Force Friday, as Irmãs Tico e Olha Essa Coisa Linda Chamada Representação!

Sim, sim. Eu sei. A Force Friday não passa de um evento para vender a maior quantidade de merchandising possível – no menor tempo possível. E eu mesma não saí de casa para virar a noite numa loja de brinquedos para comprar bonecos de Star Wars. MAS, isso não quer dizer que esse tipo de evento não pode resultar em coisas legais.

Como, por exemplo, algumas das reações à presença das Irmãs Tico na infinita seleção de brinquedos de Star Wars.

Eu acho que desde Pacific Rim (Círculo de Fogo) toda vez que eu vejo uma protagonista feminina chutar bundas, eu não consigo evitar o choro. Nas duas últimas vezes que eu fui ao cinema assistir Star Wars o filme nem tinha começado e eu já tinha os meus olhos cheios d’água. Furiosa me fez sair do cinema recarregada e de olhos inchados. O mesmo com Mulher-Maravilha. Eu sei o quão incrível é olhar para a tela e se ver representada, mas eu sou branca e só dessa listinha que eu fiz a maioria absoluta é de mulheres brancas.

Veja bem, Rose e Paige Tico não são protagonistas de Star Wars: Os Últimos Jedi (SOCORRO ESSA FALTA DE S ME MATA), mas elas são uma representação muito, mas muito difícil de se ver em filmes blockbusters de Hollywood – mulheres asiáticas. Diversas vezes nós vimos mulheres brancas assumindo papéis que originalmente deveriam ser de atrizes de ascendência ou origem asiática, então é mais do que só legal ver que elas vão sim estar na tela. Como DUAS IRMÃS REBELDES CHUTADORAS DE BUNDAS IMPERIAIS.

Tudo isso pra dizer que não tem como não achar legal a atriz Kelly Marie Tran, aka Rose Tico, abraçada em versões toys dela mesma! <3

Toda vez que alguém te disser que representação não importa porque nós deveríamos ser capazes de nos vermos em todo ser humano, manda essas fotos e pede pra conversar DEPOIS. Star Wars e todo o merchandising são sim produtos consumíveis, mas tentar dissociar esse tipo de representação da nossa sociedade é um tanto de ingenuidade. Agora é torcer, e cobrar, pra que cada vez mais Star Wars e os outros universos ficcionais que a gente tanto ama abracem mais e mais diversidade. Eu ainda quero ver a adaptação de Estrelas Perdidas. 😉

Star Wars: Os Últimos Jedi estréia no dia 15 de Dezembro (que não vai chegar rápido o suficiente).

Com licença. Mas é DOUTORA General Leia Organa, por favor!

Para começar o dia com uma notícia legal e divertida, parece que Leia Organa, a Princesa e General mais amada de Star Wars também era Doutora – do tipo que tem PhD.

Em uma thread do twitter, a Doutora Becca Harrison, da Universidade de Glasgow, chamou atenção para uma informação que ela notou e que, até então, parecia ter passado despercebida. No livro Superwoman: Gender, Power and Representation, a autora Carolyn Cocca trouxe a informação de que foi o próprio George Lucas que comentou sobre as conquistas acadêmicas de Leia Organa.

De acordo com o livro George Lucas disse, lá em 2004 enquanto falava sobre Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança, que Leia é:

jovem, com dezenove anos, a mesma idade que Luke deveria ter, mas ao invés de ser meio idealista e ingênua como um garoto da fazenda no meio de lugar nenhum, ela é muito sofisticada, uma líder urbana, uma Senadora, então ela é uma política, ela realizou coisas, ela se formou, conseguiu seu PhD aos dezenove e lidera pessoas e é responsável por elas. [Eu precisava de uma atriz]  que pudesse ser jovem e brincar muito com autoridade… e empurrar esses caras para frente.

BAM. Leia não só é uma General-Princesa chutadora de bundas, ela também é uma cientista política badass com PhD e tudo. Quer dizer, eu imagino que o PhD dela tenha a ver com humanidades e política… Já que ela também é uma SENADORA.

Eu normalmente não fico animada com “filmes sobre a juventude dos personagens de Star Wars”, porque a juventude deles foi durante a primeira trilogia… Mas meu corpo está pronto pra história de como Leia se tornou a princesa badass que ela já era quando nós a encontramos.

