade. Esse aspecto de “desafiar o mestre” é interessante nesse tipo de dinâmica. Kate não é obediente o tempo todo e usa o conhecimento que recebe de Katherine para resolver as coisas da sua maneira. O fato de estarmos sempre na cabeça de Kate, até por causa da narrativa em primeira pessoa, nos ajuda a entender o que ela está pensando e as suas motivações.

Porém, em alguns momentos, a história acaba fazendo sua protagonista cair em clichês. Kate é uma adolescente e, infelizmente, alguma parte do livro é dedicada a falar sobre interesses românticos e meninos que ela acha interessante. O fato dela se importar com isso não é um problema, mas o jeito que isso é tratado na história acaba ficando clichê. Em alguns momentos, Kate é salva por esses possíveis interesses românticos, até em situações que poderiam ser tratadas de outra forma, ou ela poderia ter ajuda de uma figura que não necessariamente fosse um possível romance ou até mesmo não fosse uma figura masculina. Também há momentos em que o clima romântico parece forçado e acelerado, como se a autora acreditasse que a protagonista precisasse muito desses elementos para ser interessante, mas é exatamente isso que, para mim, acaba sendo uma falha na construção da protagonista.

Por mais que essas relações sejam importantes para Kate, como provavelmente seriam para qualquer adolescente em seu lugar, a aventura de salvar seus pais e consertar a linha do tempo é mais importante do que alguns clichês secundários. Kate tem bastante espaço para mostrar sua personalidade e a história dá oportunidades para a protagonista ir crescendo nessa primeira parte da trilogia.

Chronos: Viajantes do Tempo já está à venda!

Darkside Books lança Chronos: Viajantes do Tempo. Prepare-se para essa viagem!

Viagem no tempo é um assunto que sempre fascinou muitas pessoas, há inúmeras histórias sobre isso. Mesmo quando esse não é necessariamente o foco da narrativa, há aquelas que usam esse elemento em algum momento. Bom, se você é uma das pessoas que, assim como eu, curte viagem no tempo, o novo lançamento da Darkside vai te interessar bastante!

Chronos: Viajantes do tempo conta a história de Kate, que descobre que a avó é uma viajante no tempo. Como se não fosse o bastante, um alteração na linha temporal faz com que os pais de Kate sumam, então ela entra nessa aventura de voltar no tempo e impedir um homicídio que pode ser a solução para resolver tudo. O problema é que, como nós já sabemos, viagens no tempo sempre possuem custos altos e o risco de acabar com o presente que conhecemos.

A autora do livro é Rysa Walker, escritora americana. Chronos: Viajantes do tempo é o seu romance de estreia. Esse é o primeiro volume de uma trilogia, que também foi ganhador do prêmio Amazon Breakthrough Novel Award em 2013, além de ser muito elogiado pela crítica.  

Eu costumo dizer que viagem no tempo é um recurso narrativo que, apesar de ser muito divertido, também pode ser muito complicado. As regras das linhas temporais variam de acordo com o universo. Em Efeito Borboleta e Life is Strange, cada fato mudado afeta diretamente o futuro, já em Game of Thrones não importa o que você faça, nada poderá ser mudado. Então é fácil que o autor se perca nessas mudanças temporais, ainda mais quando isso é colocado junto de outros elementos. Rysa Walker não tem medo de juntar a viagem no tempo com uma investigação de assassinato, sempre tomando cuidado com as referências históricas.

Chronos: Viajantes do tempo também tem protagonismo feminino, a maioria dos personagens que viajam no tempo na ficção são homens, então é sempre bom ver uma mulher tomando esse espaço.

O livro tem 320 páginas, com aquela capa dura e linda da Darkside que todos amamos. A tradução foi feita por Fernanda Lizardo.

Para todos que já querem entrar nessa viagem, o livro já está disponível na Amazon!

