Liga da Justiça | Crítica

Depois de muita expectativa, polêmica e notícias importantes durante a produção do filme, Liga da Justiça estreia com muito peso nas costas. Desde BvS, o público sempre se dividiu muito quando o assunto é a qualidade do universo cinematográfico da DC, por mais que a crítica, em sua maioria, concorde que os filmes têm uma qualidade abaixo do esperado. Tirando Mulher-Maravilha, a DC não anda com muita sorte no cinema.

Com os acontecimentos do final de BvS, o mundo ainda está de luto pela morte do Superman. Batman está tentando juntar os super-heróis para enfrentar uma ameaça que está chegando e vai destruir o planeta. Junto com a Mulher-Maravilha, depois do ataque contra as amazonas, a Liga da Justiça começa a se formar de verdade para trabalhar juntos.

Não é segredo para ninguém que, tirando Mulher-Maravilha, dessa nova fase da DC eu não gosto de nenhum dos filmes. Desde o começo do ano tenho falado que os próximos longas tinham que seguir mais o formato Mulher-Maravilha e menos, mas bem menos, os de BvS e Esquadrão Suicida. Eu vejo sim alguma melhora de Liga da Justiça se comparado a esses dois, mas o longa ainda precisava de várias coisas para se tornar uma história melhor.

Liga da Justiça pula de uma cena para outra, muitas vezes em um ritmo tão rápido que mal dá para entender o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando entender certas motivações do vilão, que é raso e nada interessante. Imagino que, para quem já está familiarizado com o universo da DC, seja mais fácil entender o que está acontecendo, mas novamente digo que os filmes precisam atingir todo o público, tanto o que consome quadrinho quanto o que não leu nada, então isso é uma falha.

Há sim momentos de exposição, alguns até ajudam o público a entender melhor o que está acontecendo, mas outros parecem jogados, com diálogos quase forçados, pecando novamente para aquele lado de favorecer um momento legal, não uma cena que faça sentido. Há certos acontecimentos que aparecem e nada no filme se dá ao trabalho de explicar o motivo, sendo que algumas coisas são até esquecidas e resolvidas como se fossem nada. Em defesa do filme, os buracos em BvS e Esquadrão Suicida eram mais gritantes, mas isso infelizmente não significa muita coisa.

Liga da Justiça também apresenta três novos personagens para o universo da DC no cinema: Aquaman, Flash e Ciborgue. Eles até têm seus momentos de destaque. O Aquaman fica muito de lado, tendo pouco espaço para dar qualquer chance do personagem crescer. Há um momento que pode indicar um passado, uma motivação, mas muito pequeno para causar algum impacto. O Flash é divertido, ele funciona como alívio cômico e tem algum desenvolvimento interessante, talvez dos três é o que funcione mais. Ciborgue é, particularmente, um herói que eu curto bastante, e achei que ele começou bem. O filme me apresentou aspectos dele, como o herói pensava e abriu espaço para ele se desenvolver. O problema é que o roteirista não deve ter prestado atenção no desenvolvimento de personagem, fazendo com que, ao longo do filme, ele fosse tomando decisões que fossem contra o que ele tinha estabelecido antes.

Muito tem se falado do tom mais sério que seria deixado de lado pelo humor. Liga da Justiça ainda tem seus aspectos sérios, deixando a maior parte das piadas com Flash, Aquaman e até com o Batman. O problema é que isso é o de menos. Tanto faz a mudança no tom do clima, não é isso que torna um filme bom e a DC continua esquecendo desse detalhe. Mulher-Maravilha soube balancear muito bem, mas isso é algo que independe em Liga da Justiça, parece que as piadas são forçadas dentro da maioria das situações, por mais que na boca do Flash elas funcionem melhor.

O filme é visualmente bem bonito, com uma fotografia bacana e até cenas de luta que divertem. A câmera lenta volta a ser usada, mas dessa vez não foi algo que me incomodou. É só uma pena que eles tenham encontrado necessidade em focar a bunda da Mulher-Maravilha em um momento completamente aleatório, como também trocar as roupas das amazonas do último filme, que não tinha qualquer motivo plausível para isso.

A dinâmica de grupo funciona em certos momentos. É frustrante ver os personagens de repente ficando burros pela conveniência do roteiro, mas existem trocas ali e interações que ajudam o público a aproveitar o filme. Não acho que as conversas entre Batman e Mulher-Maravilha funcionem sempre, mas há certos elementos ali que tinham potencial. O Batman em si continua bem apagado e pouco convincente, mas ao menos a Mulher-Maravilha continua funcionando bem, chamando a atenção em suas cenas e sendo destaque.

Liga da Justiça tem momentos divertidos sim, ações legais e outros pontos que vemos melhora, mas para mim, no máximo é um filme mais ou menos. Há vários aspectos esquecíveis e outros bem mal acabados, mas não lembro de nenhum deles ser tão grotesco quanto Martha, então talvez estejamos avançando um pouco aí. Ainda gostaria muito que Liga da Justiça parasse de correr e olhasse mais para Mulher-Maravilha, mas quem sabe os próximos filmes de origem não deem mais material para melhorar o universo. Por enquanto, continuo achando que Liga da Justiça, mesmo com algumas coisas que funcionem, ainda precisaria de muito para melhorar.

Fiquem no cinema porque tem duas cenas depois dos créditos!

Toda Frida – Representatividade e Girl Power em Linha de Roupas!

Quando você é nerd, ou só gosta de um filme/quadrinho/série, e quer comprar uma camiseta com a sua personagem feminina favorita, essa missão pode acabar se tornando um grande fracasso. Por isso, aqui no Collant, a gente adora a Toda Frida.

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Uma das coisas mais legais da marca é que ela se preocupa de verdade com representatividade. Além de usar modelos “reais”, mulheres que caminham entre nós mortais, que não nos encaixamos no padrão passarela de corpo, ela também tem do tamanho PP até o 3G!

A gente fez uma seleção das nossas estampas favoritas, todas transbordando GRL PWR!

Crystal Gems

Para o dia em que você precisa dazamigas para vencer o mal.

Nina Simone

Para o dia em que você acorda no clima de música e inspiração.

Max e Chloe

Para quando você lembra que apesar de tudo… Amor. <3 

Kamala Khan

Para o dia em que você acorda super-heroína, mas com os problemas de uma adolescente normal.

Hermione

Para o dia em que você acorda mágica, mas sabe que vai precisar de mais do que isso na prova da faculdade.

Mulher Maravilha

Quando você sabe que é poderosa, maravilhosa e chuta bundas como ninguém.

Arya Stark

Para os dias em que você vai precisar de muito mais do que a sua carinha bonita pra vencer a lista de to-dos.

