A representação feminina em Chronos: Viajantes do Tempo

Este texto não contém spoilers do livro.

Aqui no Collant, nós já fizemos uma lista de garotas que tiveram que viajar no tempo, mas isso não significa que elas são a maioria nesse tipo de história. O papel heroico, ainda mais na ficção científica, muitas vezes acaba ficando com o personagem masculino. Em Chronos: Viajantes do Tempo, a pessoa destinada a salvar o mundo é Kate, uma garota adolescente.

Primeiro, é legal pensar na questão da mulher ser a escolhida para um papel importante. Nós já estamos cansados de ver histórias de escolhidos homens, de como o tal protagonista nasceu para realizar a função que salvará todos, mas quantas vezes esses espaços são ocupados por mulheres? O escolhido sempre é o cara que se encaixa dentro do padrão.

Kate tem um dom muito grande para usar a chave Chronos, que permite as viagens no tempo, deixando todos ao seu redor impressionados com a sua capacidade. Assim que ela se vê nessa situação, Kate começa a procurar todas as informações possíveis que possam ajudá-la a enfrentar esses novos problemas que estão aparecendo. Ela não é passiva ao que acontece ao seu redor, por mais que seja difícil entender todos os problemas de primeira.

Além disso, ela não é a única mulher no meio de vários homens. A sua avó, Katherine (sim, elas têm o mesmo nome), é a grande mentora da protagonista. É comum que, em histórias com algum fator de escolhido com uma aventura épica, exista aquela figura de mestre que vai guiar o caminho do herói. Esse também é um papel que geralmente fica com um personagem masculino mais velho e sábio, mas, nesse caso, a mentora de Kate é a sua própria avó, uma figura feminina. Ela é uma mulher que entende tudo sobre como as viagens no tempo funcionam, é inteligente e fez inúmeras coisas para se manter segura, por mais difíceis que elas fossem. Agora, ela sabe que não pode mais tomar a frente dessa luta, por isso passa o seu conhecimento para Kate.

A relação das duas é uma das partes mais interessantes da história. Ao invés de Kate apenas aceitar o que é passado para ela, a adolescente começa a ter dúvidas e até a discordar de algumas decisões que sua avó tomou, mostrando que ela não é uma personagem sem personalidade. Esse aspecto de “desafiar o mestre” é interessante nesse tipo de dinâmica. Kate não é obediente o tempo todo e usa o conhecimento que recebe de Katherine para resolver as coisas da sua maneira. O fato de estarmos sempre na cabeça de Kate, até por causa da narrativa em primeira pessoa, nos ajuda a entender o que ela está pensando e as suas motivações.

Porém, em alguns momentos, a história acaba fazendo sua protagonista cair em clichês. Kate é uma adolescente e, infelizmente, alguma parte do livro é dedicada a falar sobre interesses românticos e meninos que ela acha interessante. O fato dela se importar com isso não é um problema, mas o jeito que isso é tratado na história acaba ficando clichê. Em alguns momentos, Kate é salva por esses possíveis interesses românticos, até em situações que poderiam ser tratadas de outra forma, ou ela poderia ter ajuda de uma figura que não necessariamente fosse um possível romance ou até mesmo não fosse uma figura masculina. Também há momentos em que o clima romântico parece forçado e acelerado, como se a autora acreditasse que a protagonista precisasse muito desses elementos para ser interessante, mas é exatamente isso que, para mim, acaba sendo uma falha na construção da protagonista.

Por mais que essas relações sejam importantes para Kate, como provavelmente seriam para qualquer adolescente em seu lugar, a aventura de salvar seus pais e consertar a linha do tempo é mais importante do que alguns clichês secundários. Kate tem bastante espaço para mostrar sua personalidade e a história dá oportunidades para a protagonista ir crescendo nessa primeira parte da trilogia.

Chronos: Viajantes do Tempo já está à venda!

Valquíria é bissexual, mas Thor: Ragnarok não te diz isso

Eu já começo esse texto com um tom de irritação, como vocês podem perceber. O bom e velho desapontada, porém não surpresa.

Tessa Thompson, atriz da Valquíria em Thor: Ragnarok, declarou no twitter que sua personagem era bissexual no filme, assim como no quadrinho. Eu não li nenhum dos quadrinhos de Thor e fui pega de surpresa, então quando finalmente fui assistir ao filme, fiquei de olho em qualquer coisa que pudesse indicar a sexualidade da personagem. Como uma pessoa que está exausta de procurar detalhes que indiquem qualquer tipo de representação LGBT+ na mídia, eu estava preparada para pegar os detalhes, e depois falar sobre como isso não é o suficiente, porque não é.

Há apenas uma cena, em certo momento, que se você tiver boa vontade, pode imaginar que talvez indique que Valquíria tinha um relacionamento com outra mulher. São segundos e, como eu disse, exige boa vontade, porque podia simplesmente não ser nada.

Há algum tempo, li essa entrevista da Tessa Thompson falando mais sobre o assunto. A atriz diz que falou com o diretor, Taika Waititi, sobre a personagem ser bissexual e eles fizeram uma cena em que, em certo momento, dava para ver uma mulher saindo do quarto de Valquíria, que daria a entender que elas tinham passado a noite juntas. Waititi manteve a cena o máximo que pode, mas eventualmente teve que cortar porque “distrairia o público da revelação vital naquela cena”.

Eu me pergunto como alguns segundos de uma mulher saindo do quarto de Valquíria atrapalharia qualquer coisa no filme. Alguns momentos que seriam o suficiente para nos fazer entender que a personagem é LGBT+, o que seria ótimo, considerando que a Valquíria é uma personagem com um arco interessante e que de várias formas foge de estereótipos.

Não conheço todo o trabalho de Waititi, mas dou o benefício da dúvida. Por outra matérias que li dele, imagino que o diretor de fato tentou manter a cena, mas considerando que estamos falando da Marvel, que ainda precisa caminhar muito no ponto de vista de diversidade, não me surpreenderia que ordens de cima tivessem cortado essa cena. Nós simplesmente não podemos ter coisas legais.

Esse episódio é apenas um dos inúmeros exemplos de como a representatividade LGBT+ é vista, como algo que não precisa ser falado e, se precisa, que seja por algo fora do produto em si, ou com um subtexto que deixa aberto à interpretações. Não ia atrapalhar em nada essa, ou outra cena, que mostrasse a sexualidade de Valquíria. Nós raramente temos uma personagem bissexual com tanto destaque, em uma franquia grande como essa. O fato de que é algo que podia ser resolvido de forma simples é o que acaba me incomodando mais.

Sim, a cena que Valquíria estende a mão para a companheira de batalha, para mim, indicava que elas eram amantes de alguma forma. Em parte por como a cena foi construída, mas também porque eu estava procurando qualquer indício para ver a sexualidade da personagem. Mas isso sou eu, pessoa que não só está treinada para procurar essas coisas, mas também que está cansada de ter que fazer isso. Para o resto do público, seria muito mais interessante se eles deixassem esse fato exposto de forma mais óbvia.