Resenha | A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil

Há algumas semanas, anunciamos que a Darkside lançaria A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers. A editora nos mandou uma cópia do livro e agora podemos contar um pouco do que achamos! Pode ler tranquilo, porque não vai ter spoilers.

Rosemary é uma guarda-livros humana que mora em Marte. Ela é enviada para trabalhar na Andarilha, uma nave especializada em abrir “túneis” de um ponto a outro no espaço. Lá, ela conhece o Capitão Ashby e sua tripulação, composta de várias pessoas diferentes, tanto por serem de várias raças alienígenas como também por terem costumes e opiniões variadas. Enquanto ela está se adaptando ao novo emprego, Ashby recebe uma proposta de trabalho para a Andarilha. Essa jornada os levará até Hedra Ka, o tal pequeno planeta hostil. É uma viagem perigosa, já que a raça que vive lá está em guerra, porém é um trabalho tão bem remunerado que Ashby não vê porque eles não devem tentar. Afinal, a Andarilha não é uma nave de guerra – essa conexão, inclusive, poderia fazer a paz entre as raças da Gallatic Commons (GC) e as que vivem nessa região.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil tem tudo o que os fãs de ficção científica mais amam: Longas viagens intergalácticas, alienígenas, alta tecnologia e até interação com IAs (inteligência artificial). Becky Chambers nos apresenta esse universo gigantesco, cheio de coisas novas e interessantes para o leitor mergulhar nelas. Uma das minhas maiores críticas à literatura de ficção científica é como as diferentes raças são apresentadas e explicadas. Quando estamos em um meio audiovisual, ou até num quadrinho ou videogame, o fator visual nos ajuda a entender essas novas raças, mas na literatura ficamos apenas com a descrição. Não é muito difícil que um autor apenas jogue informações no livro, deixando confuso para quem não conhece o universo criado e que vai ficar sem entender quem são esses alienígenas. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, a autora consegue nos apresentar sem problemas às raças que cruzam o caminho de Rosemary, falando sobre sua aparência, cultura e diferenças em relação aos humanos. Obviamente, no começo você fica um pouco perdido, mas Becky Chambers consegue encaixar esses momentos de exposição de forma divertida e interessante.

Talvez exatamente pela autora tomar esse tempo para explicar, os momentos “senta que lá vem história” acontecem com alguma frequência. Momentos de exposição muito longos podem ser um problema, mas em pouquíssimos deles me peguei ficando distraída da leitura, porque o conteúdo é tão interessante que queremos realmente sentar para ouvir a história. Por mais que os nomes sejam complicados, cada raça alienígena é tão distinta e com características tão marcantes que podemos até não saber direito pronunciá-los, mas lembramos os fatores importantes. Isso também vale para os momentos em que novas tecnologias são explicadas. Alguns deles são um pouco longos, mas a autora consegue explicar bem como esses aspectos funcionam nesse universo.

Os personagens são fantásticos. A Andarilha é composta por nove tripulantes, incluindo sua IA. Em um grupo grande de personagens, é esperado que alguns deles acabem ficando de lado. Becky Chambers de fato dá mais foco para uns do que para outros, mas ela consegue balancear tão bem o momento de cada um deles que acabamos conhecendo nove personagens densos, complexos e com arcos bem interessantes. Até personagens que eu considerava chatos se tornaram muito mais legais quando tiveram seu momento no holofote. Nenhum deles é uma cópia do outro, por mais que compartilhem o objetivo de terminar seu trabalho – cada um tem um conflito interno que aparece e recebe uma conclusão ao longo do livro.

 

Isso acaba resultando em um dos poucos pontos negativos do livro. Becky Chambers escolhe dar foco para os personagens, mas a história principal em si, a jornada até o planeta hostil, acaba ficando em segundo plano. Eventualmente, esse conflito “principal” tem sua conclusão, mas acaba sendo algo muito menor do que a história de cada um dos personagens. Por mais que eu encare isso como um defeito, essa escolha não afeta em nada a qualidade do livro, porque os personagens são tão ricos e seus conflitos tão interessantes, que o que importa de fato é ver como eles vão se virar e reagir diante das inúmeras coisas que vão acontecendo emseu redor, mesmo que as mais banais.

