Kill it With Fire! – As camisetas misóginas da DC!

Ah! Os quadrinhos! Esse mundo legal cheio de coisas fantásticas e editoras sem noção! 🙂

Honestamente, a essa altura do campeonato eu não consigo achar que não é burrice. Juro. DC, como é que você me libera esse tipo de camiseta depois de assistir a Marvel se queimar com a falta de Gamora nos brinquedos e nas linhas de roupa, levar chumbo grosso por ter escolhido o Manara para desenhar aquela merda de capa e, principalmente,  assitir a PELA MESMA COISA no ano passado?

Via Comic Book Resources e The Mary Sue

Mas porque isso é um problema?

Score, para quem não sabe, quer dizer que o Supermam marcou mais um ponto ao pegar a Mulher-Maravilha. Eu nem sei por onde começar direito. Será o fato de que, mais uma vez, vemos uma personagem de alto calibre ser diminuída ao nível de objeto sexual de um personagem masculino? Será porque esse primeiro ponto só torna mais incrivelmente claro que as nossas personagens só existem, aos olhos das editoras, como caça-níqueis de leitores punheteiros?

Ah! Achou esquisito o braço da Mulher-Maravilha? É porque a imagem foi tirada da capa de uma revista com uma história romântica, focada no público feminino, já que a gente não quer ler histórias que não tenham amor. O laço, eles devem ter tirado porque se pá não ia pegar bem o Superman amarrado pela Mulher-Maravilha.

A segunda camiseta, é um outro tipo de problema. Existem namoradas de caras que gostam de quadrinhos que usariam essa camiseta? Sim, e elas tem todo direito de querer usar. Mas essas camisetas fazem parte de uma coleção junior, ou seja, estamos vendendo roupas que vão ensinar às nossas meninas que elas podem almejar ser a esposa do protagonista. Nada mais. Estamos colocando na cabeça dessas crianças um senso de inferioridade desde pequenas. E DC, caso você não saiba, O BATMAN NÃO É CASADO!

Porra. Acorda pra vida.

Editoras, se vocês querem mesmo que o público feminino continue apoiando, lendo e comprando os seus produtos, tá na hora de revisar a política de licenciamento da casa. Fica a dica.

(Caso você queira saber há quantos dias a DC não faz alguma merda, esse contador é incrível: Has DC done something stupid today?)

Super-Heróis que mudam: porque Thor mulher e Capitão América negro são importantes e necessários.

Polêmica tem sido um ponto muito forte nos últimos tempos para a indústria da cultura Pop, e o feminismo parece estar sempre envolvido. Seja por gritarmos por um filme solo da Mulher-Maravilha (e fomos escutadas), seja por reclamarmos de uma capa sexista ou por sermos atacadas por criticarmos uma cultura misógina num meio que amamos. Mais espaço e melhor representatividade para as personagens femininas é uma luta que vem muito antes de mim e talvez de você, e é muito bom ver nossas vozes sendo escutadas.

a thor

O mesmo acontece com o aumento da diversidade racial nos quadrinhos. Capitão América agora é negro e Miss Marvel é uma adolescente americana de origem afegã, como não amar essa onda recente de empoderamento de minorias? E o primeiro ator abertamente gay a assumir um papel de super-herói? Está longe de ser o ideal, mas o começo de uma mudança pode ser vista e isso é algo muito positivo.

Alguns dizem que é uma fase e que vai passar, em pouco tempo tudo vai voltar à mesma normalidade padrão de sempre, que a indústria está fazendo isso tudo por dinheiro, pra satisfazer uma parte do público. Para essas pessoas eu digo: e você acha que Psylock usava uma maiô cavado daquele jeito porque? Praticidade não era. Não, era pra seduzir o então público, garotos/homens heterossexuais, a comprar as revistas. E nós, mulheres e minorias, somos mercado, e queremos sim ser vistos como mercado e queremos nos ver representados nos quadrinhos, filmes e séries de televisão.

Particularmente, acho que essa onda de empoderamento que anda rondando a cultura pop de maneria geral é algo que veio para ficar e que representa uma mudança positiva do cenário social de maneira geral. Não dá mais para negar a diversidade da sociedade em que nós vivemos, não dá mais para achar que tudo é branco, cis, hetero e masculino. Tudo é misturado e tudo é lindo. É quase o começo de uma filme de ficção científica em que a sociedade é uma grande loucura de diversidade de sexualidade, gênero, cor e tudo mais.

Mas o quê da questão aqui é: Porque é importante mudar a etnia e o gênero de personagens famosos? Por que não criar novos personagens?

Sam Wilson

Vamos pensar em todos os super-heróis mais famosos, aqueles que tiveram filmes, séries de televisão, quadrinhos e merchandisings de sucesso, e há quantos anos eles foram criados. Superman, Batman, Mulher-Maravilha, X-men, Homem-Aranha, Capitão América, Hulk e Thor. Todos criados em uma época de segregação racial muito forte, em que o papel da mulher era o de dona de casa ou parte da decoração, em que minorias não era um assunto tão abertamento discutido como hoje em dia.

X-men possui uma diversidade bem interessante que foi incorporada através dos anos, mas dos seus principais personagens, aqueles que são mais presentes nos filmes, merchandisings, desenhos e etc, só Tempestade é realmente parte de uma minoria – e o número de mulheres é sempre inferior a de homens, assim como na Liga da Justiça. Nota-se também que, com exceção de liberdade, todos são brancos. Todos são, serão ou foram protagonistas de pelo menos um filme solo – se não ganharam três franquias nos últimos vinte e cinco anos! Batman, eu estou olhando pra você.

São esses personagens icônicos que vão morrer, voltar a vida, morrer de novo e mais uma vez serão ressuscitados para mais uma vez morrerem. E em todas essas vezes eles serão lembrados mesmo quando estiverem “mortos de verdade” (vide, Jean Grey). Eles são os personagens que antes mesmo de sabermos falar sabemos que existem, eles nos acompanharam desde a infância, e continuam fazendo isso com as crianças de hoje.

Esses ícones do mundo pop precisam ser o parâmetro para uma mudança.

Eu não estou dizendo que um dia você vai acordar e descobrir que o Homem-Aranha é um moleque latino, e que a série dele tá fazendo o maior suces- oh! Pois é. E ela faz tanto sucesso não só porque as histórias são divertidas e atraentes, mas também porque ao ir na banca e ver que o super-herói que ele tanto ama é latino como ele, o menino vai se sentir mais próximo e mais inclinado a comprar. As experiências dele vão ser mais próximas da dele, a visão do personagem vai ser mais próxima das nossas.

morales

A internet foi a loucura quando quando Michal B. Jordan foi anunciado como o novo Tocha Humana no reboot de Quarteto Fantástico. Eu achei incrível, especialmente porque os escritores parecem não ter sentido a necessidade de explicar como pode Johnny ser negro e Susan branca. Essa é a realidade da nossa sociedade, galerinha. Ela é plural. E qual o real problema de um personagem branco no quadrinho ser negro no cinema? E se o personagem branco, depois de mais uma nova reestruturação da linha temporal da DC ou da Marvel, passasse a ser negro/latino/asiático ou de qualquer outra etnia? O personagem continua o mesmo. A verdade é que esse foi um passo bastante ousado, mais do que passar o manto, os envolvidos em Quarteto Fantástico decidiram tomar uma atitude em favor da diversidade.

