Edgar Wright, Twin Peaks e Mulher-Maravilha: A Frustração Que Vem de Esperar Mais.

Com o lançamento de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright, se aproximando eu tenho cada vez mais pensado sobre o sentimento de frustração que cresce toda vez que um diretor que eu gosto lança algo novo. É muito difícil que o anúncio de algo novo não venha carregado com um mix de felicidade, esperança e a certeza de que minhas expectativas não serão alcançadas. 

Edgar Wright é um dos poucos diretores dos quais eu realmente acompanho a carreira. Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim Contra o Mundo são alguns dos meus filmes favoritos – Hot Fuzz, o segundo na trilogia, figurando facilmente dentro de um TOP 10. Eu adoro o ritmo da narrativa, os roteiros, a direção e os personagens… O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analizar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de “musa-com-algo-a-mais”. 

Baby Driver parece tudo aquilo que eu amo no cinema: um filme de ação, com personalidade, cenas de perseguição, humor, a edição divertida e inteligente dos filmes de Wight mas, infelizmente, também vem novamente com o protagonista masculino e branco. E a sensação de frustração vem exatamente disso, porque por mais que eu ame o trabalho dele como diretor, por mais que eu vá assistir ao filme provavelmente na primeira semana de lançamento, eu vou sair do cinema invariavelmente frustrada.

Frustrada porque é exatamente por saber o quão incrível Edgar Wright é como diretor que me dói vê-lo contar sempre a mesma história, sempre com o mesmo protagonista. 

Há argumentos para dizer que Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim tem protagonistas com personalidades diferentes, mas no fundo ele conta apenas a narrativa predominante porque seja o protagonista um nerd, um policial ou um desempregado, no fim a narrativa é aquela que a gente vê se repetir ad infinitum na mídia. E eu quero mais, quero vê-lo contar histórias que saiam do seu lugar de conforto, histórias de personagens que não sejam de certa maneira um espelho dele e de suas experiências. Eu vejo todo o potencial narrativo e criativo de Wright e me pergunto porque Baby Driver não tem uma protagonista feminina, ou porque baby não é um rapaz negro, ou asiático ou porque os seus filmes são sempre tão heteronormativos. 

Essa é uma sensação que se repete com quase todos os diretores que gosto e acompanho, como Adam MaKay por exemplo, e é a mesma frustração que me faz assistir Mulher-Maravilha e querer que tivéssemos mais mulheres e mais diversidade na tela. Criar algo novo, ou quando se trás de volta algo já conhecido, deveria sempre significar ir em frente. Star Wars trouxe o Rey e Finn, e por mais que ainda seja uma abordagem tímida, deixa a sensação de que mesmo que lentamente nós estamos caminhando para frente, ao invés de regredir. A Marvel finalmente me passou a sensação de ir além do seu passado com o trailer de Pantera Negra, mas ainda é pouco e ainda é tímido. Voltar ao mundo torto e bizarro de Twin Peaks tem sido uma batalha constante, como pode depois de 25 anos os mesmos padrões e clichês de personagens femininas se repetirem, e por que eles parecem estar ainda piores do que antes?

FBI Agent Tammy Preston: Em Twin Peaks não dá para ser agente do FBI e não ser super sexy.

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterosexual e cis? Por que me limitar criativamente?

Edgar Wright não é um diretor ao pé de igualdade de Scorcese, não no que diz respeito ao que ele tem liberdade para colocar na tela (já que em questão de qualidade, polêmica: eu prefiro Wright), então é entendível que para ele existam limites maiores de produção. Mas a sensação que fica é a que existe todo um potencial, uma inovação narrativa que podia ser expandida para além de uma montagem rápida e divertida, além de diálogos bem escritos e cenas de ação engraçadas e bem dirigidas, uma inovação que podia trazer mais diversidade. E se ele não se limitar à narrativa branca e masculina, imaginem as histórias incríveis e ainda mais inovadoras que ele poderia trazer para a tela. 

Facebook Live | Hipersexualização feminina X Hipermasculinização.

Na Live desta quarta-feira nós falamos sobre as diferenças entre hipersexualização feminina, hipermasculinização masculina e sobre a falsa simetria ao comparar hipersexualização feminina e masculina.

Caso você queira ler, aqui está o nosso guia para a Live! 😉

—-

Pra falarmos sobre isso tem algumas coisas que precisam ser estabelecidas:

1) MALE GASE – É o Olhar Masculino sobre uma personagem feminina, corriqueiramente isso termina nela sendo desenvolvida dentro de padrões de comportamento e de estética que são fetichizantes e objetificantes, determinando a existência dessa personagem apenas como um objeto criado para agradar a punhetice masculina. Elas também são desenvolvidas para não ofuscarem o personagem masculino e, assim, não parecerem mais importantes do que o leitor em si.