Rey

Para os dias em que vão parecer jornadas inteiras em galáxias distantes. 

Tempestade

Porque você é a rainha da p***a toda e todo mundo sabe disso.

Marie Curie

Para os dias em que você sente que vai deixar um rastro de descobertas fabulosas.

011

Para o dia em que sair da cama precisa da força de atravessar para um outro universo.

Commander Shepard

Para os dias em que você está no clima de salvar a galáxia – e fazer isso com estilo.

Malala

Para o dia em que tudo parece ruim e você precisa de um pouco mais de esperança.

Lá no site da Toda Frida tem mais um monte de opções de heroínas – reais ou não! Então corre lá e já garante a sua!

Os Equívocos na Fala de James Cameron Sobre Mulher-Maravilha.

James Cameron é um diretor conhecido por seus ambiciosos filmes e por sua constante procura por conseguir avanços científicos através das suas produções. Titanic, Avatar e mesmo O Segredo do Abismo, todos eles precisaram que algum tipo de tecnologia fosse desenvolvida para que eles pudessem acontecer. James Cameron também é conhecido por ser o diretor de Aliens (1989), a continuação do clássico de ficção científica e, para muitos, o melhor filme da franquia e pela criação da franquia d’O Exterminador do Futuro.

Em uma entrevista ao The Guardian, o diretor de True Lies (1991), achou que seria conveniente fazer uma crítica ao modo como Hollywood recebeu o filme da Mulher-Maravilha:

Todos esses tapinhas nas costas, esse auto-elogio, que Hollywood vem se dando por causa de Mulher-Maravilha é muito equivocado. Ela é um ícone objetificação, e é só a Hollywood masculina fazendo a mesma coisa de sempre! Eu não estou dizendo que não gostei do filme, mas é um retrocesso.

A diretora de Mulher-Maravilha, Patty Jenkins, respondeu com o que provavelmente é o melhor resumo de todos os problemas da fala do diretor:

A incapacidade de James Cameron de compreender o que a Mulher-Maravilha é, ou o que ela representa, para mulheres ao redor do mundo não é surpreendente já que ele, apesar de ser um grande diretor, não é uma mulher. Mulheres fortes são ótimas. O elogio dele ao meu filme, Monster, e à nossa representação de mulheres forte apesar de perturbadas é muito apreciado. Mas se mulheres precisarem sempre ser forte, duras e perturbadas, e nós não formos livres para sermos multidimensionais e celebrarmos um ícone de mulheres em todo lugar porque ela é bonita e amável, então nós não fomos tão longe assim. Eu acredito que mulheres podem e devem ser TUDO, assim como personagens masculinos deveriam ser. Não existem um tipo certo ou errado de mulher poderosa. E a massiva audiência feminina que fez do filme o sucesso que é pode com certeza julgar o seus próprios ícones de progresso.

Existem muitos pontos a serem debatidos na fala de Cameron e, por mais que a fala de Patty seja uma resposta mais do que à altura ao que o diretor disse, eu sei que muitas pessoas ainda tem dificuldade para entender a problemática de Cameron ter dito o que disse.

O “auto-elogio” de Hollywood.

É verdade que toda vez que alguém faz o mínimo para a representação feminina ou de qualquer outra minoria Hollywood, e os envolvidos na produção, costumam se tornar símbolo de inclusão e acreditar que são os panteões da justiça (apesar de eu não achar que Patty Jenkins fez isso). E é importante que nós não acreditemos que Mulher-Maravilha chegou e pronto, todos os problemas de representação feminina estão resolvidos – porque não estão. Mas é engraçado como o diretor reclama do auto-elogio mas se dá um tapinha nas costas por causa de Sarah Connor.

Sarah Connor não era um ícone de beleza. Ela era forte, ela era perturbada, ela era uma mãe terrível e ela ganhou o respeito da audiência através da força de sua personalidade. E, para mim, o benefício de uma personagem como a Sara é óbvio. Quer dizer, metade da audiência é feminina!

Ou seja, uma personagem que ele criou é muito mais completa e uma visão muito mais positiva de representação feminina do que aquela trabalhada por uma mulher. Se isso não é o auto-elogio masculino mais comum, eu não sei o que é.

O Tipo Certo de Mulher

Mas essa declaração de Cameron não é problemática só por se considerar capaz de fazer um trabalho superior ao escrever uma personagem feminina do que o que uma diretorA poderia fazer. Ela também indica que Cameron parece acreditar que há apenas um tipo de mulher que pode causar identificação através da força de sua personalidade – aquela que reune qualidades normalmente atribuídas à personalidades masculinas, ou que renunciam ao que é considerado “feminino demais”.

Veja bem, em toda a sua carreira, Cameron possui três protagonistas femininas solo: Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro, a Tenente Ripley, de Aliens, e Max, da série Dark Angel (que eu vou falar mais tarde).

Sarah e Ripley, por mais que eu as ame e acredite que sejam personagens femininas muito interessantes, apresentam traços de personalidade que são normalmente associados ao masculino: predisposição à violência, capacidade de combate e nenhuma das duas atrizes se encaixava no que seria o padrão de feminilidade da década de 80.

Em Dark Angel, Max é uma mulher que foi cobaia num laboratório para modificação genética de crianças. Ela é mais forte do que o normal, uma guerreira nata e a representação de tudo que um protagonista masculino de ação é – mas ela faz isso tudo de salto. Novamente nós temos uma heroína feminina que ganha valor por ter características normalmente atribuídas à personagens masculinos.

Além delas Cameron tem ainda Helen Tasker, de True Lies, uma dona de casa que precisa abandonar o seu instinto caseiro e materno para se juntar ao marido agente secreto num plano para parar uma ameaça terrorista e salvar a filha do casal. Aqui, Cameron coloca o papel de dona-de-casa e mãe como algo negativo e, apesar de ser o marido o principal responsável pela crise no casamento, mostra Helen como a culpada.

Veja bem, eu AMO uma personagem feminina que chutas bundas, atira granadas, luta contra aliens em um robô e sabe kung-fu, mas mulheres não são só isso. Essa visão de que se uma personagem feminina não se encaixa num núcleo preciso de qualidades masculinas consideradas positivas, então elas não são revolucionárias o suficiente, é uma visão retrógrada. Porque se para ser considerada uma personagem bem construída, com quem a platéia possa se identificar, a personagem feminina precise assumir características masculinas, então está se apagando aquilo que é considerado feminino, está se ligando essas características à algo negativo.

