Primeiro capítulo de Carrion Song será lançado na CCXP 2017!

A CCXP 2017 já é semana que vem e, como vocês podem perceber, uma das nossas partes preferidas aqui no Collant é o Beco dos Artistas. Há vários artistas incríveis, inclusive mulheres, disponibilizando seus quadrinhos e trabalhos. Aqui vai uma sugestão para você que não sabe direito o que comprar por lá.

Carrion Song é um história em quadrinhos independente criada por Gabriela Birchal. O primeiro capítulo da história será lançado na CCXP 2017, na mesa D39 no Artist’s Alley, e conta a história de Corvo.
Corvo é uma mercenária amaldiçoada em busca de alguém muito importante para ela. A máscara é o estigma de sua maldição, o que a torna um pária. Ao receber um trabalho particularmente incomum, ela se vê acompanhada pelo bardo e mercenário Dorian, e deve adentrar uma torre para caçar uma terrível besta chamada Arque Lobo. No entanto, a caçada se mostra mais complicada do que o prometido e ambos deverão sair de uma cilada.
Gabriela é uma ilustradora e artista de concept e trabalha para video games, jogos de tabuleiro, capas de livro, dentre outros. Em 2017 resolveu voltar às raízes e escrever uma história própria. O primeiro capítulo foi feito de forma independente e, para a continuação da história, Gabriela conta com a ajuda de apoiadores no Patreon, uma plataforma na qual os criadores mantêm contato direto e oferecem conteúdo exclusivo para os fãs.
Se você não puder ir no evento, mas ainda estiver interessado no quadrinho, ele será vendido no http://gabrielabirchalart.iluria.com/
Título: Carrion Song
Autor: Gabriela Birchal
Formato: 17x26cm
Número de páginas: 36
Lançamento: Durante a CCXP 2017 nos dias 07,08,09 e 10 de Dezembro
Sites:

Bendita Cura – Quadrinho sobre homofobia e os efeitos da terapia de reversão.

Os últimos dias tem sido sombrios e controversos para a comunidade LGBT. Se você esteve na internet nos últimos dias provavelmente viu que no dia 18 de Outubro o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, do Distrito Federal, cedeu uma liminar autorizando psicólogos a fazer terapias de reversão sexual com pacientes homossexuais. Essa decisão vai contra a OMS (Organização Mundial da Saúde) e contra o Conselho Federal de Psicologia, que veta tal prática. Por isso Bendita Cura: É Para o Bem Dele (Pt1), de autor Mário César Oliveira, chega em uma hora tão propícia.

O quadrinho acompanha a história de Acácio, desde a infância na década de 60, até os dias de hoje. Crescendo num lar conservador e homofóbico, Acácio teve a vida marcada por preconceito e terapias de conversão.

Mário César teve a idéia ainda em 2013, quando o pastor Marcos Feliciano assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O quadrinho é resultado de muita pesquisa e não é baseado em apenas um caso, mas em diversos depoimentos e reportagens que o autor teve contato ao longo dos anos. O primeiro roteiro ficou pronto em 2014 e agora passa por um processo de refinamento.

Vi que tinha um mote bom pra uma história que abordasse questões de orientação sexual e de gênero, me deparei com muitos relatos absurdos e fui montando o roteiro em cima disso. Nesse meio tempo fiz outras quadrinhos como o Púrpura e o Não existem super-heróis na vida real. Agora tô desenhando esse.

A idéia inicial era lançar a publicação no final do ano, mas com o que aconteceu nos últimos anos Mário sentiu que era o momento certo para fazer o lançamento. Não podia estar mais correto. Se passamos por tempos sombrios, os últimos dias começam a sentir como a idade média, e ter um trabalho assim em livre acesso para ser compartilhado e lido é muito importante.

Por enquanto você pode ler a metade do primeiro capítulo AQUI, Mário quer soltar o restante do quadrinho ou mensalmente, ou quinzenalmente – depende do que o fluxo de trabalho permitir. Quando o primeiro capítulo for terminado Bendita Cura também deve ficar disponível através da Social Comics, uma plataforma nacional de leitura de quadrinhos.

Você pode acompanhar o Bendita Cura por AQUI, Não Existem Super-heroís Na Vida Real está disponível na Amazon e você pode encontrar os outros trabalhos do Mário no site dele. Se você ainda não entendeu o problema da liminar, sugiro a leitura deste texto da Vice.

 

Black Silence, de Mary Cagnin.