2) FEMALE GASE – É o olhar Feminina sobre um personagem masculino. Esse tipo de olhar é raro, e ainda mais raro é quando ele tende à sexualizar o personagem feminino em questão. Se formos falar sobre ele ser diminuído à um objeto eu realmente não sei se a gente consegue encontrar um único exemplo. Filmes e quadrinhos com um olhar feminino tendem a ser muito mais simpáticos com personagens masculinos do que o contrário.

2) FALSA SIMETRIA – É quando você tenta equiparar duas coisas que estão em situações diferentes. Por exemplo, a hipersexualização de personagens masculinos e femininos, a opressão sofrida por pessoas brancas e negras, etc.

Dito tudo isso, vamos às perguntas que não querem calar:

O Que é hipersexualização?

Quando uma personagem é diminuída e/ou objetificada.

Quando a sua sexualidade é utilizada para agradar o olhar do espectador, tirando dela qualquer humanidade ou senso de identidade. (Imagem Manara)

Quando se decide que um uniforme como esse (Imagem da Emma Frost) faz sentido – seja para lutar, seja em como diabos esse tecido funcionaria.

Quando se desenha uma personagem em uma posição ginecológica, que faz pouco ou nenhum sentido em uma cena de luta (ou em qualquer cena).

Quando todas as personagens femininas aparecem, em algum momento, com a bunda em evidência no pôster do filme – note que é quase contorcionismo ficar com peito e bunda no mesmo plano. (Viúva Negra)

Personagens Masculinos são hiperssexualizados?

Se permite sexualizar alguns poucos personagens femininos, mas nenhum deles é diminuído à isso. Gambit, Asa Noturna, Deadpool (?), Thor (nos filmes) e Amor são alguns dos poucos personagens cujas histórias e/ou imagens já os colocaram sob a female gaze, nenhum deles, no entanto, foi diminuído de sua humanidade, nenhum deles usa uniforme marcando as bolas, nenhum dos tecidos dos seus uniformes delinear o corpo deles como o tecido das personagens femininas o faz.

Eu tenho inclusive a teoria de que o Asa Noturno é eunuco, pq toda vez que ele aparece de perna aberta existe um vácuo no lugar de onde estariam as partes dele. (Imagem do Asa Noturna)

Não que eu queria ver as partes dele, mas as partes femininas né, tem gente que faz até sombra.

Mas e o Wolverine sem camisa? E o Sexy Ryu? E o Lobo? E o Thor dos quadrinhos?

É aqui que entra a diferença primordial quando se fala em personagens femininos e masculinos com pouca roupa: o público alvo.

Veja bem, Quando se desenha uma super-heroína com pouca roupa o público que o desenho quer atingir é o masculino – apela-se para a punhetagem desse público, vendendo sexo, vendendo o corpo feminino.

Quando se desenha um super-herói como o Wolverine, o Thor dos Quadrinhos, Batman e Superman sem camisa, com o corpo todo sarado, veias pulsando de todos os lugares, o público que esse desenho quer atingir é o masculino – apela-se para um ideal de masculinidade, um ideal de que homem é sinônimo de força física, de que masculinidade é sinônimo de violência. Não é no público feminino que se pensa quando Ben Affleck vira pneu em Batman vs Superman, é no carinha que vai olhar praquela cena e pensar “Fuck yeah macho man”.

Obviamente existem mulheres que gostam desse tipo de homem supersarado veias saltando, mas elas são um público acidental – elas não são a razão pela qual opta-se para mostrar esse tipo de físico masculino.

A hipersexualização feminina e a hipermasculinização do personagem masculino tem, no final, o mesmo público alvo: homens. E os dois ajudam a sustentar um sistema excludente e violento – tanto para as mulheres, quanto para os homens.

Do ponto de vista feminino, criar apenas esses tipos de padrões gera:

– Exclusão de uma porcentagem imensa de público. Pensando de maneira binária, homens e mulheres, esse tipo de construção pode gerar a exclusão de quase 50% de público que poderia estar pagando para consumir esses personages – é burrice editorial. Rebeca parou de comprar quadrinhos pq cansou. Voltou com a Thor.

