Sombras Urbanas – Novo RPG da Aester Editora entra na reta final de financiamento coletivo!

Um mundo sobrenatural repleto de conspirações, horror, prédios e arranha-céus povoado por vampiros, lobisomens, magos e seres feéricos. É dentro desse universo, que procura mostrar como o seu personagem vai se corrompendo cada vez mais, que acontecem as aventuras de Sombras Urbanas.

Nas palavras do release:

Sombras Urbanas é um RPG de fantasia urbana desenvolvido para lançar as personagens em um mundo mais sombrio que o nosso. Um mundo onde vampiros, lobisomens, magos, seres
feéricos e outras criaturas não só existem, mas andam por aí, tramando nas sombras. O jogo traz histórias em que as personagens encaram escolhas difíceis e, a cada caminho que se escolha trilhar, existem perigos, riscos, manipulações. A cada noite, as sombras que cobrem este mundo arrastam a todos com mais força para a escuridão. E como tudo nesse mundo, todas as personagens têm a sua própria sombra – magos e sua sede de poder, vampiros e sua sede de sangue, faes divididos entre este mundo e aquele a que verdadeiramente pertencem. O caminho fácil leva ao poder, mas o preço vale a pena?

Deixa eu ser bem direta aqui: eu não jogo RPG, então eu pouco posso dar uma opinião informada sobre o assunto. Mas eu queria falar sobre alguns pontos de construção de universo e narrativa que me chamaram atenção pelo que eu pude sentir da história do jogo.

Primeiro, eu adoro quando fantasia se mistura com a vida comum, por isso vampiros, lobisomens e principalmente os seres feéricos caminhando por um mundo como o nosso me chama atenção logo de cara. Esse, inclusive, é um tema que deve estar vindo a tona nos próximos meses com o lançamento de Bright, filme da Netflix estrelado por Will Smith e dirigido por David Ayer (Esquadrão Suicida, Dia de Treinamento).

Outro ponto que eu achei interessante é o fato do jogo ser focado em mostrar o quão corruptível o seu personagem é – quanto mais corrupto, maior é o seu poder. Olhando por cima pode parecer algo direto e até negativo, mas personagens e histórias bem construídas nem sempre são focadas apenas em características positivas. Fiquei curiosa para saber como as minhas escolhas vão avançar a história, e os tipos de discussões que uma narrativa assim pode abrir sobre poder e moral.

A Aster é uma editora independente capitaneada por duas mulheres, o que por si só já é muito legal. Mas não para por aí, elas fazem questão de trabalhar com ilustradores brasileiros e que tenham um trabalho bem diverso – fugindo do padrão branco bombadinho que a gente normalmente vê em universos de fantasia mais tradicionais. Isso já fica bem evidente nos cards dos personagens.

O jogo, que usa o sistema Apocalypse World Engine, fica em financiamento coletivo até o dia 08 de Dezembro, então você ainda pode garantir a sua edição completa (de 150 à 170 reais), edições menores (a partir de 65 reais) ou as edições digitais (a partir de 20 reais). Há também recompensas pra quem quiser apoiar com 10 ou 15 reais. Corre lá, garanta o seu ou compartilhe na sua rede – bora incentivar o trampo de mulheres! 😉

Toda Frida – Representatividade e Girl Power em Linha de Roupas!

Quando você é nerd, ou só gosta de um filme/quadrinho/série, e quer comprar uma camiseta com a sua personagem feminina favorita, essa missão pode acabar se tornando um grande fracasso. Por isso, aqui no Collant, a gente adora a Toda Frida.

Pra quem não está ligando “o nome à pessoa”, a Toda Frida é a loja que transforma as ilustrações maravilhosas do Fight Like a Girl, da Kaol Porfírio, em camisetas e moletons. A coleção traz uma variedade imensa de personagens, cobrindo tanto o mundo dos filmes, como séries de televisão, animes, animações, quadrinhos, videogames e mulheres reais também!

