Primeiro capítulo de Carrion Song será lançado na CCXP 2017!

A CCXP 2017 já é semana que vem e, como vocês podem perceber, uma das nossas partes preferidas aqui no Collant é o Beco dos Artistas. Há vários artistas incríveis, inclusive mulheres, disponibilizando seus quadrinhos e trabalhos. Aqui vai uma sugestão para você que não sabe direito o que comprar por lá.

Carrion Song é um história em quadrinhos independente criada por Gabriela Birchal. O primeiro capítulo da história será lançado na CCXP 2017, na mesa D39 no Artist’s Alley, e conta a história de Corvo.
Corvo é uma mercenária amaldiçoada em busca de alguém muito importante para ela. A máscara é o estigma de sua maldição, o que a torna um pária. Ao receber um trabalho particularmente incomum, ela se vê acompanhada pelo bardo e mercenário Dorian, e deve adentrar uma torre para caçar uma terrível besta chamada Arque Lobo. No entanto, a caçada se mostra mais complicada do que o prometido e ambos deverão sair de uma cilada.
Gabriela é uma ilustradora e artista de concept e trabalha para video games, jogos de tabuleiro, capas de livro, dentre outros. Em 2017 resolveu voltar às raízes e escrever uma história própria. O primeiro capítulo foi feito de forma independente e, para a continuação da história, Gabriela conta com a ajuda de apoiadores no Patreon, uma plataforma na qual os criadores mantêm contato direto e oferecem conteúdo exclusivo para os fãs.
Se você não puder ir no evento, mas ainda estiver interessado no quadrinho, ele será vendido no http://gabrielabirchalart.iluria.com/
Título: Carrion Song
Autor: Gabriela Birchal
Formato: 17x26cm
Número de páginas: 36
Lançamento: Durante a CCXP 2017 nos dias 07,08,09 e 10 de Dezembro
Sites:

Eu li (e acho que você devia ler também): Olga, a Sexóloga

Faz um tempo que eu não consigo colocar review de quadrinhos no ar. Mas finalmente estou começando os reviews de 2016 (com uns cinco meses de atraso, eu sei), e acho que não podia começar de maneira melhor. 🙂

Olga, a Sexóloga é uma seleção das melhores tirinhas da personagem criada pela quadrinista paraibana Thaïs Gualberto. O livro tem 134 páginas de tirinha divertidas e que circulam os temas de sexualidade feminina e de ser mulher nessa sociedade que mal consegue admitir que mulheres tem uma sexualidade.

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Nesse primeiro volume que compila os quadrinhos da Olga entre 2009 e 2015 uma das coisas que mais me chamou atenção foi como é gostoso e interessante acompanhar o desenvolvimento artístico e militante da Thaïs e, por consequência, da personagem. Se as primeiras tirinhas parecem um pouco mais despreocupadas, à medida que os anos passam fica cada vez mais evidente a força que as visões feministas da autora se estruturam no quadrinho. Enquanto lia fiquei lembrando de mim mesma nessa mesma época, no modo como os conceitos que tenho hoje iam aos poucos se formando.

Olga é uma sexóloga que fala sobre sexo e sobre ser mulher e fazer sexo de maneira divertida e direta. Os assuntos vão desde a nossa conexão com o mundo digital até a hora em que alguém precisa dizer as palavras que talvez gerarão discórdia, mas que são de extrema importância: vamos colocar a camisinha.
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De maneira geral talvez o tema do livro seja a desconstrução da mulher como esse ser místico, puro e intocável que existe apenas para alegrar e engrandecer o mundo e que, convenientemente, esquece que mulheres também tem desejos sexuais. É divertido ver Olga quebrar essa imagem de mulheres perfeitas que a mídia vende ao mesmo tempo em que lida com esses assuntos de maneira empoderadora, divertida e sempre desligando a sexualidade feminina do prazer/olhar masculino. Isso é especialmente importante para desfazer essa visão de que sexualizar uma personagem ou pessoa é a mesma coisa que discutir e apresentar a sexualidade de uma mulher.