Aliás, princesa não. Agora é Doutora Princesa General Senadora Leia Organa. 

 

Edgar Wright, Twin Peaks e Mulher-Maravilha: A Frustração Que Vem de Esperar Mais.

Com o lançamento de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright, se aproximando eu tenho cada vez mais pensado sobre o sentimento de frustração que cresce toda vez que um diretor que eu gosto lança algo novo. É muito difícil que o anúncio de algo novo não venha carregado com um mix de felicidade, esperança e a certeza de que minhas expectativas não serão alcançadas. 

Edgar Wright é um dos poucos diretores dos quais eu realmente acompanho a carreira. Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim Contra o Mundo são alguns dos meus filmes favoritos – Hot Fuzz, o segundo na trilogia, figurando facilmente dentro de um TOP 10. Eu adoro o ritmo da narrativa, os roteiros, a direção e os personagens… O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analizar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de “musa-com-algo-a-mais”. 

Baby Driver parece tudo aquilo que eu amo no cinema: um filme de ação, com personalidade, cenas de perseguição, humor, a edição divertida e inteligente dos filmes de Wight mas, infelizmente, também vem novamente com o protagonista masculino e branco. E a sensação de frustração vem exatamente disso, porque por mais que eu ame o trabalho dele como diretor, por mais que eu vá assistir ao filme provavelmente na primeira semana de lançamento, eu vou sair do cinema invariavelmente frustrada.

Frustrada porque é exatamente por saber o quão incrível Edgar Wright é como diretor que me dói vê-lo contar sempre a mesma história, sempre com o mesmo protagonista. 

Há argumentos para dizer que Spaced, A Trilogia do Corneto e Scott Pilgrim tem protagonistas com personalidades diferentes, mas no fundo ele conta apenas a narrativa predominante porque seja o protagonista um nerd, um policial ou um desempregado, no fim a narrativa é aquela que a gente vê se repetir ad infinitum na mídia. E eu quero mais, quero vê-lo contar histórias que saiam do seu lugar de conforto, histórias de personagens que não sejam de certa maneira um espelho dele e de suas experiências. Eu vejo todo o potencial narrativo e criativo de Wright e me pergunto porque Baby Driver não tem uma protagonista feminina, ou porque baby não é um rapaz negro, ou asiático ou porque os seus filmes são sempre tão heteronormativos. 

Essa é uma sensação que se repete com quase todos os diretores que gosto e acompanho, como Adam MaKay por exemplo, e é a mesma frustração que me faz assistir Mulher-Maravilha e querer que tivéssemos mais mulheres e mais diversidade na tela. Criar algo novo, ou quando se trás de volta algo já conhecido, deveria sempre significar ir em frente. Star Wars trouxe o Rey e Finn, e por mais que ainda seja uma abordagem tímida, deixa a sensação de que mesmo que lentamente nós estamos caminhando para frente, ao invés de regredir. A Marvel finalmente me passou a sensação de ir além do seu passado com o trailer de Pantera Negra, mas ainda é pouco e ainda é tímido. Voltar ao mundo torto e bizarro de Twin Peaks tem sido uma batalha constante, como pode depois de 25 anos os mesmos padrões e clichês de personagens femininas se repetirem, e por que eles parecem estar ainda piores do que antes?

FBI Agent Tammy Preston: Em Twin Peaks não dá para ser agente do FBI e não ser super sexy.

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterosexual e cis? Por que me limitar criativamente?

Edgar Wright não é um diretor ao pé de igualdade de Scorcese, não no que diz respeito ao que ele tem liberdade para colocar na tela (já que em questão de qualidade, polêmica: eu prefiro Wright), então é entendível que para ele existam limites maiores de produção. Mas a sensação que fica é a que existe todo um potencial, uma inovação narrativa que podia ser expandida para além de uma montagem rápida e divertida, além de diálogos bem escritos e cenas de ação engraçadas e bem dirigidas, uma inovação que podia trazer mais diversidade. E se ele não se limitar à narrativa branca e masculina, imaginem as histórias incríveis e ainda mais inovadoras que ele poderia trazer para a tela. 

Não Julgue Carrie Fisher.