Uma das coisas mais legais da marca é que ela se preocupa de verdade com representatividade. Além de usar modelos “reais”, mulheres que caminham entre nós mortais, que não nos encaixamos no padrão passarela de corpo, ela também tem do tamanho PP até o 3G!

A gente fez uma seleção das nossas estampas favoritas, todas transbordando GRL PWR!

Crystal Gems

Para o dia em que você precisa dazamigas para vencer o mal.

Nina Simone

Para o dia em que você acorda no clima de música e inspiração.

Max e Chloe

Para quando você lembra que apesar de tudo… Amor. <3 

Kamala Khan

Para o dia em que você acorda super-heroína, mas com os problemas de uma adolescente normal.

Hermione

Para o dia em que você acorda mágica, mas sabe que vai precisar de mais do que isso na prova da faculdade.

Mulher Maravilha

Quando você sabe que é poderosa, maravilhosa e chuta bundas como ninguém.

Arya Stark

Para os dias em que você vai precisar de muito mais do que a sua carinha bonita pra vencer a lista de to-dos.

Rey

Para os dias em que vão parecer jornadas inteiras em galáxias distantes. 

Tempestade

Porque você é a rainha da p***a toda e todo mundo sabe disso.

Marie Curie

Para os dias em que você sente que vai deixar um rastro de descobertas fabulosas.

011

Para o dia em que sair da cama precisa da força de atravessar para um outro universo.

Commander Shepard

Para os dias em que você está no clima de salvar a galáxia – e fazer isso com estilo.

Malala

Para o dia em que tudo parece ruim e você precisa de um pouco mais de esperança.

Lá no site da Toda Frida tem mais um monte de opções de heroínas – reais ou não! Então corre lá e já garante a sua!

Black Silence, de Mary Cagnin.

Ficção Científica ainda não é o gênero de escolha de muitos brasileiros, sejam leitores, escritores ou quadrinistas, mas é exatamente nesse último, nos quadrinhos, que venho observando uma insurgência de trabalhos interessantes no gênero. Um desses trabalhos é Black Silence, da quadrinista Mary Cagnin.

A história segue a tripulação de uma missão organizada pela FAE (Forças Armadas Espaciais) para procurar um planeta que possa funcionar como colônia, uma última tentativa desesperada de salvar a humanidade. Na liderança da missão está a Comandante Neesrin Ubuntu, uma oficial fria e determinada, com uma reputação que a precede e mistura admiração e medo em sua tripulação. Além dela e de sua equipe da FAE está Lucas Ferraro, Exobiólogo que recebe a missão sem opção de negá-la, ele está preso pela FAE aparentemente de maneira irregular. A viagem é altamente arriscada, e pode resultar na morte de todos os seus integrantes, e o que os espera no outro planeta além de desconhecido pode ser perigoso.

Black Silence sofre de um mal que é muito comum nos quadrinhos brasileiros, a narrativa expressa. O universo criado para a narrativa central é grande e interessante, mas a história parece presa nas 87 páginas que tem para se desenvolver. Você sabe quem são os personagens porque se fala muito sobre eles, mas sem páginas o suficiente para desenvolvê–los as informações parecem cair no nosso colo ao invés de ser um processo mais orgânico. Informações interessantes que revelariam detalhes relevantes sobre como é e como funciona a sociedade da qual essa missão faz parte são apresentadas rapidamente mas nunca desenvolvidas. Fica a sensação de que havia muito mais história para contar, mas faltaram páginas.

Apesar desse problema de narrativa, Black Silence consegue contar uma história que conversa diretamente com os nosso medos, aqueles que são quase primitivos. O que vai acontecer com a humanidade quando chegarmos no nosso limite? Ao invés de escolher um cenário pós-apocalíptico onde veríamos a destruição humana, Mary Cagnin opta por nos mostrar um cenário contido nessa última missão. O modo como essas questões afetam ou não cada um dos membros da comitiva, os sacrifícios que todos eles tiveram que fazer para chegar no ponto em que estão – mesmo aqueles que nunca optaram por esses sacrifícios.

