Valquíria é bissexual, mas Thor: Ragnarok não te diz isso

Eu já começo esse texto com um tom de irritação, como vocês podem perceber. O bom e velho desapontada, porém não surpresa.

Tessa Thompson, atriz da Valquíria em Thor: Ragnarok, declarou no twitter que sua personagem era bissexual no filme, assim como no quadrinho. Eu não li nenhum dos quadrinhos de Thor e fui pega de surpresa, então quando finalmente fui assistir ao filme, fiquei de olho em qualquer coisa que pudesse indicar a sexualidade da personagem. Como uma pessoa que está exausta de procurar detalhes que indiquem qualquer tipo de representação LGBT+ na mídia, eu estava preparada para pegar os detalhes, e depois falar sobre como isso não é o suficiente, porque não é.

Há apenas uma cena, em certo momento, que se você tiver boa vontade, pode imaginar que talvez indique que Valquíria tinha um relacionamento com outra mulher. São segundos e, como eu disse, exige boa vontade, porque podia simplesmente não ser nada.

Há algum tempo, li essa entrevista da Tessa Thompson falando mais sobre o assunto. A atriz diz que falou com o diretor, Taika Waititi, sobre a personagem ser bissexual e eles fizeram uma cena em que, em certo momento, dava para ver uma mulher saindo do quarto de Valquíria, que daria a entender que elas tinham passado a noite juntas. Waititi manteve a cena o máximo que pode, mas eventualmente teve que cortar porque “distrairia o público da revelação vital naquela cena”.

Eu me pergunto como alguns segundos de uma mulher saindo do quarto de Valquíria atrapalharia qualquer coisa no filme. Alguns momentos que seriam o suficiente para nos fazer entender que a personagem é LGBT+, o que seria ótimo, considerando que a Valquíria é uma personagem com um arco interessante e que de várias formas foge de estereótipos.

Não conheço todo o trabalho de Waititi, mas dou o benefício da dúvida. Por outra matérias que li dele, imagino que o diretor de fato tentou manter a cena, mas considerando que estamos falando da Marvel, que ainda precisa caminhar muito no ponto de vista de diversidade, não me surpreenderia que ordens de cima tivessem cortado essa cena. Nós simplesmente não podemos ter coisas legais.

Esse episódio é apenas um dos inúmeros exemplos de como a representatividade LGBT+ é vista, como algo que não precisa ser falado e, se precisa, que seja por algo fora do produto em si, ou com um subtexto que deixa aberto à interpretações. Não ia atrapalhar em nada essa, ou outra cena, que mostrasse a sexualidade de Valquíria. Nós raramente temos uma personagem bissexual com tanto destaque, em uma franquia grande como essa. O fato de que é algo que podia ser resolvido de forma simples é o que acaba me incomodando mais.

Sim, a cena que Valquíria estende a mão para a companheira de batalha, para mim, indicava que elas eram amantes de alguma forma. Em parte por como a cena foi construída, mas também porque eu estava procurando qualquer indício para ver a sexualidade da personagem. Mas isso sou eu, pessoa que não só está treinada para procurar essas coisas, mas também que está cansada de ter que fazer isso. Para o resto do público, seria muito mais interessante se eles deixassem esse fato exposto de forma mais óbvia.

Eu não culpo ninguém especificamente por essa decisão, qualquer pessoa que tenha algum contato com área de entretenimento sabe que, se alguém acima de você diz não, é não. Também não posso medir o quanto Waititi poderia ter interferido nessa questão, o fato dele ter topado ouvir Thompson me parece um bom sinal, mas infelizmente não vimos isso no corte final. Personagens LGBT+ precisam ter a mesma chance de expressar sua sexualidade na mídia como pessoas hétero têm por tantos anos.

Nada disso muda o fato de Valquíria ser, além de uma personagem incrível, uma mulher bissexual, e eu vou fazer questão de não deixar ninguém esquecer, ainda mais quando a atriz fala de forma tão abertamente e feliz sobre isso. Mas é Marvel, vocês perderam a chance de fazer algo muito legal. Era simples e fácil, mas o conservadorismo ainda falou mais alto.

Thor: Ragnarok | Crítica

Havia uma boa expectativa para esse novo Thor. Taika Waititi é um bom diretor, os trailers estavam agradando aos fãs, o filme parecia que ia abraçar a comédia e, até certo ponto, o brega. Independente de gosto pessoal, é uma fórmula que boa parte dos fãs da Marvel tem gostado cada vez mais.

Thor está tentando impedir o Ragnarok. Depois que descobre que Loki está no lugar de Odin, ele e o irmão vão até a Terra buscar o pai. O problema é que Hela, a deusa da morte e filha mais velha de Odin, aparece. Agora Thor e Loki terão que impedí-la de tomar Asgard e destruir todo o seu povo. Essa crítica não tem spoilers.

O tema que as pessoas mais tem falado é o quão engraçado o filme é. Todo mundo sabe que a Marvel sempre puxa o humor, além de que todo mundo já deveria saber que piadas e humor não faz um filme bom ou ruim. No caso de Thor, especificamente, o humor sempre ajudou. O segundo filme é o que puxou mais para o lado do sério e também o que menos funcionou. Um dos grandes acertos de Thor: Ragnarok é abraçar esse aspecto de não se levar a sério demais.

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Toda Frida – Representatividade e Girl Power em Linha de Roupas!

Quando você é nerd, ou só gosta de um filme/quadrinho/série, e quer comprar uma camiseta com a sua personagem feminina favorita, essa missão pode acabar se tornando um grande fracasso. Por isso, aqui no Collant, a gente adora a Toda Frida.

Pra quem não está ligando “o nome à pessoa”, a Toda Frida é a loja que transforma as ilustrações maravilhosas do Fight Like a Girl, da Kaol Porfírio, em camisetas e moletons. A coleção traz uma variedade imensa de personagens, cobrindo tanto o mundo dos filmes, como séries de televisão, animes, animações, quadrinhos, videogames e mulheres reais também!

Uma das coisas mais legais da marca é que ela se preocupa de verdade com representatividade. Além de usar modelos “reais”, mulheres que caminham entre nós mortais, que não nos encaixamos no padrão passarela de corpo, ela também tem do tamanho PP até o 3G!

A gente fez uma seleção das nossas estampas favoritas, todas transbordando GRL PWR!

Crystal Gems

Para o dia em que você precisa dazamigas para vencer o mal.

Nina Simone

Para o dia em que você acorda no clima de música e inspiração.

Max e Chloe

Para quando você lembra que apesar de tudo… Amor. <3 

Kamala Khan

Para o dia em que você acorda super-heroína, mas com os problemas de uma adolescente normal.

Hermione

Para o dia em que você acorda mágica, mas sabe que vai precisar de mais do que isso na prova da faculdade.