Eu não culpo ninguém especificamente por essa decisão, qualquer pessoa que tenha algum contato com área de entretenimento sabe que, se alguém acima de você diz não, é não. Também não posso medir o quanto Waititi poderia ter interferido nessa questão, o fato dele ter topado ouvir Thompson me parece um bom sinal, mas infelizmente não vimos isso no corte final. Personagens LGBT+ precisam ter a mesma chance de expressar sua sexualidade na mídia como pessoas hétero têm por tantos anos.

Nada disso muda o fato de Valquíria ser, além de uma personagem incrível, uma mulher bissexual, e eu vou fazer questão de não deixar ninguém esquecer, ainda mais quando a atriz fala de forma tão abertamente e feliz sobre isso. Mas é Marvel, vocês perderam a chance de fazer algo muito legal. Era simples e fácil, mas o conservadorismo ainda falou mais alto.

Escrevendo personagens bissexuais

Há alguns dias eu postei um texto sobre estereótipos que encontramos em personagens bissexuais na cultura pop. Eu terminei concluindo que o problema não é a característica clichê em si, mas como isso pode dar uma representação ruim como um todo, já que muitas vezes é a única que vemos. Personagens que se resumem ao estereótipo não são representações tão interessantes, mas quando isso é uma característica no meio de várias, ou um personagem bissexual no meio de outros, aí a representação pode ser mais positiva.

Isso tudo aqui é o ponto de vista de uma pessoa, então seguir as minhas dicas não significa que nenhuma outra pessoa bissexual no mundo não vai criticar a representação da sua obra. Mas ler sobre o assunto, ouvir as pessoas da minoria em questão e, mais importante, se permitir ouvir críticas e dicas pode ajudar.

Eu entendo que às vezes ouvir críticas não é fácil, principalmente no ponto de vista de representação. Isso é considerado uma característica secundária das obras, então há sim muitos artistas que acham que pensar criticamente sobre isso é “censura” ou “impedir minha arte de ser livre”. Mas assim como estamos dispostos a ouvir dicas sobre narrativa, revisão de texto ou formatação, também precisamos estar dispostos a ouvir quando o assunto é representação.

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Você não precisa ser bissexual para escrever um personagem que é. J. K. Rowling não é um homem, mas o protagonista de sua história mais famosa é o menino que sobreviveu. Se as suas histórias só possuem personagens que tem algo em comum com você, a variedade será muito pequena. Parte do trabalho de escrever é tentar se colocar no lugar do outro, e quanto mais pessoas criarem personagens diversos, melhor! Você não precisa ser da minoria em questão para fazer isso.

Normalmente a primeira coisa que ajuda a fugir dos estereótipos de personagens bissexuais é ter mais de um na sua obra. Cada um deles com sua personalidade, manias e formas de agir diferentes ajuda a mostrar que a sexualidade não é algo que define as pessoas. Basta ver que, uma história que só tem personagens hétero, constrói todos eles de forma diferente um do outro, exatamente porque a sexualidade não define uma pessoa. Dessa forma, se um dos seus personagens bissexuais acabarem caindo em algum clichê, o fato de ter outro que não apresenta a tal característica melhora a representação. Isso acontece em Dragon Age, há personagens bissexuais que podem cair no clichê de certa forma, mas como existem outros, a representação se expande.

Talvez o grande problema é que, quando muitas pessoas vão construir um personagem fora do padrão cis heteronormativo, elas se focam na característica que faz com que esses personagens fujam do padrão. Uma história que mostre um personagem bissexual, que tenha que lidar com o preconceito que sofre pela sua sexualidade é muito legal, mas um personagem bissexual pode ter outros tipos de questões, assim como todas as outras pessoas, de qualquer sexualidade. Imagine só um personagem bissexual que, ao contrário de ter algum problema que envolva relacionamentos ou sexualidade, tem que enfrentar o fato de que sempre que espirra, o tempo é congelado? Normalmente, quando a sexualidade não importa, nós assumimos o padrão hétero, mas algo muito interessante para a representação na cultura pop em geral é que personagens bissexuais, ou de qualquer outra sexualidade, possam ser qualquer coisa, como acontece com os que são heterossexuais. Basta ver Max, de Life is Strange. Ela é a protagonista e a bissexualidade não é o ponto principal da personagem.

Mas de qualquer forma, independente de quantos personagens bissexuais você tenha na sua história, há alguns estereótipos que é interessante ficar de olho.

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Há algumas histórias que colocam seus personagens como pessoas indecisas, que não entendem sua sexualidade e por isso se relacionam com pessoas de vários gêneros. Isso pode ser seguido do personagem acabar escolhendo ficar com uma pessoa como “interesse romântico” e passar a ser chamada de heterossexual ou homossexual. Isso é ruim porque cria a ideia de que ser bissexual é uma fase, e não uma sexualidade válida. Que tal escrever um personagem que está seguro de ser bissexual, sem dúvidas sobre o assunto? Uma história bem feita de um personagem descobrindo a sua sexualidade, e experimentando no processo, pode ser interessante, ainda mais se no final, mesmo que esse personagem decida ficar em um relacionamento com outra pessoa, ela continue se identificando como bissexual. Para esse exemplo, é interessante ver a construção de Kelly, no episódio San Junipero de Black Mirror.

Uma das formas mais comuns de mostrar que um personagem é bissexual é falando que ele “gosta de pessoas”. Isso é uma forma de fazer o público entender, e funciona, mas acabou virando um recurso que a maioria dos criadores usam. A bissexualidade já é muito apagada, colocar essa conversa na boca de personagens pode fazer com que as pessoas falem e fiquem mais cientes dessa sexualidade. Então, se você pretende mostrar para o público a sexualidade do personagem, que tal fazer ele dizer “bissexual” com todas as letras?

Às vezes, quando existe um grupo de personagens, justo aquele que é bissexual é o que vai ter encontros com várias pessoas. Eu sei dar exemplos de alguns personagens bissexuais bem escritos que caem nesse estereótipo, mas se você pretende colocar só um personagem bissexual na sua história, poderia evitar que logo ele carregasse essa característica. O estereótipo de que pessoas bissexuais saem com “todo mundo” é muito forte na sociedade, então isso seria uma forma de mostrar um outro lado. O seu personagem pode ser a pessoa do grupo casada a mais tempo, por exemplo.

Nesse caso específico, muitas vezes o fato do personagem bissexual se relacionar com várias pessoas é colocado de uma forma negativa na narrativa. Isso porque a sociedade gosta de condenar pessoas que têm muitos parceiros ao longo da vida (geralmente mulheres). Uma coisa que eu gostaria de ver mais na cultura pop são personagens bissexuais que tenham alguns desses clichês, como por exemplo sair com várias pessoas, mas isso não é mostrado de forma negativa. É só mais uma característica, assim como a cor do cabelo ou o tom de voz. Porém, como falei acima, nem todos podem estar de acordo com a minha visão, há parte do público bissexual que se incomoda em ver mais um personagem com qualquer característica considerada clichê.