O quadrinho flerta com Hard Sci-Fi, mas é exatamente por não se fixar em detalhes muito específicos que ele ganha narrativamente. É possível ver influências tanto do clássico Vampiros de Alma (e talvez só essa menção já seja um pequeno spoiler), quanto de Alien: O Oitavo Passageiro. Pode-se dizer inclusive que há também um aceno para o tradicional anime de sci-fi Evangelium. isso tudo com uma roupagem mais atual e bem mais diversa etnicamente.

Um dos pontos altos de Black Silence é que dos seus cinco personagens, apenas dois são brancos. É difícil ver uma protagonista de sci-fi negra e é interessante ver como a protagonista se desenvolve. Se primeiramente Neesrin periga cair no estereótipo da mulher negra como uma fortaleza, algo que inclusive está dito na Ficha de personagens, mais para o final da história a Comandante da FAE ganha espaço para se desenvolver e mostrar um faceta diferente.

É muito legal ver o quadrinho nacional aprendendo a contar histórias de sci-fi sem cair na mesmice da narrativa tradicional americana. Black Silence é um produto criado por uma autora Brasileira que, assim como Mayara & Annabele, consegue caminhar por um gênero relativamente novo para a narrativa nacional, com elementos tradicionais de sci-fi, mas que se permite ir além sem parecer uma cópia esquisita do que já foi feito antes. Definitivamente vale a leitura.

Black Silence foi financiado no Catarse, mas você consegue adquirir uma cópia AQUI.

O elefante na sala: assédio no meio do quadrinho nacional.

No começo do ano os casos de assédio sexual dentro da DC vieram novamente à tona quando a editora passou por uma reestruturação. Na ocasião, Shelly Bond foi demitida da Vertigo, mas Eddie Bernganza foi mantido dentro da DC. A sensação de indignação vinha do fato de Eddie ser um conhecido assediador de mulheres, com histórico de assédio sexual verbal e de contato físico. Ao invés de demitir o assediador, a DC o blindou em um escritório formado apenas por homens.

No Brasil, não temos um mercado de quadrinhos organizado industrialmente nem grandes selos editoriais como nos EUA, mas isso não quer dizer que nós não tenhamos os nossos assediadores.

Homens quadrinistas e ilustradores usam de sua posição de privilégio dentro do mercado para assediar mulheres quadrinistas, fãs e alunas. Estes caras estão por ai. Tem mesas e banquinhas em eventos;  tem livros lançados por editoras; eles até trabalham nessas editoras. Eles são pesquisadores e estão dentro do meio acadêmico. Eles são convidados para palestrar em eventos, compartilham conteúdo do Collant, pagam de desconstruídos e de caras legais.

Com mais mulheres inseridas no mercado artístico, que assim como qualquer outro é majoritariamente composto por homens (em especial o homem branco, hetero e cis), os casos de assédio parecem se multiplicar, e as razões pelas quais não se fala sobre eles, também. Enquanto isso as notícias correm por trás dos Becos dos Artistas. Toda quadrinista, ilustradora ou mulher envolvida com o mercado sabe de uma história. Aconteceu com uma amiga, com a conhecida de uma amiga, com ela mesma. A gente até sabe de alguns nomes, conhecidos e desconhecidos. A gente identifica eles quando caminhamos pelos corredores de eventos de cultura pop.  

Histórias de assédio não faltam, variam apenas na abordagem. Tem cara que se aproxima de outras quadrinistas com “oi linda/fofa/gata”, que abraça, dá beijo e força o contato físico sem consentimento, que pede nude sem qualquer envolvimento prévio e que pede nude em troca de desconto em aula. Também tem cara que usa a posição de “famoso” para dar em cima e ter mais liberdade do que deveria com outras profissionais e com fãs. Tem cara que passa a mão em colegas e que fica com colegas de profissão ou fãs pra depois sair cantando de galo para outros caras.