Essa visão de que maternidade e características femininas são algo negativo está presente dentro dos filmes do diretor. Em determinado momento da história de Dark Angel, o fato de Max ser mulher e poder gerar um filho é usado contra ela, Helen tem anseios por carinho e atenção que True Lies trata como algo negativo e a responsabiliza pela crise no casamento, Cameron disse que Sarah é uma péssima mãe – quando na verdade ela está tentando fazer de tudo para salvar o filho e o mundo. Ripley, na versão do diretor de Aliens, descobre que sua filha morreu de velhice antes que ela pudesse voltar à vê-la, o que faz com que ela se sinta culpada. Mesmo em Titanic nós temos o caso clássico do estereótipo da mãe malvada que quer usar a filha para continuar rica. Se é feminino, é negativo.

Mulher-Maravilha, ícone de objetificação.

Se você acompanha o Collant sabe que volta e meia eu falo sobre objetificação feminina e, mais de uma vez, falei sobre como me incomoda o modo como as super-heróicas são representadas – incluíndo a MM. Eu continuo achando a roupa da Mulher-Maravilha uma das coisas mais não-práticas e feitas apenas para agradar o olhar masculino – podia ser ótimo lutar de saia na época da Grécia Antiga mas, passando alguns milhares de anos, era de se esperar que roupas de batalha tivessem evoluído também.

Muitas das minhas críticas ao modo como super-heroínas são retratadas tem como causa o fato de que quem faz a maioria dessas representações são homens, porque o mercado criativo seja de cinema ou de quadrinhos, ainda é dominado pelo olhar masculino. E esse olhar tende a ser objetificante e desumanizador. Por isso o que se iniciou como um símbolo de liberdade sexual feminina, como o uniforme da Mulher-Maravilha, ao longo dos anos acabou se tornando uma maneira para que homens criadores pudessem explorar todos os ângulos ginecológicos possíveis.

É engraço ver Cameron falar sobre MM ser objetificada, quando a Helen de True Lies é forçada pelo próprio marido à fazer um strip-tease para alguém que ela acredita ser um estranho. Fica mais engraçado lembrar que, apesar de todos os outros membros da nave estarem vestidos com calças e shorts, Ripley continua usando o kit calcinha + blusinha para viajar. Eu rolo de rir ao lembrar que Max, por mais incrível que Dark Angel seja, era interpretada por Jessica Alba e tratada como símbolo sexual o tempo todo – chute bundas, mas seja sexy. E não podemos esquecer da raça alienígena de Avatar onde as fêmeas tem as mesmas características físicas das mulheres humanas – incluíndo seios.

Jessica Alba, que interpretava Max, disse em uma entrevista alguns anos atrás:

Uma série minha (Dark Angel) premiou quando eu tinha 19 anos. E logo de cara todo mundo tinha uma opinião muito forte sobre mim por causa do jeito que o meu marketing foi feito. Eu deveria ser sexy, essa garota forte de sexy. Era o que as pessoas esperavam. Eu senti como se estivesse sendo objetificada, e isso me deixou desconfortável.

Apesar do uniforme da Mulher-Maravilha ser minúsculo e pouco favorável para um campo de batalha, Patty conseguiu fazer aquilo que, para muitos diretores, é impossível: ela não objetificou a personalidade. A sexualidade que Diana apresenta no filme é dela, não do olhar que é colocado sobre ela. Não existem sequências da câmera deslizando sobre o corpo da atriz para ser objetificada, quando a câmera mostra o corpo dela é para enfatizar o seu poder e sua força. Talvez esse seja o tipo de avanço que passe despercebido para o olhar masculino, já que ele tende a não entender onde começa o erro da objetificação feminina.

O Tipo Certo de Representação

Patty Jenkins está muito certa em dizer que Cameron não consegue entender a importância da MM por não ser mulher. Empatia pela história do outro é algo que todos nós podemos ter, eu cresci assistindo protagonistas masculinos e me identificando com eles, eu fui programada desde criança a ter empatia por aquilo que não me representava de verdade. Por isso é muito mais fácil para mim assistir Capitão América e me identificar com os valores e a história do personagem do que para um cara assistir Mulher-Maravilha e fazer o mesmo. E isso é, no mínimo, triste.

Não só porque esse cara vive dentro de uma bolha, mas porque ele cresceu escutando que só a história dele importa. Homens, especialmente brancos, hetero e cis,  possuem todo e qualquer tipo de representação possível em quantidades imensas. Talvez por isso seja tão difícil para eles entenderem porque Mulher-Maravilha foi tão importante para tantas mulheres, talvez por isso eles achem que tem o direito de dizer o que é certo ou errado na representação feminina.

Homens também crescem escutando do mundo que eles estão corretos, e mulheres crescem escutando que elas provavelmente estão erradas. Por isso Cameron se sente no direito de fazer esse tipo de comentário e apontar o que “está errado”. E por isso é tão importante que Patty tenha dado uma resposta tão firme sobre o assunto – porque Cameron está errado. Existe espaço para todo tipo de mulher, e todo tipo de mulher pode e deve ser um símbolo de resistência e força.

Conclusão

Parece que o problema de James Cameron com Mulher-Maravilha é que ela é uma personagem feminina que está diretamente ligada àquilo que é considerado feminino. Por mais que eu ache um retrocesso dividir sentimentos e características de personalidade binariamente entre masculino e feminino, é pior ainda ignorar e menosprezar sentimentos que foram considerados femininos e por isso menores durante tanto tempo. Eu adorei Mulher-Maravilha e, para mim, um dos pontos fortes do filme é o modo como ele não foge de falar de sentimentos e de amor – inclusive acredito que a força principal do filme e da mensagem dele para o mundo está aí. E não tem nada considerado mais feminino do que sentimentos e amor.

Essa visão de que para Cameron algo considerado feminino, como amor e sentimentos, é algo negativo fica ainda mais evidente quando pensarmos que tirando esses elementos a Mulher-Maravilha é uma guerreira. Ela pode não apontar uma metralhadora, jogar granadas ou dirigir motos futurísticas, mas ela empunha um escudo e uma espada. Então é sobre ela ser feminina demais, ou sobre não ser do jeito que ele acha deveria ser?

Não é sobre vilanizar James Cameron. Eu adoro muitas das personagens que ele criou ou com que trabalhou. Ripley tá na parede da minha sala, Dark Angel era uma das minhas séries favoritas na adolescência e apesar de saber das fraquezas do filme, Avatar não me incomodou como incomodou à muitas pessoas. Mas as declarações do diretor deixam bastante evidente um desconforto que produções como Mulher-Maravilha, e qualquer produção de sucesso que esteja ligada à alguma minoria, causam aos poderosos homens de Hollywood. Porque se a história que faz sucesso e está sendo contada não é a deles, ou se é uma história que não é contada através do olhar deles, então ela não está sendo feita da maneira correta.