Ficção Científica ainda não é o gênero de escolha de muitos brasileiros, sejam leitores, escritores ou quadrinistas, mas é exatamente nesse último, nos quadrinhos, que venho observando uma insurgência de trabalhos interessantes no gênero. Um desses trabalhos é Black Silence, da quadrinista Mary Cagnin.

A história segue a tripulação de uma missão organizada pela FAE (Forças Armadas Espaciais) para procurar um planeta que possa funcionar como colônia, uma última tentativa desesperada de salvar a humanidade. Na liderança da missão está a Comandante Neesrin Ubuntu, uma oficial fria e determinada, com uma reputação que a precede e mistura admiração e medo em sua tripulação. Além dela e de sua equipe da FAE está Lucas Ferraro, Exobiólogo que recebe a missão sem opção de negá-la, ele está preso pela FAE aparentemente de maneira irregular. A viagem é altamente arriscada, e pode resultar na morte de todos os seus integrantes, e o que os espera no outro planeta além de desconhecido pode ser perigoso.

Black Silence sofre de um mal que é muito comum nos quadrinhos brasileiros, a narrativa expressa. O universo criado para a narrativa central é grande e interessante, mas a história parece presa nas 87 páginas que tem para se desenvolver. Você sabe quem são os personagens porque se fala muito sobre eles, mas sem páginas o suficiente para desenvolvê–los as informações parecem cair no nosso colo ao invés de ser um processo mais orgânico. Informações interessantes que revelariam detalhes relevantes sobre como é e como funciona a sociedade da qual essa missão faz parte são apresentadas rapidamente mas nunca desenvolvidas. Fica a sensação de que havia muito mais história para contar, mas faltaram páginas.

Apesar desse problema de narrativa, Black Silence consegue contar uma história que conversa diretamente com os nosso medos, aqueles que são quase primitivos. O que vai acontecer com a humanidade quando chegarmos no nosso limite? Ao invés de escolher um cenário pós-apocalíptico onde veríamos a destruição humana, Mary Cagnin opta por nos mostrar um cenário contido nessa última missão. O modo como essas questões afetam ou não cada um dos membros da comitiva, os sacrifícios que todos eles tiveram que fazer para chegar no ponto em que estão – mesmo aqueles que nunca optaram por esses sacrifícios.

O quadrinho flerta com Hard Sci-Fi, mas é exatamente por não se fixar em detalhes muito específicos que ele ganha narrativamente. É possível ver influências tanto do clássico Vampiros de Alma (e talvez só essa menção já seja um pequeno spoiler), quanto de Alien: O Oitavo Passageiro. Pode-se dizer inclusive que há também um aceno para o tradicional anime de sci-fi Evangelium. isso tudo com uma roupagem mais atual e bem mais diversa etnicamente.

Um dos pontos altos de Black Silence é que dos seus cinco personagens, apenas dois são brancos. É difícil ver uma protagonista de sci-fi negra e é interessante ver como a protagonista se desenvolve. Se primeiramente Neesrin periga cair no estereótipo da mulher negra como uma fortaleza, algo que inclusive está dito na Ficha de personagens, mais para o final da história a Comandante da FAE ganha espaço para se desenvolver e mostrar um faceta diferente.

É muito legal ver o quadrinho nacional aprendendo a contar histórias de sci-fi sem cair na mesmice da narrativa tradicional americana. Black Silence é um produto criado por uma autora Brasileira que, assim como Mayara & Annabele, consegue caminhar por um gênero relativamente novo para a narrativa nacional, com elementos tradicionais de sci-fi, mas que se permite ir além sem parecer uma cópia esquisita do que já foi feito antes. Definitivamente vale a leitura.

Black Silence foi financiado no Catarse, mas você consegue adquirir uma cópia AQUI.

Plumba não é só uma garota que bate em monstros

Plumba foi o primeiro quadrinho que comprei na CCXP 2016. Anunciaram que iam sair o volume dois e só vi críticas positivas, então resolvi dar uma chance para essa história. Não me decepcionei.

O quadrinho é da 2minds, criado por Thiago Lehmann e Luiza McAllister. Ele acompanha a história de Plumba, uma garota de cabelo rosa que mora com sua família na Casa Rosa, na cidade Boloto. Plumba quer comprar um machado novo, mas não tem dinheiro o suficiente para isso, então resolve começar uma viagem para completar missões e juntar o dinheiro necessário.