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Olga, a Sexóloga é uma leitura rápida, divertida e o tipo de livro que volta e meia você vai se pegar lembrando de uma tirinha e querendo reler algumas delas. Você pode comprar o quadrinho da Olga na Comic House ou na Ugra Press, e pode acompanhar o trabalho incrível da Thaïs aqui.

E eu acho que você super devia. 😉

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Onde estão as mulheres do quadrinho nacional?

No começo do ano, o site Toró de Ideia divulgou o resultado de uma pesquisa sobre o Quadrinho Nacional e o seguinte depoimento de uma leitora me chamou bastante atenção:

Eu gosto dos artistas nacionais, principalmente o Laerte, os irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá, o Willian Leite, Mário Cau e Carlos Ruas, quase sempre leio eles online, mas já comprei livros. Eu me pergunto onde estão as mulheres dos HQs nacionais? Eu acompanho muito as latinoamericanas e espanholas autoras de P8ladas, Ana Bélen Rivero, Monstruo Espagueti, “Diário de una volátil by Augustina Guerro, Let´s Pacheco e Moderna de Pueblo. Eu preferia importar o trabalho dessas artistas (livros e produtos) do que comprar os nacionais pela qualidade e pelos temas das histórias

Agora responde pra mim, rapidinho, quantas destas meninas do quadrinho nacional você conhece?

Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3
Desenho feito pela maravilhosa Sirlanney, dona da página Magra de Ruim <3

Pois bem. De 2012 pra cá, nós tivemos um aumento significativo de mulheres cis e trans produzindo tiras, web comics, zines e quadrinhos impressos com os mais variados temas. Assim como na gringa, aqui no Brasil mulheres estão desenhando, escrevendo, colorindo, letrando, organizando eventos de quadrinhos e ocupando cargos de direção em editoras.

Garotas incríveis como Beatriz Lopes, Gabi LoveLove6, Sirlanney, Laura Athayde, Débora Santos, Dharilya Sales, Luiza de Souza, Renata Nolasco, Lila Cruz, Thays Koshino e Mariana Paraizo, são apenas alguns das muitas brasileiras que encontram nas publicações independentes uma forma de contar suas histórias. Coletivos como Mandíbula, Zinas, Whatever 21, Foca no Rolê, Studio Seasons e Selo Pequi são exemplos de como o apoio mútuo entre mulheres fortalece o surgimento de novas publicações impressas e digitais.

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Alguns dos quadrinhos e zines feitos pelas mulheres citadas acima

Mesmo com produções de qualidade, poucas autoras figuram nas listas de melhores do mês-ano de sites especializados em HQ´s. Um número menor ainda aparece em coletâneas de quadrinhos, e só 13% dos indicados ao HQ Mix (uma das maiores premiações nacionais de quadrinhos) do ano passado eram mulheres, como vocês podem ler aqui e aqui. Mas por que isso acontece?

Se a gente voltar um pouquinho no tempo, vamos perceber que a história da arte (e da humanidade) enaltece os feitos dos homens enquanto criadores e delega à mulher o papel de musa, de companheira, de amante e de mãe. As que fogem a esse padrão são pouco conhecidas e precisam desafiar as imposições de suas épocas, além dos ambientes predominantemente masculino, para se tornar conhecidas pelo público. 

Nos quadrinhos não é diferente. Durante muitos anos Nair de Teffe, uma caricaturistas do início do século XX considerada importante para a narrativa gráfica brasileira, assinou seus trabalhos como Rian. Emy Acosta, desenhista da Mauricio de Souza Produções desde a década de 70 é responsável pelo formato arredondado da Turma da Mônica, mas só em 2015 os autores passaram a ser creditados.

Estranho né?