Quando uma celebridade morre, a mídia faz todo tipo de anúncio. Às vezes eles acertam, às vezes eles erram. Os fãs explodem em um turbilhão de emoções: Uns choram, outros questionam e alguns não entendem. Quando Carrie Fischer faleceu, no final do ano passado, os fãs de Star Wars, antigos e novos, perderam um pouquinho do chão. Uma figura presente no fandom desde o começo, Carrie não era só a princesa Leia, ela era um símbolo sozinha de esperança e perseverança.

É normal que esses mesmos fãs se sintam confusos com a notícia de que encontraram drogas no sistema de Carrie durante a autopsia, mas o que nós não temos o direito é de julgá-la.

A autópsia dizia que não havia como comprovar qualquer relação entre a presença das drogas no sistema da atriz com a causa da morte, registrada como apneia do sono. Mas mesmo que tivesse, mesmo assim nem eu nem você teríamos o direito de julgá-la. E eu me incluo nesse nós por causa da minha primeira reação ao ouvir a notícia. É importante ressaltar que o conteúdo da autópsia não foi divulgado com a autorização da família, ele foi revelado ilegalmente através de um vazamento de informação – infelizmente uma prática muito comum em Hollywood.

Divulgar a informação como “havia drogas no sistema de Carrie Fischer quando ela morreu”, não é só sensacionalista, é desumano.

Carrie sempre falou sobre a sua luta contra o abuso de drogas e sobre a difícil tarefa de viver com a bipolaridade. Ela discutia os dois assuntos com frequência e abertamente sobre os seus problemas, muitas vezes através do humor. O uso de drogas, as legais e as ilegais, pode gerar a dependência química que pode gerar uma dependência emocional e, se a pessoa já possui algum tipo de distúrbio psicológico, isso fica ainda mais difícil de se lidar.

Talvez porque ela falava tão abertamente, talvez porque ela tinha voltado com força para Star Wars e nós tivéssemos recebido ela com tanta euforia nós tenhamos esquecido que a batalha é constante. E que constante não quer dizer que ela terminou, mas que ela é permanente. E Carrie ter falecido não quer dizer que ela perdeu.

Não há nada naquele pedaço de papel que diminua quem Carrie foi, nem o que ela representou para todos nós.

No sábado minha mãe me falou que tinham encontrado os resquícios de drogas na autópsia de Carrie. Fiquei brava que os jornais pudessem ser tão irresponsáveis em traduzir “drugs” como drogas, quando drugs em inglês pode simplesmente significar remédio. Até então não se sabia do conteúdo da autópsia, apenas o que a própria família havia liberado. Não é que eu tenha automaticamente a julgado, mas eu não podia conceber como era possível que Carrie continuasse lutando contra o vício. A verdade é que nós talvez nunca iremos saber se as drogas estavam ali uma única vez após muito tempo, se ela tinha voltado a usar ou se ela nunca tinha parado. A verdade é que não importa.

Dependência química faz com que seres humanos parem de ser vistos como seres humanos, a sociedade olha para eles de cima, como se fossem fracassados e nós, sóbrios, vencedores. Homens, mulheres, desconhecidos e famosos, tudo vira uma estatística e nós deixamos de ver essas pessoas como humanos, e é aí que entra o julgamento. É a partir daí que uma visão de mundo retrógrada e preconceituosa leva a comentários como “ela se rendeu ao lado negro da força” ou “a verdade nojenta sobre ela”.

Ninguém está acima de ninguém porque não possui um vício. Carrie foi uma das celebridades que mais discutiu abertamente seus problemas com drogas e sua bipolaridade. Ela continua sendo um símbolo da luta contra a estigmatização tanto de pessoas com dependência química como de pessoas com distúrbios psicológicos – e os dois não são necessariamente um resultado do outro.

Então, se você ficar confusa com a notícia de que havia restos de drogas no corpo de Carrie Fischer, lembre-se que apesar dela ser a Princesa e a General mais guerreira das galáxias ela também era, no final, humana. Olhe para as grandezas que Carrie deixou para trás, e entre tantas talvez a mais importante seja exatamente uma discussão mais aberta e franca sobre drogas, sobre a influência negativa de Hollywood nos jovens artistas e sobre distúrbios psicológicos.