Como indica o título da crítica, a história de Plumba é muito mais do que uma garota batendo em monstros. Desde o primeiro momento o leitor já gosta de Plumba, a protagonista é muito carismática, capaz e inteligente. Além dela, outros personagens muito divertidos vão aparecendo, adicionando informações para a história e fazendo com que o leitor conheça mais sobre aquele universo e a própria Plumba.

O primeiro volume serve como uma introdução. Quando terminamos de ler, entendemos como o universo de Plumba funciona, conhecemos a personalidade da protagonista, os básicos para a história e temos uma pista sobre algo maior que está para acontecer. O segundo volume começa a dar forma para alguns conflitos maiores do que a falta de dinheiro para comprar o machado. Descobrimos mais sobre Plumba, sua família e conhecemos outras organizações e personagens importates. Mesmo que o quadrinho tenha a intenção de ser uma história leve e engraçada, o roteiro sabe quando deixar a situação mais tensa quando é necessário.

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Nimona, de Noelle Stevenson

Na semana passada o Collant recebeu uma cópia de Nimona, o quadrinho de Noelle Stevenson, que chegou ao Brasil pela editora Intrínseca.

A HQ conta a história de Nimona, uma metamorfa que quer virar comparsa do lorde Ballister Coração-Negro, o maior vilão de todos. Apesar da sua fama, Ballister não tem muito sucesso nas suas missões como vilão, mas com a ajuda de Nimona, algumas coisas começam a sair melhor do que o esperado. Juntos, eles precisam enfrentar o herói sir Ambrosius Ouropelvis, mas logo Ballister vai perceber que Nimona causa mais de estrago do que ele planejava.

Na hora que fiquei sabendo da sinopse do quadrinho já me apaixonei pela ideia. Não só parecia uma história que quebraria alguns padrões, mas também achei interessante o fato de que ela se focava em vilões e anti-heróis. Como não amar uma metamorfa que pode se transforma em tudo, inclusive um dragão?

O quadrinho é leve, dinâmico e tão divertido que em pouco tempo dá para terminar as 272 páginas. A história é dividida em capítulos, alguns mais conectados que outros, mas todos relevantes para a trama central. O traço e as cores também combinam com o clima leve que o quadrinho passa. O design dos personagens é divertido: Nimona parece uma menina fã de rock, Ballister tem uma cara típica de vilão sempre de mau humor e Ambrosius é um clichê do grande herói galante. O mais interessante é que, mesmo que não pareça, Nimona trás algumas reflexões e exposições de passado dos personagens nada leves, como o caso da história de lorde Ballister, que perdeu o braço antes de virar um grande vilão.

É interessante como vários elementos da história começam parecendo uma brincadeira, algo para o leitor apenas dar risada, mas mais tarde se revela algo importante para a trama. Os personagens vão mostrando quem sãos aos poucos, sem apressar ou forçar relações entre eles, o que faz com que o leitor se importe com o que está acontecendo.

O universo do quadrinho é muito interessante. Primeiro acreditamos que é uma história puramente fantástica medieval, mas logo encontramos lasers, televisões e outras coisas mais futuristas. O quadrinho brinca com a mistura entre magia e ciência. No começo pode parecer um pouco estranho, mas ao longo da história nos acostumamos com essa junção de elementos.

Nimona é uma personagem muito divertida. Ela quer ser malvada, acaba sendo o “diabinho” no ombro de Ballister, mas ao mesmo tempo se importa com seu novo amigo. Nimona consegue ser engraçada, criativa e muito brava quando quer. Conseguimos conhecer todos os lados da personagem, o que enriquece a história. Ballister e Ambrosius também são personagens bem desenvolvidos, a relação entre eles é muito interessante, mas Nimona normalmente rouba os momentos em que aparece.

Um dos aspectos mais incríveis da história é como ela coloca o “bem” e o “mal”, como essas posições são trabalhadas e mudam rapidamente. Em certo momento, conhecemos a academia de heróis, que tenta impedir o vilão Ballister de realizar seus planos terríveis. Mesmo que o quadrinho aponte de forma óbvia quem é vilão e quem é herói ali, os personagens desafiam e quebram esses padrões. Isso não acontece só com as ações dos personagens dentro da história, mas também na forma em que eles foram criados e se desenvolvem.