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Procure dar finais mais felizes para seus personagens bissexuais. Caso você esteja escrevendo uma história triste, onde todo mundo acaba se ferrando no final, faz mais sentido que essa não seja a sua opção, mas se alguns terão a chance de serem felizes, que tal incluir entre eles o que é bissexual? Personagens LGBT+ em geral às vezes sofrem na cultura pop por morrerem, ou terminarem seus arcos quebrados. Você pode sim fazer seus personagens sofrerem (eu inclusive sou super a favor de um drama na ficção), mas estamos cansados de ver personagens fora do padrão se dando mal. Isso pode passar a ideia de que ele está sendo punido por não ser heterossexual. Que tal um personagem bissexual que, mesmo passando por inúmeros problemas, consegue seu final feliz? Como é o caso de Korra, em Avatar.

Eu já falei isso em outro texto, mas acho bom repetir aqui: Uma pessoa bissexual, que exista de fato fora do mundo da ficção, não é errada ou tem a sexualidade invalidada por fazer qualquer uma dessas coisas. Ser confuso, indeciso ou sair com várias pessoas não são problemas, não há nada de errado com isso. A questão não é alguém ser assim, mas que a representação dessa minoria só dê escolhas específicas baseadas em estereótipos.

Escreva personagens bissexuais que são heróis, coadjuvantes, vilões, engraçados, românticos, inseguros, muito seguros, com arcos de redenção, que sobrevivem no final… O que queremos é que essa representação chegue no ponto em que esse tipo de personagem possa ser qualquer coisa, em qualquer gênero da cultura pop. Às vezes, quando o autor quer colocar um personagem bissexual na obra, ele o coloca como vilão ou algum personagem próximo deste. Inclusive a sexualidade seria parte da vilania, que pode ajudar a trazer uma imagem ruim para pessoas bissexuais, por isso é importante que esses personagens apareçam em todos os lugares, com a maior diversidade de motivações possíveis.

A maior dica que eu posso dar para fazer um personagem bissexual complexo e que não caía em estereótipos é: Escreva um bom personagem. Quando ele é bem escrito, ele até pode ter clichês, mas será mais que isso. A história de um personagem bissexual pode ser sobre sua sexualidade, mas não necessariamente, então busque outras coisas além das que você automaticamente pensa. Ouça pessoas bissexuais, leia sobre esses estereótipos e esteja disposto a entender as críticas. Escrever um personagem fora da sua zona de conforto não é fácil, mas com imaginação, que é necessário para todo o artista, e também humildade, você estará no caminho certo.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

Emmy 2017, Mulheres e Minorias.

O Emmy de 2017 com certeza surpreenderam muita gente, mas a verdade é que quando se dá espaço para minorias contarem histórias, contarem as suas histórias do seu ponto de vista, então muitas coisas incríveis pode acontecer. Não me surpreende que em um ano com tantas produções focadas em histórias femininas e em histórias de outras minorias o prêmio tenha sido entregue para essas pessoas.

Então vamos às mulheres que fizeram história e ganharam prêmios ontem ontem! <3

Lena Waithe se tornou a primeira mulher negra a ganhar um Emmy de Roteiro de Comédia pelo episódio “Thanksgiving”, em Master of None. Esse é, de longe, o episódio mais amado da segunda temporada e um episódio que conseguiu mostrar, para muitas pessoas LGBT, o drama e o humor de “sair do armário” para a família. Ou seja, não é só que uma mulher negra ganhou o Emmy de comédia, uma mulher negra e abertamente lésbica ganhou um Emmy ontem. E por mais que ainda seja pouco e que nós queiramos mais, não tem como não ficar feliz por ver Lena lá em cima segurando o troféu!

Eu vivo um caso de amor e receio com Master of None. Eu amo a primeira temporada, a segunda temporada me levantou a sobrancelhas algumas vezes por causa de alguns tipos de representação, mas Master of None é, de longe, a comédia de meia hora mais bem escrita que eu assisti em alguns anos. É diferente das minhas favoritas como Brooklin 99 e a eterna amada Parks and Recreation, comédias ainda um tanto formulaicas, mas consegue acertar em cheio não só na narrativa mas também no casting.

Julia Louis-Dreyfus se tornou a pessoa com mais Emmys ganhos pelo mesmo papel em um mesmo seriado. Julia está na há sete temporadas interpretando Selina Meyer na série Veep e levou para casa o prêmio de Melhor Atriz em Série de Comédia pela SEXTA vez consecutiva!

Eu não sou a doida de Black Mirror no Collant (essa é a Clarice), mas San Junipero com certeza é, dos episódios que eu já assisti, o meu favorito. Uma visão positiva, bem escrita e de maneira geral alegre de um relacionamento entre uma mulher lésbica e uma bisexual não é exatamente fácil de se achar por aí. Por isso os prêmios de Melhor Roteiro para Série Limitada, Filme ou Especial Dramático e o de Melhor Filme para Televisão são tão significativos. E, da minha parte, me enche o coração de esperança saber que talvez o episódio mais feliz de Black Mirror tenha ganhado. Em tempos tão sombrios acho que a gente precisa de um pouco de esperança e coisas boas.

Um dos grandes campeões da noite foi The Handsmaid Tale, a série do Hulu que adapta para a televisão/VOD o livro “O Conto da Aia” de Margaret Atwood. A produção levou para casa OITO prêmios, entre eles o de Melhor Direção em Série Dramático, que ficou com Reed Romano. A diretora tem um longo currículo como fotógrafa, e além de The Handsmaid Tale também dirigiu episódios de Billions e Halt and Catch Fire e o longa Meadowland. É sempre incrível ver o nome de uma mulher na lista de diretores premiados, ainda temos um longo caminho pela frente, e ele definitivamente precisa ser liderado por mais mulheres.

A eterna Rory Gilmore, Alexis Bledel, levou o prêmio de Melhor Atriz Convidada em Série Dramática pelo seu papel como Ofglen. Confesso que fiquei contente de ver Rory levando o troféu pra casa.

A série também levou Melhor Atriz Coadjuvante em Série Dramática, que levou o prêmio foi Ann Dowd, que interpretou a personagem Aunt Lydia na série. Além de Ann, Samira Wiley também estava indicada ao prêmio pelo seu papel como Moira.

Big Little Lies, da HBO, também levou para casa oito prêmios, entre eles Melhor Atriz Protagonista em Série Limitada ou Filme para Televisão, para Nicole Kidman. Melhor Atriz Coadjuvante em Série Limitada ou Filme para Televisão, para Laura Dern e Melhor Série Limitada.

Quando se fala de representação feminina é muito comum que ela caia dentro de um certo padrão de idade, então é muito legal ver que das seis mulheres que levaram estatuetas para casa, quatro delas estão acima dos 50. Papéis femininos bem construídos praticamente deixam de existir quando se chega à uma certa idade, diferente dos papéis masculinos que se tornam cada vez mais e mais complexos.

Espera-se, e assim parece, que esses papéis vão continuar a aumentar à medida que mais mulheres forem ganhando espaço no mercado, e à medida que nós formos dando valor para as mulheres mais velhas que já estão trabalhando há anos por trás das câmeras.