Personagens como Superman nunca vão deixar de ser o cara branco de cabelos castanhos e olhos azuis – eu pelo menos acho que não. Passar esse manto a diante não é simples e ele não possui uma história que pode ser trabalhada ao redor como a do Capitão América ou do Thor. Mas Bruce Wayne já passou as orelhas pontiagudas pelo menos sete vezes – todas para personagens masculinos. Claro, nós temos a Batwoman com uma série própria que rendeu vários elogios, mas ela não é o Batman, e muita gente nem sabe que a Batwoman existe. Mas John é um dos Lanternas Verdes mais queridos, e fez um sucesso estrondoso nas séries de animação para a televisão da Liga da Justiça!

Passei alguns bons anos afastada dos quadrinhos por cansar da misoginia, da falta de representação e da redundância das histórias. Foi gradual, mas eu acabei perdendo o interesse aos poucos. Me chamem de fraca, mas é a real. Acompanhava de longe, pela internet, mas sem nunca realmente adentrar, já que era algo que me incomodava. Até recentemente, quando essa nova onda de quadrinhos me fez voltar – hoje corro atrás do prejuízo, mas não me arrependo de ter me afastado de algo que me fazia mal.

Quando discuto essas mudanças nos personagens de super-heróis dois argumentos sempre aparecem: “as histórias são universais, todo mundo pode se identificar com elas” e “não faz sentido mudar o gênero/etnia/sexo de personagens clássicos já estabelecidos, criem outros personagens”.

Histórias são universais até um certo limite. Sim, todos nós dividimos a dúvida do que acontece após a morte, temos inseguranças inúmeras, sofremos agressões, nos apaixonamos, levamos e damos pés na bunda, sofremos com a nossa condição humana. Mas nós não somos iguais, não temos o mesmo background, não temos a mesma cor, não dividimos o mesmo gênero, não sabemos o que se passa por baixo da pele da outra pessoa.

miss marvel

Eu sou branca, classe média, hetero e cis, eu sei que quem não se encaixa nesses padrões passa por opressões que vão além do machismo de todo o dia, eu sei que uma mulher negra, classe média, hetero e cis cresceu com experiências diferentes que a minha, mesmo muitas vezes dividindo os mesmos espaços. Assim como eu me canso de ver sempre as mesmas histórias sobre homens, ela deve se cansar de ver sempre as mesmas histórias sobre homens e mulheres brancas. Entende? A universalidade das histórias possui um limite, ela pode falar com todos num nível “espiritual”, mas quando todas as histórias são sobre pessoas diferentes de você, meio que fode o rolê.

Criar outros personagens não supre as vantagens que os personagens como Thor e Capitão América, assim como os outros já citados antes, dão para a representação do padrão cis, hetero e branco. São personagens que estão inseridos na nossa cultura tão a fundo que mesmo se você não lê quadrinhos você sabe que eles existem. São ícones dos quadrinhos de super-heróis e por mais que um outro personagem seja criado, por mais que um novo super-herói que não se enquadre neste padrão inventado há tantos anos, faça um sucesso estrondoso, eles nunca serão substituídos. Eles possuem um lugar cativo no imaginário cultural e, apesar disso, representam uma parcela muito pequena de uma sociedade incrivelmente plural. Por isso, quando um deles muda de gênero, orientação sexual ou etnia é tão importante e tão forte.

Cada vez mais me fica claro que a grande dificuldade do mundo é o branco perder o privilégio. Na verdade, não é perder, é dividir. É aceitar que se você pode esperar que o seu amigo de etnia/sexo/gênero/orientação sexual diferente se identifique com um personagem que é diferente dele, você também deveria ser capaz de se conectar com o mesmo personagem, apesar dele não ser mais uma cópia melhorada sua.

Particularmente eu tenho uma queda por mulheres chutando bundas, independente da etnia, se é hetero ou homo, se é cis ou trans. Eu ainda adoro o Super-Homem e suspiro pelo Gambit, mas quanto mais personagens femininas ganham espaço, mais eu me sinto novamente atraída aos quadrinhos de super-heróis. Thor agora ser mulher me fez pegar uma revista pela qual eu nunca tive interesse, apesar de ter assistido aos dois filmes e – não me julguem por isso – ter adorado os dois.

Fofura extrema via The Roarbots

Então, sei lá. Se pá é legal a gente olhar ao redor, notar quais são os nosso privilégios e ao invés de tentar achar desculpas para se prender a eles, abraçar os outros fanboys e fangirls que estão a nossa volta e curtir a vibe nerd da diversidade juntos. <3

KAIJU – Animes e Mangás: Ao Haru Ride!

Hoje começo uma série de textos sobre animes e Mangás, a secção vai se chamar Kaiju – Animes e Mangás e, assim como faço com textos de cinema e quadrinhos, vai ter um olhar feminista.

Animes e Mangás foram presença marcante durante a minha infância, adolescência e o começo da minha vida adulta. Meu primeiro anime foi Cavaleiros do Zoodíaco, na TV Manchete, e meu primeiro mangá – que nem é considerado mangá mesmo – foi Fushigi Yuugi, a história de uma garota que era transportada para o mundo dentro de um livro. Era um dos poucos que chegava direto na banca em Coqueiral e foi a única coleção que consegui fechar de mangás. A partir daí

Fiquei uns anos sem realmente assistir ou ler mangás e animes, mas depois de Attack on Titan este ano acabei voltando. Vou falar desse anime lindo-traumático-da depressão-foda-desesperador em outra ocasião. Para começar o Kaiju escolhi uma recente obsessão/guilty pleasure:

Ao Haru Ride (Blue Spring Ride), de Sakisaka Io.

ao haru 1

Aviso que o texto possui alguns leves/médios spoilers. 🙂

Eu queria assistir algo leve, tirar a cabeça dos problemas de adultos, das pressões do dia-a-dia, do mundo de maneira geral. Ao haru (ou Ao Haraido, como algumas pessoas falam pela internet), começou a ser lançado como Mangá em 2011 (a última edição sai no próximo mês lá no Japão) e este ano ganhou uma versão Anime de 12 episódios.

futaba

A história acompanha Yoshioka Futaba, uma estudante do ensino médio (High School) que reencontra um antigo amor, Tanaka Kou, e precisa aprender que nem tudo pode ser como antes já que Kou – e ela mesma – mudaram. Futaba é uma heroína que foge um pouco dos pontos mais clássicos das heroínas de Shojo Mangá, ela não é necessariamente desastrada, e nem ruim na escola, ela não é super fofa e nem especialmente delicada. O caminho de Futaba durante a série é interessante, há um desenvolvimento da personagem – e uma aceitação dela sobre quem ela é – bem claro, e que reflete no relacionamento dela com Kou. Vale mencionar que ela passa a questionar o quão positivo é o relacionamento conturbado dos dois é, mostrando de uma maneira interessante para as jovens leitoras que nem sempre aquele que você acha ser perfeito é um cara 100% legal.