Rogue One – O Melhor Star Wars até Aqui.

É uma afirmação e tanto, eu sei. E o que eu mais vou escutar em retorno é que Rogue One – Uma História de Star Wars não é melhor que O Império Contra-Ataca (1980), e eu estou preparada pra concordar no que diz respeito ao impacto que o episódio V causou aos fãs, as reviravoltas que ele deu dentro da trilogia original. Mas Rogue One é o primeiro filme de Star Wars a entregar aquilo que a franquia quer há tantos anos: um filme sobre esperança, mas que não deixa para trás o peso que a existência dela cobra.

Jyn Erso (Felicity Jones) é talvez a personagem pela qual eu mais esperei em 2017, quem sabe a personagem que eu esperei a minha vida inteira. Os receios dela em relação à Aliança são claros: como confiar, como lutar por algo que já tomou tudo que era importante para ela? A relação de Jyn com seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen), e o papel dele dentro da construção da Estrela da Morte é fundamental para a motivação que a faz se transformar de alguém que renegava a rebelião, em alguém que se torna a força motriz dos rebeldes. A construção da personagem é tão minuciosamente trabalhada que pode-se ver traços tanto de Galen quanto de sua segunda figura paterna, Saw Gerrera (Forest Whitaker). Uma personagem a quem se permite crescer, mudar e duvidar, que o roteiro dá espaço para tudo isso e para uma personalidade que não é a de nenhuma outra heroína feminina da franquia até agora. Ela não é a jovem forte e impiedosa Rey, ela não é tronco de confiança e esperança que Leia é – Jyn é o combustível para que as histórias das duas possam acontecer.

Quando fala sobre o combustível da rebelião  Rogue One acerta em cheio, porque é através desses rebeldes, personagens que não são parte da família Skywalker, que não tem nenhuma direção direta com o núcleo central da franquia, que Star Wars nos mostra o que realmente é uma guerra. E eu não digo uma guerra como a Segunda Guerra, eu digo os conflitos que nós aqui no ocidente que nós escutamos falar mas tão pouco compreendemos em nossa história mais recente. Não são exércitos que estão indo para cima do Império, não são nem frotas estelares, são pessoas armadas com o mínimo enfrentando o Império. São rebeldes, cujas vidas estão na linha de frente, nas linhas laterais e nos cantos mais perigosos, enviando mensagens de esperança, dando a vida por uma causa que não pode ser perdida.

Rogue One sente como os livros do universo expandido de Star Wars, uma visão além daquela que conhecemos sempre. Há pequenas participações de personagens clássicos, todos eles ou necessários, ou uma ode ao que está para acontecer. Todos eles peças fundamentais na construção da narrativa dramática do filme. Mas essas participações não ofuscam o leque de personagens incríveis que o filme nos apresenta.

A dupla Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Base Malbus (Wen Jiang) são os meus personagens secundários favoritos. Eles são a representação da Força dentro de Rogue One, seja Chirrut como o seu maior discípulo, seja Base como aquele que perdeu a fé. A química entre Jyn e os dois é parte do que acende nela a chama da rebelião, é a fé tanto dela quanto de Chirrut que aproxima os três e os torna quase instantaneamente uma equipe. Mas nada disso é gratuito, e também não é feito de maneira rasa ou exageradamente baseada na Força.

Cassian Andor (Diego Luna) é provavelmente o personagem com maior desenvolvimento depois de Jyn. Um rebelde que vai até onde for necessário pela Aliança, um homem que luta desde criança e que como Jyn perdeu tudo para a guerra, um homem cego pelas ordens e pelo senso de dever que ele segue desesperadamente. A transformação dele ao longo do filme também está diretamente conectada com a sua interação com Jyn, deixando ainda mais evidente que é ela a força motriz dos rebeldes de Rogue One.

Para aqueles que tinham medo de K-2SO (Alan Tudyk), o droid do filme, eu posso dizer que só sobre ele é possível escrever todo um ensaio sobre A.I.s e sobre como se é construído o conceito de personalidade dentro de uma inteligência artificial. Alan Tudyk faz um trabalho muito bom de dublagem, entregando um K-2SO que é crucial para o tom do filme. Além dele, Bohdi Rook (Riz Ahmed) é também um personagem importante para o filme e para a união do grupo final de rebeldes de Rogue One. Não vou revelar muito sobre ele a fim de não deixar passar nenhum spoiler.