Do ponto de vista da população daquele reino, Ballister é o grande vilão, a mídia também faz seu papel para mostrar isso. Mas do ponto de vista dele, vemos que, apesar dele ter planos malvados sim, Ballister tem algumas atitudes que são mais justas que as de outros personagens. O quadrinho mostra que é uma questão de ponto de vista. Para as pessoas dentro daquele universo, Ballister e Nimona são maus, mas o leitor vai simpatizar com eles e entender suas motivações. Os personagens que conhecemos não podem ser colocados em caixinhas de “heróis” e “vilões”, mesmo que aquela sociedade faça isso. Dependendo do ponto de vista, essa posição pode mudar. É ainda mais interessante que isso aconteça em uma história com elementos fortes de fantasia, que é um gênero que muitas vezes vai deixar bem marcada a diferença entre o bem e o mal.

A história vai fluindo tão bem para o conflito final que é muito difícil largar a leitura nas últimas páginas. A conclusão deixa algumas coisas abertas para interpretações, mas é uma opção que combina com os pontos que o quadrinho vai apresentando. É uma história apaixonante, não acreditei que tinha terminado de ler tão rápido e queria mais!

Nimona é um quadrinho que vai surpreender a cada página, que faz o leitor rir e ser pego numa reflexão mais profunda ao mesmo tempo. Além de ser muito bom ver uma protagonista mulher tão divertida, Nimona é muito bem escrita. É muito bom ler um quadrinho que tenha uma história que não caminhe para o óbvio. Então se você gosta da ideia de uma metamorfa ajudando um vilão, batalhas épicas, dragões, tubarões, magia e ciência, você vai amar Nimona.

O elefante na sala: assédio no meio do quadrinho nacional.

No começo do ano os casos de assédio sexual dentro da DC vieram novamente à tona quando a editora passou por uma reestruturação. Na ocasião, Shelly Bond foi demitida da Vertigo, mas Eddie Bernganza foi mantido dentro da DC. A sensação de indignação vinha do fato de Eddie ser um conhecido assediador de mulheres, com histórico de assédio sexual verbal e de contato físico. Ao invés de demitir o assediador, a DC o blindou em um escritório formado apenas por homens.

No Brasil, não temos um mercado de quadrinhos organizado industrialmente nem grandes selos editoriais como nos EUA, mas isso não quer dizer que nós não tenhamos os nossos assediadores.

Homens quadrinistas e ilustradores usam de sua posição de privilégio dentro do mercado para assediar mulheres quadrinistas, fãs e alunas. Estes caras estão por ai. Tem mesas e banquinhas em eventos;  tem livros lançados por editoras; eles até trabalham nessas editoras. Eles são pesquisadores e estão dentro do meio acadêmico. Eles são convidados para palestrar em eventos, compartilham conteúdo do Collant, pagam de desconstruídos e de caras legais.

Com mais mulheres inseridas no mercado artístico, que assim como qualquer outro é majoritariamente composto por homens (em especial o homem branco, hetero e cis), os casos de assédio parecem se multiplicar, e as razões pelas quais não se fala sobre eles, também. Enquanto isso as notícias correm por trás dos Becos dos Artistas. Toda quadrinista, ilustradora ou mulher envolvida com o mercado sabe de uma história. Aconteceu com uma amiga, com a conhecida de uma amiga, com ela mesma. A gente até sabe de alguns nomes, conhecidos e desconhecidos. A gente identifica eles quando caminhamos pelos corredores de eventos de cultura pop.  

Histórias de assédio não faltam, variam apenas na abordagem. Tem cara que se aproxima de outras quadrinistas com “oi linda/fofa/gata”, que abraça, dá beijo e força o contato físico sem consentimento, que pede nude sem qualquer envolvimento prévio e que pede nude em troca de desconto em aula. Também tem cara que usa a posição de “famoso” para dar em cima e ter mais liberdade do que deveria com outras profissionais e com fãs. Tem cara que passa a mão em colegas e que fica com colegas de profissão ou fãs pra depois sair cantando de galo para outros caras.

Infelizmente, situações como essas são relativizadas na nossa sociedade. Quantas vezes comentários como “ela está exagerando” não foram ditos após uma mulher se sentir desconfortável com o modo como aquele cara famosinho encostou nela?

E assim, o assédio, se apresenta no meio dos quadrinhos (e na nossa sociedade) como uma forma de demonstrar poder sobre a mulher, demarcar espaço, pressionar a mina a produzir de um jeito em detrimento de outro, ou desestimular essa mina a produzir.