Algumas das atrizes não-brancas que estavam indicadas nas categorias de atuação também tinham mais de 50, como Viola Davis e Vanda Sykes, mas é importante notar que todas as ganhadoras dessas categorias deste ano foram brancas. Ainda temos um longo caminho no que diz respeito à protagonistas femininas não-brancas.

Mas nem só de mulheres foi feito o Emmy!

Sim, eu fiquei bem contente com todas as mulheres e séries com temática feminina que levaram o Emmy pra casa, mas não dá pra deixar de falar sobre alguns dos homens que também ganharam ontem.

  • Donald Glover (Community, Spider-man: De Volta ao Lar) levou Melhor Direção em Série de Comédia e Melhor Ator em Série de Comédia por Atlanta, a sua produção para o canal FX.
  • Riz Ahmed (Rogue One) ganhou como Melhor Ator em Série Limitada/Filme para TV por seu trabalho em The Night Of, da HBO. Ahmed também fez história ao se tornar primeiro homem do sul asiático à ganhar um Emmy de atuação.
  • Aziz Ansari é o co-roteirista do episódio “Thanksgiving” ao lado de Lena Waithe e, por isso, também é ganhador do Emmy de Melhor Roteiro para Comédia.
  • Sterling K. Brown levou pra casa o prêmio de Melhor Ator Protagonista em Série Dramática por This is Us e quebrou um hiato de dezenove anos desde que um ator negro ganhou esta categoria. Em 1998 Andre Braugher levou a estatueta por seu trabalho em Homicide: Life on the Street. O discurso de Sterling foi reduzido de maneira muito estranha, com até seu microfone sendo cortado. Mas, mais tarde, ele conseguiu terminar o discurso e agradecer a todo mundo que queria:

Então é. Os Emmys 2017 foram definitivamente uma vitória para a representação feminina e também de outras minorias, não apenas no que diz respeito à personagens mas também quanto à produção por trás das câmeras. Muitas pessoas esquecem, mas para uma série como The Handmaid Tale existir é necessário uma equipe de direção (dos cinco diretores, quatro eram mulheres) e uma sala de roteiristas (dos 11 roteiristas, 8 eram mulheres) trabalhando em conjunto e em coesão, para conseguir um trabalho não só merecedor de 8 prêmios mas que tenha agradado o público alvo como agradou. O mesmo pode ser dito de Atlanta, criada por Donald Glover, com a maioria de atores negros, a maioria de diretores e roteiristas que vem de minorias.

Há qualidade e diversidade no trabalho que não foca no homem branco padrão, ele só não recebia prêmios porque não se dava espaço para isso. Chegamos ao final do ano com uma premiação que dá um gostinho doce para uma realidade cada vez mais amarga.

A Longa Viagem A Um Pequeno Planeta Hostil | Ficção-Científica, Diversidade e Representação.

Texto por Rebeca Puig e Clarice França

Uma das coisas engraçadas da ficção científica é como parte dos autores acaba reverberando conceitos tradicionais de sociedade, relacionamentos e protagonismo. Imagina-se que exatamente por serem sci-fi, essas obras deveriam abraçar a liberdade criativa que o gênero permite. Mas, em vez disso, é muito comum ver valores morais e sociais considerados retrógrados hoje presentes em obras de temática contemporânea. De certa forma, isso acabou me afastando um pouco de autores atuais, exatamente por insistirem em um conceito de narrativa e personagens conservadores.

 

Outra coisa que o sci-fi tem dificuldade de criar/representar, principalmente no cinema, são alienígenas que não se encaixem no conceito humano de beleza física ou mesmo que tenham uma cultura com moralidade diferente da nossa, humana. Quando vemos um alienígena que não é bípede, que poderia ser confundido com um inseto ou mesmo com um lagarto, ele muito provavelmente é um vilão ou capanga do vilão principal. É engraçado que, dentro de um universo tão gigante, com tantas possibilidades em química, biologia e física, nós só consigamos mostrar como positivo aquilo que é parecido com um bípede mamífero de inteligência mediana.

 

Talvez por isso eu tenha ficado tão encantada com a diversidade e a qualidade da representação dentro de A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. Becky Chambers já começa com o básico, buscando equilibrar o gênero dos personagens dentro da Andarilha, a principal nave do livro. A tripulação, contando a I.A., é composta por nove sapientes – quatro mulheres, quatro homens e um sapiente não binário, o Doutor Chef. Além de ser quantitativamente uma visão mais igualitária, essa decisão de equilibrar os números mostra que esse não é um universo ficcional em que vou ser obrigada a, mais uma vez, ler sobre a disparidade entre os gêneros humanos. Não, sapientes femininos, masculinos e não binários não são discriminados por causa de gênero.

 

Além disso, se analisarmos mais de perto os personagens, podemos ver que temos uma variedade interessante de personalidades, culturas e valores morais, sem que nenhum deles seja considerado errado ou transgressor.

 

Um dos elementos que mais me deixou feliz com o livro foi o modo como o futuro da sociedade humana é apresentado, e como podemos ver isso muito bem através do capitão da nave, Ashby. Em outros livros do gênero, teríamos Ashby como um capitão militarizado, arma na cintura, quarto de armas no fundo da nave, um herói de aventura como Mal, de Firefly. Mas Ashby é o oposto disso, ele acredita verdadeiramente que não precisa ser violento ou usar força física para ser o capitão de uma nave como a Andarilha; pelo contrário, ele repudia armas e é muito consciente quanto à capacidade humana de se corromper diante do perigo e da insegurança. No universo de Chambers, os humanos precisaram encarar sua inferioridade intelectual frente às raças alienígenas, aceitaram suas diferenças, olharam para toda a destruição que criaram e aprenderam a ser melhores. Além de ser uma representação masculina que não cai no tropo da masculinidade tóxica, o capitão da Andarilha é uma visão esperançosa de como nós, como sociedade, podemos evoluir.

 

A nave possui quatro humanos a bordo, entre eles Jenkins e Rosemary. Quero destacar esses dois porque eles possuem elementos que normalmente não são representados dentro do sci-fi, especialmente Space Óperas. Rosemary é negra, de origem rica, uma personagem que chega à Andarilha cheia de mistérios, mas que possui, só nessas duas características – ser negra e rica – uma história que pouco é usada pela cultura pop de maneira geral. Além de tudo isso, claro, Rosemary é uma personagem interessante, um tipo de novata espacial, o que a torna a nossa personagem de entrada no universo, outro fato quase inédito quando falamos de personagens femininas e negras.

 

Jenkins é outro personagem que, enquanto eu ia descobrindo mais sobre sua história, mais interessante ficava a visão da autora sobre o que a humanidade poderia se tornar no futuro. Jenkins é anão, não por mágica, mas por ter nascido assim. Em um futuro em que todo tipo de alteração e aprimoramento genético está disponível, descobrir por que ele chegou à idade adulta sem ter recorrido a eles, o papel de sua mãe nisso e o nível de fanatismo a que o ser humano consegue atingir foi um dos pontos altos do livro. Além de ser uma representação pouco vista – um humano anão e negro -, Jenkins é responsável por trazer dois temas muito pertinentes sobre nosso futuro: Quanto nós podemos ou devemos interferir geneticamente numa criança, e o que nos torna humanos: carne ou inteligência? Sua amizade com Lovely, a inteligência artificial da nave, é mostrada de maneira natural, ao mesmo tempo levantando questões válidas sobre até que ponto seres sapientes podem bancar Deus e criar uma vida nova. É a partir de Jenkins que surgem as questões do livro mais eticamente complexas.