Infelizmente, situações como essas são relativizadas na nossa sociedade. Quantas vezes comentários como “ela está exagerando” não foram ditos após uma mulher se sentir desconfortável com o modo como aquele cara famosinho encostou nela?

E assim, o assédio, se apresenta no meio dos quadrinhos (e na nossa sociedade) como uma forma de demonstrar poder sobre a mulher, demarcar espaço, pressionar a mina a produzir de um jeito em detrimento de outro, ou desestimular essa mina a produzir.

O impacto de um assédio, seja físico ou verbal, seja qual for o grau ou o tipo de violência utilizada, é tão grande que causa reações que vão do medo a impotência. Quando esse assédio acontece dentro do seu ambiente de trabalho tudo fica ainda pior. Além do trauma, tem a insegurança e o medo de passar por aquilo de novo. De ter a sua carreira atrapalhada por causa do assediador. Aí o silêncio prevalece porque as mulheres sabem que se falarem sobre o acontecido, se revelarem o nome do assediador, o mercado pode se virar contra ela e quem vai pagar pelo assédio não vai ser o cara, mas ela.

Nestas horas, o mais comum é ver homens apoiando outros homens. Questionando os fatos, culpabilizando as minas, exigindo videos e prints pra provar. Afinal, mulheres, são fáceis, não é mesmo? São loucas e mal educadas quando reagem a uma investida. Querem atenção o tempo todo, para serem reconhecidas pela beleza, não pelo que sabem fazer.

Aqui no Collant já cansamos de falar como ambiente da cultura pop é hostil para as mulheres. Criticamos o espírito da broderagem que sempre fala mais alto no meio dos quadrinhos, repudiamos todas as ações que colaboram para o afastamento e invisibilização da produção de quadrinhos e ilustrações feitos por mulheres e já criamos até um guia de como ajudar a acabar com o assédio e machismo no meio. É por isso que não ficamos apáticas quando vemos a lista de quadrinistas e ilustradores que já assediaram mulheres aumentar.

Assim como o MDM, que soltou um texto discutindo o assédio no cenário nacional de quadrinhos, nós precisamos que mais pessoas se posicionem contra qualquer forma de inferiorização das mulheres. Se você mulher quadrinista, ilustradora, integrante do meio artístico, leitora sofreu algum tipo de assédio, mas não tem coragem de prestar queixa junto a delegacia da mulher, nós estamos abertas para conversar com você e dar todo o suporte que você precisar.

Nós não vamos fechar os olhos, não vamos olhar para o lado. Vamos exigir que escolas, eventos, editoras e a comunidade como um todo se posicione. Não dá mais para ignorar o que acontece por trás do artist’s alley. Não dá mais para passar a mão na cabeça de ilustrador/quadrinista assediador. Se o mercado de quadrinhos quer continuar crescendo, então ele precisa lidar com todos os seus problemas, e o assédio é um deles.

Outros textos sobre o assunto:

Broderagem, Mercado e Exclusão.

Como você, homem, pode ajudar a acabar com o assédio e o machismo no meio dos quadrinhos.

 

3% – Igualdade de gêneros no elenco principal da série Original Netflix!

Começaram as filmagens de 3%, primeira produção original brasileira do Netflix.

A sinopse oficial da série diz que 3% é um thriller pós-apocalíptico que se passa no Brasil em um futuro não distante, onde alguns poucos são aceitos a integrar uma sociedade privilegiada após passarem por um processo intenso e competitivo.

Produções audiovisuais de ficção científica são pouco comuns no Brasil já que os canais tendem a ir mais na direção da fantasia e da realidade fantástica quando querem sair da narrativa cotidiana. Estou bem intrigada pela produção já que o último sci-fi de grande alcance no Brasil, se não me engano, foi o longa O Homem do Futuro, de 2010.