Infelizmente Rogue One sofre de uma síndrome muito comum: a síndrome de Smurfete. Além de Jyn não há nenhuma personagem feminina que seja crucial para o plot central, o que vai implicar na nota do filme no nosso sistema de review de representação feminina. Mas mais do que isso, o sentimento que fica é que mulheres não são parte nem da Aliança Rebelde e nem do Império, já que elas pouco são vistas. No Conselho da Aliança estão Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) e a Senadora Pamlo (Sharon Dunca-Brewster), mas fora as duas nós escutamos a voz e vemos de relance o rosto de talvez três mulheres pilotos rebeldes. ( Lyra Erso, a mãe de Jyn, ganha pouco tempo e dá-se pouca importância, talvez esteja aqui o meu maior problema com o desenvolvimento de Jyn, uma vez morta Lyra perde qualquer importância, mas é a morte dela que a protagonista assiste quando criança. Ainda me incomoda como as histórias maternas em Star Wars são pouco ou quase nada importantes.) Selecione o texto para um spoiler leve sobre a origem de Jyn. 

Apesar da falta de personagens femininas, Rogue One entrega um elenco etnicamente diverso, sendo Jyn a única personagem central branca – todos os outros membros do grupo principal de rebelde são de outras etnias. E essa diversidade não está apenas neles, os personagens periféricos e os figurantes também mostram a preocupação da equipe de produção em deixar aparecer na tela essa diversidade. Esse é, muito provavelmente, o filme menos branco de toda a franquia Star Wars.

Com personagens bem desenvolvidos, não é difícil sentir que o roteiro também é bem construído. A história em Rogue One é tão redonda que conserta inclusive problemas de roteiro de outros filmes, não de uma maneira barata, mas com a preocupação de que essa amarra estivesse também ligada à temática do filme e à motivação da protagonista. Talvez o grande acerto em Rogue One seja ligar pontos temáticos tão bem alinhados com o que motiva e quem Jyn Erso é, dando um sentimento de unidade à uma história que podia simplesmente ser mais uma dentro de um universo gigante, mas não é. A direção de Gareth Edwards, que também dirigiu o blockbuster Godzilla (2014) e o sci-fi independente Monsters (2010), acerta na mão na hora de lidar com as histórias de cada personagem, tirando o melhor de cada ator, escolhendo enquadramentos que mostrem a grandeza dos cenários, mas que não deixam o deslumbramento estético entrar no caminho da narrativa – um dos principais problemas dos blockbusters mais recentes.

Em tempos como os nossos, em que discursos conservadores e o fascistas ganham força, Rogue One vem trazendo uma mensagem de esperança, mas uma que não é vazia ou excepcionalmente higienizada, ele vem com uma mensagem que é brutalmente verdadeira: até a esperança tem um preço. A Aliança Rebelde em Rogue One não é o extremo oposto do Império, o filme permite mostrar diferentes visões do movimento que comanda a lado rebelde da guerra, abordando extremismos e politicagens dentro dele. Essa capacidade de discutir as diferenças dentro da Aliança talvez seja uma das maiores lições que se possa tirar do filme.

Rogue One é o principal coração de todo universo Star Wars, exatamente porque conta a história daqueles não tem sabres de luz, que não estão diretamente ligados à força ou à família cuja história está no centro de uma guerra centenária. Rogue One conta a história daqueles que lutam apenas por acreditar que a mudança é possível, aqueles que enfrentam AT-AT Walkers com blasters, que lutam porque acreditam que a esperança é capaz de mudar a história de uma galáxia inteira.

*Olhando o nosso Sistema de Review de Representação Feminina fica ainda mais aparente o modo como a representação feminina ainda precisa caminhar muito dentro do universo Star Wars. Não basta ter protagonista feminina, precisa ir além.*

Para entender o nosso Sistema é só clicar AQUI.

HOSHINO, curta feito por fãs de Star Wars, tem uma jedi cega e a gente quer mais.