kou

De muitas maneiras Kou divide o protagonismo como Futaba, já que nos aprofundamos muito no background do personagem, mas é de Futaba que vêm os beats mais interessantes na representação feminina no mangá/anime. Kou é um personagem muito interessante que caminha numa linha tênue entre o clássico “galã boderline abusivo” dos mangás e um personagem realmente bem construído. Na minha opinião, a escritora consegue acertar os pontos certos na maioria das vezes, tornando o personagem mais positivo que negativo.

ao haru 2

A história bate em pontos muito comuns dos animes shojo, o contexto da história não é exatamente inovador e mesmo os romances e personagens se encaixam de alguma maneira no padrão para esse tipo de história. Mas ainda sim a autora consegue alguns avanços muito importantes no modo como conta a história, e nos temas que busca abordar. Não quero falar demais para que vocês assistam/leiam!! 🙂

yuri futaba

Sororidade é algo que não se vê com muita frequência quando um dos plots, seja de qualquer produto cultural que for, envolve duas garotas se apaixonando pelo mesmo cara. Em Ao Haru Ride, sororidade escorre pelas páginas do mangá. A melhor amiga de Futaba é Yuri Makita, garota fofa, sempre arrumadinha e delicada – o extremo oposto da protagonista. Logo no começo da série, quando Futaba ainda está tentando entender o que o reencontro com Kou significa, Yuri se apaixona por Kou e conta para a amiga. O caminho de Futaba e Yuri torna-se então tentar equilibrar os sentimentos de cada uma e manter a amizade. É tão incrível ver uma amizade feminina retratada de maneira tão positiva, especialmente quando ela é cortada por um homem. Esse é um dos pontos altos da narrativa da série.

Mas o tema de competição feminina não para por aí. Futaba, durante o middle school (algo como nosso ensino fundamental), era como Yuri: fofa, sempre arrumadinha, delicada e todos os garotos a adoravam – mas todas as meninas a detestavam. A competição que nos impõem desde pequenas é um tema recorrente no mangá, e é tratado de maneira delicada e muito interessante. Futaba decide deixar os padrões de lado para que possa fazer amizades com meninas durante o Ensino Médio, e acaba descobrindo quem ela realmente é ao solta-se dessas amarras que a sociedade machista japonesa impõe às meninas – todas precisam ser Kawaii (fofas).

Esse tópico me lembrou deste texto, em que a autora fala sobre como mulheres japonesas estão pintando os cabelos como maneira de prevenir o assédio nas ruas. Triste, mas muito interessante.

dois ao haru

Nem só de acertos vive um mangá/animé, no entanto. Exite uma quantidade razoável de homenxplicação, mas nada que estrague a história. Em um momento complicado lá pela edição/episódio 9 que envolve Kou dizendo a Futaba que “ela precisa tomar cuidado por onde anda porque é uma garota” que é um tanto creepy, mais pela maneira como ele diz do que pela mensagem. Há também uma paixão platônica de aluna por um professor jovem que, apesar de sentir muito desnecessária, não é algo que me incomodou muito, talvez pelo modo como foi trabalhada.

Outra coisa que faz falta em Ao Haru, e na grande maioria dos animes em geral, são meninas com corpos diferentes. Todas as garotas – e para ser justa, neste caso, todos os homens também – são magrinhas e esguias, o padrão Anime/Mangá. Seria interessante ver um pouco mais de diversidade não só de corpos, mas de sexualidade também, Ao Haru é um dos poucos animes que assisti que não tem algum personagem que não faze parte de alguma minoria específica, seja homossexual ou transexual. Até Maid Sama! Coloca esse tópico em discussão.

Os desenhos do mangá são muito bonitos, e o anime mantém a mesmo traço, mas utiliza pintura em aquarela (ou que simula aquarela) os flashbacks, o que acrescenta detalhes muito bonitos e ajuda na narrativa da história. As doze primeiras edições e os doze primeiros episódios são muito similares, e a equipe de animação faz um trabalho incrível de transposição dos quadros para a animação.

Ao Haru Ride trata de temas adolescentes como primeiro amor, desilusões, autoconhecimento e da pressão social tanto para as garotas como para os garotos. É um anime/mangá romântico, dramático e com humor com temas interessantes retratados de maneiras positivos. Vale ler e assistir! 🙂

https://www.youtube.com/watch?v=pSr1WTaFu0o

PS: O mangá e a primeira temporada do anime fizeram bastante sucesso no Japão, tanto que em meados de dezembro sai o longa Live Action baseado no mangá/anime.

Garotas, nerdices e o ódio da internet.

Videogames nasceram dentro de uma sala de computadores na década de setenta. É uma coisa muito louca, em que pessoas inserem números no computador e aparecem mundos lindos e divertidos pra gente apertar botões físicos e fazer o personagem digital pular. É lindo, é violento, é aventureiro, é inovador, é divertido, é sangrento, é mágico, pode até ser feio e também pode ser considerado arte. A única coisa que as pessoas não querem é que mulheres façam parte da parada.

Existem muitas – muitas mesmojogadoras de games online e offline. Existem muitas mulheres que trabalham na indústria, seja indie ou mainstream, como programadoras, roteiristas, designers, criadoras e afins. Existem inclusive várias personagens femininas nos mais diversos games. Mas, por alguma razão, toda vez que uma de nós dá uma opinião, ou mesmo produz alguma coisa, a comunidade online se agita e parte para uma onda de ódio que vai do mais puro e simples machismo nosso de todo dia até ameaças com perigo real à vida de quem ousou falar alguma coisa. Tá difícil ser mulher no mundo dos games hoje em dia.

Anita Sarkeesian, criadora da série de vídeos-maravilha Feminist Frequency, foi escrutinada e ameaçada depois que seu último vídeo, Women as Background Decoration (Part 2), foi lançado. A moça já estava acostumada a esse tipo de ódio, mas desta vez a divulgação de dados pessoais tornou tudo muito pior e o perigo se tornou real. Zoe Quinn, criadora do game ganhador de vários prêmios, Depression Quest, vem sofrendo com cyberbullying desde o lançamento do jogo no Steam. Mais recentemente, criou-se um hashtag chamado #GamersGate (uma alusão a Watergate), que tem a intenção de denunciar o jornalismo de games que é comprado. É claro que essa não é a real razão para a criação desse hashtag. Ele foi criado para ridicularizar, humilhar e expor Zoe depois que um ex-namorado resolveu slutshame a ex na internet, dizendo que ela dormiu com os jornalistas que falaram bem do seu game. De praxe, né, gente? A mina faz um game sobre como é viver com a depressão e o ex babaca resolve insultá-la e espalhar mentiras pela internet – mesmo sabendo o que as suas ações poderiam ocasionar.

CoL5

Zoe é guerreira e acabou dando a volta por cima. As acusações, ameaças e o ódio ainda a perseguem, mas ela criou um outro hashtag, #GameOverGate. Depois de três semanas recolhendo informações em fóruns online, ela expôs o mirabolante esquema de difamação que foi criado para humilhá-la. É difícil acreditar que esse tipo de coisa/gente exista, parece coisa saída de filmes sobre hackers, mas a ficção se espelha na realidade. Agora o caso está nas mãos do FBI e a gente torce para que os babacas que fazem essa merda toda sejam condenados.