Antes de escrever este post, eu estava lendo  “As Mulheres nas Histórias em Quadrinhos” da Karina Goto, o que me permitiu voltar a refletir sobre o lugar comum permissível às quadrinistas. Explico. Ainda existe um pensamento dominante de que quadrinhos são produzidos apenas por homens e para homens e isso fica claro quando observamos a quantidade de quadrinhos feitos por homens presentes em editoras, em coletâneas, nas livrarias, na sua prateleira, no vlog que você assiste, nos sites que você lê e nas reações do público nas feiras de impresso. Já vi pessoas ficar empolgadas ao conhecer autoras, mas também já vi caras ignorando meninas em mesas mistas de artists alley. Isso só reforça a teoria de que mesmo que mulheres façam Hq´s de terror, de comédia, espaciais, eróticas, autobiográficas… estas produções serão consideradas fofas. Como afirma Fernanda Nia, na monografia da Karina: “Por mais que você trate de um tema profundo ou faça um material de qualidade, se suas cores forem claras e a personagem for feminina, o quadrinho já é tachado como “de mulher” e vai pro submundo onde a crítica nem chega perto.”

Enquanto permanecem invisíveis à mídia brasileira especializada em quadrinhos, muitas autoras são ridicularizadas por “caras engraçados” que decidem fazer piada com o traço, a mensagem, ou com a imagem das quadrinistas. Mesmo assim elas seguem publicando seus trabalhos na internet; Montando suas banquinhas em feiras de impressos por todo o Brasil; Sendo convidados de grandes eventos como FIQ, Comic Con e etc. inspirando outras mulheres a ler e fazer quadrinhos.

Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.
Stand Vênus Press no FIQ, composto apenas por mulheres quadrinistas.

Nos próximos posts aqui no Collant sem Decote vamos continuar nossa conversa e tentar entender qual o lugar da mulher no quadrinho nacional, assim como espero apresentar pra vocês, trabalhos de autoras tão incríveis como estes da foto, permitindo que elas sejam reconhecidas pela qualidade do seu material, independente do gênero que elas escolheram pra contar suas histórias.

E se você gosta de artistas nacionais, mas não reconheceu as garotas da ilustração que abriu esse post, dá uma pesquisada nesses nomes:

1 ) Garota Siririca – Lovelove6

2 ) IlustraLu – Luiza de Souza

3 ) Vannila Tree – Brendda Costa Lima

4 ) DesalineadaAline Lemos

5 ) Gata Garota – Fefê Torquato

6 ) ManzannaAnna Mancini

7 ) Laços – Lu Cafaggi

8 ) Glitter Galaxia – Bárbara Malagoli

9 ) BlearghTombo Bê

10 ) Bear – Bianca Pinheiro

11 ) MarioneteMariana Sales de Clementino

12 ) Chiqsland – Fabiane BL Chiq

13 ) Cynthia B. – Cyn Neves

Tem Quadrinista Incrível no Catarse: Lila Cruz e o projeto Quadrada!

Uma das melhores coisas do Colant é encontrar sempre um projeto legal feito por mulheres – e trazê-los aqui para vocês!

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O “Quadrada” é exatamente isso! O projeto da quadrinista bahiana Lila Cruz é uma compilação de três quadrinhos diferentes o Ansiedade, o Nostalgica e o Desnuda, todos desenhados e escritos pela Lila e que juntos formam o Quadrada. Com uma visão feminina sobre assuntos que variam desde lembranças da infância, passando pelo desejo de ser uma power ranger até ansiedade e relacionamento abusivo, o projeto é uma publicação que parece conseguir compilar um pouco desse monte de emoções e experiências que é ser mulher – e crescer.

Pra falar um pouco mais sobre um projeto tão pessoal, eu fiz umas perguntinhas pra Lila.

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O que te levou aos quadrinhos? Em que momento você pensou “eu quero fazer isso?” É uma coisa que vem contigo desde pequena ou que se manifestou depois de adulta?

Eu costumava desenhar, mas quando era criança a única certeza que tinha na vida era que queria ser cantora, hehe. Só comecei a levar mais sério desenhar no final do colégio, e aí fui levando pra faculdade. Hoje, quase 12 anos depois, às vezes eu já penso as coisas em forma de tirinha, quadrinho, ilustração! É uma coisa que não consigo mais evitar. Acredite, eu tentei. rs

Os três quadrinhos do Quadrada são bastante pessoais, né? Como você lida com essa transição entre a tua realidade e as páginas em branco? Há um receio de se expor demais?