Até mais! 😉

Alguns textos que talvez ajudem a entender melhor:

A HIPERSEXUALIZAÇÃO FEMININA NO ENQUADRAMENTO E NO MOVIMENTO DE CÂMERA.

MANARA, CHO E A TAL DA SUBVERSÃO DO TABU.

O AMOR EM MULHER-MARAVILHA.

ARLEQUINA E MULHER-MARAVILHA: A HIPER-SEXUALIZAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA. 

Edgar Wright, Twin Peaks e Mulher-Maravilha: A Frustração Que Vem de Esperar Mais.

Com o lançamento de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright, se aproximando eu tenho cada vez mais pensado sobre o sentimento de frustração que cresce toda vez que um diretor que eu gosto lança algo novo. É muito difícil que o anúncio de algo novo não venha carregado com um mix de felicidade, esperança e a certeza de que minhas expectativas não serão alcançadas. 

Edgar Wright é um dos poucos diretores dos quais eu realmente acompanho a carreira. Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim Contra o Mundo são alguns dos meus filmes favoritos – Hot Fuzz, o segundo na trilogia, figurando facilmente dentro de um TOP 10. Eu adoro o ritmo da narrativa, os roteiros, a direção e os personagens… O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analizar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de “musa-com-algo-a-mais”. 

Baby Driver parece tudo aquilo que eu amo no cinema: um filme de ação, com personalidade, cenas de perseguição, humor, a edição divertida e inteligente dos filmes de Wight mas, infelizmente, também vem novamente com o protagonista masculino e branco. E a sensação de frustração vem exatamente disso, porque por mais que eu ame o trabalho dele como diretor, por mais que eu vá assistir ao filme provavelmente na primeira semana de lançamento, eu vou sair do cinema invariavelmente frustrada.

Frustrada porque é exatamente por saber o quão incrível Edgar Wright é como diretor que me dói vê-lo contar sempre a mesma história, sempre com o mesmo protagonista. 

Há argumentos para dizer que Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim tem protagonistas com personalidades diferentes, mas no fundo ele conta apenas a narrativa predominante porque seja o protagonista um nerd, um policial ou um desempregado, no fim a narrativa é aquela que a gente vê se repetir ad infinitum na mídia. E eu quero mais, quero vê-lo contar histórias que saiam do seu lugar de conforto, histórias de personagens que não sejam de certa maneira um espelho dele e de suas experiências. Eu vejo todo o potencial narrativo e criativo de Wright e me pergunto porque Baby Driver não tem uma protagonista feminina, ou porque baby não é um rapaz negro, ou asiático ou porque os seus filmes são sempre tão heteronormativos. 

Essa é uma sensação que se repete com quase todos os diretores que gosto e acompanho, como Adam MaKay por exemplo, e é a mesma frustração que me faz assistir Mulher-Maravilha e querer que tivéssemos mais mulheres e mais diversidade na tela. Criar algo novo, ou quando se trás de volta algo já conhecido, deveria sempre significar ir em frente. Star Wars trouxe o Rey e Finn, e por mais que ainda seja uma abordagem tímida, deixa a sensação de que mesmo que lentamente nós estamos caminhando para frente, ao invés de regredir. A Marvel finalmente me passou a sensação de ir além do seu passado com o trailer de Pantera Negra, mas ainda é pouco e ainda é tímido. Voltar ao mundo torto e bizarro de Twin Peaks tem sido uma batalha constante, como pode depois de 25 anos os mesmos padrões e clichês de personagens femininas se repetirem, e por que eles parecem estar ainda piores do que antes?

FBI Agent Tammy Preston: Em Twin Peaks não dá para ser agente do FBI e não ser super sexy.

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterosexual e cis? Por que me limitar criativamente?

Edgar Wright não é um diretor ao pé de igualdade de Scorcese, não no que diz respeito ao que ele tem liberdade para colocar na tela (já que em questão de qualidade, polêmica: eu prefiro Wright), então é entendível que para ele existam limites maiores de produção. Mas a sensação que fica é a que existe todo um potencial, uma inovação narrativa que podia ser expandida para além de uma montagem rápida e divertida, além de diálogos bem escritos e cenas de ação engraçadas e bem dirigidas, uma inovação que podia trazer mais diversidade. E se ele não se limitar à narrativa branca e masculina, imaginem as histórias incríveis e ainda mais inovadoras que ele poderia trazer para a tela. 

Mulher-Maravilha: O Chefe é Muito Mais do Que o Sinal de Fumaça.

Quando eu saí do cinema a primeira vez que assisti Mulher-Maravilha (eu tô indo pra terceira hoje mesmo), saí com uma pulga atrás da orelha: o que diabos o personagem Chefe (Eugene Brave Rock) tinha dito para Diana quando os dois se encontraram. Ele não fala inglês, mas ela responde em inglês. Eu não sabia que a resposta seria uma coisa tão legal.

Vincent Schiling, no Indian Coutry Today, um site que procura promover e celebrar as nações Nativo Americanas dos Estados Unidods, publicou sobre Mulher-Maravilha e o personagem Chefe. É muito legal ver a preocupação que a produção teve com os detalhes dessa representação, tantas vezes ridicularizada, e a liberdade que foi dada ao ator para construir seu personagem. E é muito legal ver o impacto que os detalhes podem ter.

O que eu não esperava era ser acometido de emoção quando o personagem de Eugene Brave Rock, Chefe, conhece a Mulher Maravilha, que é espetacularmente interpretada por Gal Gadot. Por que? Suas primeiras palavras para ela foram em Blackfoot. Ainda melhor, ele se apresentou como Napi, o semi-deus Blackfoot que é conhecido por ser um trickster e contador de histórias.

Eu tinha visto algumas pessoas reclamando que “não tinha razão pra ter aquele índio lá”, que ele só estava lá pra usar o sinal de fumaça. Mas é incrível como a representação mora nos detalhes, e é incrível como é importante pesquisar antes de falar besteira.

Vincent continua:

Esse garoto nativo que ama quadrinhos transformado em Nerd nativo, raramente viu uma representação bem feita no mundo dos quadrinhos. Mas aqui estava Eugene Brave Rock em 3D, 20 pés de altura, sua voz enchendo o cinema IMAX. Eu estava impressionado.

Eugene Brave Rock é um ator e stunt veterano, com diversas passagens por filmes de Hollywood. Em outra oportunidade, ele já havia contado sobre como Patty Jenkins, e a equipe criativa do filme, havia dado liberdade e respeito para o ator no set.