Há uma coisa que me chama em especial a atenção quando falamos sobre esse tipo de ataque online. Sempre que alguém na internet faz uma merda dessas dizemos que são adolescentes e moleques. E por mais que eu acredite que adolescentes são muito bons com computadores, e que eles sejam capazes de fazer esse tipo de coisa, acho também que tá na hora de parar de assoprar no cartucho e dizer que tá limpo. Eles, os adolescentes, não estão sozinhos. Há caras adultos fazendo merda na internet, há membros do MRA (Men’s Right Ativism), há adultos babacas misturados nesses sites. Chamar de moleques as pessoas por trás de ameaças de morte e divulgação de dados pessoas, para que fique mais fácil estuprar, matar e abrir a vagina de uma mulher até ela rasgar, é fazer pouco caso. Há adolescentes? Sim. Mas eles não estão sozinhos, e não devemos passar a mão na cabeça deles.

Zoey Quinn fala um pouco sobre como é ser a pessoa mais odiada da internet.

Esses mesmos caras que se recusam a aceitar mulheres na comunidade gamer/nerd são os caras que se matam de rir quando acertam socos na mulher raptada do GTA, quando atiram no corpo morto de uma NPC, que não se importam – e talvez até se masturbem com a imagem – que o corpo feminino sem vida seja constantemente abusado e sexualizado nos games mais violentos. É por causa desses caras, e porque mulheres também são seres humanos, que precisa haver uma mudança no modo como os games veem e utilizam as personagens femininas – jogáveis ou não.

Claro, eu sei que muitos de vocês, gamers e desenvolvedores, não são assim. Mas o que esperar de uma comunidade que a cada semana parece lutar para excluir e destruir qualquer um que tenha opiniões diferentes? Phil Fisher, criador da fofura extrema FEZ, abandonou os games porque cansou da internet e dos gamers. Não estou dizendo que ele era o santo do cartucho maluco, apenas que um cara que dedicou muito tempo na construção de um dos games de maior sucesso dos últimos anos foi embora porque a comunidade gamer de ódio venceu. Mas esse ódio não é algo que acontece apenas nos games.

Mulheres sofrem com a misoginia em praticamente qualquer ambiente nerd. Nos últimos meses vimos uma enxurrada de casos em que criadoras sofreram com o assédio de seus colegas e superiores. O padrão quando elas resolvem falar sobre o assunto é sofrerem como Zoey e Anita. Desenvolvedoras de games, desenhistas e escritoras foram assediadas e, depois de reportarem os seus casos, sofreram bully online. Suas vidas são expostas, julgadas e ameaçadas por fãs. Elas temem pela sua posição profissional, elas temem a exposição que o caso terá. Quando reclamamos das capas sexualizadas do Manara, somos chamadas de feminazi para baixo. Quando reclamamos do assédio e da misoginia, somos vadias.

ww 1Cresci amando ficção científica, quadrinhos, livros, filmes, séries e videogame, mas mesmo assim sempre há uma barreira entre eu e o universo nerd porque eu sou mulher. É um porre, irritante, machista e arrogante. Quando eu era mais nova, achava que esse universo era acolhedor e divertido. Não tinha muitos amigos no colégio que dividissem esses interesses comigo, talvez um ou dois. Mas um grupo de alunos mais velhos, que eram aficionados por animes e mangas, me fazia achar que todo mundo era que nem eles: legais, de boa, amigáveis. Eu estava errada.

Ao contrário do que a minha ingenuidade queria acreditar, eu me deparei com uma comunidade que me odeia porque eu sou mulher e tenho uma opinião. Algumas semanas atrás, durante a crise Manara/Marvel/Mulher-Aranha, eu escrevi um texto sobre o absurdo que era aquele desenho existir. Os comentários nos lugares onde o texto foi compartilhado foram tão bonitos quanto você pode imaginar. O texto um rant que saiu de um lugar de raiva. Quando eu era mais nova, eu curtia muito quadrinhos americanos de super-heróis. Eu gastava boa parte do meu dinheiro na banca e nos sebos, montando uma biblioteca particular da qual eu tinha muito orgulho, até eu me desencantar e cansar dos estereótipos das histórias e dos desenhos.

Peitos maiores que cabeças, cinturas onde não caberia nem o menor dos rins, bundas que provavelmente causariam um problema de coluna. As editoras estavam pouco se fudendo para o que eu achava sobre como as mulheres eram retratadas – por que eu me importaria com eles? Eu cansei e parei de comprar. Tudo à minha volta me dizia que nesse meio as mulheres serviam apenas para serem mortas, serem escada para personagens masculinos, sexualizadas, idealizadas, tudo para que o verdadeiro público das editoras gastasse os quilos de  kleenex no escuro do seu quarto. Hoje o cenário mudou e, ao que tudo indica, as editoras se deram conta de que nós somos público. Ainda está longe do ideal, mas é importante lembrar desses passos que estão sendo dados agora, para que eles se estabeleçam e cresçam.

MirrorsEdge

De novo, eu sei que nem todos os garotos nerds são nerds imbecis e punheteiros, e que alguns de vocês vêm tentando mudar. Ei! Eu adoro nerds. Eu sou uma e nunca tive problema nenhum em dizer que gosto das coisas que gosto. E também não tenho nada particularmente contra você utilizar a sua mão para – você entendeu. Eu só estou cansada de escutar essa ladainha de que a gente faz tempestade em copo d’água. Que ameaça na internet não é realidade. Fala isso pra todas as pessoas que já sofreram, foram mortas ou se suicidaram depois de cyberbully.

A internet nerd quer me dizer que os games e os quadrinhos eram antes um lugar em que os caras iam para se sentir seguros, onde não tinha meninas, onde eles podiam agir como quisessem. Ninguém tá te colocando contra a parede. E francamente, esse papo de que games e quadrinhos sempre foram clube do bolinha é a maior merda que eu já escutei. A minha mãe, antes de eu nascer – e talvez antes de muitos de vocês nascerem também –, jogava videogame. Ela deu para minha irmã, no aniversário de um ano dela, um Intellivision. Eu disputava o controle com a minha mãe durante os horários de almoço e no começo da noite. Ela lia quadrinhos quando criança, eu lia quadrinhos quando criança. Meu nome não é Rebeca por causa da bíblia, é Rebeca por causa de um quadrinho.

Então, por mais que você queira que a gente junte as nossas trouxas e vá embora; por mais que você ameace e humilhe aquelas que fazem parte tão ativamente da criação nerd e a quem olhamos com tanta admiração, se acostuma, colega. A gente já tava aqui desde o começo – você que nunca tinha notado. 😉

Nova Batgirl: Preview (errado) das dez primeiras páginas!