Há sim, em especial com Ansiedade, porque revela duas coisas bem pessoais, que foram o Transtorno de Ansiedade e o relacionamento abusivo. Eles estão diretamente relacionados um com o outro, porque o relacionamento abusivo desencadeou o quadro do transtorno. Já fiz música sobre isso, mas nunca mostrei a ninguém – então fazer um quadrinho bastante real e pessoal pra mim é muito louco, porque enquanto desenho eu lembro do que passei. Por outro lado, é bom pra que, se outras pessoas se reconhecerem naquilo, elas possam entender o que está acontecendo e tentar tratar o transtorno, ou, no caso do relacionamento abusivo, sair do relacionamento.

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Desnuda parece ser um quadrinho com bastante situações divertidas. O humor é algo presente no teu trabalho? Como você usa ele para contar as histórias?

Ah, acho o humor muito útil, especialmente nas situações difíceis. Eu tento rir da maior parte das coisas difíceis que acontecem da minha vida, e já rio das outras coisas também, hehe. A Desnuda é uma maneira de desbloquear a minha pessoa na hora de fazer um quadrinho sobre mim mesma. Sempre tentei falar abertamente sobre mim mesma, mas na real sou muito travada, sob um disfarce de pessoa mega sociável e tagarela. Então a brincadeira com a Desnuda é me deixar levar, destravar mesmo, e parar de achar que sou uma fraude e que por isso não faz diferença se revelo ou não, se interajo ou não. (Amanda Palmer chama de Patrulha da Fraude essa vozinha interna, e eu tenho uma Patrulha da Fraude muito feroz. rs)

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O Nostálgica conta experiências e histórias da sua infância, ou elas são só inspirações? Essa sensação de nostalgia é positiva?

São sim, super reais! Nostálgica é um quadrinho muito divertido de fazer porque me lembra um bocado de coisa boa. Tive uma infância muito legal num bairro distante do centro de Salvador, e acredito que a revista é uma maneira de deixar registrado, pra que eu também não esqueça das histórias legais que vivi. A sensação é bem positiva mesmo, como uma saudação ao meu antigo bairro, à minha infância e a todas as memórias do perí. Fiz até uma capa que brinca com isso, com o modo como Truman, do Show de Truman, saúda todo mundo na porta da saída daquele lugar que ele chamou de casa à vida toda. É um misto de saudar e dizer tchau.

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Ansiedade me parece ser o quadrinho mais íntimo. Acho que ansiedade e relacionamento abusivo são temas que, infelizmente, muitas mulheres conseguem se relacionar. Transformar essas experiências em quadrinhos te ajudou a lidar com elas? Foi um processo tranquilo ou conturbado?

Está sendo um processo complicado. hehe. Porque fazer esses quadrinhos também te coloca na posição de ser julgada por eles. Posto páginas e algumas vezes recebo a resposta de “onde está o abuso?”, mas também recebo o contrário, as pessoas que se identificam. Eu também estou exorcizando umas memórias bizarras, como uma resposta ao cara, a resposta que nunca dei, por falta de coragem. E isso me ajuda muito a superar, porque por incrível que pareça, já se passaram alguns anos, mas a revolta é atemporal. Então o único jeito de lidar com isso é desenhando mesmo. E o transtorno de ansiedade é algo que fico muito feliz de ter superado, mas não esqueço – porque doenças mentais são muito subestimadas na nossa sociedade. Tem muita gente sofrendo de depressão ou do próprio transtorno de ansiedade, com pessoas ao redor dizendo “levanta dessa cama” “deixa de frescura”. Não é uma coisa fácil e precisa de médico mesmo, mas como não é tão visível quanto uma doença de pele, por exemplo, essas doenças não são levadas a sério.

Você já tem próximos projetos? Qual o plano depois do Quadrada? Onde a gente pode acompanhar o teu trabalho?