Mulher Maravilha

Quando você sabe que é poderosa, maravilhosa e chuta bundas como ninguém.

Arya Stark

Para os dias em que você vai precisar de muito mais do que a sua carinha bonita pra vencer a lista de to-dos.

Rey

Para os dias em que vão parecer jornadas inteiras em galáxias distantes. 

Tempestade

Porque você é a rainha da p***a toda e todo mundo sabe disso.

Marie Curie

Para os dias em que você sente que vai deixar um rastro de descobertas fabulosas.

011

Para o dia em que sair da cama precisa da força de atravessar para um outro universo.

Commander Shepard

Para os dias em que você está no clima de salvar a galáxia – e fazer isso com estilo.

Malala

Para o dia em que tudo parece ruim e você precisa de um pouco mais de esperança.

Lá no site da Toda Frida tem mais um monte de opções de heroínas – reais ou não! Então corre lá e já garante a sua!

Liberdade de Expressão ou Discurso de Ódio – Uma conversa sobre terror e cultura pop.

O termo “liberdade de expressão” é corriqueiramente jogado contra quem discute e critica o status quo excludente da cultura pop. Se criticarmos o status quo branco, masculino, heterossexual e cis, então estamos tentando censurar e por isso estaríamos rompendo com a liberdade de expressão dos produtores de cultura pop. 

Quando uma figura pública fala absurdos misóginos, racistas e etc, seus defensores correm para gritar “liberdade de expressão”. Mas o que talvez essas pessoas não saibam é que você ser livre para falar o que vem na sua cabeça, para jogar as suas idéias no mundo, não quer dizer que você é livre para clamar a morte de um grupo de pessoas. 

Durante o fim de semana do dia 12/08, nós assistimos em choque o que aconteceu na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia nos Estados Unidos. Enquanto muitos conseguiram ver o ataque pelo que ele foi, um ato de disseminação de ódio, preconceito e glorificação de uma ideologia segregada e assassina, algumas pessoas insistem que o que aconteceu foi, apenas, um grupo de pessoas expressando suas opiniões, o protesto contra a queda de uma estátua. 

Eu quero tentar tocar em todos os aspectos dessa discussão, mas antes de continuar, eu gostaria que você assistisse à este vídeo. São 20 minutos em que a equipe da Vice acompanha o grupo de nazistas que organizou a marcha de sexta e sábado. O vídeo possui imagens fortes do atropelamento, então se você não quiser assistir esta parte sugiro pular de 11:11 para 11:55 minutos. 

Liberdade de Expressão vs Consequências

Muitas pessoas entendem liberdade de expressão como um passe livre pra falar ou fazer qualquer tipo de coisa. Essas pessoas falam e agem da maneira que bem entenderem, mas quando a sociedade responde ao seu comportamento e à sua fala, elas ficam indignadas e confusas – como assim liberdade de expressão não as exime de responsabilidades? 

Alguns anos atrás, quando o caso da jovem que sofreu estupro coletivo no Rio veio à tona, um ilustrador brasileiro postou comentários misóginos e transfóbicos na sua página pessoal de facebook. A empresa que fazia o seu agenciamento para o mercado internacional decidiu desligar-se dele, cancelando o contrato dos dois. Muitos chamaram a decisão da empresa de censura, de submissão ao politicamente correto. A verdade é que a empresa não tirou lápis, papel e computador do ilustrador, ela apenas decidiu que não serviria mais de plataforma para o trabalho dele. 

Você pode falar o que você quiser, pode postar na sua página pessoal do facebook ou do twitter o que você quiser, mas isso não quer dizer que ninguém vai cobrar responsabilidade sobre o que você expressa. Liberdade de expressão não significa que o que você fala não será julgado, não significa que você não sofrerá consequências pelo que você diz, pelo que você coloca no mundo.

Um outro exemplo disso aconteceu alguns meses atrás, o youtuber PiewDiePie perdeu patrocinadores quando começou a chamar atenção para o conteúdo envolvendo nazismo que ele produzia para o seu canal. De novo gritaram censura e ditadura do politicamente correto, mas agora, em face do que aconteceu em Charlottesville, PiewDiePie soltou uma declaração dizendo que vai definitivamente excluir esse tipo de conteúdo de seu canal – ele não quer dar plataforma para uma ideologia na qual não acredita. Isso não é censura, não é ele se entregando para a suposta ditadura do politicamente correto, é um posicionamento importante em um momento de instabilidade como o atual. Espero, de verdade, que ele tenha entendido os problemas com o conteúdo que ele disponibilizava. 

Entender a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio é imprescindível para que nós continuemos a afastar e coibir movimentos nazistas como o de Charlottesville. A Lorelay Fox soltou um vídeo ontem que sintetiza muito bem a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio.

“Quando um discurso inferioriza o outro, quando um discurso tenta segregar religiões ou raças, quando um discurso inferioriza e ofende e pode gerar comportamentos agressivos contra outras pessoas. Um discurso que visa manter alguém no poder enquanto rebaixa uma parcela da sociedade.”

Lorelay destaca que no Brasil o discurso de ódio contra negros, mulheres e religiões está registrado como crime na nossa constituição, mas o mesmo não acontece com o preconceito contra LGBT – essa é uma luta que ainda está sendo travada.

Eu entendo que é difícil entender como falar de tolerância querendo cercear algum tipo de discurso – mas isso é um paradoxo. Não é possível falar em liberdade de expressão se parte do discurso que deveria ser liberado busca atacar uma parcela da sociedade. A Picoline fez um quadrinho que fala de maneira interessante dessa questão:

Além de entender a diferença entre Liberdade de Expressão e Discurso de Ódio é preciso lembrar de algo que nós sempre falamos por aqui: você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Nós falamos sobre isso com certa frequência por aqui: Você é responsável pelo que coloca no mundo, mesmo que seja só um vídeo de youtube ou um post de facebook.

Inclusão vs Segregação

Esse é um ponto que, ao meu ver, deveria ser muito mais fácil de entender do que parece ser. Ainda assim, muitas pessoas tem dificuldade de entender sobre o que são os movimentos sociais mais recentes, seja na discussão sobre representação dentro da cultura pop, seja em movimentos sociais que tomam as ruas como o Black Live Matters. 

Duas das frases que os manifestantes neonazistas e supremacistas gritavam em Charlottesville eram “White Lives Matter” e “You/Jews will not replace us”, respectivamente “Vidas Brancas Importam” e “Vocês não vão nos substituir”. Esses dois cânticos mostram um desconhecimento, muitas vezes opcional, sobre o que realmente são as discussões que ocupam as notícias dos últimos anos. 

Movimentos Sociais que buscam justiça social não são sobre colocar homens brancos em caravelas e mandar de volta para a Europa, eles são sobre tornar a nossa sociedade realmente justa e igualitária para TODOS. 