Muitas vezes vemos a ficção científica ser um lugar com muito mais espaço para personagens homens padrão do que qualquer outro tipo de personagem mais diverso. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, vemos todos os tipos de personagens. Boa parte da tripulação é composta por mulheres, todas elas bem diferentes e fugindo de qualquer estereótipo. Mesmo os homens da tripulação possuem representações interessantes, longe da masculinidade tóxica que conhecemos. Há também personagens negros, variedade de sexualidades, um personagem não binário e até a representação de relações poliamorosas.

Além de personagens incríveis, outro ponto muito bom do livro é a mensagem geral que ele passa. Por existirem inúmeras raças vivendo juntas, há toda uma discussão sobre aceitar o outro, buscar entender o que é diferente, respeitar a pessoa que está a seu lado e sobre como preconceito é algo que não deve ter espaço na sociedade. Quando algum personagem é preconceituoso, os outros em seu redor não perdem tempo em repreendê-lo. Em tempos como os atuais, em que uma onda conservadora ganha força em vários pontos do mundo, em que discursos perigosos e preconceituosos ganham cada vez mais espaço, é importante que a cultura pop esteja disposta a mostrar que a intolerância não é o caminho. A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil mostra que, para vivermos em sociedade com pessoas diferentes, devemos ser tolerantes, respeitar e ter empatia.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil é um livro muito bom. Recomendo bastante que todos leiam, e mesmo quem não é muito fã de ficção científica deveria dar uma chance. Além de ter um universo muito rico e interessante, é muito divertido acompanhar o desenvolvimento dos personagens. Sem contar que, nesses tempos atuais, precisamos de mais obras que falem sobre pessoas tendo empatia e conseguindo criar sociedades melhores.

O livro já está a venda pela Darkside.

Resenha: “Outros jeitos de usar a boca”

“Outros jeitos de usar a boca”, de Rupi Kaur, virou o livro de cabeceira de muita gente. Mais especificamente de 40 milhões de leitores ao redor do mundo. “milk and honey” (título original) de Rupi está, há semanas, como #1 da lista de mais vendidos do New York Times, e chegou no Brasil há pouco tempo, mas já virou best-seller aqui também.

Uma das razões pra esse sucesso gigantesco se deve ao fato da poesia dela ser clara, direta e curta. É simples de ler e ainda tem imagens – maravilhosas – da própria autora que facilitam a compreensão. Mas a temática em si não é fácil. Rupi abre seu coração e suas experiências de vida em “Outros jeitos de usar a boca” em quatro partes: “a dor”, “o amor”, “a ruptura” e “a cura”.

As 4 fases formam um arco narrativo subjetivo sobre as noções de abuso, relacionamento, perda, cura e feminismo. Mas por mais que sejam as experiências da Rupi, a maneira que ela escreve possibilita a abertura de uma discussão de micro pra macro, como o papel da mulher na sociedade, impunidade, amor próprio e até relações interpessoais com familiares e namorados(as). De certo modo, ela acolhe as leitoras com suas próprias experiências do que é a feminilidade, o que é ser mulher atualmente.

Os desenhos minimalistas do livro são da própria Rupi e já foram tatuadas nas peles de muitas mulheres. Assim como a linguagem escrita, a visual também é simples, delicada e forte. Desse modo, os desenhos complementam de uma forma essencial os próprios poemas. É desse jeito, por exemplo, que ela cria uma experiência completa para o leitor quando descreve a natureza feminina como algo lindo em “a cura”. Ela torna esse e vários outros tabus algo fácil de ler e compreender.