O que você fez essa madrugada? Eu li as dez primeiras páginas da nova revista da Batgirl! Dormir é para os fracos. (Minhas olheiras não vão concordar com isso amanhã…)

Essa reedição de uma heroína clássica causou um certo alvoroço no mundo dos quadrinhos alguns meses atrás quando saíram as primeiras imagens do novo uniforme. Enquanto alguns gritaram de ódio porque a capa da revista via uma das personagens mais inteligentes da DC tirando uma selfie no banheiro e outros só conseguiram notar o quão incrível é o uniforme novo.

Eu fiz parte dessa última leva.

Pra encurtar a história: O uniforme é prático, possui bolsos de apoio, uma aparente mobilidade que também leva em consideração a necessidade de proteção, é fofo :3, botinas amarelas, remete às cores clássicas do universo Batman e… Não é sexualizado! Viu, Manara/Marvel? Tem como não amar? <3 O próprio desenho lançado pela desenhista Babs Tars já deixa bem claro o que ela queria dizer com o re-design. Ele fez tanto sucesso que assim que foi lançado a internet se encheu de fanarts!

batgirl

Ontem foi o último dia para as lojas especializadas fazerem o pedido da revista, e por isso eles mesmo liberaram um preview de dez páginas da revista! No entanto, o Cameron Stewart (escritor da revista) já avisou que esse preview é bem diferente do que vai ser lançado no mês que vem.

Caso você, como eu, ainda queira matar a curiosidade, corre matéria do Bleeding Cool sobre o preview dá uma lida. Mas depois volta!

Voltou?

Eu não sei o que eles acham que há de tão errado nesses quadrinhos que eles sintam que não está correto. Logo nas dez primeiras páginas já é possível ver temas que são muito importantes e atuais no que diz respeito a ser mulher. Olhem essa primeira página:

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Wow. Oito quadrinhos e nós já temos pelo menos três temas animais:

  1. Alysia, ex-roomate de Bárbara, que além de ser uma mulher trans, é ativista e não pode comparecer a festa naquela noite porque vai protestar contra um cara babaca que—
  2. Descobriu o telefone celular dela após um outro protesto apenas para mandar uma mensagem que muito provavelmente é um dick photo.
  3. Esse mesmo cara possui um site chamado Black Book, que já soa como um antro de machismo (e slut-shaming) e, pelas pistas que a gente vê na capa, vai fazer parte de pelo menos o primeiro arco de histórias.

Depois, nós vemos Bárbara aparentemente muito confortável com a sua sexualidade. Ela conhece o cara com quem estava se amassando na noite passada e por mais que fique sem graça por não lembrar o nome dele (Troy), não aparenta se arrepender ou se culpar. O fato dela não se lembrar – e o vômito já ná página 8 – nos leva a crer que Barbara sabe festejar e ela não quer saber a sua opinião sobre isso. <3 Quem nunca acordou de ressaca e depois teve que lutar contra o crime, minha gente?

Além disso temos uma breve apresentação da atual situação acadêmica/financeira de Bárbara através da leitura de e-mails, o que ajuda a dar um pouco mais de profundidade a história da personagem nas páginas iniciais. Prepara para o que vão ser os problemas pessoais dela, enquanto o encontro com a Canário Negro não só retoma assuntos mal-resolvidos, como também inicia o primeiro conflito da Batgirl na revista.

Aqui tem uma entrevista bem legal com a desenhista.

E o Tumblr dela  e do roteirista!

cover

Por mais que sejam dez páginas cheias de vitória, ainda é cedo para saber se esse tom vai realmente se manter ao longo das deus-sabe-quantas edições a equipe criativa vai durar. E vale ressaltar que alguns dos questionamentos inciais são muito válidos: Alycia é uma personagem muito querida pelos fãs, e o afastamento dela tem causado desconforto, já que ela foi a primeira personagem trans de destaque criada de maneira proposital nos quadrinhos contemporâneos. A equipe por trás da revista reiterou algumas vezes que manter a diversidade é uma das principais preocupações deles. Agora é esperar e ver como Barbara Gordon vai se sair!

Particularmente,eu não sei o que pode estar errada nessas dez primeiras páginas, mas essa revista me deixou com vontade de voltar a passar na banca toda semana. 😉

Não, desenho mal feito não é a mesma coisa que sexualizar personagens femininas.

Ok, galera, vamos lá.

Essa imagem aí de embaixo surgiu na internet primeiro numa versão em inglês e depois nessa versão em português. Até a versão em inglês eu não ia falar nada, mas como, claro, fanboys machistinhas resolveram traduzir e agora ela não para de aparecer na minha timeline, resolvi mostrar algumas razões básicas do porque essas duas imagens não são as mesmas coisa.

merda

  1. Personagens masculinos de quadrinhos não são super sexualizados como as personagens femininas.

Não, colega. O Superman e o Batman serem super fortões, com tanquinho e bunda no lugar não é sexualizar o personagem. É um outro tipo de opressão que o machismo cultiva: a hiper-masculinação. Ou seja, o leitor que não se assemelha ao padrão super-herói pode se sentir oprimido por esse padrão, que faz parte da cultura da nossa sociedade de ligar força físca com ser homem. Durante séculos os homens vêm sofrendo com essa influência negativa e, claro, descontando nas mulheres.

  1. Sexualização vs. Desenho mal feito

Olha, existe uma diferença entre não saber desenhar uma anatomia humana de maneira que ela fique coerente, mesmo o Aranha sendo super flexível, e propositalmente desenhar uma personagem de modo que sua bunda esteja tão pra cima e as pernas tão abertas que você não somente consegue ver a marca da calcinha fio dental (porque, claro, essa é a opção de toda super-heroína ¬¬) como também deixa em evidência a divisão entre as duas nádegas. E, mano, eu sei que você sabe disso.

  1. Milo Manara

Milo Manara é um quadrinista Italiano especializado em arte erótica. Ele costuma ser muito reconhecido pelo seu trabalho nessa área. A culpa que ele possui é por ter feito um trabalho que além de ser espelho do próprio trabalho anterior parece esquecer que mulheres também precisam de nariz. Infelizmente a Marvel tem uma tradição de trazê-lo para o lado não-erótico dos quadrinhos para desenhar personagens femininas de modo sensual. A culpa por essa capa, em quase toda sua totalidade, é da Marvel que contratou alguém para sexualizar a personagem principal de uma revista que poderia ter muito apelo ao público feminino, mais uma vez demonstrando que o mercado de quadrinhos ainda é machista e prefere dar atenção a meninos punheteiros e não a meninas que só querem ler uma revista com uma personagem feminina legal e bem desenhada.

  1. Esta é uma capa extra, não é a original.

É eu sei, parece que deveria ser uma coisa positiva, mas não é. O fato desta ser uma capa extra é negativo por que quer dizer que a Marvel foi atrás de um desenhista que fosse sexualizar a personagem de modo que os tais fanboys punheteiros quisessem gastar dinheiro com uma revista com personagem feminina. Além de ser uma posição incrivelmente machista por parte da Editora, diminui vocês, caras, ao nível de moleques adolescentes que tem um braço mais forte que o outro. Eles acham que um cara não é capaz de ler e se interessar por uma personagem feminina, mesmo que ela seja tridimensional e tenha uma história legal. Além de depreciar uma personagem feminina a editora também deprecia vocês e, junto com o nº1, ajuda a dar continuidade ao ciclo de machismo na cultura pop.