Black Live Matter não é sobre apenas a vida de uma pessoa negra importar, é sobre a vida de uma pessoa negra ter o mesmo valor da vida de uma pessoa branca. É sobre uma mulher negra e grávida ter as mesmas chances de não ser assassinada pela polícia que ela mesma chamou, chances que uma mulher branca nas mesmas condições teria. É sobre um garoto adolescente negro poder caminhar pela calçada da rua sem ser morto, assim como diversos outros garotos brancos fazem todos os dias. Não é sobre excluir brancos, não é sobre a vida branca não importar, é sobre não matar negros. Pedir para que a sociedade seja mais justa e não mate pessoas negras apenas por serem negras não me parece pedir por muito, parece ser pedir pelo mínimo. 

“Vocês não vão nos substituir” é um cântico que conversa diretamente com o discurso de alguns ativistas racistas e misóginos da cultura pop. Essas pessoas acham que, porque nós queremos mais representação feminina e de outras minorias, nós estamos dizendo que personagens brancos e masculinos precisam ser substituídos, mas não é sobre isso. É sobre abrir a cultura pop para representações que abranjam mais do que o branco e masculino – porque a nossa sociedade é muito mais do que isso. Nós não queremos pegar autores, ilustradores e personagens brancos e esquecê-los, nós queremos incluir novos personagens, queremos ver novas e mais diversas histórias sendo contadas. O mesmo pode ser dito sobre incluir minorias de maneira mais justa dentro da nossa sociedade. 

Sobre  manter-se neutro/imparcial. 

Muitas vezes, quando discutimos questões sociais como racismo e machismo, muitas pessoas caem no discurso que procura colocá-los num lugar de neutralidade sobre os assuntos: “Não são machista nem feminista”, “os dois lados estão errados”. Além de demonstrar um desconhecimento sobre as lutas e o significado das palavras, esse tipo de discurso, por mais que tente não ser, é sim um discurso político, já que acaba caindo no silêncio. 

Quando estatísticas mostram os números da representação feminina e masculina, quando as estatísticas de mortes entre a população negra cruza com as estatísticas de acesso à formação e direitos humanos básicos, quando o número de mulheres assassinadas por seus companheiros explode bem na cara dessas pessoas e ainda assim eles decidem assumir uma postura “imparcial” ou neutra, isso é escolher um lado. Porque mesmo com todas as informações e dados entregues nos seus colos de mãos beijadas, eles decidem olhar para o outro lado e, ao ignorar esses dados, estão escolhendo manter o status quo assassino e excludente em detrimento daqueles que são oprimidos por ele. 

Alguns meses atrás eu escrevi sobre Nick Spenser e seu arco de histórias na Marvel em Capitão América: Sam Wilson. Neste arco um Capitão América negro chega à conclusão de que precisa ocupar um espaço de neutralidade frente às questões políticas dentro da sociedade. Essa necessidade vem da errônea visão de que Steve, o Capitão original, sempre foi neutro. Sobre isso eu escrevi: 

Assumir que alguém é neutro politicamente é ignorar os sistemas de poder em ação na nossa sociedade – todo mundo é político, mas essa narrativa de neutralidade é algo do qual Spencer e seus semelhantes se aproveitam e validam. Eles são tão privilegiados que são incapazes de reconhecer esses privilégios, acreditando que são a norma, aquilo que é o padrão. O inquestionável. Qualquer um que esteja fora dessa norma, facilmente qualquer grupo de minoria, se torna político e, por isso, tendencioso. Essa visão, além de ignorar que a própria escolha de se ocupar uma suposta neutralidade política é um ato político (já que você decide se esquivar de responsabilidades, por exemplo), também lança uma sombra negativa sobre as minorias, já que à elas não é dada a opção de ocupar o tal lugar neutro.

Não contente, Spencer ainda foi responsável pela alteração da origem do Capitão América, colocando ele como um agente da Hydra desde o começo. Eu sei que a ordem cronológica da Marvel é uma bagunça e nada é definitivo, mas em tempos como os nossos esse tipo de mudança tem um peso muito grande, ainda mais com um personagem que foi criado como símbolo de luta contra o nazismo. 

Naja Later, autora no site Woman Write About Comics, resumiu bem o problema com o modo como a cultura pop, em específico a Marvel e Nick Spenser, tratam esse assunto: 

Se nós concordamos em Capitão América: Sam Wilson que Steve é “neutro”, então toda a identidade política de Steve é esvaziada para dar lugar à história de origem nazista em Capitão América: Steve Rogers #1. Nazismo se torna parte do espetro aceitável, e isso acontece porque Spencer construiu essa lógica narrativa desde o começo.

Como Gail Simone lembrou muito bem durante o fim de semana, os quadrinhos odeiam o Nazismo. 

Charlottesville e Nazismo

Eu até consigo entender, ou tentar entender, quem possui resistência quando discutimos cultura pop e representação. Nós estamos há décadas consumindo só um tipo de cultura pop, com um tipo de representação, é fácil cair na falácia da representação branca como padrão e universal. Mas neste caso, no que aconteceu em Charlottesville, quando falam em “liberdade de expressão” eu realmente não consigo entender. Porque eu tenho poucas certezas na minha vida, mas se existe uma certeza que é tão certeira quanto a morte é que Nazismo é ruim. 

Se você acompanha meus textos e as nossas Lives no Facebook, você sabe que quando anunciaram que o filme da Mulher-Maravilha ia se passar durante a Primeira Guerra Mundial, eu fiquei receosa. Diferente da Segunda Guera Mundial, a Primeira foi uma guerra envolvendo muitos lados, muitas questões políticas e foi muito complexa. A Segunda Guerra não, nela é muito fácil indicar qual é o lado que estava errado, quem era o grande vilão da Guerra: O Nazismo. 

Nenhum governo totalitário, de esquerda ou de direita, é bom. Ditadura sempre vem acompanhada de opressão, perda de direitos e mortes. O mundo já viu diversas ditaduras em diferentes continentes, mas se há um exemplo definitivo de maldade absoluta que é reconhecido por todo o mundo, esse exemplo é o Nazismo. 

(Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre o Nazismo ser de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.)

Então, quando alguém grita que Charlottesville foi sobre “liberdade de expressão”, esta pessoa está errada. Não foi sobre uma estátua, foi sobre demonstração de poder, foi sobre discurso de ódio. Foi sobre um grupo de pessoas se unindo para gritar cânticos que clamavam por exclusão e morte. Pessoas que se consideram superiores por serem brancas carregavam bandeiras nazistas. Foi sobre ódio e sobre propagar uma ideologia assassina. 

Foi sobre assassinato, sobre James Alex Fields acelerar o carro contra manifestantes anti-nazistas e matar Heather Heyer, uma mulher que lutava contra tudo aquilo que aqueles manifestantes representam. 