O que mais me deixou animada, no entanto, é ver que nesse grupo de protagonistas apresentados na foto nós temos maioria feminina e dois atores negros. É muito bom ver uma empresa que a gente gosta tanto disposta a ir um passo além na representação tradicionalmente branca da televisão brasileira. Fica a torcida para que também nos personagens secundários essa representatividade se expanda e, quem sabe, seja ainda maior. No elenco total, são cinco mulheres e cinco homens. <3

O elenco é composto por Bianca Comparato (Avenida Brasil, Sete Vidas, Irmã Dulce), João Miguel (Estômago, Xingu, Felizes Para Sempre?), Zezé Motta (Xica da Silva, Chiquinha Gonzaga), Nicolau Breyner, além de Mel Fronckowiak, Rodolfo Valente (Chapô, Sítio do Picapau Amarelo, Malhação), Vaneza Oliveira, Michel Gomes (Cidade de Deus, Última Parada 174, Salve Geral), Rafael Lozano (Sessão de Terapia) e Viviane Porto (Babilônia, Garotas do ABC).

Agora é esperar e acompanhar as novidades sobre a produção!

Eu li: Anderson Lauro – Meninos não choram, mas… Ficam passados!

Algumas semanas atrás eu recebi a coletânea das tirinhas Anderson Lauro: Meninos nåo choram, mas… Ficam passados! Criado pelo cartunista Denilson Albano, as tirinhas do garotinho de sete anos que tenta transitar sua infância numa sociedade dividida entre certo e errado, de menino e de menina tem uma abordagem de humor aos momentos de incertezas e rebeldia do garoto.

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Anderson não entende porque não pode dizer que ama o coleguinha Felipe, com quem chega a planejar uma fuga. Ele também não entende porque não pode usar roupas que são consideradas “de menina”, e nem porque o pai dele fica irritado com seu desejo de aprender a cozinhar.

O mais legal da antologia é exatamente essa dúvida do garoto, o modo como os adultos impõe comportamentos padronizados na criança que tenta crescer e ser ela mesma – seja lá quem ela for. É interessante que, apesar de toda a violência que ele enfrenta Anderson continua tentando ser quem ele quiser. A violência que eu digo aqui não é a física, mas a psicológica mesmo, já que os adultos a sua volta insistem em “coloca-lo no seu lugar de homem”, Anderson não desiste e tirinha após tirinha volta a questionar esse padrão de masculino que a gente enfia na cabeças das crianças desde muito novo.

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Em temos de #MasculinitySoFragil, a masculinidade é vista como algo tão ~frágil~ na nossa sociedade que a gente ainda reprime meninos que querem aprender a fazer bolo. =\

A coletânea, no entanto, é também um pouco confusa. Fiquei por horas me perguntando se esse é um menino gay, trans, crossdresser ou se ele realmente é só um garoto que se recusa a se enquadrar dentro dos estereótipos de gênero. Esse questionamento veio, talvez, porque os quadrinhos abordam muitos estereótipos sobre sexualidade e gênero que são considerados clichês. Pode ser uma opção do criador não rotular uma criança tão nova, e é uma preocupação muito válida, mas parte de mim gostaria que isso tivesse ficado mais evidente no quadrinho

De maneira geral o quadrinho é divertido e levanta questionamentos interessantes sempre de maneira bem humorada sobre o modo como a sociedade nos educa para vivermos dentro desse espectro bizarro do que é “de menina” e o que é “de menino”.

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Que horas ela volta? – A vilania passiva de Carlos

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ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS, PELOAMORDEDEUS SE VOCÊ NÃO VIU O FILME CORRA AGORA PROS CINEMAS.

 

TEJEM AVISADOS.

 

No novo e incrível filme de Anna Muylaert, parece que foi consenso nacional detestar a personagem Bárbara, a patroa de Val. Não é pra menos, afinal, mandar limpar a piscina, pra mim, é coisa de gente psicologicamente descompensada.