O impacto de um assédio, seja físico ou verbal, seja qual for o grau ou o tipo de violência utilizada, é tão grande que causa reações que vão do medo a impotência. Quando esse assédio acontece dentro do seu ambiente de trabalho tudo fica ainda pior. Além do trauma, tem a insegurança e o medo de passar por aquilo de novo. De ter a sua carreira atrapalhada por causa do assediador. Aí o silêncio prevalece porque as mulheres sabem que se falarem sobre o acontecido, se revelarem o nome do assediador, o mercado pode se virar contra ela e quem vai pagar pelo assédio não vai ser o cara, mas ela.

Nestas horas, o mais comum é ver homens apoiando outros homens. Questionando os fatos, culpabilizando as minas, exigindo videos e prints pra provar. Afinal, mulheres, são fáceis, não é mesmo? São loucas e mal educadas quando reagem a uma investida. Querem atenção o tempo todo, para serem reconhecidas pela beleza, não pelo que sabem fazer.

Aqui no Collant já cansamos de falar como ambiente da cultura pop é hostil para as mulheres. Criticamos o espírito da broderagem que sempre fala mais alto no meio dos quadrinhos, repudiamos todas as ações que colaboram para o afastamento e invisibilização da produção de quadrinhos e ilustrações feitos por mulheres e já criamos até um guia de como ajudar a acabar com o assédio e machismo no meio. É por isso que não ficamos apáticas quando vemos a lista de quadrinistas e ilustradores que já assediaram mulheres aumentar.

Assim como o MDM, que soltou um texto discutindo o assédio no cenário nacional de quadrinhos, nós precisamos que mais pessoas se posicionem contra qualquer forma de inferiorização das mulheres. Se você mulher quadrinista, ilustradora, integrante do meio artístico, leitora sofreu algum tipo de assédio, mas não tem coragem de prestar queixa junto a delegacia da mulher, nós estamos abertas para conversar com você e dar todo o suporte que você precisar.

Nós não vamos fechar os olhos, não vamos olhar para o lado. Vamos exigir que escolas, eventos, editoras e a comunidade como um todo se posicione. Não dá mais para ignorar o que acontece por trás do artist’s alley. Não dá mais para passar a mão na cabeça de ilustrador/quadrinista assediador. Se o mercado de quadrinhos quer continuar crescendo, então ele precisa lidar com todos os seus problemas, e o assédio é um deles.

Outros textos sobre o assunto:

Broderagem, Mercado e Exclusão.

Como você, homem, pode ajudar a acabar com o assédio e o machismo no meio dos quadrinhos.

 

Review: O Mundo de Aisha

Eu sou a leitora mais lerda do mundo, mas este é o segundo post sobre os quadrinhos que a Editora Nemo nos enviou. Esperei um momento em que eu estivesse tranquila para ler O Mundo de Aisha, eu sabia que as histórias contadas em suas páginas iam me afetar.

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Eu li O Mundo de Aisha sentada na sala de espera da emergência de um hospital – foi a pior escolha de lugar que eu podia ter feito. Não era nada grave, só um gripe e nem era eu quem estava gripada, mas hospital sempre é aquele lugar carregado por um ar pesado.

O Mundo de Aisha é narrado em histórias, são contos em quadrinhos que narram a realidade de diferentes mulheres do Iêmen, país em que a fotojornalista Agnes Montanari colheu os depoimentos e as imagens que mais tarde Ugo Bertotti transformaria em ilustrações. Ao final de cada história minha garganta dava um nó e eu engolia silenciosamente o choro.

São histórias de mulheres diferentes mas que dividem algo em comum: a sociedade patriarcal, tradicionalista e misógina. Cada uma delas possui uma história de vida marcada por situações em que são desqualificadas apenas por serem mulher, em que sofrem violência física ou verbal, em que ousam bater de frente com os costumes que as oprimem – mas nem todas tem a mesma sorte.

Um dos elementos mais interessantes na narrativa do quadrinho é perceber que, apesar de ser um olhar ocidental sobre uma cultura radicalmente diferente da nossa, os autores conseguem discutir e mostrar a realidade dessas mulheres sem apaga-las. Para nós as mulheres por trás dos véus (os niqabs) são sinônimo de apagamento, de inexistência, quase uma desumanizadas. Mas para as mulheres que passam a maior parte da sua vida dentro do manto preto elas são vivas e perseverantes. É sob esse ponto de vista que a história se desenvolve, os pré-conceitos que formamos sobre essa cultura de um ponto de vista ocidental vai aos poucos sendo contestado e se desfazendo.