“Socar nazis é agir da mesma maneira que eles”  

Não, não é. Eu não sou à favor de violência, e tento ao máximo abrir um diálogo sobre as questões que levanto aqui no blog, mas eu entendo quando alguém não consegue manter a calma e acaba explodindo frente à um ato preconceituoso.

Um monte de nazistas e supremacistas brancos, pessoas que não tem medo de se auto-identificarem assim, vão fazer uma passeata com tochas (símbolo da Ku Kux Klan) e armas, numa clara demonstração de poder, trazendo de volta uma ideologia que foi responsável pelo massacre de diferentes povos, que prevê o genocídio de tudo que não é igual à eles – eu consigo entender o sentimento de revolta e raiva que toma conta das pessoas que se opuseram à isso. Porque não existe essa coisa de “os dois lados se exaltaram e há culpa em todos os lados”. Porque está obviamente claro quem está errado – os Nazistas. 

Eu não estou dizendo que acho que violência só será resolvida com violência – não. Mas eu entendo e não consigo condenar quem soca um nazista, porque é possível que, se eu estivesse ao lado de um imbecil falando esse tipo de merda, um cara que abertamente se diz à favor de uma ideologia que prega morte à pessoas não-brancas, judeus, LGBT+ e outras minorias, se eu estivesse na manifestação que terminou com a morte de uma mulher, então é possível que eu terminasse socando um nazista também. 

Os Estados Unidos tem um histórico de lutar por igualdade de direitos, e mesmo depois de muitas conquistas, a situação continua longe do ideal. Por isso eu imagino o que deve significar para aquelas pessoas ver se repetir uma cena que a geração atual só escutou falar. Eu consigo entender a dor, a frustração e a raiva que isso pode causar. 

No conflito de Charlottesville só existe um lado errado: O que não só pregou ódio, mas que assassinou uma mulher – os nazistas. Você é responsável pelo ódio que você semeia. 

Mas o que isso tem a ver com a Cultura Pop? 

Absolutamente tudo. A nossa cultura reflete o momento histórico no qual nós estamos, literatura, filmes, séries, quadrinhos e games – tudo isso absorve e reproduz aquilo que acontece à nossa volta. Capitão América e Mulher-Maravilha foram criados exatamente como forças contra o nazismo, a ficção-científica continua até hoje discutindo as causas e os efeitos da Segunda Guerra Mundial – até Senhor dos Anéis faz isso. Mas mais do que isso, a cultura pop pode, infelizmente, reproduzir mentiras e estereótipos que ajudam a fomentar e fortalecer esses discursos de ódio. 

No vídeo da Vice que coloquei lá no começo do texto, é possível ver um dos líderes da manifestação, Christopher Cantwell, responder que ele começou a se envolver com o ativismo depois que questões raciais como Trayvon Martin, Michael Brown e Tamir Rice (todos jovens negros assassinados por serem negros) começaram a aparecer: 

“Em qualquer um desses casos é um imbecil negro se comportando como um selvagem, e ele se coloca em problema. Seja qual forem os problemas que eu tenho com os meus colegas brancos, eles geralmente não estão inclinados à esse tipo de comportamento. E você precisa levar isso em consideração quando você está pensando sobre como organizar a sociedade.”

Esse discurso, de que pessoas brancas são predominantemente pacíficas, e que pessoas negras são violentas, é profundamente disseminado na cultura pop. As histórias de heróis estão lotadas de protagonistas brancos bonzinhos, ou vilões brancos injustiçados. Essas mesmas histórias tem pessoas negras sendo responsáveis pela própria escravidão, ou sempre representadas como bandidos e vilões. Esses estereótipos são negativos porque ajudam a sustentar esse discurso de Christopher Cantwell, de que pessoas negras são mais propensas à violência do que pessoas brancas. 

É assustador ver a relutância da mídia em chamar o grupo de nazistas e supremacistas brancos de “nazistas e supremacistas brancos”, mesmo quando eles próprios se auto-denominam assim. Essa mesma relutância não chama o homem que assassinou Heather Heyer no protesto de terrorista, mas fosse ele um homem não-branco, esse adjetivo teria sido automaticamente adicionado ao seu nome. 

Porque a Cultura Pop é tão influente e importante na nossa sociedade, me assusta ver o comportamento da Marvel de, nos últimos meses, tentar afastar a Hydra do Nazismo, ideologia que não só foi inspiração, mas da qual foi representação desde sua primeira aparição nos quadrinhos. Isso me assusta porque Ike Perlmutter, CEO da Marvel, é apoiador do Trump, que por sua vez apoia movimentos supremacistas brancos. Isso me assusta porque a DC, antes da Mulher-Maravilha, tinha um discurso neo-facistinha no cinema, mesmo nos filmes do Nohlan, mesmo que essa não fosse a intenção deles (o que só deixa tudo pior, na verdade). 

Mas, acima de tudo isso, me assusta porque nenhuma cultura pop que a gente consome ou produz existe dentro de uma bolha. Ela existe dentro da nossa sociedade e, além de refletir o momento histórico em que é criada, também pode ajudar a sustentar o status quo que vilaniza e oprime minorias. 

Não é só nos Estados Unidos e Nós Não Podemos Nos Silenciar

A reflexão de hoje pode ser sobre o horror do que aconteceu em Charlottesville, mas engana-se quem acha que aqui no Brasil a situação é melhor, ela só é diferente. Porque enquanto nos EUA esses supremacistas e nazistas não tem medo de se auto-denominarem assim, aqui no Brasil nós temos esses grupos infiltrados na nossa política, só que de maneira mais silenciosa. Eles estão na produção de cultura pop, na televisão, no cinema e na política também. Eles são eleitos pela população e podem inclusive concorrer à presidência. 

A imensa maioria das fotos e vídeos de Charlottesville mostravam a grande maioria masculina nazista e supremacista branca – mas também haviam mulheres lá. E é importante que nós, mulheres brancas, entendamos nosso lugar na manutenção dessa ideologia e em como a nossa representação dentro da cultura pop pode também ajudar a manter esses mesmos conceitos errados sobre outras minorias. 

Racismo, misoginia e outras opressões existem no Brasil também, e nós usamos não só da nossa cultura pop, mas da que consumimos em massa dos EUA, para justificar comportamentos e tradições que são excludentes e assassinas. O mesmo discurso que permite à Christopher Cantwell dizer que Tamir Rice é responsável pela própria morte sustenta um sistema racista que mata Tamir Rices brasileiros todos os dias. 