O que eu mais detesto nesses curtas feitos por fãs de universos como Star Wars é que as vezes eles são tão bons, mas tão legais, que a gente fica querendo mais. Em Hoshino, nós acompanhamos a história da Mestre Jedi Ko Hoshino que, enquanto monta seu sabre de luz, relembra seu mestre, seu treinamento e talvez a maior lição de todas.

Infelizmente o filme está inteiro em inglês e sem legenda, mas a narrativa tá tão bonitinha que dá pra entender mesmo sem os diálogos.

Agora que você já assistiu, ou se você quiser continuar lendo mesmo sem ter assistido… Uma das coisas mais legais desse filme é que, além de incrivelmente bem feito, a narrativa é simples mas isso não quer dizer que ele é menor, muito pelo contrário. Com uma protagonista asiática e deficiente visual esse curta tem mais diversidade de representação do que quase todos os filmes de Star Wars.

Não me entenda mal, eu amo Star Wars e irei defendê-lo, mas apesar das animações já possuírem um pouco mais de diversidade, e Rogue One: Uma História de Star Wars ter um elenco masculino etnicamente diverso, no quesito representação feminina a franquia ainda está um tanto atrás. Além disso Ko é uma aprendiz negligente e arrogante, uma representação feminina que raramente se permite dentro de narrativas de formação de heróis. Anna Akana, a atriz que interpreta Hoshino, tem um canal bem divertido no youtube, vale a pena acompanhá-la.

E se você gosta de saber como as coisas são feitas, eles liberaram também um making of do filme!

A Mulher como Objeto de Cena

Personagens femininas são hiper-sexualizadas de diversas maneiras: roupas curtas e decotadas em ambientes nos quais isso não faz sentido, super-poderes criados apenas para agradar a sexualidade masculina… Mas existem dois métodos que são pouco falados, a transformação da mulher em objeto de cena e o Movimento/Enquadramento da Câmera. Nesse texto nós vamos focar na Mulher como Objeto de Cena.

Objetos de Cena são os objetos que compõem o set de filmagem. São sofás, abajures, mesas, flores, decorações de maneira geral. Eles ou apenas compõem o ambiente, ou são manipulados pelos personagens em cena. É através deles que os diretores de arte conseguem construir o universo idealizado pelos diretores/roteiristas, ou o próprio ilustrador consegue colocar mais informações na página. Eles podem ser apenas objetos que serão esquecidos, ou podem ser parte importante da narrativa. Esses objetos, algumas vezes, são substituídos por mulheres.

As mulheres que servem como objeto de cena estão sempre nuas ou seminuas. Ficam ou ao fundo de uma cena, ou estão transando com o personagem central – mas sem que a ela seja dada qualquer tipo de importância -, ou passam de mãos em mãos entre os personagens centrais da cena. Elas são usadas para tornar a cena mais interessante, prender a atenção do público enquanto os personagens centrais soltam longos diálogos para aprofundar o plot. Elas também são usadas só para enfeite, para que a cena inteira não fique só regada a testosterona. Mas a única mulher permitida nessas cenas está nua, imagina se eles vão de fato colocar uma mulher como parte importante do diálogo. Engana-se quem acha que essas mulheres estão reservadas às cenas em prostíbulos, Game of Thrones consegue colocar mulheres nuas em qualquer situação, inclusive numa conversa entre três generais sobre a eminente guerra.

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O problema de utilizar mulheres nuas ou seminuas como objeto de cena é que, bom, mulheres não são objetos. Nesses casos, a transformação da mulher em objeto é quase real, já que a elas é dado apenas o objetivo de “enfeitar” a cena, é o ápice da desumanização feminina. Muitas vezes, essa desumanização não se dá apenas através da nudez, mas também é associada a algum tipo de violência. Além de desumanizar a representação feminina, transformar mulheres em objetos de cena ajuda a normalizar o conceito de que a nudez feminina existe apenas para o olhar masculino e que ela pode, e deve, ser utilizada apenas como fonte atrativa aos homens. Dá aos homens o domínio sobre o nu feminino. É uma representação pobre de significado e de qualidade e rica em machismo e preguiça.