 

Sissix é a personagem que pilota a nave. Ela é uma aandriskana, bem diferente dos humanos, tanto nos costumes quanto na aparência. Os aandriskanos demonstram afeto de forma física muito mais aberta que outros, além de terem vários núcleos familiares. Entre os aandriskanos, a família que eles escolhem estar, que cuida deles durante seu crescimento, é mais importante que a família de sangue. Além disso, Sissix é uma das representações mais positivas na ficção de personagens com relacionamento poliamoroso. Pessoas que optam por relacionamentos não monogâmicos ainda são mal vistas em nossa sociedade, e os poucos personagens da ficção que se encaixam nesse modelo são considerados vilões ou não confiáveis. Com Sissix, temos uma personagem complexa, com uma família muito amorosa e relacionamentos fortes que não se encaixam em nosso padrão mais conservador, e esses aspectos nunca são usados para diminuir a personagem. Talvez, de todas as pessoas da Andarilha, seja Sissix  a que tem a maior estabilidade familiar e de relacionamento. Ao contrário do que podem imaginar acerca das pessoas que optam por relacionamentos parecidos com os de Sissix, através da personagem vemos que ela entende perfeitamente que nem todo mundo é obrigado a tomar as mesmas decisões que ela. Felizmente, quando Sissix se envolve romanticamente no livro, em vez de ela mudar seu jeito pelo “verdadeiro amor”, vemos que as pessoas respeitam e aceitam seus costumes.

 

Outro personagem interessante para a diversidade do livro é Dr. Chef. Ele conta para Rosemary sobre sua raça, os Grum. Para eles, o gênero é algo que muda ao longo da vida, eles começam como mulheres, passam a se identificar como homens e em seus últimos anos se entendem como não binários. Em nenhum momento ele é questionado sobre isso, desrespeitado ou desmerecido pela maneira como entende seu gênero. A dúvida de Rosemary em relação ao assunto existe por ela ser nova no espaço e não conhecer muito sobre as outras raças, mas a partir do momento em que aprende passa a chamar Dr. Chef da maneira que o personagem prefere.

 

Além da variedade, um dos grandes acertos do livro é fazer que essas questões de representatividade não sejam o ponto principal do arco dos personagens. É óbvio que é interessante uma história em que uma mulher vence em uma sociedade machista, mas Becky Chambers construiu um universo inteiro no futuro em que os problemas são outros. O arco de Rosemary nunca é sobre ela ser uma mulher negra. Para nós, leitores, isso é importante, porque não vemos isso com frequência, porém pessoas que não se encaixam no padrão da sociedade também possuem outras questões além daquilo que os torna uma minoria. É muito bom ler um livro com personagens tão diversos no qual eles podem ser mais do que apenas um elemento, em que os problemas de sua vida são relacionados a todo tipo de questões que você encontraria em um protagonista padrão.

 

Há outros personagens que valem a pena ser notados. Kissy é uma engenheira, uma função que normalmente vai para o personagem homem. Corbin é o único que faz um comentário racista no livro, e é imediatamente repreendido por sua atitude. Becky Chambers usa o gênero de ficção científica da melhor forma possível para mostrar que as histórias podem ter muito mais que o homem padrão, que os conflitos não precisam ser clichês e que há valor e oportunidade quando estamos abertos para a diversidade. Há inúmeras possibilidades de construção de personagens, ainda mais na ficção científica, e todo mundo que insiste em uma narrativa e em personagens conservadores tem um pouco a aprender com Becky Chambers.

Force Friday, as Irmãs Tico e Olha Essa Coisa Linda Chamada Representação!

Sim, sim. Eu sei. A Force Friday não passa de um evento para vender a maior quantidade de merchandising possível – no menor tempo possível. E eu mesma não saí de casa para virar a noite numa loja de brinquedos para comprar bonecos de Star Wars. MAS, isso não quer dizer que esse tipo de evento não pode resultar em coisas legais.

Como, por exemplo, algumas das reações à presença das Irmãs Tico na infinita seleção de brinquedos de Star Wars.

Eu acho que desde Pacific Rim (Círculo de Fogo) toda vez que eu vejo uma protagonista feminina chutar bundas, eu não consigo evitar o choro. Nas duas últimas vezes que eu fui ao cinema assistir Star Wars o filme nem tinha começado e eu já tinha os meus olhos cheios d’água. Furiosa me fez sair do cinema recarregada e de olhos inchados. O mesmo com Mulher-Maravilha. Eu sei o quão incrível é olhar para a tela e se ver representada, mas eu sou branca e só dessa listinha que eu fiz a maioria absoluta é de mulheres brancas.

Veja bem, Rose e Paige Tico não são protagonistas de Star Wars: Os Últimos Jedi (SOCORRO ESSA FALTA DE S ME MATA), mas elas são uma representação muito, mas muito difícil de se ver em filmes blockbusters de Hollywood – mulheres asiáticas. Diversas vezes nós vimos mulheres brancas assumindo papéis que originalmente deveriam ser de atrizes de ascendência ou origem asiática, então é mais do que só legal ver que elas vão sim estar na tela. Como DUAS IRMÃS REBELDES CHUTADORAS DE BUNDAS IMPERIAIS.

Tudo isso pra dizer que não tem como não achar legal a atriz Kelly Marie Tran, aka Rose Tico, abraçada em versões toys dela mesma! <3

Toda vez que alguém te disser que representação não importa porque nós deveríamos ser capazes de nos vermos em todo ser humano, manda essas fotos e pede pra conversar DEPOIS. Star Wars e todo o merchandising são sim produtos consumíveis, mas tentar dissociar esse tipo de representação da nossa sociedade é um tanto de ingenuidade. Agora é torcer, e cobrar, pra que cada vez mais Star Wars e os outros universos ficcionais que a gente tanto ama abracem mais e mais diversidade. Eu ainda quero ver a adaptação de Estrelas Perdidas. 😉

Star Wars: Os Últimos Jedi estréia no dia 15 de Dezembro (que não vai chegar rápido o suficiente).

Anna Diop será Estelar na série Titans – E algumas pessoas não sabem a diferença entre pele branca e laranja.

Ontem, no finalzinho do dia, ficamos sabendo que a atriz Anna Diop vai assumir o papel de Estelar na série Titans, que adapta os personagens dos Jovens Titãs para a televisão. Anna tem no currículo séries como Everybody Hates CrisQuantico e mais recentemente esteve em 24: Legacy.