Minha família precisou fugir da Espanha durante o governo franquista. Meus bisavós foram um porto seguro para os filhos das famílias espanholas que eram perseguidas pelo governo, meu avô lutou pela Resistência Francesa contra os invasores Nazistas. Pra mim, ver as cenas de Charlottesville me pesou pois me assusta como pode, depois de tão pouco tempo, nós ainda tolerarmos esse tipo de discurso de ódio. Não aprendemos nada? Será que a história vai se repetir? Durante a Segunda Guerra, o Nazismo como mau comum conseguiu unir todos os espectros políticos contra ele – EUA e URSS lutaram juntos para por fim a ofensiva Nazista pela Europa. Eu espero que nós possamos discutir com quem realmente quer discutir, não com quem ainda acredita que cantar “Os Judeus Não Vão Nos Substituir” é apenas liberdade de expressão.

Ao fundo, à esquerda, minha bisavó Emília e algumas das crianças que a escola dela e de meu bisavô acolheu durante o governo Franco.

Cultura Pop é o ambiente que nos permite ir além da nossa realidade, mas também nos permite refletir sobre os nossos tempos e impedir que nossas fraquezas como sociedade se repitam. Horizon Zero Dawn fala sobre isso, Capitão América fala sobre isso, Jogos VorazesHarry Potter e tantos outros livros, quadrinhos, jogos e filmes falam sobre isso. É nossa responsabilidade, como sociedade, não esquecer que o Holocausto aconteceu à menos de 80 anos, e que esse mesmo tipo de coisa continua acontecendo todos os dias em diferentes lugares do mundo. 

É nossa responsabilidade aprendermos com os erros de nossos antepassados e não nos calarmos quando algo tão horroroso como Charlottesville acontece. É nossa responsabilidade garantir que o que aconteceu no último fim de semana não seja um recomeço para esse grande mau, mas um marco de virada por um presente mais seguro e mais justo para TODAS as pessoas. E nós só vamos conseguir fazer isso quando começarmos à parar de achar que, porque a liberdade de expressão existe, você pode fazer o que quiser sem consequências, quando pararmos de equiparar nazistas e pessoas que são contra o nazismo. É nossa responsabilidade entender que liberdade de expressão não pode abraçar discurso de ódio. 

Até Mais.

Separei alguns links que talvez possam ajudar a entender e problematizar toda essa discussão. À medida que eu for encontrando novos links, vou adicionando aqui.

Em Inglês:

Como o Agressor de Charlottesville se Radicalizou.

Nem os descendentes dos Confederados querem que os monumentos continuem de pé.

O presidente de uma sinagoga em Charlottesville fala sobre o que aconteceu quando a manifestação passou em frente ao prédio.

Quem foi Heather Heyer, a mulher que morreu em Charlottesville.

A Vice perguntou para um especialista em ética se a gente pode socar nazistas.

Coisas importantes para se saber antes de socar um nazista – uma thread.

A longa história dos quadrinhos batendo em nazis.

Em Português:

A palavra é a nossa arma.

O Desabafo de uma idosa que confrontou os neo-nazistas em Charlottesville.

Como a resposta de Trump à Charlottesville afastou o presidente dos maiores empresários dos EUA.

Nazismo é de esquerda ou de direita? 

Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre se o Nazismo foi de esquerda ou de direita, eu sugiro assistir ao vídeo do Coisa de Nerd respondendo às perguntas que o Nando Moura fez. Além de super informativo, é difícil ver alguém explicar tão pacientemente respostas que foram cobradas de maneira tão violenta.

O Blackpower da Dominó – Sobre Machismo e Racismo.

Desde o dia do anúncio de Zazie Beetz no papel de Dominó em Deadpool 2, ainda lá em Março deste ano, a internet ficou polvorosa com o fato da atriz ser negra e não ter a pele branca como uma folha de papel da versão original dos quadrinhos. Esta semana, com a chegada da primeira imagem de Beets caracterizada como Dominó, a internet novamente ficou doida: Como assim Dominó tem um Blackpower?

Mulheres e cabelos, essa é uma relação de amor e ódio que dura séculos e que é profundamente pautado pelo que o homem, principalmente branco, acredita ser sexy ou não. Para serem considerados bonitos, os cabelos precisam manter um padrão inatingível de beleza, ser liso, ou levemente ondulado. Se tiver cachos, precisam ser definidos. Qualquer coisa que saia desse padrão ainda é visto como feio e, muitas vezes, como sujo ou descuidado.

Algumas das críticas ao cabelo da Dominó foi que o Blackpower da personagem seria pouco prático para uma assassina. Algo similar aconteceu quando Riri foi anunciada e sua ilustração a mostrava com um Blackpower maravilhoso – como ela vai colocar esse monte de cabelo dentro da armadura, eles perguntavam.

É Ironheart, colega.

A questão da suposta praticidade do cabelo nunca é levantada por esses críticos quando se trata de mulheres brancas em papéis de heroínas, anti-heroínas ou vilãs. Isso também não aconteceu com os longos e esvoaçantes cabelos de Gamora, interpretada pela atriz negra e latina Zoe Saldanha, porque Saldanha se encaixa num padrão de beleza considerado branco – e sua pele estava pintada de verde.

Existem duas razões pelas quais as mesmas alegações não acontecem quando temos uma atriz branca de longos cabelos lisos: hipersexualização e racismo.

Os longos cabelos de Jean Grey, de Sif, de Jessica Jones e os cachos ruivos incrivelmente da Viúva Negra nunca foram questionados quanto à sua praticidade. Tão pouco foram os longos cabelos da Mulher-Maravilha. Isso é explicável porque nós, como sociedade, vemos mulheres brancas de longos cabelos lisos ou levemente cacheados como sexy. Elas precisam sacudir os cabelos para o lado em câmera lenta, os cachos precisam cair graciosamente sobre o colo dos seus seios para que nós possamos sentir que, além de chutar bundas, elas também são mulheres que você gostaria de levar para a cama. O mesmo acontece com Gamora, que apesar de ser interpretada por uma atriz negra, possui longos cabelos lisos em uma pele verde.

Quem tem ou já teve cabelo comprido sabe a dor de cabeça que ele é no vento forte, ou quando você está praticando um esporte e ele gruda na sua cara por causa do suor, ou como ele corre na frente dos seus olhos se você corre com muita velocidade. Mas nenhuma dessas questões, que mostram o quão pouco prático é qualquer tipo de cabelo comprido em uma situação de ação, é levantada quando analisamos o mundo sob uma ótica branca e masculina.

Cabelos longos são sinônimos de sexy, e o mesmo valor não se dá para cabelos blackpowers ou qualquer tipo de cabelo associado à etnia negra.