A DC realmente me deixou ter uma voz. normalmente filmes tem muitos “faça isso, não faça isso”e eles dizem que você tem que fazer algumas coisas de uma certa maneira. Mas nesse caso, até o guarda roupa, foi incrível. No final eles me deixara decidir bastante sobre o meu personagem. Anteriormente, filmes me diziam até como eu tinha que trançar o meu cabelo, e você não tem uma escolha – mas esse não foi o caso.

Eu sempre vou querer que esses personagens estejam cada vez mais nos centros das histórias, então acredito que ainda existe um longo caminho até que nós fujamos do padrão branco de protagonista. Mas vou deixar o próprio Vincent Schiling falar sobre a importância do Chefe no filme.

Eu estava cheio de orgulho e lágrimas de felicidade enquanto assistia ele [Eugene Brave Rock] atuar de uma maneira que ia trazer admiração e respeito para seus fãs, seu povo e as culturas do Indian Country. Seu personagem podia ter saí de cena naquele momento e eu já teria ido embora feliz.

Aí algo mágico aconteceu: Brave Rock continuou a ter um papel significante no filme. Eu assisti admirado como uma pessoa do meu povo continua a atuar heroicamente em um filme incrível.

Até mais!

 

O Amor em Mulher-Maravilha.

Não tem nada mais brega do que uma mulher que acredita no amor. Nós aprendemos desde cedo que somos frágeis e bobas por acreditarmos no amor. Nós somos ensinadas a reprimir esses sentimentos, afinal, esta é uma das poucas maneiras para sermos levadas à sério, para demonstrarmos que somos fortes como os homens. “Mulheres são sentimentais demais”, eles dizem, como se sentir fosse algo negativo. Nesse caminho, quando nos adequamos ao que é considerado forte o suficiente,  muitas vezes somos consideradas frias.

Quando Interestelar (2014), de Cristopher Nolan, estreou nós estávamos no auge da fase “todo mundo odeia Anne Hathaway”. Amelia, sua personagem no filme, tem um monólogo que pra mim é um dos pontos altos do filme. Nele ela fala sobre o amor, sobre como quis a missão porque tinha esperanças de chegar até o seu amante (um dos cientistas que se aventurou pelos planetas possíveis e que, possivelmente, acabaria morrendo sozinho). Muitas pessoas criticaram a personagem pela motivação dela ser o amor romântico, afinal não há nada de mais clichê do que uma mulher apaixonada, não há nada mais prejudicial para a figura feminina do que ser associada ao amor romântico, porque isso faz dela frágil.

Por este pensamento eu sou a mulher mais frágil e brega que você vai conhecer na sua vida. Quando converso sobre filmes, séries, livros e quadrinhos que gosto é muito fácil traçar o ponto em comum neles: empatia e amor. Eu não poderia estar mais longe do niilismo nem se eu morasse na Lua. A Mulher-Maravilha também não.

E sou absolutamente a favor de personagens femininas que não sejam definidas pelo amor romântico, que tenham arcos de história e desenvolvimento completamente abstraídos desse conceito. Eu quero muito que Rey, de Star Wars, seja uma dessas personagens. Acho que se perde muito quando elas são diminuídas ao seu interesse romântico e acredito que precisamos de mais personagens femininas que fujam desse padrão. Mas essa simplesmente não é a Diana.

Não há nada de errado em falar de amor em um filme de super-herói, mesmo se ele for de super-heroína. Tentar definir todos os sentimentos que levaram à transformação de Diana como personagem no filme ao “boy da noite passada” é diminuir a personagem em si. Ao meu ver é fazer aquilo que a gente tanto tem medo que façam: classificá-la pelo interesse romântico, sendo que o amor que Diana demonstra ao longo do filme é muito maior do que Steve Trevor. Ela transborda empatia desde o começo da história.

Ainda em Temisciria, quando Diana descobre o caos pelo qual o mundo dos homens está passando, quando ela escuta Steve falar sobre os milhares de mortos, ela imediatamente quer ajudar. Não é a curiosidade de Diana que a leva a querer sair da ilha e ir à guerra, é a empatia. É um senso de justiça e dever, destruir Ares e cumprir o destino das Amazonas e ajudar as milhares de pessoas que estão sofrendo. Amigos, isso é amor.

Quando ela chega ao mundo dos homens ela empatiza até com o homem que segundos atrás havia tentado matar a ela e a Steve no beco. Ela não exige ou o agride, ela se abaixa até ele e tenta fazê-lo se livrar do que ela acredita ser o domínio de Ares. Quando ela confronta os superiores de Steve, e se revolta com o que eles falam, é mais uma demonstração de empatia, e isso é amor.

Quando Diana chega à Belgica e vê os homens machucados vindo na direção contrária a sua ela sente pena deles. Quando eles chegam ao front e ela vê um homem machucado, os cavalos sofrendo com o peso o castigo físico, quando ela para pra escutar o apelo da mãe escondida com a criança no colo. Isso é amor. Ela se recusar a passar reto pelo vilarejo sitiado e sofrendo com fome e escravidão – isso tudo é amor. E essa é parte importante que diferencia Diana dos outros soldados, ela ama essas porras tudo. Ela também é superforte e tem um escudo animal, mas ela não sobe a escadinha do front por causa do escudo, ela sobe a escadinha do front porque ela ama a humanidade, porque Diana acredita nela. E é por isso que a transformação dela lá na frente é tão importante, e tão maior do que Steve Trevor.

Diana inspira seus companheiros de viagem a lutarem, esse é o papel da Mulher-Maravilha, e ela é capaz de fazer isso não só porque tem força física, mas porque ela é o símbolo de algo melhor. E os parceiros dela lutam ao seu lado não porque acreditam que Ares é o verdadeiro culpado por tudo isso, mas porque acreditam em Diana. E essa porrada toda é o que? É amor, minha gente.

Eu sei que é muito mais popular falar de amor como subtexto, de maneira mais sutil. “Mais é menos” é uma das frases que eu mais falo quando dou aula ou palestras sobre roteiro. Mas regras existem para serem quebradas.

Dentro do MCU a maior parte dos temas são abordados de maneira sutil, através do subtexto – o amor é um desses temas. Seja o amor romântico de Peggy e Capitão América, ou o amor de amizade entre Capitão e Bucky (sorry Stucky shippers). “Eu te amo” não é uma frase que você escuta com muita frequência, muito menos “Eu acredito no amor”.

No DCU tudo é muito mais dramático e literal, e esses nunca foram os problemas dos últimos filmes. Então faz sentido que dentro do universo cinematográfico da DC nós tenhamos uma visão menos sutil dos temas, por isso faz sentido que MM fale essas palavras de maneira tão direta. Mas ainda assim MM nunca disse “eu te amo”.