A Quadrada vai virar uma editora de pequenas publicações e pequenas tiragens. Tô suando muito pra isso. E vai estar no FIQ também, se tudo der certo. Tenho a intenção de levar as publicações pra outras feiras durante todo o ano que vem. E esse ano criei a Banca Relâmpago, com publicações minhas e de outras pessoas, que vai rodar Salvador nos próximos meses. É um trabalho de formiguinha, que dá desespero às vezes, mas que eu não consigo largar. Ah! E ainda tenho o 38 dias (um livro sobre um mochilão pra Europa) e um livro infantil, baseado em uma exposição solo que fiz em Salvador. Dá pra acompanhar pela página do facebook e pelo site da Editora, que ainda tá começando, hehe. 

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O Quadrada ainda fica mais 16 dias no ar lá no Catarse, então corram para garantir a sua edição e ajudar mais essa quadrinista brasileira incrível a fazer o seu trabalhar alcançar mais gente! 😀

Tem quadrinista incrível no catarse! – Navio Dragão, da Rebeca Prado.

Quem aqui nunca quis uma coleção de escalpos? A verdade é que desde Bastardos Inglórios “You own me a Hundread Scalps. And I want my scalps”, virou uma daquelas frases que eu solto as vezes quando estou falando sozinha. Nah. Eu sei que todo mundo tem um momento de falar sozinho no dia…

Mas e se a coleção de escalpos for de uma menina viking com um cãozinho chamado Carne e uma paixão particular por armas afiadas? Aí, nesse caso, a coleção seria da incrível Lif, do Navio Dragão.

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Como você pode ver na tirinha aí em cima, a Lif não é dada a muitas delicadezas e formalidades. Honesta, direta e com uma franqueza aterrorizante, a personagem criada pela SUPER TALENTOSA Rebeca Prado parece ter saído do fundo mal-humorado porém sincero que todas nós carregamos em algum lugar dentro da gente.

Eu conheci a Rebeca pelo Facebook graças à mesa da Comic Con (que não para de me fazer conhecer mulheres quadrinistas incríveis, aliás!), e a cada tirinha que aparece na minha timeline eu fico mais encantada com o seu trabalho. Seja a Lif com o seu jeitão carrancudo porém sincero, seja com os quadrinhos que brincam com aquelas situações pelas quais a gente sempre passa. Além de ser super persipicaz nas tiradas e nos comentários sobre o dia-a-dia, a arte da Rebeca é encantadora. Acompanhando o Instagram da artista a gente vê o processo insano de pintura por aquarela que ela dedica a cada quadrinho da Lif.

A Rebeca foi super querida e respondeu umas perguntinhas pra gente!

digitalizar0258Como e quando começou o seu interesse por desenho? 

Acho que eu sempre tive interesse por desenho. Sempre me diverti desenhando quando criança, e sempre fui “a que desenhava” da turma. Depois entrei em um curso e fui me especializando até entrar na faculdade e decidir trabalhar com isso!

Você acha que o seu trabalho é definido pela sua identidade de gênero? Ser menina definia o tipo de projetos pelos quais você se interessava quando estava começando? E agora?  

Olha, sinceramente? Eu fui criada sem essas coisas. Meus pais nunca ligaram pra “coisa de menino” e “coisa de menina”, então eu nunca filtrei nada sob essa perspectiva. Então quando eu fui escolher meus projetos e minha profissão, isso não interferiu efetivamente. Na Casa dos Quadrinhos eu era a única mulher da minha turma, e isso nunca me intimidou. Nos eventos era sempre eu e mais um tanto de caras, e eu me divertia do mesmo jeito. Mas recebo comentários “classificando” meu trabalho como “coisa de menina”.

De onde veio a inspiração para a Lif e para esse jeito tão peculiar da personagem?

A Lif é, pasmem, baseada em mim! Peguei uns aspectos da minha personalidade que as vezes me atrapalham e coloquei nela. Exagerando, é claro!

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Alguns dos quadrinhos da viking são particularmente perturbados – e por isso absurdamente engraçados – você tira inspiração de situações e pessoas do dia-a-dia para as situações?

De certa forma sim! Claro que não dá pra dizer que tudo é, mas as vezes acontecem umas coisas que eu penso “A Lif aqui ia se esbaldar!”, aí eu vou e escrevo uma tirinha!

Você trabalha com crianças também, como é ensinar desenho para os pequeninos? Eles te servem de inspiração?