Quando criticam o cabelo blackpower da Dominó o que está sendo levantado é, na verdade, que ela é errada. Que ela deveria ser branca de longos cabelos pretos, porque isso seria sexy. Isso revela um racismo que, ao se basear dentro de um padrão branco de beleza, excluí qualquer coisa que saía dele. Veja bem, um problema revela o outro: a crítica ao cabelo não é porque ele é pouco prático, mas é porque o racismo de quem critica fica exposto sob a ótica de que se a mulher negra não se encaixar dentro do padrão de beleza que a nossa sociedade impõe, então ela não é digna de ser considerada sexy ou bonita. E ao limitar o valor de uma mulher, negra ou branca, ao quão atraente ela é para os olhos masculinos, esses críticos objetificam as personagens, tornando-as apenas tokens da punheta masculina.

Conversando com a Camila Cerdeira, do site Preta, Nerd & Burning Hell, ela complementou:

Uma das questões importantes sobre a Dominó ser negra é compreender que feminilidade possui cor e não é a negra. Como mulher negra estou familiarizada com a exclusão de feminilidade que nossa negritude acarreta. Por consequência dessa ausência de feminilidade, negras são vista como desmasculinizadoras. Dominó negra e ostentado um cabelo natural quebra a noção de feminilidade e demonstra não ser submissa, o reforço disso é ela deitada sobre um tapete de pele do Deadpool, a máxima da desmasculinização do protagonista.

Tudo isso dito, personagem feminina nenhum deve ser diminuída à sexo, principalmente se a sexualidade que está sendo trabalhada não é a dela, e sim a do espectador masculino. Personagens femininas não devem existir apenas para agradar ao olhar objetificante masculino, muito menos personagens femininas negras ao olhar masculino e branco – algo infelizmente tão comum e que cai num fetichização racista que é extremamente prejudicial para a imagem que a nossa sociedade contrói em torno da mulher negra.

Apesar de toda a crítica, muitas pessoas deixaram comentários positivos e, vejam só, já tem até fanart dessa lindeza:

Resumindo: quando qualquer outra personagem feminina foi anunciada, ninguém nunca reclamou porque o padrão de beleza ao qual essas personagens se encaixam é o padrão e branco e objetificante. As críticas que a caracterização da Dominó vem recebendo nada tem a ver com uma suposta fidelidade aos quadrinhos. Não, o fundo das críticas vem sim baseadas em um racismo que, por mais que os autores das críticas não se deem conta, existe e está impregnado no nosso conceito de beleza e do que é aceitável para personagens femininas. Eu ainda estou procurando uma crítica ao tamanho desnecessário do decote do uniforme, mas disso ninguém reclamou.

Personagens femininas não podem só chutar bundas, elas precisam fazer isso enquanto agradam o patriarcado machista e racista. Dominó, no entanto, parece já ter chegado pra chutar bundas inclusive antes de se quer começar a filmar suas cenas.

Deixo vocês com o último exemplo de como a crítica sobre o cabelo blackpower da Dominó é sim de fundo machista e racista:

Mulheres da DC Comics apoiam editora da Marvel, homens choram e girlpower ganha o dia.

Ontem a gente falou sobre como Heather Anton sofreu ataques no twitter apenas por ser mulher, feliz, trabalhar com quadrinhas e tomar um milkshake. Desde o dia dos ataques o twitter se encheu de leitores e profissionais dos quadrinhos mandando apoio à editora da Marvel.

Hoje a conta da DC Comics no Twitter postou a foto mais amor de todas:

Lembra aquele moço que tava tentando levantar a guerrinha Marvel vs DC? Deve estar chorando em posição fetal em casa – a DC também tem mulheres! O horror!

Garotas são demais. Fim.

😉

Machismo no meio nerd | Editora da Marvel toma Milkshake com colegas de trabalho, faz selfie e sofre assédio.

Heather Antos é uma das várias editoras da Marvel, ela trabalhou em The Unbelievable Gwenpool e atualmente trabalha com as revistas de Star Wars da editora americana. Antos também é a feliz detentora de uma conta no twitter e, assim como um bilhão de outras pessoas, costuma postar fotos do seu dia-a-dia por lá.

Uma dessas fotos, no entanto, recebeu uma onda de ódio gigante porque, imaginem só, como assim uma mulher se junta com outras mulheres, todas trabalhando com quadrinhos para a Marvel, e postam uma selfie tomando milkshake? E como assim elas se intitulam Milkshake Crew? Como assim elas sorriem e são felizes?

Essa não é a primeira nem a última vez em que uma mulher vai ser assediada e ameaçada na internet. Com mulheres que de alguma maneira estão envolvidas com o meio nerd/geek então, infelizmente estamos longe de chegar no dia em que só postar uma foto feliz ao lado do chewbacca não vai levantar perguntas e xingamentos. Chelsea Cain, Leslie Jones, Anitta Sarkeesian, Zainab Ankhtar e a roteirista nacional Petra Leão são só alguns exemplos de mulheres que foram atacas online apenas por serem mulheres e habitarem de alguma maneira o meio nerd/geek.

Marykate Jasper, autora no The Mary Sue, levantou uma questão importante:

Quando esse tipo de assédio acontece, os advogados do diabo aparecem para dizer que esses assediadores estão reagindo dessa maneira por causa das mudanças em seus personagens favoritos, estão legitimamente criticando políticas para mulheres ou simplesmente dando voz às suas opiniões. Isso sempre é uma tentativa óbvia de fornecer uma desculpa mais palatável para as agressões machistas e/ou racistas. Mas essa resposta à selfie de Anton deixa ainda mais óbvio a real motivação deles. É assédio por existir. Por ousar ser uma mulher, sorrir e se divertir enquanto trabalha com quadrinhos. É assédio que tem como combustível o ódio por ver um monte de mulheres que editam quadrinhos se divertindo enquanto trabalham.

E esse é o ponto aqui: mulheres trabalhando com quadrinhos. Felizes. Mulheres, no plural, que trabalham com quadrinhos.

Dá pra fechar um bingo com os absurdos tão comuns sobre ser mulher na internet:

Você posta uma foto com suas amigas e, enquanto um cara se sente no direito de avisar para você e para o mundo que ele sente atração sexual por uma das pessoas da foto (da maneira mais nojenta possível), o outro faz menção à estupro. Ser mulher na internet.

“Eu totalmente transaria com a garota da frente.” – “Melhor fazer ela assinar um formulário de consentimento, ela parece o tipo “falsa acusação de estupro”.

Através da foto os analisadores de currículo podem dizer sua formação e se você é habilitada o suficiente para fazer o seu trabalho – tudo isso sem entrar no seu Linkedin. Eles também conseguem saber a sua inclinação política e descobrir se você tem ou não uma conta no tumblr. Essa última eu acho particularmente interessante porque, veja bem, a maioria das pessoas acha que eu nunca teria uma conta no tumblr, quando na verdade eu estou por lá há mais de dez anos.