– Cria padrões de beleza inaucansáveis – ninguém nunca vai ser a Vampira, ou a Mulher Maravilha. Isso afeta diretamente a auto-imagem que as mulheres tem delas, contribuindo para uma visão negativa que as mulheres tem dos seus próprios corpos.

– Segrega ainda mais a representação feminina: personagens não-brancas tendem a ser ainda mais hiperssexualizadas do que personagens brancas. Se elas tiverem origens africanas, nativo americanas ou asiáticas isso só piora, já que elas vão ser representadas sempre puxando para uma sexualidade fetichizante, que volta e meia cai em representações que incluem biquínis de oncinha.

Do ponto de vista masculino:

– Cria padrões de masculinidade que são tóxicos, pautados em violência e com corpos tão impossíveis quanto os femininos. Ao mesmo tempo que isso cria um ideal de masculinidade, esmaga a masculinidade dos caras que consomem essas imagens e histórias. Se você não é um homem forte e/ou violento, então não é homem.

– Diminui o seu público à um punhado de nerds punheteiros.

– Cria, na cabeça masculina, um ideal de mulher que é irreal e fetichizado. Isso não só contribui para a visão masculina de que mulheres são menos do que homens, como também para o comportamento violento masculino em relação à mulher.

Eu não estou dizendo, em hipótese alguma, que quadrinhos são culpados pela violência que o homem faz. Mas quadrinhos, assim como qualquer meio de comunicação e arte, não vive dentro de uma bolha onde seus consumidores não são afetados pelos sinais e pelos símbolos que eles ajudam a sustentar.

Como podemos mudar isso?

Mudanças já estão acontecendo, as editoras estão cada vez mais preocupadas com o modo como suas personagens femininas estão sendo retratadas, quais histórias e quais uniformes elas estão usando. Batgirl, MoonGirl, Kamala, a Thor e Miss Marvel são algumas dessas representações diferentes e mais positivas. Ainda existe muito chão pela frente, mas já estamos em um caminho interessante.

 

Review: Godzilla

Este post foi originalmente publicado no Coelho Matador.

RAlgo que venho notando muito nos últimos anos, e que a indústria parece dar os primeiros sinais de preocupação também, é que os papeis femininos, mesmo quando de destaque, ou não têm o mesmo desenvolvimento e impacto que os masculinos, ou são apenas personagens de suporte. Isso quando não são diminuídos a simples objetos de cenaComo público, mulher e nerd, tenho cada vez mais sentido falta de um personagem que me represente na tela.

Acredito de verdade que nós temos a capacidade de nos identificarmos com qualquer personagem, seja ele homem, mulher, trans, gaynegrobrancolatino, asiático etc. Isso não quer dizer, no entanto, que temos que nos conformar com a falta de representação das outras etnias e gêneros em relação à representação do homem heterosexual branco.

MAS vamos voltar ao filme da semana: GODZILLA. E atenção: esse review vem com spoilers!

Godzilla-Teaser-Poster-2

Espera. Antes que eu comece a falar sobre o filme, deixe-me dizer que eu gostei muito dele. Não tanto quanto eu gosto de Pacific Rim (sim, eu sei que só há uma personagem feminina de expressão no filme, e eu acho isso um problema. No entanto, ela é uma personagem incrivelmente desenvolvida e vital para o plot.), mas eu me diverti muito. Ver o Godzilla cuspir fogo radioativo foi o ápice do meu dia. Mas mantenham em mente que, apesar de gostar de um filme/quadrinho/música/livro/seriado, eu ainda assim posso observar as falhas que ele têm.

Caso você, como eu, nunca tenha realmente acompanhado os filmes japoneses do Godzilla, e fizer uma pequena pesquisa sobre a franquia japonesa, vai descobrir que o monstrão já encarou diferentes papéis ao longos de seus sessenta anos de existência. Já foi vilão, já foi mocinho. E, no filme de Gareth Edwards (Monstrosele assume este último papel.

carcaça godzila

O filme começa com o Dr. Ishiro Serizawa (Ken Watanabe) e a sua assistente, Viviene Graham (Sally Hawkins), chegando às Filipinas para investigar um acidente geológico que revelou o que poderia ser a procura de uma vida inteira: um esqueleto gigante e dois ovos imensos. Um deles já quebrado, o outro ainda não. Mas Ishiro sabe que aquele não é o monstro pelo qual ele vem procurando.
A primeira ameaça ao planeta chega na forma de abalos sísmicos na cidade de Janjira, Japão, onde uma planta nuclear acaba sucumbindo e matando Sandra (Juliette Binoche), a esposa de Joe (Bryan Cranston) e mãe do nosso protagonista, Ford (Aaron Taylor-Johnson).