Hoje, a Rupi é uma escritora famosa e que usa diferentes formatos, não só o impresso, pra divulgar seus poemas. Ela também usa muito o Instagram como ferramenta. Inclusive foi ela que postou a foto menstruada com a calça e o lençol manchados e causou polêmica em 2015, abrindo a discussão sobre o tabu que se cria em cima de questões tão básicas da natureza feminina, como menstruação.

thank you @instagram for providing me with the exact response my work was created to critique. you deleted a photo of a woman who is fully covered and menstruating stating that it goes against community guidelines when your guidelines outline that it is nothing but acceptable. the girl is fully clothed. the photo is mine. it is not attacking a certain group. nor is it spam. and because it does not break those guidelines i will repost it again. i will not apologize for not feeding the ego and pride of misogynist society that will have my body in an underwear but not be okay with a small leak. when your pages are filled with countless photos/accounts where women (so many who are underage) are objectified. pornified. and treated less than human. thank you. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀ this image is a part of my photoseries project for my visual rhetoric course. you can view the full series at rupikaur.com the photos were shot by myself and @prabhkaur1 (and no. the blood. is not real.) ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ i bleed each month to help make humankind a possibility. my womb is home to the divine. a source of life for our species. whether i choose to create or not. but very few times it is seen that way. in older civilizations this blood was considered holy. in some it still is. but a majority of people. societies. and communities shun this natural process. some are more comfortable with the pornification of women. the sexualization of women. the violence and degradation of women than this. they cannot be bothered to express their disgust about all that. but will be angered and bothered by this. we menstruate and they see it as dirty. attention seeking. sick. a burden. as if this process is less natural than breathing. as if it is not a bridge between this universe and the last. as if this process is not love. labour. life. selfless and strikingly beautiful.

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No final das contas, o sangue não era real, mas faz parte do trabalho visual e militância dela, ambos aspectos muito fortes do que ela faz, inclusive em “Outros jeitos de usar a boca”.

Finalmente, o trabalho dela é incrível. Ao longo do livro se vê a alma dela aberta para o leitor, algo que requer muita coragem. E não à toa, aos 24 anos ela é autora de best-seller e a poesia dela já faz parte da literatura feminista. Inclusive, 40 milhões de exemplares vendidos de uma obra feminista vendidos no mundo só mostra o quanto o movimento está crescendo.

Se você quiser conhecer mais sobre a Rupi, assista ao TED dela sobre retomar o próprio corpo: 

Você também pode comprar “Outros jeitos de usar a boca” na Livraria Cultura por R$19,90.

DarkSide Books lança A longa viagem a um pequeno planeta hostil, de Becky Chambers, e nossos corações de sci-fi explodem!

Há alguns anos comecei a seguir um site chamado The Mary Sue, com certeza o site que iniciou minha educação sobre a questão da representatividade dentro da cultura pop que eu consumia tão ferozmente todos os dias. Lá conheci um monte de mulheres que escreviam sobre todo tipo de assunto nerd, uma delas justamente Becky Chambers, autora do lançamento da vez da editora Darkside: A longa viagem a um pequeno planeta hostil.

Becky é filha de uma especialista em astrobiologia e de um engenheiro espacial e neta de um dos participantes dos projetos Apollo da Nasa, ou seja: ciência é algo que corre em suas veias. E, como a gente bem sabe, para atravessar da ciência real para a ficção científica é um pulo. Apaixonada por Star Trek e pelo trabalho de Carl Sagan, todo esse universo de ficção e ciência só podia resultar numa escritora muito talentosa.

Em seu livro de estreia, Becky cria um romance que gira em torno da tripulação da nave Andarilha e da construção de um túnel espacial que vai permitir ao pequeno planeta do título fazer parte de uma aliança galáctica. Com personagens muito bem elaborados, com aliens que fogem do padrão “humanoide” que vemos aos montes dentro da ficção científica, A longa viagem a um pequeno planeta hostil entrega uma variedade de personagens e temas que faz o coração de qualquer apaixonada por sci-fi bater mais rápido.