Com certeza existem outras razões pelas quais as duas não são a mesma coisa. Mas na minha indignação e pressa para terminar outros projetos vou ficar por aqui.

Flw. Vlws.

Kill it with fire: A capa da edição nº1 de Mulher-Aranha.

Ah, Marvel. Eu te amo, mas você faz ser tão fácil te odiar de vez em quando.

O que você espera da capa de uma primeira edição de uma revista em quadrinhos? Vamos ver alguns exemplos:

Screen Shot 2014-08-20 at 8.05.26 PM

Personagens centralizados, talvez em posições de batalha, cercado de inimigos, em uma posição de poder ou heroica. Sim, talvez algum trabalho estético mais “refinado”, como as edições de Elektra.

 O que você não espera em uma capa de HQ de super-herói, no caso a Mulher-Aranha (Jessica Drew) é isto:

SpiderWoman1MiloManara
Ahm… Isso não é uma roupa, é pintura corporal.

Milo Manara é um artista italiano conhecido por suas HQ’s pornôs. Ele é mundialmente reconhecido e desenha coisas bem legais sim. Infelizmente ele foca-se principalmente no corpo feminino, sempre sexualizando a personagem que estiver desenhando, independente do que ela esteja fazendo. A loucura é tão grande que a capa nem é original, e tem grande similaridade com um outro quadro dele. É importante lembrar que esse tipo de arte é a marca registrada do artista e, por mais que eu considere um desfavor desenhar super-heroínas desta maneira, a culpa não está única e exclusivamente em Manara. Na verdade, ela está em sua quase totalidade na editora que contratou um artista cujo trabalho faz um desfavor aos seus personagens femininos.

Manara já fez outros trabalhos para a Marvel, incluindo uma edição inteira das mulheres de X-men, para a qual eu realmente não tenho palavras. A revista existe única e exclusivamente para que garotos e homens possam bater punheta enquanto olham as suas personagens favoritas se banhar num riacho. No site da Marvel tem algumas das artes que ele fez por contrato. Na galeria há um personagem masculino, o Noturno, que não está nem um pouco sexualizado, claro. Estão lá também uma coleção completa de personagens femininas que estão invariavelmente em uma (ou mais) dessas posições: pernas abertas, bocas abertas, peito inclinado para frente, bunda projetada para trás.

A Marvel tem um histórico de personagens femininas legais, principalmente com as mudanças recentes, que fizeram fãs machistinhas tremer na base. Thor agora é uma mulher, Carol Denvers é Capitã Marvel, uma formação X-men inteira de mulheres, Gamora em Guardiões da Galáxia e etc. A própria capa da primeira edição de Elektra é incrível, e parece ser um padrão a ser mantido nas revistas da editora.

Então, por quê Marvel? Por quê?

O ápice do Butt Pose. Peito, bunda e uma cintura sem costelas. Tudo que o homem quer. A gente deu sorte de ver o rosto da Jessica Drew.
O ápice do Butt Pose. Peito, bunda e uma cintura sem costelas. Demos sorte de ver o rosto da Jessica Drew.

Por que você escolheria um desenhista conhecido por sua visão exageradamente sexualizada de mulheres para desenhar a primeira edição de uma revista de uma personagem feminina? Por que, apesar da personagem se chamar Mulher Aranha, mulheres não são o público alvo. Por que das duas uma, ou as duas: ou a Marvel não consegue entender por completo que é ofensivo sexualizar uma personagem feminina e que isso afasta uma parcela importante – e lucrativa – do público, ou ela só tá querendo fazer polêmica e causar posts indignados como este aqui.

Como eu não sou adepta das teorias da conspiração, e nem tenho tanta fé assim nos homens que comandam a Marvel, eu fico com a primeira opção. Apesar de dar passos avançados em direção a uma visão mais igualitária do seu público, a Marvel ainda não está nem pronta nem com vontade de soltar a mão do conteúdo exploitation e machista.

O peito, além de parecer um funil estranho é maior que o rosto da moça. Tá serto.
O peito, além de parecer um funil estranho é maior que o rosto da moça. Tá serto.

Sim, é apenas uma capa dentre todas as outras em que a Marvel parece ter acertado. Mas é importante porque ela continua reproduzindo uma imagem sexualizada da super-heroína que não apenas a reduz a objeto sexual para caras, mas retira parte da “seriedade” da sua história. Nós vivemos em um mundo em que a mulher usar roupa curta, ou mostra muito a pele, ou tem a sua sexualidade forte e definida significa que você não pode leva-la a sério, que ela não é uma mulher de verdade, que não merece respeito. Eu sei que você pode não pensar isso, mas isso está sim muito afixado no pensamento popular. Quando você reproduz o machismo em uma capa de revista você está não só batendo na mesma tecla chata e imbecil, mas também dando vazão para que o público  não veja nada além de um objeto sexual. Você esvazia a personagem de sentido antes mesmo da história começar. E lá nós vamos pra um ciclo sem fim de machismo institucionalizado.

Além disso tudo a Marvel também espanta as leitoras. Eu não quero pegar a revista e me deparar com uma personagem gostosona, sexy e que parece ter saído de um filme pornô. Eu até posso querer isso tudo, mas eu sei que pra isso existem os outros quadrinhos do Manara. O que eu quero é ver uma personagem bem construída, bem desenhada, com uma história tridimensional, com uma aventura empolgante. Mas tudo que eu vejo nessa capa é o moleque punheteiro que vai gastar todos klennex da mãe na frente do computador.

Vale lembrar que esta capa do inferno é uma segunda capa. Ou seja, eles tem uma capa normal, mas decidiram que uma capa mais exploitation era necessária. Say whaaat? Tá fodagalera.

As meninas do The Mary Sue, onde eu primeiro vi esta notícia, entratam em contato com a Marvel, que declinou comentar sobre o assunto. ¬¬ E vários outros sites também viram o absurdo que essa capa é. O mundo ainda é amor, galera. O Comic Book Resources fez um post sobre isso, em que eles inclusive notam que o desenhista regular da série, Greg Land, já foi acusado de sexualizar as personagens femininas. Essa história só vai de ruim a pior pelo jeito.

"Eu sou dona do meu próprio destino"- hum... Não. Os homens da Marvel são donos dele. Mal, Jessica.
“Eu sou faço meu próprio destino”- hum… Não. Os homens da Marvel são fazem ele por ti. Mal aí, Jessica. Foda.

Superman e Eu.

Acho que o meu primeiro contato com os super-heróis foi com Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman, Batman: A série animada e The Flash. Eu adorava as duas séries, mas tinha uma preferência pelo Homem de Aço e pela Lois. A série era tosca, eu sei, mas era inocente e como criança eu aprendi muitos valores importantes admirando o casal. E o filme da década de 80 só ajudou a sacramentar esse meu apreço.

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Muitas pessoas julgam o Superman bobo, inocente, chato, indestrutível demais, corretinho de mais, bom moço demais, um tédio. Eu acho que o Superman é o ícone de super-heróis que ele é por uma simples razão: Ele é tudo que a humanidade precisa.