Estelar foi criada por Marv Wolfman e George Pérez, e sua primeira aparição nos quadrinhos aconteceu na revista DC Comics Presents #86 em 1980. A personagem é a princesa herdeira do trono de Tamaran, um planeta no sistema Vegan. Ela chega ao planeta Terra depois de fugir das garras da irmã, Blackfire, que havia causado uma guerra no planeta. Estelar então se une aos Jovens Titãs depois de encontrar Robin, Dick Grayson.

Aqui no Brasil Estelar ficou conhecida pelo grande público com o grande sucesso que a série animada Teen Titans fez no começo dos anos 2000.

Com o anúncio que Anna Diop, uma atriz negra, ia assumir a personagem na versão Live Action as pessoas, elas perderam a noção. De um jeito que, para justificar o racismo, começaram a dizer que a Estelar era, na verdade branca.

Temos alguns pontos importantes a se levantar aqui.

O primeiro deles é que você pode dizer o quanto quiser que não é racista, mas se você precisa fantasia que uma personagem laranja é branca, então você precisa procurar se educar melhor e aprender que o que você sente é preconceito racial – não busca por fidelidade com os quadrinhos.

O segundo ponto é: Estelar não é humana. Sim, ela tem traços humanóides, mas isso não quer dizer que ela é um ser humano. Não, ela é uma alienígena e, por isso, tentar colocá-la dentro de padrões humanos é perda de tempo – e pode acabar mostrando que você é racista.

Ruth Negga, em Agents of Shield / Pom Klementieff e Zoe Saldanha em Guardiões da Galáxia.

O terceiro ponto é uma preocupação pessoal. Caso a produção da série resolva realmente pintar o corpo de Diop de laranja, o que faria sentido já que a personagem é laranja, então ela se juntaria à uma série de personagens femininas não-brancas em filmes de super-heróis que acabam sempre com o corpo pintado ou exotificado. Eu vou sempre celebrar o casting de mulheres não-brancas em séries e filmes de super-heróis, mas me incomoda um pouco o modo como elas muitas vezes acabam caindo em personagens que ou são de cores não humanas, ou acabam tendo um design que às retira do padrão humano, enquanto personagens femininas brancas são majoritariamente só humanas. Isso me levanta o sentimento de desumanização dessas personagens e de que essas mulheres não-brancas podem existir dentro do mundo live action de super-heróis, contanto que a sua etnia não seja muito aparente.

Obviamente, eu estou muito feliz com a escolha da atriz para a personagem. Vale lembrar que a DC, na televisão, possui uma representação negra bem interessante e não tem mostrado medo de trazer atrizes negras para interpretar personagens originalmente de outras etnias – vide Iris West. Obviamente o caso de estelar é um pouco diferente, já que ela é laranja, mas ainda assim é muito bom ver mulheres não-brancas assumindo papéis que tradicionalmente elas não receberiam.

Apesar de eu achar que é bem óbvio que a pele da Estelar é LARANJA, algumas pessoas ainda estão confusas sobre isso. Então aqui vai um exemplo que vai deixar tudo mais evidente. Nesta ilustração abaixo nós temos Donna Troy, branca, abraçando Estelar, LARANJA.

Até mais! 😉

 

Novas Imagens e Comentários de Ava Duvarney sobre sua adaptação de Uma Dobra no Tempo.

A Entertainment Weekly liberou fotos e uma entrevista com Ava Duvarney, diretora da nova adaptação de Uma Dobra no Tempo, livro da escritora Madeleine L’Engle.

Uma Dobra no Tempo, que aqui foi publicado pela Rocco Jovens Leitores, segue a história de Meg e seu irmão Charles cuja vida muda quando seu pai desaparece enquanto trabalhava para um sigiloso projeto do governo. Eles entram numa aventura por diferentes fimensões, habitadas por criaturas amigáveis e seres maléficos.

Meg Murry (Storm Reid) e Calvin O’Keefe (Levi Miller)

Uma Dobra no Tempo marca a primeira vez que uma diretora negra assume uma produção de mais de 100 milhões de dólares. Essa não é a primeira adaptação do filme, em 2003 a própria Disney produziu uma versão, mas de menor orçamento.

A diretora Ava DuVernay com Storm Reid no set de filmagem.

Sobre Meg e sobre aceitar dirigir o filme, Ava disse:

A primeira imagem (que eu tinha na minha cabeça) era de uma garota negra no lugar de Meg, uma garota viajando para diferentes planetas e encontrando criaturas e situações que eu nunca tinha visto uma garota não-branca encontrar… Todas aquelas cenas acertaram na minha fantasia, e depois foi algo que Tendo Nagenda (VP de produção da Disney) me disse, que eu nunca vou esquecer. Uma das coisas que realmente me fez querer ler foi quando ele disse ‘Ava, imagine o que você faria com esses mundos’. Mundos! ‘Planetas que ninguém nunca escutou falar’, ele disse. Não existem outras mulheres negras que tenham sido convidadas para imaginar como outros planetas e universos possam ser. Eu estava interessada nisso e numa heroína que se parecesse com as garotas com as quais eu cresci.”

Mr. Murry (Chris Pine)

Chris Pine interpreta Mr. Murry, o cientista pai de Meg. Além dele, o elenco ainda possui Ophra Winphrey, Mindy Kalling e Reese Whiterspoon.

Sobre escolher quem seriam as misteriosas Senhoras Queé, Quem e Qual, Duvarney disse:

Eu queria uma Senhora negra, uma branca e uma que não era nenhuma delas e Mindy foi a primeira que me veio a cabeça. Eu sinto que nós não falamos o suficiente sobre outras etnias e culturas, e Mindy é tão bonita para mim. Sua personagem é alguem que, em seu figurino e ao trabalhar com Mindy, nós queríamos trazer um mix de estilos, culturas e costumes. (…)

(Para Senhora Queé) eu estava procurando aquela inocência, aquela coisa que Reese interpreta tão bem, mas algo com muito poder e precisão, e diversão. A personagem tem tanto humor, você realmente precisa alguém que tenha experiência e tenha feito tudo isso, e essa é Reese.(…)

Quando você está tentando escalar a mulher mais sábia do mundo (Senhora Quem), qual é a dúvida? Você vai e liga para ela e fica feliz que você tem o número dela na discagem rápida. A personagem é muito do que ela ela (Ophra) te ensina através da sua revista e da OWN (rede de televisão da Ophra), sobre ter a sua própria luz e conquistar a escuridão, e sobre como nós temos que empoderar a nós mesmos nessa vida de uma certa maneira, e cuidar uns dos outros.

Senhora Qual (Oprah Winfrey)
Senhora Quem (Mindy Kaling) 
Senhora Queé (Reese Witherspoon)

Você pode ler toda a entrevista, em inglês, no site da Entertainment Weekly.

O filme estréia dia 18 de Março de 2018!

As Personagens Femininas em Homem-Aranha: De Volta Ao Lar

Homem-Aranha: De Volta ao Lar chamou muita atenção quando anunciaram o elenco secundário do filme – nenhum dos amigos ao redor de Peter são brancos, e entre seus professores apenas um deles é um homem branco. E essa diversidade também se refletiu nas personagens femininas – mas nem tudo são flores quando vamos discutir a representação feminina no filme. 