Quer uma piloto reptiliana? Tem. Uma estagiária recém-saída da universidade e criada nas colônias de Marte? Tem. Médico de gênero fluido? Também tem. O livro aborda temas clássicos, como amizade, mas vai além, ao trazer questões como o racismo, o poliamor e variados conceitos de família. É muito amor dentro de um livro só! Em tempos conservadores como os que vivemos, é sempre incrível ver a ficção científica realmente tocar nesses assuntos, e fazer isso por meio de um grupo de personagens tão diferentes é ainda melhor.

O livro foi inicialmente financiado através do Kickstarter, e fez tanto sucesso entre os fãs e a crítica que acabou indicado a dois dos maiores prêmios da literatura de ficção científica: o Hugo Awards e o Arthur C. Clark Awards. Com cada vez mais se mulheres auto-publicando, é revigorante ver que o talento delas está sendo reconhecido e abraçado por editoras tradicionais. A longa viagem a um pequeno planeta hostil é o primeiro lançamento de ficção científica da linha DarkLove, que foca em produções escritas por autoras e que já possui títulos como The Kiss of DeceptionSó os animais salvam e Confissões de crematório.

A longa viagem a um pequeno planeta hostil, que chega dia 10 de agosto às prateleiras, tem a já tradicional edição capa dura da DarkSide352 páginas e tradução de Flora Pinheiro – sempre fico feliz quando vejo uma tradutora nos créditos.

Você já pode reservar o seu lugar nessa viagem espacial: o livro está em pré-venda na Amazon!

Eu li: As Lendas de Dandara

E aí gente, como é que vocês estão?

Hoje temos mais uma resenha de livro! As Lendas de Dandara é o livro da Jarid Arraes, que em dez capítulos conta momentos da vida de Dandara, uma guerreira no quilombo de Palmares.

Como vocês vão perceber, é um livro que gostei bastante e recomendo para todo mundo!

Originalmente postado em Ideias em Roxo

Star Wars revela imagem oficial de Ciena Ree, nova personagem cânone.

Star Wars voltou com tudo no final do ano passado. Apesar dos livros sobre o universo nunca terem parado, a série de livros que agora é oficial se expande desde os livros mais tradicionais, até YA (Jovens Adultos).

Em Estrelas Perdidas, lançado aqui no Brasil pela editora Seguinte, nós somos apresentados à um casal que se apaixona durante os eventos dos primeiros filmes mas se vêem ficando um de cada lado da guerra. A garota é Ciena Ree, jovem combatente da Academia Imperial.

Durante o evento Star Wars Show a primeira imagem oficial da personagem foi liberada – e olha que linda. <3

 

Cirena também vai estar nos jogo Star Wars Armada, da empresa Fantasy Flight Games, que liberou a imagem.

Eu ainda não li o livro, mas fiquei muito feliz com o fato da personagem ser negra. Tem mais um monte de informações legais sobre a personagem que eu não quero falar porque pode qualificar como spoiler! Agora fica a vontade de ver também na tela do cinema uma mulher negra tão legal quanto Ciena parece ser!

Eu Li: A Mulher Comestível, de Margaret Atwood

A Mulher Comestível é um dos livros mais conhecidos de Margaret Atwood, escritora canadense, publicado em 1969. Eu o li ano passado nessa mesma época pós-férias, e esse ano, mesmo com mil livros me esperando na estante com olhinhos tristes, eu tive que lê-lo de novo. E cara, não consigo lidar com a genialidade de Margaret Atwood. Que pessoa mágica.

O plot central da história é o mais simples possível, quase como o início de A Metamorfose, de Kafka: um dia, Marian percebe que não consegue mais comer. Não porque lhe falte comida ou fome, mas porque progressivamente o ato de comer se torna algo do qual ela é fisicamente incapaz.