Você pode vir com o papo de “he’s the hero Gotham diserve, but not the one it needs” pra cima de mim. Eu gosto do Batman também, a série animada também foi definitivamente muito importante na formação da pessoa e da autora que eu sou hoje. E o Batman também é um personagem muito interessante, e com muitas camadas e muito aprofundamento e, minha nossa, muita, muita dor.

Mas o Superman perdeu os pais, perdeu o planeta, perdeu tudo aquilo que hoje nos torna humanos, ele perdeu toda a sua civilização. Ele é sim uma parea, talvez não pelos humanos que ele salva, mas por si mesmo. Quem nunca se sentiu desconfortável mesmo quando todos a sua volta estavam te recebendo bem? E mesmo conhecendo tudo que há de ruim no mundo, no homem, em Zod, no fucking espaço, ainda sim ele acha bondade. Ainda sim ele transforma dor e destruição em esperança e reconstrução.

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Eu não sou uma leitora assídua de Superman (DC, nos quadrinhos, nunca foi meu forte), e talvez não saiba de tudo pelo qual ele passou, mas acho que o Superman é sim o herói que o planeta inteiro precisa. Por que mesmo depois de tanta merda, mesmo depois de tanta destruição e perda, ele aceita a humanidade pelo que ela é. Ele é sempre um ícone de esperança. E em tempos de guerra constante, de ataques pessoais pela internet, de estrupos coletivos e dessa merda toda que envolve o mundo a tantos séculos o Superman é sim o herói que a gente precisa.

Pra lembrar que mesmo sem ser humano ele é o melhor de nós. Mesmo nem sendo real.

Pra lembrar que mesmo quando o mundo te joga contra a parede e faz questão de pegar o pedaço de tijolo que caiu e te acertar mais um pouco, sempre tem alguma coisa que vai fazer valer a pena a luta e cada passo.

Então vai a merda, Zack Snyder, por fazer o Superman matar o Zod e depois ganhar abraço.

Te vejo na zona fantasma, seu filho da puta.

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 Por que isso agora? Por que eu assisti ao filme de novo, e apesar de gostar da primeira hora, não gosto do final. E porque o Snyder não é o “Visionário Diretor de 300”. 300 nem é visionário. Fuck this shit.

🙂

Review: Guardiões da Galáxia (Nicole Pearlman)

Muitas vezes a equipe responsável pela publicidade de um filme faz um trabalho tão bem feito que a gente entra no cinema com a expectativa lá em Marte, mas acaba voltando para Terra longo nos primeiros minutos do filme. Guardiões da Galáxia nos prometeu o universo, e colega, ele cumpriu!

(Pra escutar enquanto lê: https://www.youtube.com/watch?v=Iux7hP8RBRs)

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Nicole Perlman.

O que é aquela “história de Origem”? Em questão de cinco minutos somos apresentados ao personagem principal, simpatizamos, choramos (se você é manteiga derretida como eu), estranhamos o dente CGI da mãe moribunda dele (sério. A única coisa de CGI que ficou estranho foi aquele dente), descobrimos que a mãe dele acha que o pai do menino é um “ser de luz”, a mãe morre e PA PUM. Peter Quill é abduzido por uma espaço-nave mucho loca. Em cinco minutos Guardiões da Galáxia faz o que os Espetaculares Homem-Aranha não conseguiram fazer em dois filmes – estabelecer uma história de origem de maneira coerente e interessante.

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Os Guardiões da Galáxia são cinco: Peter Quill (Chris “Andy Dwight” Pratt), Gamora (Zoey Saldana), Rocket (Bradley Cooper), Drax (Dave Bautista) e Groot (Vin Diesel). De todos os nomes, Bautista é o ator mais limitado, mas ainda sim consegue sustentar bem o fortão emotivo Drax – sua melhor cena é quando luta contra Roran para vingar sua família e perde. Eu realmente senti ao lado dele a sensação de derrota (leia-se emoção em forma de lágrimas). Fora das telas Dave declarou que adorou ver personagens femininas bem desenvolvidas. Tendo sido criado apenas pela mãe, ele consegue enxergar o quão fortes e determinadas as mulheres são. Vindo de um lutador de WWE, símbolo do que o “macho” deveria ser, escutar essa declaração talvez ajude os caras – e os executivos de Hollywood – a aceitarem de vez que nós não vamos desistir de sermos retratadas como humanas – ou alienígenas – complexas.  E Bautista, te amo. <3

Rocket, eu não sei quem te dublou, mas Bradley Cooper ou esqueceu de aparecer para o dia de gravação de voz, ou fez um trabalho fenomenal. Em momento algum eu escutei Rocket falar e fui puxada para fora por que aquela é claramente a voz de Cooper. Ele consegue dar flexibilidade, graça e emoção ao Racoon. É impossível não gostar de Rocket e de Groot. Eles são um par perfeito, e por mais que Rocket seja um cretino, Groot é muitas vezes seu coração e isso funciona de maneira incrível. Particularmente, tenho um soft spot pelo Vin Diesel (e pelo The Rock também). Achei fofíssimo ele como Groot, e a sua capacidade de expressar bastante pela sua única frase “I am Groot” recebe ajuda pelos olhos brilhantes da criatura-árvore. Ele dublou o “I am Groot” em diversas linguas, inclusive português!

 groot e racoon

Rocket, Groot e Drax compartilham de um dos momentos mais tocantes do filme, o sacrifício de Groot. O humanoide árvore é apresentado como algo muito maior do que ser humano, alienígena ou estar vivo – ele é a redenção e o amor e no fim, significa a amizade entre todos os cinco. Rocket chora compulsivamente o sacrifício do amigo e Drax o conforta, da mesma maneira com que Groot o confortou após ter perdido a luta para Ronan. Essas cenas, junto com os momentos particularmente dramáticos de Peter Quill mostram homens (ou guaxinins) adultos se permitindo realmente sentir a dor e a emoção que estão sentido. Não me lembro de uma só vez em que um deles foi repreendido ou não se deixou sentir. E quando Rocket explode, bêbado, sobre o seu drama pessoal, Quill está lá para aceitá-lo. É sutil? Sim. Mas é a mensagem que devemos passar aos nossos meninos: sentir é ser humano. E não há nada de errado com isso.

 quill

Peter Quill é uma mistura divertida de comédia, ação e um toque de drama pessoal. Eu acompanho a carreira de Chris Pratt desde a findada “Everwood”, e vê-lo chegar ao nível de herói de ação da Marvel é estranhamente reconfortante. Em Parks and Recreations eleconquistou o público com o burrinho de bom coração Andy, mas Guardians of the Galaxy leva Pratt além. A cena em que ele briga com o guarda por causa de seu walkman é, além de divertida, incrivelmente tocante. Ele sabe que vai se ferrar, mas o walkman é seu principal contato com a Terra e com a mãe. Pratt brilha incrivelmente nas cenas de ação e de comédia, mas nesses momentos que misturam humor e drama a atuação de Pratt é realmente impressionante. Peter Quill é o Han Solo da nova geração.

gamora

Do cast principal Zoe Saldana é, de longe, a atriz com mais estrada, uma carreira já bem sólida e diversificada. O que eu gosto bastante nela é que Zoe não parece presa a nenhum tipo de gênero, fazendo de TV à Cinema, sempre procurando por papéis que sejam interessantes para ela como atriz e como mulher. Em uma entrevista recente ela disse que a medida que foi amadurecendo foi sentindo a necessidade e a responsabilidade de exigir dos papeis que lhe são oferecidos personagens bem desenvolvidos e que passem a mensagem certa para o seu público. Tem como não amar?