Mas enquanto Bárbara era por assim dizer, mais proativa em suas ações de desprezo a Val e Jéssica, quem mais me causou nojo foi Carlos, o marido inerte.

Artista (?aposentado?) vivendo de herança, se movendo pelas sombras da casa, Carlos se comporta pior que qualquer adolescente babão, ao fetichizar Jéssica no momento em que coloca os olhos na jovem mulher.

Incapacitado de analisar o próprio comportamento – justamente por ter sido incentivado a vida inteira a não se avaliar, mais um privilégio de ser homem – Carlos se esgueira entre os interesses de Jéssica para se aproximar dela, alimentando sua fantasia doente de tocá-la, “seduzi-la”. Um opressor cego, parecendo não perceber a própria fraqueza e justificando-se por trás de um “estou apaixonado”.

Tenho uma perguntinha muito simples em relação a esse ser desprezível. Teria ele se ajoelhado na cozinha em um “pedido de casamento”, beijado o pescoço de Jéssica no Copan, se Jéssica fosse a filha da vizinha da mansão ao lado no Morumbi? Se fosse a coleguinha da escola do filho?

Pois é, claro que não. Carlos se aproveitou, e muito, de sua posição de classe para assediar Jéssica, contando inclusive com o fato de que Jéssica não contaria nada para Val. Mas se contasse também? Que diferença faria? Ele ainda seria o patrão, intocável no alto de seu berço de ouro.

Ainda não aconteceu, mas é bem possível que eu ouça no futuro um “mas ele se apaixonou por ela” assim como já escutei de gente que não entendeu o filme, dizendo que Jéssica foi “folgada”.

Apaixonou coisa nenhuma gente, ele só se aproveitou de uma diferença enorme de posições de poder para alimentar fantasia e fetiche. E mesmo que tivesse se ~apaixonado~, ainda assim, era obrigação dele ficar pianinho, deixando a menina viver a vida dela.

Se existisse o prêmio de pior vilão, pelo menos esse Oscar já tava garantido.

A merda que o homem faz nunca respinga nele mesmo. OU Cláudio Assis não se arrepende e ninguém se surpreende.

Essa semana foi louca, gente. Teve um monte de ~influenciadores de opinião~ levando bronco e dando o braço a torcer. Nem todas os pedidos de desculpas foram de fato pedidos de desculpas, mas ok. Aí veio Cláudio Assis.

O diretor de Amarelo Manga, junto com Lírio Ferreira, diretor de Baile Perfumado, deram um show de machismo durante um evento em que a diretora Anna Muylaerte, uma das poucas diretoras brasileiras a ter algum espaço na mídia, discutia seu mais recente filme Que horas ela volta?. Nenhum dos dois acha que foi machista, óbvio. Machistas raramente acham que são machistas. Lírio pediu desculpas, aquele tipo de desculpas meia boca, mas pediu. Cláudio Assis não se arrepende de nada.

Em resposta à Folha ele disse que “Faria a mesma coisa com Beto Brant. Não me arrependo.” Além disso comparou ser chamado de magrão com chamar Regina Casé, atriz do filme, de gorda, e disse que chamou o maquiador de bicha em tom de brincadeira. Também contestou a penalidade que a Fundação Joaquim Nabuco deu a ele e ao Lírio, acha que o público em potencial e a equipe de seu próximo filme vão sair perdendo, e considera punir o filme uma censura. O problema é com ele, e não com o filme.

Cláudio poderia até fazer a mesma coisa com Beto Brant, mas ainda sim o que ele fez com Anna Muylaerte seria machismo. Porque Brant é homem como ele, tem tanto (ou mais) espaço de mídia do que ele. Assim como Cláudio ele não precisa se esforçar em dobro para provar que é boa roteirista e diretora, o que o diretor brasileiro homem faz é quase que automaticamente considerado “obra de autor”. Cláudio não entende que há um desequilíbrio de poder entre ele e Anna, não porque um é melhor diretor do que o outro, mas porque a ele sempre vão ser dadas melhores oportunidades do que à uma mulher. Porque ele é homem e isso faz dele, aos olhos da nossa sociedade patriarcalista, melhor do que qualquer mulher. Fora o fato de que ele resolveu causar não só num evento com uma diretora mulher, mas num filme com protagonista feminina.