Marian é uma jovem recém-formada na universidade que trabalha em um centro de pesquisa de marketing e leva uma vida absolutamente comum. Ela divide um apartamento com Ainsley, uma colega de trabalho, e tem um relacionamento relativamente estável com Peter — estes dois sendo suas relações mais próximas. O mundo que ela habita é herdado, esperado e já bem definido; nele, Marian é um “agente”, no sentido bourdieusiano, onde o indivíduo não decide de suas ações, mas é “regido” por estruturas sociais já determinadas. Porém, esse mundo conhecido e estável — faculdade, trabalho, relações desinteressadas — começa a erodir pouco a pouco, feito a casca de um ovo.

Três elementos principais contribuem para a destruição desse mundo: o primeiro é o encontro com Duncan, um jovem doutorando que mora com dois colegas e que se recusa a conformar-se com qualquer tipo de papel social, fazendo com que Marian comece a questionar suas vida e suas escolhas. O segundo é Clara, antiga colega de faculdade de Marian, casada e com  duas crianças — grávida da terceira —, absolutamente entediada com sua vida de dona de casa. O ambiente sufocante onde vive Clara faz com que Marian se pergunte sobre a forma que ela quer dar a seu futuro.

O terceiro, e mais importante, é Peter, que após anunciar-se como tendo horror ao casamento — chegando a ter crises de humor a cada vez que um de seus colegas de casa —, decide pedir Marian en casamento. Ela aceita, sem muito entusiasmo, como se não houvesse nenhuma decisão a ser feita e casar-se com Peter (ou casar-se, não importa com quem) fosse apenas o passo seguinte. É a partir daí que a estrutura narrativa muda — o livro, até agora em primeira pessoa, passa à terceira pessoa à medida que Marian “entrega” o controle de sua vida a Peter — e é também a partir daí que ela progressivamente deixa de comer.

muito entusiasmo
muito entusiasmo

O que eu acho muito interessante em Marian é a forma que existe uma espécie de separação intrínseca entre ela e seu corpo, ou entre ela e seus impulsos. A presença de sua amiga Ainsley, ex-estudante de psicologia, dá a Atwood a oportunidade de inserir na narrativa conceitos e conflitos típicos às teorias freudianas sobre a constituição do self. Marian, no caso, vive o conflito constante entre seu Superego, que tenta por todo modo conformá-la às expectativas sociais e comportamentais da época, e seu Id, suas pulsões mais íntimas, que constantemente tentam livrá-la desse conformismo.

Porque Marian não consegue articular de forma racional, através de ações maduras, a rejeição que ela sente em relação a Peter e à vida que ela leva em geral, essa rejeição aparece sob a forma de ações “irracionais”, que nem ela mesma consegue entender.  Assim, durante um jantar com Peter, Ainsley e seu antigo amigo da faculdade, Len, Marian tem uma crise de choro e em seguida, ao sair do restaurante, larga a mão de Peter e sai correndo. Quando ele finalmente consegue alcançá-la, ela não consegue explicar o motivo de suas ações.

É também por essa incapacidade de expressar-se que Marian se torna incapaz de comer. O narrador explica que Marian começa a identificar-se com certos tipos de comida, vendo neles algo de vivo, algo de Marian, sentindo-se ela mesma como algo prestes a ser devorado. Em pouco tempo, conforme o casamento se aproxima, essa sensação se estende a quase todos os tipos de comida.

Impossível não pensar em termos de objetificação feminina. Quando Marian se torna uma noiva, cujo futuro muito provavelmente envolve a dedicação total dela à casa, ao marido e aos possíveis filhos, Marian deixa de ser o sujeito que come para tornar-se objeto consumível. Ela perde de vista sua individualidade e sua capacidade de ação. Durante a primeira e a segunda partes do livro, Marian luta contra essa revolta interior, fazendo o possível para resignar-se, mas é apenas quando ela admite para si mesma essa revolta que ela pode voltar ao normal. Assim, Marian dorme com Duncan, assinalando definitivamente sua ruptura emocional com Peter, desmancha o noivado e, na terceira parte do livro, retoma a narrativa em primeira pessoa.