Primeiro é preciso dizer o quão incrível é ver esse elenco tão diverso e apresentado de maneira natural – não tem nada de estranho em uma escola do Queens com a maioria dos alunos não-brancos. O filme tem alguns detalhes escondidos na representação desses personagens que são pequenas pérolas: Principal Morita (o diretor da escola de Peter) é interpretado pelo ator Keneth Choi, que interpretou Jim Morita, companheiro de guerra de Steve Rogers em Capitão América: Primeiro Vingador e em Agents of Shield. A foto de Jim está no escritório do Diretor. A presença da foto, além de fazer uma ligação entre os filmes, levanta também a questão de que a identidade norte-americana (que é muito baseada no militarismo) não é limitada à pessoas brancas – um tópico muito relevante nos EUA dentro do contexto atual. 

Mas voltando às personagens femininas, o filme nos apresenta três figuras principais: Tia May, Liz e Michelle, e a única delas que de fato possui impacto no plot é a Liz. Dizer que Homem-Aranha: De Volta ao Lar não passa no Teste Bechdel não parece ser o suficiente – o filme passa há 20 quilômetros do Teste Bechdel, e ainda entra uma esquina antes. Nenhuma das personagens femininas do filme conversam entre si, ou seja, o filme falha já no segundo quesito do teste. E sim, o Bechdel não é o único parâmetro para representação feminina, mas venhamos e convenhamos que esperar que seu filme tenha personagens femininas que pelo menos conversem entre si não é esperar muito dele. 

Vamos olhar mais de perto cada uma dessas três personagens. Você foi alertada sobre spoilers – siga sobre seu próprio risco! 

Tia May 

Quando Marisa Tomei foi anunciada para o papel de Tia May vieram reclamações de todos os lados: ou ela era nova de mais, ou sexy demais. E eu entendo que a figura que a imensa maioria das pessoas tem da Tia May é a da senhorinha de cabelos brancos, mas particularmente eu achei interessante ver uma Tia May mais nova e que não estivesse presa a uma figura idealizada de maternidade. Infelizmente o filme não aproveita de maneira verdadeiramente interessante o fato de May ser uma representação mais jovem da personagem. 

Ao invés de explorar a sexualidade da personagem de maneira a dar para ela o motor de sua ação, o filme repetidamente a usa para deixar Peter desconfortável com os avanços dos homens ao seu redor. Seria interessante ter essa relação de Peter lidando com uma May que não esconde a sua sexualidade? Sim. Mas não é isso que acontece, a personagem só é objetificada por homens o tempo todo. Além disso tudo, May não possui uma participação mais ativa no plot do filme, e não lhe é dada a possibilidade de existir fora do papel de figura materna de Peter – nós não sabemos nem o que May faz para ganhar dinheiro, por exemplo. 

Liz

Liz (Laura Harrier) foi apresentada já nos trailers como o interesse romântico de Peter no filme, e esse papel se confirma sim, mas é muito interessante ver que a personagem não foi usada para cair dentro do clichê da Donzela em Perigo. Apesar de eu gostar muito dos dois primeiros filmes do Homem-Aranha, do diretor Sam Raimi, Mary Jane (Kirsten Dust) acabava sempre precisando ser resgatada no final. O mesmo acontecia com a Gwen Stacy de Emma Stone, que no último filme foi inclusive enviada para a geladeira. Liz, que é filha do vilão, poderia facilmente ter caído em qualquer um dos principais clichês de interesses românticos de super-heróis, então é muito legal ver que conseguiu-se criar uma história que não precisou vitimar uma personagem feminina dessa maneira. 

Exatamente por Liz ser filha do Abutre (Michael Keaton), a participação da personagem no filme abre portas para que num futuro, quem sabe, tanto pai e filha possam voltar aos filmes do aracnídeo. O Abutre e Peter tem um relacionamento complicado nos quadrinhos, em que o vilão sabe a identidade do aracnídeo mas ainda assim não a revela para seus comparsas criminosos. Quem sabe não vemos Liz retornar assumindo uma figura mais próxima do que o Harry Osborne possui nos quadrinhos, com ela buscando vingança no Homem-Aranha pelo aprisionamento do seu pai. Eu estaria totalmente dentro de ver a transformação de Liz em uma vilã nos próximos filmes. 

Ainda sobre Liz ser filha do Abutre, o fato dela ser uma garota negra provavelmente vai pegar uma parte mais conservadora da audiência de calças curtas com a revelação, e eu acho que os roteiristas (foram seis no total) provavelmente esperavam por isso. O interesse romântico ter algum tipo de ligação com uma figura antagonista ao herói não é exatamente novidade, mas essa pequena “virada” do filme já é o suficiente para mostrar novamente o que eu já havia falado lá em cima: o filme trata a questão da diversidade com naturalidade. Há sim momentos em que o filme faz pequenas alusões à discussões sobre racismo, por exemplo, mas o filme não bate palmas para si mesmo. Não há nada de surpreendente em um casal interracial, surpreendente é ainda se surpreenderem com isso. 

Sobre Liz ainda é interessante notar que apesar dela ser o interesse romântico de Peter, ele não chega a idealizá-la de uma maneira que a objetifica e desumaniza. Na cena da cafeteria, ele e Ned (James Batalon) inclusive se está ficando estranho o tanto que eles olham para ela, mas a verdade é que os dois comentam sobre a roupa que ela usa sem objetificá-la. Liz também é apresentada como uma garota com sonhos, responsável e inteligente – mas esses traços não existem para fazê-la caber dentro de um quadradinho, é possível ver que existe uma personalidade ali. 

Michelle

Eu amo a Michelle (Zendaya), e amo tudo que ela pode se tornar. Muito se especulou sobre qual personagem Zendaya iria interpretar, e a produção sempre fugiu da possibilidade dela ser a M.J., fugiu tanto que deram um nome completamente diferente para a personagem. A revelação de que Michelle é MJ pode soar forçada para alguns, mas eu gosto muito da maneira como a personagem foi introduzida dentro desse universo e de toda as possibilidades que uma nova versão, mais coerente e tridimensional, da personagem pode adicionar para o universo do aracnídeo. 

Eu me recusarei a comentar sobre o fato de Zendaya não ser ruiva, porque cor de cabelo não define personalidade e se os fãs mais chatos chorarem o suficiente eles irão tacar uma tinta laranja no cabelão maravilhoso da atriz. O fato de Zendaya ser negra também só deixa as sequências muito mais interessantes, além de ser uma passo importante para a representação feminina dentro do universo da Marvel, a escolha da atriz para o papel continua com o discurso de trazer diversidade de maneira natural – Michelle não cai dentro dos estereótipos normalmente atribuídos à adolescentes negras. 

A escolha de Zendaya para o papel indica que talvez o filme realmente esteja seguindo uma visão mais Ultimate do que tradicional, isso já era evidenciado pelos personagens que estão ao redor de Peter. Na versão clássica da personagem MJ é uma aspirante a modelo/atriz, algo que para o contexto no qual ela foi criada lá em seus idos anos 60, fazia muito sentido que essa fosse a grande aspiração de uma garota adolescente. Mas estamos em 2017, e há muito material do qual pode-se tirar uma personagem muito mais interessante do que as versões apresentadas até aqui. 