Ser apelidado de Magrão não tem o mesmo peso de chamar uma atriz de gorda porque à Cláudio não é imposta a ditadura da beleza, um padrão praticamente inalcançável a que todas nós mulheres somos submetidas. Cláudio nunca foi considerado uma pessoa menor ou pior por ser magro, enquanto Casé com certeza já escutou todo tipo de desaforo por não estar dentro desse padrão mágico de atrizes magras e gostosas. Principalmente dentro do contexto em que a fala dele está, chamar Casé de gorda não é apenas uma constatação do fato dela estar acima de um suposto peso ideal, é mostra de gordofobia e machismo.

“É só uma brincadeira” é o tipo de coisa que ajuda a alimentar a homofobia que faz criar grupos de extermínio de gays no nosso país. Enquanto “gay”, “viado” e outras palavras forem usadas com uma conotação negativa a homofobia vai sempre estar presente, e se ela nunca vai embora a violência física sempre a acompanhará. Justificar o seu ato homofóbico dizendo que é uma brincadeira é ignorar toda a merda que a comunidade LGBT passa todos os dias no nosso país.

E, finalmente, a minha parte preferida da fala de Assis, quando ele fala que a penalidade que ele vai sofrer vai afetar outras pessoas além dele. É incrível como Assis parece saber que a merda que ele fez vai afetar a todo mundo, menos à ele. Porque é assim que acontece quando uma pessoa privilegiada faz merda – a bosta respinga em quem está em volta, mas não nela mesma. Sim, a equipe vai ter que achar outro cinema pra assistir ao filme, o público que quiser ver o filme depois dessa demonstração de misoginia também. Anna Muylaerte viu a discussão sobre o seu filme, que vem sendo considerado talvez o melhor filme nacional do ano, se transformar em uma discussão sobre dois diretores homens egocêntricos.

Cláudio, se o mundo continuar funcionando da mesma maneira que sempre funcionou, vai receber um puxão de orelha, vei ter esse banimento da Fundação. Vão taxar (como já estão fazendo) sua atitude de molecagem, coisa de homem bêbado. Vão defende-lo dizendo que seus filmes não são machistas, que não se pode culpar a obra pelo autor, vão se escrever textos que nunca vão de fato alcança-lo (como este) e aos poucos vai-se esquecendo de tudo isso. Talvez no lançamento de seu próximo filme alguém comente sobre o que ocorreu nesse fim de semana. Mas, no final, vão todos aplaudir mais essa obra prima do diretor, um filme que faz com que o seu ato de criancice fique para trás. E nós vamos continuar nessa roda pequena e irritante que é o machismo no cinema nacional.

Para um texto incrível falando sobre os tipos de machismos da última semana, sugiro este, da Renata Correa.

Guida – O curta brasileiro mais lindo. <3

Sabe aquele filme que te faz ficar de bem com o resto do mundo mesmo num dia em que as coisas deram muito errado? Guida, da diretora Rosana Urbes, é bem esse tipo de filme.

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Guida, é uma senhora que dedicou trinta anos de sua vida para o trabalho no Fórum. E é bem no dia da festa de comemoração desse tempo que ela descobre um anúncio convidando pessoas para serem modelo vivo. A partir daí a personagem passa por um processo de redescoberta do seu corpo e o desenho delicado de Urbes ajuda o espectador a entrar nesse caminho junto com a personagem.