Você posta uma foto com as suas amigas e ela se torna imediatamente um statement sobre a sua possível inclinação à temas feministas, ela também é uma óbvia menção à luta por inclusão de personagens femininas dentro dos quadrinhos. Você foi tomar um milkshake, mas está na verdade tramando a dominação mundial. Também vira a guerrinha mais chata do milênio: Marvel vs DC. O mais interessante aqui é que esse moço provavelmente chorou o equivalente às Cataratas do Iguaçú quando a Batgirl foi remodelada, provavelmente fez a mesma coisa com a série da Supergirl e deve ter tido uma síncope com as piadas em Mulher-Maravilha.

Esse próximo twitte é o meu favorito, e é difícil conseguir chegar em como uma coisa está relacionada a outra, porque esse é o tipo de linha de raciocínio que nem o supercomputador de Guia dos Mochileiros das Galáxia conseguiria de fato fazer funcionar, mas eu vou tentar:

Um grupo de mulheres saíram para tomar milkshake. Todas essas mulheres trabalham para a Marvel. Porque elas saíram para tomar um milkshake as revistas da Marvel desenvolveram uma falta de qualidade crônica. Disserte.

Piadas a parte, isso serve para mostrar que porque mulheres que trabalham com quadrinhos saíram para tomar um milkshake e postaram uma selfie, elas recebem mensagens que variam de: acusações sobre serem responsáveis pela suposta falta de qualidade das revistas da editora para a qual trabalham (e aqui há a intenção de ligar a presença feminina à queda da vendas da Marvel – algo que já discutimos AQUI), até twittes sobre estupro.

Quando você é mulher e trabalha no meio nerd/geek, fala sobre representação ou feminismo de maneira geral, é comum que uma simples foto do que você está lendo no momento resulte em pessoas mirabolando razões feministas para você estar lendo aqui. Mesmo que você só esteja curtindo um momento de paz e colocando a leitura de Homem-Aranha em dia. Esse tipo de movimento vem de todos os lados, de quem não te conhece e de amigos, já que muitas pessoas não parecem entender que a gente pode só gostar das coisas, ou que a gente só pega umas coisas pra ler/assistir e ficar de boa. Mas mesmo que esse não seja o caso, mesmo que você não seja uma das mulheres ativamente discutindo representação, ainda assim existir como mulher dentro do meio nerd/geek é quase um ato político.

Você não pode ser mulher, ser feliz e e trabalhar com o que gosta. Porque mesmo que essa não seja a sua intenção, ser feliz vira um ato político por ser uma afronta à masculinidade frágil dos fãs de quadrinhos – como assim você é feliz com toda a merda que te rodeia? Como assim você ousa ser feliz enquanto trabalha? Estar dentro do meio nerd/geek impõe uma aura política em toda mulher que existe alí dentro. Mesmo que, no fim, você só queira tomar um milkshake com as suas amigas e registrar esse momento feliz.

Mas nem só de merdas vive essa história. Diversas pessoas, leitores e profissionais saíram em apoio à Anton e às garotas da Milkshake Crew.

Por aqui nós continuamos adorando MilkShake e lendo quadrinhos.

Lupita Nyong’o se vestiu de Ranger Rosa durante a San Diego Comic Con.

Todo ano vários artistas se fantasiam de personagens para poder andar pelos corredores da San Diego Comic Con: Jhon Boyega já foi um Storm Trooper, Daniel Radcliff já foi de Homem-Aranha. Esse ano quem se fantasiou para caminhar como uma reles mortal pela feira foi a maravilhosa Lupita Nyong’o, que agora faz parte de duas das maiores franquias nerds do mundo: Star Wars e Marvel.

Ela escolheu a roupa da Ranger Rosa e parece ter se divertido horrores por lá.

Imagina você chegar em casa e descobriu que bateu foto, sem saber, com a Lupita? É muito maravilhosa.

Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Quando a nova franquia do Homem-Aranha foi anunciada eu fui uma das primeiras a torcer o nariz: o tão aguardado primeiro filme de super-heroína da Marvel, Capitã Marvel, estava sendo adiado para dar espaço para a TERCEIRA franquia do Homem Aranha em menos de 17 anos. Eu adoro o personagem, mas num mundo dominado por protagonistas masculinos, eu estava mais do que tranquila em não ver a cara do aracnídeo nos próximos anos. Apesar de eu manter a minha indignação pelo adiamento de Capitã Marvel, Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme que consegue acertar em muitos detalhes – inclusive nos maiores erros do Universo Marvel.

A escalação de Tom Holland como Peter Parker foi talvez um dos grandes acertos do filme, o jovem ator não tem só uma atuação convincente, mas a sua postura corporal também ajuda a vender que aquele moleque pode sim ser um super-herói. Seja o Peter de roupa civil, seja o Peter de Homem-Aranha, Holland consegue entregar com desenvoltura não só as acrobacias mas as nuances dos dramas internos do personagem. O elenco todo, aliás, está cheio de grandes atores e comediantes, mesmo em papéis menores. Donald Glover faz uma participação pequena, mas que promete render bastante no futuro e no desenvolvimento do legado do lançador de teias. 

Muitas pessoas estavam preocupadas com o quão importante o Homem de Ferro seria para a formação de Peter como um super-herói. Por mais que o filme não discuta abertamente o que aconteceu com Tio Ben, eu realmente não acho que dá para dizer que Stark é a razão pela qual Peter se tornou um super-herói. Ele é sim influente na vida do adolescente, e isso além de fazer sentido para o personagem (um garoto fica “amigo” de um dos maiores super-heróis do mundo, óbvio que é “big deal”), também faz sentido para o Universo Cinematográfico da Marvel. Nesse universo os Vingadores já aparecem pela televisão há, pelo menos, sete anos. Seria incoerente fazer um personagem novo que não é influenciado pelos heróis, isso deixaria o filme com o ar de “faz mas não faz parte” que as séries do Netflix e ABC possuem. 

É difícil ver um elenco, mesmo que de coadjuvantes, que tenha tanta diversidade de etnias. Essa adaptação dos personagens para um elenco mais inclusivo permite ao filme entregar papéis que normalmente ficam concentrados em atores e atrizes brancos para atores não-brancos, e pode parecer bobeira para algumas pessoas, mas quantas vezes você viu uma garota negra como interesse romântico do garoto protagonista do filme adolescente? Quantas vezes atores de origem latina puderam assumir um personagem riquinho e convencido em um filme adolescente? Ah, sim. Tony Revolori é latino, não de ascendência Indiana como muitos acham por causa do seu papel em O Grande Hotel Budapeste. Obviamente nada disso é o suficiente pra gente bater palmas e falar “TA RESOLVIDO”, mas é encorajador ver que existiu de fato um empenho da produção em trazer para a tela uma visão de colegial que reflita melhor o que realmente seria uma escola secundária no Queens, em Nova Iorque. 