Quem falou “Eu te amo” foi Steve. Um homem que é a representação de testosterona heróica no filme, o herói masculino de ação, o mártir do filme revela seus sentimentos de maneira direta, sem rodeios. Ele olha para Diana, a mulher que o inspirou e que mudou a sua vida, e diz que a ama. Se isso não é uma representação positiva para meninos e meninas, eu não sei o que é.

Eu sei que essa falta de sutileza não é para todo mundo, e tá tudo bem, mas não acredito que dê para reduzir tudo que Diana passa e sua transformação ao “amor pelo boy da noite passada”. Pra mim há algo de muito empoderador em escutar a Mulher-Maravilha dizer que acredita no amor. E mesmo se eu acreditasse que esse amor é apenas por Steve, ainda assim eu acharia válido. Porque amor é sinônimo de fraqueza na nossa sociedade, mas eu vejo como força. Nos tempos sombrios pelos quais passamos é importante lembrar que o amor pode ser uma das nossas fontes de energia para continuarmos lutando por algo melhor. Ver isso vindo de uma super-heroína só torna tudo ainda mais simbólico.

O Sucesso de Mulher-Maravilha Pisou Em Toda a Negatividade – E Em Todos os Male Tears.

Começo dizendo que foi o pisão mais gostoso que eu já levei na minha vida. Nas últimas duas-três semanas eu entrei no trem do hype e sentei na janela, mas a verdade é que antes disso eu só estava com muito medo de ver a estréia de uma protagonista feminina ter o mesmo tipo de narrativa de Batman v Superman ou Esquadrão Suicida. Não, eu não duvidava de Gadot ou de Patty Jenkins, eu duvidava da capacidade da DC de deixar a diretora fazer o que ela queria fazer. Eu sou a pessoa mais feliz do mundo em dizer que eu estava errada e que Mulher-Maravilha é, de fato, maravilhoso – é só ler a minha crítica para provar.

Mas Mulher-Maravilha também pisou com muito gosto em cima dos que acreditavam que, por ser uma protagonista feminina e por ser uma diretora, o filme não tinha como ter sucesso de bilheteria, nem de crítica nem de público – e MM foi os três.

Se os especialistas inicialmente esperavam 83 Milhões de Dólares no final de semana de estréia, Mulher-Maravilha fez 100 Milhões só nos Estados Unidos – 223 Milhões de dólares globalmente. Os 100 Milhões quebra o recorde antes conseguido por uma diretora nos EUA, Sam Taylor-Johnson com 50 Tons de Cinza havia feito 93 Milhões. Ele também deixa Mulher-Maravilha na frente de Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador.

Para os que continuavam a acreditar que mulher não vai ver filme de ação/herói, MM entregou prova definitiva de que eles não sabem do que estão falando. Filmes de super-heróis geralmente ficam na casa dos 60% para o público masculino, Mulher-Maravilha alcançou 52% de público feminino. Olha só, parece que nós estamos realmente gastando dinheiro com produtos que nos representam. QUEM DIRIA NÃO É MESMO?

No Rotten Tomates, site que junta as críticas tanto de público quanto dos críticos profissionais, Mulher-Maravilha  está com 93% de aprovação do público, 94% de aprovações dos críticos e também 94% de aprovações dos Top Critics. Essas porcentagens colocam MM ao lado de O Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro, e na frente de todos os outros filmes de Super-heróis produzidos até hoje. Eu sei que tem homem chorando pelo twitter que “Rotten Tomatoes não tem respaldo”, mas o site reune o parecer de profissionais da crítica especializada, se eles não tem respaldo, com certeza não é youtuber que tem. E não, você não precisa concordar com todas as porcentagens do site – eu discordo de algumas, mas você também não precisa achar que só porque não tá de acordo com o que você acha, é inválido.

Teve muito homem chorando os números que Mulher-Maravilha fez – inclusive alguns fãs da DC, que por Diana eu não consigo entender, reclamando que os críticos gostaram de MM, mas continuam achando o Universo Cinematográfico da DC até então, ruim. Teve crítico falando que o filme tem homenxplicação, para aí explicar para a gente o que é homenxplicação e porque o filme não pode ser considerado feminista. Teve também aquele moço que mandou um e-mail pro prefeito de Austin – TX reclamando sobre a sessão exclusiva do filme. Parece que as pessoas pagam a internet pra passar vergonha.

No fim, Diana sapateou em cima de todo mundo e colocou um pontinho de esperança de que o futuro da DC nos cinemas pode ser um pouco mais vivo, que ele pode ser tudo aquilo que a gente sonha que ele seja.

Crítica | Mulher-Maravilha: Dentre Todos os Super-heróis, a Melhor.

Histórias de super-heróis caminham numa linha tênue entre o autoritarismo e o altruísmo. Os últimos filmes da DC nos cinemas por diversas vezes cruzam a linha para o lado do autoritarismo, sem prover, em profundidade, uma discussão sobre esse aspecto dos Super-heróis. Mas esses super-seres não foram criados para representarem um poder extremo e inalcançável, eles foram criados para serem símbolos de esperança, liberdade e empatia. E é exatamente por conseguir equilibrar esses três elementos, e também a discussão sobre autoritarismo, que Mulher-Maravilha sopra um fôlego novo nos filmes de super-heróis.

Uma das minhas maiores preocupações ao entrar na sala de cinema era como o filme retrataria a guerra. Diferente da Segunda, a Primeira Guerra Mundial tinha lados muito mais embaçados, sem um dos lados representar o mau absoluto, como o nazismo. Ela aconteceu por diversas razões, em diferentes territórios e por diferentes interesses políticos também. O filme consegue manter um certo equilíbrio nessa questão na maneira como questiona – e representa – os oficiais ingleses à quem Steve Trevor serve. Diana bate de frente com eles, demonstrando como o poder e a guerra estão diretamente ligados ao poder burocrático, que joga com a vida de soldados e civis de acordo com os seus interesses.

Diana representa o que há de melhor entre nós, ela tem empatia, inocência, garra, senso de justiça e, principalmente, ela é uma mensagem de esperança. Não só para o mundo dos homens, como para Temisciria. Se as amazonas já estão cansadas e marcadas pela guerra que as levou à ilha paraíso, Diana possui um senso de aventura e determinação que a torna não só a emissária perfeita, como também a heroína amazona que o mundo precisa. Diana não é um poço de niilismo e tragédia como o Batman e o Superman do universo cinematográfico da DC, ela é capaz de ver a tragédia, de empatizar de verdade com aqueles que sofrem, de querer ajudá-los e de se preocupar com o que vem depois de seus atos. Não é sobre o umbigo de Diana, não é sobre revanche, é sobre a humanidade.