É muito bonito ver uma história sobre uma mulher redescobrindo a beleza que o seu corpo possui é inclusive emocionante ver Guida se redescobrir através da arte. Não é como se ela precisasse do olhar dos outros para se auto-afirmar, mas é exatamente estar nua em frente aos artistas, e depois ver os diferentes modos como esses artistas a retrataram que ajuda a cimentar um processo de reconhecimento que vem acontecendo desde o começo do filme.

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A produtora do filme, Belisa Proença, é uma amiga querida e por isso eu acompanhei de longe todo o trabalhão que deu para produzir, editar e lançar a Guida. Foram anos de dedição que alcançaram merecidamente o reconhecimento internacional – Guida foi a grande ganhadora do Anima Mundi no ano passado e ganhou melhor curta de estréia no festival de Annency (além de vários outros prêmios).

O prêmio que mais chama atenção, na minha opinião, veio na semana passada. Guida foi selecionado para ser exibido no The Harbour’s 2015 Global Girls Festival, em Chicago. A seleção teve curadoria de jovens mulheres sem teto e que passaram por violência, mas que agora se encontram em abrigos. Essas mulheres acharam Guida emocionante.

Até o dia 8 de setembro você pode assistir e voltar em Guida na competição do Canal Brasil. Então corre lá e assiste essa delicia de curta. <3

 

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Porque Cinema barato é uma coisa boa.

Teve uma época que cinema e pipoca custavam centavos. Meus pais sempre comentam como juntavam dinheiro para ir ao cinema no fim de semana – eles não nasceram classe media, como eu nasci. Meus avós foram professores, por parte de pai imigraram da espanha, por parte de mãe, meu avô foi o primeiro da família a ir para a universidade. Se o cinema custasse na época os 25 reais que uma inteira custa hoje, talvez meu pai nunca tivesse assistido Daniel Boone, talvez eu não me chamasse Rebeca e talvez ele não tivesse desenvolvido o gosto por história que desenvolveu.

Essa semana o Haddad, prefeito de São Paulo, lançou um programa que vai levar salas de cinema a periferia. Eu lembro na época da mobilização para não desativarem o Belas Artes, e posteriormente quando ele foi reativado, que rolou uma discussão entre meus amigos se era necessário mesmo ou não. Um dos argumentos mais forte foi que toda a renda que foi usada para reestabelecer um cinema de arte na região da paulista (que já conta com três), podia ter sido usada para abrir sala(s) de cinema na periferia.

Eu sei que a imagem é clichê. Mas né.
Eu sei que a imagem é clichê. Mas né.

Cinema é arte, e arte educa.

Mas a gente sabe que o cinema de arte, por mais legal que possa ser, não é o tipo de cinema que atrai a maioria das pessoas – incluindo essa que escreve. A intenção com esse projeto da prefeitura de São Paulo não é criar redutos ou guetos, é colocar cinema ao alcance financeiro de todos. Cinema é caro, o ingresso é caro. Tudo que envolve cinema é caro.

O cinema não é só pra você.
O cinema não é só pra você.

Redes como o Cinemark fazem promoções em que colocam o ingresso à 1 ou 2 reais, chamando um público que normalmente não teria condições de frequentar seus cinemas, já que assistir ao filme não é só entrar na sala, envolve transporte e muitas vezes alimentação. Esse tipo de iniciativa tem que ser celebrada porque mesmo que o filme seja Zarabelle XXII, entrar em contato com cinema é uma coisa positiva, é uma experiência que pode ajudar a mudar perspectivas. Quando é um festival de cinema nacional, latino americano ou infantil então, não tem melhor jeito de fomentar o consumo interno de cinema e cultivar uma geração interessada pela arte cinematográfica.

O que falta ao cinema agora é criar mais personagens que refletem a periferia e a pobreza sem se basear nos estereótipos negativos que se repetem ad infinitum tanto no cinema de arte, quanto no cinema mainstream.

Cinema não deve ser uma coisa relegada à classe A e B, cinema tem que ter alcance em todas as classes sociais. E quando ele alcança a gente devia estar comemorando, não ficando com medo.