casal 20 godzilla

Quinze anos no futuro. Ford (Aaron Jhonson) volta aos EUA depois de uma temporada servindo o exército como desarmador de bombas. Ele é recebido de volta pela esposa Elle (Elizabeth Olsen) e o filho Sam (Carson Bolde). O reencontro, no entanto, dura muito pouco. Ford recebe uma ligação e descobre que seu pai, Joe, foi preso no Japão ao tentar ultrapassar a barreira de quarentena de Janjira. Joe se tornou um ativista conspiracionista, ele acredita que o acidente de quinze anos atrás foi causado por alguma coisa que não um terremoto, e pior – os padrões estão se repetindo novamente.

_KF14095.DNG

Joe e Ford conseguem quebrar a quarentena e entrar na cidade – apenas para descobrir que diferente do que foi noticiado, Janjira não está com níveis de radiação perigosos. Eles conseguem entrar na antiga casa da família e recuperar os discos que Joe acredita que provarão que o que aconteceu não foi um acidente geológico, mas acabam apreendidos pela empresa Monarch. Lá eles descobrem que a empresa para qual Dr. Ishiro e Viviene trabalham é responsável por investigar a ameaça conhecida como MUTO, a verdadeira causa da destruição da usina quinze anos atrás. A criatura, até então adormecida e se alimentando da energia nuclear da planta, acorda e sai de seu casulo, destruindo a base de operações e matando, dentre muitos outros funcionários, Joe Brody. É aí que os militares americanos entram e que conhecemos o Almirante Stenz. Pronto.

Agora nós já estamos aproximadamente uns trinta? Quarenta minutos dentro do filme? Talvez um pouco mais ou menos. Mas já conhecemos todos os personagens humanos que formam o núcleo principal da trama. Até agora são sete (se você não contar Sam Brody) personagens, dos quais três deles são mulheres. Parece um bom número – muito melhor do que a maioria dos blockbusters de monstros mais recentes. Mas número nem sempre quer dizer qualidade.

Sandra Godzilla

Sandra Brody morre nos primeiros dez minutos de filme. Ela tem a função de morrer e motivar o marido a perseguir a verdade custe o que custar, já que ele próprio se sente culpado por não ter conseguido salvar a esposa. É o bom e velho clichê da mulher na geladeira, exceto que neste caso Joe, o homem atormentado pela morte da mulher, também morre logo no começo do filme, deixando a morte de Sandra com ainda menos sentido. A personagem é usada para tornar Joe o gatilho, a pólvora que o plot precisa para que a história chegue de novo até Janjira e até o primeiro MUTO. Depois que isso acontece, Sandra é esquecida e seu clichê abandonado apenas para ser substituído por outro.

Elle Godzila

Com o passar dos anos e o retorno de Ford para o seio familiar, nós conhecemos a terceira personagem feminina do filme: Elle. A esposa e mãe que, por acaso, também é enfermeira – algo que nunca é nem remotamente utilizado pela narrativa do filme, já que a única coisa que ela faz dentro do hospital é usar o telefone e esperar pelo marido. Elle é o complemento do clichê masculino de Ford: quando Joe morre, ele diz para o filho que ele deve proteger a família a qualquer custoessa é a sua obrigação.

A intenção aqui não é retirar o valor nobre da ação de Ford, mas questionar o uso de clichês como esses. Enquanto Ford tenta a todo custo chegar a São Francisco e proteger sua família, Elle espera por ele dentro de uma cidade à beira da destruição. A única coisa sensata nisso tudo é mandar o pequeno Sam para um campo de refugiados. E essa ação revela um grande problema desse clichê para os personagens envolvidos – ele não faz sentido com quem Ford é. Ford é militar, e em momento nenhum durante o filme ele questiona as decisões militares de seus superiores; muito pelo contrário, também com o objetivo de proteger a sua família, ele se oferece para tomar parte em uma missão suicida. O que levanta a pergunta: se em momento nenhum Ford duvida da capacidade dos militares de resolver o problema, por que ele manda a mulher esperar com o filho dentro da cidade ao invés de mandá-los para um campo de refugiados, onde eles seriam cadastrados e, passado o problema, o encontro seria facilitado?

ford godzila 3

Porque nós precisamos de outro clichê: a donzela em perigo. Elle, que espera por Ford, é quase esmagada pelos escrombos de um prédio perto de uma das lutas entre o Godzilla e o MUTO. É preciso achar que a donzela está correndo risco de vida – e talvez esteja inclusive morta – para que o ato de Ford seja tão grandioso quanto puder. Mesmo sem saber se a família está segura ou não, ele ainda assim arrisca sua vida para salvá-los.
Bonito né?