Isso não quer dizer que o quadrinho não problematize a situação da mulher no Iêmen. Logo na primeira história somos apresentadas à que ao meu ver é a personagem mais sofrida do livro. Sabiha tinha 11 anos quando se casou e alguns anos à mais quando seu marido, pai de seus três filhos, a mandou para o hospital com um tiro de AK-47. Seu crime foi parar em frente à janela sem véu, deixando o vento e o sol do amanhecer bater no seu rosto descoberto.

São histórias trágicas, encorajadoras, de vitórias e de dúvidas. Aisha é uma mulher privilegiada perante suas companheiras de livro e está ciente desse privilégio dentro da sociedade. Mesmo a mulher divorciada e desonrada sabe que tem mais privilégios do que a imigrante africana que é hostilizada na fila da água. O livro permite uma autoanálise interessante para quem não consegue identificar seu próprio privilégio dentro de uma sociedade mais amena como a nossa. Se Aisha é capaz de ver sua posição de liberdade dentro de um país fundamentalista, porque tantos de nós temos dificuldade em identificar-nos como privilegiados na nossa sociedade?

Leia O Mundo de Aisha num dia em que você não esteja no hospital. A narrativa das histórias dessas mulheres, e por consequente da experiência da fotojornalista durante sua estadia no país, casa muito bem com os desenhos pesados e em preto e branco do desenhista. Um retrato ocidental de uma cultura diferente da nossa, mas feito de maneira complexa. São histórias sobre mulheres que estão aos poucos revolucionando um sistema opressor, e estão fazendo isso por debaixo do véu.
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A Samurai – Tem mais um Catarse com Protagonista Feminina Incrível!

Hoje a gente trás mais um Catarse puro amor pra você correr lá e ajudar a revista a ser financiada, tô cada vez achando mais lindo essa quantidade de mulheres por trás e como protagonistas nos quadrinhos brasileiros o/

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O que me chamou atenção logo que eu vi o projeto pela primeira vez foi o título A Samurai, acho sempre muito legal quando vejo palavras que estão normalmente associadas ao masculino serem utilizadas no feminino. E a história da revista promete ser uma jornada empoderadora e libertadora para a protagonista.

Criaação do estúdio Manjericcão, e escrita por Mylle Silva, A Samurai conta a história de Michiko, uma Gueixa tornada Samurai que sonha em reencontrar sua família. Além do talento de Yoshi, a revista vai contar também com a participação de oito artistas diferentes, dentre eles a incrível Mika Takahashi e a Bianca Pinheiro, criadora do fofíssimo Bear.

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O estúdio Majericção é formado por Yoshi Itice e Myle Silva. Yoshi e Mylle fizeram parte do estúdio LoboLimão, onde Yoshi manteve um site de webcomics e publicou quatro livros através de financiamento coletivo – eles sabem o que estão fazendo. 😉 Mylle também publicou um livro através do Catarse, o A Sala de Banho, que ela mesma encadernou e eu ainda estou tentando mesurar o trabalho sem fim que isso deve ter dado. O.O A idéia de escrever quadrinhos surgiu durante a CCXP, enquanto Mylle caminhava pelo Artists Alley (eu super entendo, aquele lugar estava puro amor).

A Mylle foi super querida e respondeu algumas perguntinhas pro Collant!

Eu fiquei bem animada quando vi o projeto a primeira vez! É muito legal ver uma personagem feminina invertendo os padrões de gênero. Como a ideia para a HQ surgiu?

Mylle: Então, sempre fui apaixonada por personagens fortes, verdadeiras guerreiras, como a Xena. Vi a série quando era pequena e a revi inteira recentemente enquanto estava disponível no Netflix. Num dia qualquer pensei como seria legal criar uma personagem guerreira, lutadora, destemida e, principalmente, sem ser sensualizada. Juntei isso ao fato de que gosto muito de cultura japonesa e decidi que a personagem seria uma Samurai. Pronto, já tinha a primeira semente, só adubei um pouco com pesquisa, contextualização e comecei a escrever.

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O título (que é muito legal, aliás) é A Samurai, por isso fiquei me perguntando se o roteiro tem inspiração no modo de contar história japonês. Tem uma pegada mangá, ou é mais ocidentalizado? Quais foram as influências para a construção da história?