O filme bebe bastante dos clássicos dos anos 80, mas parece ter se esquecido de atualizar alguns dos principais erros desses clássicos. Infelizmente, apesar de eu adorar Michelle e todas as possibilidades que o filme abriu para ela e para Liz, Homem-Aranha: De Volta ao Lar não passa nem no teste Bechdel. Nenhuma das personagens conversa entre si durante o filme, ou seja, ele falha já no segundo quesito do teste. Tia May, uma personagem que podia trazer tantos elementos interessantes para uma franquia renovada e mais atual, acaba relegada ao papel de “mãe sexy”, e não no sentido mais positivo do termo. Se você já assistiu ao filme, pode ver o meu outro texto, com spoilers, sobre as personagens femininas do filme. 

Um do pontos fortes do filme é exatamente no arco de Peter. Aqui, Peter está constantemente desafiando o conceito de que ele é só um garoto – ele é mais, ele é o Homem-Aranha, ele é um Vingador. O tipo de ilusão de maturidade que todo adolescente tem, mas que é levado às últimas consequências quando esse adolescente tem o poder de parar um ônibus com as mãos. O conflito interno de Peter não é sobre a dor de ter perdido Tio Ben ou sobre a responsabilidade que ele sente por isso, é sobre ser ou não um adolescente, quando ele mesmo acredita que ele precisa e é mais, mesmo com o mundo dizendo que ele pode ser “só” um adolescente. 

Talvez o maior acerto do filme, em comparação com os outros filmes da Marvel, foi a construção do seu vilão. Abutre (interpretado por Michael Keaton, aka Batman, aka Birdman e a Insustentável leveza de dormir no cinema) passa por um processo de desenvolvimento que pouco se vê hoje em dia nos filmes da Marvel – talvez seja possível compará-lo com Ego, em Guardiões da Galáxia 2. O modo como a história de Peter se descobrindo como herói e como adolescente se cruza com a megalomania de Abutre é interessante, e lança um paralelo entre até onde você pode ir sob o pretexto de responsabilidade, e quando você deve aceitar que as coisas as vezes só são como são. 

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme feito para um público jovem, um público que talvez se sentisse alienado com a quantidade de super-heróis que ocupam as telonas hoje em dia. Então sim, talvez você ache que o filme é um pouco infantil, mas isso em nada tira o mérito dele, muito pelo contrário. Em uma era de super-heróis que sofrem e que não tem esperança na humanidade, ver um filme tão redondinho como este chegar aos cinemas e, principalmente, alcançar uma geração que vai crescendo dentro de uma onda de conservadorismo, é esperançoso. Isso tudo não quer dizer que nós, que já não nos encaixamos tanto no padrão “jovem”, não vamos nos divertir. Homem-Aranha: De Volta ao Lar tem espaço para todos os públicos, inclusive para os aficcionados por referências que vão encontrar várias espalhadas pelo filme. 

Edgar Wright, Twin Peaks e Mulher-Maravilha: A Frustração Que Vem de Esperar Mais.

Com o lançamento de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright, se aproximando eu tenho cada vez mais pensado sobre o sentimento de frustração que cresce toda vez que um diretor que eu gosto lança algo novo. É muito difícil que o anúncio de algo novo não venha carregado com um mix de felicidade, esperança e a certeza de que minhas expectativas não serão alcançadas. 

Edgar Wright é um dos poucos diretores dos quais eu realmente acompanho a carreira. Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim Contra o Mundo são alguns dos meus filmes favoritos – Hot Fuzz, o segundo na trilogia, figurando facilmente dentro de um TOP 10. Eu adoro o ritmo da narrativa, os roteiros, a direção e os personagens… O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analizar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de “musa-com-algo-a-mais”. 

Baby Driver parece tudo aquilo que eu amo no cinema: um filme de ação, com personalidade, cenas de perseguição, humor, a edição divertida e inteligente dos filmes de Wight mas, infelizmente, também vem novamente com o protagonista masculino e branco. E a sensação de frustração vem exatamente disso, porque por mais que eu ame o trabalho dele como diretor, por mais que eu vá assistir ao filme provavelmente na primeira semana de lançamento, eu vou sair do cinema invariavelmente frustrada.

Frustrada porque é exatamente por saber o quão incrível Edgar Wright é como diretor que me dói vê-lo contar sempre a mesma história, sempre com o mesmo protagonista. 

Há argumentos para dizer que Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim tem protagonistas com personalidades diferentes, mas no fundo ele conta apenas a narrativa predominante porque seja o protagonista um nerd, um policial ou um desempregado, no fim a narrativa é aquela que a gente vê se repetir ad infinitum na mídia. E eu quero mais, quero vê-lo contar histórias que saiam do seu lugar de conforto, histórias de personagens que não sejam de certa maneira um espelho dele e de suas experiências. Eu vejo todo o potencial narrativo e criativo de Wright e me pergunto porque Baby Driver não tem uma protagonista feminina, ou porque baby não é um rapaz negro, ou asiático ou porque os seus filmes são sempre tão heteronormativos. 

Essa é uma sensação que se repete com quase todos os diretores que gosto e acompanho, como Adam MaKay por exemplo, e é a mesma frustração que me faz assistir Mulher-Maravilha e querer que tivéssemos mais mulheres e mais diversidade na tela. Criar algo novo, ou quando se trás de volta algo já conhecido, deveria sempre significar ir em frente. Star Wars trouxe o Rey e Finn, e por mais que ainda seja uma abordagem tímida, deixa a sensação de que mesmo que lentamente nós estamos caminhando para frente, ao invés de regredir. A Marvel finalmente me passou a sensação de ir além do seu passado com o trailer de Pantera Negra, mas ainda é pouco e ainda é tímido. Voltar ao mundo torto e bizarro de Twin Peaks tem sido uma batalha constante, como pode depois de 25 anos os mesmos padrões e clichês de personagens femininas se repetirem, e por que eles parecem estar ainda piores do que antes?

FBI Agent Tammy Preston: Em Twin Peaks não dá para ser agente do FBI e não ser super sexy.

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterosexual e cis? Por que me limitar criativamente?

Edgar Wright não é um diretor ao pé de igualdade de Scorcese, não no que diz respeito ao que ele tem liberdade para colocar na tela (já que em questão de qualidade, polêmica: eu prefiro Wright), então é entendível que para ele existam limites maiores de produção. Mas a sensação que fica é a que existe todo um potencial, uma inovação narrativa que podia ser expandida para além de uma montagem rápida e divertida, além de diálogos bem escritos e cenas de ação engraçadas e bem dirigidas, uma inovação que podia trazer mais diversidade. E se ele não se limitar à narrativa branca e masculina, imaginem as histórias incríveis e ainda mais inovadoras que ele poderia trazer para a tela.