Transformar ou manter uma personagem feminina como objeto de cena é mais fácil do que criar uma personagem feminina que exista, que tenha camadas de personalidade e que esteja inserida na narrativa de maneira ativa. Game of Thrones criou uma personagem feminina, que era prostituta e não existia nos livros, apenas para matá-la fora de cena e, depois, apresentar o seu corpo nu e mutilado por Joffrey. Num caso assim, em que se a personagem fosse retirada da série como um todo, ela não faria falta, não causaria a menor diferença nos acontecimentos e para o resto dos personagens, fica muito evidente que ela estava lá apenas para ser um objeto de cena a ser descartado quando necessário (e de maneira brutal).

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Colocar mulheres como objeto de cena é uma escolha estética do diretor/ilustrador. São eles que decidem como enquadrar os personagens, são eles os responsáveis por determinar qual é o olhar que vai determinar a representação daquela personagem, quantas mulheres vão estar em quadro e como essas mulheres vão estar representadas dentro do quadro. A escolha por dar destaque ao peito, a bunda ou à virilha da personagem, assim como a posição ginecológica na qual a personagem vai ser apresentada, é de responsabilidade deles. Toda vez que eu vejo esse tipo de situação, em que uma personagem feminina é hiper-sexualizada através das lentes de um diretor/ilustrador homem, com um olhar machista e agressivamente sexualizado, eu não consigo não questionar o seu trabalho como contador de histórias. A imagem, seja de um filme, série ou de um quadrinho, deveria caminhar junto com a narrativa, deveria somar à história, não existir apenas para agradar um público que parece ser percebido apenas como masculino e punheteiro.

Outros textos sobre o assunto:

Disney manda bem com a nova fantasia de Star Wars!

Nos últimos dias, a Disney anunciou em sua loja a nova fantasia da linha Star Wars: a roupa da Jyn Erso, personagem principal do filme Rogue One. Dessa vez a Disney acertou.

Já faz algum tempo que as pessoas discutem os problemas dos brinquedos “para meninas” nas lojas, isso também inclui a parte de fantasias. Normalmente as opções que existem para as meninas, principalmente nos produtos da Disney, acabam se resumindo ao estereótipo da princesa, enquanto os meninos têm uma variedade maior. Não tem nenhum problema em fantasias de princesas para crianças, o problema é quando essa é a única opção.

Nesse caso, a fantasia da Jyn Erso não tem nada de princesa. Além disso, o marketing da Disney para essa fantasia não está sendo direcionado apenas para meninas. Ainda há muita resistência com a ideia de meninos usando “coisas de meninas”, mas isso é um passo legal que a Disney deu.

Star Wars: Rogue One é um filme que já levantou polêmica antes de ser lançado. Ninguém ficou surpreso quando alguns fãs da saga começaram a reclamar que agora “só tinha mulher em Star Wars”, sendo que esse é o segundo filme (de oito) com uma protagonista mulher. Jyn Erso já foi chamada de Mary Sue e “personagem fraca” sem nem ter aparecido nas telas do cinema, parecido com o que aconteceu com a Rey antes do episódio VII ser lançado.

É importante que essas barreiras de “coisa de menina e coisa de menino” sejam quebradas em todos os tipos de brinquedo, mas acredito ser ainda mais legal isso vindo de uma franquia que infelizmente ainda tem muito machismo. Star Wars foi encarado por muitos fãs machistas como “coisa de menino” por muito tempo, então é bom que as meninas dessa geração tenham personagens em que possam se espelhar e usar as fantasias.

Esperamos que outras empresas percebam que meninas não querem ser só princesas, assim como também entendam que não há nada de errado em divulgar uma fantasia de uma personagem mulher para qualquer gênero, afinal de contas brinquedo não tem gênero e não devia ser definido como se tivesse, né?

O que aconteceu na E3 2016

Do dia 12 até 16 de junho os gamers do mundo todo ficaram acompanhando as notícias da E3 2016, que aconteceu em Los Angeles. Como sempre, rolaram muitos anúncios, novidades, continuações de franquias conhecidas e entrevistas. Então vou fazer um resumão do que as empresas falaram esse ano.

  • EA

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Como esperado, a EA acabou deixando alguns títulos mais de lado para focar em eSports. Essa área de games tem rendido bastante e tem uma base de fãs muito grande, então não é de se surpreender que eles acabem se focando mais nesse tipo de jogo. Por outro lado, é um pouco chato para os fãs que também querem informações sobre outros títulos da EA.