E é exatamente por conseguir definir isso que o filme tem tanto sucesso na personagem. Aqui, Diana não sabe exatamente quem  ela é, nem qual é o seu destino no mundo dos homens e dos Deuses Ela segue seu coração, tenta fazer aquilo que lhe parece certo dentro dos preceitos e da moral que aprendeu com as Amazonas. E Diana tem muito coração, tanto quanto tem garra e coragem. Diana enfrenta seus desafios e, mesmo quando duvida de si e da humanidade, faz isso dentro de sua personalidade. Ela não é inconsistente, no fundo ela é humana.

Gal Gadot consegue passar todas essas camadas de Diana de maneira incrível, a atriz consegue acertar não só a postura de princesa guerreira, mas também o de uma garota que apesar de curiosa com um mundo novo, não compreende suas regras machistas e por vezes repugna muitos de seus aspectos. Fisicamente ela se impõe como guerreira sem que nos faça duvidar de todo o seu poder. Gadot consegue caminhar muito bem também no timing de comédia, nos momentos em que ela aparece. Uma das melhores piadas do filme acontece enquanto Diana e Steve vão embora de Temisciria e me fez gargalhar alto no cinema.

Para os que estavam preocupados com Steve tomar muito tempo de tela, podem relaxar. O papel do espião é muito semelhante ao de um guia, ajudando Diana a transitar pelo universo desconhecido que é a sociedade moderna da época. Ele também não tem oposição nenhuma em ser liderado ou mesmo protegido por Diana, entendendo muito rápido que é ela quem possui as habilidades e o poder para liderar. Ainda assim, para aqueles que estavam preocupados com uma possível emasculação do personagem – ele vai muito bem, obrigada.

Existem alguns fatores que eu gostaria de ter visto de maneira diferente no filme. Apesar de haver Amazonas não-brancas em Temiscira, e de algumas delas possuírem lugares de destaque, ainda assim não é o suficiente. Os companheiros de Diana no mundo dos homens não são todos brancos, e levanta-se a questão de como isso influencia ou influenciou a vida deles mas, de novo, fica a sensação de que podíamos ter tido mais. Eu espero que nos próximos filmes da MM nós vejamos mais sobre Temisciria, já que passamos a maior parte do tempo entre as guerreiras. Seria incrível descobrir uma variedade de mulheres que existem dentro da ilha – eu aposto que elas não são todas atléticas e muito menos brancas. Seria também interessante que os próximos filmes abordassem a questão da sexualidade das amazonas, algo que não é nem de leve tocado no filme.

Etta James (Lucy Davis), amiga da Mulher-Maravilha, apesar de assumir um papel de liderança na missão, também merecia mais espaço do que lhe foi dado – ela por pouco não cai no estereótipo da mulher gordinha e alívio cômico (o fato dela ser gorda nunca é utilizado como punchline). Eu entendo, do ponto de vista histórico, que os companheiros de Diana tenham sido homens. Mas acredito que o filme, que é sobre uma princesa amazona com super-poderes vinda de uma ilha paraíso, podia ter tomado mais liberdade história e ter substituído pelo menos um dos companheiros de Diana, por uma mulher.

Connie Nielson (Rainha Hipólita) e Robin Wright (General Antiope) estão maravilhosas em seus papéis. Connie consegue mostrar Hipólita como uma mãe, uma guerreira, uma rainha e uma mulher marcada e cansada de guerras. Wright foi um acerto em cheio na escalação para Antíope, tanto fisicamente como com sua atuação. O filme abraça a idade das duas mulheres, usando isso para criar personagens ainda mais complexas do que se esperaria com o tempo de tela que elas tem. De maneira geral as mulheres de Mulher-Maravilha são fabulosas, não só porque são amazonas, mas porque o filme as permite expressar sentimentos sem que a natureza guerreira delas tente, de alguma maneira, envergonhar esse lado humano que, muitas vezes, seria considerado um sinal de fragilidade. Sentir e empatizar são as palavras chaves de Mulher-Maravilha, e isso é maravilhoso.

Patty Jenkins, diretora do filme, mostra um controle incrível sobre as cenas de ação. Mesmo quando usa um recurso tão batido quanto slow-motion, ela o faz com um sentido narrativo. Na cena em que Diana invade uma sala com inimigos, e que aparece já no trailer, cada slow-motion serve para mostrar um aspecto das habilidades de Diana – seja sua força, sua destreza ou a avalanche de poder que ela carrega em seu corpo. Tanto as cenas nas trincheiras, quanto a grande cena de ação final, caminham junto com a temática de liberdade e poder do filme, e são momentos em que a diretora se permite também discutir um pouco mais sobre esperança e autoritarismo.

Talvez um diretor homem não teria permitido que suas personagens femininas tivesse o nível de complexidade que as amazonas ganham no filme. Talvez elas tivessem sido apenas vasos vazios de significados, mas cheios de força e sensualidade. Diana não é hipersexualizada em momento nenhum durante o filme, e é muito óbvio, através do trabalho de câmera e enquadramento, que fez toda diferença ter uma mulher como diretora do longa.

Mulher-Maravilha é, hoje e na minha opinião, a melhor representação do que um super-herói deveria ser. Capitão América talvez divida essa posição com ela, mas Diana é algo novo e de um ponto de vista diferente, um ponto de vista que ao mesmo tempo que promove uma ação épica também se preocupa em manter um super-herói como um símbolo de esperança, de empatia.

Depois de anos escondida dentro do mito da “personagem difícil de ser adaptada”, Mulher-Maravilha chega finalmente aos cinemas como uma história de origem, uma história que precisava e merecia ser contada. Ao final do filme eu me peguei querendo saber como Diana iria reagir e superar os acontecimentos finais do longa, qual será o arco maior da personagem, espero que Liga da Justiça consiga continuar desenvolvendo um pouco isso. Depois de anos de espera, a experiência de ver a MM chegar às telonas é catártica, mas é também um sinal de esperança. Um ponto de força, empatia e luz em nossos tempos tão sombrios.

Mulher-Maravilha chega nesta quinta, 1º de Junho, aos cinemas.

As sessões exclusivas de Mulher Maravilha não são sobre excluir homens.

Essa semana a internet ficou em polvorosa com o anúncio da Alamo Draft House, um dos cinemas mais tradicionais dos Estados Unidos, de que faria uma sessão exclusiva para mulheres do filme Mulher Maravilha. Os gritos de revolta vieram de todos os lados, mas o que mais ganhou voz foi o gripo dos pseudo-excluídos.

“Como assim uma sessão só para mulheres? Vai acontecer uma sessão só para homens? E a igualdade?”