É sensacional. Eles são carinhosos, sem vergonha (literalmente), engraçados e sinceros. E sempre me cobram muito de ver o meu trabalho. Quando falei que ia lançar um projeto no Catarse, eles mal sabiam pronunciar “Catarse”, mas me perguntavam toda aula se “meus quadrinhos já podiam ser comprados”. É um tipo de retorno que não tem preço.

Você considera a Lif, e seus outros quadrinhos, diversão que se mistura com trabalho? São projetos bastante pessoais? 

Olha, apesar de eu me divertir fazendo, eu considero como um trabalho mesmo. Eu tenho uma rotina pra produzir, tenho um cronograma e me obrigo a segui-lo com afinco. Mas faço com tanto carinho que mal percebo que estou trabalhando!

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Você tira umas férias de uns deles de vez em quando e fica desenhando outras coisas?

Hahahahaha, dizem que quando um desenhista não tem nada pra fazer, ele desenha! E é assim mesmo. Eu sempre desenho no meu tempo livre, meu Instagram (@incbeka) tem muita coisa que eu produzo fora dos quadrinhos.

Quais são os próximos planos? Algum projeto novo depois do Catarse?

Olha, o Catarse tem m tomado bastante tempo. Se for financiado (estou torcendo!) eu vou passar muito tempo me dedicando a isso. Mas todo semestre tem um Baleia novo, e eu pretendo ir em eventos, agora como quadrinista, pra ver como é! Eu sempre fui, mas ou como professora ou como visitante mesmo. Então estou me preparando psicologicamente pra isso! E pro ano que vem, mais quadrinhos! Muuuitos quadrinhos!

Pra quem quiser conhecer e acompanhar o trabalho da Rebeca, você pode curtir a página dela no facebook, a Ink.! E as tirinhas da Lif também estão no blog Navio Dragão.

O Navio Dragão está no Catarse com uma campanha já bem sucedida – mas eu não podia perder a oportunidade de mostrar pra vocês esse trabalho incrível! Corre lá e garanta uma das recompensas lindas que a Rebeca está disponibilizando. “Ah! Mas o catarse do projeto já até superou o valor pedido, pra que ajudar?” Apoiar o quadrinho nacional (e as moças que fazem quadrinhos) é sempre uma razão para “catarzear” os projetos – e quando o trabalho é lindo, divertido, de qualidade e tem recompensas insanas como serigrafias em preto e branco e aquarelas originais não tem como resistir. <3

tirinhaaa 😉

Eu li (e acho que você deveria ler também): Mayara e Annabelle – HQ nacional com meninas incríveis!

meaDurante a Comic Con eu passei por um monte de quadrinhos e fiquei muito pobre. Era tanta coisa legal no Artists’ Alley que ficava muito difícil manter a carteira dentro da mochila – foram quatro dias intensos. Ainda tem muita coisa para se falar e se fazer review – e já fazem dois meses. XD.

De lá eu trouxe Mayara e Annabelle, HQ Nacional escrita por Pablo Casado com desenhos de Talles Rodrigues.

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Tem muita discussão sobre como adaptar o conteúdo sci-fi e fantasia para o Brasil, como fazer ele funcionar dentro de uma realidade nacional. Tem muito autor que, ao tentar adaptar super-heróis, bruxas e o sobrenatural, de maneira geral, falha porque ao invés de de fato tentar fazer a histórias e seus elementos fantásticos no nosso universo, parece apenas traduzir os nomes e as cidades, ignorando alguns contextos específicos da nossa cultura.

Mayara e Anabelle tira isso de letra.

tumblr_inline_nemrn6LXa71ssw44tNa história, as duas protagonistas são agentes da SECAF (Secretaria de Atividades Fora do Comum), um departamento para controlar, combater e previnir toda ameaça considerada, bom, fora do comum.

Mayara é a melhor funcionário da SECAF de São Paulo, mas depois de acusar o secretário local de ser um demônio, acaba transferida para a pacata (e termos de atividade demoníaca) Fortaleza. Lá ela conhece Anabelle, agente da SECAF local, bruxa, e que esta satisfatoriamente acostumada com a tranquilidade paranormal da cidade. Mas tudo está prestes a mudar.