Nicole Perlman.

Gamora, uma das filhas adotivas de Thanos, é a personagem com mais desenvolvimento depois de Peter Quill. O roteiro de Guardiões acerta muito em dar a todos os personagens o seus bits de desenvolvimento (me arrepiei com os pedaços de metal nas costas de Rocket, e como a gente conseguiu sentir essa dor pelos olhos de Quill é writing masterpiece), mas Gamora tem mais tempo e mais camadas do que os demais. Ela se abre numa cena um tanto explicativa junto à Quill, mas na mesma cena em que descobrimos mais sobre a sua origem e sua motivação, ela também deixa claro que não é a protagonista feminina que vai se deixar levar pelo chame cafajeste do companheiro. De todos alí Gamora é a que mais fácil procura e aceita o manto de herói. Ela é uma destruidora de mundos em busca de redenção.

sister love

A relação dela com a irmã, Nebula, também e tocada de leve. Todo mundo já quis chutar a bunda do irmão/irmã (ou já o fez XD), mas as duas levam esse embate familiar a outro nível, não só por que são guerreiras, mas por que o que as une não é o sangue, mas o medo de Thanos e a raiva e rancor que sentem por ele. Gamora vê em Nebula a mesma raiva e determinação que vê em si mesma, mas concentrada para fins menos nobres. Nebula, por mais que seja só a sidequick do vilão, possui um desenvolvimento muito interessante para uma personagem tão pequena. E é sempre legal ver os atores de Doctor Who alcançarem outros vôos.

Nicole Perlman.

Mesmo amando o filme, e o considerando o melhor da Marvel até agora, Guardiões da Galáxia ainda sofre com o toque do “machismo nosso de todo filme”. Gamora têm butt scenes que são absolutamente desnecessárias (mas qual não é? Até George Clooney já sofreu com elas). E a mulher que Peter Quill esqueceu que estava na nave é um tanto revoltante. Ser garanhão pode ser um traço do seu personagem, mas ele precisava ter esquecido que ela estava lá? Mulheres descartáveis não são legais não interessa o quão fantástico o seu personagem ou filme sejam. Me falaram sobre a Gamora está de saia na cena final. Eu realmente não notei, talvez por que eu estivesse tão ligada em como o filme é legal e em como a personagem é construída que não me saltou aos olhos. Mas por que a Gamora, chutadora de bundas defensora da galáxia, estaria de saia logo quando eles estão saindo para uma próxima aventura? Não faz sentido mesmo.

Vi algumas críticas que definiam Gamora apenas como “that sexy green lady” o que, ao meu ver, resume bastante o modo como as personagens femininas são vistas pelo público homem especializado. Rocket e Groot não são humanos, mas por serem divertidos, são vistos como personagens com mais personalidade do que a filha de Thanos, ex-assassina, orfã de um mundo inteiro, geneticamente modificada e com muitos sister-issues. Para essas pessoas eu apresento Nicole Pearlman.

Nicole

Nicole Perlman é a primeira mulher a escrever um filme de super-heróis da Marvel – e provavelmente da história recente dos filmes do gênero. E é tão claro o seu toque pelo filme que fico me perguntando por que diabos ninguém fez isso antes. Mesmo com os problemas que pontuei no parágrafo anterior, as personagens femininas são muito consistentes, e a grande maioria delas não é mal utilizada. Em todo o filme há uma, UMA, mulher utilizada como objeto. Você consegue imaginar isso? É lindo. E mesmo que James Gunn, que co-roteirisou, seja um cara muito legal e tudo mais, com certeza foi o trabalho de Pearlman que fez essa diferença. Ao que tudo indica, antes mesmo de Gunn e Pratt terem assinado os seus contratos, era Pearlman quem lutava para encaixar a equipe no cânone cinematográfico da Marvel.

Ser mulher e escrever ficção-científica é uma combinação um tanto problemática. Ao longo da história da literatura e da tele-dramaturgia podemos contar nos dedos os nomes das autoras das quais nos lembramos de cabeça, ou das obras escritas por mulheres. Este cenário vêm mudando com a maior apreciação da literatura para jovens adultos, mas mesmo assim ainda há muito preconceito tanto em relação ao gênero quanto ao fato dele ser dominado pelas mulheres. Quando digo que não nos lembramos de cabeça quero dizer que a maioria das escritoras do gênero não recebem o mesmo tipo de atenção que os escritores homens. Por que elas estão lá, e são muitas e incríveis.

No caso de Perlman ela ainda transita por um lugar especialmente machista: Hollywood. Já senti na pele alguns dos problemas de ser mulher e roteirista (além de brasileira) e tentar conseguir um pequeno espaço no mundo do cinema lá de fora. Pearlman é, para mim, um ícone de mudança. Talvez seja realmente este momento em que estamos, o momento em que as coisas vão começar a mudar, em que a grande mídia vai passar a nos reconhecer não só como namoradas, objetos e o público colateral, mas como consumidoras, criadoras e personagens. Pearlman está linkada a um possível filme solo da Viúva Negra. Katee Sackhoff (Starbuck – Battlestar Gallactica) postou tweets que levam a crer que ela pode viver a Capitã Marvel nos cinemas. Lucy bateu Hercules no outro final de semana. E Katniss está voltando para chutar mais bundas e atirar mais flechas nos machistas.

poster retro

Dizer que eu adorei Guardiões da Galáxia é eufemismo. Gostei tanto que estou indo ao cinema novamente daqui há duas horas. Este foi o review mais demorado que escrevi pro Colant, uma tentativa de me afastar e ver mais de perto os problemas que o filme tem. Eles estão lá? Sim. Mas há tanta coisa positiva que envolve o lançamento, a produção e as personagens que como um todo o filme me parece um avanço em relação a todos os outros do gênero.

Pra terminar, fiquem com o Groot dançante. Eu realmente espero que ele vire um toy art e que eu possa utilizá-lo como centro de mesa.

dancing-groot

PS: Nunca acaba, eu sei. Mas precisava dizer que Guardiões faz com o dano colateral algo que muito poucos filmes como ele conseguem fazer – nós e os personagens o sentimos. Quando o piloto de uma das naves de Nova Prime, Saal (Peter Serafinowics – Shawn of The Dead) morre prensado ao lado de todos os seus companheiros, sentimos a perda de um personagem de terceiro escalão pelos olhos de Rocket. É triste, bonito e incrivelmente eficaz. Além disso é deixado bem claro que a cidade foi evacuada, numa tentativa de minimizar as perdas. Espero que mais filmes aprendam com Guardiões que toda destruição tem seu dano colateral.