A Alamo Draft House respondeu de maneira magnífica àqueles que vieram até a sua página reclamar do evento:

Teve o cara que tentou dizer que não ia fazer dinheiro – e a Alamo respondeu que a sessão esgotou logo nas primeiras horas de venda. XD
Esse tentou puxar pro Trump, dizendo que ia gerar muita raiva se o Trump fizesse uma sessão na Casa Branca (?) só para homens. A Alamo respondeu: “Se chama reunião de gabinete. Ou Reunião Sobre Saúde das Mulheres”. Burn.
Esse rapaz queria saber se vai ter uma sessão só para homens, de Thor: Ragnarok, ou uma sessão especial só para palhaços quando IT sair. A Alamo disse que talvez roube a ideia da sessão só para palhaços.
Essa pessoa tentou jogar a carta da igualdade. Alamo respondeu com a verdade: não é sore igualdade, é sobre celebrar uma personagem que representa muito, para um monte de mulheres, desde 1940.
Esse quis saber se ia ter uma sessão só para homens. A Alamo o lembrou que eles também fazem eventos privados, é só alugar o espaço. XD

Homens tem essa coisa de achar que absolutamente tudo é sobre eles. Mas por mais engraçado que seja ver essa quantidade de homem chorando um tsunami de lágrimas porque, por uma sessão (duas, já que a empresa confirmou uma sessão extra), eles não são o centro das atenções, isso não é sobre eles.

É sobre celebrar mulheres.

Sobre mulheres se encontrando num só lugar, para assistir juntas à primeira super-heroína feminina a ser a primeira super-heroína feminina a chegar aos cinemas através de um blockbuster. Fim.

Não é sobre homens, é sobre mulheres. E ninguém tá impedindo esses caras de irem nas outras milhares de sessões – são apenas essas duas que serão exclusivas para mulheres. Porque elas querem poder ir ao cinema sem ter que escutar comentários engraçadinhos sobre o filme, serem julgadas porque vão se emocionar e possivelmente chorar, sem ter que escutar homem falando que a MM está gostosa, sem ter que se preocupar com qualquer tipo de atitude tóxica masculina.

Porque durante aquelas duas horas, elas só querem aproveitar, celebrar a Mulher Maravilha e se emocionar.

Então, caras. Não é sobre vocês. O filme não foi feito exclusivamente para mulheres, mas por aquelas duas sessões, ele vai ser exclusivamente para mulheres. O mais doido é ver cara, aqui no Brasil, chorando por uma sessão que mesmo se fosse aberta, eles não iam conseguir assistir. Porque tá em outro país. Oo

Mas olha, eu tenho uma solução incrível para toda essa questão de sessões exclusivas, e algo que você, homem, pode fazer. Ao invés de sair por aí gritando que você se sente excluído e injustiçado, aqui vão cinco coisas que você pode fazer para mudar isso:

1) Entenda que o seu comportamento pode ser tóxico para mulheres, escute e leia mulheres que falam sobre isso – melhore.
2) Cobre dos seus amigos caras que eles também melhorem.
3) Vá ao cinema ver Mulher Maravilha junto com as suas amigas, incentive outras mulheres à irem ao cinema ver o filme.
4) Incentive amigos homens à ir ao cinema ver Mulher Maravilha, além de estar incentivando eles a consumir um produto protagonizado por mulher, talvez eles aprendam uma coisa ou outra sobre machismo no filme, e aí eles melhoram.
5) Comece a cobrar dos estúdios e editoras que elas dêem mais espaço para personagens femininas – só Mulher Maravilha e Capitã Marvel não é o suficiente, e nem de perto representam a totalidade das mulheres fãs de quadrinhos (nós somos mais do que brancas, magras, esbeltas e etc).

Então é isso. Não é sobre excluir homens, é sobre celebrar mulheres.

Até mais! 😉

(Prints via The Mary Sue)

Gal Gadot Responde: “Mulher Maravilha é feminista, claro.”

Durante uma entrevista à Entertainment Weekly sobre o Mulher Maravilha, Gal Gadot se deparou com uma pergunta que virou moda entre os repórteres que cobrem entretenimento: Mulher Maravilha é feminista? A resposta de Gadot não podia ser melhor.

Mulher Maravilha é feminista, claro. Eu acho que as pessoas são equivocadas sobre o que o feminismo é. As pessoas acham que feminismo é sobre axilas cabeludas e mulheres que queimam sutiãs. Não é isso. Para mim, feminismo é sobre igualdade e liberdade, e mulheres escolhendo o que a gente quer fazer. Se é por salários, então somos pagas o mesmo que os homens. Não é sobre Homens vs Mulheres, ou sobre Mulheres vs Homens.

Gadot foi além e falou sobre como ela queria que isso aparecesse na tela.

Era importante para mim que a minha personagem nunca fizesse sermões sobre como homens devem tratar mulheres. Ou sobre como mulheres devem se perceber. Era mais sobre brincar com o fato dela não saber como a sociedade funciona.”Como assim  mulheres não podem ir ao Parlamento? Por que?”

É só lembrar todo mundo sobre como as coisas deveriam ser. Eu queria interpretar o “peixe fora d’água”, mas eu não queria fazê-la muito boba.

Passar uma mensagem positiva usando a falta de conhecimento da Mulher Maravilha sobre como a nossa sociedade funciona não é novidade. Esse é um dos meus aspectos favoritos sobre o filme animado de 2009, e da série da Liga da Justiça, é que os dois estão cheios de momentos incríveis em que Diana mostra como muitos dos valores da nossa sociedade, valores ligados à mulher, são absurdos. 

Em tempos de Meryl Streep, interprete de uma feminista, tentando ao máximo se distanciar da palavra feminismo, ver Gadot falar tão diretamente que a Mulher Maravilha é feminista é ótimo. Eu diria que se você quer queimar sutiãs, você pode. E se você não quer depilar as axilas, também está ótimo, porque feminismo é exatamente sobre dar liberdade para as mulheres fazerem o que elas quiserem. Seja lutar por salários iguais, seja pagar menos numa lâmina de gillette.

Eu sempre achei muito doida essa coisa de perguntar para celebridades se elas são feministas ou não. Mais do que ajudar, esse tipo de pergunta acaba inibindo e colocando essas mulheres em cantos dos quais, muitas vezes, é difícil sair. Mas não dá pra negar que a cultura pop ajudou muito à colocar o feminismo como um tema nas nossas conversas do dia-a-dia, e é ótimo ver a equipe por trás de um dos maiores ícones feministas dos quadrinhos não se esquivar da melhor resposta.

(via The Mary Sue)