O último esforço de Marian se faz quando ela faz um bolo em forma de mulher, enfeitando-a chantilly colorido e flocos de açúcar — e depois o come. O ato de comer essa representação de si mesma mostra claramente uma reintegração de Marian com Marian, de Marian com suas próprias aspirações, livre da pressão social.

Apesar de Atwood não considerar o livro como uma obra propriamente feminista (mas protofeminista, segundo ela), é preciso reconhecer a temática feminista inscrita no livro. A luta de Marian, que fique claro, não é exatamente contra o casamento enquanto instituição, mas contra sua própria disposição a viver uma vida que ela não deseja viver — contra os resquícios de uma mentalidade antiga que ditava às mulheres não mais do que o casamento e a família. A Mulher Comestível foi escrito em uma época de transição, o fim dos anos 1960, e é essa mesma transição que se reflete na vida interior de Marian. Super recomendo!

Eu li: A Rainha do Castelo de Ar

Acabei de ler a trilogia Millenium! Isso significa que temos mais um vídeo: Crítica do livro “A Rainha do Castelo de Ar”.

Gostei muito da trilogia no geral, esse terceiro livro é o que eu menos gostei, mas ele termina bem a trilogia e foi uma leitura muito boa! Aprovado e recomendo!

Os spoilers do vídeo começam no minuto 6:58. Caso você não tenha lido os livros anteriores, sugiro que não veja esse vídeo, já que o terceiro livro é uma continuação direta do segundo.

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Postado originalmente no Ideias em Roxo

Eu li (e acho que você devia ler também): As Aventuras da Bruxinha Mô – misticismo, poder feminino e mensagens animais!

Na Comic Con Experience eu tive o prazer de conhecer muita gente legal com um monte de projetos tão legais quanto. Uma delas foi a Chairim, desenhista do As Aventuras da Bruxinha Mô, livro que eu adquiri por lá e que, como está virando costume, estou escrevendo sobre em atraso. As aventuras tem roteiro Marcelo Paschoalin.

Captura de Tela 2015-02-23 às 15.29.37O livro já é o segundo da bruxinha, pode ser adquirido aqui, e conta com uma história da Mô, pequenas histórias de uma página e artes de outros artistas da protagonista e do seu gatinho preto muito espertão, o Darazar.

A Mô é, além de muito fofa, uma bruxinha muito didática no que diz respeito à sua magia e a primeira história do livro apresenta também uma menina humana sem poderes que, por um engano da Mô, vai parar nas redondezas da casa da bruxinha. As duas precisam juntas, e com a ajuda do Darazar, descobrir uma maneira de retornar a menina para sua casa.

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O livro, e a personagem principal, abordam temáticas muito legais para as leitoras e leitores mais novos, já que mostra além da amizade e através do humor e da narrativa, um dos elementos mais legais que a bruxaria/misticismo traz para a discussão sobre como vivemos no nosso mundo, o equilíbrio entre nós, humanos, e os quatro elementos da natureza. Em tempos de falta d’água, de desmatamento desgovernado e toda a poluição que a gente vive – e produz – todos os dias, mensagens como essa sempre são bem vindas.

E tem essa história fofa e bem humorada sobre olhar o próprio corpo, e a si mesma, com olhos positivos – independente do que os outros falem. <3

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A Bruxinha Mô é uma ótima de pedida de leitura e de presente. E você pode continuar aproveitando as aventuras dela através da página dela no Facebook ou do blog.

Ah, e olha só essa coisa muito animal:

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A Chairim, aliás, tá participando de um projeto lindo de Mulheres RPGistas. O encontro, uma reação ao ambiente extremamente machista que é o círculo de RPG brasileiro, vai acontecer no dia X às Y horas no Bar W. Infelizmente eu não vou conseguir ir no evento, mas fica a dica para as meninas que adoram RPG. E parabéns para todas as envolvidas no projeto! o/