Titanfall 2 não teve muito espaço, mas trouxe algumas novidades. Vimos um pouco da gameplay no multiplayer e agora também teremos uma opção de campanha offline, de acordo com a EA esse modo dará ao jogador uma oportunidade de entrar mais no universo do jogo. Com mais customização e seis titãs novos, o jogo será lançado no fim do ano.

Mass Effect Andromeda era o jogo que eu mais queria ver e infelizmente não vimos muito. Fiz alguns vídeos falando sobre isso, mas basicamente descobrimos que nosso novo protagonista viajará para a galáxia de Andromeda para encontrar uma nova casa para a raça humana. A Bioware diz que quer colocar muita coisa nova e mais liberdade do que qualquer outro jogo deles já teve. Para mais informações, precisamos esperar o fim do ano.

FIFA 2017 teve bastante destaque. Como sempre, a cada anos os gráficos estão melhores e um dos objetivos da EA é fazer com que o jogador se sinta como se estivesse em um jogo de futebol. Talvez a maior novidade tenha sido o fato de que agora teremos o modo história com o jogador Alex Hunter. Além de partidas, nesse modo poderemos interagir com outros jogadores, técnicos e outras cenas além do futebol em si.

A EA também apresentou o projeto EA Originals, uma iniciativa que busca apoiar produtoras pequenas que estejam criando jogos criativos e talvez não conseguissem tanta visibilidade. Isso veio da repercussão de Unravel ano passado e agora pudemos ver o jogo Fe, da produtora sueca Zoink Games. É um jogo de um filhote que se conecta com a natureza através de música e as criaturas malignas trazem o silêncio. Gosto muito mesmo de ver esse tipo de jogo tendo espaço em conferências desse tamanho.

Também vimos um pouco de Star Wars, sendo o único jogo da EA apresentado por uma mulher. Foi anunciado que os jogos que já temos da franquia ganhará conteúdo novo ao longo do ano. De acordo com a EA, eles ouviram o que os fãs pediram e vão incluir conteúdo dos novos filmes em Star Wars Battlefront no ano que vem. Sem dar muitos detalhes, também descobrimos que a partir de 2018 teremos mais jogos novos da franquia.

Um dos maiores títulos anunciados pela EA foi Battlefield 1. O jogo é ambientado durante a 1ª Guerra Mundial e de acordo com a EA as batalhas sempre serão diferentes uma das outras, seja pelo ambiente ao redor ou pela grande variedade de armas e veículos de guerra. Muitas pessoas tiveram a oportunidade de jogar durante a E3 e a grande maioria das impressões foram positivas, além disso a EA vai disponibilizar a versão beta nos próximos meses. O jogo será lançado em outubro desse ano e também foi apresentado durante a conferência da Microsoft.

Além desses jogos, a EA também falou de iniciativas como a Play to Give, que permitirá que os jogadores contribuam com instituições de caridade enquanto alcançam conquistas em jogos, e também falou sobre novos planos para incentivar e aumentar as competições de games, tanto de eSports quanto de outros jogos como Battlefield.

Continue lendo “O que aconteceu na E3 2016”

Star Wars revela imagem oficial de Ciena Ree, nova personagem cânone.

Star Wars voltou com tudo no final do ano passado. Apesar dos livros sobre o universo nunca terem parado, a série de livros que agora é oficial se expande desde os livros mais tradicionais, até YA (Jovens Adultos).

Em Estrelas Perdidas, lançado aqui no Brasil pela editora Seguinte, nós somos apresentados à um casal que se apaixona durante os eventos dos primeiros filmes mas se vêem ficando um de cada lado da guerra. A garota é Ciena Ree, jovem combatente da Academia Imperial.

Durante o evento Star Wars Show a primeira imagem oficial da personagem foi liberada – e olha que linda. <3

 

Cirena também vai estar nos jogo Star Wars Armada, da empresa Fantasy Flight Games, que liberou a imagem.

Eu ainda não li o livro, mas fiquei muito feliz com o fato da personagem ser negra. Tem mais um monte de informações legais sobre a personagem que eu não quero falar porque pode qualificar como spoiler! Agora fica a vontade de ver também na tela do cinema uma mulher negra tão legal quanto Ciena parece ser!