Mylle: Como eu disse, sempre gostei muito de cultura japonesa – tanto que fiz um intercâmbio e morei em Tóquio alguns meses. Sendo assim, sou bastante influenciada pela literatura japonesa, principalmente pelos escritores Haruki Murakami e Yassunari Kawabata – além de mangás no geral. A intenção não é fazer um mangá, mas a história em si, tendo tanta influência da cultura e pensamento japoneses, se aproxima um pouco do que lemos nos mangás – força de vontade, ambientes fantasiosos, relações mais frias entre homens e mulheres e final em aberto são alguns aspectos muito presentes em quaisquer histórias japonesas.

Vocês têm vários artistas, com estilos bem diferentes, trabalhando no projeto, o que é uma ideia muito legal. O que a gente pode esperar do visual do projeto, da maneira como isso vai influenciar o roteiro?

Mylle: Olhando o trabalho de cada um dos artistas, vi o que cada um poderia oferecer, em como cada um poderia passar a mensagem que espero. Se é um capítulo de batalha, preciso de um traço mais fluído, se são memórias, preciso de desenhos mais delicados. A minha expectativa é que o leitor se encante durante a leitura, que cada novo capítulo seja uma nova experiência dentro da compreensão da história. O objetivo é fazer uma HQ envolvente, forte e encantadora.

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Eu fiquei bem interessada em quem a personagem é! Vocês podem falar mais sobre ela, e talvez um pouquinho da história dela? Sem grandes spoilers, claro!

Mylle: Michiko foi vendida ainda muito pequena para o okiya (a casa das gueixas) e foi treinada para se tornar uma delas. No período Edo (de 1603 a1868) era comum vender as meninas para esses locais. Elas não podiam sair de lá e eram treinadas para serem mulheres refinadas e habilidosas artistas que sabiam muito bem conduzir uma conversa sobre qualquer assunto. Mas Michiko tem um sonho: conhecer a própria família. Guiada por ele, ela quebra todos os paradigmas e decide se tornar uma guerreira, mesmo que para isso ela tenha que largar a vida de luxos que possui. Uma samurai que não deixa que a vida faça escolhas por ela, uma mulher que é dona do próprio destino.

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Se você ainda não se convenceu, corre lá no Catarse e assiste o vídeo que eles prepararam. As recompensas, sempre tão importantes nos projetos, também estão incríveis e você pode, inclusive, levar o quadrinho encadernado pela autora *_*.

Muito obrigada ao Yoshi e à Mylle pela participação aqui – e boa sorte!

Eu Li (E acho que você deveria ler também): Gata Garota, de Fefê Torquato.

Hoje começa uma série de posts em que faço reviews dos quadrinhos que recebi da Editora Nemo – e começo com Gata Garota (da fofura esbelta eterna – subtítulo que eu inventei agora), da Fefê Torquato.

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Sou de uma família de gateiros. Eu tenho um, minha irmã dois e minha mãe três – fora os que já passaram lá por casa mas que o tempo não deixou eles ficarem. Dos nossos seis gatos, quatro são pretos. O Darth Vader, meu gato, é tudo aquilo que um gato é: preguiçoso, brincalhão, assustado, corajoso, bravo, carinhoso, dengoso e folgado.

A Gata Garota é tudo isso também.

Quadrinho escrito e desenhado pela Fefê Torquato, Gata Garota conta a história de Gigi, uma pessoa-gato muito esperta que se transforma em gata-garota sempre que lhe é conveniente, seja para conseguir um afago de um estranho na rua, seja para conseguir que o jantar saia o mais rápido possível ou para torturar uma barata por horas. O começo da história narra acontecimentos cotidianos da vida de uma pessoa-gata, como as transformações dela afetam de maneira divertida e inconveniente as pessoas a sua volta, inclusive seu namorado humano, Danilo. Ao longo do livro vemos um pouco mais sobre esse universo curioso das pessoas-gatas, com alguns vislumbres da origem desse tipo de pessoa.

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É muito legal ver como a escritora não se apressa em estabelecer um universo em que todos os amigos de Gigi acham absolutamente normal ela se transformar em gato de uma hora para outra. Em determinado momento, logo no começo, fiquei na dúvida se ela era realmente uma garota ou só uma gata mesmo – e isso é parte da diversão. Eu estou constantemente identificando comportamentos assustadoramente humanos no Vader, como vir me chamar no quarto para assisti-lo comer. ¬¬

É muito legal ver a reação de Danilo aos costumes felinos da família da namorada, o estranhamento é construído de uma maneira divertida, com pitadas de humor sombrio como quando Danilo se depara com verdades do tipo “minha tia comeu seus filhotes”.