A Marvel sempre teve um problema em criar plots envolvendo MJ que não resultassem em ela ser colocada na posição de donzela em perigo, por mais “pra frente” que MJ fosse ela sempre foi resumida ao interesse romântico de Peter Parker, uma visão idealizada do que a garota dos sonhos de todo garoto deveria ser. Michelle de cara já joga essa expectativa pela janela, ela não se veste como nos quadrinhos, ela não tem as preocupações com estética que a versão tradicional da personagem possuía. O que Michelle possui de similar à MJ mais conhecida é a atitude, mas mesmo com pouco tempo de tela é possível ver que ela vai além do “Go get them, Tiger”. 

Peter sempre foi a figura tímida dentro do relacionamento, apesar de ser um super-herói, Peter mesmo sempre foi inseguro em relação à MJ, e essa dinâmica provavelmente vai se manter num possível relacionamento entre os dois. Apesar de ela estar interessada em Peter muito provavelmente desde o começo, MJ demonstra ser uma garota muito segura de si – algo que a original também era. Mas diferente das suas outras encarnações, o filme em momento nenhum a apresenta como alguém fútil, muito pelo contrário, ela é apresentada como uma jovem inteligente e que está em pé de igualdade com Peter – o que nós provavelmente vamos ver nos próximos dois filmes é a construção de uma amizade se tornando algo mais. 

Eu não tenho nada contra garotas que representam uma figura feminina que se aproxima do que é considerado uma feminilidade ideal, mas MJ é uma personagem que sempre acaba caindo no escopo negativo dessa equação – por incapacidade dos roteiristas mesmo. MJ nunca teve o mesmo espaço para se desenvolver e existir além de seu super-herói como, por exemplo, Lois Lane. Então talvez com uma MJ que, apesar de manter a personalidade confrontativa e segura de si, não caia dentro desses clichês nós tenhamos espaço para uma personagem realmente tridimensional e que exista além do Peter. Ia ser incrível, por exemplo, vê-la como líder da banda Mary Jane como em Spider-Gwen (e quem sabe aí venha também uma Gwen atiradora de teias). 

Conclusão 

Eu gosto muito de todas as possibilidades que Homem-Aranha: De Volta ao Lar abriu para as personagens femininas dentro desse universo, mas não consigo não ficar insatisfeita com o pouco esforço dado para a participação feminina dentro do plot do filme. Novamente nós temos um grupo de vilões em que nenhum deles é uma mulher, e novamente nós temos um filme de super-herói que falha miseravelmente no teste Bechdel – e esse é um teste muito, muito raso. A sensação que fica é que enquanto o filme abre portas muito interessantes para a representação feminina dentro do universo Marvel e Aracnídeo, ainda assim fica o gosto amargo da falta de interação entre as personagens. Mas hey, agora eu vou passar os próximos anos sonhando com Zendaya arrasando nos vocais de uma banda de rock, com Liz voltando como uma super-vilã AND, quem sabe, uma Spider-Gwen pra gente chamar de nossa. ❤️ 

Edgar Wright, Twin Peaks e Mulher-Maravilha: A Frustração Que Vem de Esperar Mais.

Com o lançamento de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright, se aproximando eu tenho cada vez mais pensado sobre o sentimento de frustração que cresce toda vez que um diretor que eu gosto lança algo novo. É muito difícil que o anúncio de algo novo não venha carregado com um mix de felicidade, esperança e a certeza de que minhas expectativas não serão alcançadas. 

Edgar Wright é um dos poucos diretores dos quais eu realmente acompanho a carreira. Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim Contra o Mundo são alguns dos meus filmes favoritos – Hot Fuzz, o segundo na trilogia, figurando facilmente dentro de um TOP 10. Eu adoro o ritmo da narrativa, os roteiros, a direção e os personagens… O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analizar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de “musa-com-algo-a-mais”. 

Baby Driver parece tudo aquilo que eu amo no cinema: um filme de ação, com personalidade, cenas de perseguição, humor, a edição divertida e inteligente dos filmes de Wight mas, infelizmente, também vem novamente com o protagonista masculino e branco. E a sensação de frustração vem exatamente disso, porque por mais que eu ame o trabalho dele como diretor, por mais que eu vá assistir ao filme provavelmente na primeira semana de lançamento, eu vou sair do cinema invariavelmente frustrada.

Frustrada porque é exatamente por saber o quão incrível Edgar Wright é como diretor que me dói vê-lo contar sempre a mesma história, sempre com o mesmo protagonista. 

Há argumentos para dizer que Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim tem protagonistas com personalidades diferentes, mas no fundo ele conta apenas a narrativa predominante porque seja o protagonista um nerd, um policial ou um desempregado, no fim a narrativa é aquela que a gente vê se repetir ad infinitum na mídia. E eu quero mais, quero vê-lo contar histórias que saiam do seu lugar de conforto, histórias de personagens que não sejam de certa maneira um espelho dele e de suas experiências. Eu vejo todo o potencial narrativo e criativo de Wright e me pergunto porque Baby Driver não tem uma protagonista feminina, ou porque baby não é um rapaz negro, ou asiático ou porque os seus filmes são sempre tão heteronormativos. 

Essa é uma sensação que se repete com quase todos os diretores que gosto e acompanho, como Adam MaKay por exemplo, e é a mesma frustração que me faz assistir Mulher-Maravilha e querer que tivéssemos mais mulheres e mais diversidade na tela. Criar algo novo, ou quando se trás de volta algo já conhecido, deveria sempre significar ir em frente. Star Wars trouxe o Rey e Finn, e por mais que ainda seja uma abordagem tímida, deixa a sensação de que mesmo que lentamente nós estamos caminhando para frente, ao invés de regredir. A Marvel finalmente me passou a sensação de ir além do seu passado com o trailer de Pantera Negra, mas ainda é pouco e ainda é tímido. Voltar ao mundo torto e bizarro de Twin Peaks tem sido uma batalha constante, como pode depois de 25 anos os mesmos padrões e clichês de personagens femininas se repetirem, e por que eles parecem estar ainda piores do que antes?

FBI Agent Tammy Preston: Em Twin Peaks não dá para ser agente do FBI e não ser super sexy.

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterosexual e cis? Por que me limitar criativamente?

Edgar Wright não é um diretor ao pé de igualdade de Scorcese, não no que diz respeito ao que ele tem liberdade para colocar na tela (já que em questão de qualidade, polêmica: eu prefiro Wright), então é entendível que para ele existam limites maiores de produção. Mas a sensação que fica é a que existe todo um potencial, uma inovação narrativa que podia ser expandida para além de uma montagem rápida e divertida, além de diálogos bem escritos e cenas de ação engraçadas e bem dirigidas, uma inovação que podia trazer mais diversidade. E se ele não se limitar à narrativa branca e masculina, imaginem as histórias incríveis e ainda mais inovadoras que ele poderia trazer para a tela.