Uma das coisas mais legais no relacionamento entre Mayara e Anabelle é que elas têm o mesmo clima de dupla de filmes de herói dos anos 80/90, e isso não muda só por elas serem mulheres. As piadinhas estão alí, com Anabelle tendo a língua solta e Mayara sendo a mulher de ação, e a dinâmica entre as duas é muito legal. Elas são alvo como Dennis Glover e Outro Cara em Máquina Mortífera, mas com demônios e em fortaleza.

Os desenhos são lindos, e as cores escolhidas criam um clima muito legal para a história. O roteiro é annabelledivertido, faz  o e se interessar pela história e pelo destino das personagens logo de cara. Em alguns momentos eu senti que a transição de tempo e espaço se perdeu um pouco, confundindo a leitura. Mas foram dois momentos, no máximo, e que não atrapalham a fluidez da história sendo contada.

Tanto a arte quanto o clima da história me lembra bastante a minha muita amada Lumberjanesrevista americana que eu já falei sobre um tempo atrás. Talvez seja o girl power que escoa das páginas, as personagens femininas que além de chutarem bundas são divertidas, a ação que funciona bem nos quadrinhos.  Na verdade, foi a semelhança estética com Lumberjanes que me chamou a atenção na CCXP.

A revista saiu pela Fictícia e pode ser comprada pela internet no site da própria editora, e eu achei na Livraria Cultura também!. E a compra mais que vale a pena!

Na minha revistinha diz que esse é o volume um, ente fico na espera pela continuação, acho que o quadrinhos tem muito potencial para uma longa série de histórias!

Quanto mais Mayara e Annabelle, melhor!

🙂

Eu li (e acho que você deveria ler também): Bear, de Bianca Pinheiro.

Hoje é dia de pausar a obsessão Marvel/DC da semana e focar em um quadrinho nacional fofura absoluta: Bear.

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Bear começou como uma webcomic com atualizações semanais e este ano ganhou uma edição “na vida real” pela Editora Nemo. Nas tirinhas nós acompanhamos as aventuras de Raven, uma garotinha muito espertalhona e seu amigo urso enquanto eles tentam levar Raven até sua casa – que ela não sabe onde fica.

A arte de Bear é linda e muito engraçada, há uma fluidez muito divertida que funciona frenéticmente bem com o humor muito bem pontuado dos diálogos. Além de divertida, a história consegue englobar o mundo infantil ao mesmo tempo que dialogo com os adultos (o/), ou seja, com filho ou sem filho, é leitura deliciosa.

A amizade entre Raven e Dimas (o nome do urso é Dimas. Dimas.) é mostrada de maneira muito legal, e os dois são dois opostos bem estabelecidos: Dimas é mal-humorado e sem paciência, enquanto Raven vê arco-íris em todo tipo de coisa. Pode parecer que a história vai bater nas mesmas teclas desse tipo de dinâmica, mas há tanto humor bem construído, diálogos inteligentes e a história é tão envolvente que a autora consegue escapar com elegância dos clichês. Tem espaço até para uma dose medicinal de cinismo e metalinguagem!

Bear é filhote de Bianca Pinheiro, quadrinista brasileira que só tem trabalho incrível – mesmo. É uma coisa mais bonita, divertida, delicada, perturbada que a outra. Tô super fangirling pra cima da moça, mas é só dar uma passada lá no tumblr dela pra ver que além de contar histórias curtas com muita destreza, ela também é fera em diversificar o trabalho.

Recentemente Bianca lançou Dora, um quadrinho no mínimo muito diferente da fofurice extrema de Bear, já que a história gira ao redor de Dora, uma menininha acusada de matar quinze pessoas. oO Dora está a venda através do site de Bianca – e parece incrível. Dá pra ler o prólogo de Dora online!

doraSemana passada aconteceu o Lady’s Comics, um evento muito legal lá em BH organizado pelas moças do, bom, Lady’s Comics! A Bianca deu uma entrevista falando sobre o trabalho dela

Então, fica a dica, com filhos ou não, Bear está a venda nas livrarias online e físicas.