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Gata Garota é também uma história de origem. Nem Gigi parece saber direito, mas ela tem um potencial para ser heroína. Além de precisar lidar com a líder da família que pode estar enlouquecendo (alter ego muito engraçado da escritora), momentos de crise e perigo parecem se aproximar e a protagonista precisa começar a ver a vida além do seu mundinho fechado, desenvolver empatia e assumir responsabilidades que antes Gigi nem cogitava.

Eu já falei que amo o traço da Gata Garota? O quadrinho é muito lindo, as páginas são de tirar o fôlego e a opção por manter tudo em preto e branco ajuda a sustentar o tom sombrio/divertido do universo felino, ao mesmo tempo em que dá destaque para o design da personagem. A leitura passa muito rápido, então não se ache doida se você voltar desde o começo e passar as páginas mais três ou quatro vezes só para admirar o traço lindo da Fefê.

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Originalmente uma webcomic, o livro é o primeiro volume que compila as páginas já lançadas online. Você pode acompanhar o trabalho da Fefê pelo tumblr dela, e acompanhar as novas aventuras no tumblr da Gata Garota, enquanto espera (ansiosamente) pelo Volume 2. 😉

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Eu li (e acho que você deveria ler também): Mayara e Annabelle – HQ nacional com meninas incríveis!

meaDurante a Comic Con eu passei por um monte de quadrinhos e fiquei muito pobre. Era tanta coisa legal no Artists’ Alley que ficava muito difícil manter a carteira dentro da mochila – foram quatro dias intensos. Ainda tem muita coisa para se falar e se fazer review – e já fazem dois meses. XD.

De lá eu trouxe Mayara e Annabelle, HQ Nacional escrita por Pablo Casado com desenhos de Talles Rodrigues.

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Tem muita discussão sobre como adaptar o conteúdo sci-fi e fantasia para o Brasil, como fazer ele funcionar dentro de uma realidade nacional. Tem muito autor que, ao tentar adaptar super-heróis, bruxas e o sobrenatural, de maneira geral, falha porque ao invés de de fato tentar fazer a histórias e seus elementos fantásticos no nosso universo, parece apenas traduzir os nomes e as cidades, ignorando alguns contextos específicos da nossa cultura.

Mayara e Anabelle tira isso de letra.

tumblr_inline_nemrn6LXa71ssw44tNa história, as duas protagonistas são agentes da SECAF (Secretaria de Atividades Fora do Comum), um departamento para controlar, combater e previnir toda ameaça considerada, bom, fora do comum.

Mayara é a melhor funcionário da SECAF de São Paulo, mas depois de acusar o secretário local de ser um demônio, acaba transferida para a pacata (e termos de atividade demoníaca) Fortaleza. Lá ela conhece Anabelle, agente da SECAF local, bruxa, e que esta satisfatoriamente acostumada com a tranquilidade paranormal da cidade. Mas tudo está prestes a mudar.

Uma das coisas mais legais no relacionamento entre Mayara e Anabelle é que elas têm o mesmo clima de dupla de filmes de herói dos anos 80/90, e isso não muda só por elas serem mulheres. As piadinhas estão alí, com Anabelle tendo a língua solta e Mayara sendo a mulher de ação, e a dinâmica entre as duas é muito legal. Elas são alvo como Dennis Glover e Outro Cara em Máquina Mortífera, mas com demônios e em fortaleza.

Os desenhos são lindos, e as cores escolhidas criam um clima muito legal para a história. O roteiro é annabelledivertido, faz  o e se interessar pela história e pelo destino das personagens logo de cara. Em alguns momentos eu senti que a transição de tempo e espaço se perdeu um pouco, confundindo a leitura. Mas foram dois momentos, no máximo, e que não atrapalham a fluidez da história sendo contada.

Tanto a arte quanto o clima da história me lembra bastante a minha muita amada Lumberjanesrevista americana que eu já falei sobre um tempo atrás. Talvez seja o girl power que escoa das páginas, as personagens femininas que além de chutarem bundas são divertidas, a ação que funciona bem nos quadrinhos.  Na verdade, foi a semelhança estética com Lumberjanes que me chamou a atenção na CCXP.

A revista saiu pela Fictícia e pode ser comprada pela internet no site da própria editora, e eu achei na Livraria Cultura também!. E a compra mais que vale a pena!

Na minha revistinha diz que esse é o volume um, ente fico na espera pela continuação, acho que o quadrinhos tem muito potencial para uma longa série de histórias!

Quanto mais Mayara e Annabelle, melhor!

🙂