Não. Acho chato e batido. Ford, junto a Godzila, é o personagem principal do filme. Ao seu redor estão seu pai, Dr. Ishiro, Elle e o Almirante Stenz. Tirando Elle, todos os outros personagens têm importância vital para que o plot do filme evolua. Joe foi o gatilho, aquilo que envolveu Ford na caçada ao MUTO, que o motivou a não parar até chegar à sua família. Dr. Ishiro é a fonte de conhecimento sobre os monstros, é dele que sai todo o backstory sobre os monstros, e que oferece uma alternativa ao ataque armado. O Almirante é tanto o homem das armas que as vezes é apresentado como opositor a Ishiro, como um homem cujo único objetivo é salvar a vida de civis. Elle é a esposa que fica esperando o marido, e cuja falta de ação própria quase lhe custa a vida.

vivienne godzila

Mas e a terceira personagem feminina? Ah, simVivenne Graham. A sidekick super inteligente. Vivienne é apresentada no começo do filme com ares de aprendiz, a parceira de Dr. Ishiro na busca por Godzila. Quinze anos depois, Vivienne continua com o mesmo papel. Apesar de ter talvez tanto conhecimento quanto Ishiro sobre o monstro, Viviene é constantemente reduzida às margens das ações e das decisões – que são tomadas todas por homens, claro. Uma cientista que podia muito bem ter uma participação maior na trama, mas sofre da síndrome de personagem secundário sem função.

Pode parecer exagerado (ah, como eu amo essa palavra ¬¬) mas por que motivo Ford Brody não pode ser Felicia Brody, do esquadrão anti-bombas? As mesmas motivações que movem Ford movem também “mães de família”. Você poderia até argumentar que uma mãe lutando para salvar sua prole talvez tivesse maior impacto com o público. No caso da idéia de um blockbuster de monstro ter uma protagonista feminina ser uma idéia um pouco liberal demais para você, por que Dr. Ishiro não poderia ser Dra. Ishiro? Por que manter as personagens femininas em papéis marginais e clichês?

Saindo do aspecto feminista da discussão, mas mantendo o foco na representação, outra coisa que me chamou atenção foi a falta de diversidade étnica no casting. Se você entrar no IMDB do filme vai ver que, com a excessão de Ken Watanabe, apenas o décimo nome do cast não é branco, e eles estão todos em papéis secundários e terciários. A única mulher negra tem apenas uma fala durante todo o filme, que é também a única vez que ela aparece em tela. O personagem cujo erro chama a atenção do MUTO para Ford sobre a ponte, enquanto eles tentavam levar as bombas para São Francisco, é latino e se encaixa no estereótipo do latino engraçado/incompetente. Fosse o filme mais preocupado com a representação, ele seria apenas mais um personagem -mas como ele é um dos poucos latinos com falas, esse clichê chama atenção.

A foto com a melhor definição que achei de um personagem secundário.

Matt Brown, do site Twitch, tem uma coluna semanal chamada Destroy All Monsters, em que ele fala bastante sobre as falhas relacionadas à diversidade e a representaação feminina nos filmes. A coluna dele sobre Godzilla trata de algo diferente, ele vê o filme como sendo unicamente do Godzila, em que os humanos são representados como formigas, com Ford ou sem Ford Godzila ainda teria ganharia a luta – os humanos são irrelevantes. Olhando deste ponto de vista a missão de Godzila como filme vai muito além do que eu tinha inicialmente interpretado. No entanto, por mais que este filme não seja de Ford, e os humanos sejam apenas as formigas perante a presença de um Deus, se o roteirista decide incluir uma história do ponto de vista desses personagens é importante que ela seja bem construída, interessante e preocupada com a representatividade.

godzilla roar

De maneira geral, Godzilla é um filme divertido. Se você gosta de sci-fi bem desenvolvido e com pelo menos um quê de discussão social (neste caso, a relação do homem com a natureza), Godzila com certeza vai lhe valer o dinheiro do ingresso IMAX. Os atores são todos muito bons, e por isso me entristece ver Julliett Binoche, Bryan Cranson e Elizabeth Olsen tão sub-utilizados.

juro. Ford Brody tinha um trabalho. Desde o começo do filme, estava bem claro que ele tinha que desarmar uma bomba no final do filme. Mas aí ele vai lá e dorme. You had one job, Ford. One Job.

=)